MUSSALIN; BENTES. Introdução à Linguística - Vol 2

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domínios e fronteiras

fernanda mussalim anna christina bentes organizadoras

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introdução à lingüística domínios e fronteiras

EDITORA AFILIADA

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Introdução à linguística : domínios e fronteiras, v. 2 / Fernanda Mussalim, Anna Christina Bentes (orgs.) - 4. ed. - São Paulo : Cortez, 2004

Vários autores. ISBN 85-249-0773-8 1. Linguística I. Mussalim, Fernanda. II. Bentes, Anna Christina.

01-0664_______________________________________________ CDD-410

índices para catálogo sistemático: 1. Linguística 410

fernanda mussalim anna christina bentes

organizadoras Ângela Paiva Dionísio • Ari Pedro Balieiro Jr. • Edwiges Morato Ester Mirian Scarpa • Fernanda Mussalim • Joana Plaza Pinto Marina Célia Mendonça • Roberta Pires de Oliveira

introdução à lingüística domínios e fronteiras Volume 2

4a edição

INTRODUÇÃO À L1NGÜÍSTICA: domínios c fronteiras, vol. 2 Fernanda Mussalim e Anna Christina Bcntes (Orgs.) Capa: Studio Graal Preparação de originais: Elisabeth Santo Revisão: Dirceu Scali Jr. Composição: Dany Editora Ltda. Coordenação editorial: Danilo A. Q. Morales

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Data

Doação _______ _ _ C o m p r a ______

Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou duplicada sem autorização expressa dos autores e do editor. © 2000 by Organizadoras Direitos para esta edição CORTEZ EDITORA Rua Bartira, 317 - Perdizes 05009-000 - São Paulo - SP Tel.: (11) 3864-0111 Fax: (11)3864-4290 E-mail: [email protected] www.cortezeditora.com.br

Impresso no Brasil - setembro de 2004

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O homem sentiu sempre — e os poetas freqüentemente cantaram — o poder fundador da lingua­ gem, que instaura uma sociedade imaginária, ani­ ma as coisas inertes, faz ver o que ainda não exis­ te, traz de volta o que desapareceu. \

Étnile Benveniste

SUMÁRIO Apresentação......................................................................................................... Sírio Possenti

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Introdução.............................................................................................................. Fernanda Mussalim Anna Christina Bentes

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1. SEMÂNTICA.................................................................................................. Roberta Pires de Oliveira

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2. PRAGMÁTICA............................................................................................... Joana Plaza Pinto

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3. ANÁLISE DA CONVERSAÇÃO................................................................... Angela Paiva Dionísio

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4. ANÁLISE DO DISCURSO............................................................................. 101 Fernanda Mussalim

5. NEUROLINGÜÍSTICA................................................................................... 143 Edwiges Morato 6. PSICOLINGÜÍSTICA..................................................................................... 171 Ari Pedro Balieiro Jr. 7. AQUISIÇÃO DA LINGUAGEM................................................................... 203 Ester Mirian Scarpa 8. LÍNGUA E ENSINO: POLÍTICAS DE FECHAMENTO........................... 233 Marina Célia Mendonça SOBRE OS AUTORES

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APRESENTAÇÃO

Prefaciar um livro como este que o leitor tem em mãos não é uma tarefa que se cumpra facilmente. Por duas razões, principalmente. Em primeiro lugar, não é obra de autor, ou seja, sendo uma coletânea, não se trata de um livro que possa ser atribuído a uma pessoa, caso em que os prefácios dedicam parte de seu espaço para celebrar o autor, não necessariamente para comentar o livro. Em segundo, porque se trata de uma obra contendo textos sobre Lingüística, desti­ nada de certa forma à sua divulgação, ou, dito de outra maneira, destinada a propiciar uma introdução não-trivial a um campo de saber já veterano, mas para muitos completamente desconhecido. O livro trata de temas bastante conhecidos nos meios mais ou menos especializados, mas nada — eu disse “nada”, não disse “pouco” — conhecidos nos meios que não se dedicam especificamente a essas questões, por mais que elas lhes sejam afetas. Este podería bem ser o caso dos críticos literários, antro­ pólogos, sociólogos, cientistas políticos, psicólogos, e mesmo psicanalistas. Os estudantes que chegam à universidade repetem e confirmam a situa­ ção: eles não têm a menor familiaridade com as questões mais banais às quais se dedica a Lingüística, a despeito de longa experiência escolar com manifesta­ ções variadas e relevantes de linguagem, e também de alguma experiência, freqüentemente dolorosa e quase sempre inútil, com gramáticas (sempre e só as normativas). Este é um fato curioso, sobre o qual se deveria m editar. Todos conhe­ cem, mesmo os que se devotam apenas ao cam po das hum anidades, e m es­ mo às letras, algum a coisa sobre relatividade, big bang e universo em expansão, DNA e clonagem . No m ínim o. Às vezes, equivocadam ente, é ver­ dade, a ponto de confundirem a relatividade de Einstein com o relativism o

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de suas convicções... De qualquer forma, nos campos da Física e da Biolo­ gia, faz tempo que a escola e a imprensa diária ultrapassaram Newton e Mendel. Mas nunca — se houver pelo menos um caso, me avisem — ultra­ passaram, nem escola, nem imprensa, nem mesmo o ensaísmo dos finais de semana, muito menos as colunas que agora assolam a mídia, os limiares das gramáticas normativas (a única exceção são as menções cansativas a um texto de Jakobson sobre as funções da linguagem) quando a questão são as línguas. Ouvir o comentário de um intelectual ou de um jogador de futebol sobre a questão é exatamente a mesma coisa. Ora, tais gramáticas estão para a Lingüística mais ou menos como Galileu está para a Física Moderna, isso se considerarmos de maneira otimista e genero­ sa apenas os tópicos nos quais discutem a organização interna da língua e sua eventual relação com o mundo, que é o caso da herança filosófica das gramáti­ cas. Quanto ao mais, a atitude é meramente normativa, pré-baconiana nos me­ lhores casos, e manual de etiqueta — ruim — nos piores. O melhor testemunho desse atraso é o sucesso de pseudoprofessores nos meios de comunicação, que nada mais fazem do que repetir materiais do nível das apostilas dos cursinhos, com listas de “problemas” de uso do português falado julgado à luz da língua escrita. Faça o leitor a suposição de que os programas e as colunas sobre músi­ ca, teatro e economia sejam do mesmo calibre, e o atraso saltará aos olhos ainda mais claramente. Em resumo: Lingüística é uma coisa de que ninguém ouviu falar. Daí a relevância de um livro como este. Mas há mais razões. Outra observação sobre um certo atraso, outra justificativa para a publica­ ção deste livro: quem já ouviu falar de Lingüística (isso se vê na imprensa e às vezes em departamentos avançados) supõe que ela se resume à arbitrariedade do signo, às relações paradigmáticas e sintagmáticas (quando a coisa é sofisti­ cada, menciona-se outra dupla saussuriana, sincronia e diacronia). Freqüentemente, as introduções à Lingüística — disciplina obrigatória nos cursos de Le­ tras — não ultrapassam essa leitura mais ou menos festiva de Saussure, feita em algum manual, ou em apostila, que ninguém é de ferro. Assim, este livro se justifica plenamente, e por uma só razão, embora ela tenha sentidos diferentes em diversos domínios sociais. O que justifica este livro é sua capacidade de produzir uma certa ruptura. No caso dos intelectuais vizinhos, o efeito podería ser o da atualização mínima. Seria importante, por isso mesmo, no entanto, que não buscassem no livro ferramentas para seu traba­ lho. Para isso, as introduções aqui apresentadas não serviríam, pois se trata de introduções. Mas ninguém espera que façam as categorias da Lingüística aqui oferecidas em embrião render em seus trabalhos. Poderiam instruir-se, apenas,

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mesmo que fosse para conversas em recepções. Já está na hora de não se ouvirem mais imprecações grosseiras sobre erros de português, avaliações de baixíssimo nível sobre a pronúncia desta ou daquela região, preconceitos ridículos — se não fossem socialmente excludentes — a respeito da linguagem corrente, quer se trate de fala popular, quer se trate de línguas de menor prestígio, especial­ mente quando isso se deve a peculiaridades estruturais (que não se diga mais, por exemplo, que o chinês não tem sintaxe, só porque sua frase não se organiza como a do francês). Até porque essas avaliações, feitas supostamente de algum patamar elevado, depõem muito mais sobre a ignorância de quem as faz do que sobre a suposta deficiência dos produtores dos fatos lingüísticos comentados. Um segundo nível de ruptura em que este livro pode atuar é em relação ao estudante de Letras. É o que mais importa. De fato, nada é mais necessário do que eliminar o suposto saber do aluno de colegial em relação aos fatos lingüísticos. Em primeiro lugar, a ruptura precisa realizar-se até mesmo em re✓ lação ao que sejam fatos lingüísticos. E mais ou menos sabido que os fatos não se oferecem graciosamente ao estudioso, que cada teoria de certa forma decide sobre eles — quais e como são, quais os mais e os menos relevantes etc. Nesse domínio, duas questões são essenciais: que o estudante se tome capaz de ver como fatos os casos de variação; em segundo lugar, que perceba que há pesquisa possível em língua — ou melhor, que fazer pesquisa a propósi­ to de língua não equivale a consultar gramáticas e dicionários para verificar o que neles consta e o que não consta neles. Essas são apenas as primeiras rupturas. Talvez as mais necessárias. Mas, além disso, cabe verificar minimamente o quanto são ricos e estão sendo cada vez mais enriquecidos novos campos. Por exemplo: pode-se dizer com certeza que um texto não é uma soma de frases, que propriedades como coesão e coe­ rência têm dimensões bastante objetivas, por um lado, mas relacionam-se com domínios que se poderiam dizer interdisciplinares, por outro. Assim, mesmo sem poder-se dizer que se atinge o patamar da “objetividade” nesse domínio, pode-se dizer com certeza que a categoria decisiva já não é o (bom ou mau) gosto do leitor. O que se pode dizer do texto vale para outros tantos campos relativamen recentes: as novidades relacionadas a questões postas pelo estudo do discurso, pela Psicolingüística, pela Neurolingüística, pelos novos problemas (e novas propostas de saídas) que a Lingüística propõe ao professor e educador são sufi­ cientemente desafiadoras. O livro deixará claro a seu leitor o quanto a linguagem é um campo de experiências riquíssimas, quer se trate de abordar os aspectos relativos ao que

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se podería chamar de seus problemas estruturais (Fonologia, Morfologia, Sinta­ xe), quer se trate de tematizar suas relações com outros campos de saber. Ou com o mundo, que só conhecemos, de fato, ou que tentamos conhecer, por meio da linguagem — de alguma linguagem. Sírio Possenti

INTRODUÇÃO A Lingüística, nos dias de hoje, conta com uma vasta bibliografia de estudos no campo, desde textos mais introdutórios até textos de grande especificidade e aprofundamento. Os textos introdutórios já existentes são, sem dúvida alguma, bastante esclarecedores. O que justificaria, então, a orga­ nização de uma obra como esta, que se propõe a introduzir o leitor nos estudos da Lingüística? Nosso propósito na organização desta obra é o de preparar o terreno concei­ tuai para contatos posteriores com materiais que analisem o fenômeno da lin­ guagem com um maior grau de detalhe e aprofundamento, além de tomar aces­ sível, para leitores iniciantes ou não-especializados em Lingüística, as relevan­ tes abordagens sobre o fenômeno da linguagem. No intuito de realizarmos tal propósito, concebemos os dois volumes de Introdução à Lingüística: domínios e fronteiras, buscando aliar os seguintes aspectos: a) uma apresentação geral e gradual das principais áreas da Lingüística no Brasil; b) uma amostra de como as diversas áreas abordam os fatos de linguagem; c) uma linguagem acessível. Com base nesses três aspectos, procuramos organizar os capítulos de for­ ma a conferir uma certa unidade à obra. Assim, de um modo geral, os capítulos estão constituídos da seguinte maneira: (i) histórico da área; (ii) bases epistemológicas da área; (iii) diferentes vertentes da área; (iv) análise de dados. No entanto, em função da especificidade de cada área e do próprio estilo e visão de cada autor com relação ao campo apresentado, os capítulos conferem um peso diferenciado aos aspectos acima citados.

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Com relação à ordem dos capítulos, não optamos pela apresentação das disciplinas seguindo a perspectiva clássica, que perscruta o fenômeno da lin­ guagem partindo dos níveis mínimos de análise em direção aos níveis superio­ res. Optamos por oferecer ao leitor a possibilidade de inicialmente enxergar o fenômeno lingüístico como um fenômeno sociocultural, fundamentalmente he­ terogêneo e em constante processo de mudança. Entendemos que, assim, pode­ mos lhe promover uma entrada mais significativa no terreno das necessárias e esclarecedoras orientações teóricas formais sobre a linguagem humana. Iniciamos o volume 1 desta obra com o capítulo de Sociolingüística (par­ tes 1 e 2) porque essa área, na tentativa de compreTender a questão da relação entre linguagem e sociedade, postula o princípio da diversidade lingüística. Além, disso, a Sociolígüística increve-se na corrente das orientações teóricas cgntextuais sobre o fenômeno lingüístico, orientações teóricas estas que consi­ deram as comunidades lingüísticas não somente sob o ângulo das regras de linguagem, mas também sob o ângulo das relações de poder que se manifestam na e pela linguagem. O capítulo de Lingüística Histórica é apresentado na seqüência, enfocando os processos de mudança das línguas no tempo. Essa seqüência se justifica por­ que mudança e variação lingüística encontram-se estreitamente relacionadas: se há mudança lingüística é porque, em algum momento anterior, ocorreu o fenômeno da variação. Sendo assim, esperamos que estes primeiros textos pos­ sam esclarecer para o leitor dois dos mais importantes pressupostos da Lingüís­ tica moderna: que todas as línguas variam e que todas as línguas mudam. Em seguida, começamos a explorar as áreas que fazem parte daquilo que é tradicionalmente concebido como a descrição gramatical das línguas naturais. Os capítulos de Fonética, Fonologia, Morfologia e Sintaxe possuem a tarefa de introduzir as perspectivas teóricas e metodológicas que constituíram a Lingüís­ tica como uma ciência autônoma e com um objeto de estudo próprio, ao longo do século XX. Em contato com esses capítulos, o leitor terá a oportunidade de escrutinar o fenômeno lingüístico em seus diferentes níveis e, também, de ter acesso a um olhar predominantemente formalista em relação às línguas natu­ rais. Em outras palavras, nesses capítulos, o leitor estará entrando em contato com abordagens que propõem um número restrito de princípios firmes e segu­ ros que são utilizados na construção positiva do conhecimento das línguas e da faculdade de linguagem. Finalizamos o primeiro volume com o capítulo de Lingüística Textual. Essa área, que tem como principal interesse o estudo dos processos de produ­ ção. recepção e interpretação dos textos, reintegra o sujeito e a situação de co-

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municação em seu escopo teórico. Esse movimento faz parte de um esforço mais amplo de construção de uma Lingüística para além dos limites da frase. Iniciamos o volume 2 apresentando a área da Semântica, que tem como objeto de estudo a questão do significado e/ou dos processos de significação. Esse foi um tema sempre presente em outros lugares de construção do conheci­ mento, tais como a Lógica, a Retórica, a Filosofia e, mais recentemente, a Semiótica, a História, a Antropologia e as Ciências Cognitivas, o que nos sina­ liza para o fato de que este objeto “transborda as próprias fronteiras da Lingüís­ tica” e nos coloca na posição de ter de enfrentar as discussões sobre as relações entre linguagem e mundo, linguagem e conhecimento. Os capítulos de Pragmática, Análise da Conversação e Análise do Dis­ curso, que são apresentados na seqüência, podem ser definidos, de maneira ge­ ral, como aqueles que, a partir de pressupostos teóricos diferenciados, estabele­ cem relações com a exterioridade da linguagem, problematizando a separação entre a materialidade da língua e seus contextos de produção. Para tanto, essas áreas também mobilizam saberes advindos de outros campos, tais como a Filo­ sofia da Linguagem, a Antropologia, a História, a Sociologia, a Psicanálise, e as Ciências Cognitivas, proporcionando ao leitor diferentes olhares em relação às formas de construção dos sentidos, de nossa subjetividade/alteridade e de nossa historicidade. %

Com o capítulo de Neurolingüística, continuamos o nosso percurso pelas áreas que, pela natureza das indagações que fazem, são constituídas fundamen­ talmente por teorias lingüísticas e por teorias advindas de outros campos do saber. Em outras palavras, “as fronteiras que delimitam os objetos de estudo destas áreas são instáveis, movediças”. Os capítulos de Neurolingüística, Psicolingüística e Aquisição da Linguagem se distinguem dos outros e se apro­ ximam entre si por necessitarem da articulação de saberes produzidos, princi­ palmente, na Lingüística, na Psicologia e na área de Neurociências, para que sejam respondidas as questões elaboradas em seus respectivos campos sobre as relações entre linguagem e cognição, linguagem e cérebro, enfim, sobre os dife­ rentes modos pelos quais os sujeitos adquirem, organizam e reelaboram o co­ nhecimento. O último capítulo deste volume, Língua e ensino: políticas de fechamento, tematiza as contribuições que alguns importantes pressupostos teóricos construí­ dos pela ciência da linguagem ao longo do século XX podem dar para o ensino. O capítulo apresenta as diferentes concepções de gramática que norteiam as práticas pedagógicas, além de problematizar as atuais práticas de leitura e de produção de textos na escola, proporcionando ao leitor um olhar crítico em

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relação aos processos de “homogeneização e silenciamento dos sujeitos”, tão em curso nas instituições escolares. Essa explicação sobre a disposição dos capítulos na obra não tem o objeti­ vo de impor uma leitura linear. Dependendo dos seus interesses e de suas ques­ tões, o leitor poderá elaborar a sua própria ordem de leitura. Introdução à Lingüística: domínios e fronteiras é fruto de um trabalho coletivo, resultante de uma verdadeira cooperação entre nós, organizadoras, entre as organizadoras e os autores, entre os autores e seus diversos interlocutores, entre nós e as pessoas que acompanharam mais de perto o projeto ao longo desses três anos, e entre nós e os editores. Esta experiência de constante diálogo nos foi extremamente valiosa e prazerosa. Esperamos que nossos leitores tam­ bém se beneficiem da estimulante “atmosfera” de reflexão sobre a linguagem propiciada pelo trabalho de cada um dos autores desta obra. Aos autores e autoras, agradecemos o entusiasmo com que se engajaram neste projeto intelectual, a tolerância às longas conversas teóricas por telefone e às propostas de intervenção em seus estilos pessoais de escrita e pelos textos em si, que se constituem em brilhantes contribuições para o entendimento da ciên­ cia da linguagem e de seus tão diversos e fascinantes objetos. Agradecemos a Sírio Possenti pela gentileza em prefaciar esta obra, cola­ borando, com seu conhecimento sobre a linguagem e sua experiência como pes­ quisador e professor, para que este projeto alcançasse o bom nível que alcan­ çou. Agradecemos também à Ingedore Koch que, com sua reconhecida autori­ dade e competência, nos presenteou com um texto de apresentação para a capa desta obra. Gostaríamos de deixar público o nosso reconhecimento aos professores Angel Mori, Aryon Rodrigues, Edwiges Morato, Erotilde Pezatti, Ester Scarpa, Helena Brandão, Ingedore Koch, Jairo M. Nunes, João Wanderley Geraldi, Kanavillil Rajagopalan, Luiz Antônio T. Marcuschi, Sírio Possenti e à pesqui­ sadora Helena Britto, por suas leituras atenciosas, que contribuíram de forma decisiva para a concepção e organização de alguns capítulos desta obra. Temos também o prazer de reconhecer que, nestes tempos difíceis para a universidade brasileira, ainda existem espaços institucionais que proporcionam as condições para que um projeto dessa natureza seja passível de ser executado. Assim, agradecemos ao Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas, por ser umia espécie de confortável “lar” acadêmico, onde tivemos a oportunidade de aprender que uma formação sólida pode e deve estar aliada a compromissos políticos mais amplos.

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A evolução deste livro tem um débito especial para com Edwiges Maria Morato, nossa companheira nesta jornada intelectual, por ter participado das inúmeras discussões sobre a organização dos capítulos, pelas leituras perspica­ zes e construtivas de alguns deles e por nos ter sempre incentivado, com sua amizade sólida, com seu brilhantismo e com seu compromisso com níveis ele­ vados de instigação, a acreditar que valia a pena. Gostaríamos ainda de agrade­ cer a Ivana Lima Regis, por sua amizade e por ter sido uma interlocutora espe­ cial em todos os estágios deste trabalho, e a Marcelo Lemos Silveira, pelo apoio e companheirismo. Esperamos que este livro possibilite ao leitor vislumbrar a ciência da lin­ guagem. Evidentemente, não tivemos a pretensão de esgotar as discussões que são feitas atualmente nas diferentes áreas apresentadas. Ao contrário, Introdu­ ção à Lingüística: domínios e fronteiras propõe-se a ser uma porta de entrada para o campo da Lingüística, um campo vasto, heterogêneo, multidisciplinar, que consolida seus domínios e constrói seus objetos de estudo a partir de influ­ ências intradisciplinares e de uma complexa, mas muito produtiva, rede de rela­ ções com outros lugares de construção do conhecimento. Fernanda Mussalim Anna Christina Bentes Organizadoras

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SEM ÂNTICA* Roberta Pires de Oliveira

1. INTRODUÇÃO

Definir o objeto de estudos da Semântica não é uma tarefa simples. Po­ demos afirmar que a Semântica busca descrever o “significado” das palavras e das sentenças, mas devemos, então, definir esse conceito. O problema é que não há consenso entre os semanticistas sobre o que se entende por “significa­ do”. Uma das dificuldades de definirmos esse termo se deve ao fato de que ele é usado para descrever situações de fala muito diferentes. Vejamos: em “Qual é o significado de m esa T \ indagamos sobre o significado de um termo, m esa; em “Qual o significado de sua atitude?”, perguntamos sobre a intenção nãolingüística de nosso interlocutor. Falamos ainda sobre o significado de um livro, o significado da vida, o significado do verde no semáforo, o significado da fumaça (“O que significa aquela fumaça?”) e sobre muitos outros signifi­ cados. Se tentamos abarcar todas essas situações e outras em que o termo aparece, minamos o próprio projeto de se construir uma teoria científica sobre o significado, porque já não saberemos mais o significado de “significado” 1.*1

* Agradeço aos vários alunos que leram versões deste capítulo, em especial a Fabiano Fernandes e Maria Salete M. de Lima. 1. Sobre o significado de “significado”, o texto clássico é de Osgden & Richards (1976).

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Daí a afirmação do filósofo Putnam: “o que atrapalha a Semântica é ela de­ pender de um conceito pré-teórico de ‘significado’”2. A esta dificuldade se soma ainda outra: a problemática do significado trans­ borda as próprias fronteiras da Lingüística, porque ela está fortemente ligada à questão do conhecimento. Responder a como é que atribuímos significado a uma cadeia de ruídos implica adotar um ponto de vista sobre a aquisição de conhecimento. E o significado uma relação causai entre as palavras e as coisas? Será ele uma entidade mental? Ele pertence ao indivíduo ou à comunidade, ao domínio público? Essas perguntas, caras ao semanticista, levam inevitavelmen­ te a enfrentar a questão espinhosa da relação entre linguagem e mundo e conse­ quentemente a buscar uma resposta sobre como é possível (se é que é possível) o conhecimento. Se não há acordo sobre as questões anteriormente levantadas, então há várias formas de se descrever o significado. Há várias semânticas. Cada uma elege a sua noção particular de significado, responde diferentemente à questão da relação linguagem e mundo e constitui, até certo ponto, um modelo fechado, incomunicável com outros. O estruturalismo de vertente saussureana, por exem­ plo, definia o significado como uma unidade de diferença, isto é, o significado se dá numa estrutura de diferenças com relação a outros significados. Assim, o significado de uma palavra se define por não ser um outro significado: mesa se define por não ser cadeira, sofá, abajur. Nesta perspectiva, o significado não tem nada a ver com o mundo, mesa não é o nome de um objeto no mundo, é a estrutura de diferença com cadeira, sofá, abajur. Essa postura pode implicar uma posição relativista, já que cada língua, cada sistema de diferenças, institui sua própria racionalidade3. Já para a Semântica Formal o significado é um ter­ mo complexo que se compõe de duas partes, o sentido e a referência. O sentido de um nome, a mesa da professora, por exemplo, é o modo de apresentação do objeto/referência mesa da professora. Assim, no modelo lógico, a relação da linguagem com o mundo é fundamental. Para a Semântica da Enunciação, herdeira do estruturalismo, o significado é o resultado do jogo argumentativo criado na linguagem e por ela. Diferente­ mente do estruturalismo, mesa, na Semântica da Enunciação, significa as diver­ sas possibilidades de encadeamentos argumentativos das quais a palavra pode participar. Seu significado é o somatório das suas contribuições em inúmeros

2. Putnam, H. The meaning of meaning. In: Language, mind and knowledge. Cambridge, Cambridge University Press, 1975. 3. Ver Ilari (1995).

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fragmentos de discurso: “Comprei uma mesa”, “Senta ali na mesa...”. Para a Semântica Cognitiva, mesa é a superfície lingüística de um conceito, o conceito mesa, que é adquirido por meio de nossas manipulações sensório-motoras com o mundo. E tocando coisas que são mesas que formamos o conceito prélingüístico mesa que aparece nas práticas lingüísticas como mesa. Esse concei­ to tem estrutura prototípica, porque se define pelo membro mais emblemático: um objeto de quatro pernas. A pluralidade de semânticas será ilustrada pela apresentação das linhas mestras de três formas de fazer semântica: a Semântica Formal, a Semântica da Enunciação e a Semântica Cognitiva. A escolha desses modelos procura refletir o atual estado-da-arte em Semântica no Brasil.4 Buscaremos mostrar como um fenômeno lingüístico, a pressuposição recebe um tratamento diferenciado em cada abordagem. Na sentença “O homem de chapéu saiu” há, segundo a Semân­ tica Formal, uma pressuposição de existência: existe um e apenas um indivíduo tal que ele é homem e está de chapéu e saiu. A Semântica da Enunciação vê nesta mesma sentença a presença da polifonia, a voz de mais de um enunciador: uma fala que diz que há um indivíduo, outra, que ele está de chapéu e outra, que ele saiu. Finalmente, a Semântica Cognitiva descreve a sentença a partir da hipótese de que na sua interpretação formamos espaços mentais: o espaço men­ tal em que há um homem. Esperamos que, ao final deste capítulo, o leitor não apenas seja capaz de diferenciar esses modelos de Semântica, mas consiga manipulá-los minimamente.

2. A SEMÂNTICA FORMAL

Iniciamos pela Semântica Formal porque historicamente ela antecede as demais, o que a toma o referencial teórico e o grande inimigo a ser destruído. A Semântica Formal descreve o problema do significado a partir do postulado de que as sentenças se estruturam logicamente5. Para ilustrar relações lógicas reto­ memos a análise de Aristóteles, um pioneiro neste tipo de esiudo. Ao analisar o raciocínio dedutivo presente nas sentenças a seguir, Aristóteles mostra que há relações de significado que se dão independentemente do conteúdo das expres­ sões. Vejamos: 4. O termo “modelo” é utilizado aqui de modo quase informal, como se ele não fosse em si mesmo problemático. Sobre a semântica no Brasil, ver Pires de Oliveira (1999). 5. A bibliografia em Semântica Formal é extensa. Manuais introdutórios são: Lyons (1977), Kempson (1980), Ilari & Geraldi (1985), Saeed (1997). Há muitos estudos sobre fenômenos do português brasileiro que adotam a perspectiva formal. Ver, entre outros, Ilari (1998), Negrão (1992), Borges (1991).

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(1)

Todo homem é mortal. João é homem. Logo, João é mortal.

Se garantirmos que as duas primeiras sentenças, chamadas premissas, são verdadeiras, concluímos a terceira. Estamos diante de uma relação entre con­ juntos: o conjunto dos homens está contido no conjunto dos mortais; se João é um componente do conjunto dos homens, então ele é necessariamente um com­ ponente do conjunto dos mortais. O interessante é que este raciocínio se garante apenas pelas relações que se estabelecem entre os termos, independentemente do que homem ou mortal significam. Se alterarmos as expressões e mantiver­ mos as relações, o raciocínio será sempre válido. Experimente verificar se o raciocínio seguinte é válido e justificar sua validade: Todo cachorro tem 4 pa­ tas; Bela é um cachorro; logo, Bela tem 4 patas. Essas são relações lógicas, ou formais, porque podemos representá-las por letras vazias de conteúdo, mas que descrevem as relações de sentido. Podemos, pois, dizer que “se A é um conjunto qualquer que está contido em um outro conjunto qualquer, o conjunto B, e se c é um elemento do conjunto A, então, c é um elemento do conjunto B”. A Semântica, em geral, deve muito à definição de significado estabelecida pelo lógico alemão Gottlob Frege (1848-1925). Frege nos legou pelo menos duas grandes contribuições: a distinção entre sentido e referência e o conceito de quantificador. Esse autor afirma que o estudo científico do significado só é possível se diferenciarmos os seus diversos aspectos para reter apenas aqueles que são objetivos. Ele exclui da Semântica o estudo das representações indivi­ duais que uma dada palavra pode provocar. Ao ouvir o nome próprio estrela da manhã, formo uma idéia, uma representação, que é só minha, uma vez que ela depende de minha experiência subjetiva no mundo. O estudo desse aspecto do significado cabe à Psicologia. A Semântica cabe o estudo dos aspectos objeti­ vos do significado, isto é, aqueles que estão abertos à inspeção pública. Sua objetividade é garantida pela uniformidade de assentimento entre os membros de uma comunidade. Eu e você temos representações distintas de estrela - você talvez a associe a um sentimento nostálgico, eu, à euforia das viagens espaciais -, mas compartilhamos o sentido de estrela, já que sempre concordamos quan­ do alguém diz estrela apontando um certo objeto no céu que reconhecemos como estrela. Nós também concordamos em discordar do uso de estrela para se referir à lua, a menos que estejamos diante de algum tipo de uso indireto da palavra ou de um engano. O sentido de um nome próprio como estrela da ma-

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S E M Â N T IC A

nhã é o que nos permite alcançar, falar sobre, um certo objeto no mundo da razão pública, o planeta Vênus, a sua referência. O sentido é, pois, o que nos permite chegar a uma referência no mundo. Frege (1978) precisa dessa distinção porque sem ela não é possível explicar a diferença entre: (2) (3)

A estrela da manhã é a estrela da manhã. A estrela da manhã é a estrela da tarde.

A sentença (2) é uma tautologia, uma verdade óbvia que independe dos fatos no mundo. Daí seu grau de mforavatividade tender a zero. Já em (3), afir­ mamos uma igualdade, cuja veracidade deve ser verificada no mundo. Se, de fato, aquilo que denominamos estrela da manhã é o mesmo objeto que denomi­ namos estrela da tarde, então, quando aprendemos que a estrela da manhã é a estrela da tarde aprendemos uma verdade sobre o mundo: que podemos nos referir ao planeta Vênus de pelo menos duas maneiras diferentes. A sentença (3) expressa uma verdade sintética, isto é, uma verdade que só pode ser apreen­ dida pela inspeção de fatos no mundo, por isso ela pode nos proporcionar um ganho real de conhecimento. Ela exprime uma descoberta da Astronomia: a estrela da manhã não era, como se pensava desde os gregos, uma estrela dife­ rente da estrela da tarde, mas o mesmo planeta Vênus. Estrela da manhã e estrela da tarde são dois caminhos para se chegar à mesma referência. Só conseguimos explicar a diferença entre as sentenças (2) e (3) se distinguimos sentido de referência: embora ambas as sentenças tenham a mesma re­ ferência, elas expressam pensamentos diferentes. Se o sentido é o caminho que nos permite alcançar a referência, quando descobrimos que dois caminhos le­ vam à mesma referência, aprendemos algo sobre esse objeto, sobre o mundo. Todos nós já experimentamos a sensação de entusiasmo quando de repente des­ cobrimos que 3 + 3 é o mesmo que 10 - 4. Ao tomarmos consciência da igualda­ de, descobrimos dois caminhos, dois sentidos, para alcançarmos a mesma refe­ rência, o número 6. Uma mesma referência pode, pois, ser recuperada por meio de vários sentidos. Considere a cidade de Florianópolis. Podemos nos referir a ela por meio de diferentes sentidos: a cidade de Florianópolis, Florianópolis, a capital de Santa Catarina, a ilha da magia... Você certamente já viveu a expe­ riência de descobrir que Florianópolis é a capital de Santa Catarina, isto é, de falar de um objeto, a cidade de Florianópolis, de modos distintos. Atente para a distinção entre linguagem e mundo: Florianópolis e Florianópolis. Para esclarecer a diferença entre sentido e referência, Frege propõe uma analogia com um telescópio apontado para a lua. A lua é referência: sua existên­

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cia e propriedades independem daquele ou daquela que a observa. Ela pode, no entanto, ser olhada a partir de diferentes perspectivas, e observá-la de um ângu­ lo pode nos ensinar algo novo sobre ela. A imagem da lua formada pelas lentes do telescópio é o que tanto eu quanto você vemos. Essa imagem compartilhada é o sentido. Ao mudarmos o telescópio de posição, vemos uma face diferente da mesma lua, alcançamos o mesmo objeto por meio de outro sentido. Lembremos que a imagem mental que cada um de nós forma da imagem objetiva do telescó­ pio está fora dos interesses da Semântica. O sentido só nos permite conhecer algo se a ele corresponder uma referên­ cia. Em outros termos, o sentido permite alcançarmos um objeto no mundo, mas é o objeto no mundo que nos permite formular um juízo de valor, isto é, que nos permite avaliar se o que dizemos é falso ou é verdadeiro. A verdade não está, pois, na linguagem, mas nos fatos do mundo. A linguagem é apenas um instru­ mento que nos permite alcançar aquilo que há, a verdade ou a falsidade. Por isso, para Frege, mas não para a Semântica Formal contemporânea, sentenças que falam de personagens fictícios carecem de valor de verdade. Uma sentença ficcional, por exemplo “Papai Noel tem a barba branca”, não pode ser cognitiva, porque ela não se refere a um objeto real. *

Intervalo I Se você entendeu bem essa estória de sentido e referência, diga qual a referência de: a capital da França, Paris, Paris é a capital da França. A seguir descreva a cidade do Rio de Janeiro através de diferentes sentidos6.

Para Frege (1978), um nome próprio deve ter sentido e referência. Florianópolis e a capital de Santa Catarina são dois nomes próprios, porque têm sentido e nos permitem falar sobre um objeto no mundo, a cidade de Florianópolis. Os nomes próprios são saturados porque eles expressam um pen­ samento completo e podemos, por meio deles, identificar uma referência. Há, no entanto, expressões que são incompletas, que não nos possibilitam chegar a uma referência, porque não expressam um pensamento completo. Esse é o caso da expressão ser capital de. Como não expressa um pensamento completo, ela não serve para alcançarmos uma referência. Além disso, é fácil notar que a expressão ser capital de é recorrente em inúmeras sentenças: (4) (5)

São Paulo é a capital de São Paulo. São Paulo é a capital de Santa Catarina.

6. Indicações de respostas aparecem no final deste capítulo.

S E M Â N T IC A

(6) (7)

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Florianópolis é a capital de Santa Catarina. Florianópolis é a capital de São Paulo.

As sentenças anteriores são nomes próprios porque elas expressam um pensamento completo e têm uma referência. Em (4) e (6), a referência é a verda­ de, já que de fato São Paulo é a capital de São Paulo e Florianópolis é a capital de Santa Catarina; em (5) e (7), a referência é o falso. O que se repete nessas sentenças é a expressão ser capital de, uma expressão insaturada. Para expres­ sar um pensamento completo, a expressão deve ser preenchida em dois lugares: um que a antecede, outro que a sucede. Esses vazios são chamados argumentos. A expressão insaturada chama-se predicado. O predicado ser capital de é um predicado de dois lugares, porque há dois espaços a serem preenchidos por ar­ gumentos: ______ ser capital d e _______. Podemos, no entanto, transformá-lo em um predicado de um lugar:______ ser a capital de São Paulo, por exemplo. Você conseguiría recortar diferentes predicados de um lugar a partir das senten­ ças de (4) a (7)7 São Paulo é a capital de______ ; Florianópolis é a capital de______ ; ______ é a capital de Florianópolis são alguns exemplos. O contraste que Frege constrói é, pois, entre funções incompletas, isto é, aquelas que comportam pelo menos um espaço e pedem, portanto, pelo menos um argumento, e funções completas, que remetem a uma referência. Uma ex­ pressão insaturada combinada com um argumento gera uma expressão comple­ ta, um nome próprio, que tem como referência um valor de verdade, isto é, o verdadeiro ou o falso. Podemos entender o predicado como uma máquina, que toma elementos ou que os relaciona. Em (4), o predicado ser capital de relacio­ na São Paulo com São Paulo, gerando o nome próprio, São Paulo é a capital de São Paulo, que tem sentido, expressa um pensamento, e tem uma referência, a verdade. O predicado pode ser preenchido por um nome próprio, como nos exem­ plos dados, mas ele pode também ser preenchido por outro tipo de argumento, a expressão quantificada. Uma expressão quantificada indica um certo número de elementos, daí o termo quantificador. Vejamos alguns exemplos de sentenças quantificadas: (8) (9) (10)

Uma cidade de Santa Catarina é a capital de Santa Catarina. Todos os homens são mortais. Todos os meninos amam uma professora.

Em (8), afirmamos que há uma cidade de Santa Catarina tal que esta cida­ de é a capital daquele Estado, embora a sentença não especifique que cidade é

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essa. Em (8) temos um exemplo de quantificador existencial. Já a sentença (9) comporta um quantificador universal que pode ser informalmente traduzido por “o predicado ‘ser mortal’ se aplica a todos os elementos aos quais se aplica o predicado ‘ser homem” ’. Na sentença (10) temos a presença de dois quantificadores combinados: o universal (todos) e o existencial (uma). Essa sentença pode ter duas interpretações, ou, em termos técnicos, ela é ambígua: para todo aluno há pelo menos uma professora que ele ama — trata-se de uma leitura distributiva — ; há uma única professora que todos os alunos amam. No primeiro caso, o quantificador universal antecede o existencial; no segundo, inverte-se a situação de modo que o existencial precede o universal. Os quantificadores podem, pois, se combinar e sua combinação produz interpretações distintas. O modo como combinamos operadores, e os quantifi­ cadores são um tipo de operador, é extremamente importante porque sua combi­ nação explica um tipo de ambigüidade, a ambigüidade semântica. Considere a sentença: (11)

O João não convidou só a Maria.

Você consegue enxergar duas interpretações para ela? A sentença (11) pode descrever duas situações bem distintas: ou o João só não convidou a Ma­ ria, ou o João não só convidou a Maria, mas também outras pessoas. A diferen­ ça entre essas interpretações é explicada pelo modo como se combinam os ope­ radores não e só: ou o não atua sobre o só, gerando não só, ou o só atua sobre o não, produzindo só não. Esta relação em que um operador atua sobre um certo domínio tem sido denominada de escopo: na primeira leitura, o operador só tem escopo sobre a negação; na segunda, é a negação que tem escopo sobre o só: “O João não só convidou a Maria”. Intervalo II 1. Considere as seguintes sentenças. Recorte-as segundo os conceitos de predicado e argumento em Frege: a) João é casado com Maria. b) Maria é brasileira. c) Oscar é jogador de basquete. 2. A partir dos conceitos de quantificador universal e existencial e da noção de escopo, descreva as sentenças abaixo: a) Todo homem é casado com alguma mulher. b) Um homem é casado com todas as mulheres. c) A Maria não dançou só com o Pedro.

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Considere agora a sentença: (12)

O presidente do Brasil é sociólogo.

Ela se compõe de um nome próprio, o presidente do Brasil, e de um predicado de um lugar, ser sociólogo. O problema é o nome próprio o presiden­ te do Brasil. Note que neste sintagma afirma-se que há uma e apenas uma pes­ soa tal que esta pessoa é presidente do Brasil. Chamamos a esse tipo de sintagma de descrição definida. Uma descrição definida caracteriza-se por ser uma ex­ pressão nominal introduzida por um artigo definido78.É possível tratá-la como um tipo particular de operador: aquele que afirma existir um e apenas um ele­ mento tal que este elemento tem determinada propriedade. Se a sentença (12) for proferida em 1999, então a referência da descrição definida é Fernando Henrique Cardoso. Dessa entidade no mundo é predicada a propriedade “ser sociólogo”. Neste momento, ela é verdadeira, já que há um e apenas um presi­ dente do Brasil, Fernando Henrique Cardoso, e ele é sociólogo. Evidentemente, se a sentença fosse proferida em 1991, ela seria falsa, já que o então presidente do Brasil, Fernando Collor de Mello, não é sociólogo. O artigo definido carrega uma marca de dêixis, isto é, ele remete à situação em que a sentença é proferida. Até aqui não há problema. Note, no entanto, que para atribuirmos um va­ lor de verdade à sentença (12), imaginamos que existe alguém com aquelas propriedades. Para Frege, essa pressuposição de existência faz parte das condi­ ções de verdade da sentença, mas não do seu sentido. Em outros termos, a senten­ ça (12) expressa um pensamento completo, mas para atribuirmos a ela um valor de verdade pressupomos a existência de uma entidade da qual predicamos algo. Essa pressuposição existencial não é semântica. Frege mantém que se a pressu­ posição fosse semântica, então a negação da sentença seria ambígua. Vejamos: (13)

O presidente do Brasil não é sociólogo.

Se a pressuposição fosse semântica, afirma Frege, então (13) significaria: ou não existe um presidente do Brasil ou o presidente do Brasil não é sociólogo. No entanto, em (13), não negamos a existência de alguém que é presidente do Brasil, mas a afirmação de que ele é sociólogo. Isto é, a pressuposição de que existe alguém que é presidente se mantém inalterada na negação, por isso ela não se confunde com o conteúdo da sentença*. 7. Sobre definição definida, ver Ducrot (1979). 8. A pressuposição seria, portanto, pragmática. Ver o capítulo “Pragmática” neste volume.

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Mas imagine que (12) seja proferida num momento em que não há presi­ dente do Brasil. Se, por exemplo, ela fosse proferida em 1888, quando vivía­ mos ainda na Monarquia, será que ela teria valor de verdade? Essa questão gerou muita discussão na Semântica Lógica. A solução de Frege caminha pa­ ralelamente à solução com relação aos nomes próprios que indicam seres imaginários, o Batman, por exemplo: sentenças que se referem a seres ou coi­ sas que não têm existência real, isto é, sentenças cuja pressuposição de exis­ tência é falsa, têm sentido, mas não têm referência. Elas não são nem verda­ deiras nem falsas. Bertrand Russell propõe uma outra solução. Ele trata o artigo definido o como um quantificador. Como já vimos, os operadores podem se combinar. Assim, dado que o artigo definido é um quantificador e que o não, um operador que incide sobre a proposição ou parte da proposição alterando-lhe o valor de verdade, então entre eles se estabelecem relações de escopo. A sentença (13) seria, portanto, ambígua: a negação pode ter escopo sobre o artigo definido, e teremos a forma lógica (14) a seguir, ou o artigo definido tem escopo sobre a negação, e a forma lógica será (15): (14) (15)

[não [existe um apenas um indivíduo tal que [ele é presidente] e [é soció­ logo]]] [existe um e apenas um indivíduo tal que [ele é presidente] e [não [é sociólogo]]]

A proposta de Russell trata a pressuposição existencial como parte do con­ teúdo da sentença. Neste caso, proferir a sentença (12) quando não existe al­ guém que é presidente do Brasil é afirmar uma falsidade. Independentemente dessa controvérsia, a Semântica Formal considera que há pressuposição quando tanto a verdade quanto a falsidade da sentença depen­ dem da verdade da sentença pressuposta. Há muitos tipos de pressuposição. A sentença (16) contém uma pressuposição, mas dessa vez não se trata de uma pressuposição existencial: (16)

Maria parou de fumar.

Para que eu possa atribuir um valor de verdade a essa sentença, devo pres­ supor que seja verdade que Maria fumava. Se Maria nunca fumou, então ter parado de fumar é algo que simplesmente não se aplica a Maria: não é nem verdadeiro nem falso.

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S E M Â N T IC A

Intervalo III A partir das noções de escopo e operador descreva a ambigüidade presente na sentença a seguir: (1) O rei da França não é calvo. Determine se há pressuposição na sentença abaixo e justifique sua resposta: (2) João lamenta a morte do pai.

A década de 1970 conheceu uma explosão de trabalhos sobre a pressupo­ sição. Salienta-se, dentre eles, o trabalho de Oswald Ducrot que, certamente influenciado pelos trabalhos de Emile Benveniste e pela escola francesa de Aná­ lise do Discurso,9 se opõe veementemente ao tratamento que a Semântica For­ mal oferece para a pressuposição em particular e para o significado em geral. Suas críticas e análises possibilitaram a formação de um outro modelo: a Se­ mântica da Enunciação. ✓

3. A SEMÂNTICA DA ENUNCIAÇÃO

A visão de linguagem que, segundo Ducrot, subsidia a Semântica Formal é inadequada porque, argumenta o autor, ela se respalda num modelo informacional, em que o conceito de verdade é externo à linguagem. Na Semântica Formal, a linguagem é um meio para alcançarmos uma verdade que está fora da linguagem, o que nos permite falar objetivamente sobre o mundo e, conseqüentemente, adquirir um conhecimento seguro sobre ele. É possível que o conceito de referência em Frege esteja mesmo revestido de tal realismo: a metáfora do telescópio deixa claro que o objeto descrito, a lua, não é uma função da des✓ crição dada, do sentido. E o nosso conhecimento da lua que depende do senti­ do. Vemos a mesma lua a partir de pontos de vista diferentes, não vemos luas diferentes. A diferença é sutil, mas necessária para distinguirmos entre se­ mânticas ditas objetivistas ou realistas, que postulam uma ordem no mundo que dá conteúdo à linguagem, e semânticas mais próximas do relativismo, que acreditam que não há uma ordem no mundo que seja dada independentemente da linguagem e da história. A linguagem constitui o mundo, por isso não é pos­ sível sair fora dela. A Semântica da Enunciação certamente se inscreve nessa perspectiva, mas há abordagens formais que não se vinculam a uma metafísica realista10.

9. Ver o capítulo “Análise do Discurso”, neste volume. 10. Sobre o assunto, ver Haack (1978).

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De qualquer modo, para a Semântica da Enunciação, a referência é uma ilusão criada pela linguagem. Estamos sempre inseridos na linguagem: é o fato de que utilizamos dêiticos — termos cujo conteúdo é a remissão à extemalidade lingüística, os pronomes isto, eu, você, o artigo definido o, por exemplo — que nos dá a sensação/ilusão de estar fora da língua. Estamos, no entanto, sempre fechados nela e por ela. A Semântica Formal, diz Ducrot, cai na ilusão, criada pela própria linguagem, de que ela se refere a algo externo a ela mesma, de onde ela retira a sua sustentação. A linguagem, afirma Ducrot, é um jogo de argu­ mentação enredado em si mesmo; não falamos sobre o mundo, falamos para construir um mundo e a partir dele tentar convencer nosso interlocutor da nossa verdade, verdade criada pelas e nas nossas interlocuções. A verdade deixa, pois, de ser um atributo do mundo e passa a ser relativa à comunidade que se forma na argumentação. Assim, a linguagem é uma dialogia, ou melhor, uma “argumentalogia”; não falamos para trocar informações sobre o mundo, mas para convencer o outro a entrar no nosso jogo discursivo, para convencê-lo de nossa verdade11. Essa diferença de concepção da linguagem surte efeitos na forma como os fenômenos semânticos são descritos. Tomemos, em primeiro lugar, a questão da pressuposição. Se a linguagem não se refere, se a referência é interna ao próprio jogo discursivo, então também a pressuposição, seja ela existencial ou de qualquer outro tipo, é criada pelo e no próprio jogo de encenação que a linguagem constrói. A pressuposição não pode ser uma crença em algo externo à linguagem. E porque falamos de algo que esse algo passa a ter sua existência no quadro criado pelo próprio discurso. Nas versões mais atuais da Semântica da Enunciação, o conceito de pressuposição é substituído pelo de enunciador. Um enunciado se constitui de vários enunciadores que, por sua vez, formam o quadro institucional que referenda o espaço discursivo em que o diálogo vai se desenvolver. A pressuposição, um enunciador presente no enunciado, situa o diálogo no comprometimento de que o ouvinte aceita esta voz pressuposta. De tal sorte que negá-la seria romper o diálogo. ✓

Retomemos ao exemplo do presidente do Brasil ser sociólogo. Quando enunciamos (12), comprometemos nosso ouvinte com o fato de que há um e apenas um presidente. O enunciado é polifônico porque encerra várias vozes. Na enunciação de (12), o locutor põe em cena um diálogo entre enunciadores. Vejamos:1

11. Para uma introdução à Semântica da Enunciação, ver Ducrot (1979, 1987). A Semântica Enunciação tem contribuído para a descrição de vários fenômenos semânticos do português brasileiro. Ver, entre outras análises, Vogt (1977), Koch (1984), Guimarães (1991).

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SEM AN TICA

(17)

O presidente do Brasil é sociólogo. Há um e apenas uma pessoa. E2: Esta pessoa é presidente do Brasil. E3: Esta pessoa é sociólogo.

Essa estrutura polifônica deixa claro que pode haver dois tipos de nega­ ção. Note que diferentemente da Semântica Formal, a negação de (17) não será ambígua, porque não há duas formas lógicas. O que ocorre é que o ouvinte pode realizar diferentes tipos de negação: ele pode negar o enunciador E , neste caso estamos diante de uma negação polêmica; mas ele pode negar o posto, o enunciador E, neste caso temos uma negação metalingüística. Vejamos a análise do exemplo (16), retomado aqui: (18)

Maria parou de fumar. E,: Maria fumava. E2: Maria não fuma mais.

A enunciação de (18) põe em jogo um enunciador que afirma que Maria fumava antes, trata-se do pressuposto, e outro que diz que ela já não fuma mais, o posto. Se negamos a fala do primeiro enunciador, realizamos uma negação polêmica; se negamos o posto, uma negação metalingüística. Assim, as diferentes leituras, explicadas como ambigüidade estrutural pela Semântica Formal, são, para a Semântica da Enunciação, explicadas lançando mão do conceito de polissemia; em outras palavras, um mesmo enunciado se abre num leque de significados diferentes, mas relacionados. A Semântica For­ mal resolve o problema da ambigüidade por meio do conceito de escopo, en­ quanto na Semântica da Enunciação a noção de escopo não tem lugar e o pro­ blema se resolve via a hipótese de que há diferentes tipos de negação. O que explica as diferentes leituras da sentença (19) é a presença de uma série de enunciadores e diferentes tipos de negação. (19) O presidente do Brasil não é sociólogo. (19’) E . Há um presidente do Brasil. E2: Ele é sociólogo. E3: E, é falsa. (19”) E,: Há um presidente do Brasil. E2: Ele é sociólogo. E3: E2 é falsa.

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Em outras palavras: não se trata de uma diferença estrutural, mas de uma diferença entre tipos de negação. Assim, a pressuposição, na Semântica da Enunciação, se resolve pela hipótese da polifonia e, portanto, da existência de diferentes enunciadores, e a ambigüidade se desfaz pela determinação de dife­ renças de uso das palavras: o não-polêmico e o não-metalingüístico. Eis um outro exemplo. Em resposta a alguém que diz que meu carro está mal estacionado, posso retrucar: (20)

Não, meu carro não está mal estacionado (porque eu não tenho carro).

Nesse caso, estou fazendo uso da negação polêmica, afinal estou negando o quadro criado pela fala do meu interlocutor, na medida em que nego o enunciador que afirma a existência de um carro que seja meu. Imagine agora a mesma situação, só que dessa vez o locutor tem um carro: (21)

Não, meu carro não está mal estacionado (porque está bem estacionado).

Nesse caso, estamos diante da negação metalingüística: o locutor retoma a fala do outro, que aparece na voz de um enunciador que afirma que o carro está mal estacionado, para negá-la. A sentença (21) pode ser descrita da seguinte forma: (21’) Ej: Seu carro está mal estacionado. E2: A fala de E, é falsa.

Ducrot distingue ainda um terceiro tipo de negação, a negação descritiva. Nela o locutor descreve um estado do mundo negativamente; portanto, na sua enunciação não há um enunciador que retoma a fala de outro enunciador negan­ do-a. Na enunciação de (22), o locutor pode estar descrevendo um estado do mundo utilizando a negação: (22)

Não há uma nuvem no céu.

Nesse caso, não há a retomada da fala de outro, mas a apresentação negati­ va de uma descrição. Evidentemente, não é possível definirmos o tipo de negação sem levarmos em consideração os encadeamentos discursivos em que a enunciação ocorre. (22) podería comportar uma negação polêmica, desde que ela ocorresse em um outro contexto. Vale notar que a Semântica da Enunciação abre mão da idéia de que há sentença, entidade cujo sentido não depende do contexto em que ela é dita. Ao contrário, e por isto sempre falamos em enun­ ciação, neste modelo só há cadeias discursivas.

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SEM Â N T IC A

Intervalo IV 1. Utilizando o arcabouço teórico da Semântica da Enunciação, descreva as leitu­ ras possíveis do enunciado “Meu livro não foi reeditado”. A seguir descreva a ambigüidade por meio da noção de escopo da Semântica Formal.

A negação é, pois, um fenômeno de polissemia que, como dissemos, define-se por identificar usos distintos que são relacionados. É o caso de televisão utilizada para designar o aparelho e para designar a rede de transmissão. A mesma estratégia de multiplicação de sentidos aparece na descrição que a Se­ mântica da Enunciação propõe para o operador mas. Para a Semântica Formal não há diferença semântica entre e e mas. Na forma lógica, ambos fazem o mesmo: garantem que o todo é verdadeiro se e somente se as partes que o com­ põem também forem verdadeiras. Assim as sentenças: (23) (24)

João passou no concurso e não foi contratado. João passou no concurso, mas não foi contratado.

exprimem o mesmo conteúdo semântico: a sentença é verdadeira, em ambos os casos, se João passou no concurso é verdadeira e João não foi contratado é verdadeira. A diferença de significado é explicada pela Pragmática. A análise da Semântica da Enunciação dispensa a hipótese de que uma mesma forma lógi­ ca está presente nas duas sentenças. A diferença é descrita pela postulação de que e e mas são dois itens lexicais distintos. Ducrot dá um passo além afirman­ do que há dois mas que, em português, são homônimos, porque têm a mesma representação sonora e escrita. O espanhol, o alemão são, no entanto, línguas em que a cada mas corresponde uma palavra diferente: em espanhol, pero e mas, em alemão, sonder e aber. Na Semântica da Enunciação distinguem-se, pois, dois sentidos de mas: o maspAe o masSN. O masPAse caracteriza por apresentar um raciocínio inferencial do tipo: a primeira sentença nos leva a supor uma certa conclusão e esta conclu­ são é negada pela segunda sentença. Retomemos ao exemplo (24): a afirmação de que João passou no concurso nos leva a imaginar que ele será contratado. Esta conclusão, suscitada pela primeira sentença, é negada pela segunda em que se afirma que ele não vai ser contratado. O masSNestabelece outra relação semântica. Nele, a primeira sentença nega fortemente uma fala que supostamente a antecede e repara, na segunda senten­ ça, o que foi dito na primeira. Tomemos a sentença (25): (25)

Pedro não está triste, mas ensimesmado.

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Essa sentença se decompõe numa série de enunciadores. Um enunciador afirma que Pedro está triste (E,: Pedro está triste). Essa fala é negada pelo se­ gundo enunciador (E2: Ej é falsa). E um terceiro enunciador descreve o estado de Pedro (E3: Pedro está ensimesmado). Intervalo V Diga se o “mas” presente nas sentenças abaixo é PA ou SN. Justifique a sua res­ posta: (1) João não está cansado, mas deprimido. (2) João foi ao cabeleireiro, mas não cortou o cabelo. Descreva a negação nos seguintes exemplos: (1) (2)

O João não saiu. O céu não está azul.

A Semântica da Enunciação também se consagrou por ter possibilitado a descrição de fenômenos que supostamente resistem a um tratamento formal. Os fenômenos que envolvem gradações, os fenômenos escalares, são possivelmen­ te o exemplo mais prototípico. Vejamos um caso. Considere o par de sentenças a seguir: (26) (27)

João comeu pouco. João comeu um pouco.

Segundo a Semântica da Enunciação, não seria possível atribuir uma aná­ lise formal a essas sentenças porque em termos informativos elas veiculam o mesmo conteúdo: João não comeu muito. No entanto, sabemos intuitivamente que elas não são equivalentes, porque não podemos substituir uma pela outra. Ao contrário, há contextos específicos para o uso de cada uma dessas formas, o que significa dizer que seus encadeamentos discursivos são distintos. Imagine­ mos a situação de um moleque que está ameaçado pelo pai: se não comer, não brinca. O pai pergunta para a mãe: “E o Joãozinho, comeu?”. Supondo que a mãe saiba da ameaça, se ela responde com (26), sua fala vai na direção de que ele não comeu: se ele comeu pouco, então ele não comeu. E o coitado do Joãozinho fica sem brincar. Se a mãe responde com (27), sua fala vai na direção de comer: se ele comeu um pouco (um tanto de comida), então ele comeu. E, portanto, ele pode brincar. A hipótese é de que os operadores pouco e um pouco direcionam diferentemente uma mesma escala de comer que vai de comer muito a não comer: um pouco direciona a escala no sentido de comer e pouco no de não comer.

0

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S E M Â N T IC A

um pouco comer

não comer

A

pouco comer

nao comer

T

Se a semântica da enunciação analisa sempre em termos de argumentação, então a fala da mãe com um pouco vai na direção de comer e, portanto, é um argumento a favor do menino sair para brincar, ao passo que com pouco a estru­ tura argumentativa é inversa. Intervalo VI . Em termos de valor de verdade, as sentenças a seguir são idênticas. No entanto, do ponto de vista argumentativo, elas se comportam de forma bem diferente. Pro­ cure descrever a contribuição de sentido proporcionada pelo até nas sentenças: (1) O presidente do Brasil esteve na festa. (2) Até o presidente do Brasil esteve na festa.12 A partir da análise de “pouco” e “um pouco” reflita sobre o par: (1) João dormiu um pouco. (2) João dormiu pouco.

4. A SEMÂNTICA COGNITIVA

A Semântica Cognitiva tem como um de seus marcos inaugurais a publi­ cação, em 1980, de Metciphors we live by, de George Lakoff e Mark Johnson13. Embora bastante recente, esse modelo semântico conta hoje com a participação de diversos pesquisadores, trabalhando nos diferentes níveis de análise da lin­ guagem, da Fonologia à Pragmática. Parte-se, neste modelo, da hipótese de que o significado é que é central na investigação sobre a linguagem, chocando-se, portanto, com a abordagem gerativista, que defende a centralidade da Sintaxe14.

12. Para uma descrição deste operador argumentativo, ver Guimarães (1991). 13. Para uma apresentação da Semântica Cognitiva, ver Lakoff (1987). No Brasil, ver os trabalhos de Pontes (1990) e Lima (1997), entre outros. 14. Ver o capítulo “Sintaxe”, no volume 1 desta obra. O fato de que a Semântica Cognitiva está em franca oposição ao gerativismo impõe, como o leitor perceberá adiante, a discussão sobre aquisição da linguagem. Sobre este último tema, ver o capítulo “Aquisição da Linguagem”, neste volume.

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A forma deriva da significação, porque é a partir da construção de significados que aprendemos, inclusive a lógica e a linguagem. Daí a Semântica Cognitiva se inscrever no quadro do funcionalismo. A Semântica Cognitiva se opõe, pois, ao que Lakoff denomina Semânti­ ca Objetivista, aquela que, segundo o autor, prega que o significado se baseia na referência e na verdade, que entende verdade como correspondência com o mundo e que acredita na existência de apenas uma maneira objetivamente correta de associar símbolos e mundo. A Semântica Cognitiva quer combater a idéia, de fato presente em algumas abordagens formais, de que a linguagem está numa relação de correspondência direta com o mundo. O significado, se afirma na Semântica Cognitiva, não tem nada a ver com a relação de pareamento entre linguagem e mundo. Ao contrário, ele emerge de dentro para fora, e por isto ele é motivado. A significação lingüística emerge de nossas significações corpóreas, dos movimentos de nossos corpos em interação com o meio que nos circunda. Estaria, então, a Semântica Cognitiva mais próxima dos postulados da Semântica da Enunciação, que insiste que o significado é o resultado dos jogos argumentativos na linguagem? Sim, se levarmos em consideração o fato de que ambas negam a hipótese da referência. No entanto, diferentemente da Semânti­ ca da Enunciação, a Semântica Cognitiva não se baseia na crença de que a refe­ rência é constituída pela própria linguagem, uma ilusão, portanto, nem na cren­ ça de que a linguagem é um jogo de argumentação. Lakoff define sua aborda­ gem como realismo experiencialista e afasta sua proposta do relativismo. A hipótese central de que o significado é natural e experiencial se sustenta na constatação de que ele se constrói a partir de nossas interações físicas, corpóreas, com o meio ambiente em que vivemos. O significado, enquanto corpóreo, não é nem exclusiva, nem prioritariamente lingüístico. A criança, na história da aquisição contada pela Semântica Cognitiva, ini­ cialmente aprende esquemas de movimento e categorias de nível básico. Por exemplo, a criança se move várias vezes em direção a certos alvos. Desses mo­ vimentos, emerge um esquema imagético cinestésico (uma memória de movi­ mento) em que há um ponto de partida do movimento, um percurso e um ponto de chegada. Esse esquema, que surge diretamente de nossa experiência corpórea com o mundo, ancora o significado de nossas expressões lingüísticas sobre o espaço. Assim sendo, o significado lingüístico não é arbitrário, porque deriva de esquemas sensório-motores. São, portanto, as nossas ações no mundo que nos permitem apreender diretamente esquemas imagéticos espaciais e são esses esquemas que dão significado às nossas expressões lingüísticas.

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Nossos deslocamentos de um lugar para outro, que ocorrem quando ainda não falamos, estruturam, pois, um esquema imagético, e portanto não-proposicional. Esse esquema Lakoff denomina CAMINHO15 e pode ser esquematizado como a seguir: A (fonte do movimento) ------------------------► B (alvo do movimento) Muitos outros esquemas derivam diretamente de nossas experiências corpóreas no mundo. Por exemplo, o esquema de estar dentro e fora de algum lugar, chamado RECIPIENTE; o esquema de balanço, BALANÇO, aprendido em nossos ensaios para ficar em pé. São esses esquemas que dão sentido às nossas seqüências lingüísticas. Os dois primeiros exemplos a seguir são instân­ cias do esquema do CAMINHO, os dois últimos, do RECIPIENTE. (28) (29) (30) (31)

Fui do quarto para a sala. Vim de São Paulo. Estou em Florianópolis. Nasceu no Brasil.

O que dá sentido às sentenças (28) a (31) não é uma relação de correspon­ dência com o mundo, nem uma relação de dialogia com um outro, nem os encadeamentos discursivos, mas o fato de que em (28) e (29) está presente o esque­ ma imagético CAMINHO, e em (30) e (31), o esquema RECIPIENTE. Esses esquemas, organizações cinestésicas diretamente apreendidas, carregam uma memória de movimentação ou de experiência. E essa memória que ampara nos­ so falar e pensar. Por isso, o significado é uma questão da cognição em geral, e não um fenômeno pura ou prioritariamente lingüístico. A linguagem articulada não é mais que uma das manifestações superficiais da nossa estruturação cognitiva, que lhe antecede e dá consistência. Mas nem todos os nossos conceitos resultam diretamente de esquemas imagético-cinestésicos. Basta lembrarmos o conceito de argumentação para notarmos que não há um esquema sensório-motor que o ancore diretamente. Há, pois, domínios da experiência cuja conceitualização depende de mecanismos de abstração. A Semântica Cognitiva privilegia dois mecanismos: a metáfora e a metonímia. A metáfora define-se por ser o mapa (um conjunto de correspon­ dências matemáticas) entre um domínio da experiência e outro domínio. Adotenos a metodologia da Semântica Cognitiva, e examinemos, em primeiro lugar, algumas sentenças sobre o tempo. 15. Na Semântica Cognitiva, os conceitos e esquemas são sempre apresentados em caixa alta.

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(32) (33)

De ontem para hoje, o José ficou doente. A conferência foi de segunda a sábado.

Se observarmos essas e outras sentenças, notaremos que nosso conceito de tempo se estrutura via o esquema espacial do CAMINHO. Nesse sentido, as sentenças (32) e (33) são metafóricas, porque nelas o tempo é conceituado a partir de correspondências com o esquema espacial. Falamos, pensamos e agi­ mos sobre o tempo como se ele fosse uma linearidade, como uma reta direcionada para o futuro. De tal sorte que há o ponto de partida do movimento temporal, ontem em (32), segunda em (33), um percurso, o tempo decorrido entre os dois pontos, e um ponto de chegada, hoje em (32), sábado em (33). Nas sentenças (32) e (33), o esquema CAMINHO foi mapeado para o domínio do tempo. Ele pode, no entanto, ser mapeado para outros domínios. E esse esquema que utilizamos para expressar passagens de um estado emocional a outro, como na sentença (34) a seguir. Ele também está presente na estruturação de nosso conceito de transferência de posse, como em (35): /

(34) (35)

João foi de mal a pior. João deu este presente para a Maria.

Já deve estar claro que não apenas o termo “metáfora” tem um sentido espe­ cial na vSemântica Cognitiva, mas principalmente que neste modelo nosso falar e pensar cotidianos são, na sua maior parte, metafóricos. De modo que metáfora não se refere àquelas frases que, na escola, aprendemos a classificar como metáfora. A sentença “Maria é uma flor” é uma metáfora linguística para a Semântica Cognitiva, porque ela expressa uma maneira fantasiosa de falar, não uma metáfora conceituai. A metáfora, para a Semântica Cognitiva, é um processo cognitivo que permite mapearmos esquemas, aprendidos diretamente pelo nosso corpo, em domínios mais abstratos, cuja experimentação é indireta. É por isso que as sentenças de (32) a (35) são metafóricas. Nelas há o mapeamento de um domínio mais concreto da experiência, o domínio organizado pelo esquema imagético CAMINHO, na conceituação de domínios da experiência que são mais abstratos, o tempo, o esta­ do de saúde, a posse. Nesses exemplos, percebemos a ubiqüidade da metáfora. A propriedade fundamental da metáfora/mapa é preservar as inferências do domínio fonte no domínio alvo, desde que não haja violação da estrutura inerente ao domínio alvo. Assim, se mapeamos o esquema CAMINHO no tem­ po, então podemos esperar que neste domínio se estabelece uma organização espacial em que as inferências do espaço se mantêm. Trata-se da Hipótese da Invariância. Por exemplo: se eu vou daqui para ali, e este esquema é mapeado

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no tempo, então eu também devo poder me mover no tempo de um ponto de partida A em direção a um ponto B. Se entre os pontos espaciais A e B há posições intermediárias, então também entre o ponto A e B na linha do tempo há pontos intermediários. Além de explicar as inferências, essa hipótese procu­ ra justificar o fato de que há aspectos que não são mapeados. Podemos mapear o espaço no tempo, mas certas relações espaciais serão bloqueadas por causa da própria estrutura do tempo. Assim, não posso dizer “chegou embaixo da hora”. Como, então, se explicaria, neste modelo, a estrutura de inferência apre­ sentada no primeiro exemplo deste texto, reproduzido a seguir? (36) Todo homem é mortal. João é homem. Logo, João é mortal. A explicação é que essas sentenças refletem a presença do esquema imagético RECIPIENTE, em que há recipientes nos quais podemos entrar e sair. A base corpórea sustentando este esquema é o fato de que estamos sempre em algum lugar e que nosso próprio corpo é um recipiente. Assim, entendemos a primeira premissa como “o conjunto de homens está dentro do recipiente dos mortais”; a segunda afirma “João está dentro do conjunto dos homens”. Num esquema de boneca russa, uma dentro da outra. Note que nesse modelo é o nosso corpo que dá sentido para as relações lógicas. A título de exemplo da metodologia de análise na Semântica Cognitiva, apresentamos uma possibilidade de descrição do conectivo mas. Sua descrição inicia com um levantamento de suas várias possibilidades de uso. Uma pesquisa etimológica, resgatando a história desse conectivo, seria também interessante. Considere como dado a sentença (25), “Pedro não está triste, mas ensimesmado”. Etimologicamente, segundo Vogt (1977), mas deriva da expressão latina magis quam que estabelecia a comparação de superioridade: isso é mais do que aquilo. Se adotamos a hipótese de que os usos mais antigos são aqueles mais próximos do físico, então é o esquema corporal do BALANÇO que dá sustenta­ ção ao mas: pesamos duas coisas e a balança pende para uma delas. No caso do exemplo (25), a balança pende para o lado do ensimesmado: se pesamos os dois, Pedro é mais ensimesmado do que triste. Uma vez estabelecida que essa é a base física, resta-nos dar conta de suas extensões metafóricas16.

16. O trabalho de Sweetser (1991) sobre os modais em inglês é talvez uma das mais brilhantes peç da Semântica Cognitiva. Nesse trabalho ela mostra, por evidências etimológicas, e também pelos diferen­ tes usos dos modais que sua compreensão se sustenta num esquema da FORÇA.

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Intervalo VII Considere as sentenças a seguir: (1) Gastei cinco horas para chegar aqui. (2) Economizei duas horas por este caminho. Descreva essas sentenças a partir do arcabouço teórico proporcionado pela Se­ mântica Cognitiva. Ache exemplos que confirmem a existência da metáfora conceituai ARGUMEN­ TAÇÃO É UMA GUERRA.

Dissemos que há dois primitivos na teoria da Semântica Cognitiva: os esquemas imagéticos e as categorias de nível básico. Sobre os primeiros já fala­ mos e mostramos que eles se estendem via metáfora. Resta-nos agora tratar das categorias de nível básico. Sua discussão é importante, porque ela toca na ques­ tão da categorização, um problema caro à Semântica Formal. Mas qual é o problema da categorização? O problema é explicar que crité­ rios permitem que um dado exemplar faça parte de uma certa categoria (ou conceito). Ilustremos esse problema: como é que determinamos que um indiví­ duo particular pertence à classe dos homens? Como é que sabemos que João é humano? Na visão tradicional, aquela que se encontra na Semântica Formal clássica, um termo genérico como homem não se refere a um indivíduo em par­ ticular, mas a todos os indivíduos que possam ser alcançados por meio de certas propriedades, necessárias e suficientes, instanciadas por homem. Sabemos que João pertence à classe dos humanos porque ele tem certas propriedades que só os humanos têm. A essas propriedades, que definem o conteúdo semântico de um termo genérico, a Semântica Formal dá o nome de intensão. A intensão permite alcançarmos uma classe de objetos no mundo. A esta classe damos o nome de extensão. Você certamente percebeu que há um paralelo com os con­ ceitos de sentido e referência que definimos no início deste capítulo, não? No caso de homem, sua extensão são os vários humanos no mundo, as entidades extralingüísticas. E qual seria a sua intensão? Suas propriedades es­ senciais. Além da delicada questão filosófica que aí se esmiuça — afinal, exis­ tem mesmo propriedades essenciais? —, esta abordagem enfrenta o difícil pro­ blema de determinar com certo grau de segurança quais são as propriedades necessárias e suficientes para que algo pertença a uma certa categoria. Pergunte-se: o que faz uma pessoa ser parte da categoria HUMANO? O fato de com­ partilhar com todos os outros seres humanos certas propriedades e, ao mesmo tempo, de se distinguir, por meio dessas propriedades, de todos os demais seres. Eis a resposta da Semântica Formal clássica. Pare um instante de ler e pense:

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mas que propriedades são essas? A questão não é trivial e tem recebido as mais diferentes respostas ao longo dos séculos. Já se afirmou que a categoria HU­ MANO se define pela presença de duas propriedades “ser bípede” e “ser implume”: pertencer à classe dos humanos é ter dois pés e não ter penas. De fato, essas propriedades permitem distinguir um homem de um cachorro e de um pato. No entanto, é muito fácil achar exemplos de seres humanos que, ao menos aparentemente, não preenchem essas condições. Basta imaginar um perneta; alguém com uma única perna continua a ser humano ou não? E se, por uma mutação genética qualquer, um ser humano nascesse com algumas plumas, ele deixaria de ser um humano? Já deu para o leitor ter uma idéia do problema? Sem dúvida alguma foi Ludwig Wittgenstein, em Investigações filosófi­ cas, quem problematizou com maior maestria o problema das categorias. Ele se perguntou sobre quais seriam as propriedades definidoras da categoria jogo, levando em consideração os vários usos que a palavra pode ter. Tente se lem­ brar de tudo o que você chama de jogo: amarelinha, palavra cruzada, vôlei, damas, solitário, futebol. E agora veja se você consegue descobrir uma única propriedade que seja comum a todas as atividades que denominamos jogo, isto é, uma propriedade necessária porque presente em todos os exemplos de jogo. Se você disser “divertimento”, eu retruco com roleta-russa. Se você falar em “competição”, eu lembro os jogos de amarelinha e os solitários. Imaginemos, no entanto, que você me convença de que a propriedade comum a todos os exemplos de jogo seja divertimento. Mas divertimento é uma propriedade tão genérica que é insuficiente para separar a classe dos jogos de outras classes. Não conseguimos distinguir jogo de divertimento se divertimento é o traço, já que há coisas divertidas que não são jogos: ir ao cinema é divertido e não é um jogo. Parece que se houver uma propriedade comum a todos os usos de uma palavra, uma propriedade necessária, ela não será suficiente para delimitar a classe. Com base nessa constatação, Wittgenstein propôs que as categorias se organizam por relações de semelhanças de família. Os usos de uma mesma pa­ lavra se assemelham da mesma forma que os membros de uma família. Não é necessário que os membros compartilhem a mesma propriedade para pertence­ rem todos à mesma família, nem mesmo o sobrenome. A Semântica Cognitiva baseia-se nessa constatação para negar a aborda­ gem clássica da categoria. Ela se ancora fortemente em evidências psicológicas para assegurar a posição de que não categorizamos por meio do estabelecimen­ to de propriedades necessárias e suficientes. O trabalho de Berlin e Kay sobre as cores, assim como as pesquisas de Eleanor Rosch (Lakoff, 1987) apontam para fatos que contradizem as predições da categorização por propriedades ne-

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cessárias e suficientes. Vejamos um exemplo. Se peço para você me dar um exemplo de pássaro, você com certeza não vai dizer pingüim, a menos que você seja um semanticista. Por que não? Por que as pessoas tendem a responder per­ guntas sobre categorias com certos elementos e não com outros? Os experimen­ tos de Rosch trouxeram uma resposta a essas questões. A abordagem formal clássica não pode dar uma explicação para esse fato, porque para ela as catego­ rias se organizam por propriedades necessárias e suficientes, e, se é assim, en­ tão todos os membros de uma categoria devem ter o mesmo valor. Isso significa que as pessoas deveríam responder aleatoriamente, ora pardal, ora pingüim, ora galinha ao meu pedido de exemplo de pássaro. Mas as pessoas respondem pre­ ferencialmente pardal c muito raramente pingüim11. Baseado nesses resultados, formulou-se a hipótese de que os conceitos se estruturam por protótipos. Em outros termos, quando classificamos não recor­ remos ao estabelecimento de condições necessárias e suficientes, mas nos esco­ ramos em casos que são exemplares, que são os mais reveladores da categoria. É por isso que respondemos com pardal ao pedido de exemplificação de pássa­ ro: pardal é muito mais exemplar de pássaro do que pingüim. Há vários motivos para a nossa preferência por pardal: pardal voa e os pássaros em geral voam, pardal é um pássaro que a gente vê sempre, é familiar. As categorias se estruturam, pois, por meio de um caso mais prototípico que se relaciona via semelhanças com os outros membros. Pardal é o membro central da categoria PÁSSARO, ao passo que pingüim ocupa posição periférica. Mas como é que a criança aprende essas categorias? Ela aprende primeira­ mente as categorias de nível médio, porque é com objetos desse tipo de catego­ ria que temos contato físico direto. Mais uma vez com base em experimentos da Psicologia, a Semântica Cognitiva afirma que aprendemos categorias de nível básico diretamente, porque elas não indicam nem as categorias mais abstratas, nem as categorias mais específicas. Aprendemos primeiro e diretamente cate­ gorias como cachorro e mesa e só posteriormente, pelo processo de metonímia, as categorias genéricas animal e móveis e as particulares como boxer e mesa de cabeceira. Da mesma forma que a metáfora é o processo para estender os es­ quemas imagéticos, a metonímia estende as categorias. Também aqui metonímia não se refere à figura de linguagem que aprendemos nos manuais de retórica ou nas gramáticas tradicionais. Trata-se antes de um processo cognitivo que permi­ te criar relações de hierarquias entre conceitos. A sentença (37) é um exemplo de metonímia:17 17. Sobre a categorização, ver Taylor (1989).

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SEM ANTICA

(1)

O governo decretou o fim do auxílio desemprego.



E, pois, por meio dos processos cognitivos da metáfora e da metonímia que estendemos nossos esquemas e categorias para além das nossas experiênci­ as físicas imediatas na direção da abstração. Intervalo VIII Procure mostrar que a propriedade “voar” não é nem necessária nem suficiente para que algo pertença à categoria AVE. Procure descrever, a partir do conceito de protótipo, a categoria MÃE. Explique por que a sentença a seguir é uma metonímia: (1) A Maria saiu com o seu animal de estimação.

Vamos agora nos contentar em apresentar em suas linhas gerais a aborda­ gem cognitiva das pressuposições. Sobre esse assunto a grande contribuição tem sido de Gilles Fauconnier (1985)18. Este autor parte da hipótese de que na interpretação formamos espaços mentais, estruturas conceituais que descrevem como os falantes atribuem e manipulam a referência, dentre elas as descrições definidas. Em conformidade com os postulados da Semântica Cognitiva, o sig­ nificado não está na linguagem, antes, a linguagem é como um método, uma receita, que permite a identificação de uma estrutura cognitiva subjacente. Para dar conta da referência, Fauconnier propõe que durante a interpretação construímos domínios ou espaços mentais nos quais ela ocorre. Suponha a sen­ tença: (38)

Júlio César conquistou o Egito.

Na interpretação de (38) criamos um espaço mental em que Júlio César se refere ao personagem histórico. O que ocorre se repentinamente passamos a falar do personagem de Shakespeare, como na sentença (39)? (39)

Na peça de Shakespeare, Júlio César conquistou o Egito.

Neste caso, diz Fauconnier, abrimos um novo espaço mental, em que Júlio César não se refere ao personagem histórico, mas ao ficcional. É a partir desse arsenal teórico que Fauconnier propõe uma análise distin­ ta das pressuposições, já que elas nem estabelecem referência com entidades no mundo, nem são procedimentos argumentativos; são antes entidades mentais/ 18. Para uma descrição detalhada, ver Fauconnier (1985).

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cognitivas. Sem entrar nos detalhes, retomemos à sentença sobre Maria ter pa­ rado de fumar, a sentença (16). Dissemos, então, que a sentença veiculava a pressuposição de que Maria fumou um dia. Mostramos que a sentença negativa pode ser descrita como comportando uma ambigüidade: ou negamos a pressu­ posição, Maria não fumava antes, ou negamos o predicado, Maria não parou de fumar. Na Semântica Cognitiva, a pressuposição é descrita como significados que se transferem de um espaço mental para outro. No caso da sentença (16), estaríamos diante de dois espaços mentais: um em que está a pressuposição de que Maria já fumou; outro que diz que ela parou de fumar. No caso de negarmos o primeiro espaço mental, isto é, Maria nunca fumou, a pressuposição não é transportada para o segundo espaço mental. Já, se Maria fumou um dia, então a pressuposição é carregada para o segundo espaço mental, e a negação incide sobre o fato de ela ter parado de fumar. O mesmo raciocínio se aplica ao caso do presidente do Brasil. Formamos, na interpretação, dois espaços mentais: um em que há um e apenas um presiden­ te, independentemente de haver de fato um presidente, isto é, independente­ mente da relação de referência. Essa sentença, que se originou no espaço mental A, ou permanece nesse espaço mental, se por exemplo negamos que há um presidente, ou ela se move até o espaço mental B, em que se afirma que o presi­ dente do Brasil é sociólogo, e se toma uma pressuposição de B; nesse caso, a negação só poderá atingir a afirmação de que ele é sociólogo. 5. UMA RÁPIDA CONCLUSÃO

Na introdução dissemos que nossa intenção era apresentar fenômenos que já fazem parte do campo da Semântica, independentemente do modelo adotado. O que muda é a forma de descrever o fenômeno. Esse é o caso dos problemas levantados com relação à referência, à pressuposição, às definições definidas, à categorização, e a outros fenômenos aqui abordados. Ao apresentarmos como esses problemas são descritos de modos diferentes, queríamos mostrar as linhas mestres dos modelos semânticos atuais: o modelo formal, o modelo enunciativo e o modelo cognitivo. Se conseguimos apresentar esse quadro minimamente, acreditamos que você, leitor, tem condições de seguir em frente, de aprofundar (veja aí uma metáfora para a Semântica Cognitiva) seus estudos. É por isso que apresentamos, ao longo deste capítulo, várias referências bibliográficas que per­ mitem iniciar um estudo menos superficial em cada um dos modelos apresenta­ dos. Contamos ainda ter mostrado que, na Lingüística contemporânea, não há nem uma resposta única para o problema do significado, nem uma metodologia

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única para descrevê-lo. Essa pluralidade de modelos transparece também no fato de que, muitas vezes, aquilo que é problema para um modelo não o é para outro. É esse o caso da categorização, que interessa à Semântica Formal e à Semântica Cognitiva, mas que é secundário na Semântica da Enunciação. Finalmente, se não for esperar demais, esperamos ter deixado o leitor com a “pulga atrás da orelha”, com uma certa certeza de que qualquer descrição semântica está necessariamente engajada numa visão da linguagem, o que im­ plica uma explicação para a relação entre linguagem e mundo, linguagem e conhecimento. Adotar a abordagem da Semântica Formal não é apenas utilizar o instrumental lógico para descrever a linguagem — o que em si podería ser feito por quaisquer das abordagens aqui propostas —, mas assumir que a lin­ guagem natural se estrutura logicamente. E aí reside um ponto bastante questionável. É verdade que a linguagem tem uma estrutura, mas que ela seja lógica... Se adotamos o ponto de vista da Semântica da Enunciação ou da Se­ mântica Cognitiva, jogamos fora a idéia de que a verdade tem algo a ver com o significado, de que o extralingüístico tem um papel na determinação do signifi­ cado. Esse também é um postulado polêmico. Na Semântica da Enunciação, o significado é descrito nas relações de dialogia, de argumentatividade. Ele não serve, pois, para apontar algo no mundo exterior, mas para convencer, para seduzir o outro. Enredado na linguagem, não há como transcendê-la. No mode­ lo da Semântica Cognitiva também abandonamos a idéia de verdade como dan­ do suporte ao significado. O significado está no corpo que vive, que se move, que está em várias relações com o meio e não na correspondência entre palavras e coisas. Que a heterogeneidade pode tomar as coisas mais complicadas para aque­ les que querem fazer semântica é certo, mas ela pode também ajudar a ver que talvez a linguagem seja de fato um objeto muito complexo. Tão complexo que somente deixando coexistir diferentes abordagens, somente espiando a lingua­ gem por diferentes buracos de fechadura, poderemos um dia chegar a compreen­ dê-la melhor.

RESPOSTAS Intervalo /: A referência de a capital da França e Paris é Paris, o objeto no mundo. Atente para a distinção entre linguagem e objeto. A referência de Paris é a capital da França, uma sentença, é o verdadeiro, porque de fato Paris é a capital da França. Eis alguns exemplos de sentido para descrever o Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, a capital do Império, a cidade mais violenta do Brasil.

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In te rva lo II: Há várias possibilidades de recortar a primeira sentença: ser casado com

(predicado de dois lugares), ser casado com Maria (predicado de um lugar), João ser casado com (predicado de um lugar). A segunda sentença é um exemplo de predicado de um lugar: ser brasileiro. Cuidado aqui porque não é possível recortar a sentença com o___é ___ , pois b ra sile ira não é um nome próprio, não tem sentido completo, nem referência. A última sentença pode ser recortada de três formas: Oscar é jogador de, ser jogador de, ser jogador de basquete. Em “Todo homem é casado com alguma mulher”, para todo elemento do conjunto dos homens corresponde um elemento do conjunto das mulheres. Neste caso, o universal tem escopo sobre o existencial. Já °m “Um homem é casado com todas as mulheres”, afirmamos que há um único homem que é casado com todos os elementos do conjunto mulheres. Neste caso, o existencial tem escopo sobre o universal. Finalmente na última sentença temos um caso de ambiguidade: Maria só não dançou com o João ou Maria dançou não só com o João. In terva lo III: Teremos:

(1) Não é o caso de que (há um e apenas um rei da França e ele é calvo). O operador de negação tem escopo sobre o definido. (2) Há um e apenas um rei da França e não é o caso que (ele é calvo). O definido tem escopo sobre a negação. Há pressuposição factiva na sentença “João lamenta a morte do pai”, porque para ser verdadeira ou para ser falsa é preciso que seja verdade que o pai de João tenha morrido. Falamos em pressuposição factiva quando a sentença pressupõe que houve um evento. In te rva lo IV: Segundo a Semântica da Enunciação, a sentença pode comportar uma

negação polêmica — Meu livro não foi reeditado, porque não tenho livro — ou uma negação metalingüística — Não é verdade que meu livro foi reeditado. A sentença exibe a seguinte estrutura: E,: Eu tenho um livro. E,: Este livro foi reeditado. O enunciador E3 pode ou negar E, ou negar E,. A Semântica Formal descrevería esta sentença como ambígua. Num caso, a nega­ ção teria escopo sobre a pressuposição de que eu escrevi um livro, no outro, ela incidiría sobre a afirmação de que ele foi reeditado. Fala-se aqui de duas formas lógicas distintas. In te rv a lo V: A primeira sentença é um caso de masSN, porque há presença de um

enunciador que nega fortemente a fala “João está cansado” e outro que repara a descri­ ção desta fala: “João está deprimido”. Na segunda trata-se de um maspA, porque a primeira sentença, “João foi ao cabe­ leireiro”, nos leva a imaginar que João cortou o cabelo, precisamente a conclusão que é negada na segunda parte da sentença.

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A sentençá “João não saiu” pode comportar diferentes tipos de negação, depen­ dendo do encadeamento discursivo em que ela aparece. A negação pode ser descritiva ou metalingüística. O mesmo vale para a negação em “O céu não está azul” que, depen­ dendo do encadeamento lingüístico, pode ser descritiva ou metalingüística. Intervalo VI: Em termos argumentativos, (1) e (2) são bastante diferentes. A contribui­ ção de sentido proporcionada pelo até está no fato de que ele pressupõe uma escala de valores, em que o presidente do Brasil está no topo. De modo que a presença do presi­ dente é um argumento para a conclusão de que a festa foi um sucesso. Na sentença (1) seguinte, argumenta-se em favor da tese de que João dormiu; ao passo que, na sentença (2), a escala argumentativa vai na direção do argumento “João não dormiu”. Intervalo __VII: As sentenças manifestam a presença de uma metáfora conceituai: TEMPO E DINHEIRO, tanto que podemos gastá-lo, economizá-lo, empregá-lo mal, investir nele... Há muitos exemplos que confirmam a metáfora conceituai ARGUMENTAÇÃO ✓ _ __ E UMA GUERRA. Eis alguns: “Vou defender minha tese hoje”; “Ele não soube se defender da acusação”; “Ele atacou meu ponto de vista”. s

Intervalo VIII: Há aves que não voam, portanto, voar não é uma propriedade essencial das aves. Há outras coisas que voam e não são aves, por exemplo os insetos. De onde se conclui que essa propriedade não é suficiente para caracterizar a categoria AVE. A categoria MÃE se organiza ao redor da idéia de progenitora e de ser aquela que cuida da criança, a provedora. Há metonímia porque animal de estimação é uma categoria superordenada com relação à categoria de nível básico.

BIBLIOGRAFIA

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PRAGMÁTICA Joana Plaza Pinto 1. UNHAS GERAIS

De que tratam os estudos lingüísticos que se classificam como “pragmáti­ cos”, ou pertencentes à área da Pragmática? Essa é uma pergunta que pode gerar respostas tão variadas quanto o número de pessoas que se dispuserem a respondê-la. Um número muito grande de trabalhos, com temas e objetivos os mais diversos, circula nos periódicos e outras publicações declaradamente inse­ ridos no domínio da Pragmática. Pode-se, no entanto, a partir de um grupo mais ou menos coeso desses estudos, procurar delimitar a Pragmática, admitindo a diversidade. Vamos assim tentar compreender um pouco da história da consti­ tuição dessa área tão heterogênea, procurando ao mesmo tempo evidenciar o que, em meio a diferentes perspectivas, toma possível reconhecer certos tipos de estudos lingüísticos como pragmáticos. Mesmo que se admita a variedade presente na Pragmática, também se deve admitir que as autoras e autores desse domínio têm certos pressupostos em co­ mum. Haberland & Mey (1977), editores do Journal ofPragmatics, na primeira edição desse periódico, afirmam que a Pragmática analisa, de um lado, o uso concreto da linguagem, com vistas em seus usuários e usuárias, na prática lingüística; e, de outro lado, estuda as condições que governam essa prática. As­ sim, em primeiro lugar, a Pragmática pode ser apontada como a ciência do uso

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lingüístico. As pessoas que a estudam esperam explicar antes a linguagem do que a língua. Essa afirmação é decorrente da dicotomia clássica saussureana língua/fala: Saussure (1991) defende que a língua, que seria o objeto de estudo da Lingüística por excelência, é a linguagem menos afala', enquanto a Pragmá­ tica se inicia justamente defendendo a não-centralidade da língua em relação à fala. Em outras palavras, a Pragmática aposta nos estudos da linguagem, levan­ do em conta também a fala, e nunca nos estudos da língua isolada de sua produ­ ção social. Dessa forma, os estudos pragmáticos pretendem definir o que é lin­ guagem e analisá-la trazendo para a definição os conceitos de sociedade e de comunicação descartados pela Lingüística saussureana na subtração da fala, ou seja, na subtração das pessoas que falam. Um segundo ponto acordado entre os estudiosos e estudiosas dessa área é que os fenômenos lingüísticos não são puramente convencionais, mas sim com­ postos também por elementos criativos, inovadores, que se alteram e interagem durante o processo de uso da linguagem. Numa pequena fita cassete, -com uma gravação curta de alguém conversando com um lingüista, vamos escutar tre­ chos do tipo: (D

Entrevistadora: Então ela largou o namorado? Entrevistada: Eu vi ela largar... largou sim... largou a ele... Entrevistadora: A ele? Entrevistada: é, a ele, sim; a ele... largou a ele aquela vida infeliz que eles tinham juntos... largou a ele.

Repare que a entrevistadora tem um impasse de interpretação da fala da entrevistada porque esta última cria uma estrutura “alterada”, um objeto indire­ to inesperado, no entanto de extrema importância para o entendimento, não só do que a entrevistada queria dizer, mas principalmente das possibilidades ex­ pressivas de inovações lingüísticas. O que vemos aqui não é poesia, ou variação lingüística. Ainda que poesia e variação expressem esse mesmo tipo de situa­ ções criativas, esse diálogo (1) é a prova de que não é produtivo descrever a linguagem como um sistema delimitável, mas sim que esta deve ser trabalhada1

1. Note que a definição de linguagem inicialmentc utilizada pela Pragmática é bastante diversa outras áreas da Lingüística (cf. outros capítulos deste volume). Essa noção inicial de linguagem como o somatório da língua mais a fala é própria do estruturalismo, metodologia de estudos sociais fundada por Ferdinand de Saussure, e inicialmente divulgada por Roman Jakobson, na Lingüística, e Claude LéviStrauss, na Antropologia. In: Dosse, F. História do estruturalismo. São Paulo, Ensaio, v. I e II, 1993.

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a partir da possibilidade de se juntar grupos de indícios sobre seu funcionamen­ to, tendo como limite possível um recorte convencional, não justificado por qualquer fator inerente à linguagem. Quando a análise lingüística é feita em outros moldes, trechos como de (1) são descartados como erros de uso do siste­ ma, ou, na melhor das hipóteses, exceção — “licença poética”. A variedade de materiais que são analisados nas publicações aceitas pelo Journal ofPragmatics nos ajuda a perceber que lingüistas estão se dedicando às situações de “exceção”, fundamentais na compreensão da linguagem em uso: diálogos colhidos entre falantes de uma comunidade, literatura, poesia, humor, e podemos ler mesmo trabalhos analisando material lingüístico-visual, como cartuns e propagandas. Explicar a linguagem em uso e não descartar nenhum elemento não-convencional: esses dois pontos comuns aos estudos pragmáticos formam uma li­ nha derivada da história da preocupação com o uso linguístico. No final do século XIX, a Filosofia iniciou um redirecionamento na forma de responder a suas perguntas. Desde Kant2, os estudos filosóficos passaram a ser entendidos como um conjunto de critérios para avaliar a maneira pela qual a mente é capaz de construir representações. Mais tarde, então, no final do século XIX, os estu­ dos filosóficos cunharam sua variante da filosofia kantiana, defendendo princi­ palmente que representação é antes lingüística do que mental, e que se deve refletir antes em filosofia da linguagem que em crítica transcendental3. Assim, objetivos filosóficos de discutir e descrever nossa representação do mundo res­ paldaram um movimento em direção às usuárias e usuários da linguagem, acar­ retando uma tendência análoga no âmbito da Lingüística. A Pragmática é fruto desse movimento em direção aos problemas relativos ao uso da linguagem, por isso, ao estudarmos a constituição dessa área, devemos acompanhar também um pouco da história dos grupos filosóficos que a influenciaram. 2. CORRENTES DA PRAGMÁTICA ê

Como a Pragmática é uma área genericamente definida por pesquisar so­ bre o uso lingüístico, os temas escolhidos para análise são amplos e variados. Em publicações da Pragmática podemos ler estudos teóricos sobre a relação entre signos e falantes, como é o caso do estudo de Mey (1985), que procura 2. Immanuel Kant foi um filósofo alemão que viveu entre 1724-1804. Exerceu grande influência no pensamento ocidental, procurando caracterizar os limites, alcance e valor da razão. 3. Para maiores detalhes, consultar Rorty (1994), especialmente a Introdução e o Capítulo I.

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debater o lugar da linguagem na sociedade, de uma perspectiva marxista, discu­ tindo o conceito de manipulação lingüística. Também encontramos levantamento de aspectos de diálogos entre falantes de uma mesma comunidade ou comuni­ dades diferentes (Verschueren & Bertuccelli-Papi, 1987). Observe o diálogo a seguir: ( 2)

A: Você viu meu rato por aí? B [apontando um rádio ao seu lado]: Está aqui o rádio. A: Não, é o rato mesmo. Meu rato de borracha. B compreende a palavra rato, mas considera Io) a improbabilidade de al­ guém estar procurando seu próprio rato (!); 2o) a proximidade concreta [ao seu lado] de um objeto e fonológica da palavra que se refere a esse objeto. Assim, uma análise pragmática desse diálogo deve considerar tantos aspectos da estru­ tura da própria língua quanto aspectos relacionados ao usuário ou à usuária (a situação que ele/ela vivenciajl Um outro tipo de tema comumente levantado pelos estudos pragmáticos são os funcionamentos e efeitos de atos de fala. Atos de fala é um conceito proposto pelo filósofo inglês J. L. Austin para debater a realidade de ação da fala, ou seja, a relação entre o que se diz e o que se faz — ou, mais acuradamente, o fato de que se diz fazendo, ou se faz dizendo. Discutiremos melhor esse con­ ceito na seção 2.2. Por enquanto, vale ressaltar que, cada qual com seu critério, alguns estudos procuram, por exemplo, classificar os atos de fala de acordo com seus efeitos. E o caso de Benveniste (1991), que pretende classificar os atos de fala. De um lado teríamos aqueles atos que seriam compostos por um verbo declarativo jussivo na primeira pessoa do presente mais uma afirmação, como: ✓

(3)

Eu ordeno que você saia.

Ainda que ele não explique detalhadamente o que seriam esses tipos de verbos, na lista dos “declarativos-jussivos”, Benveniste inclui ordenar, coman­ dar, decretar, o que nos leva a perceber esses verbos como estabelecendo uma relação entre “declaração de uma ação” e “jus à posição de autoridade para tal ação”. Assim, ordenar não só explicita, “declara” a ação feita por quem fala, como este deve estar apto a fazê-lo. No caso do exemplo (3), “ordenar” é o verbo declarativo-jussivo, e “você saia”, a afirmação. De outro lado, Benveniste propõe outro conjunto de atos de fala, atos estes que seriam compostos por um verbo com complemento direto mais um termo predicativo, tal qual:

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(4)

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Proclamo-o eleito vereador.

Essa classificação proposta por Benveniste não é a única e mesmo pode ser firmemente contestada (veja Ottoni, 1998). O mais importante é se perceber que, ao selecionar, entre tantos fenômenos de linguagem em uso, quais devem ou não ser estudados, e a quais perguntas devem ser submetidos tais fenômenos, os autores e autoras da Pragmática acabam por fazer aparecer suas diferenças. A influência de grupos filosóficos nessas seleções de objetos e métodos é patente e será usada aqui para delimitar as diferentes correntes de estudos pragmáticos. São elas três correntes. O pragmatismo americano, influenciado pelos es­ tudos semiológicos de William James; os estudos de atos de fala, sob o crédito dos trabalhos do inglês J. L. Austin; e os estudos da comunicação, com preocu­ pação firmada nas relações sociais, de classe, de gênero, de raça e de cultura, presentes na atividade lingüística. Vale a pena observar que, entre os autores e autoras que são referência para a Pragmática, também estão os franceses Oswald Ducrot e Émile Benveniste, e o americano H. P. Grice. Até o final da década de 1980, muitos trabalhos cuja orientação teórica está fundamentada nesses autores incluíamse na área da Pragmática. Entretanto, a evolução de seus trabalhos conferi­ ram-lhes campos de estudos e métodos hoje separados dos pragmáticos. A Semântica Argumentativa e a Análise da Conversação são duas correntes outrora participantes do movimento que integrou componentes pragmáticos aos estudos lingüísticos. Neste momento histórico da Lingüística, são mais enriquecedoras quando estudadas como áreas diferentes. Mas não estranhem a leitora e o leitor se encontrarem, ainda hoje, os nomes desses autores associa­ dos de alguma forma à Pragmática4.

2.1. Pragmatismo americano

Foi o filósofo americano Charles S. Peirce o primeiro autor a utilizar a palavra pragmatics, no seu artigo How to make our ideas clear, de 1878. Peirce exerceu influência sobre vários filósofos e assim foram divulgadas suas idéias sobre a tríade pragmática. Essa tríade representa a relação entre signo, objeto e interpretante. O que Peirce procurou destacar ao postular essa tríade foi a ne­ cessidade de se teorizar a linguagem levando-se em conta o que sempre foi lembrado na Lingüística, ou seja, o sinal, mas também aquilo a que este sinal 4. Para maiores detalhes, consultar os capítulos “Semântica” e “Análise da Conversação”, neste volume.

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remete e, principalmente, a quem ele significa. Num dos trechos de sua obra, Peirce explica: [Os que se dedicavam ao estudo] da referência geral dos símbolos aos seus obje­ tos ver-se-iam obrigados a realizar também pesquisas das referências em relação aos seus interpretantes, assim como de outras características dos símbolos e não só dos símbolos, mas de todas as espécies de sinais. Por isso, atualmente, o ho­ mem que pesquisa a referência dos símbolos em relação aos seus objetos será forçado a fazer estudos originais em todos os ramos da teoria geral dos sinais5. /

E bom ressaltar que a idéia da tríade pragmática e toda a teoria que a acompanha são complexas. Peirce fez um trabalho prolongado, procurando ex­ plicar exaustivamente os componentes de sua teoria do signo, definindo e sub­ dividindo cada um dos itens para explorar ao máximo sua capacidade explicativa e seu alcance teórico — só os sinais ele subdividiu em dez classes principais! Devemos aqui nos deter na repercussão de seu trabalho, na sua proposta principal de expor todos os aspectos da relação símbolo-objeto-interpretante. Os dois principais seguidores de Peirce, e que passaram adiante interpretações da obra deste autor, foram William James e Charles W. Morris. Ao travar contato com o círculo de filósofos de Viena, Morris sabe da proposta de Rudolf Camap de dividir as investigações sobre linguagem em três campos: a Sintaxe, que trataria da relação lógica entre as expressões; a Semân­ tica, que trataria da reiação entre expressões e seus significados; e a Pragmáti­ ca, que estaria responsável por tratar da relação entre expressões e seus locuto­ res e locutoras. Repare que essa partição ternária lembra muito os três pontos cruciais da significação para Peirce: o signo propriamente, em Camap destaca­ do pela idéia de que uma área, a Sintaxe, poderia tratá-lo; o significado, ou a que remete o signo, tratado na Semântica; e a pessoa que interpreta o signo, tratado, de acordo com Camap, pela Pragmática. Essa proximidade entre os dois raciocínios entusiasma Morris. Em 1938, Morris atesta, com Foundations o f the theory o f signs6, a doutrina pragmática de Peirce, defende a interdepen­ dência, combatendo a hierarquização dos três campos. Assim, Morris mostra-se fortemente influenciado pelo grupo de empiricistas de Viena, mas, ao mesmo tempo, busca minimizar a força da separação entre os três campos de estudo, o que, conseqüentemente, afastaria, na prática da pesquisa lingüística, os três ele5. Peirce (1906) citado em Odgen, C. K. & Richards, I. A. O significado do significado. Rio de Janeiro, Zahar, 1972, p. 280. 6. Citado em Schlieben-Lange (1987).

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mentos da tríade pragmática. Entretanto, ainda que esse gesto de Morris seja bastante apropriado ao pensamento de Peirce, é forte a ascendência do empirismo lógico em seu pensamento, fazendo com que sua obra se direcione para outros caminhos, como, por exemplo, para fundamentar a doutrina da ciência unitária defendida pelos empiricistas. Seguindo outro caminho, o filósofo William James aproveitou de Peirce a idéia de refletir no âmbito da filosofia sobre os sinais e seus significados. Ao escrever o ensaio Philosophical conceptions and practical results, em 1898, vinte anos depois que Peirce havia utilizado a palavra pragmatics, James cunha pragmatism e inaugura o que ficou conhecido como Pragmatismo americano. Mas as idéias de James só vieram a causar impacto no século XX, sob a égide de novos filósofos empenhados em definir a filosofia, e também a linguagem e o conhecimento, como uma prática social. A definição mais popular de James é a de verdade como “o que é melhor para nós acreditarmos”. Essa fórmula é bas­ tante polêmica, e valeu ao adjetivo “pragmático” a definição de “aquilo que tem aplicações práticas, voltado para a ação”. Desde Platão, que discutiu com certa constância a questão “A que se pode chamar corretamente verdadeiro ou falso?”, a maior parte dos textos filosófi­ cos, especialmente influenciados pela lógica clássica, até então tinha definido verdade como um conceito que está fora das pessoas, pois o que é verdadeiro estaria sempre em conformidade com o mundo. Desse modo, a verdade seria suscetível de ser encontrada e confirmada. Esse conceito de verdade sempre foi extremamente importante para a definição de significado, pois a conceitualização deste último girava em tomo da correspondência entre o mundo e a palavra. William James, por meio de sua reflexão filosófica baseada em componentes pragmáticos, valoriza a pessoa que fala como detentora do próprio significado, já que a verdade, palavra-chave na compreensão da relação entre mundo e lin­ guagem, nada mais é que aquilo que todos e todas nós, inseridos/as numa comu­ nidade, queremos que ela seja. Repare como essa posição de James desloca com grande força o tratamento do significado lingüístico, porque impele o debate acerca da verdade para o terreno do imprevisível: as pessoas sociais. No mo­ mento em que ele relativiza a noção de verdade, atinge em cheio todo o discurso sobre a possibilidade de conhecimento de fato, pois duvida da própria idéia de confirmação no mundo deste conhecimento. *

E o americano Willard V. Quine quem inicia um grande empenho em pros­ seguir as idéias pragmatistas de James e Peirce. Quine, como Morris, também estuda o empirismo lógico do Círculo de Viena, mas abandona de vez o vocabu­ lário logicista e reforça muitas das idéias de Peirce, reformulando-as no que ele

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chamou de pragmatismo radical. Sua atitude contra a tradição lógica é ousada. Com Quine, podemos aprender que muitos argumentos utilizados pela Semânti­ ca lógica para sustentar a exclusão do/a usuário/a na análise do significado são questionáveis em sua própria condição de argumento válido. Para entendermos o radicalismo da proposta pragmática de Quine, deve­ mos nos deter um pouco na questão da determinação da referência, e procurar­ mos perceber como Quine levanta o problema de que determinar o objeto refe­ rido por uma expressão é uma questão muito mais séria do que simplesmente encontrá-lo ou não no mundo. Muitas dificuldades podem ser levantadas para se apontar um objeto referido. Quine (1980), defendendo que a indeterminação da referência permanece não importa com qual tipo de expressão referencial estejamos trabalhando, apresenta a situação do uso de expressões demonstrati­ vas. A sentença (5)

Esta mesa está quebrada.

proferida numa situação similar à ostensão, não deixa de produzir perguntas: o que está sendo referido para o predicado “está quebrada”: a quina da mesa? o pé da mesa? as dobradiças? Se concordamos com Quine, essas perguntas não são realmente problemas referenciais. E perfeitamente aceitável, do ponto de vista de qualquer falante, que permaneça a indeterminação da parte da mesa que está quebrada. A apreensão do objeto referido fica assim fragmentada, e não mais transparente. Com exemplos como este, Quine está defendendo a tese de que a referên­ cia é impenetrável, no sentido de que não se pode determinar “com toda certe­ za” o alcance da expressão referencial no mundo. É a famosa tese da inescrutabilidade da referência, a base de sua visão holista. A inescrutabilidade da referên­ cia é a prova cabal de que as discrepâncias entre significações só podem ser teorizadas a partir da sua condição pragmática. Quine (1968) nos explica isso mostrando que um lingüista em pesquisa de campo, que ouve um nativo dizer “gavagai” apontando para um coelho que passa, só pode interpretar pragmaticamente esse ato. Nada garante que “gavagai” possa ser traduzido como “coe­ lho” ou “parte de coelho” ou “coelho andando”. Sua tradução só pode ser feita a partir da prática lingüística que o produziu. Outros dois estudiosos do Pragmatismo americano que se destacam são Donald Davidson e Richard Rorty. Ambos admitem créditos por suas idéias aos trabalhos dos filósofos James Dewey e L. Wittgenstein. Estes últimos autores acrescentaram uma perspectiva historicista aos estudos pragmáticos america­ nos, defendendo que as investigações dos fundamentos da linguagem podem s

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ser consideradas uma prática social contemporânea. A Teoria da coerência elaborada por Davidson (1986), e respaldada pelas críticas de Rorty (1994) à tradição analítica7, delineia um arcabouço teórico para tratar a coerência inter­ na, e não a verdade, como o elemento que sustenta qualquer sistema interpretativo. Sua defesa polemiza, portanto, em tomo daquela noção clássica de verda­ de que citamos anteriormente, e contrapõe-se à Teoria da Correspondência, presente na definição clássica de significado. Essa última sustenta que senten­ ças e coisas no mundo podem ser relacionadas a fim de calcular valores de verdade dessa relação. Para Davidson, se há coerência, pouco importa o valor de verdade dessa correspondência. Dessa forma, o que Davidson quer mostrar é que as atitudes proposicionais de uma pessoa, sua fala, crenças e intenções são verdadeiras porque existe um princípio legítimo que diz que qualquer uma das atitudes proposicionais do/a falante é verdadeira se ela é coerente com o conjunto de atitudes proposicionais desse/a mesmo/a falante. Tomemos um exemplo: ( 6)

A: Estou pensando em assistir ao carnaval em Olinda. Você, que é de lá, sabe se tem muito barulho? B: Não, tem polícia, é tudo bem organizado. A: A polícia não deixa ter muito samba? B: Não, a polícia não deixa as pessoas bagunçarem as ruas. A: Não, não foi isso que eu quis dizer. Eu não estou falando de barulho como bagunça, estou falando de barulho de batida de samba.

Esse trecho ilustra o que, entre lingüistas, é conhecido como “mal-enten­ dido”, um momento no diálogo em que não há coincidência de interpretação entre participantes. Muitos estudos têm procurado estabelecer padrões para a “resolução” desses chamados mal-entendidos, justificando, por exemplo em (6), que a expressão “barulho” é empregada com diferenças culturais suficiente­ mente marcantes para causar diferença também na interpretação preferencial de tal expressão. Um exemplo deste tipo de idéia de que mal-entendidos são erros e devem ser resolvidos é um texto de M. Dascal (1986) chamado A relevância do mal­

7. Tradição analítica é entendida aqui no sentido de Rorty (1994) como aquele vocabulário filosófic que se inicia com os trabalhos do filósofo alemão Frege, e que baseia toda a argumentação para a defesa de que significar é representar algo que está fora da linguagem, seja fora porque está no mundo concreto, seja fora porque está no “pensamento” ou “sentimento”, entendidos estes últimos como conceitos abstratos, não ligados a nenhuma prática cotidiana de linguagem.

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entendido’8. Não se iludam pelo título. O texto de Dascal procura responder com especial ênfase à questão sobre a relação entre entender e mal-entender. De acordo com esse autor, o mal-entendido relaciona-se com o entender na medida em que ambos estão ligados a camadas de um esquema conversacional que é sempre utilizado pelos interlocutores e interlocutoras na atividade de linguagem. Dascal pretende mostrar que o mal-entendido deve ser tratado como um fenômeno importante no trabalho com a linguagem. Mas ele defende que, de fato, esta relação entre entendimento/mal-entendido é importante na medida em que revela o funcionamento do entendimento. Dessa maneira, como toda dicotomia, esse par não passa de uma hierarquia camuflada, em que o mal­ entendido é um “mau funcionamento” do esquema de significação harmônico. Como em toda hierarquia, um elemento se sobrepõe ao outro, e, sem dúvida, neste caso, não é o mal-entendido o membro positivamente valorado do par. Seu enfoque não é para integrar propriamente o mal-entendido ao esquema interpretativo, mas sim criar um mecanismo que o evidencie e ao mesmo tempo permita corrigi-lo. Podemos compreender que Dascal considere “um tanto pa­ radoxal” defender a importância do mal-entendido em sua análise: a relação que o autor defende entre entender e mal-entender não pode efetivamente inte­ grar o segundo elemento ao esquema interpretativo; ao contrário, sua importân­ cia “paradoxal” está em ser levado em conta para ser eliminado. Esse texto de Dascal nos serve de exemplo da forma como têm sido trata­ dos os fatos lingüísticos que resultam no mal-entendido: intempéries a serem corrigidas, evitadas, impedidas. Quando um autor como Dascal defende que se deve corrigir um mal-entendido, é porque ele pressupõe que a noção de entendi­ mento deve ser mantida intocada. Mas uma análise linguística baseada nos debates de Davidson e Rorty acerca da coerência de sistemas interpretativos ilumina outros ângulos da questão do mal-entendido. Por que pensar em “mal-entendido” se existe apenas coerência interna nos sistemas interpretativos? Duas pessoas de culturas diferentes po­ dem encontrar dificuldades em manter um diálogo produtivo, sim. Mas também pessoas de mesma cultura lidam com situações como a anterior, pois cada uma encaminha suas interpretações de maneira singular. Teorizar dessa forma sobre linguagem não tem nada a ver com pensar que cada qual diz o que quer e enten­ de quem puder. A idéia de coerência interna em sistemas lingüísticos nos diz,

8. Uma análise detalhada desse texto de Dascal (1986) e uma discussão mais aprofundada sobre motivações em tomo da manutenção de um modelo harmônico de “entendimento” encontram-se em Pinto (1998).

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muito mais apropriadamente, que é inadequada a argumentação em tomo de “mal-entendido”, pois o processo que acarreta esse fenômeno desconcertante dos diálogos cotidianos é parte coerente de uma interpretação, e não deve ser encarado como “erro” ou “inadequação” de significado. Dessa forma, podemos afirmar que a conversação humana é, para essa corrente da Pragmática mais do que para qualquer outra, uma prática lingüística. Prática entendida como sempre social, e no sentido que colocou James, como “aquilo que é melhor para nós”, no caso, falarmos, praticarmos como lingua­ gem. O Pragmatismo americano oferece, então, bases filosóficas para uma aná­ lise lingüística que relacione a todo momento signo e falante, antes de qualquer coisa, compondo ambos o que se chama de fenômeno linguístico.

2.2. Atos de fala

G. E. Moore assistiu a cursos proferidos por Wittgenstein e definiu o p samento desse autor como um desvio no desenvolvimento da tradição filosófica (Silva, 1980). O que ele chamou de “desvio” seria um encaminhamento das preocupações dos estudiosos para a linguagem corrente. É Moore quem faz repercutir entre os filósofos da Universidade de Oxford esse redirecionamento. Autores como Gilbert Ryle, John Langshaw Austin e Peter Frederick Strawson seguem as indicações de Moore e de Wittgenstein para examinar a linguagem corrente como fonte de solução para os problemas filosóficos. É o movimento que ficou conhecido como Filosofia Analítica ou Filosofia da Linguagem Ordi­ nária, e que tem como resultado principal para os estudos lingüísticos a Teoria dos Atos de Fala. Depois do impacto do ensaio de Ryle, Systematic misleading expressions, de 1932, foi aberto o espaço para se debater como as construções gramaticais podem levar a confusões lógicas ineficientes entre filósofos e filósofas. Na es­ teira dessa abertura, Austin foi quem melhor expôs o problema, discutindo a materialidade e historicidade das palavras. Seus estudos procuraram refletir sobre a possibilidade de uma teoria que explicasse questões, exclamações e sentenças que expressam comandos, desejos e concessões. A Teoria dos Atos de Fala, que tem por base conferências de Austin publicadas postumamente em 1962 sob o título How to do things with words (Austin, 1990), concebe a linguagem como uma atividade construída pelos/as interlocutores/as, ou seja, é impossível dis­ cutir linguagem sem considerar o ato de linguagem, o ato de estar falando em si — a linguagem não é assim descrição do mundo, mas ação.

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Uma das distinções mais importantes feitas por Austin nesta sua defesa dos atos de fala é entre os enunciados performativos, como aqueles que reali­ zam ações porque são ditos, e os enunciados constativos, que realizam uma afirmação, falam de algo. O exemplo abaixo: (7)

Eu te batizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

é um enunciado performativo pois, como os anteriormente citados (3) e (4), “pratica” uma ação enquanto é enunciado. Somente proferindo “Eu te batizo” é que o padre pode batizar alguém, e isso é o que caracteriza, a performatividade. Por outro lado, Austin propõe a existência de enunciados constativos, como os representados pelo exemplo abaixo: (8)

A mosca caiu na sopa.

Neste caso (8), não havería uma ação praticada, ao contrário, a ação [a mosca cair na sopa] já ocorreu e provavelmente por isso há o enunciado. A análise dos contrastes entre esses tipos de enunciados, o performativo e o constativo, levou Austin a prosseguir no raciocínio e aventar a separação de níveis de ação lingüística através de enunciados. Ele propôs chamar atos locucionários aqueles que dizem alguma coisa; atos ilocucionários, aqueles que refletem a posição do/a locutor/a em relação ao que ele/a diz; e atos perlocucionários, aqueles que produzem certos efeitos e conseqüências sobre os/as alocutários/as, sobre o/a próprio/a locutor/a ou sobre outras pessoas. Es­ ses três níveis atuam simultaneamente no enunciado. Para entender melhor, ve­ jamos uma rápida análise: (9)

Eu vou estar em casa hoje.

Em (9), o ato locucionário seria o conjunto de sons que se organizam para efetivar um significado referencial e predicativo, quer dizer, para efetivar uma proposição que diz alguma coisa sobre “eu”. O ato ilocucionário é a força que o enunciado produz, que pode ser de pergunta, de afirmação, de promessa etc., o que, neste caso de (9), fica diluído entre uma promessa e uma afirmação, depen­ dendo do contexto em que é enunciado. O ato perlocucionário é o efeito produ­ zido na pessoa que ouve o enunciado: efeito de agrado, pois gostaria de estar mais tempo em casa com quem enunciou (9); ou efeito de ameaça, pois vai se sentir vigiada por aquela presença na casa, e assim por diante. Uma constatação importante é que os atos de fala são muitas vezes de efeito ambíguo, podendo expressar tanto uma promessa quanto uma ameaça, e

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assim por diante. Para solucionar o dilema, falantes costumam se basear em indícios explicitados no momento da fala, ou amplamente percebidos na rela­ ção entre as pessoas que falam. Dessa forma, podemos dizer que os atos de um enunciado ocorrem simultaneamente, são relativos ao contexto de fala e às pes­ soas que falam, e são interpretáveis com uma amplitude muitas vezes difícil de ser descrita nos limites de uma análise lingüística. Nos cursos que deram origem à obra How to do things with words, Austin dedica-se principalmente aos verbos performativos, ligando as realidades tanto verbal quanto não-verbal. O grande furor causado inicialmente pela idéia de performatividade tinha a ver com a impossibilidade, ditada pelo próprio Austin, de manter a distinção verdadeiro/falso para esses tipos de enunciados. Em 1958, num encontro de Royaumont — França, um filósofo questionou longamente Austin, argumentando que um enunciado performativo poderia ser sim verda­ deiro ou falso no que se relaciona àquele que fala, ou no sentido do próprio ato em si. Austin respondeu de forma insistente: Pode-se dizer de um ato que ele é útil, que é conveniente, que ele é mesmo sensa­ to, não se pode dizer que ele seja true or false. Qualquer que seja ele, tudo que posso dizer é que os enunciados desse tipo são muito mais numerosos e variados do que se acreditava9.

Neste famoso debate, para sustentar a impossibilidade de atribuição de valor de verdade para os enunciados performativos, Austin trata de mostrar como muitos enunciados com aparência de constativos são de fato performativos, como é o caso de “Eu te digo para fechar a porta”. Esse seu argumento desvela uma outra ousadia de Austin: ele próprio jamais sentiu inteira satisfação com a dis­ tinção constativo-performativo, e questionou-a, chegando mesmo a atestar a impossibilidade de sustentá-la. Austin finalmente estabelece que o tal de constativo nada mais era de fato senão um performativo mascarado10.

Mas a teoria austiniana firmou-se na Lingüística, de fato, pela via da interpretação de John Searle, em Speech acts, de 1969 (Searle, 1981). O tra­ balho de Searle empenhou-se no sentido de produzir um acabamento nas inú-

9. Austin, J. L. Performativo-constativo. In: Ottoni, P. R. Visão performativo da linguagem. Campi­ nas, Editora da UNICAMP,1998, p. 132. 10. Rajagopalan, K. Dos dizeres diversos em tom o do fazer. D .E .LT.A ., v. 6, n. 2, 1990, p. 237.

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meras reviravoltas11 que Austin efetiva em sua reflexão sobre a linguagem. Um exemplo disso é a taxonomia para os atos de fala proposta por Searle, que inclusive procurou deixar clara a distinção entre ato ilocucionário e verbo ilocucionário. Searle defendeu que os atos de fala possuem um componente básico: a proposição, o que orientaria, por meio de doze “dimensões de vari­ ação”, a sua classificação. Austin, por seu lado, também havia arriscado algu­ mas tentativas taxonômicas, mas percebeu cedo uma certa falta de nitidez para essa classificação1112. Outros autores, como Jacques Derrida (1991), procuraram ler a obra de Austin com conseqüências bem mais radicais e problematizadoras que a organi­ zação proposta por Searle. Para autores como Derrida, a Teoria dos Atos de Fala não é uma simples bipartição entre enunciados constativos e enunciados performativos, ou um levantamento de níveis de ação lingüística. A teoria de Austin, para Derrida, expõe a dimensão ética da linguagem, porque leva às últi­ mas conseqüências a identidade entre dizer e fazer e insiste na presença do ato na linguagem, e não aceita separação entre descrição e ação. Não existe assim diferença entre “dizer” (9) e a ação praticada em (9). Quando uma pessoa emite (9), ela pratica uma ação, e não descreve algo — a saber, “o fato de que vai ficar em casa hoje”. O ato locucionário, aquele que diz algo, é, portanto, uma abstra­ ção. Os diferentes níveis não existem senão na proposta de separação. Derrida assim interpreta a teoria da performatividade: O performativo não tem o seu referente (mas aqui esta palavra não convém sem dúvida, e constitui o interesse da descoberta) fora de si ou, em todo o caso, antes de si e face a si. Produz ou transforma uma situação; opera13.

Assim, os atos de fala são hoje fonte inesgotável de trabalhos na área da Pragmática, mas também na Lingüística em geral. Vale lembrar que se vascu­ lharmos outras áreas de estudos lingüísticos também encontraremos trabalhos que levam em conta os atos de fala em suas análises. Não se pode dizer propria­ mente que todos esses trabalhos são seguidores da teoria austmiana; mas o que de fato ocorreu foi que a popularização dos trabalhos de Austin, por intermédio de estudiosos e estudiosas francesas e principalmente da divulgação feita por 11. Incluem-se aí os questionamentos de Austin sobre o valor veritativo dos atos de fala, ou mesmo suas dúvidas sobre a distinção performativo-constativo. 12. Para um debate mais aprofundado sobre a questão da taxonomia para os atos de fala, ler Rajagopalan (1992). 13. Derrida, J. Assinatura, acontecimento, contexto. In: Margens da Filosofia. Campinas, Papirus, 1991, p. 363.

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Searle, abriu espaço para a preocupação com uma realidade lingüística bastante incômoda: o fato de que aquilo que dizemos tem efeito altera o sentido e funci­ onamento lingüísticos. No início da década de 1970, até as famosas árvores gerativistas incorpo­ raram os atos de fala em seus galhos. Com o tempo, esse fenômeno se abrandou, mas a leitora e o leitor vão encontrar em muitos trabalhos menções à Teoria dos Atos de Fala. Na Semântica, na Lingüística Textual, na Análise Conversacional, na Análise do Discurso e em muitos outros lugares, para criticar ou reverenciar, para ser fiel a Austin ou para lhe fazer “consertos”, a Teoria dos Atos de Fala tem sido tanto um mero instrumento para explicar efeitos da linguagem em uso, como a relevância de uma promessa ou a eficácia de uma ordem, como no caso dos trabalhos de Searle (1981), quanto tem sido fonte de reflexão não somente sobre a prática do uso lingüístico mas principalmente sobre a teorização desta prática, como no caso das reflexões de Rajagopalan (1990).

2.3. Estudos da comunicação

Genericamente definido aqui como estudos da comunicação, esse grupo de pesquisas pragmáticas se caracteriza por ser um híbrido dos dois grupos an­ teriores. Híbrido porque podemos encontrar neste grupo autores que utilizam ambos os métodos descritos anteriormente, acrescentados muitas vezes de re­ novadas leituras do Pragmatismo americano ou da Teoria dos Atos de Fala. O que os toma diferentes dos demais é o crédito a teorias filosóficas historicistas que estavam em situação de ausência ou de pouca expressividade nas duas cor­ rentes anteriores. Desde quando os estudos marxistas promovidos em todos os campos das chamadas ciências sociais tomaram conta da Europa14, questões relativas à co­ municação humana começaram a ser levantadas com a seriedade e a sistematicidade necessárias para firmar um novo paradigma. O pano de fundo dessas questões era especialmente a diferença de classes. Isso quer dizer que, de uma maneira geral, muitos autores e autoras se perguntavam o que significaria a diferença de classe social para a comunicação entre pessoas. Outras estudiosas e estudiosos, que não seguiram o ímpeto das investiga­ ções marxistas, também empenhados sobre problemas relativos à comunicação, elaboraram perguntas sobre as perguntas que estavam sendo feitas e inaugura­

14. Ver outros detalhes sobre os estudos marxistas no capítulo “Análise do Discurso”, neste volume.

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ram uma linha de inquirição para avaliar como estava sendo tratado o problema da comunicação no âmbito da Filosofia, da Linguística, da Etnologia e das ciên­ cias sociais em geral. A reavaliação do conceito de cooperação é um exemplo de resultado des­ sa linha de inquirição. De acordo com Grice, o introdutor desse conceito, para haver comunicação seria preciso haver cooperação entre os usuários. Seria pos­ sível inclusive levantar os princípios que regem o espírito cooperativo de comu­ nicação. Grice elaborou, em meados da década de 1960, um quadro de implicaturas conversacionais, ou seja, de regras que deveriam estar presentes no suces­ so de todo e qualquer ato de linguagem15. Jacob L. Mey (1987) é um excelente exemplo de como, a partir da Pragmática, é possível questionar severamente a cooperação comunicativa: ele discute como a noção de cooperação sustenta a ideologia da “parceria social”, pois apresenta o uso da linguagem como uma parceira igualitária e livre entre falantes. Seguindo uma linha crítica como a de Mey, atuais pragmatistas apostam em comunicação como trabalho social, realizado com todos os conflitos conseqüentes das relações na sociedade. Ou seja, os conflitos das relações entre ho­ mens e mulheres, entre professor/a e aluno/a, entre brancos/as e negros/as, ou entre judeus/judias e anti-semitas, podem ser identificados lingüisticamente. Acredito que você possa perceber facilmente essa linha argumentativa por meio da análise deste mesmo texto que você está lendo. Algumas pessoas, ao lerem um texto como este, sentem um certo desconforto com a presença cons­ tante do feminino na caracterização genérica, como “estudiosas e estudiosos da Pragmática”, o que significa a negação de que o masculino possa representar tanto homens quanto mulheres. Outras pessoas talvez não se sintam desconfortá­ veis, mas ao menos estranham essa insistência. Diante dessas reações se pode perguntar: por que manter o feminino nas caracterizações? Não pode o masculi­ no ser o genérico? Muitos estudos pragmáticos respondem a essas perguntas da seguinte forma: existem pesquisadoras pragmatistas, mulheres que estudam e produzem materiais de qualidade nos estudos introdutórios da Pragmática? Sim; só para citar: Jenny Thomas (1995), Marcella Bertuccelli-Papi (1993), Brigitte Schlieben-Lange (1987). Referi-las pelo masculino é ser sexista, ou seja, é manter simbolicamente o masculino como melhor representante do gênero humano. Em trabalho baseado nas Propostas para evitar o sexismo na linguagem, publi­ cado pelo Instituto da Mulher da Espanha, lemos:

15. Para maiores explicações, ver o capítulo “Análise da Conversação”, neste volume.

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Quando se estabelecem as normas lingüísticas de uma perspectiva sexista, se pre­ judica diretamente as mulheres e indiretamente toda a sociedade1617.

Assim, pragmatistas dos estudos da comunicação, preocupados/as em deba­ ter os conflitos sociais que são também lingüísticos, devolvem as perguntas com outra: por que não tomar visíveis lingüisticamente homens e mulheres? O descon­ forto ou estranhamento produzido por uma ação assertiva (a de se textualizar também o feminino nas caracterizações de estudiosos e estudiosas) é prova de que conflitos entre homens e mulheres podem ser identificados lingüisticamente, se se considera a linguagem como um trabalho social pleno de conflitos sociais. Qualquer tentativa de descrição da comunicação que exclua aspectos so­ ciais é considerada inócua e ineficiente para a pesquisa pragmática. A lingua­ gem não é, portanto, meio neutro de transmitir idéias, mas sim constitutiva da realidade social. Não sendo “a realidade social” um conceito abstrato, mas o conjunto de atos repetidos dentro de um sistema regulador, a linguagem é sua parte presente e legitimadora, e deve ser sempre tratada nesses termos. Desde a Escola de Frankfurt, com os trabalhos de Jürgen Habermas (1988) sobre a ação comunicativa, às teorias da desconstrução de Jacques Derrida, as mais diversas formas de pensar a linguagem como parte da realidade social, e não seu espelho, estão sendo elaboradas. Essa diversidade, se não ajuda a iden­ tificar temas definidos da Pragmática, pelo menos tem impedido a exclusão das mais variadas formas dos fenômenos da linguagem. Roy Harris (1981), por exemplo, defende que somente levando-se em con­ ta o que é metodicamente excluído na Lingüística tradicional podemos desmitificar as nossas idéias sobre as regras de funcionamento da linguagem. Assim, podemos perguntar: como usos inovadores e não-dicionarizados de palavras ou mesmo estruturas sintáticas da língua são tratados nas pesquisas? Ou: como a incoerência de ações produzidas por atos de fala são relegadas ao plano do “mal-entendido a ser corrigido”? Essas exclusões, quando debatidas, podem dar conta de problemas que atormentaram lingüistas durante muito tempo. Uma garotinha que está na ponta dos pés, com o mato alcançando seus joelhos, diz: (10)

Olhe, mãe, vai certinho até minhas dobras'.'7

16. PROMUJER, Hacia un currículo no sexista. Puerto Rico, Universidad, 1992. 17. O exemplo é de Harris (1981) e o original em inglês é o que se segue: “Look, mummy, it comes right up to my hinges”. Harris, R. The language myth. Oxford, Duckworth, 1981, p. 152.

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o que ela quis dizer? A mãe sabe, ainda que ela nunca tenha ouvido esse uso de “dobras”. E nós que lemos o exemplo também o compreendemos. Uma situação como esta tem sido tomada pela Lingüística tradicional como exemplo para a distinção “necessária” entre conhecimento lingüfstico e conhecimento pragmá­ tico, ou conhecimento contextual, conhecimento de mundo etc., resumidamen­ te, a distinção entre conhecimento lingüfstico e conhecimento extralingüístico. Assim, o problema não é de fato levado a sério, pois reduz a questão a decidir entre a falta de conhecimento lingüfstico, ou a falta de conhecimento extralin­ güístico. Para os estudos da comunicação atuais, a questão principal é “como a mãe sabe, se esse uso não é devido?”. Ou, com um pouco mais de crítica, “como o uso é indevido se a mãe sabe?”. Sendo o uso da linguagem lugar de conflito, ele situa também negociações, modificações, recusas. Isso torna inevitável as ino­ vações, e mais inevitável ainda que para se falar em linguagem tenha-se que falar em fatos até então considerados como não-linguagem. Esses argumentos enfrentam a constante crítica de não estarem de fato “fazendo Lingüística”, mas sociologia, ou qualquer coisa do gênero. Afinal, em que interessariam proble­ mas que não legitimam a idéia de Lingüística como ciência? Dizer que lingua­ gem não é puramente convencional implica assumir a impossibilidade de des­ crever o fenômeno lingüfstico inteira e sistematicamente. O contra-argumento principal a essa crítica é que a demarcação dos limi­ tes entre linguagem e mundo, ou entre linguagem e sociedade é uma tarefa inglória e reducionista. Em outras palavras, pensar que incluir aspectos sociais chama­ dos “extralingüísticos” em uma análise leva ao risco de não se “fazer Lingüísti­ ca”, desvirtuando o campo sagrado do saber sobre a língua, é o mesmo que pensar que aulas de educação sexual vão fazer as pessoas terem mais relações sexuais. E uma desculpa frágil para não expor a própria frustração de não apre­ ender o objeto de estudo por inteiro. /

Defendendo essas posições, os estudos da comunicação seguem procuran­ do ampliar as possibilidades de objetos de estudo de lingüistas, tirando a criatividade do nível da mera estatística.3

3. DIVULGAÇÃO E IMPACTO ATUAL DA PRAGMÁTICA

No final da década de 1970 e início da de 80, a Pragmática começou a ser levada a sério. Nessa época os estudos que vinham discutindo os componentes pragmáticos da linguagem chamam a atenção e merecem várias publicações, entre periódicos e livros inteiros.

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Em 1977, inúmeros artigos autoproclamados pragmáticos são enviados para edição no recém-criado Journal ofPragmatics, que abre o primeiro espaço de prestígio para as pesquisas que se preocupavam com o uso lingüístico. Em 1978, Jef Verschueren publica a primeira bibliografia comentada sobre Prag­ mática. Logo em seguida, em 1979, Richard Rorty publica o seu A filosofia e o espelho da natureza, trazendo novamente para as rodas filosóficas as idéias de William James. Dois anos depois, em 1981, inicia-se a edição do Language and Communications oferecendo aos leitores e leitoras discussões centradas na prá­ tica da comunicação humana. Nesse mesmo ano, Roy Harris publica The language myth, questionando a ausência sistemática, nos trabalhos lingüísticos, de perguntas sobre aspectos criativos da linguagem. No Brasil, Marcelo Dascal edita, em 1982, uma coletânea de textos filosóficos clássicos para a consolida­ ção da Pragmática. Já pelos meados da década de 1980, outros trabalhos com perspectivas completamente diferentes, como de Jacob L. Mey, de 1985, e o de Brigitte Schlieben-Lange, de 1987, se acrescentam ao debate em tomo da per­ gunta “qual o objeto da Pragmática?”. Está inflamada a área dos estudos pragmáticos. A atividade lingüística ganha um espaço cada vez mais freqüente na Lingüística. Trabalhos discutem a relação dos signos com a prática da linguagem para evidenciar o processo ino­ vador da conversação humana. Aspectos lingüísticos são sistematicamente sub­ metidos a exame para valorizar sua condição de constituinte social. As varia­ ções sintáticas e fonológicas são estudadas pela sua significação social para os/as falantes. O bilingüismo é analisado como construtor e mantenedor das hierar­ quias sociais em países colonizados. Os relatos de mulheres são interpretados no que transmitem de suas auto-imagens e das imagens que o universo masculi­ no tem delas. Para pragmatistas que utilizam dados empíricos em seus trabalhos, ques­ tões sobre racismo e sexismo, sobre diferenças socioeconômicas, sobre ética ou sobre relações de poder não são mais consideradas como detalhes surgidos ao acaso em pesquisas centradas na língua pela língua. Ao contrário, a Pragmática está defendendo um quadro de pesquisa sobre, para e com os sujeitos sociais1*; um quadro metodológico que permita aos pesquisadores e pesquisadoras interagirem integralmente com suas informantes e seus informantes, discutir com elas e eles seus interesses e avaliar a repercussão de afirmações conclusi­ vas do trabalho teórico.*

18. Para maiores detalhes, consultar Cameron et al. (1993).

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Para pragmatistas que se dedicam a levantar problemas teóricos do estudo da linguagem, questões sobre o papel da linguagem na formação do sujeito, sobre a noção de unicidade e identidade linguísticas, sobre a imprevisibilidade e a criatividade como propriedades lingüísticas, sobre a própria condição do fazer teórico lingüístico não podem mais ficar relegadas ao plano das especulações. Conforme apontei na seção anterior, a criatividade é uma constante na realização da linguagem, de tal modo que leva a negociações, modificações, recusas, o que entre sociolingüistas é conhecido como fenômenos de variação e mudança'9. Isso leva à imprevisibilidade no sistema descrito: é impossível des­ crever e/ou prever todas as estruturas e combinações existentes numa língua. É fundamental perguntar-se como o signo mantém a sua unicidade, como conti­ nua sendo o mesmo através de repetições tão diferentes, e como, ao mesmo tempo, continua a ser intercambiável, como se sua unidade fosse fragmentada, fazendo, perdendo e refazendo todo tempo o próprio limite. É definidor pergun­ tar-se o que é identidade lingüística, e como ela se produz, tendo em vista que, ao contrário do que muitos/as lingüistas pensam, a linguagem não reflete o lu­ gar social de quem fala, mas faz parte desse lugar social: Identidade não pré-existe à linguagem. Falantes têm que marcar suas identidades assídua e repetidamente1920.

A repetição é necessária para sustentar a identidade, precisamente porque ela não existe fora dos atos de linguagem que a sustentam. Temas como esses, e as posições teóricas e éticas que os acompanham, são polêmicos porque estão sendo construídos para mostrar que o uso lingüístico não é, como queria Carnap, um dos componentes da linguagem, mas a única forma produtiva de se pensar os fenômenos lingüísticos. Dizer éfazer, a prática social que chamamos linguagem é, para a Pragmática atual, indissociável de suas conseqüências éticas, sociais, econômicas, culturais. No estágio de desenvolvimento atual das razões filosóficas que a forma­ ram, a saber, do Pragmatismo americano, da Teoria dos Atos de Fala e dos atuais estudos da comunicação, esta polivalente área da Lingüística não deixa de acompanhar e aprofundar todas as implicações teóricas do fato de que as manifestações e empregos da linguagem são paradoxalmente dependentes e re19. Recomendo que o leitor busque saber mais sobre variação e mudança e repare nas diferenças de enfoque entre a Pragmática e a Sociolingüística. Ver, então, o capítulo “Sociolingüística” (partes I e II) no volume I desta obra. 20. Cameron, D. Verbal hygiene. London, Routledge, 1995, p. 17.

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sistentes às usuárias e usuários. Nem centro nem periferia da linguagem, “falan­ te”, pela óptica da Pragmática, é tanto ator ou atriz da relação de intercompreensão quanto participante e reprodutor/a das instabilidades do processo de vida social que coordena essa ação. Espero que o leitor e a leitora possam ter compreendido um pouco de como a Pragmática se consolidou como a ciência do uso lingüístico. O campo não se esgota. Muitos ainda são os temas que podem ser abordados num estudo pragmá­ tico: tanto fenômenos concretos, quanto a própria teorização do fazer pragmático. No enfoque pragmático, o interesse por cada ponto a ser analisado é sempre um ganho quando não se quer deixar de fora da linguagem quem a faz existir: nós. BIBLIOGRAFIA

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ANALISE DA CONVERSAÇÃO A

Angela Paiva Dionísio

1. PARA INÍCIO DE CONVERSA...

Os estudos mais recentes na área da interação verbal definem a linguagem como uma forma de ação conjunta (Clark, 1996; Marcuschi, 1998a), que emer­ ge quando falantes/escritores e ouvintes/leitores realizam ações individuais, coordenadas entre si, fazendo com que tais ações se integrem, formem um con­ junto. Usar a linguagem consiste, portanto, em realizar ações individuais e so­ ciais. Estamos sempre fazendo algo com a linguagem. Conversar, por exemplo, é uma atividade social que desempenhamos desde que começamos a falar. No dia a dia, estamos conversando com alguém, convidando alguém para conver­ sar, puxando conversa com um outro. Na década de 1980, em nosso país, foi lançado o primeiro livro nesta área com o título Análise da Conversação, de autoria do professor Luiz Antônio Marcuschi. Segundo esse autor, “a conversa­ ção é a primeira das formas de interação a que estamos expostos e provavel­ mente a única da qual nunca abdicamos pela vida afora”1. Quando se diz aqui “conversação” está se tratando de todas as formas de “interação verbal” exis­ tentes em nossa sociedade, embora alguns estudiosos dessa área a concebam 1 1. Marcuschi, L. A. Análise da conversação. São Paulo, Ática, 1986, p.14.

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como apenas as interações verbais face a face em que há “simetria de direitos e espontaneidade na realização do evento”2. Ainda segundo esse autor, é sugestivo, portanto, conceber a conversação como algo mais do que um simples fenômeno de uso da linguagem em que ativa o código. Ela é o exercício prático das potencialidades cognitivas do ser humano em suas relações interpessoais, tor­ nando-se assim um dos melhores testes para a organização e funcionamento da cognição na complexa atividade da comunicação humana. Neste contexto a lín­ gua é um dos tantos investimentos, mas não o único, o que permite uma análise de múltiplos fenômenos em seu entrecruzamento3.

A Análise da Conversação (AC) consiste numa abordagem discursiva que teve origem na década de 1960, ligada aos estudos sociológicos, ou, mais espe­ cificamente, à Etnometodologia,4com os trabalhos de Harold Garfinkel, Harvey Sacks, Emanuel Schegloff e Gail Jefferson. Enquanto os sociólogos reconhe­ cem que a conversação nos diz algo sobre a vida social, ao procurarem respon­ der a questões do tipo “como nós conversamos?”, os lingüistas da Análise da Conversação perguntam “como a linguagem é estruturada para favorecer a con­ versação?” e reconhecem que a conversação nos diz algo sobre a natureza da língua como fonte para se fazer a vida social (Eggins & Slade, 1997). Para a Etnometodologia, os analistas devem ser sensíveis aos fenômenos interacionais, observando detalhes e conexões estruturais existentes no proces­ so interativo. Motivados por esses princípios, os estudiosos da AC, nestas três décadas de trabalho, procuram investigar os aspectos essenciais para a organi­ zação do texto conversacional. Hilgert (1989) aponta três níveis de enfoque da estrutura conversacional:5 a) macronível: estuda as fases conversacionais, que são abertura, fecha­ mento e parte central e o tema central e subtemas da conversação; b) nível médio: investiga o turno conversacional, a tomada de turnos, a seqüência conversacional, os atos de fala6e os marcadores conversacionais; 2. Marcuschi, L. A. Perspectivas dos estudos em interação social na Lingiiística brasileira dos anos 90. Recife, 1998a, p. 7. (Mimeografado.) 3. Ibidem, p. 6. 4. A Etnometodologia “tem como objeto de estudo (a) as atividades práticas do cotidiano, o que implica (b) o caráter empírico desse estudo, além disso, supõe (c) um princípio de organização na realiza­ ção dessas atividades pelos membros do grupo social”. Hilgert, J. G. A paráfrase: um procedimento de constituição do diálogo. Tese de doutorado. PUC-SP, 1989, p. 80. 5. A análise desses níveis se encontra diluída no desenrolar deste capítulo. Em função disso, faremos agora apenas uma apresentação mais geral. 6. Ver o conceito de atos de fala no capítulo “Pragmática”, neste mesmo volume.

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c) micronível: analisa os elementos internos do ato de fala, que consti­ tuem sua estrutura sintática, lexical, fonológica e prosódia7. Dentre as razões que justificam o estudo da conversação, podemos apon­ tar: (i) é a prática social mais comum do ser humano, (ii) desempenha um papel privilegiado na construção de identidades sociais e relações interpessoais, (iii) “exige uma enorme coordenação de ações que exorbitam em muito a simples habilidade lingüística dos falantes”,8 (iv) permite que se abordem questões en­ volvendo “a sistematicidade da língua presente em seu uso e a construção das teorias para enfrentar essas questões”9. Quando estamos conversando, estamos sempre abordando um ou mais de um assunto, um ou mais de um tópico discursivo101, não importa se os temas são sérios, fundamentais para a vida dos interlocutores, para o bem-estar do país, do mundo ou se estamos “jogando conversa fora”. O importante é a existência de algo e sobre o qual duas pessoas, pelo menos, estão conversando. O tópico discursivo pode ser definido como uma atividade em que há uma certa corres­ pondência de objetivos entre os interlocutores (Fávero, 1992) e em que há um movimento dinâmico da estrutura conversacional (Jubran et al, 1992), fazendo com que o tópico seja um elemento fundamental na constituição do texto oral. A organização tópica compreende duas propriedades básicas, que são a centração e a organicidade. A primeira propriedade diz respeito ao conteúdo, ou seja, diz respeito ao falar-se sobre alguma coisa, enquanto a segunda se refere às rela­ ções de interdependência que são estabelecidas entre os tópicos de uma conver­ sação. A conversa espontânea se constrói a cada intervenção dos interlocutores, ou seja, a elaboração e a produção ocorrem, simultaneamente, no mesmo eixo temporal. É uma atividade co-produtiva, que “nunca se pode prever com exati­ dão em que sentido o parceiro vai orientar a sua intervenção”,11 o que não signi-

7. H ilgert, J. G. O p. cit. 8. M a rc u sc h i, L. A. A nálise da conversação. S ão P au lo , Á tica, 1986, p. 5. 9. M arcu sch i, L. A. Perspectivas dos estudos em interação social na Lingüística brasileira dos anos 90. R e c ife , 1998a, p. 6. (M im e o g ra fa d o ) 10. U m a das dificuldades encontradas pelos analistas da conversação se refere à definição do term o tópico discursivo, tendo em v ista o “caráter vago e am plo do sig n ificad o de assunto, e do conseqüente grau de subjetividade que preside a própria com preensão dessa noção” ; (...) e o “fato de que a associação de assunto e tema to m a a explicação circular, na m edida em que o conceito de tema carece, igualm ente, de um a d efin ição p recisa” (Ju b ran , C. C. A. S. et al. O rg an ização tó p ic a da co n v ersação . In: Ilari, R. (o rg .) G ram ática do P ortuguês fa la d o . C a m p in a s, E d ito ra d a U N IC A M P , 1992, pp. 3 6 0 -3 6 1 . 11. K o ch , I. G. V . O texto e a construção dos sentidos. S ão P au lo , C o n te x to , 1997, p. 116.

IN T R O D U Ç Ã O À LINGUÍSTICA

72

fica que sua organização seja caótica ou aleatória. As contribuições dos falantes devem demonstrar, de alguma forma, uma relação com o curso da conversa, pois a conversação é uma atividade semântica, ou seja, um processo de produ­ ção de sentidos, altamente estruturado e funcionalmente motivado. Durante uma conversação, recorremos freqüentemente a enunciados do tipo “isso me lembra”, “por falar em”, “agora”, “mudando de assunto”, “voltan­ do ao assunto” para sinalizar que estamos compartilhando cognitivamente da interação. Ainda empregamos enunciados do tipo “desculpe interromper a con­ versa de vocês, mas...” quando nos inserimos em interações de que não somos participantes. Marcuschi (1998a) destaca que “uma conversação fluente é aque­ la em que a passagem de um tópico a outro se dá com naturalidade, mas é muito comum que a passagem de um tópico a outro seja marcada”.12A determinação e a extensão de um tópico discursivo depende da anuência mútua dos interlocutores. A estrutura tópica serve, portanto, como “fio condutor de organização discursiva”, constituindo um traço fundamental para “definir os processos de entrosamento e colaboração entre os falantes na determinação dos núcleos comuns” e para “demonstrar a forma dinâmica pela qual a conversação se estrutura”13. Há uma linearidade na construção do tópico discursivo, que garante a organicidade da interação, pois “o conjunto de relevâncias em foco em dado momento vai, paulatinamente, cedendo lugar a outros conjuntos de relevâncias, ligadas a aspectos antes marginais do tópico em desenvolvimento ou a novos conjuntos de mencionáveis que vão sendo introduzidos a partir dos já existentes”14. Obser­ vando os segmentos (1) e (2) a seguir, conclui-se que há conversações em cada um deles e que há um tópico sobre o qual se constrói a interação. No segmento (1), dois interlocutores (Dora e Josué) discutem sobre uma viagem a ser realiza­ da (tópico discursivo) e no segmento (2), os três interlocutores [duas mulheres (M33 e M34) e um homem (H28)] discutem sobre o comportamento feministamachista de M34 (tópico discursivo). (D Josué: E u vo u so zin h o . D ora:

Eu j á d isse q u e eu vou c o m v o cê.

Jo sué: E u n ão q u e ro ir c o m você. D ora:

E por quê?

12. Marcuschi, L. A. Perspectivas dos estudos em interação social na Linguística brasileira dos anos 90. Recife, 1998a, p. 14. (Mimeografado) 13. Ibidem. 14. Koch, I. G. V. Op. cit., p.116.

A N Á L IS E D A C O N V E R S A Ç Ã O

73

Josué: Porque eu não gosto de você. Dora (aflita): E por quê? Josué: Já te falei. Porque você não vale nada. Dora: Como é que você vai chegar lá, quer me explicar? Josué: Deixa um pouco de dinheiro pra eu comer. {Fonte: Central do B rasil , 1998, pp.44-45) 9

( 2)15

Contexto : Três alunos (duas mulheres (M33 e M34) e um homem (H28)) universitários do Curso de Letras conversando em uma sala, esperando começar a aula. Sabem da gravação, bora gente... tenho aula... () daqui a () minutos 01 H28 sinceramente...se fosse se fosse uma oculta era muito melhor 02 M33 não... isso é besteira... o papo rola... a gente já falou aqui quem 03 H28 é feminista...[M.H. 04 05 M34 [M.H.... é ((rindo)) 06 H28 é você não tem nada a ver 07 M34 [do-minadora 08 H28 [dominadora não... é o seguinte... eu acho que... é um assunto 09 M34 10 que não se entra em discussão porque são direitos iguais e 11 acabou-se se... então não tem o que discutir... 12 H28 mas... mas eu noto assim 13 M33 [[mas eu garanto que muita coisa 14 H28 [[eu acho eu acho é a autoridade... você você você é a favor do do machismo 15 M33 por isso eu digo por isso eu digo que eu sou meio feminista 16 17 H28 você é uma feminista machista isso não existe 18 M34 é... existe... [você () do homem... 19 H28 [pera aí... você acha... pera aí... pera aí 20 M33 você acha machismo do homem... mas você é assim... veja 21 H28 bem., você acha assim o machismo do homem... mas você tem que analisar 22 assim a mulher pode ser machista pelo lado dela [tá entendendo? 23 24 M34 [lógico... admito ser que a mulher pode machista só que eu tô querendo dizer é o 25 seguinte que [eu não sou feminista 26 .

\



15. Os textos orais utilizados neste artigo respeitam a form a de transcrição original das fontes de ond foram extraídos.

74

27 28 29 30 31 32 33

I N T R O D U Ç Ã O À LIN G Ü ÍS T IC A

M33 M34

[mas ela é contra a mulher machista... sabia? eu sou a favor de direitos iguais... com isso eu não tô querendo é dizer que... é: o homem num deva... num possa ser cavalheiro [porque... M33 [mas M34 isso aí ele tá deixando... tá... não... M33 isso faz parte do machismo... M34 o cavalheirismo num faz parte do machismo {Fonte: Projeto Linguagem da Mulher, Elisabeth Marcuschi e Judith Hoffnagel, UFPE, 1989)

No que diz respeito às condições de produção, é clara a distinção entre as interações. Em (1), fragmento do roteiro do filme Central do Brasil (1998), os interlocutores seguem um planejamento discursivo previamente elaborado, as­ sim como acontece nas novelas, nas peças de teatro, por exemplo. Esse tipo de interação simboliza a conversação artificial. Já em (2), fragmento de uma conversa informal entre pessoas conhecidas, é possível perceber que a interação se dá de forma natural e informal, tendo em vista que é relativamente nãoplanejada, ou seja, a construção da interação vai sendo “planejada e replanejada a cada novo ‘lance’ do jogo da linguagem” 16. O planejamento ocorre no momen­ to da interação, ou seja, a conversação é localmente planejada. Os interlocutores constroem conjuntamente a interação, caracterizando a conversação como uma atividade co-produtiva, tendo em vista que eles estão empenhados na produção do texto falado. E claro que em Central do Brasil os personagens também estão envolvidos na construção de sentido da interação, porém se trata de uma simulação das interações reais, naturais, entre os indivíduos na sociedade em que estão inseridos. O objeto de estudo da AC é justamente a conversação natural, ou seja, aquelas que são produzidas em situações naturais. /

/

E importante destacar que a conversação natural apresenta variedades no grau de formalidade. Estabelecendo uma gradação do informal para o formal, podemos observar que há conversações mais informais, como as conversas es­ pontâneas, por exemplo, ao lado de outras bem mais formais, como as conferên­ cias acadêmicas. Ao abordar as diferenças entre fala e escrita, Marcuschi (1995) assegura que essas diferenças se dão dentro do “continuum tipológico das práticas sociais de produção textual e não na relação dicotômica de dois pólos opostos”,17 pois as estratégias de formulação textual que determinam o contínuo

16. Koch, I. G. V. Op. cit., p.63. 17. Marcuschi, L. A. Oralidade e escrita. Conferência pronunciada durante II Colóquio FrancoBrasileiro sobre Linguagem e Educação. Natal, UFRN, 26-28 de junho de 1995, p. 14.

A N A LIS E D A C O N V E R S A Ç Ã O

75

apresentam variações estruturais, léxicas e sintáticas, entre outras, que são res­ ponsáveis pelas semelhanças e diferenças entre fala e escrita.

2. DADOS ORAIS: COMO TRATÁ-LOS?

Antes de prosseguirmos com a apresentação e análise de segmentos de textos conversacionais, faz-se necessário comentarmos sobre o sistema de trans­ crição empregado nas transcrições dos dados orais. Como o corpus da AC deve ser constituído por conversações produzidas em situações naturais, é ne­ cessário que tais conversações sejam gravadas ou filmadas, para que o analista, após a sua transcrição e observação, possa comprovar suas análises. Essa trans­ crição deve ser a mais fiel possível, pois “a análise tem de se concentrar neces­ sariamente na produção dos interlocutores e nunca em interpretações e adapta­ ções do pesquisador. Nesse sentido, por exemplo, representaria um grave equí­ voco que o pesquisador completasse, com base em sua interpretação, um enun­ ciado incompleto ou incompreensível da gravação ou da transcrição, e subme­ tesse essa versão à análise” 18. No livro Análise da conversação, mencionado anteriormente, é apresen­ tado, no capítulo 2, um sistema de transcrição para textos falados. Uma das observações feitas por Marcuschi (1986) diz respeito ao fato de “não existir a melhor transcrição”19. De acordo com os objetivos da pesquisa, o analista faz a transcrição assinalando o que é fundamental para suas análises. É necessário, no entanto, que a transcrição seja legível e sem sobrecarga de símbolos compli­ cados. No geral, as normas para transcrição têm seguido as orientações do Projeto de Estudo Coordenado da Norma Urbana Lingüística Culta (Projeto NURC). Essas normas estão sintetizadas no Quadro 3.1. A AC analisa materiais empíricos, orais, contextuais, considerando tam­ bém as realizações entonacionais e o uso de gestos ocorridos durante o processamento da conversação. Expressões faciais, entonações específicas, um sorriso, um olhar ou um maneio de cabeça corroboram com a construção do sentido do enunciado lingüístico que está sendo proferido, ou, ainda, podem substituir um enunciado lingüístico no processo interacional face a face. As conversas espontâneas que construímos cotidianamente estão repletas dessa mistura do verbal e do não-verbal. Steinberg (1988) sistematiza os recursos

18. Hilgert, J. G. A paráfrase: um procedimento de constituição do diálogo. Tese de doutorado. PUC-SP, p. 90. 19. Marcuschi, L. A. Análise da conversação. São Paulo, Ática, 1986, p. 9.

76

IN T R O D U Ç Ã O A LINGUÍSTICA

QUADRO 3.1. NORMAS PARA TRANSCRIÇÃO O corrências

Sinais

Exem plificação

1. Indicação dos falantes

os falantes devem ser indicados em linha, com letras ou alguma sigla convencional

H28 M33 Doc. Inf.

2. Pausas

•••

não... isso é besteira...

3. Ênfase

MAIÚSCULAS

ela comprou um OSSO

4. Alongamento de vogal

: (pequeno) :: (médio) ::: (grande)

eu não tô querendo é dizer que... é: o eu fico até:: o: tempo todo i

5. Silabação

-

do-minadora

6. Interrogação

9•

ela é contra a mulher machista... sabia?

7. Segmentos incompreensíveis ou ininteligíveis 8. Truncamento de palavras ou desvio sintático 9. Comentário do transcritor 10. Citações

bora gente... tenho aula... ( ) daqui

( ) (ininteligível)

eu... pre/ pretendo comprar

/

((

))

C6 >>

é ((rindo)) “mai Jandira eu vô dize a Anja agora que ela vai apanhá a profissão de madrinha agora mermo"

11. Superposição de vozes

[

H28. é... existe... [você ( ) do homem... M33. [pera aí... você acha... pera aí... pera aí

12. Simultaneidade de vozes

[[

M33. [[mas eu garanto que muita coisa H28. [[eu acho eu acho é a autoridade

13. Ortografia

tô, tá, vô, ahã, mhm

A N A L IS E D A C O N V E R S A Ç Ã O

77

não-verbais normalmente empregados pelos falantes de uma dada língua numa conversa em: a) paralinguagem: sons emitidos pelo aparelho fonador, mas que não fa­ zem parte do sistema sonoro da língua usada; b) cinésica: movimentos do corpo como gestos, postura, expressão facial, olhar e riso; *

\

c) proxêmica: a distância mantida entre os interlocutores; d) tacêsica: o uso de toques durante a interação; e) silêncio: a ausência de construções lingüísticas e de recursos da paralin­ guagem20. Steinberg (1988) diz que a paralinguagem é “uma espécie de m odifica­ ção do aparelho fonador, ou mesmo a ausência de atividade desse aparelho, incluindo nesse âmbito todos os sons e ruídos não-lingüísticos, tais como as­ sobios, sons onom atopaicos, altura exagerada”21. Quanto aos gestos, os audí­ veis estão no campo da paralinguagem , enquanto os visuais podem ser anali­ sados no âmbito da cinésica. Para Steinberg, os atos paralingüísticos e cinésicos desempenham funções variadas no curso da interação e de acordo com essas funções podem ser classificados como lexicais (episódios não-verbais com significado próprio, como “Shhh” para indicar “fique quieto”), descritivos (“suplementam o significado do diálogo através dos ouvidos e dos olhos”), reformadores (“reforçam ou enfatizam o ato verbal”), embelezadores (movi- . menta-se o corpo todo para realçar a fala) e acidentais (aqueles que ocorrem por acaso, sem uma função semântica). Dessa forma, a interação verbal se encontra estruturada em uma estrutura tríplice — linguagem, paralinguagem e cinésica — ,22 exigindo dessa forma dos analistas da oralidade uma postura interdisciplinar, um a vez que esses elementos estruturam a sociedade e são por ela estruturados. . ^

-





;

Falamos, portanto, com a voz e com o corpo. Por isso, o sistema de trans­ crição deve contemplar informações que assegurem o registro desses aspectos. Para exemplificar o que estamos afirmando, vejamos alguns fragmentos de con­ versas espontâneas, examinando a inter-relação entre atos lingüísticos, paralin­ güísticos e cinésicos e verificando algumas seqüências em que esses atos coocorrem. Os exemplos de (3) a (6) foram extraídos de Dionísio (1998) e nos 20. Steinberg, M. Os elementos não-verbais da conversação. São Paulo, Atual, 1988, p. 3. 21. Ibidem, p. 5. 22. Ibidem, p.16.

IN T R O D U Ç Ã O A LINGUÍSTICA

78

mostram como são construídas indicações de pessoas, de objetos, de paisagens presentes no momento da interação: (3) 566 H 03

é... o tem po num dá... pá ch eg á... m elh o ro m u ito ... aqui tá m elh o rad o m uito...

567

num tem nem co m p ara... eu saí daqui um a ép o ca... eu era g aro to assim... assim

568

((aponta p a ra uma m enina com aproxim adam ente 8 anos ))t ( ) u n s d ei z a n o ...

(4) 203 M 03

c e rta s c o is a s ... eu d ig o p e ra í... tin h a u m a b a c ia c o n fo rm e essa aqui (( pega num a

204

bacia plástica que está próxima e m ostra )) um a bacia... de loiça... eu m eiei aqui

205

assim (( demarca na bacia o nível da água colocada na época )) eu butei água ...

(5) 4 9 7 P01

co m o é m erm o ? de o n d e é a terra do senhô e p ra o n d e é? *

((aponta para vários coqueiros ao seu lado direito)) esse

4 9 8 H 05

tá veno aq u ele

499

que tem ali?

5 0 0 P01

esse g ran d e? [ esse m aio r?

501 H 05

pé de coco

((aponta para o m ais alto))

[ hu m ?... sim esse m aió [... e sse ju n to do p eq u en in in lá... é do m aió [sim tô vendo

502 P01 ✓

503 H 05

p ra C A é m eu [ ... ] p ra lá

5 0 4 P01 505 H 05

[ sim ]

((aponta para fren te))

aqui [... n essa n essa m a n d io q u in h a que tem a í n essa ro ça ...

5 0 6 P01 507 H 05

[ do lad o esq u erd o ? tá veno?

( 6)

201 M 03 e eu eu tav a m o rav a aqui na d o n a M o cin h a.;, ali n a q u e la vage dela... d ig o oxi... e 202

aquilo ligero assim tum tum tum... e eu esp iei... eu d ig o eu n u m tiv e m ed o de

{Fonte: D IO N ÍS IO , A . Im agens na oralidade. T ese d e d o u to rad o . U F P E , 1998)

3. COMO A CONVERSA SE ORGANIZA?

Desde pequenos estamos convivendo com uma regra básica da AC, pois os mais velhos nos ensinam que devemos falar um de cada vez. Esperar a vez para falar significa esperar a ocorrência de um lugar relevante para a transição

A N A L IS E D A C O N V E R S A Ç Ã O

79

(LRT), ou seja, esperar por marcas como pausas, hesitações, entonações descen­ dentes, uso de marcadores etc., na fala do nosso interlocutor. Um falante pode entregar, o direito de fala a um outro por meio de sinais que deixem claro que ele terminou de falar ou por meio de um convite ao outro para falar. Em outras pala­ vras, manda a regra que só após a conclusão de sua “fala” (de seu “turno”), o outro interlocutor deve assumir a posição de falante. Mas basta pensarmos num grupo de pelo menos três amigos, conversando entre si, durante um encontro descontraído ou, ainda, nas salas de aula quando o professor faz uma pergunta à turma e vários alunos respondem ao mesmo tempo, para percebermos que esta regra não é seguida. Freqüentemente, em sala de aula, estamos dizendo “vocês falaram ao mesmo tempo e eu não entendi nada” ou “um de cada vez”. Por outro lado, somos capazes de participarmos de uma interação com várias pessoas e nos entendermos perfeitamente. A falta de organização nesse tipo de interação é ape­ nas aparente, pois a harmonia e a organização nas conversações são muito relati­ vas. O primeiro trabalho sobre a organização de turnos conversacionais foi o de Sacks, Schegloff & Jefferson (1974). Para eles, a noção de turno engloba dois sentidos: (i) o de distribuição de turno, ou seja, qualquer locutor tem o direito de tomar a palavra e (ii) o de unidade construcional, isto é, a fala elaborada no momento em que um indivíduo toma a palavra e se toma um falante. Com base^ nesses princípios, pode-se definir turno conversacional como cada interven­ ção dos interlocutores formada pelo menos por uma unidade construcional. Marcuschi (1986) concebe tumo como “a produção de um falante enquanto ele está com a palavra, incluindo a possibilidade de silêncio”, mas não considera tumo como “a produção do ouvinte durante a fala de alguém, embora isto tenha repercussão sobre o que fala”23. No exemplo (2), já apresentado, temos 22 tur­ nos conversacionais, distribuídos entre os três interlocutores. A interação é cons­ tituída por meio de uma relação simétrica, ou seja, todos os falantes possuem o mesmo direito de fala. Os turnos podem ser identificados de acordo com os falantes no esquema a seguir: Retomada de exemplo (2) 01 H28 bora gente... tenho aula... ( ) daqui a ( ) minutos 02 M33 sinceramente... se fosse se fosse uma oculta era muito melhor 03 H28 não... isso é besteira... o papo rola... a gente já falou aqui quem 04 é feminista... [M.H. 05 M34 [M.H.... é ((rindo))

23. M arcuschi, L. A.

Análise da conversação.

São Paulo, Á tica, 1986, p. 89.

tumo 01 tumo 02 tumo 03 tumo 04

IN T R O D U Ç Ã O À LIN G Ü iSTICA

80

06 H 28

é você

tu rn o 05

07 M 34

não tem n ad a a ver

tu rn o 06

08 H 28

[do-m inadora

tu rn o 07

09 M 34

[dom inadora não... é o seguinte... eu acho que... é um assunto

10

que não se en tra em d iscu ssão p o rq u e são d ireito s ig u ais e

11

acab o u -se se... en tã o não tem o q u e d iscu tir...

12H 28

m as... m as eu n oto assim

tu m o 09

13 M 33

[[m as eu g aran to q u e m u ita co isa

tu rn o 10

14H 28

[[eu ach o eu acho é a au to rid ad e...

tu m o 11

15 M 33

você você você é a fav o r do do m ach ism o

tu m o 12

16

p o r isso eu digo p o r isso eu d ig o q u e eu sou m eio fem in ista

17H 28

você é um a fem in ista m ach ista

tu rn o 13

18 M 34

isso não existe

tu m o 14

19H 28

é... existe... [você ( ) do hom em ...

tu m o 15

-!► tu m o 08

[pera aí... você acha... p era aí... pera aí

20 M 33

tu rn o 16

21 H 28

você acha m ach ism o do h o m em ... m as você é assim ... veja

22

bem ., você acha assim o m achism o do hom em ... m as você tem que analisar

23

assim a m ulher pode ser m achista pelo lado d ela [tá e n ten d en d o ?

24 M 34

tu rn o 17

+

[lógico... ad m ito

25

se r que a m u lh er pode m ach ista só q u e eu tô q u eren d o d iz e r é o

26

seg u in te que [eu n ão sou fem in ista

27 M 33 28 M 34

[m as ela é co n tra a m u lh er m ach ista... sab ia? • eu sou a favor de direitos iguais... co m isso eu não tô querendo

29

é dizer que... é: o hom em num deva... num possa ser cavalheiro [porque...

30 M 33

[m as

31 M 34

isso a í ele tá d eix an d o ... tá... não...

32 M 33

isso faz parte do m ach ism o ...

33 M 34

o cav alh eirism o num faz parte do m ach ism o

{Fonte: P ro jeto

#

tu rn o 18

tu rn o 19 tum o 20

tu rn o 21

tu m o 22

L in g u ag em d a M u lh er, E lisab eth M arcu sch i e Ju d ith H o ffn ag el, U F P E , 1989)

Os tumos, quanto ao desenvolvimento do tópico na seqüência conversacional, podem ser nucleares e inseridos. Os nucleares contribuem substancial­ mente para o desenvolvimento do tópico discursivo, pois exigem que as inter­ venções subseqüentes estejam relacionadas com o turno anterior. No exemplo (2), os tumos 02,03,07, 08, 11, 12, 13, 14,15, 17, 18, 19,20 e 21 são nucleares porque estão dando andamento ao tópico (comportamento feminista-machista de M34), enquanto os tumos 04, 05, 06, 09, 10 e 16 são tumos inseridos por serem produções marginais em relação ao desenvolvimento tópico da conversa,

ANALISE D A C O N V E R S A Ç Ã O

81

apesar de colaborarem para esse desenvolvimento, exercendo sempre uma fun­ ção meramente interacional. Dependendo do papel desempenhado por cada inserção no desenrolar da conversa, os turnos inseridos podem ser classificados como turno de esclareci­ mento, turno de avaliação, turno de concordância, turno de discordância, entre outros. Observando os exemplos (2) e (7), podemos constatar que os turnos inse­ ridos também sofrem a influência do tipo de interação, pois no exemplo (2), por se tratar de uma conversa espontânea, os interlocutores procuram marcar suas posi­ ções não só por meio de concordâncias (turnos 04,05), mas também de discòrdâncias (turnos 06, 16), por exemplo. Já no exemplo (7) a seguir, por se tratar de uma entrevista, a postura da documentadora é prodominantemente de concordâncias, com apenas uma realização de esclarecimento, com a função de testagem das informações dadas. A transcrição a seguir comprova essa classificação: (7) Contexto: Entrevista com uma médica, 65 anos, sobre a existência ou não de diferenças na fala do homem e da mulher. 10 Inf.M

eu não acho que tem... não tem apenas a a mulher norm alm ente

11

é mais: mais delicada [tem sentimento

12 Doc.

[uhrum

turno concordância

13 Inf.M

essa coisa... não é?

14 Doc.

é exato

15 Inf.M

no todo... não é?

16 Doc.

sim de forma genérica

17 Inf.M

a a a mulher tem mais sensibilidade... não é?

18 Doc.

Lihrum

19 Inf.M

tem mais: a educação mais apurada... não é?

20 Doc.

certo

21 Inf.M

e: tem mais sensibilidade pra coisas be:las en en entendeu?

turno concordância turno concordância + turno concordância turno concordância 4

22

... quase tudo... só isso

23 Doc.

só isso?

24 Inf.M

só isso... eu só noto essas diferenças

25 Doc.

quan:[do

26 Inf.M 27

turno de esclarecimento

[m as assim m esm o têm m uitos hom ens que têm m u ita sen sib ilidade também... muita sensibilidade

(Fonte: Projeto Auto e Heterocaracterização da Faia do Homem e da M ulher, Â ngela Dionísio, UFPE, 1994)

82

IN T R O D U Ç Ã O À LIN G Ü ÍSTICA

Outro aspecto relevante na organização das conversas é o fato de ser constituída pelas estratégias de gestão de turno que dizem respeito à troca de falantes, através de passagem de turno e de assalto ao turno, e à sustentação da fala. No primeiro caso, “a troca de falantes se processa segundo a presença (passagem) ou ausência (assalto) de pistas de LRT”24. Essa troca de turno pode ser requerida pelo falante, quando este entrega o turno de forma explícita, ou ainda pode ser consentida, isto é, quando a entrega é implícita. Já os assaltos ao turno constituem uma espécie de violação de uma regra básica da conversa, que é falar um de cada vez. Assim, os autores concebem essa questão da seguinte forma: “no assalto, um dos interlocutores invade o turno do outro, sem que a sua intervenção tenha sido solicitada ou consentida; em termos funcionais, verificase que a transição de um turno a outro ocorre sem que haja pistas de LRT. O assalto pode ocorrer com ou sem deixa”25. O tipo de assalto com deixa é aquele que se dá durante hesitações, alongamentos, entonação descendente, pausas realizadas pelo falante que possui o turno. O assalto sem deixa caracteriza-se por intervenções bruscas, provocando sobreposição de vozes. Para Marcuschi (1986), a ocorrência de sobreposições e de falas simultâneas pode provocar um “colapso” na interação. Talvez seja esse conhecimento prévio sobre o funciona­ mento da estrutura da interação que faz com que um dos interlocutores em sobreposição desista do turno e deixe o outro assumi-lo, como se verifica no exemplo (2), nas linhas 13 e 14: 13 M 3 3

[[m as eu g a ra n to q u e m u ita c o isa

tu rn o 10

14 H 28

[[eu a c h o eu ach o é a a u to rid a d e ...

tu rn o 11

15 M 3 3

v o cê v o c ê v o cê é a fa v o r do do m a c h ism o

16

p o r isso eu d ig o p o r isso eu d ig o q u e eu so u m eio fe m in ista

^

I

tu rn o 12

/

Retomando do exemplo (2), no trecho das linhas 16 a 33, constatamos quatro ocorrências de troca de falantes, decorrentes de assalto ao turno. Nas linhas 19 e 20, M33 assalta o turno de H28, durante uma pausa, e nas linhas 23 e 24 o assalto se dá durante a realização provável de um sinal prosódico, o que caracteriza em ambos os casos um assalto com deixa. Já nas demais ocorrências de assalto ao turno (linhas 25 e 26, 29 e 30), as tomadas se dão de forma mais brusca, tendo em vista que não há pistas de LRT, caracterizando o assalto sem deixa.

24. Galembeck, P. et al. O turno conversacional. In: Preti, D. & Urbano, H. A linguagem falada culta na cidade de São Paulo. São Paulo, T. A . Queiroz/FAPESP, 1997, v. IV, p. 75. (título original, 1990) 25. Galembeck, P. et al. Op. cit., p. 78.

83

AN ALISE D A C O N V E R S A Ç Ã O

15 M 33

v o c ê v o c ê v o cê é a fa v o r d o do m ach ism o

16

p o r isso eu d ig o p o r isso eu d ig o q u e eu sou m eio fe m in ista

17H 28

vo cê é um a fe m in ista m ach ista

18 M 34

isso não ex iste

19H 28

é... ex iste... [v o cê ( ) do h o m em ... [p era aí... v o cê ach a... p e ra aí... p era aí

20 M 33 21 H 28

v o cê ach a m a c h ism o do h o m e m ... m as v o c ê é a ssim ... v e ja b em ...

22

v o cê ach a assim o m a c h ism o do h o m e m ... m as v o cê tem q u e a n a lisa r

23

a ssim a m u lh e r p o d e se r m a c h ista p e lo lad o d e la [tá e n te n d e n d o ? [ló g ico ... a d m ito se r

24 M 34 25

q u e a m u lh e r p o d e m a c h ista só q u e eu tô q u e re n d o d iz e r é o seg u in te

26

q u e [eu não sou fe m in ista

27 M 33

[m as e la é c o n tra a m u lh e r m a c h ista... sab ia?

28 M 34

eu sou a fav o r d e d ire ito s ig u a is... co m isso eu n ão tô q u e re n d o é d iz e r

29

qu e... é: o h o m e m n u m d e v a ... n u m p o ssa se r c a v a lh e iro [p o rq u e... [m as isso faz

30 M 33 31 M 3 4

isso a í ele tá d e ix a n d o ... tá... n ão ...

32 M 33

p a rte do m a c h ism o ...

33 M 34

o c a v a lh e irism o n u m faz p a rte do m ach ism o

Nos contextos de assalto com deixa, podem ser geradas as seguintes situa­ ções: (i) o interlocutor assaltado abandona o turno e o interlocutor assaltante fica com o turno, como em (7), quando a informante assaltou o turno da documentadora durante um alongamento: 25 D oc.

q u an :[d o [m a s a s s im m e s m o tê m m u ito s h o m e n s q u e te m m u ita s e n s ib il i­

26 In f.M

d a d e tam b é m ... 27

m u ita sen sib ilid a d e

(ii) o interlocutor assaltado não abandona o turno e continua a comandar a interação, como em (5), pois P01 em sobreposição ao turno de H05, durante uma pausa, faz uma solicitação de esclarecimento, mas H05 se mantém no turno e ignora a intervenção de sua interlocutora: 505 H 05

((aponta para frente))

5 0 6 P01 507 H 05

aq u i [... n e ssa n e ssa m a n d io q u in h a q u e te m a í n e ssa ro ça... [do lad o e sq u e rd o ?

tá v en o ?

84

IN T R O D U Ç Ã O À LINGÜÍSTICA

(iii) o interlocutor assaltado perde o turno, mas o recupera em seguida, como no exemplo (2), já que H28 não permite que M33 se mantenha com o turno de que ela tentou tomar posse: 19 H 28

é... ex iste ... [v o cê ( ) do h o m e m ...

20 M 33

[p era aí... v o c ê ach a... p e ra aí... p e ra aí

21 H 28

você acha m achism o do hom em ... m as você é assim ... veja bem ... você acha

22

assim o m ach ism o do h o m em ... m as você tem q u e an alisar assim a m u lh er

A segunda estratégia de gestão de turnos — a sustentação da fala — é, na realidade, uma tentativa empregada pelo falante para garantir a posse do turno, assinalando à sua audiência o desejo de manter-se na conduta do diálogo. Para isso, recorre aos marcadores conversacionais, aos alongamentos, às repetições e à elevação da voz. Ainda no exemplo (2), podemos verificar que no turno 17, linhas 21-23, H28 realiza quatro pausas e usa um marcador conversacional (“veja bem”) para assegurar seu turno, enquanto no turno 20, linhas 28-29, por exemplo, a falante M33 mantém seu direito de fala recorrendo a pausas e alongamento de vogal (é:). No caso das entrevistas formais, a exemplo das realizadas pelo NURC, apesar de consistir num evento conversacional, que apresenta uma estrutura básica pergunta e resposta, unidade mínima dialógica, semelhante à da conver­ sa espontânea, a elaboração do turno conversacional apresenta uma distinção nítida: os turnos que correspondem às respostas tendem a ser longos e não so­ frem intervenção do interlocutor no sentido de tomar o turno. No exemplo (8), o turno do documentador contém 20 palavras, enquanto o do informante tem 313. Apesar das pausas, dos truncamentos, das hesitações, dos alongamentos, ou seja, das várias deixas, o documentador não toma o turno, pois o seu papel era meramente conduzir a interação, numa relação assimétrica. ( 8)

D o c. v o c ê fa lo u d a c a rn e ... c o m o d o n a -d e -c a s a ... q u a is são as p a rte s ... d a c a rn e q u e v o cê g o sta m ais? Inf.

[pra te r em ca sa ? [áh: eu go/ a ssim d e filé n é ? ((ri)) a q u e eu g o sto m ais é do filé... m as né

co m o : filé filé n em to d o c o m p ra ... n ão d á p ra c o m p ra r e n tã o ... d e ix a v e r...p ra c h u rra sco a m e lh o r c a rn e q u e eu ach o é u m a c a rn e c h a m a d a p ic a n h a ... que: é u m a ca rn e q u e fica p o r cim a... da alcatra... e que te m assim u m a c a m a d in h a de g o rd u ra q u e q u a n d o a g e n te b o ta no fogo derre:te... fica co m aq u ele cheiro... é u m a delícia... éh::... d eix a v er agora pra consu:m o... de c a :a s... eu g o sto m u ito d e alc a tra ... ach o u m a c a rn e a ssim q u e ::...a ssim m u ito sab o ro :sa ... ela:... não é m u ito d u :ra... e d á p ra g e n te fa z e r ro sb ife m u ito fa c ilm e n te ... o u tra o u tro p ed aço d e c a rn e q u e eu g o sto é o c o n tra filé ... P R IN c ip a lm e n te c o m o sso ... a g en te m a n d a o a ç o u g u e iro a ssim c o rta r em fa tia e dá: às v ezes um ro sb ife m u ito b o m c o m o o sso q u e eu

ANALISE D A C O N V E R S A Ç Ã O

85

adoro ro er o osso do: co n trafilé... e d á ch u rrasco tam b ém ... ag o ra... P R A fa/ uhm : aí m eu D eus do céu eu m e lem brei de u m a co isa... O N T E M ... a/ eu m andei m in h a em p reg ad a co m p rar carne pro m eu cach o rro ... e e la foi c o m p ra r a carn e... A co n tece q u e e la co m p ro u um O SSO que era a co isa m ais lin:da q u e eu j á vi na m in h a vida... um osso de b raço ... de de p arece um cham baril assim aquele... aq u ela co isa red o n :d a... ch eia de u m as g o rd u ras assim en trem ead as e o osso no m eio co m u m tu tan o ... eu tom ei o o sso q u e e ra do c ach o rro ((ri)) cozinhei... ((rindo)) fiz u m pirão e co m i... co isa m ais g o sto sa d esse m u n d o ... é o tal do cham baril... eu não co n h ecia não viu?... a í o n tem eu vi... q u e r d izer... eu já tin h a co m id o ali num b arzin h o ali na V árzea m uito b o m seten ta cru zeiro s d u as p esso as... e eu fiz o o:... ch am b aril M A S que co isa g o sto sa... pro n to ... é u m ... p ed aço de carn e q u e eu... p re / p re te n ­ do co m p rar... no fu tu ro ... é ch am b aril.

{Fonte:

N U R C , R ecife, 1997. Inq. 1 5 0 /R E -1. 2 4 5 - 256, p. 18)

Nem sempre, porém, é essa a estrutura da entrevista, pois dependendo do processo de interação instaurado entre os interlocutores, tal estrutura pode consistir numa estratégia de perguntas e respostas, com turnos cujas dimen­ sões estejam mais próximas da conversa espontânea. No exemplo (9), que se encontra a seguir, trecho de uma entrevista com uma empregada doméstica, percebe-se que a entrevistada (S) limita-se a responder exatamente o que lhe é perguntado, com frases curtas, sem demonstrar interesse em desenvolver mais exaustivamente a pergunta que lhe foi endereçada. A exceção dessa postura se encontra nas linhas de 08 a 14, quando a entrevistada procura es­ clarecer sobre o tempo em que ela acompanha as crianças. No entanto, a postura assimétrica permanece, pois o tópico discursivo é proposto pela entrevistadora (I), que conduz a interação, sem permitir que haja um desvio do tema da entrevista. (9) 01 I — h á q u an to tem po está n esta casa? 02 S — há um ano e um m ês 03 I — q u e é que você faz aqui? 04 S — eu co zin h o e arrum o 05 I — v ocê cu id a tam bém de crian ças? 06

S—

cu id o m uitcho bem

07 I — fica m uito tem po d u ra n te / co m ela... co m elas? 08 S — d epende do tem p o / 09

se ela fo r saí:

11

e não tivé qu em fique

12

eu fico até:: o: tem po to d o ...

13

se não tiv é o u tra

86

14

IN T R O D U Ç Ã O À LINGUÍSTICA

eu eu posso ficá até um ano., dois ... depende

151 — você gosta de crianças? 16 S — gosto bastante {Fonte: Projeto sobre a Linguagem Falada pela Empregada Doméstica, L. A. Marcuschi, UFPE)

4. COMO SE ORGANIZAM AS SEQÜÊNCIAS NA CONVERSAÇÃO?

Pergunta (P) e resposta (R) compõem a unidade fundamental da organi­ zação conversacional, ou par adjacente, na terminologia de Sacks, Schegloff & Jefferson26. Mas este par adjacente pode ter “várias formas de realização; a P pode ser na forma interrogativa direta, mais comum, ou na indireta”, e as respos­ tas também podem “ser na interrogativa”27. Urbano et al. (1993) abordam es­ sencialmente dois tipos de perguntas: perguntas fechadas (sim/não) e pergun­ tas abertas (sobre algo). O primeiro tipo caracteriza-se como um enunciado, que conduz para uma resposta que, em princípio, se constitui de um sim ou de um não. A repetição de verbo da pergunta, o uso de back-channel, o uso de certos advérbios e o emprego do verbo topicalizado em negativas são alguns recursos que substituem o sim/não nesse tipo de pergunta. As perguntas fechadas têm carga semântica e as respostas consistem apenas numa confirmação ou não do que foi questionado. O segundo tipo, as perguntas abertas, contêm marcadores interrogativos e as respostas devem estar compatíveis com a circunstância ex­ pressa no marcador. Esses autores lembram ainda que, ao se realizar um con­ junto de perguntas simbolizando um todo, a tendência é a elaboração de respos­ tas truncadas, de respostas à última pergunta ou numa ordem preferencial do interlocutor. Apresentaremos um fragmento de uma entrevista que tinha por objetivo verificar como homens e mulheres caracterizam a própria fala e a fala do outro: ( 10)

Contexto: Entrevista com um engenheiro, 28 anos, sobre a existência ou não de diferenças na fala do homem e da mulher. 01. Doc.

e você? como é que você descrevería a SUA fala?

Pergunta Aberta

02. InfH.

eita ... ((ri demonstrando nervosism o)) a minha voz é muito baixa

03. Doc.

sua voz é baixa?

+ Pergunta Fechada

26. Sacks, Schegloff & Jefferson (1974) elaboraram um modelo sobre o sistema de organização da conversação com base na tomada de turno. 27. Marcuschi, L. A . Análise da conversação. São Paulo, Ática, 1986, p. 37.

ANALISE D A C O N V E R S A Ç Ã O

87



0 4 . InfH.

e

05. Doc.

o que mais?

0 6 . InfH.

tenho uns vícios de linguagem

07. Doc.

vícios de linguagem?

08. InfH.

e

09. Doc.

que vícios?

10. InfH.

11.

é h :... deixe-me ver... uma coisa que eu me / me fiscalizo muito é: concordância... fiscalizo demais

12. Doc.

por que você se fiscaliza?

1 3 .InfH.

porque [eu acho feio

14. Doc.

Pergunta Aberta ^ Pergunta Fechada Pergunta Aberta

Pergunta Aberta

[e QUANdo você se fiscaliza?

Pergunta Aberta

15. InfH.

porque eu acho feio... quando falando de modo geral né?

16. Doc.

a qualtquer: situação?

1 7 .InfH. 18. Doc.

[[é [[ou tem alguma situação que você se fiscaliza mais do que outra? Pergunta Aberta

19. InfH.

quando estou com vocês ((Doc e InfH riem))

20. Doc.

por quê?

^

21.

por que somos da área?

4 Pergunta Fechada

22. InfH.

é porque são da área

^ Pergunta Fechada

Pergunta Aberta

{Fonte: Dionísio, A., Projeto Auto e Heterocaracterização da Fala do Homem e da Mulher, UFPE, 1994)

Analisando o exemplo (10), podemos observar que as perguntas abertas são introduzidas pelos pronomes como, o que, que, por que, alguma e o advér­ bio de tempo quando, que tendem a orientar o discurso informante, quanto à autodescrição da fala. Das quatro ocorrências de perguntas fechadas, verifica­ mos que as duas primeiras têm uma função meramente interacional, pois pare­ cem desnecessárias do ponto de vista informacional, já que as respostas dadas às perguntas abertas que as antecedem são claras e objetivas. A hipótese da função interacional justifica-se, por um lado, pelo término do turno do entrevista­ do, demonstrando que não deseja prolongar sua resposta e, por outro lado, pela insegurança da entrevistadora em conduzir a interação, ao parafrasear as res­ postas do informante. 5. É BOM FALAR SOBRE MARCADORES CONVERSACIONAIS, NÃO É?

Observando as conversações apresentadas neste capítulo, podemos per­ ceber a ocorrência de alguns recursos que são traços característicos da fala,

IN T R O D U Ç Ã O A LIN G U ÍSTICA

88

como em (7), por exemplo, em que a informante finaliza seus tumos com o emprego de “não é?”, “entendeu?”, procurando interagir com sua interlocutora. Esta, por sua vez, participa da conversação empregando expressões nãolexicalizadas (“uhrum”) e expressões estereotipadas sinalizadoras de conver­ gência (“é exato”, “sim”, “certo”). Esses recursos são chamados de marcadores conversacionais (MC). R etom ada do exem plo (7) 10 Inf.M

eu não acho que tem ... não tem apenas a a m ulher norm alm ente

11

é m ais: m ais delicada [tem sentim ento

12 D oe.

[uhrum

13 Inf.M

essa coisa... não é?

14 Doc.

é exato

15 Inf.M

no todo ... não é?

16 D oc.

sim de form a genérica

17 Inf.M

a a a m ulher tem m ais sensibilidade... não é?

18 Doc.

uhrum

19 Inf.M

tem m ais: a educação m ais apurada... não é?

20 Doc.

certo

21 Inf.M

e: tem m ais sensibilidade pra coisas be:las en en entendeu?

Como o texto oral é planejado e verbalizado ao mesmo tempo, os interlo­ cutores podem empregar MCs em qualquer ponto da interação, desempenhando funções conversacionais e sintáticas. Os falantes podem inserir MCs no início, no meio ou no fim de tumos ou de unidades comunicativas (UC). São denomina­ das de unidades comunicativas as porções informacionais, ou seja, os enuncia­ dos conversacionais, que coincidem ou não com tumos, orações ou atos de fala. Segundo Marcuschi (1989), “tal como a frase na escrita, a UC no texto oral é um ponto de referência dos mais diversos fenômenos lingüísticos”28. %

*

No exemplo (2), o falante H28, no turno 17, emprega dois MCs: “veja bem” no início da UC — “veja bem... você acha assim o machismo do ho­ mem...” — e “tá entendendo?” no final do seu turno, que também coincide com o término da UC — “você acha assim o machismo do homem... mas você tem que analisar assim a mulher pode ser machista pelo lado dela tá enten­ dendo?

28. Marcuschi, L. A . Marcadores conversacionais no português brasileiro: formas, posições funções. In: Castilho, A. T. (org.) Português culto falado no Brasil. Campinas, Editora da UNICAMP, 1989, p. 288.

ANALISE DA C O N V E R S A Ç Ã O

89

Retomada do exemplo (2) 21 H28

você acha machismo do homem... mas você é assim... veja bem... você acha

22

assim o machism o do homem... mas você tem que analisar assim a mulher

23

pode ser machista pelo lado dela [tá entendendo?

Com funções conversacionais, os MCs são produzidos pelos falantes (aqueles que servem para dar tempo à organização do pensamento, sustentar o turno, monitorar o ouvinte, corrigir-se, reorganizar e reorientar o discurso) e pelos ouvintes (aqueles que são produzidos durante o turno do falante e que servem para orientar o falante e monitorá-lo quanto à recepção, por meio de sinais de convergência, como “sim”, “claro”, “mhm”, “ah sim”; de indagação, como “será?”, “mesmo?”, “o quê?”, “é?”; e de divergência, como “duvido”, “não”, “peraí”, “calma”). Os interlocutores podem recorrer a marcadores conversacionais lingüisticos (verbais e prosódicos) e paralingüísticos (não-verbais). Os MCs verbais, con­ junto de partículas, palavras, sintagmas, expressões estereotipadas e orações ou ainda expressões não-lexicadas (“ahã”, “uhrum”, “ué”) “não contribuem pro­ priamente com informações novas para o desenvolvimento do tópico, mas si­ tuam-no no contexto geral, particular ou pessoal da conversação”29. Os MCs prosódicos (chamados também de supra-segmentais), apesar de sua natureza lingüística, são de caráter nãó-verbal (os contornos entonacionais, as pausas, o tom de voz, o ritmo, a velocidade, os alongamentos de vogais etc.). Dentre eles se destacam as pausas e o tom de voz como sendo os mais importantes para as análises das conversações. Já os MCs paralingüísticos ou não-verbais estabele­ cem, mantêm e regulam a interação, por meio de risos, olhares, gestos, meneios de cabeça. Quanto às formas em que se apresentam os MCs lingüísticos, eles podem ser divididos em quatro grupos: (i) MCs simples: realizam-se com um só item lexical (“mas”, “éh”, “olha”, “exatamente”,”agora”, “aí”, “então” etc.); (ii) MCs compostos: realizam-se como sintagmas, geralmente estereoti­ pados (“sim mas”, “bom mas aí”, “e então”, “tudo bem mas” etc.); (iii) MCs oracionais: realizam-se como pequenas orações (“eu acho que”, “não mas sabe”, “sim mas me diga”, “então eu acho que”, “porque eu acho que” etc.); $

29. Marcuschi, L. A . Análise da conversação. São Paulo, Ática, 1986, p. 62.

90

I N T R O D U Ç Ã O A L IN G U ÍS T IC A

(iv) MCs prosódicos: realizam-se como recursos prosódicos (entonação, pausa, hesitação, tom de voz) e geralmente acompanhados por al­ gum MC verbal.

6 . CO M O SE CONSTRÓI A COM PREENSÃO N O TEXTO FALAD O ?

De acordo com Marcuschi (1998b), “admite-se, hoje, que a compreensão, na interação verbal face a face, resulta de um projeto conjunto de interlocutores em atividades colaborativas e coordenadas de co-produção de sentido e não de uma simples interpretação semântica de enunciados proferidos”30. É importante salientar que colaboração não implica consenso ou concordância, mas apenas a realização de ações coordenadas31. Quando dois ou mais indivíduos partici­ pam de uma conversação, eles estão coordenando conteúdos e ações, ou seja, os interlocutores fazem um esforço mútuo para construir sentido, isto é, para cons­ truir um texto coerente. O sucesso de uma interação face a face está, portanto, atrelado ao processo interacional estabelecido entre os participantes, uma vez que esses se envolvem e refletem esse envolvimento num esforço coletivo, bus­ cando a construção de sentidos. O exemplo (2) exemplifica claramente a distin­ ção entre colaboração e concordância. Os três interlocutores realizam ações colaborativas durante toda a interação, ou seja, todos estão engajados no pro­ cesso interacional. No entanto, percebe-se que não há uma concordância entre eles: se há um consenso entre M33 e H28, quanto ao fato de considerarem M34 uma dominadora, uma feminista machista, não há consenso entre eles (M33 e H28) e M34, que não concorda com as características que lhe são atribuídas. Marcuschi (1998b) alerta o analista de interações verbais face a face para o fato de que “não lhe cabe apenas identificar e admitir que há compreensão. Ele deve dar conta da seguinte questão: como é que os participantes de uma interação resolvem suas estratégias e processos de compreensão de forma tão competen­ te?”32. O próprio autor apresenta algumas atividades de compreensão na interação verbal, a partir da análise de materiais do corpus do NURC-SP. Dentre as ativida­ des propostas, serão destacadas, neste artigo: a) a negociação; b) a construção de um foco comum; c) a demonstração de (des)interesse e (não-)partilhamento; d) a existência e diversidade de expectativas e as marcas de atenção.

30. M arcuschi, L. A. Atividades de compreensão na interação verbal. In: Preti, D. (org.) Variações e confrontos. São Paulo, FFLCH/USP, 1998b, p.15. 31. Ibidem , p. 21. 32. Ibidem , p. 19.

ANALISE DA C O N V E R S A Ç Ã O

91

6.1. Estratégia 1: negociação

A negociação é “aspecto central para a produção de sentido na interação verbal enquanto projeto conjunto”33. No exemplo (11), citado a seguir, nas li­ nhas 121 a 128, a troca do fonema /p/ pelo /t/ provocou um estranhamento quan­ to ao nome do veículo — uma Pampa —, já que havia sido entendido por M06 como “tampa”. O riso (linhas 127 e 130) é resultado da inadequação terminoló­ gica, pois o nome de um objeto (tampa), associado a um meio de transporte não parece ser coerente para M06. M06 procura checar a sua compreensão do termo e M22 colabora repetindo o nome do carro, enfatizando a sílaba que desfaz o equívoco (PAMpa). #

( 11)

Contexto: Várias pessoas conversam num terreiro da comunidade de Pedra D ’água (PB). M02 narra a dificuldade encontrada por uma mulher para sair da comunidade, tentando subir uma ladeira bastante íngreme. 121 M02

vei uma mulé: naquela mulé de ( ) ela vei no c a rro ... como é o nome daquele carro

122 Van?

((Van é apelido de M22))

123 M22

uma pampa

124 M02

aí quedê subi a ladera

125 M06

uma tampa?

126 M22

uma PAM pa

127 M02

é ((sorrindo))

128 M06

eu entendi uma tampa

129 M02

(...) aí a mulé veii de Campina dana: Denise

130 M06

veii ( ) com Pampa ((continua a sorrir com o nome do carro))

131 M02

aí cade subi a ladera... arente fícô olhano ela butava o carro... o carro... descia logo

{Fonte: Tese Imagens na oralidade, Ângela Dionísio, UFPE, 1998)

Marcuschi (1998b) ainda nos chama a atenção para o fato de que “nem tudo é negociável. Por exemplo, não negociamos crenças nem convicções, o que tem conseqüências por vezes relevantes na continuidade de um tópico e pode ditar sua ‘morte’”34. O exemplo (12), fragmento de uma interação longa, na qual H05 apresentava as linhas divisórias do lote de terra da sua família, demonstra que a atitude encontrada por H05 foi abortar o tópico, mediante a não-compreensão de P01 sobre as áreas limítrofes. H05 discorda severamente da conclusão 33. Ibidem, p. 19. 34. Ibidem, p. 19.

IN T R O D U Ç Ã O A LINGUÍSTICA

92

(linhas 638-639) a que P01 havia chegado. P01 percebe que seu interlocutor ficou ofendido e brinca com seu erro (linha 640). Tenta voltar à questão (linha 642), mas H05 muda de tópico, encerrando o assunto (linha 643). P01 reconhece que não há condições de consenso e aceita construir um novo tópico (linha 644). ( 12)

Contexto: A pesquisadora (P01) conversa com um dos moradores da comunidade (H05) sobre o tam anho do seu lote de terra. Ambos estão no terreno e H05 aponta para linhas limites da terra. 625 P01

eu sigo esse caminho: eu sigo esse pé de laranja como é que é?

626 H05

num tá veno num tá veno é: essa carrera de capim ? ((indica algumas touceiras de

627

capim plantadas acompanhando o trilho que leva até as duas casas acima))

628 P01



629 H05

eu me dirijo por aqui ((indica na direção do capim)) poraqui inté ali ((indicação

630

im precisa)) agora chegano ali [... ] agora quano chega ali já vai lá: a linha vai sê lá

631 P01

[sim]

632 H05

aquele pezim de pau que sobe lá pá casa do ôto fii ((apesar dele indicar

633 H05

com um pau a direção fica impossível precisar o “pezim de pau” porque

634

há várias árvores))

635 P01

qual? aquele pé lá de cim a?

636 H05

sim

637 P01

então eu posso dizê que a linha é esse caminho? [ não?

638 H05

[é po/ NÃO assim oxente

639

fica meu pá cá ainda

640 P01

ah: assim eu tô dando sua terra pros outros ((sorrir))

641 H05

é... é ((sorrir))

642 P01

então vem por onde? aqui por esse baxio é?

H05

vocês querem i lá em: M aria agora qué?

644 P01

bora ... já tá aqui A

{Fonte: Tese Imagens na oralidade, Angela Dionísio, UFPE, 1998)

6.2. Estratégia 2: construção de um foco comum

Uma outra atividade de compreensão na interação verbal diz respeito à construção de um foco comum. Como argumenta Marcuschi, “numa interação face a face, a base do sucesso das trocas é a presença de interesses comuns e referentes partilhados, previamente existentes ou construídos no processo de interação”35. Nos exemplos (7), (8), (9) e (10), que contêm trechos de entrevis35. Ibidem, p. 21.

AN A LISE D A C O N V E R S A Ç Ã O

93

tas, pode-se observar que, em (7) e (8), entrevistador e entrevistado entram em sintonia na configuração de um foco comum, pois os tópicos sugeridos são de­ senvolvidos pelos entrevistados com interesse e atenção. Já em (9) e (10), per­ cebe-se que os entrevistadores têm um esforço maior para conduzir as interações, pois as respostas dos entrevistados, apesar de se manterem no tópico focalizado, são mais sucintas e não revelam um interesse em informar além do mínimo solicitado nas perguntas. A construção desta sintonia referencial36 nem sempre é possível, exigin­ do de um dos interlocutores um árduo trabalho. No exemplo (12), é possível observar o esforço de ambos os interlocutores, buscando construírem o mapa das terras de H05. Apesar dos interlocutores terem interesses comuns (a cons­ trução do mapa das terras de H05) e de P01, durante a interação, demonstrar concordância ou procurar checar suas dúvidas quanto às informações dadas por H05, não foram construídos referentes partilhados no processo da interação, pois a pergunta “então eu posso dizê que a linha é esse caminho? [não?” (linha 637) revela a falta de sintonia referencial.

6.3. Estratégia 3: demonstração de (des)interesse e (não-)partilhamento

A terceira atividade de compreensão apresentada por Marcuschi (1998b) é a demonstração de (des)interesse e (não-)partilhamento. No exemplo (5), verifica-se que o não-partilhamento das informações vai se desfazendo na medi­ da em que a interação progride. No exemplo (10), o informante afirma que se fiscaliza mais ao falar quando está na companhia da documentadora. Em segui­ da, ela pergunta o porquê dessa fiscalização e ao mesmo tempo propõe uma razão: serem professoras de língua portuguesa. O argumento proposto é aceito imediatamente por seu interlocutor (linha 22). Há entre os interlocutores interes­ ses comuns e conhecimento partilhado. Nem sempre os interlocutores possuem os mesmos conhecimentos ou possuem os mesmos interesses sobre os tópicos. Para ilustrar esta afirmação, será apresentado a seguir um trecho analisado por Marcuschi (1998b), que exemplifica uma situação típica de desinteresse pelo tópico em andamento. (13) 663 L I

outro dia aí então o (Fábio) contando um as histórias de um :... de um boy barato aí né?...

36. “Sintonia referencial” é um termo empregado por Marcuschi (1998b).

IN T R O D U Ç Ã O À LINGÜÍSTICA

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665

carro envenenadíssim o então tem os que quando o cara vai acelerar a ss im ::... ele aG A rra a direção assim:: pisa no acelerador::... e faz um m ovim ento assim com o estivesse caval/cavalgando L2

670 L I

ahn ((ri)) e agarra a m áquina [assim ((ri))

L2 LI

[queria estar num cavalo porquê?... analogia... ele está cavalgando né? E o ::... o:... ✓

L2 675 L I L2

((ri)) o rei do oeste ah r não tem oeste aqui... ((ri)) não tudo bem:: eu sei entendi

(D 2-Inq. 343, pp. 33-34)37

Pode ser constatada, neste exemplo (13), a construção de uma relação de não-colaboração tópica. Os interlocutores discorrem em faixas diferentes (LI na faixa séria e L2 na faixa não-séria). L2 toma no sentido literal a analogia que LI propõe: “boy barato” — “rei do oeste” e provoca em LI uma reação de desagrado (linha 675, “não tem oeste aqui”). A resposta de L2 revela que ele estava entendendo, apenas não tinha interesse no assunto. Marcuschi (1998b) salienta que “trocas deste tipo são utilizadas intencionalmente para produzir hu­ mor ou então construir piadas ou chistes, pois mostram interlocutores jogando em campos diversos, sem sintonia cognitiva”38.

6.4. Estratégia 4: existência e diversidade de expectativas

Um encontro entre pelo menos dois interlocutores gera expectativas muito diversificadas, as quais estão intimamente relacionadas ao contexto, às condi­ ções em que o encontro ocorre, ao conhecimento partilhado, às diferentes pers­ pectivas que os interlocutores possuem. Em situações interativas, os interlocuto­ res sempre têm expectativas prévias (às vezes, chegamos até a ensaiar o que vamos dizer, como vamos dizer, simulamos a resposta do nosso interlocutor; e quase sempre esses ensaios não servem para nada no momento real da interação). Por ter expectativas prévias, o falante sempre procura estratégias para fazer com que elas ocorram, bem como fica atento à reação do seu interlocutor. A 37. Marcuschi, L. A. Atividades de compreensão na interação verbal. In: Preti, D. (org.) Variações e confrontos. São Paulo, FFLCH/USP, 1998b, pp.25-26 38. Ibidem, p. 26.

A N A L IS E D A C O N V E R S A Ç Ã O

95

interação é, pois, um “jogo com regras dinamicamente escolhidas, por isso é um jogo perigoso: nem sempre se escolhe a regra certa”39. Nos fragmentos de en­ trevistas dos exemplos (8) e (10), verificamos que, em (8), documentador e informante parecem ter selecionado bem as regras do jogo, já que a informante constrói o seu turno enumerando as partes da carne que ela mais gosta de ter em casa, assinalando no turno aquela de que mais gosta. Já no exemplo (10), o informante deixa transparecer um certo espanto com a pergunta da documentadora, através do emprego de uma interjeição, seguida de uma pausa e um riso nervoso (linha 02: “eita... ((ri demonstrando nervosismo )))”.

6.5. Estratégia 5: marcas de atenção r

v

Durante a construção de uma conversação, são de importância fundamen­ tal os sinais enviados pelos interlocutores, pois dependendo desta sinalização é possível avaliar se está havendo uma boa sincronia ou uma má sincronia entre os interlocutores. A boa sincronia revela maior atenção pelo tópico em andamento e uma má sincronia revela problemas no processo interacional, que vão desde a não-aceitação do tópico até a não-compreensão do mesmo. O uso de marcadores conversacionaís, o uso de alguns traços prosódicos (entonação, mudança de altura de som, alongamentos de vogais etc.), a realização de alguns gestos, de expressões faciais e de risos são marcas que informam ao falante sobre a compreensão do que está sendo dito e sobre o envolvimento dos seus interlocutores na interação. Observando alguns exemplos analisados previamente, neste artigo, verificamos as marcas de sintonia entre os interlocutores, como o uso de marcadores conversacionais, nos exemplos (5) e (7), de alongamentos nos exem­ plos (10) e (12), e de gestos no exemplo (5). Apesar do caráter sucinto dessas análises, é possível afirmar que muito do que se compreende numa interação social resulta da relação construída entre os interlocutores e da contextualização da própria interação. Não se quer com isso descartar a importância da lingua­ gem verbal, mas apenas salientar (i) que ao falarmos não nos utilizamos apenas de uma diversidade de linguagens, mas colocamos em conexão indivíduos, lin­ guagens, cultura e sociedade e que (ii) gestos, expressões faciais e tons de voz são, muitas vezes, mais informativos do que construções lingüísticas, visto que a “gramática é um veículo pobre para exprimir os sutis padrões de emoção”40. 39. Ibidem , p. 30. 40. K eller, M. C. & K eller, J. D. Im aging in iron, or thou g h t is not inner speech. In: G um perz, J. & L ev in so n , S. (o rg s.) Rethinking linguistic relativity. C am b rid g e, C am b rid g e U n iv ersity P ress, 1996, p .l 18.

96

IN T R O D U Ç Ã O À LIN G Ü ÍST ICA

7. E PARA ENCERRAR A CONVERSA...

No Brasil, a Análise da Conversação consiste numa linha de pesquisa que vem sendo praticada sistematicamente e conta com uma produção edito­ rial que abrange transcrições de materiais do corpus do Projeto de Estudo da Norma Lingüística Urbana Culta (NURC), análises de textos orais realizadas por pesquisadores brasileiros sobre diversos temas da AC, gramáticas de con­ sulta referentes ao português falado, utilizando o corpus dos NURCs, além de dissertações e teses apresentadas nos programas de pós-graduação das uni­ versidades brasileiras. Após aBibliografia, o leitor poderá encontrar enumera­ das as publicações referentes às transcrições de textos orais do corpus do NURC e aos volumes referentes à gramática do português falado. Uma outra conversa que poderá ser iniciada a partir de agora será entre você leitor e as referências bibliográficas que foram aqui apresentadas. Certamente, mui­ tos assuntos virão à tona! BIBLIOGRAFIA

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A

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i

Fernanda Mussalim 1 oA GÈM1SS DA DISCIPLINA

1.1, Istruturalissn©^ marxismo e psicanálise: um ferren© fecundo

Falar em Análise do Discurso pode significar, num primeiro momento, algo vago e amplo, praticamente pode significar qualquer coisa, já que toda produção de linguagem pode ser considerada “discurso55. No entanto, a Análise do Discurso de que vamos, falar neste capítulo trata-se de uma disciplina que teve sua origem na França na década de 1960. Para entender a gênese dessa disciplina é preciso compreender as condi­ ções que propiciaram a sua emergência. Maldidier (1994) descreve a fundação da Análise do Discurso através das figuras de Jean Dubois e Michel Pêcheux. Dubois, um lingüista, lexicólogo envolvido com os empreendimentos da Lingüística de sua época; Pêcheux, um filósofo envolvido com os debates em tomo do marxismo, da psicanálise, da epistemologia. O que há de comum no trabalho desses dois pesquisadores com preocupações distintas é que ambos são toma-

* Agradecemos a Sírio Possenti, a Anna Christina Bentes, a Edwiges Morato e a Claudia Bertelli Reis pelas contribuições a este texto.

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IN TR O D U Ç Ã O À LINGUÍSTICA

dos pelo espaço do marxismo e da política, partilhando convicções sobre a luta de classes, a história e o movimento social. E pois, sob o horizonte comum do marxismo e de um momento de cresci­ mento da Lingüística — que se encontra em franco desenvolvimento e ocupa o lugar de ciência piloto — que nasce o projeto da Análise do Discurso (doravante AD). O projeto da AD se inscreve num objetivo político, e a Lingüística oferece meios para abordar a política. Vamos compreender de que maneira. Na conjuntura estruturalista, a autonomia relativa da linguagem é unani­ memente reconhecida. Isso porque, devido ao recorte que as teorias estruturalistas da linguagem fazem de seu objeto de estudo — a língua —, toma-se pos­ sível estudá-la a partir de regularidades e, portanto, apreendê-la na sua totalida­ de (pelo menos é nisso que crê o estruturalismo), já que as influências externas, geradoras de irregularidades, não afetam o sistema por não serem consideradas como parte da estrutura. A língua não é apreendida na sua relação com o mun­ do, mas na estrutura interna de um sistema fechado sobre si mesmo. Daí “estru­ turalismo”: é no interior do sistema que se define, que se estrutura o objeto, e é este objeto assim definido que interessa a esta concepção de ciência em vigor na época. Um exemplo. O estruturalismo de vertente saussureana1define as estru­ turas da língua em função da relação que elas estabelecem entre si no interior de um mesmo sistema lingüístico. Essa relação é sempre binária — ou seja, os elementos são sempre tomados dois a dois — e se organiza a partir do critério diferencial, que determina que todos os elementos do sistema se definem ne­ gativamente. Tomando como pares os fonemas [p] e [b], para citar um exem­ plo no nível fonológico, pode-se dizer que, quanto ao traço de sonoridade, [p] se define com relação a [b] por ser [-vozeado], ou seja, [b] é um fonema vozeado enquanto [p] é desvozeado. Por sua vez, tomando como pares os fonemas [p] e [t], quanto ao lugar de articulação, pode-se dizer que [p] se define como [dental]12 em relação a [t]. Nessa mesma vertente, o significado também é defi­ nido a partir de uma relação de diferenças no interior do sistema3: o significa­ do de uma palavra é aquele que o significado da palavra tomada como par não é. Assim, homem se define com relação à mulher por ser [-feminino]; por sua 1. Remetemos o leitor à obra de Saussure (1916/1974), Curso de Lingüística geral, considerada a obra fundadora da Lingüística por possibilitar uma abordagem da língua a partir de suas regularidades e assim defini-la como um objeto passível de análise científica para os padrões de cientificidade da época. 2. A respeito das classificações dos fonemas, remetemos o leitor aos capítulos “Fonética” e “Fonologia”, no volume 1 desta obra. 3. Remetemos o leitor ao capítulo “Semântica”, neste mesmo volume.

A N A LIS E D O D IS C U R SO

103

vez, com relação a cachorro, homem se define por ser [-quadrúpede], e assim por diante. A Lingüistica, assim, acaba por se impor, com relação às ciências huma­ nas, como uma área que confere cientificidade aos estudos, já que esses deve­ ríam passar por suas leis (é nesse sentido que ela se toma uma ciência piloto), em vez de agarrarem-se diretamente a instâncias socioeconômicas4. É nesse horizonte que se inscreve, por exemplo, o projeto do filósofo Althusser, como afirma Maingueneau (1990): “a lingüística caucionava tacitamente a linha de horizonte do estruturalismo na qual se inscreve o procedimento althusseriano”5. Em Ideologia e aparelhos ideológicos do estado (1970), Althusser, fazen­ do uma releitura de Marx, distingue uma “teoria das ideologias particulares”, que exprimem posições de classes, de uma “teoria da ideologia em geral”, que permitiría evidenciar o mecanismo responsável pela reprodução das relações de produção, comum a todas as ideologias particulares. É nesse último aspecto que reside o interesse do autor. Ao propor-se a investigar o que determina as condições de reprodução social, Althusser parte do pressuposto de que as ideologias têm existência mate­ rial, ou seja, devem ser estudadas não como idéias, mas como um conjunto de práticas materiais que reproduzem as relações de produção. Trata-se do materialismo histórico, que dá ênfase à materialidade da existência, rompendo com a pretensão idealista de ciência de dominar o objeto de estudo controlando-o a partir de um procedimento administrativo aplicável a um determinado universo, como se a sua existência se desse no nível das idéias. Para o materialismo, “o objeto real (tanto no domínio das ciências da natureza como no da história) existe independentemente do fato de que ele seja conhecido ou não, isto é, inde­ pendentemente da produção ou não produção do objeto do conhecimento que lhe corresponde”6. Um exemplo: no modelo econômico do capitalismo (considerando aqui a concepção clássica de capitalismo, tal como ele foi compreendido pelas teorias marxistas), as relações de produção implicam divisão de trabalho entre aqueles que são donos do capital e aqueles que vendem a mão-de-obra. Esse modo de 4. Lõwy (1988) faz um interessante estudo da história das ciências sociais. Remetemos o leitor à sua obra para compreender como as vertentes filosóficas — positivism o, historicismo, marxismo — nortearam os critérios de cientificidade de cada época, critérios que, por sua vez, nortearam os propósitos, os estudos e os métodos nas ciências humanas. 5. MAINGUENEAU, D. Análise do Discurso: a questão dos fundamentos. In: Cadernos de Estudos Linguísticos. Campinas, UNICAM P - IEL, n. 19, jul./dez., 1990. 6. Pêcheux, M. Semântica e discurso: um a crítica à afirm ação do óbvio. Cam pinas, Editora da UNICAMP, 1988, p. 74. (título original: Les vérites de la Palice, 1975)

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produção é a base econômica da sociedade capitalista. Na metáfora marxista do edifício social, a base econômica é chamada de infra-estrutura, e as instâncias político-jurídicas e ideológicas são denominadas superestrutura. Valendo-se des­ sa metáfora, Althusser levanta a necessidade de se considerar que a infra-estru­ tura determina a superestrutura (materialismo histórico), ou seja, que a base econômica é que determina o funcionamento das instâncias político-jurídicas e ideológicas de uma sociedade. A ideologia — parte da superestrutura do edifí­ cio — , portanto, só pode ser concebida como uma reprodução do modo de pro­ dução, uma vez que é por ele determinada. Ao mesmo tempo, por uma “ação de retorno” da superestrutura sobre a infra-estrutura, a ideologia acaba por perpe­ tuar a base econômica que a sustenta. Nesse sentido é que se pode reconhecer a base estruturalista da teoria de Althusser, na medida em que a infra-estrutura determina a superestrutura e é ao mesmo tempo perpetuada por ela, como um sistema cuja circularidade faz com que seu funcionamento recaia sobre si mesmo. Como modo de apreensão do funcionamento da ideologia, o conceito de aparelhos ideológicos de Althusser é bastante esclarecedor. Retomando a teo­ ria marxista de Estado, o autor afirma que o que tradicionalmente se chama de Estado é um aparelho repressivo do Estado (ARE), que funciona “pela violên­ cia” e cuja ação é complementada por instituições — a escola, a religião, por exemplo — , que funcionam “pela ideologia” e são denominadas aparelhos ideoló­ gicos de Estado (AIE). Pela maneira como se estruturam e agem esses apare­ lhos ideológicos — por meio de suas práticas e de seus discursos — é que se pode depreender como funciona a ideologia (trata-se sempre, para Althusser, do funcionamento da ideologia dominante, pois, mesmo que as ideologias apresen­ tadas pelos AIE sejam contraditórias, tal contradição se inscreve no domínio da ideologia dominante). A Lingüística, então, aparece como um horizonte para o projeto althusseriano da seguinte maneira: como a ideologia deve ser estudada em sua materialidade, a linguagem se apresenta como o lugar privilegiado em que a ideologia se mate­ rializa. A linguagem se coloca para Althusser como uma via por meio da qual se pode depreender o funcionamento da ideologia. Poderemos agora melhor compreender a afirmação de Maingueneau (1990) anteriormente citada — “a lingüística caucionava tacitamente a linha de hori­ zonte do estruturalismo na qual se inscreve o procedimento althusseriano” - e entender também por que é que, como já foi dito, presidem o nascimento da AD o marxismo e a Lingüística. O projeto althusseriano, inserido em uma tradição marxista que buscava apreender o funcionamento da ideologia a partir de sua materialidade, ou seja, por meio das práticas e dos discursos dos AIE, via com

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bons olhos uma Lingüística fundamentada sobre bases estruturalistas. Mas uma Linguística saussureana, uma Lingüística da língua, não seria suficiente; só uma teoria do discurso, concebido como o lugar teórico para o qual convergem componentes linguísticos e socioideológicos, podería acolher esse projeto. E neste contexto que nasce o projeto da AD. Michel Pêcheux, apoiado numa formação filosófica, desenvolve um questionamento crítico sobre a Lin­ güística e, diferentemente de Dubois, não pensa a instituição da AD como um progresso natural permitido pela Lingüística, ou seja, não concebe que o estudo do discurso seja uma passagem natural da Lexicologia (estudo das palavras) para a Análise do Discurso. A instituição da AD, para Pêcheux, exige uma rup­ tura epistemológica, que coloca o estudo do discurso num outro terreno em que intervém questões teóricas relativas à ideologia e ao sujeito. Assim é que, como afirma Maldidier (1994), o objeto discurso de que se ocupa Pêcheux em seu empreendimento “não é uma simples ‘superação da Lingüística saussuriana’”7. A Lingüística saussureana, fundada sobre a dicotomia língua/fala8 — a primeira concebida como abstrata e sistêmica, por isso objetivamente apreendi­ da; a segunda, não objetivamente apreendida por variar de acordo com os diver­ sos falantes, que selecionam parte do sistema da língua para seu uso concreto em determinadas situações de comunicação —, permitiu a constituição da Fonologia, da Morfologia e da Sintaxe, mas não foi, segundo Pêcheux (1988), suficiente para permitir a constituição da Semântica, lugar de contradições da Lingüística. Para ele, o sentido, objeto da Semântica, escapa às abordagens de uma Lingüística da língua9. A teoria do valor de Saussure (1916/1974), segundo a qual os signos se definem negativamente, subordina, como aponta Brandão (1998a), a significação ao valor, de onde decorre que a significação, para Saussure, é concebida como sistêmica. Para Pêcheux, ao contrário, a significa­ ção não é sistematicamente apreendida por ser da ordem da fala e, portanto, do sujeito, e não da ordem da língua, pelo fato de sofrer alterações de acordo com as posições ocupadas pelos sujeitos que enunciam. O autor retoma esta dicotomia saussureana para inscrever os processos de significação num outro terreno, mas não concebe nem o sujeito, nem os sentidos como individuais, mas como histó­ ricos, ideológicos. Assim é que o autor propõe uma semântica do discurso — ✓

7. Maldidier. D. Elementos para uma história da Análise do Discurso na França. In: Orlandi, E. P. (org.) Gestos de leitura: da história no discurso. Campinas, Editora da UNICAMP, 1994. p. 19. 8. Remetemos o leitor ao capítulo “Fonologia” no volume 1 desta obra, que também aborda esta dicotomia. 9. Possenti (1995) aponta que para Granger (1973) as línguas não são sistemas formais, mas sistemas simbólicos que contêm um sistema formal, pois só se comportam como uma estrutura no nível fonológico; nos outros domínios, inclusive nos domínios da Morfologia e da Sintaxe, a língua falha como estrutura.

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concebido como lugar para onde convergem componentes lingüísticos e socioideológicos — em vez de uma semântica lingüística, pois as condições sócio-históricas de produção de um discurso são constitutivas de suas significações. Pode-se, assim, perceber o paralelismo dos projetos althusseriano e da AD. A Análise do Discurso, demonstrando uma vontade de formalização do discurso a partir da proposta de Pêcheux (1969) de uma análise automática do discurso (doravante AAD), oferecia um procedimento de leitura que relacio­ nava determinadas condições de produção101— “mecanismo de colocação dos protagonistas e do objeto do discurso, mecanismo que chamamos de ‘condi­ ções de produção do discurso’”11 — com os processos de produção de um discurso. Para Pêcheux, é como se houvesse uma “máquina discursiva”, um dispositivo capaz de determinar, sempre numa relação com a história, as possi­ bilidades discursivas dos sujeitos inseridos em determinadas formações soci­ ais, conceito originário da obra de Althusser (1970) que designa, em um deter­ minado momento histórico, um estado de relações — de aliança, antagonismo ou dominação — entre as classes sociais de uma comunidade. Assim é que a AD intervém como um componente essencial do projeto althusseriano que visa­ va definir uma ciência da ideologia que não fosse ideológica, isto é, que não implicasse uma posição ideológica de sujeito. O autor, buscando definir uma “teoria da ideologia em geral” que permitisse evidenciar o mecanismo respon­ sável pela reprodução das relações de produção comum a todas as ideologias particulares, vislumbrava a AAD como uma possibilidade empírica de realiza­ ção de seu projeto. Dialeticamente, o pensamento althusseriano também é determinante da fase inicial de instituição da AD, cuja proposta se inscreve no materialismo histórico. Esperamos ter explicitado até aqui o palco do materialismo histórico e do estruturalismo sobre o qual surge a AD. O materialismo histórico e o estruturalismo estabelecem as bases não só para a gênese da AD e do projeto althusseriano (o conceito de “máquina discursiva” e a metáfora do edifício social evidenciam isso), mas também para a convergência entre esses projetos. Ainda um outro elemento compõe o quadro epistemológico do surgimento da AD: a psicanálise lacaniana. Abordaremos o pensamento lacaniano procu­

10. Sobre a origem do term o condições de produção, ver B randão (1998a). 11. Pêcheux, M. A nálise autom ática do discurso (A A D -69). In: G adet, F. & Hak, T. (orgs.) Por uma análise automática do discurso: um a in tro d u ção à o b ra de M ichel P êcheux. C am p in as, E d ito ra da U N IC A M P, 1990, p. 78. (título original, 1969)

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rando evidenciar como ele é fundamental neste momento inicial de fundação da Análise do Discurso. A partir da descoberta do inconsciente por Freud, o conceito de sujeito sofre uma alteração substancial, pois seu estatuto de entidade homogênea passa a ser questionado diante da concepção freudiana de sujeito clivado, dividido entre o consciente e o inconsciente. Lacan faz uma releitura de Freud recorren­ do ao estruturalismo lingüístico, mais especificamente a Saussure e a Jakobson, numa tentativa de abordar com mais precisão o inconsciente, muitas vezes to­ mado como uma entidade misteriosa, abissal. Para poder trazer à tona seu material, Lacan assume que o inconsciente se estrutura como uma linguagem, como uma cadeia de significantes12 latente que se repete e interfere no discurso efetivo, como se houvesse sempre, sob as pala­ vras, outras palavras, como se o discurso fosse sempre atravessado pelo discur­ so do Outro, do inconsciente. A tarefa do analista13 seria a de fazer vir à tona, através de um trabalho na palavra e pela palavra, essa cadeia de significantes, essas “outras palavras”, esse “discurso do Outro”. O inconsciente é o lugar des­ conhecido, estranho, de onde emana o discurso do pai, da família, da lei, enfim, do Outro e em relação ao qual o sujeito se define, ganha identidade. Assim, o sujeito é visto como uma representação — como ele se representa a partir do discurso do pai, da família etc. — , sendo, portanto, da ordem da linguagem. Apoiado em alguns critérios do estruturalismo lingüístico, Lacan aborda esse inconsciente, demonstrando que existe uma estrutura discursiva que é regida por leis. Decorrem dessa proposta implicações para a psicanálise. A que mais diretamente interessa à AD diz respeito ao conceito de sujeito, definido em função do modo como ele se estrutura a partir da relação que mantém com o inconsciente, com a linguagem, portanto, já que, para Lacan, “a linguagem é condição do inconsciente”14. Saussure, como já apontado anteriormente, define o sistema lingüístico a partir do critério diferencial, segundo o qual na língua não há mais que diferen­

12. Para Saussure (1916/1974), o signo lingüístico é composto de significante e significado compre­ endidos, respectivamente, como imagem acústica (som com função lingüística) e conceito. Remetemos o leitor ao capítulo “Fonologia” no volume 1, que também aborda o conceito de signo. 13. Maingueneau (1990) aponta uma questão interessante com relação ao uso do termo análise: “é a materialização de uma certa configuração do saber em que o termo análise funciona ao mesmo tempo sobre os registros lingüístico, textual e psicanalítico”. Pode-se estender esta colocação ao termo analista, na medida em que, ainda como afirma o autor, “a escola francesa de Análise do Discurso se afirma como uma análise (= psicanálise) aplicada aos textos” (Maingueneau, 1990: 69). 14. Lacan é citado em Brandão, H. N. Introdução à Análise do Discurso. 7. ed. Campinas, Editora da UNICAMP, 1998a, p. 56.

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ças. Sendo assim, não se pode atribuir aos elementos do sistema nada de subs­ tancial, ou seja, não se pode defini-los por eles mesmos, tomando suas caracte­ rísticas independentemente das características de outros elementos do sistema, sem referi-las, compará-las. Passa-se, assim, como uma conseqüência inevitá­ vel do critério diferencial, ao critério relacionai, que delimita a função do Ou­ tro no interior do sistema. Dessa remissão entre os elementos do sistema tam­ bém decorre o critério do lugar vazio, segundo o qual cada elemento adquire sua identidade fora de si, já que, na óptica estruturalista, são as diferenças que definem os elementos. Essas diferenças, por sua vez, não são intrínsecas aos elementos e nem extrínsecas a eles, mas só podem ser consideradas a partir de uma posição no interior do sistema. A definição de cada elemento é uma defini­ ção de posição, ou seja, a sua identidade resulta sempre da relação que um elemento, que ocupa uma determinada posição inicial no interior do sistema, mantém com outro elemento, que ocupa uma posição terminal: o fonema [p], ponto inicial, com relação ao fonema [b], ponto terminal; o fonema [p], ponto inicial, com relação ao fonema [t], ponto terminal, por exemplo. A identidade resulta sempre dos lugares de onde são tomados os elementos na relação biná­ ria. Trata-se do critério posicionai. Desses critérios decorrem implicações para o conceito lacaniano de sujei­ to (Santiago, 1995), ao qual não se pode atribuir nada de substancial, pois ele só se define em relação ao Outro (critérios diferencial e relacionai). O sujeito dessubstancializado não está onde é procurado, ou seja, no consciente, lugar onde reside a ilusão do “sujeito centro” como sendo aquele que sabe o que diz, aquele que sabe o que é, mas pode ser encontrado onde não está, no inconscien­ te, lugar onde reside o Outro — o discurso do pai, da mãe, etc. — , que lhe imprime identidade (critério do lugar vazio). Asim, a identidade do sujeito lhe é garantida pelo lugar do Outro, ou seja, por um sistema parental simbólico que determina a posição do sujeito desde sua aparição. Como explica Santiago (1995), “o pai e a mãe deixam de ser meros semelhantes com os quais o sujeito se relacionou numa dimensão de rivalidade ou amor, para se tomarem lugares na estrutura”,15como se o sujeito fosse tomado por uma ordem anterior e exterior a ele. Dessa forma, o pai, por exemplo, pode surgir sob diferentes formas busca­ das no imaginário — pai complacente, pai ameaçador etc. — , mas pode tam­ bém, ocupando um lugar no discurso da mãe, tomar formas diferentes — pai ausente, pai presente etc. (critério posicionai).

15. Santiago, J. Jacques Lacan: a estrutura dos estruturalistas e a sua. In: Mari, H., Domingues, I. & Pinto, J. (orgs.) Estruturalismo: memória e repercussões. Rio de Janeiro, Diadorim/UFMG, 1995, p. 221.

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Essa relação entre o sujeito e o Outro se apóia na oposição binária de Jakobson (1960/1970), segundo a qual um remetente, ocupando uma posição inicial no processo de comunicação, coloca-se em relação comunicativa com um destinatário, que ocupa uma posição terminal no sistema de comunicação. Jakobson não é um estruturalista stricto sensu, pois, além de considerar os interlocutores do processo comunicativo — fato completamente discordante do estruturalismo de vertente saussureana, que exclui de seu campo de análise a fala por ser do âmbito do sujeito — não trata do sistema lingüístico em si, das regras de organização da língua propriamente ditas. Jakobson é apontado como estruturalista pelo fato de abordar o processo comunicativo como um sistema composto de elementos — remetente, destinatário, código, mensagem, contex­ to, canal — que se relacionam no interior de um sistema fechado e recorrente, como um circuito comunicativo. Pôde-se perceber, até aqui, em que sentido Lacan recorre ao estruturalis­ mo, mais especificamente a Saussure e a Jakobson. No entanto, há pontos em que divergem radicalmente os caminhos do estruturalismo e de Lacan. O pri­ meiro deles diz respeito à inserção do sujeito na estrutura, um deslocamento com relação ao estruturalismo saussureano que, num certo sentido e de maneira diferente, Jakobson também realizara. O segundo ponto se refere à maneira como é concebida a relação do sujeito com o Outro, deslocamento que realiza a partir da concepção do processo comunicativo de Jakobson. Esclareçamos o primeiro ponto, mostrando como a inserção do sujeito no sistema afeta a sua estrutura. O sujeito, por definir-se através da palavra do Outro, nada mais é que um significante do Outro. Mas, por ser um sujeito clivado, dividido entre o consciente e o inconsciente, inscreve-se na estrutura, caracteristicamente definida por relações binárias entre seus elementos, como uma descontinuidade, pois emerge no intervalo existente entre dois significantes, emerge sob as palavras, sob o discurso. Lacan, assim, não assume o pressuposto básico do estruturalismo, de completude do sistema, já que o sujeito — pura descontinuidade na cadeia significante — “descompleta” o conjunto dos significantes. No que diz respeito ao segundo ponto, o autor rompe com o estruturalismo ao romper com a simetria entre os interlocutores. Jakobson atesta uma simetria entre esses interlocutores na medida em que não considera a supremacia de nenhum deles sobre o outro. Lacan rompe com essa simetria. Para ele, o Outro ocupa uma posição de domínio com relação ao sujeito, é uma ordem anterior e exterior a ele, em relação à qual o sujeito se define, ganha identidade. Feita essa breve abordagem de alguns aspectos do pensamento lacaniano, poderemos agora explicar em que sentido o pensamento lacaniano é fundamen-

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tal neste momento inicial de fundação da Análise do Discurso, ou seja, em que se pode perceber a relevância do projeto lacaniano para a AD. O estudo do discurso para a AD, como já dito anteriormente, inscreve-se num terreno em que intervém questões teóricas relativas à ideologia e ao su­ jeito. Assim, o sujeito lacaniano, clivado, dividido, mas estruturado a partir da linguagem, fornecia para a AD uma teoria de sujeito condizente com um de seus interesses centrais, o de conceber os textos como produtos de um traba­ lho ideológico não-consciente. Calcada no materialismo histórico, a AD con­ cebe o discurso como uma manifestação, uma materialização da ideologia decorrente do modo de organização dos modos de produção social. Sendo assim, o sujeito do discurso não poderia ser considerado como aquele que decide sobre os sentidos e as possibilidades enunciativas do próprio discurso, mas como aquele que ocupa um lugar social e a partir dele enuncia, sempre inserido no processo histórico que lhe permite determinadas inserções e não outras. Em outras palavras, o sujeito não é livre para dizer o que quer, mas é levado, sem que tenha consciência disso (e aqui reconhecemos a propriedade do conceito lacaniano de sujeito para a AD), a ocupar seu lugar em determina­ da formação social e enunciar o que lhe é possível a partir do lugar que ocupa. Como afirma Althusser (1970): A ideologia é bem um sistema de representações: mas estas representações não têm, na maior parte do tempo, nada a ver com a “consciência”: elas são na maior parte das vezes imagens, às vezes conceitos, mas é antes de tudo como estruturas que elas se impõem à maioria dos homens, sem passar por suas consciências”16. Tendo até aqui descrito o terreno em que se funda a Análise do Discurso — um terreno em que se relacionam a Lingüística e as Ciências Sociais — uma questão importante se coloca: qual a especificidade da AD neste terreno? É o que procuraremos responder a seguir.

1.2. A especificidade da AD

Como aponta Maingueneau (1997), o campo da Lingüística, de maneira muito esquemática, opõe um núcleo “rígido” a uma periferia de contornos ins­ táveis, que está em contato com a Sociologia, Psicologia, História, Filosofia 16. Althusser (1970) é citado em Maingueneau, 1990: 69.

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etc. O núcleo rígido17se ocupa do estudo da língua como se ela fosse apenas um conjunto de regras e propriedades formais, ou seja, não considera a língua en­ quanto produzida em determinadas conjunturas históricas e sociais. A outra região, de contornos instáveis18, ao contrário, “se refere à linguagem apenas à medida que esta faz sentido para sujeitos inscritos em estratégias de interlocução, em posições sociais ou em conjunturas históricas”19. A Análise do Discurso pertence a essa última região, ou seja, considera esse último modo de compreen­ der a linguagem, o que não significa que, para ela, a linguagem não apresente também um caráter formal, como apontava o próprio Pêcheux (1975/1988), ao afirmar que existe uma base lingüística regida por leis internas (conjunto de re­ gras fonológicas, morfológicas, sintáticas) sobre a qual se constituem os efeitos de sentido, como poderemos observar a partir da análise da tira que se segue: CHICLETE COM B A N A N A /A ngeli

Fonte: Folha de S. Paulo

Há duas maneiras de interpretar o enunciado de Stock no último quadrinho: que há vinte anos atrás ele vivia fazendo sexo com a própria noiva, ou então que há vinte anos atrás ele vivia fazendo sexo com a noiva de Wood, seu amigo. Em termos essencialmente lingüísticos, diriamos que o que permite essa ambigüidade é a presença do pronome possessivo de Ia pessoa “minha”. Pelo fato de ser um dêitico20 — termo que permite identificar pessoas, coisas, momentos e 17. Veros capítulos “Fonética”, “Fonologia” e “Sintaxe”, no volume 1, e “Semântica”, no volume 2. No que diz respeito ao capítulo “Sintaxe”, referimo-nos apenas à Sintaxe Gerativa e, em relação ao capítulo “Semântica”, apenas à Semântica Formal. 18. Ver no volume 1 os capítulos “Sintaxe” (referimo-nos aqui à Sintaxe funcional), “Sociolingüística” e “Lingüística Textual”; ver neste volume os capítulos “Semântica” (referimo-nos aqui à Semântica da enunciação), “Pragmática” e “Análise de Conversação”. 19. Maingueneau, D. Novas tendências em Análise do Discurso. Campinas, Pontes/Editora da UNICAMP, 1997, p .ll. 20. Sobre a noção de dêitico, ver Lahud (1979) e Geraldi & Ilari (1985).

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lugares a partir da situação de fala —, possibilita que o seu referente seja tanto Stock quanto Wood, ou seja, permite ao leitor que ele interprete o pronome “minha” como referindo-se à noiva de Stock, o responsável pelo enunciado, ou à noiva de Wood. Isso porque poderiamos nos perguntar: sobre que parte do enunciado o advérbio “também” da expressão “Eu também” incide? Sobre “Bete Speed” (eu também fazendo sexo com a Bete Speed) ou sobre “minha noiva” (eu também fazendo sexo com minha noiva)? Em outras palavras, qual o esco­ po21 de “também”? Essa primeira análise, referente ao funcionamento da língua, explica o porquê da ambigüidade na tira, mas não explica por que achamos graça quando Stock enuncia “Eu também” no último quadrinho. Por que lemos esta tira como um discurso de humor? Devido às suas condições de produção. Produzido para circular em uma sociedade em que fazer sexo com a noiva de outro seria um comportamento bastante fora dos padrões morais apresentados como adequa­ dos a seus membros, a possibilidade de Stock ter feito sexo com a noiva de seu amigo gera riso, pois coloca Wood em uma situação bastante constrangedora. No entanto, este mesmo discurso produzido no interior da comunidade dos es­ quimós, por exemplo, não geraria riso, pois, segundo os costumes dessa comu­ nidade, quando um esquimó recebe um visitante em sua casa, ele oferece sua mulher a ele como sinal de hospitalidade. Nesse contexto, portanto, o discurso apresentado nesta tira não seria de humor, seria apenas uma conversa corriquei­ ra entre dois amigos que relembram fatos do passado. A ambigüidade se mantém tanto num como noutro contexto, mas os efei­ tos que ela gera são diferentes, e são justamente esses efeitos de sentido que interessam à Análise do Discurso. No caso da tira em questão, a pergunta que os analistas do discurso fariam seria: por que essa ambigüidade gera riso? Para a Análise do Discurso, perguntar somente o que gera a ambigüidade seria muito pouco, essa pergunta já seria feita, por exemplo, pela Semântica e pela Pragmá­ tica (as noções de escopo e de dêixis utilizadas para análise da tira pertencem respectivamente a essas duas áreas da Lingüística). O que garante a especificidade da Análise do Discurso é a formulação de uma pergunta subseqüente a essa: qual o efeito dessa ambigüidade? A resposta a essa pergunta reside justamente na relação que os analistas do discurso procuram estabelecer entre um discurso e suas condições de produção, ou seja, entre um discurso e as condições sociais e históricas que permitiram que ele fosse produzido e gerasse determinados efeitos de sentido e não outros.

21. Sobre a noção de escopo ver Geraldi & Ilari (1985).

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É preciso esclarecer, no entanto, ao falarmos da especificidade da AD, que não há apenas uma Análise do Discurso, esta de que vimos falando. Como decorrência dessa fronteira instável sobre a qual se situa a Análise do Discurso e em função da disciplina vizinha com a qual ela privilegia o contato, surgem diferentes “Análises do Discurso”. Classicamente considera-se que, se uma de­ las mantém uma relação privilegiada com a História, com os textos de arquivo, que emanam de instâncias institucionais, enquanto uma outra privilegia a rela­ ção com a Sociologia, interessando-se por enunciados com estruturas mais fle­ xíveis, como uma conversa informal, por exemplo, têm-se duas “Análises do Discurso” diferentes: a Análise do Discurso de origem francesa, que privilegia o contato com a História, e a Análise do Discurso anglo-saxã22, área bastante produtiva no Brasil, que privilegia o contato com a Sociologia. Atualmente, no entanto, este marco divisório não é tão rígido assim. Possenti, no artigo “O dado dado e o dado dado (O dado em análise do discur­ so)”, faz uma consideração a esse respeito apontando que a diferença entre a Análise do Discurso de origem francesa e uma análise conversacional não precisa ser uma diferença de dados, mas de teoria: “não é porque os eventos de discurso de tipo ‘linguagem ordinária’ foram objeto de descrições ‘conversacionais’ ou ‘intencionais’ que eles não são discursos, que eles não podem ser tomados em conta numa AD”23. Assim, o que diferencia a Análise do Discur­ so de origem francesa da Análise do Discurso anglo-saxã, ou comumente cha­ mada de americana, é que esta última considera a intenção dos sujeitos numa interação verbal como um dos pilares que a sustenta, enquanto a Análise do Discurso francesa não considera como determinante essa intenção do sujeito; considera que esses sujeitos são condicionados por uma determinada ideolo­ gia que predetermina o que poderão ou não dizer em determinadas conjuntu­ ras histórico-sociais. Essa é, entre outras, uma das diferenças teóricas entre as duas linhas. Apontamos de maneira bastante abrangente diferenças entre a Análise do Discurso de origem francesa e a de origem anglo-saxã. No entanto, há diferen­ ças no interior de cada uma dessas vertentes. No interior da Análise do Discurso de origem francesa, por exemplo, Fiorin (1990) aponta diferentes tendências. Fazendo uma análise do que foi feito no Brasil nas últimas décadas em termos de Análise do Discurso, o autor apresenta três correntes ordenadas historica­ 22. Sobre a Análise do Discurso anglo-saxã ver, neste mesmo volume, o capítulo “Análise da Conver­ sação” e, no volume 1, o capítulo “Lingüística Textual”. 23. Possenti, S. O dado dado e o dado dado (O dado em análise do discurso). In: Castro, M. F. P. de. (org.) O método e o dado no estudo da linguagem. Campinas, Editora da UNICAMP, 1996, p. 199.

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mente e apresentadas a partir dos interditos, ou seja, a partir do que não é “per­ mitido” fazer no interior de cada uma delas. A primeira corrente “proibia ocupar-se do funcionamento interno do tex­ to”, sob o risco de ser tachado de um “direitista do campo da Letras”. A segunda corrente esboçava um interdito contrário: “é preciso ocupar-se do funciona­ mento interno do texto”24. Fiorin (1990) analisa esse interdito relacionando-o com a “vitória” do capitalismo, que concebe a história como “contrato”, ou seja, como sendo regida pelos mecanismos internos do mercado. Analogicamente, na Análise do Discurso, os mecanismos internos de produção do sentido é que serão enfatizados. Não obedecer à interdição dessa segunda corrente significa­ ria pagar o preço de ser considerado “anacrônico”, assim como neste momento é considerado anacrônico o universo conceituai marxista. A terceira corrente, que representa a tendência atual, procura eliminar esses dois interditos que pe­ saram sobre a AD em determinados momentos e abordar o discurso em toda a sua complexidade, concebendo-o como um objeto lingüístico e cultural. Há, entretanto, apesar dessas divergências, um elemento comum entre essas Análi­ ses do Discurso, e esse elemento comum diz respeito à própria especificidade da AD, como ressalta Fiorin (1990): “o que é específico de todas essas Análises do Discurso é o estudo da discursivização”,25 ou seja, o estudo das relações entre condições de produção dos discursos e seus processos de constituição. Tendo apresentado o palco intelectual — ocupado ao mesmo tempo pelo estruturalismo, marxismo e psicanálise — sobre o qual emerge a AD e mos­ trado a sua especificidade, passaremos agora a apontar duas influências deci­ sivas neste primeiro momento de fundação da AD, no que tange aos seus pro­ cedimentos de análise. Trata-se do método harrisiano de análise e das gramá­ ticas gerativas.

1.3. Procedimentos de análise: a contribuição de Harris e Chomsky

O método de Harris (1969) seguia o rumo das análises estruturalistas. mas ampliava a unidade de análise. Propondo-se a analisar o texto, concebe tal aná­ lise como uma análise transfrástica, isto é, como uma análise que transpunha o limite do enunciado, uma vez que não toma como unidade de análise os elementos que o compõem, mas o próprio enunciado. E um método fundado basica­ a

24. Fiorin, J. L. Tendências da Análise do Discurso. In: Cadernos de Estudos Lingiiísticos. Campi­ nas, UNICAMP — IEL, jul./dez., 1990, p. 175. 25. Ibidem, p.174.

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mente na linearidade do discurso; o autor propõe que se observe a ligação entre os enunciados a partir de conectivos, com o objetivo de equacionar essa linearidade em classes de equivalência. Tomaremos como exemplo ilustrativo de uma análise pautada pelo método harrisiano o seguinte discurso, analisado por Osakabe (1979: 12-13): (1) O menino viu o belo quadro e gostou dele. Mas o pintor não lhe deu o quadro. Segundo o autor, esse discurso, já na forma reduzida por transformações e equivalências fornecidas pela gramática da língua, podería ser apresentado da seguinte maneira: (1’) O menino viu o quadro. O quadro era belo. O menino gostou do quadro. (Mas) o pintor não deu o quadro ao menino. Partindo das recorrências e da distribuição dos elementos de cada enuncia­ do, obtém-se um quadro de equivalências. Por exemplo, o verbo ver pode, neste contexto, ser tomado como equivalente a gostar, e assim teríamos: (2) A: B: C:

1. 0 menino viu o quadro. 2. 0 menino gostou do quadro. 0 quadro era belo. (Mas) O pintor não deu o quadro ao menino.

Como resultado, obteríamos a seguinte forma para esse discurso: (3) Al: A2: B: (Mas) C: Ou ainda, (4) A: B: (Mas) C:

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O recurso a esse método pelos iniciadores da AD explica-se por um certo interesse comum em produzir uma análise da superfície discursiva: Dubois se valia desse método, como relata Maldidier (1994), como “um meio de fazer aparecer as regularidades significativas dos discursos contrastados pelo corpus”,1(> ou seja, como uma forma de evidenciar o que havia de regular, de constante em cada um dos discursos contrastados. Para Pêcheux, por sua vez, a deslinearização decorrente das transformações — (1) e (2), por exemplo — permitia perceber os traços dos processos discursivos — (3) e (4) — , ou seja, os processos pelos quais um discurso se constituía enquanto tal. Harris, como foi possível perceber, restringe-se a uma concepção de discur­ so como uma seqüência de enunciados. Essa definição mostrou-se insuficiente para os propósitos da AD, que buscava reintegrar uma teoria do sujeito e uma teoria da situação. Assim, Pêcheux, visando a construção de um arcabouço teóri­ co que lhe permitisse isso, passa a considerar a oposição enunciação e enuncia­ do2627. A primeira se refere às condições de produção do discurso (é neste nível que será possível reintegrar as teorias do sujeito e da ideologia), que permitiríam a elocução de um discurso e não de outros, isto é, refere-se a determinadas circuns­ tâncias. a saber, o contexto histórico-ideológico e as representações que o sujeito, a partir da posição que ocupa ao enunciar, faz de seu interlocutor, de si mesmo, do próprio discurso etc.; e o segundo se refere à superfície discursiva resultante des­ sas condições. O procedimento gerativista de análise28, já bastante difundido na época, vem ao encontro dos interesses de Pêcheux. Em 1957. Noam Chomsky, aluno de Z. Harris, publica Estruturas sintáti­ cas e coloca em questão o método estruturalista americano29. Chomsky postula a existência de um sistema de regras internalizadas responsável pela geração das sentenças. A possibilidade de produzir uma análise nesses moldes aponta um caminho para a AD reintegrar as teorias do sujeito e da situação. Numa

26. M aldidier. 1994: 21.

27. Remetemos o leitor aos capítulos “Semântica” e “Pragmática” neste mesmo volume para uma maior compreensão da oposição enunciado/enunciação. Ver também Benveniste (1974/1989) e Searle (1981). Vale dizer, no entanto, que a noção de enunciação é reinterpretada pela AD. Neste arcabouço teórico, a enunciação não é o: -preendiáa como a situação empírica em que ocorre o discurso, mas como a represen­ tação, a imagem que o sujeito do discurso, inserido em determinadas condições sociais, faz das condições de produção de seu ú:-curso. Ver. a esse respeito, Pêcheux & Fuchs (1975/1990). 28. Remeterr.es c leitor ao capítulo “Sintaxe” no volume 1 desta obra, e aos capítulos “Aquisição da Linguagem” e “Psicolingüísiica” neste mesmo volume. 29. O geraiivis—:. cpesar do rigor de sua formalização, é interpretado como uma ruptura com o estruturalismo. P osiciorizio-se a esse respeito em entrevista dada a Jean Paris, como relata Silva (1995), Chomsky aponta os limites c : estruturalismo, afirmando a seu respeito não ser teórico suficientemente, por deixar de pesquisar os processos gerativos subjacentes que determinam as estruturas que observa e estuda.

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analogia com o postulado de que o sistema de regras é responsável pela geração das sentenças, propõe-se a noção de condições de produção, responsável pela geração dos discursos. Esse conceito de condições de produção é, como aponta Orlandi (1987), básico para a AD, pois elas “caracterizam o discurso, o consti­ tuem e como tal são objeto de análise”30. Para a AD, portanto, a enunciação não é um desvio, mas um “processo constitutivo da matéria enunciada”, afirma a autora31. É este último procedimento de análise que será produtivo para a AD, pois será a partir dele que ela formulará e reformulará seus procedimentos de análise e seu objeto de estudo, que definirão, por sua vez, o que chamamos as fases da AD. 2. FASES DA AD: OS PROCEDIMENTOS DE ANÁLISE E A DEFINIÇÃO DO OBJETO

A primeira época da Análise do Discurso32 (doravante AD-1) explora a análise de discursos mais “estabilizados”, no sentido de serem pouco polêmi­ cos33, por permitirem uma menor carga polissêmica, isto é, uma menor abertura para a variação do sentido devido a um maior silenciamento do outro (outro discurso/outro sujeito). Os discursos políticos teórico-doutrinários, como um manifesto do Partido Comunista, são um bom exemplo. Por serem mais “estabi­ lizados”, pressupõe-se que tais discursos sejam produzidos a partir de condi­ ções de produção mais estáveis e homogêneas, isto é, no interior de posições ideológicas e de lugares sociais menos conflitantes: o manifesto comunista é enunciado do interior do Partido Comunista e representa seus possíveis interlo30. Orlandi, E. P. A linguagem e seu funcionamento: as formas do discurso, z. ed. Campinas, Pontes, 1987, p.110. 31. Orlandi (1987) faz uma comparação entre as diferentes formas de a Sociolingüística, a teoria da enunciação e a Análise do Discurso trabalharem com a exterioridade. Aponta que a Sociolingüística visa a relação entre o social e o lingüístico; a teoria da enunciação trata da determinação entre o funcional (enunciação) e o formal (enunciado); a AD “procura estabelecer essa relação de forma mais imanente, considerando as condições de produção (exterioridade, processo histórico-social) como constitutivas da linguagem” (Orlandi, E. P. Op. cit., p.l 11). 32. Ver Pêcheux (1969/1990). 33. Orlandi (1987) propõe uma tipologia discursiva classificando os discursos em três tipos: o lúdico, o polêmico e o autoritário. Essa classificação é feita, entre outras coisas, com base no grau de reversibilidade entre os interlocutores: no discurso autoritário esta reversibilidade tende a zero; no polêmico ela é contro­ lada; no lúdico a reversibilidade é total. Optamos no texto pela utilização da expressão “menos polêmicos” porque queremos enfatizar apenas esta reversibilidade que possibilita, de acordo com seu grau, uma menor/maior abertura para a variação do sentido devido a um menor/maior silenciamento do outro (outro discurso/outro sujeito), de onde decorrem discursos menos/mais “estabilizados”. Ressaltamos, portanto, que não temos aqui a intenção de classificar discursos.

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cutores inscritos neste mesmo espaço discursivo. Considere, para contrapor, um debate político de que estivessem participando marxistas e liberais. Nessas condições de produção, o discurso do Partido Comunista representaria parte de seu(s) interlocutor(es) inscrito(s) em um outro lugar social, a saber, no espaço discursivo liberal. Neste caso, teríamos uma relação mais conflitante, pouco “estabilizada”. Um debate não seria, portanto, objeto de análise da AD-1. Com relação aos procedimentos de análise da AD-1, eles são realizados por etapas, apresentadas a seguir: a) primeiramente se seleciona um corpus fechado de seqüências discur­ sivas (um manifesto político, por exemplo); b) em seguida faz-se a análise lingüística de cada seqüência, consideran­ do as construções sintáticas (de que maneira são estabelecidas as rela­ ções entre os enunciados) e o léxico (levantamento de vocabulário); c) passa-se depois à análise discursiva, que consiste basicamente em cons­ truir sítios de identidades a partir da percepção da relação de sinonímia (substituição de uma palavra por outra no contexto) e de paráfrase (se­ qüências substituíveis entre si no contexto); d) por fim, procura-se mostrar que tais relações de sinonímia e paráfrase são decorrentes de uma mesma estrutura geradora do processo discur­ sivo. Têm-se, então, a noção de “máquina discursiva”: uma estrutura (condi­ ções de produção estáveis) responsável pela geração de um processo discursivo (o processo de construção do manifesto comunista, por exemplo) a partir de um conjunto de argumentos e de operadores responsáveis pela construção e trans­ formação das proposições, concebidas como princípios semânticos que defi­ nem, delimitam um discurso (o comunista, para tomá-lo como exemplo). Para a AD-1, cada processo discursivo é gerado por uma máquina discur­ siva. Assim, diferentes processos discursivos (o processo de construção do ma­ nifesto comunista e o processo de construção do manifesto liberal, por exem­ plo) referem-se a diferentes máquinas discursivas, cada uma delas idêntica a si mesma e fechada sobre si mesma (Pêcheux, 1983/1990). Na segunda fase da AD34 (AD-2), a noção de máquina estrutural fechada começa a explodir. O conceito de formação discursiva, tomado de empréstimo do filósofo Michel Foucault (1969), é o dispositivo que desencadeia esse pro-

34. Ver Pêcheux & Fuchs (1975/1990).

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cesso de transformação na concepção do objeto de análise da Análise do Dis­ curso. Foucault (1969) define formação discursiva (doravante FD) como: um conjunto de regras anônimas, históricas, sempre determinadas no tempo e no espaço que definiram em uma época dada, e para uma área social, econômica, geográfica ou linguística dada, as condições de exercício da função enunciativa35. Em outras palavras, uma FD determina o que pode/deve ser dito a partir de um determinado lugar social. Assim, uma formação discursiva é marcada por regularidades, ou seja, por “regras de formação”, concebidas como mecanismos de controle36 que determinam o interno (o que pertence) e o externo (o que não pertence) de uma formação discursiva. Assim, uma FD, ao definir-se sempre em relação a um externo, ou seja, em relação a outras FDs, não pode mais ser concebida como um espaço estrutural fechado. Ela será sempre invadida por elementos que vêm de outro lugar, de outras formações discursivas. Neste sen­ tido, o espaço de uma FD é atravessado pelo “pré-construído”37, ou seja, por discursos que vieram de outro lugar (de uma construção anterior e exterior) e que são incorporados por ela numa relação de confronto ou aliança. Uma FD, portanto, é constituída por um sistema de paráfrases, já que é um espaço onde enunciados são retomados e reformulados sempre “num esforço constante de fechamento de suas fronteiras em busca da preservação de sua identidade”38. Sendo, pois, a FD um espaço atravessado por outras FDs, ela não pode ser concebida como formada por elementos ligados entre si por um princípio de unidade. É nesse sentido que Foucault a concebe como uma dispersão. O papel do analista do discurso seria descrever essa dispersão buscando estabelecer as regras de formação de cada FD. Nesta segunda fase da AD, portanto, o objeto de análise passará a ser as relações entre as “máquinas” discursivas. Vale res­ saltar, no entanto, que o fechamento da maquinaria amda é conservado, pois a presença do outro (outra FD) sempre é concebida a partir do interior da FD em questão.

35. Foucault (1969) é citado cm Maingueneau, D. Novas tendências em Análise do Discurso. 3. ed. Campinas, Pontes/Editora da UNICAMP, 1997, p.14. 36. Ver Foucault (1969,1971). Remetemos também o leitor a Geraldi (1993), que faz uma esclarecedora apresentação dos mecanismos de controle - internos, externos e dos sujeitos - de que fala M. Foucault, e ao capítulo “Língua e ensino: políticas de fechamento”, neste mesmo volume, que também aborda estes meca­ nismos. 37. Sobre a noção de pré-construído, ver Pêcheux (1975/1988). 38. Brandão, H. N. Introdução à Análise do Discurso. 7. ed. Campinas, Editora da UNICAMP, 1998a, p. 39.

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No que diz respeito aos procedimentos de análise, a AD-2 apresenta muito poucas inovações; o deslocamento efetivo que se dá com relação à AD-1 diz respeito sobretudo ao objeto de análise: discursos menos “estabilizados”, por serem produzidos a partir de condições de produção menos homogêneas. Um debate político, já referido anteriormente, seria um bom exemplo. A desconstrução da maquinaria discursiva só ocorrerá mesmo na terceira fase da Análise do Discurso39 (AD-3). Essa desconstrução é decorrente de um deslocamento que acorre no que diz respeito à relação de uma FD com as ou­ tras. Na AD-2, o “outro” — outra(s) FD(s) — é incorporado pela FD em ques­ tão, que mantém, mesmo sendo atravessada por outros discursos, uma identida­ de. É possível, através de uma análise discursiva, determinar, no interior da dispersão, o que pertence a uma ou à(s) outra(s) FD(s). Na AD-3, por sua vez, adota-se a perspectiva segundo a qual os diversos discursos que atravessam uma FD não se constituem independentemente uns dos outros para serem, em seguida, postos em relação, mas se formam de manei­ ra regulada no interior de um interdiscurso. Será a relação interdiscursiva, por­ tanto, que estruturará a identidade das FDs em questão. Em decorrência dessa nova concepção do objeto de análise — o interdiscurso — , o procedimento de análise por etapas, com ordem fixa, como afirma Pêcheux (1983), explode defi­ nitivamente. As recentes pesquisas afirmam o primado do interdiscurso sobre o discur­ so, diferentemente da AD-1, que concebe a relação entre os discursos como sendo uma relação entre “máquinas” discursivas justapostas, cada uma delas autônoma e fechada sobre si mesma; e diferentemente também da AD-2, que considera a existência de FDs constituídas independentemente umas das outras para depois serem postas em relação. Na seção que se segue, faremos a análise de uma crônica e retomaremos os conceitos de formação discursiva e interdiscurso (AD-2, AD-3). Optamos por não retomar o conceito de “máquina discursiva” da AD-1, mais comumente chamada de AAD (análise automática do discurso), por estar ligada a um perío­ do muito marcado, no sentido de produzir trabalhos em tomo de uma concepção de discurso que foi completamente abandonada nas fases posteriores40. Reto­ maremos também o conceito de condições de produção, além de apresentar ou­ tros ainda não abordados (pelo menos de forma direta), como os conceitos de formação ideológica, sujeito e sentido. 39. Ver Maingueneau (1984. 1997). 40. Remetemos o leitor a Pêcheux (1969, parte II) para maiores escbrecimentos a respeito dos proce­ dimentos de análise desta primeira fase.

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3. UMA ANÁLISE 3.1. O conceito de discurso

Reproduziremos agora a crônica “Um só seu filho” de Bráulio Tavares, publicada no Caderno Mais da Folha de S. Paulo, no dia 16/3/97, e que será objeto de nossa análise. A escolha que fizemos deste material de análise se justifica pela própria forma como esta crônica é constituída, de maneira bastan­ te interessante para um primeiro contato com os fundamentos teóricos da AD. Em função dos objetivos deste artigo, não consideraremos aspectos literários da crônica em questão, o que não significa que não os reconheçamos. Naquela noite, o papa atravessou sua recorrente insônia com a ajuda de algumas páginas do tratado ilustrado de Mary DTmpério sobre o manuscrito Voynich, na edição de luxo de 1994. Leu até que os nomes de John Dee e Roger Bacon pareceram misturar-se e seus olhos começaram a arder. Usando os óculos dobrados para marcar a página, colocou o livro sobre a mesa de cabeceira e aper­ tou o botão que mergulhou o quarto nas trevas. Fez suas orações deitado, autoindulgência da qual teria se envergonhado aos 60 anos, mas que agora já lhe pare­ cia um direito adquirido. Também lhe sucedia às vezes adormecer antes de con­ cluir as preces; isso também não o inquietava mais. Pensava: “Deus enxerga meu coração; ele sabe que meu pecado não é este, que minhas dívidas são outras”. De repente, estava sentado no alto de uma montanha. O horizonte imenso estendia-se à sua frente; o vento era frio, mas não incomodava. — Este foi seu último dia sobre a Terra — disse uma voz ao seu lado. Tens agora o direito de fazer um último pedido. Ao seu lado havia uma forma que a princípio ele tomou por um homem de pé, depois por uma árvore, depois por uma nuvem vertical. Seus traços podiam corresponder a qualquer uma das coisas, e ele imaginou que aquilo era Deus. — Obrigado, Senhor — disse. Não mereço esta graça. — Todos os homens a recebem — disse a voz. Não és melhor do que nin­ guém. Sem saber o que responder, ele inclinou-se mais uma vez. Pensou: “É meu último dia de vida, isto não deve me amedrontar; é como quando após uma refei­ ção alguém retira de minha frente o prato vazio. Por que me rebelar, se já fruí o que me interessava?”. — Olha para tua mão — disse a voz. O que mais desejas? Ele fitou a palma da própria mão: viu com espantosa nitidez as linhas e as comissuras da pele, viu as rugosidades, o intrincamento têxtil das camadas superpostas, viu o fervilhar da matéria viva e as células que se partiam e se fun­ diam umas às outras como gotas d’água.

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— Nascer de novo - respondeu ele, sem pensar. — Queres voltar ao passado? — Quero nascer de novo, mas no futuro — retrucou. Quero nascer sob a forma de outra pessoa e saber se serei novamente seminarista, e padre, e cardeal, e papa. Quero que algumas destas minhas células sejam transplantadas para um tubo de ensaio e dali talvez para um ventre, de onde eu renasça: corpo, rosto e mente iguais aos que tive quando nasci. Código genético igual ao meu, sem a interferência abastardante de genes de uma fêmea, de uma parideira intrusa. Que­ ro que meu espírito se faça carne, mas quero ser o Pai único de meu Filho. — Para quê? Ele ergueu-se e maravilhou-se de ver que mesmo diante de Deus podia ficar de pé quando bem entendesse (“mas, af’, pensou, “é o último dia”). Olhou o vale que se espalhava lá embaixo: à luz roxa que vinha do céu, distinguia florestas, mares, arquipélagos, cidades, desertos de areia intacta, enormes cordilheiras de gelo rodopiando devagar em águas de um azul metálico. Cruzou os braços e virou-se para o vulto. — Se minha alma existe está ligada sem remissão a este corpo mortal. Se meu corpo se repetir, minha alma permanecerá aqui na Terra. De novo nascerei e serei um menino que irá dançar ao som de pandeiros e rabecas; de novo roubarei frutas, correrei atrás de cães, beijarei a boca de alguma moça de tranças louras. De novo estudarei o latim e a álgebra, de novo andarei anônimo e de batina por entre homens arrogantes que não suspeitarão o meu futuro. Farei voto de pobreza e viverei depois como um monarca; farei voto de obediência e subirei degrau após degrau das hierarquias de comando; farei voto de castidade... e quem sabe da próxima vez terei mais sorte. Lá embaixo, no vale, a luz crescia, e ele já enxergava centenas de metrópo­ les e cada janela de cada casa, e cada rosto adormecido por trás de cada janela. — Ninguém teve esta segunda chance — disse a voz, mas sem tentar per­ suadi-lo. — O que pedem os homens, então? — Pedem dinheiro, poder, mulheres. Pedem oxímoros, paradoxos: juventu­ de eterna, imortalidade do corpo... Tu pedes que teu corpo se multiplique. E se, em vez de um, fizerem dois? De quantas almas irás precisar? E se fizerem 20, 200? Ele voltou a sentar-se. Sabia que quem acabara de fazer aquele pedido não era o ancião calejado pelos debates escolásticos, o erudito capaz de enfrentar a teologia e a metafísica em 12 idiomas e, sim, o rapaz que em uma noite de febre sentira pela primeira vez, no pulsar dos próprios gânglios, a semente da morte crescendo dentro de si. — Vai, pede — disse a voz; e, sem surpresa, ele soube naquele instante que aquela voz não era Deus. Estendeu a mão para o vulto, e tocou nele.

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O camareiro, que se chamava Gesualdo, encontrou-o pela manhã, apalpou a pele fria de seu rosto, viu os olhos azuis virados para o teto. Gritou por socorro e teve a preocupação de não tocar em nada no quarto. Nessa crônica é possível perceber que se cruzam, pelo menos, duas ques­ tões mobilizadas pelo autor através do devaneio do Papa, que se vê diante de seu último dia de vida. Antes de iniciarmos esta análise, no entanto, gostaría­ mos de esclarecer que, ao falarmos em devaneio ou discurso do personagem Papa, estaremos, na verdade, sempre nos referindo a discursos que são mobili­ zados pelo autor por meio deste personagem. Neste devaneio é delatado um conflito entre dois discursos, um religioso e outro científico. Suspenso entre duas maneiras de conceber a sua existência, o Papa reflete sobre a possibilidade de nascer de novo, “sem a interferência abastardante de uma fêmea, de uma parideira intrusa”, numa referência à clonagem de seres humanos, mas se depa­ ra com um conflito espiritual: “Tu pedes que teu corpo se multiplique. E se, em vez de um, fizerem dois? De quantas almas irás precisar?” A Análise do Discurso considera como parte constitutiva do sentido o contexto histórico-social; ela considera as condições em que este texto, por exem­ plo, foi produzido. Contextualizado num momento histórico em que a clonagem levantava a questão da ética na ciência, nada mais representativo desse contexto que a figura do Papa como contraponto ideológico. Por meio deste personagem, o autor presentifica no texto o ponto de vista religioso-católico que faz oposição a uma ciência que se confronta com a concepção de homem como ser espiritual. Se este contexto for ignorado, todo o sentido do texto é alterado. Basta conside­ rar a hipótese de este texto, por exemplo, ter sido escrito no século XIX, em que a clonagem de seres humanos não passava de pura ficção científica e não era, como nos dias atuais, uma possibilidade que a ciência considera. Este texto não tena o estatuto que atribuímos a ele, o de colocar em cena um conflito ideológi­ co atual, mas lhe seria atribuído o estatuto de “ficção científica” por abordar fatos inconcebíveis ao homem da época. O contexto histórico-social, então, o contexto de enunciação, constitui parte do sentido do discurso e não apenas um apêndice que pode ou não ser considerado. Em outras palavras, pode-se dizer que, para a AD, os sentidos são historicamente construídos. Althusser (1970) afirma, como já apontado anteriormente, que a classe dominante, para manter sua dominação, gera mecanismos que perpetuam e re­ produzem as condições materiais, ideológicas e políticas de exploração, dentre esses mecanismos, os aparelhos ideológicos de Estado (AIE). O discurso, como também já foi apontado, é um “aparelho ideológico” através do qual se dão os

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embates entre posições diferenciadas. É possível compreender melhor esta afir­ mação a partir da crônica analisada. Nela é delatado um conflito entre os discursos religioso e científico. Ocor­ re que esse conflito não é apenas um embate entre estes dois discursos, mas é, antes, um confronto entre forças ideológicas. O conflito, materializado na alternância das posições que o personagem Papa ocupa durante seu devaneio — ora desempenha o papel de autoridade da Igreja Católica, instituição que representa, ora ocupa o lugar de um homem comum fascinado pelas promes­ sas da ciência de sua época — , é caraterístico de posições ideológicas contrá­ rias uma em relação à outra em um momento dado, ou seja, o conflito é carac­ terístico de um embate de nossa época. O texto, portanto, não se apresenta como um conjunto de enunciados unificados por posições ideológicas nãoconflitantes, como algo homogêneo. Ao contrário, o texto se constitui de dis­ cursos divergentes cujas fronteiras se intersectam (o próprio devaneio se ca­ racteriza pela ausência de uma demarcação definida entre uma posição e ou­ tra); o texto é heterogêneo, não é possível definir um dos discursos sem reme­ ter ao outro. O que se pode dizer do devaneio do Papa? Que ele representa um posi­ cionamento da Igreja Católica com relação à liberdade do homem diante da própria vida? Que ele representa as possibilidades que a ciência moderna oferece ao homem de ser senhor da própria vida? Não é possível optar por apenas uma das hipóteses sem incorrer no risco de desconfigurar o sentido do texto. O devaneio do Papa representa, ao mesmo tempo, o posicionamento católico e o posicionamento da ciência moderna, ele só existe na verdade porque existe um conflito, ético no caso, entre as duas posições. Assim, o texto não é um ou outro discurso, mas é a relação entre eles. A AD chama de form ação ideológica (FI) este confronto de forças em um dado momento histórico: Falar-se-á em formação ideológica para caracterizar um elemento (determinado aspecto da luta nos aparelhos) susceptível de intervir como uma força confron­ tada com outras na conjuntura ideológica característica de uma formação social em um momento dado; cada formação ideológica constitui assim um conjunto complexo de atitudes e de representações que não são nem “individuais”, nem “universais” mas se relacionam mais ou menos diretamente a posições de classe em conflito umas com as outras41. 41. Haroche, C., Henry, P. & Pêcheux, M. (1971) são citados por Brandão, H. N. Introdução à Análise do Discurso. 7. ed. Campinas, Editora da UNICAMP, 1998a, p. 38.

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Sendo assim, uma formação ideológica comporta necessariamente mais de uma posição capaz de se confrontar uma com a outra. Na verdade, numa formação ideológica, as forças não precisam estar necessariamente em confron­ to; elas podem entreter entre si relações de aliança ou também de dominação. A idéia de confronto foi colocada em destaque aqui unicamente em função do texto analisado. O conceito de formação discursiva (FD), já apresentado, é utilizado pela AD para designar o lugar onde se articulam discurso e ideologia. Nesse sentido é que podemos dizer que uma formação discursiva é governada por uma forma­ ção ideológica. Como uma FI coloca em relação necessariamente mais de uma força ideológica, uma formação discursiva sempre colocará em jogo mais de um discurso. No caso da crônica analisada, temos interligados por uma relação de forças contraditórias o “discurso da ciência” e o “discurso religioso”. Para esclarecer melhor a constituição de uma formação discursiva, gosta­ ríamos de analisar uma tira de Bill Watterson:

Fonte: W atterson, B. Os dez anos de Calvin, v. II, 1996.

Calvin, o personagem-menino que assume o papel de sujeito do discurso “A força para mudar o que eu puder, a inabilidade de aceitar o que eu não posso e a incapacidade de ver a diferença”, enuncia do interior de uma formação discursiva. Como uma FD é um dos componentes de uma formação ideológica específica, o fechamento, o limite que define uma formação discursiva é instá­ vel, pois ela se inscreve em um espaço de embates, de lutas ideológicas. Assim, uma FD não consiste em um limite traçado de maneira definitiva; uma FD se inscreve entre diversas formações discursivas, e a fronteira entre elas se desloca em função dos embates da luta ideológica, sendo esses embates recuperáveis no interior mesmo de cada uma das FDs em relação. Vejamos como isso se dá no discurso de Calvin. A análise, esboçada no quadro que se segue, foi-nos

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apresentada por um aluno do 2o ano de Tradutor e Intérprete da Universidade de Franca42, por ocasião da leitura da primeira versão deste texto. Nós a reproduzi­ mos aqui como uma contribuição para a explanação do conceito em questão.

FD

FD C R ISTÃ

FD IN D IV ID U A L IST A

“A força para m udar o que eu p uder”

A força para m udar o que puder (objetiva transform ar)

A força para m udar o que puder (objetiva uma imposição ditatorial)

“A inabilidade para aceitar o que eu não p o sso ”

A habilidade de aceitar o que não pode ser m udado (resignação diante dos obstáculos intransponíveis)

A inabilidade de aceitar o que não pode ser m udado (revolta e insatisfação diante dos obstáculos intransponíveis)

“A incapacidade de ver a diferença”

A capacidade de ver a diferença (aspira-se à sabedoria)

A incapacidade de ver a diferença (aspira-se som ente à realização das vontades pessoais, nada deve detê-las)

O quadro apresentado mostra o discurso de Calvin como decorrente de um embate entre duas formações discursivas, a “FD cristã”, enunciada a partir de um lugar ideológico que valoriza a convivência pacífica e equilibrada de um sujeito consigo mesmo e com o próximo, e a “FD individualista”, enunciada a partir de um lugar ideológico que valoriza a vida pautada pelos desejos pessoais e particulares do sujeito (os nomes dados às FDs são bastante “esquemáticos”, no sentido de rotularem os discursos; foram escolhidos em função do que julga­ mos ser o componente semântico mais característico das FDs em questão e são aqui utilizados apenas para fins didáticos). De acordo com o quadro, um mesmo enunciado pode ser compreendido de duas maneiras, dependendo do lugar ideo­ lógico de onde é enunciado. “A força para mudar o que eu puder” pode signifi­ car a luta por uma transformação pautada na boa vontade e na solidariedade cristãs ou uma imposição ditatorial pautada pelo egocentrismo e individualis­ mo. Ao mesmo tempo, enunciados como “A inabilidade para aceitar o que eu não posso” e “A incapacidade para ver a diferença”, que parecem nos remeter univocamente à “FD individualista”, no quadro são apresentados como nos re­ metendo também à “FD cristã”. O leitor deve estar se perguntando por quê. Uma breve apresentação do conceito de heterogeneidade discursiva poderá es­

42. Agradecemos a Eugênio Rodrigues pela contribuição.

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clarecer essa questão. Antes, porém, não poderiamos deixar de fazer uma refe­ rência a Bakhtin (1929/1988) que, fazendo uma crítica à concepção saussureana de língua como um sistema monológico, apresenta a noção de dialogismo sobre a qual se funda uma grande parte da Lingüística43, inclusive a AD. Bakhtin (1929/1988) considera que a verdadeira substância da língua é constituída pelo fenômeno social da interação verbal e que o ser humano é in­ concebível fora das relações que o ligam ao outro44. É partindo desse pressupos­ to que critica a concepção de língua enquanto estrutura, pelo fato de, ao ser tomada como alheia aos processos sociais, não ser articulável com uma prática social concreta, com a história e tampouco com o sujeito. Segundo Authier-Revuz (1982), um paradigma é constante nos estudos do círculo de Bakhtin: opõem-se o dialógico ao monológico, o múltiplo ao único, o heterogêneo ao homogêneo45. O dialogismo do círculo de Bakhtin, no entanto, não tem como preocupação central o diálogo face a face, mas diz respeito a uma teoria de dialogização interna do discurso. É nesse sentido que, para Bakhtin, o discurso, cujo dialogismo se orienta para outros discursos e para o outro da interlocução, instaura-se numa perspectiva plurivalente de sentidos, bem como a própria palavra que, pelo fato de ser atravessada por sentidos constituídos historicamente, não é monológica, não é neutra, mas atravessada pelos discur­ sos nos quais viveu sua existência socialmente sustentada46. Recorrendo a este conceito de dialogismo47 concebido pelo círculo de Bakhtin, Authier-Revuz (1990) indica algumas formas de heterogeneidade mos­ trada no discurso, formas que se articulam sobre a realidade da heterogenei­ dade constitutiva de todo discurso. A heterogeneidade constitutiva, segundo Maingueneau (1997), não é marcada em superfície, mas a AD pode defini-la, formulando hipóteses, a partir do pressuposto da presença constante do Outro na constituição de uma formação discursiva (é bastante evidente aqui como o conceito de heterogeneidade constitutiva do discurso de que se vale a AD é 43. Ver os capítulos “Sintaxe” (referimo-nos à Sintaxe Funcional), “Sociolingüística” e “Lingüística Textual” no volume 1 desta obra, e os capítulos “Semântica” (referimo-nos à Semântica da Enunciação), “Pragmática” e “Análise da Conversação” neste mesmo volume. 44. Remetemos o leitor a Brait (1997), uma coletânea de artigos que apresenta estudos sobre os principais conceitos da obra bakhtiniana. 45. Authier-Revuz (1982) é citada em Brandão, H. N., Introdução à Análise do Discurso, 7. ed., Campinas, Editora da UNICAMP, 1998a, p. 52. 46. Bakhtin (1929/1988). 47. Embora ele se situe na perspectiva da Semântica da Enunciação, cabe citar aqui o texto de Ducrot (1984/1987), Esboço de uma teoria polifônica da enunciação, em que o autor, contestando a unicidade do sujeito falante, procura mostrar como em um mesmo enunciado é possível detectar mais de uma voz. Remetemos o leitor ao capítulo “Semântica”, neste mesmo volume, para maiores informações.

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caudatário do conceito de dialogismo de Bakhtin). Authier-Revuz (1982) apon­ ta três tipos de heterogeneidade mostrada: a) aquela em que o locutor ou usa de suas próprias palavras para traduzir o discurso de um Outro (discurso relatado) ou então recorta as palavras do Outro e as cita (discurso direto); b) aquela em que o locutor assinala as palavras do Outro em seu discurso, por meio, por exemplo, de aspas, de itálico, de uma remissão a outro discurso, sem que o fio discursivo seja interrompido; c) aquela em que a presença do Outro não é explicitamente mostrada na frase, mas é mostrada no espaço do implícito, do sugerido, como nos casos do discurso indireto livre, da antífrase, da ironia, da imitação, da alusão48. Essas três formas de heterogeneidade mostrada assinalam a presença do Outro na superfície discursiva de maneira diferente, desde formas mais eviden­ tes (a, b), que Authier-Revuz (1990) classifica como heterogeneidade mostrada marcada, até a forma mais complexa, menos evidente (c), em que a voz do locutor se mistura à do Outro, e que a autora classifica como heterogeneidade mostrada não-marcada. No entanto, independentemente dessa classificação, to­ das essas formas de heterogeneidade estão ancoradas no princípio da heteroge­ neidade constitutiva do discurso. Retomando agora à análise da tira de Watterson, apresentada no quadro, ficará mais claro de compreender por que os enunciados “A inabilidade para aceitar o que eu não posso” e “A incapacidade para ver a diferença” são apre­ sentados como nos remetendo também à “FD cristã”. Nos dois enunciados há a marca da negação — o prefixo irt —, uma forma de heterogeneidade mostrada marcada na superfície do discurso. Por meio desta marca, o que é negado é justamente o discurso que é apresentado no quadro como nos remetendo à “FD cristã”: “A habilidade para aceitar o que eu não posso” e “A capacidade para ver a diferença”. Assim, a negação de um discurso necessariamente nos remete a ele, de forma que ele pode ser percebido como a presença do “Outro” no interior do discurso que o nega. Já o enunciado “A força para mudar o que eu puder”, como já foi dito anteriormente, também nos remete à “FD cristã” e à “FD materialista”, mas pela presença da heterogeneidade mostrada não-marcada na superfície discur-

48. Authier-Revuz (1982) é citada em Brandão. H. N., op. cit., p. 50.

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siva. É no espaço do sugerido que percebemos esta heterogeneidade, é em função da relação que estabelecemos entre “A força para mudar o que eu pu­ der” e os demais enunciados do discurso de Calvin que percebemos a dupla alusão deste enunciado. Retomando Maingueneau (1997), é formulando hipó­ teses desse tipo que podemos perceber a presença constante do Outro na cons­ tituição de uma formação discursiva, que podemos perceber a realidade da heterogeneidade constitutiva do discurso. A própria Authier-Revuz (1982) considera que os dois níveis de heterogeneidade mostrada, a marcada e a nãomarcada, são, na verdade, formas lingüísticas de representação de diferentes modos de negociação do sujeito falante com a heterogeneidade constitutiva, sendo a heterogeneidade mostrada não-marcada uma forma mais arriscada de negociação porque, ao jogar com a diluição, é mais dificilmente controlada pelo sujeito. Foi possível perceber, então, que existe, numa formação discursiva, sem­ pre a presença do Outro, e é esta presença que confere ao discurso o caráter de ser heterogêneo. O quadro apresentado a partir da análise da tira de Watterson mostra de maneira bastante clara esse caráter heterogêneo do discurso. Ape­ sar de Calvin enunciar de um lugar ideológico, digamos, “individualista”, os embates entre este lugar ideológico e o “cristão” são recuperáveis no interior mesmo da FD. Calvin, ao ironizar o discurso cristão negando-o através de uma paródia, recupera-o como parte constitutiva do discurso. É nesse sentido que Maingueneau (1997), considerando que uma formação discursiva não pode ser compreendida como um bloco compacto e fechado, mas que ela é definida a partir de uma incessante relação com o Outro, afirma o primado do interdiscurso sobre o discurso. Para ele, a unidade de análise pertinente não é o dis­ curso, mas um espaço de trocas entre vários discursos. Os diversos discursos que atravessam uma FD não passam de componentes, ou seja, em termos de gênese, tais discursos não se constituem independentemente uns dos outros para serem, em seguida, postos em relação, mas se formam de maneira regulada no interior de um interdiscurso. Será a relação interdiscursiva, pois, que estruturará a identidade das FDs em questão. A AD-3 e as recen­ tes pesquisas tomam, como já apontado, o interdiscurso como um pressu­ posto teórico. O primado do interdiscurso pode ser muito bem percebido na crônica “Um só seu filho”, pois o sentido do texto não pode ser apreendido em um espaço fechado, dependente de uma posição enunciativa absoluta ou de outra, mas ele deve ser apreendido como circulação dissimétrica de uma posição enunciativa à outra. Observemos dois trechos.

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Quando a voz pergunta ao Papa qual era o seu último pedido, o Papa, depois de alguma hesitação, responde: Quero nascer de novo, mas no futuro — retrucou. Quero nascer sob a forma de outra pessoa e saber se serei novamente seminarista, e padre, e cardeal, e papa. Quero que algumas destas minhas células sejam transplantadas para um tubo de ensaio e dali talvez para um ventre, de onde eu renasça: corpo, rosto e mente iguais aos que tive quando nasci. Código genético igual ao meu, sem a interferên­ cia abastardante de genes de uma fêmea, de uma parideira intrusa. Quero que meu espírito se faça carne, mas quero ser o Pai único de meu Filho.

Nesse trecho, podemos perceber que há um diálogo incessante entre a “voz”, da ciência — “Código genético igual ao meu, sem a interferência abastardante de genes de uma fêmea, de uma parideira intrusa.” — e a “voz” da religião — “Quero que meu espírito se faça carne, mas quero ser o Pai único de meu Filho”. A posição enunciativa do sujeito do discurso, no caso o personagem Papa, mo­ bilizado pelo autor como responsável por esta enunciação, circula dissimetricamente pelo espaço interdiscursivo, na medida em que ora enuncia de uma posi­ ção, ora de outra. O mesmo ocorre quando esse personagem faz uma reflexão a respeito do que ele voltaria a viver se nascesse de novo. Atravessando o discurso sobre a sua trajetória na Igreja Católica, é possível perceber a presença de um discurso de crítica à Igreja, uma vez que faz referência à arrogância de alguns de seus companheiros, ao mesmo tempo que deixa entrever em sua fala um certo senti­ mento de orgulho e desforra ao referir-se ao seu brilhante futuro: “De novo estudarei o latim e a álgebra, de novo andarei anônimo e de batina por entre homens arrogantes que não suspeitarão o meu futuro”. Nesses dois trechos, o personagem ora enuncia de um lugar ideológico, ora de outro. Os trabalhos mais recentes da AD não considerariam que os dois pólos enunciativos de onde enuncia o personagem Papa são constituídos a priori e só então colocados em relação, mas que essa circulação dissimétrica de uma posição enunciativa à outra ocorre devido ao fato de o campo discursivo (Maingueneau, 1984) — conjunto de formações discursivas com mesma função social que se encontram em concorrência, aliança ou neutralidade aparente e que se divergem sobre o modo pelo qual tal função deve ser preenchida — através do qual o sujeito, do discurso circula se caracterizar essencialmente por ser um espaço interdiscursivo. Do ponto de vista da AD, seria possível dizer que o efeito de devaneio do sujeito-personagem é construído sobre a possibilidade de circulação entre posições enunciativas que o campo discursivo oferece.

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3.2. A noção de sentido para a AD

Considerando o que foi apresentado até aqui com relação à noção de dis­ curso com a qual a AD trabalha (conceitos de formação discursiva, formação ideológica, heterogeneidade, interdiscurso), seria quase redundante dizer que, para a AD, o caráter dialógico do discurso é constitutivo de seu sentido, isto é, que o sentido de uma formação discursiva depende da relação que ela estabele­ ce com as formações discursivas no interior do espaço interdiscursivo. A heterogeneidade constitutiva do discurso o impede, como vimos, de ser um espaço “estável”, “fechado”, “homogêneo”, mas não o redime de estar inse­ rido em um espaço controlado, demarcado pelas possibilidades de sentido que a formação ideológica pela qual é governado lhe concede. Uma formação discur­ siva, apesar de heterogênea, sofre as coerções da formação ideológica em que está inserida. Sendo assim, as seqüências lingüísticas possíveis de serem enun­ ciadas por um sujeito já estão previstas, porque o espaço interdiscursivo se ca­ racteriza pela defasagem entre uma e outra formação discursiva. Explicando melhor: as seqüências lingüísticas possíveis de serem enunciadas por um sujei­ to circulam entre esta ou aquela formação discursiva que compõem o inter­ discurso. O devaneio do personagem Papa é bastante esclarecedor nesse sentido. Ora o personagem fala a partir de um lugar ideológico, ora de outro. Ora é o representante da Igreja Católica diante de Deus — “Obrigado, Senhor. Não mereço esta graça” —, ora é apenas um homem moderno atormentado pela idéia da morte — “Nascer de novo”. Mas não seria inverossímil o personagem Papa, mobilizado pelo autor como responsável pela enunciação, pedir para nascer de novo? E justamente neste ponto que a AD se mostra bastante esclarecedora. Para a Análise do Discurso, o que está em questão não é o sujeito em si; o que importa é o lugar ideológico de onde enunciam os sujeitos. Em outras palavras, no espaço interdiscursivo, enun­ ciando do interior de uma formação discursiva de cunho ideológico cristãocatólico, o personagem jamais poderia pedir para nascer de novo. Ao fazer esse pedido, o que ocorre é que ele deixa de enunciar inscrito em uma FD de cunho cristão-católico e passa a enunciar de um outro lugar ideológico, estando inscri­ to, assim, em outra formação discursiva. Dessa forma, apesar do caráter constitutivamente heterogêneo do discurso, não se pode concebê-lo como livre de res­ trições. O que é e o que não é possível de ser enunciado por um sujeito já está demarcado pela própria formação discursiva na qual está inserido. Os sentidos possíveis de um discurso, portanto, são sentidos demarcados, preestabelecidos ✓

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pela própria identidade de cada uma das formações discursivas colocadas em relação no espaço interdiscursivo. No entanto, apesar dos sentidos possíveis de um discurso estarem preestabelecidos, eles não são constituídos a priori, ou seja, eles não existem antes do discurso. O sentido vai se constituindo à medida que se constitui o próprio discurso. Não existe, portanto, o sentido em si, ele vai sendo deter­ minado simultaneamente às posições ideológicas que vão sendo colocadas em jogo na relação entre as formações discursivas que compõem o interdiscurso. Se tomarmos como exemplo a própria constituição da crônica “Um só seu filho”, ou melhor, se a tomarmos como uma metáfora de como se constitui o sentido para a AD, ficará bastante fácil de compreender a noção de sentido. O sentido da crônica não é dado a priori, mas vai sendo construído à me­ dida que se constrói o texto. Não se tem a priori com muita clareza o que está efetivamente ocorrendo com o personagem Papa. O personagem vai sendo construído à medida que o texto vai sendo construído e, por sua vez, vai-se construindo o sentido do texto à medida que se dá a sua própria constituição. Esse sentido, no entanto, não é qualquer sentido, mas está previsto pelas forças ideológicas colocadas em jogo na crônica. A AD diria que os sentidos possíveis para esta crônica deslocam-se entre (e aqui diremos de maneira bastante esquemática e simplificadora, apenas para exemplificar) a “formação discursiva da ciência” e a “formação discursiva católica”. No espaço de circulação entre essas duas formações discursivas é que residiría o sentido. O sentido, portanto, não é único, já que se dá num espaço de heterogeneidade, mas é necessariamen­ te demarcado. Um outro exemplo que pode ser esclarecedor é pensarmos nas propagan­ das eleitorais que a cada quatro anos assistimos pela televisão. Os discursos de cada partido ou político não são elaborados previamente e guardados em gave­ tas até a data prevista para serem enunciados na TV. Mas, à medida que vai se dando o embate político entre partidos e candidatos, os discursos vão sendo escritos, re-escritos, e os sentidos, então, vão sendo constituídos no próprio pro­ cesso de constituição dos discursos. Evidentemente, não são quaisquer sentidos que são constituídos a partir de uma formação discursiva, como já foi dito ante­ riormente, mas somente aqueles previstos pela formação ideológica que rege determinado discurso. Assim, no contexto atual, dificilmente ouviremos de um candidato do PT algo como “Vamos privatizar os setores básicos da economia” ou, então, de um candidato do PFL, “Abaixo a privatização”.

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3.3. O conceito de sujeito na AD

Não fica muito difícil de prever, considerando o percurso que fizemos até aqui, de que maneira a subjetividade é concebida pela AD. Para abordarmos essa questão, consideraremos as fases da AD apresentadas anteriormente, já que, decorrente de cada noção de discurso, têm-se diferentes noções de sujeito. Na AD-1, como cada processo discursivo é gerado por uma “máquina discursiva”, o sujeito não poderia ser concebido como um indivíduo que fala (“eu falo”), como fonte do próprio discurso. O sujeito, para a AD-1, é concebi­ do como sendo assujeitado à maquinaria [para utilizar um termo do próprio Pêcheux (1983/1990)], já que está submetido às regras específicas que delimi­ tam o discurso que enuncia. Assim, segundo essa concepção de sujeito, “quem de fato fala é uma instituição, ou uma teoria, ou uma ideologia”49. Na AD-2, a noção de sujeito sofre uma alteração que precisa ser compre­ endida no interior da noção de formação discursiva de Foucault (1969/1971): assim como uma FD é concebida como uma dispersão, no sentido de não ser formada por elementos ligados entre si por um princípio de unidade, o sujeito também o é. Não existe mais, neste segundo momento, a noção de um sujei­ to marcado pela idéia de unidade, tal como era concebido na AD-1. Ao contrá­ rio, a noção de dispersão do sujeito (Foucault, 1969/1971) é aqui retomada; o sujeito passa a ser concebido como aquele que desempenha diferentes papéis de acordo com as várias posições que ocupa no espaço interdiscursivo. Dessa for­ ma, na AD-2, “vigora a idéia de que o sujeito é uma função, e que ele pode estar em mais de uma”50. No entanto, nesta segunda fase, o sujeito, apesar da possibi­ lidade de desempenhar diferentes papéis, não é totalmente livre; ele sofre as coerções da formação discursiva do interior da qual enuncia, já que esta é regu­ lada por uma formação ideológica. Em outras palavras, o sujeito do discurso ocupa um lugar de onde enuncia, e é este lugar, entendido como a representação de traços de determinado lugar social (o lugar do professor, do político, do publicitário, por exemplo), que determina o que ele pode ou não dizer a partir dali. Ou seja, este sujeito, ocupando o lugar que ocupa no interior de uma for­ mação social, é dominado por uma determinada formação ideológica que preestabelece as possibilidades de sentido de seu discurso. Com relação, portanto, às concepções de sujeito da AD-1 e da AD-2, podese dizer que, apesar de diferentes, elas são influenciadas por uma teoria da ideo­ 49. Possenti, S. Apresentação da Análise do Discurso. Campinas, s.d.(b). Mimeografado. 50. Possenti, s.d. (b), mimeografado.

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logia que coloca o sujeito no quadro de uma formação ideológica e discursiva (Brandão, 1994). Nesse sentido é que para a AD não existe o sujeito individual, mas apenas o sujeito ideológico: a ideologia se manifesta (é falada) através dele. Na AD-3, por sua vez, a noção de sujeito sofre um deslocamento que inau­ gura uma nova vertente, bastante atual, da Análise do Discurso. Nessa terceira fase, “a concepção de sujeito é definida de forma um pouco menos ‘estruturalista” ’51. Compatível com uma noção de discurso marcado radicalmente pela heterogeneidade — afirma-se na AD-3 o primado do interdiscurso — , tem-se um sujeito essencialmente heterogêneo, clivado, dividido. Os trabalhos de Authier-Revuz52, em torno dos quais se desenvolve essa nova vertente, incorporam descobertas das teorias do inconsciente, que consi­ deram que o centro do sujeito não é mais o estágio consciente, mas que ele é dividido, clivado entre o consciente e o inconsciente. Inserido nesta base conceituai, o sujeito da AD se movimenta entre esses dois pólos sem poder definir-se em momento algum como um sujeito inteiramente consciente do que diz. Nesse sentido, o “eu” perde a sua centralidade, deixando de ser senhor de si, já que o “outro”, o desconhecido, o inconsciente, passa a fazer parte de sua identidade. O sujeito é, então, um sujeito descentrado, que se define agora como sendo a relação entre o “eu” e o “outro” . O sujeito é constitutivamente heterogê­ neo, da mesma forma como o discurso o é. Para Authier-Revuz (1982), a heterogeneidade mostrada é uma tentativa do sujeito de explicitar a presença do outro no fio discursivo, numa tentativa de harmonizar as diferentes vozes que atravessam o seu discurso, numa busca pela unidade, mesmo que ilusória. Apresentadas as concepções de sujeito em três diferentes fases da AD, é possível perceber que, apesar de distintas, elas possuem uma característica em comum: o sujeito não é senhor de sua vontade; ou temos um sujeito que sofre as coerções de uma formação ideológica e discursiva, ou temos um sujeito subme­ tido à sua própria natureza inconsciente. É preciso salientar, também, que, ao contrapormos uma primeira vertente (AD-1 e AD-2) a uma segunda, mais atual, o fizemos de maneira a focalizar apenas os aspectos discriminadores entre essas vertentes. No entanto, AuthierRevuz, ao privilegiar o enfoque da dimensão do inconsciente como constitutiva da linguagem e do sujeito, não deixa de concebê-los — linguagem e sujeito —

51. Possenti, S. Discurso, sujeito e o trabalho de escrita. In: Nascimento, E. M. F. S., Gregolin, M. do R, V. (orgs.) Problemas atuais da Análise do Discurso. Araraquara, Editora da UNESP, 1994, p. 35. 52. Ver Authier-Revuz (1982, 1990 e 1998).

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no interior de uma perspectiva discursiva em que se articulam com o ideológi­ co. Por sua vez, a AD-1 e a AD-2, ao conceberem o sujeito como interpelado pela ideologia, não deixam de concebê-lo também como um sujeito inconscien­ te. Os esquecimentos 1 e 2 de que tratam Pêcheux & Fuchs (1975) são uma evidência disso. Segundo os autores, o sujeito se ilude duplamente: a) por “esquecer-se” de que ele mesmo é assujeitado pela formação discursiva em que está inserido ao enunciar (esquecimento n. 1); b) por crer que tem plena consciên­ cia do que diz e que por isso pode controlar os sentidos de seu discurso (esque­ cimento n. 2). Esses dois esquecimentos estão constitutivamente relacionados ao conceito de assujeitamento ideológico, ou interpelação ideológica, que “con­ siste em fazer com que cada indivíduo (sem que ele tome consciência disso, mas, ao contrário, tenha a impressão de que é senhor de sua própria vontade) seja levado a ocupar seu lugar, a identificar-se ideologicamente com grupos ou classes de uma determinada formação social”53. O personagem Papa, tal como foi constituído pelo autor da crônica, é uma boa metáfora de como se constitui o sujeito para a AD. Exemplificaremos aqui a constituição desse sujeito, considerando-o apenas a partir das perspectivas da AD-2 e da AD-3, por serem essas as perspectivas que se mostraram mais produ­ tivas no campo da Análise do Discurso. Na perspectiva da AD-3, diriamos que o personagem Papa é um persona­ gem heterogêneo, que por alguns momentos crê que tem consciência do que diz — “Nascer de novo” — , mas que, a seguir, se depara com a própria inconsciên­ cia — “Sabia que quem acabara de fazer aquele pedido não era o ancião calejado pelos debates escolásticos, o erudito capaz de enfrentar a teologia e a metafísica em 12 idiomas”. O personagem em questão é uma metáfora de um sujeito dividido pela própria inconsciência. Na perspectiva da AD-2, por sua vez, diriamos que o personagem Papa é assujeitado pelas formações discursivas colocadas em relação no texto, por enun­ ciar apenas o que já está previsto por estas mesmas FDs. Assim, o personagem enuncia inscrito num espaço discursivo demarcado pela formação ideológica que o rege. De acordo com o que vimos analisando da crônica em questão, diriamos, de maneira bastante esquemática, que este personagem enuncia ins­ crito em um espaço discursivo que coloca em uma relação de conflito os discur­ sos religioso e científico; enunciará, portanto, apenas o que está previsto como enunciados possíveis para estas FDs.

53. Brandão, H. N. Op. cit, p. 89.

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3.4. As condições de produção do discurso

A dupla ilusão do sujeito de que tratam Pêcheux & Fuchs (1975), aborda­ da anteriormente, é, para a AD, constitutiva das condições de produção do dis­ curso. Como decorrência dessa dupla ilusão, manifestações que se dão no nível da superfície discursiva, como a heterogeneidade mostrada, foram interpreta­ das por Pêcheux (1969) como uma evidência dessa relação imaginária que o sujeito tem com o próprio discurso, como uma manifestação da tentativa (ilusória) de controlar o próprio discurso. Assim, para a AD, o sujeito, por não ter acesso às reais condições de pro­ dução de seu discurso devido à inconsciência de que é atravessado e ao próprio conceito de discurso com o qual trabalha a AD — uma teoria materialista da discursividade — , representa essas condições de maneira imaginária. E o que Pêcheux (1969) chama de jogo de imagens de um discurso. Reproduziremos a seguir o quadro que o próprio autor apresenta: ✓

Significação da expressão

Questão implícita cuja “resposta” subentende a formação imaginária correspondente

ia (A)

Imagem do lugar de A para o sujeito colocado em A

“Quem sou eu para lhe falar assim?”

Ia

Imagem do lugar de B para o sujeito colocado em A

“Quem é ele para que eu lhe fale assim?”

f UB)

Imagem do lugar de B para o sujeito colocado em B

“Quem sou eu para que ele me fale assim?”

L

ib (A)

Imagem do lugar de A para o sujeito colocado em B

“Quem é ele para que me fale assim?”

ia(R)

“Ponto de vista” de A sobre R

“De que lhe falo assim?”

i b(r

“Ponto de vista” de B sobre R

“De que ele me fala assim?”

Expressão que designa as formações imaginárias

f

K\L A

B

)

Fonte: Pêcheux, 1969/1990.

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ANALISE D O DISCURSO

A fim de facilitar a compreensão desse quadro54 para o leitor, vamos apresentá-lo dividindo-o em dois blocos: 1. A imagem que o sujeito, ao enunciar seu discurso, faz: a) do lugar que ocupa; b) do lugar que ocupa seu interlocutor; c) do próprio discurso ou do que é enunciado. 2. A imagem que o sujeito, ao enunciar seu discurso, faz da imagem que seu interlocutor faz: a) do lugar que ocupa o sujeito do discurso; b) do lugar que ele (interlocutor) ocupa; c) do discurso ou do que é enunciado. Esse jogo de imagens, mesmo estabelecendo as condições de produção do discurso, ou seja, aquilo que o sujeito pode/deve ou não dizer, a partir do lugar que ocupa e das representações que faz ao enunciar, não é preestabelecido antes que o sujeito enuncie o discurso, mas este jogo vai se constituindo à medida que se constitui o próprio discurso. Em outras palavras, o sujeito não é livre para dizer o que quer, a própria opção do que dizer já é em si determinada pelo lugar que ocupa no interior da formação ideológica à qual está submetido, mas as imagens que o sujeito constrói ao enunciar só se constituem no próprio proces­ so discursivo. Ainda mais uma vez nos valeremos da metáfora do personagem, agora para explicar como as imagens se constituem no próprio processo discursivo. O discurso do sujeito-personagem não está constituído a priori, mas vai se deline­ ando à medida que ele representa a voz que lhe fala, a partir das imagens que faz do que lhe é dito. Assim, por exemplo, num primeiro momento, coloca-se como um sujeito que não teme a morte — “E meu último dia de vida, isto não deve me amedrontar; é como quando após uma refeição alguém retira de minha frente o prato vazio. Por que me rebelar, se já fruí o que me interessava?” —, mas redefine todo seu discurso a partir da imagem que faz de si naquele momento — “Ele fitou a palma da própria mão: viu com espantosa nitidez as linhas e as comissuras da pele, viu as rugosidades, o intrincamento têxtil das camadas superpostas, viu ✓

54. Remetemos o leitor a Osakabe (1979), que, além fazer uma apresentação bastante esclarecedora do jogo de imagens de Pêcheux (1969), reestrutura esse quadro mostrando a necessidade de se considerar os atos de linguagem como pertinentes às condições de produção. Assim, teríamos uma outra representa­ ção: “O que A pretende falando dessa forma?”.

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o fervilhar da matéria viva e as células que se partiam e se fundiam umas às outras como gotas d’água”. E nesse sentido que o jogo de imagens faz parte das condições de produção de um discurso, na medida em que as imagens que o sujeito vai construindo ao enunciar vão definindo e redefinindo o processo discursivo. 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Abordamos neste artigo o que julgamos ser fundamental para um primeiro contato com a Análise do Discurso, buscando, ao mesmo tempo, esclarecer, por meio das análises aqui apresentadas, os conceitos que foram colocados. Quere­ mos ressaltar, no entanto, que este texto não esgota de forma alguma as ques­ tões que são colocadas pela AD; propõe-se apenas a ser uma porta de entrada possível para o campo, fornecendo ao leitor alguns subsídios para que ele possa iniciar seus estudos na área. Assim, concluir este texto significa apenas concluir a reflexão que fize­ mos nestas poucas páginas, já que muitos aspectos poderíam ainda ser aqui considerados. Optamos, então, por concluí-lo retomando apenas um aspecto já abordado neste capítulo, por julgarmos crucial enfatizá-lo ao falarmos em Aná­ lise do Discurso: sua especificidade. O leitor deve ter percebido, ao entrar em contato com os conceitos que embasam a AD, que a definição de todos eles se fundamenta sobre uma caracte­ rística em comum, a saber a constitutividade: o discurso, o sentido, o sujeito, as condições de produção vão se constituindo no próprio processo de enunciação. E não podería ser diferente. A AD, ao se propor a não reduzir o discurso a análises estritamente lingüísticas, mas abordá-lo também numa perspectiva histórico-ideológica, não podería constituir-se enquanto disciplina no interior de fronteiras rígidas, que não levassem em conta a interdisciplinandade, seja com determinadas áreas das ciências humanas, como a História, a Sociologia, a Psi­ canálise, seja com certas tendências desenvolvidas no interior da própria Lingüística, como a Semântica da Enunciação e a Pragmática, por exemplo. Devido a essa interdisciplinaridade, a Análise do Discurso se apresenta como uma disciplina em constante processo de constituição, de onde decorre a constitutividade dos próprios conceitos que a fundamentam. Essa interdisciplina­ ridade, diríam alguns, podería colocar a AD numa situação de extrema fuga­ cidade. No entanto, esse caráter interdisciplinar não é o perigo que a espreita. Na verdade, o único perigo que podería colocá-la em xeque seria o de não reco­ nhecermos sua especificidade e tentarmos excluir de seu campo as contradi-

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ções, as irregularidades, em vez de simplesmente tentarmos apreendê-las na materialidade discursiva. Se o leitor tiver apreendido esse caráter da Análise do Discurso, terá com­ preendido sua característica fundamental. O mais será uma questão de interesse que, obviamente, esperamos ter despertado com esta introdução.

BIBLIOGRAFIA

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NEUROLINGÜÍSTICA Edwiges Morato

1. NEUROLINGÜÍSTICA: UM BREVE PERCURSO HISTÓRICO

A Neurolingüística é, sem dúvida, um dos campos mais recentes da Lin­ guística. Para se ter uma idéia, no Brasil, ela aparece como disciplina de curso de graduação (Letras e Lingüística) e também como área de pesquisa na pósgraduação apenas na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) — e isso a partir dos anos 1980. Contudo, há gente dedicando-se cada vez mais à investigação na área de Neurolingüística, seja desenvolvendo pesquisas em ní­ vel de pós-graduação em outras universidades, seja procurando estimular a pro­ dução de conhecimento na área por meio do aprimoramento de métodos diag­ nósticos e terapêuticos que procuram compreender melhor o funcionamento da cognição humana. Tanto as definições quanto as descrições do campo de atuação da Neurolin­ güística que encontramos espalhadas pela literatura produzida em diferentes campos (como o da Lingüística e o das Neurociências) revelam que as frontei­ ras que delimitam seu objeto são algo movediças. Segundo Caplan (1987), a Neurolingüística é o estudo das relações entre cérebro e linguagem, com enfoque no campo das patologias cerebrais, cuja in­ vestigação relaciona determinadas estruturas do cérebro com distúrbios ou as-

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pectos específicos da linguagem. Já para Menn & Obler (1990), a Neurolingüística tem por objetivo teorizar sobre o “como” a linguagem é processada no cérebro. Parece óbvio, levando em conta o hibridismo da palavra, que Neurolingüística diga respeito às relações entre linguagem e cérebro e que acione dois cam­ pos do conhecimento humano para explicá-las, as Neurociências e a Linguísti­ ca. Isso realmente seria um truísmo se nós não tivéssemos tantos problemas para dar conta dos complexos processos que constituem a linguagem e o cére­ bro, bem como do modo de funcionamento de ambos. Praticamente terminada a “década do cérebro”, ainda não podemos prog­ nosticar qualquer acordo acerca da inter-relação entre linguagem e cérebro. Um bom começo para entrever as relações que ambos mantêm entre si — e na qual seguramente intervém a cultura, a história, a subjetividade — é verificar o que estamos entendendo por uma e outra coisa. A partir daí, naturalmente, não escaparemos da Filosofia. E fundamentando cientificamente essa questão que esta­ remos “fazendo” Neurolingüística. Se considerarmos que linguagem e cérebro têm uma relação (ou seja, não são uma mesma coisa, e tampouco são coisas logicamente heterogêneas entre si), de que ordem ela seria? Haveria uma relação de causalidade entre eles (na medida em que um cérebro defeituoso causaria uma linguagem ou uma “mente” defeituosa)? Ou haveria uma relação de reciprocidade entre eles (na medida em que o cérebro pode constituir a linguagem da mesma forma que é constituído pela linguagem e seu funcionamento)? Ainda que as respostas a essas questões não raras vezes sejam aventadas de maneira apaixonada, o que sabemos na atualidade sobre a atividade cognitiva indica que há uma relação estreita entre linguagem e cérebro, ancorada na interrelação de diferentes áreas do córtex e na interdependência de múltiplos proces­ sos ou funções cognitivas (como memória, linguagem, percepção etc.) que atuam em nossas várias formas de perceber e interpretar o mundo. Linguagem e cére­ bro, dessa forma, funcionariam cada qual como um sistema dinâmico e flexível cujas regularidades não são determinadas a priori (ou seja, não são fixadas de maneira inata ou biologicamente predeterminadas), não são estruturas fechadas e autônomas (ou seja, não obedecem a padrões estáveis e homogêneos de exis­ tência). Antes, estão na dependência de diferentes fatores que orientam nosso entendimento e nossa ação no mundo. Tendo tudo isso em vista aceitemos, ainda que com reservas, que Neurolin­ güística seja o campo de estudo das relações entre linguagem e cérebro; e acei­ temos também que seu objeto diga respeito, a um só tempo, às ciências huma-

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nas e às neurociências. A pártir disso, nosso olhar deve estar voltado para o que caracteriza tal campo de investigação, para o legado filosófico-científico que o constituiu. Se levarmos em conta que os sacerdotes egípcios já faziam correla­ ções anátomo-funcionais entre cérebro e comportamento humano, e que a tradi­ ção filosófica greco-latina se pautou, entre outros temas, pelo problema corpo­ mente, veremos que a história da Neurolingüística remonta de fato à história do homem como ser pensante. Se é bem verdade que o problema corpo-mente funda toda nossa tradição científico-filosófica, o problema cérebro-linguagem, de sua parte, toma forma num período mais recente, mais precisamente no início do século XIX. Esse início, chamado Frenologia, logo alargou seus interesses, em direção aos estu­ dos anátomo-fisiológicos da linguagem e seus distúrbios. A descrição sistemá­ tica das alterações de linguagem decorrentes de lesões cerebrais, feita inicial­ mente por médicos patologistas(ou por anatomistas), deu origem à Afasiologia: o estudo das afasias, isto é, problemas de linguagem decorrentes de uma lesão focal adquirida no Sistema Nervoso Central. A Afasiologia, nesse início, pode ser definida como o campo de estudo das correlações entre linguagem e deter­ minadas áreas do cérebro que seriam por ela responsáveis. Dos estudos especí­ ficos das afasias aos estudos de processos lingüísticos e cognitivos gerais do cérebro humano, normal ou patológico, deu-se um desdobramento quase natu­ ral. Dessa maneira, precedida por trabalhos realizados há quase duzentos anos, com base na colaboração algo tumultuosa entre a ciência médica e a ciência lingüística, nasce a Neurolingüística. Há quem atribua, como Bouton (1984) ou Lecours & Lhermitte (1979), à publicação, em 1939, do livro Le syndrome de désintégration phonétique, de Alajouanine, Ombredane (neurologistas) e Durand (foneticista) o início da Neurolingüística. Mas há também os que, igualmente de forma tradicional, con­ sideram a Neurolingüística um ramo (Luria, 1981) ou um subconjunto (Hécaen, 1972) da Neuropsicologia, o que significa defini-la como o campo de estudo das perturbações verbais decorrentes de lesões cerebrais. Essa definição, contu­ do, é apenas uma pálida caracterização de suas potencialidades teóricas e metodológicas. Apesar de não ter um programa definido de maneira muito pre­ cisa, a Neurolingüística, grosso modo, caracteriza um campo de investigação que se interessa de uma maneira geral pela cognição humana e de maneira mais específica pela linguagem e por processos afeitos a ela, direta ou indiretamente. A seguir, elencamos, em linhas gerais, o campo de interesses da moderna Neurolingüística: a) estudo do processamento normal e patológico da linguagem por meio de modelos elaborados no campo da Lingüística, das Neurociências,

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da Neuropsicologia ou da Psicologia Cognitiva (assim, o estudo do “agramatismo” ou das “parafasias”, por exemplo, mostra-se importan­ te para a compreensão de aspectos sintáticos ou semântico-lexicais do processo normal de linguagem; o estudo das demências ou das amnésias pode indicar, por sua vez, aspectos fundamentais da natureza da me­ mória; e já que a relação entre linguagem, cognição e cérebro não é direta, os modelos que analogicamente a descrevem, sob experimenta­ ção e testagem, ganham algum poder explicativo e sugerem formas de funcionamento lingüístico-cognitivo). A este item vincula-se ainda o interesse por temas como neuroplasticidade, dominância cerebral para as funções cognitivas (como a memória ou a percepção), neurofisiologia da linguagem etc.; b) estudo da repercussão dos estados patológicos do/no funcionamento da linguagem (aqui o interesse está mais dirigido à sustentação, com­ provação ou refutação de teorias lingüísticas); os dados patológicos, por implicarem um grau máximo de instabilidade nas relações entre sujeito e linguagem, bem como entre sujeito e sociedade, tomam-se cruciais para qualquer teorização sobre o funcionamento da linguagem e da cognição humanas; c) estudo dos processos alternativos de significação (verbal e não-verbal) levados em conta por sujeitos afetados por patologias cerebrais, cogni­ tivas ou sensoriais (afasia, demência, surdez etc.). Aqui o objetivo está dirigido tanto para a discussão sobre a maneira pela qual se caracteri­ za, avalia ou diagnostica os dados lingüístico-cognitivos no terreno da clínica, quanto para a teorização linguística, de uma maneira geral (es­ tudos sobre os recursos expressivos utilizados pelos falantes, estudos sobre a inter-relação dos vários níveis linguísticos que constituem a lín­ gua do ponto de vista funcional, estudos das relações — formais, discursivas, neuropsicológicas — entre a linguagem oral e a escrita); d) discussão de aspectos éticos e socioculturais relacionados ao contexto patológico, à cognição humana e à questão normal/patológico. Este item se aplica tanto à análise do metadiscurso clínico-médico sobre a patolo­ gia quanto à preocupação com a orientação de condutas terapêuticas; e) estudo dos processos discursivos que relacionam linguagem e cognição. Aqui vai interessar tanto a análise da dimensão interativa das ações humanas, quanto a das condições históricas e discursivas que as mobi­ lizam. Nesse sentido, procura-se destacar no campo da pesquisa neurolingüística o interesse pelas propriedades interativas e dialógicas

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que regem as práticas humanas, pelos processos ideológicos, culturais e intersubjetivos que integram linguagem e cognição num quadro relacionai mutuamente constitutivo. Como exemplo desse tipo de inte­ resse, lembramos a análise de diferentes fatos textuais que testemu­ nham a presença da cultura e da história na linguagem, como os pro­ vérbios, as piadas, os discursos relatados, os comentários, as modalizações, a produção e a veiculação de pressupostos interpretativos admiti­ dos na sociedade. Desse modo, a teorização produzida pela pesquisa neurolingüística volta à Lingüística de forma extremamente produtiva em relação aos interesses desta última. A análise dos dados obtidos no contexto patológico, bem como o estudo sistemático da relação entre linguagem, cérebro e cognição permitem diferentes e prolíferos movimentos teóricos: colaboram para o entendimento dos proces­ sos normais de aquisição e desenvolvimento da linguagem e da cognição, pro­ movem a construção de teorias “pontes ” no interior da própria Lingüística, atuam na arbitragem interdisciplinar entre a Lingüística e outras disciplinas do conhe­ cimento voltadas para a pesquisa neurocognitiva, contribuem para o melhor desenvolvimento das atividades clínico-terapêuticas, desempenhando um im­ portante papel social, o que fazem ao destinarem explicitamente parte de sua vocação científica à diminuição de tensões e sofrimentos provocados pelas pa­ tologias cerebrais, bem como à análise da produção e da circulação de precon­ ceitos e estigmas relativos às alterações lingüístico-cognitivas. Não é de estra­ nhar, portanto, que a arbitragem interdisciplinar seja o vetor epistemológico que sustenta toda e qualquer pesquisa produzida na área. Tanto a tradição européia, que identifica a Neurolingüística com os estu­ dos afasiológicos e psicolingüísticos, quanto a tradição americana (de inspira­ ção sociolingüística), que a identifica com a fundamentação de práticas clínicoterapêuticas e com estudos de aspectos comunicacionais afetados pela patolo­ gia, são bons indicadores da relevância da área. A Neurolingüística praticada na UNICAMP, em especial, tem traçado um caminho que, reconhecidamente afiliado à tradição européia, procura ter na Lingüística o seu posto privilegiado de observação.

1.1. Das condições de surgimento da antiga Afasiologia

Apesar de todo o conhecimento acumulado na “década do cérebro” (os anos 90 do século XX), nem tudo se sabe sobre os processos cognitivos subjacen-

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tes à linguagem (e vice-versa). Como se dá a representação cerebral da lingua­ gem em pessoas surdas, canhotas ou bilíngües? Como é possível que um tecido cerebral, uma vez “morto”, se regenere? Como é possível que crianças deficien­ tes mentais aprendam e se desenvolvam? Por que o cérebro envelhece às vezes tão rapidamente? Por que esquecemos as palavras e as coisas? E por que nos lembramos delas? O cérebro é variável, assim como as línguas e as culturas? Há alguma repercussão da cultura escrita na atividade cerebral? Como se processa a neurofisiologia da linguagem? As percepções são as mesmas para todas as pessoas? Como diria Brecht, tantas perguntas, tantas respostas... Sem dúvida, podemos apontar as barreiras tecno-científicas de nosso tem­ po entre as restrições a um conhecimento mais completo da relação linguagemcérebro-cognição. Com o avanço biotecnológico sabe-se, por exemplo, que as diferenças entre os distúrbios de memória e da gestualidade causados por lesões em diferentes partes do cérebro são bastante (e algumas vezes prontamente) perceptíveis. Entretanto, pesquisas que possam correlacionar direta ou precisa­ mente atividade cerebral e processos de memória ainda não há. E isso talvez porque, assim como a linguagem, a memória seja um processo cognitivo alta­ mente complexo, dependente não apenas de várias zonas cerebrais como de diversos fatores em jogo nas atividades simbólicas humanas, sendo, dessa ma­ neira, possível apenas em função das experiências significativas da vida em sociedade, por um exercício de subjetividade e consciência, por práticas discursivas que regem os processos civilizatórios como a cultura, a arte ou a ciência. Nesse ponto nos deparamos com outro fato que nos priva da possibili­ dade de correlacionar diretamente linguagem e cérebro: o domínio irredutivelmente interpretativo das ações humanas. Não sendo linguagem, cérebro e cognição capacidades apriorísticas, é lícito pensar que se definem pela práxis significativa humana, reúnem-se pelo que são signicamente, pelo que signifi­ cam, pelo que fazem significar em nós. O interesse pela organização cerebral da linguagem, bem como pela sua realidade cognitiva surgiu a partir do momento em que ela passa a ser “visível” para os antigos estudiosos da correlação entre comportamentos humanos e áreas corticais lesadas, por volta da segunda metade do século XIX. Antes disso, os fenômenos que de alguma forma eram afeitos ou relacionados à linguagem eram creditados a alguma capacidade intelectiva do homem que nada teria a ver com linguagem propriamente dita, como a percepção, a memória, o raciocínio. No fundo, toda a tradição científico-filosófica acerca da linguagem a toma como uma espécie de exteriorização de conteúdos cognitivos ou mentais que seriam subjetivados e aparentemente inacessíveis ao investigador. Afinal, para os anti­ gos, a linguagem, essa espécie de “dom divino” dado ao homem (portanto, ina­

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ta, essencial, verdadeira, lógica e transparente), não se confundia com a realiza­ ção humana (a fala), que a deformava, mas com a mente (o espírito), que a continha. O que diria uma perspectiva que admite uma relação mais estreita entre linguagem, cognição e cérebro? O que significa, afinal, conceber uma relação estreita entre linguagem e cognição? Significa que não se trata de correlacionar diretamente uma coisa e outra coisa, mas sim de procurar entrever seus modos de existência comuns, suas implicações e influências recíprocas. A relação es­ treita entre linguagem e cognição, dessa maneira, passa pela interdependência dessas duas formas de (ser) conhecimento. Se levarmos em conta autores como Humboldt (1972) e Vygotsky (1987), dificilmente haveria possibilidades inte­ grais de pensamento ou conteúdos cognitivos fora da linguagem ou possibilida­ des integrais de linguagem fora de processos interativos humanos (Morato, 1996).

1.2. Afasiologia e Neurolingüística

Desde a Antiguidade focaliza-se o cérebro como o órgão da sensação e da inteligência. Porém, apenas no século XIX surge o estudo “científico” do cére­ bro. A descoberta das localizações cerebrais e os primeiros trabalhos sobre a teoria celular datam dessa época. Também é importante assinalar, nesse contex­ to, que o interesse pela cognição aparece justamente nessa época (na verdade, já um pouco antes, no período do Iluminismo), quando a psique se toma um atri­ buto propriamente humano (e não mais divino, como o era para os antigos). Embora os sacerdotes egípcios já fizessem suas correlações anatomo-clínicas, observando as conseqüências dos danos cerebrais, de Galeno até a Idade Média preponderou a Teoria dos Ventrículos, responsável pela explicação da arquitetura anatômica e funcional que determinava quais as faculdades mentais de que os homens eram dotados. De acordo com essa teoria, apenas algumas faculdades mentais (como razão, memória ou senso comum) teriam uma reali­ dade cerebral mais ou menos circunscrita a determinadas regiões: a linguagem não tinha uma realidade nosológica (isto é, não fazia parte das evidências de seqüelas de distúrbios cerebrais) simplesmente porque não existia para os estu­ diosos (Marx, 1966). Ou seja, ela era “invisível” porque não se considerava até então que estava localizada no cérebro. Embora seja tradicional falar que a Afasiologia nasceu com o francês Paul Broca, em 1861, quando ele descreveu os primeiros casos de afasia motora, que afetaria basicamente o aspecto expressivo da linguagem (descrevendo, entre outros, o caso do paciente Leborgne, apelidado “Tan-tan” por ser esta a única

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forma expressiva que lhe restara para se comunicar com os outros), cabe salien­ tar que quem estabeleceu propriamente a relação entre área cerebral lesada e manifestações clínicas de pacientes neurológicos foi Gall, no início do século XIX, fazendo correlações anátomo-fisiológicas de impressões vistas a olho nu na caixa craniana. Coube a Gall, dessa maneira, introduzir a linguagem entre as faculdades mentais que estariam localizadas no cérebro. A verdade é que a linguagem só veio a ter uma realidade mental (“mental” significando ou reduzindo-se ao cere­ bral, de acordo com o e
MUSSALIN; BENTES. Introdução à Linguística - Vol 2

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