Anissa Damon - Saga Exodo,01 - Exodo

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Êxodo

Anissa B. Damon

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Sinopse: Virei-me para o julgamento, não era muito provável que o Império Maia não me ajudasse a construir o meu passado. Fui para defini-lo de volta no lugar quando algo passou por mim como uma brisa fria. Virei a cabeça para ver o que era e fiquei congelada no lugar. Arrepiei-me toda e um estranho calafrio percorreu a minha volta. Contive o ar, incapaz de respirar e, de repente, senti uma pontada dolorosa no peito. Eu cheguei para lá, de repente, tonta. Meu coração bateu com tanta força que me levou de volta, uma intensa dor latejante única que bombeada através de meu corpo. Um espasmo brutal em meus olhos com os dele. Ele era um garoto, mas não qualquer um, como uma sombra, escura, sinistra e fascinante.

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A morte é apenas o começo.

Eu acordei e descobri que estava morta. Fiquei um pouco envergonhada em admitir que no início nem sequer percebesse. Suponho que quando algo assim acontece; este alguém não acorda sabendo que partiu para a outra vida. Para mim, pelo menos, levou um pouco mais de tempo, para dizer a verdade, muito mais. Agora, quando eu percebo que os vivos são rodeados por sons, múltiplos e variados sons, de seu próprio corpo, mas estão tão acostumados a eles que aprendem a ignorá-los. Talvez por isso eu não tenha notado que o meu coração não estava batendo e não era necessário respirar. Eu sei que o típico seria dizer que acordei em um lugar banhado por uma luz branca forte, não? Isso é o que normalmente aparece nos filmes, mas não foi assim. Não houve túneis longos com luzes no final, nem todas essas coisas que nós ouvimos. Não houve nenhum céu e não há paz para mim. Não é que não haja céu, certamente há um, mas é claro que eu não havia ido para em um. Acordei na cama de um quarto que nunca tinha visto e não havia nada para mim ao redor que eu pudesse reconhecer, nem mesmo eu mesma. Essa sensação estranha que você sente quando percebe que está morta não é comparável a qualquer outra na vida. Não se pode explicar com palavras. Mas não lembrar nada sobre seu passado..., é quase pior. Embora seja melhor começar do início.

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Fora do lugar.

Naquela época, tudo o que sabia sobre mim era o que os De Cote tinham me contado e o que eu mesma fui capaz de deduzir da pouca, para não dizer nula, informação que me forneceram. Infelizmente, fui a única que tinha sobrevivido a um terrível acidente de “tr}nsito" e, por conseqüência, n~o me lembrava de nada, nem mesmo de ter estado no hospital. Eu acordei na cama de um dos quartos da minha nova casa no meio de uma cidade estranha para mim. De um dia para o outro havia ficado sem passado ou da família que poderia recompô-lo. Aparentemente, os De Cote representavam tudo o que me restava neste mundo. Mas pelo visto, eles não tinham conhecimento da minha existência antes dos acontecimentos, assim que o que sabiam de mim era pouco mais do que o meu nome e o lugar de onde vinha, mas nunca vieram a me dizer. O lar feliz era constituído por Flávio, William (Liam) e Lisange e dois gatos, Caim e Goliat. Eles não podiam ser considerados uma família tradicional, porque não havia nenhuma figura do pai ou da mãe, todos pareciam irmãos. Apenas Flávio, por ser o mais velho, em alguns momentos exercia a responsabilidade de se colocar a frente de tudo, o que era desconcertante. Eram raros, não há porque nenhum sentido em negá-lo. Quanto ao lugar em que eu tinha acordado... Também não há muito a dizer. Eu chamava de A Cidade. Imagino que, como tudo, também tinha um nome, mas a verdade é que isso não importava, porque não mudaria a maneira como eu a via. Podia considerá-la uma cidade pelo número de habitantes, mas as extensões parecia mais como um povoado que tinha crescido muito. Situava-se próxima a Costa e era quase totalmente cercada por uma floresta de carvalhos. Ela se diferenciava em duas zonas claras, o centro, onde vivia a maior parte das pessoas e o ambiente, onde se encontrava as casas maiores, com enormes terrenos que faziam fronteira com a floresta. Todos os edifícios eram baixos, nenhum ultrapassava três andares exceto os três mais importantes: a biblioteca, o hospital, e uma antiga universidade. Colocar os De Cote em uma das casas no centro seria praticamente impossível. Eles moravam em uma das mansões nos subúrbios, em um dos mais solitários, na verdade, havia uma distância considerável da "mansão" para a próxima residência.

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Estas mansões não tinham uma boa reputação, e era normal, eram grandes e antigos edifícios construídos no mesmo local desde antes que esta pequena cidade decidira enterrar seus alicerces sobre o mesmo solo. A maioria já estava abandonada, então sempre as acompanhava uma aura de mistério que afastava dali até mesmo os cidadãos mais incautos, eles nunca saberiam a sorte que tinham em ficar longe daquela área.

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Uma vida normal?

E ali estava eu, de novo nesse mundo. Pisquei tentando tirar da minha mente todo aquele enredo de emoções e sentimentos que me invadiram dos pés a cabeça. Tudo estava sendo muito surrealista e até o mínimo detalhe era novo para mim. Sabia que ia fazer o mesmo que qualquer pessoa comum, a diferença é que não tinha lembranças nem recordações relacionadas com minha vida; era como se um robô recém formatado e programado. A princípio parecia submetida em uma névoa, sem saber o que estava acontecendo, mas pouco a pouco essa névoa começou a desaparecer para deixar passar a importância de uma mente sem passado. Sacudi a cabeça, não queria voltar a pensar nisso. Agora eu estava na rua, no melhor carro cromado de bege de Lisange. Acabamos de estacionar na frente de um grande edifício antigo, a biblioteca. Lisange estava se preparando para fazer um exame e entrar para a universidade, assim ela vinha para cá todas as manhãs para estudar por sua conta. Ela foi o primeiro membro dos De Cote que conheci. Havia ido me visitar na minha casa quando acordei, embora nessa ocasião eu não pronunciasse nenhuma palavra. Também me apresentou ao resto da família e me falou pela primeira vez do acidente. Quando disse que não queria me encontrar todo dia em casa, Lisange insistiu que eu a acompanhasse até a biblioteca. Para mim, sinceramente, não me produzia uma emoção especial, mas aceitei porque supus que esse poderia ser o primeiro passo para me adaptar a esse mundo, por isso e porque decidi que Lisange não podia me transformar em "um dos maiores erros da sua existência" (palavras textuais de Flávio). De todas as formas, por algum lugar havia que começar e, já que não podia me lembrar de ninguém, o melhor era fazê-lo por um lugar que pudesse respirar paz e tranqüilidade, e onde as pessoas estivessem mais concentradas em livros que em qualquer outra coisa. Ou assim eu pensava. Quando entramos, todas as cabeças se voltaram em nossa direção. Eu cambaleei e tentei voltar, mas Lisange me segurou acalmando-me os ânimos. ― Você terá que fazer isso mais cedo ou mais tarde. ― sussurrou no meu ouvido. Não lhe culpava, eu também poderia ter ficado olhando se de repente aparecesse alguém como ela; rostos assim não se vêem todos os dias. Tinha o aspecto de uma boneca de porcelana, com a pele branca e imaculada, os olhos

11 grandes e negros, e o cabelo de um roxo intenso que brilhava de forma quase sobrenatural. Mas se havia algo que a caracterizava, incluindo acima de sua beleza, era precisamente seu sorriso e seu olhar de eterno devaneio. Nada mais visto, podia decidir que era uma dessas poucas pessoas que parecem felizes. Também se fixavam e mim, mas imaginava o porquê. Não havia tido ocasião de olhar em um espelho, porque não tinha encontrado nenhum pela casa, mas eu, ao lado dela, devia ter a aparência de um monstro. A verdade é que havia conseguido me olhar duramente no reflexo do carro, e o que eu tinha descoberto era tampouco algo surpreendente. Dentro do que se cabe minhas feições eram mais ou menos normais, mas a julgar pela cor da pele que eu via em minhas mãos, o loiro apagado dos meus pelos e em contraste com Lisange eu me via provavelmente demasiada... Suspirei. ― Como você está? Boa pergunta. Simples, se você conhece a você mesma ou algo a tua volta, mas complicada se de repente você acorda sem ter nem ideia de quem você é. ― Deixei a cama com tudo que isso implica. ― sussurrei. ― Vou enfrentar novamente o mundo, então não sei o que falar. ― Lena, prefere que voltemos para casa? ― me perguntou com um tom de preocupação. Vi que em seu rosto começava a se traçar um pouco de desilusão, isso fez com que eu me sentisse terrivelmente culpada. ― N~o, n~o. ― menti. ― Vamos. Reapareceu aquele sorriso que a fazia tão especial. Eu não compreendo como esse pequeno gesto pode fazer que eu fique contra o desejo da minha mente, meu corpo se relaxara, quando em minha cabeça a única coisa que desejava era voltar para a segurança do meu lar. Ela me levou até mesa mais distante. Pelo menos ali, ficaríamos longe da maioria dos olhares. Ela tirou uma lista do bolso, deixou suas coisas em cima de uma cadeira e foi a um dos corredores, mas eu fiquei por perto e a acompanhava passeando entre um montão de livros. O chão rangia sob nossos pés e as paredes ecoavam rompendo o silêncio. As estantes eram de madeira escura, como todos os móveis do lugar, e eram tão altas que tinha que usar escada para alcançar as estantes superiores, embora nesse lugar o chão se encontrasse com os exemplares mais antigos e amarelados.

12 Tudo naquele lugar tinha cheiro de poeira. Parecia um labirinto, em qualquer canto encontrava uma nova estante com um caminho que levava a outros níveis. A quantidade era tanta que alguns livros se empilhavam no chão em perigosas e instáveis torres. Segui Lisange buscando algo que me chamasse a atenção, mas sem muito êxito. Não sabia o que fazer para começar a me lembrar. Peguei aleatoriamente um teste sobre o Império Maia, e fiz um grande esforço para me concentrar no resumo da contra capa. Era inútil. Acreditar que esse era um bom lugar para começar; acho que soa ainda mais estúpido quando eu penso depois. Mas eu não estava completamente perdida naquele novo mundo. Eu imaginava que, se tentasse levar uma vida mais ou menos normal, as memórias embaraçadas voltariam a mim de forma gradual, com cada ação. Supus que, por exemplo, se escolhesse um livro ou escutasse uma canção que eu já tivesse lido ou escutado antes, me lembraria do momento exato em que eu havia feito, mas tampouco foi assim. Passei por diante das estantes e vi títulos que sem dúvida alguma eu conhecia. Emocionei-me porque era capaz de lembrarme das histórias, os personagens e incluindo o nome de alguns dos autores ( e isso já era uma grande realização), mas não era capaz de visualizar em que momento de minha vida eu tinha feito, e não entendia o porque. Voltei ao teste; não era muito provável que o Império Maia ajudaria a construir meu passado. Fui deixá-lo de novo em seu lugar quando algo passou por meu lado, como uma brisa gelada. Girei a cabeça para ver do que se tratava e fiquei congelada no meu lugar. O cabelo da minha nuca se eriçou e um estranho calafrio percorreu por toda minha costa. Segurei o ar, incapaz de respirar, e de inicio senti uma dolorosa pontada no peito. Levei a mão até a dor, repentinamente tonta. Meu coração bateu com tanta força que me fez retroceder, uma única batida bombeou uma intensa dor por todo meu corpo. Um espasmo brutal ao cruzar meus olhos com os seus. Era um garoto, mas não qualquer um, mas sim como uma sombra, escuro, sinistro e fascinante. Ele me olhou durante um décimo de segundos e virou de novo a cabeça para frente, andando em direção as mesas mais distantes. As minhas pernas tremiam e se dobraram; eu teria caído no chão se o braço de Lisange não tivesse impedido. ― Lena! O que aconteceu com você? ― estava perdida e confusa. A dor no meu peito me impedia de respirar, como se algo tivesse me atravessado, e sentia uma agonizante sensaç~o de vazio. ― Lena?

13 Voltei bruscamente a realidade. Eu me endireitei, apesar dos meus joelhos estarem tremendo. Lisange me olhava com o rosto marcado por ansiedade e preocupação. ― Estou bem. ― gaguejei. ― Eu pisei errado. ― Tem certeza? ― não parecia nada convencida. Eu me levantei de novo com os olhos em sua direção e vi como ele se distanciava com um andar tranquilo. Havia algo nesse garoto que me impedia de perceber qualquer outra coisa que não fosse ele. Era alto e magro, com o cabelo preto como carbono, igual aos seus olhos; já sua pele, era diferente, era pálida, como se tivesse passado os últimos dez anos preso, sem ver a luz do sol. Continuou andando até o lado oposto da biblioteca, um lugar mais escuro e apertado do que o nosso. No lugar, tinha pessoas sentadas observando ele com a mesma atenção que eu. Uma delas, uma garota, deixava aparecer um sorriso zombador desde sua sombra, enquanto esperava que chegasse ao seu lado. Algo nessas sombras conseguiu colocar meus nervos nas pontas. Passei a seguinte hora escondida atrás de um livro grosso, sem chegar a ler uma palavra, tentando observá-lo sem ser descoberta. Mas, por um momento, tive que voltar, envergonhada, a vista para o livro acreditando que ele tinha me olhado. Não era o mais razoável pensar que eu contemplava Lisange. Era para mim que olhava, e fazia de uma forma muito estranha. Tentei desviar minha atenção para o outro lado, mas não consegui. Não podia deixar de observá-lo, era inevitável; tinha uma força, uma atração que me obrigava a admirar sua beleza, exceto seus olhos negros, grandes e... Perigosos. ― O que aconteceu? Sai de meu estupor, Lisange me observava com suspeita. ― Heim? ― consegui dizer. ― Há mais de meia hora que você n~o passa uma p|gina. ― advertiu e seguiu a direção de meus olhos, mas ele já tinha desaparecido. Voltou a olhar para mim. Você está bem?

14 ― Sim, sim. ― pisquei um par de vezes. ― Só me distrai. ― franzi o cenho e tentei adotar minha expressão mais inocente. Estava segura de que não a havia convencido, mas pelo menos voltou de novo a sua leitura. Pigarreei e tentei prestar um pouco de atenção no livro que tinha na minha frente. Parei um instante, eu tinha todo o tempo para sair. Olhei para Lisange, segura de que ela tinha se dado conta. Voltei-me, com dissimulação, para que as palavras voltassem a ter sentido, e me dispus a ler...

***

Cinco horas e trinta e sete minutos mais tarde, Lisange estacionou de novo em frente a casa. Definitivamente, era demasiado tempo para min. Havia aguentado sem problemas, primeiro porque foi o tempo em que esse desconhecido permaneceu ali, mas as quatro horas e meia restantes para mim foram eternas. Era incapaz de ler porque seus olhos voltavam para minha mente, ocupando tudo. Também, uma forte dor tinha se apoderado do meu corpo e me debilitava cada vez mais. Lisange me deixou na porta e foi embora. Ela me disse o motivo, mas não prestei muita atenção. Olhei o edifício que tinha na minha frente, parecia mais um museu do que uma residência; era todo o contrário de aconchegante, uma casa antiga, de pedra, coberta em boa parte por hera seca, não é típico que se aproximem de noite. E agora já assumi que aquele era meu lugar. Hesitei, e então passei pelo portão de ferro forjado e subi a pequena escada cinza que levava até uma enorme porta de madeira maciça. Para abri-la tive que apoiar todo meu peso contra ela porque não tinha outra forma de movê-la. Tive que botar tanta força que, quando me dei conta, tinha caído sobre o tapete do hall, justo no momento em que o escandaloso relógio da sala deu meia hora. Não me mexi, fiquei ali no chão, contemplando o frio do telhado. Um rosto se interpor na trajetória do meu olhar. ― Você est| bem? ― disse me estendendo uma mão. Sua voz era suave, reconfortante, charmosa... Aceitei sua ajuda sem muita ênfase, e ele me levantou em menos de um segundo.

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― Dois de três. ― resmunguei para mim mesma. De três vezes que tinha aberto essa porta, duas tinha acabado sobre o carpete. Ele me deu um sorriso, tinha sido testemunha de todas e cada uma de minhas entradas triunfais. Eu me levantei ligeiramente, tive que me apoiar contra o marco da entrada da sala de jantar por medo de voltar a perder o equilíbrio. Sempre que ele me dava um sorriso causava esse vergonhoso efeito em mim. Tratava-se de Liam. Ele era mais velho que Lisange, um pouco mais de vinte anos. Seu cabelo era loiro escuro, quase igual ao meu, Longo e recolhido em um pequeno rabo de cavalo na altura da nuca; sua testa era branca como a neve e seus olhos tão negros como os de Lisange. Lembrava-me os príncipes dos contos de fadas; sem duvida eles devem ter sido inspirados em alguém como ele. ― Como foi vosso primeiro dia na cidade? ― perguntou com sua maravilhosa voz. Liam tem o costume de utilizar a segunda pessoa do plural também no singular, como se fazia em outros tempos, mais isso não era a única antiquaria dele. Sua elegância era um talento natural, capaz de combinar a perfeição americana, gravatas e coletes de forma que parecia juvenil e clássico ao mesmo tempo. Sua maneira de atuar também lembrava as épocas passadas, igual a um cavaleiro de capa e espada, aqueles que teriam que matar um dragão e escalar a parte mais alta de uma torre para salvar sua amada. Seu modo de me tratar fazia com que me sentisse especial, mas estava segura de que isso ocorreria toda vez que eu cruzasse seu caminho. Eu não sei a razão de não ter me apaixonado na primeira vez que o vi. ― Lento..., eu creio. ― N~o parece muito inst|vel. ― apontou olhando a forma em que me apoiava na porta. ― Segure-se em braço. ― Não sei o que falta. ― conteste-o envergonhada. ― Eu insisto. Pegou minha mão e a enroscou em torno da dele. Liam era o mais alto dos De Cote, devia medir aproximadamente uma cabeça a mais que eu, que me mantenho as duras penas na medida de uma garota de 17 anos. Sua roupa e a dureza de seu corpo deixavam vislumbre a uns músculos fortes mais não muito volumosos.

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Ele me levou para sala de estar, o lugar de reunião da família. Era ampla apesar de estar dividida em dois níveis, a zona de comer e a do sofá. As paredes combinam com a madeira e a pedra em partes iguais e nelas tinham penduradas várias pinturas de aspecto antigo, entre as quais se destacava um enorme retrato da família feito a óleo. Isso era estranho, ninguém tinha fotos assim, ou assim eu acreditava. Toda a tapeçaria, desde as pesadas cortinas até a banqueta que descansava junto a uma cadeira, era de um tom esmeralda algo envelhecido que lhe dava um ar muito acolhedor. Ao final da sala, uma porta traseira conduzia a uma pequena varanda com uma cadeira de balanço em frente aos grandes terrenos que se expandia até se fundir com a floresta. A casa não era, nem ao menos, o lugar inóspito e sombrio que parecia desde fora. Senti algo mover-se na sala. Ali estava Flávio, recostado com elegância em uma poltrona com suporte para os pés enquanto lia pacificamente um jornal. Ele também era jovem, mas muito mais velho que eu; parecia um pai, não tem palavra que o defina melhor. Seu rosto era amplo, umas pequenas mechas alaranjadas caíam sobre seus olhos negros que balanceava com sua pele pálida. O que mais lhe caracterizava eram as grandes ondulações que apareciam em suas bochechas cada vez que sorria; por alguma inexplicável razão, esse rasgo tinha um efeito relaxante em mim. Contudo, ele não era como Liam, pois tinha um grande atrativo mais não essa beleza arrebatadora do resto dos De Cote. Flávio era advogado e agora também; meu tutor; era estranho depender de uma pessoa que nem sequer chegava a ter trinta. Ele tinha se encarregado de colocar toda minha documentação em ordem; o volume que tinha me entregado com todos os certificados, o passaporte, os carnês e os cartões de crédito que agora permanecia cuidadosamente guardado na mesa do meu quarto. ― Boa tarde, Lena. ― disse saudando-me com a mão. De repente, duas bolas de pelo branco passaram como borrões diante de nós: eram Caim e Goliat, os dois gatos gêmeos da família. Ambos eram pequenos, albinos e com o mesmo olhar obscuro de seus donos. Não eram gêmeos, mas eu era incapaz de distinguir um do outro. ― Onde Est| Lisange? ― me perguntou Flávio dobrando o jornal sobre seus joelhos e olhando para cima a tempo de ver como eu encolhia os ombros. ― Foi comprar algo. ― deduzi enquanto ele deixava o jornal no revisteiro que repousava ao lado de sua cadeira. Deixei minha mochila sobre a mesa. ― Espero que não seja outra tonelada de roupa para mim. ― eu disse.

17 Sim, Lisange tinha enchido quase por completo meu armário. Foi uma das primeiras coisas que me ensinou quando acordei, e resultou muito impactante. Por sorte, se ajustava muito ao que poderia considerar meu estilo, até que me lembrasse qual era o meu. Liam me levou até o sofá, beijando minha mão antes de me deixar sentar. O olhei gelada. Não era a primeira vez, mas isso não fazia com que me acostumasse. No dia em que o conheci, ele se apresentou dessa maneira e eu, oprimida por sua aparência de príncipe, debati em minha mente qual dos protagonistas das histórias infantis ele se parecia mais; acredito que ganhou o Príncipe Azul de A Bela Adormecida, além de bom, era "bastante" bonito. Como é natural, fiquei fascinada, algo que a mim resultou gracioso, exatamente igual a agora. Seu sorriso era amplo e perfeito. Flávio colocou os olhos em branco. ― Deixe de brincar, Liam. ― lhe alertou. ― Deixe a pobre garota respirar. ― Eu tenho sido incapaz de evitar. ― contestou rindo entre os dentes e sentando a minha frente. Olhei Flávio; desconcertada. ― Liam foi transformado a alguns séculos atrás. Nesse momento não entendi o significado de suas palavras. ― Continuo fazendo esforços para resolver esse problema. ― disse ele pronunciando mais seu sorriso cativante. ― Na realidade isto faz tempo que consegui superar, mas me pareceu mais divertido. Tinha algum sentido de diversão um pouco distorcido, mas quem era eu para julgá-lo? ― Lisange quer que os encontre completamente a gosto entre nós. ― segui Liam em resposta ao comentário que tinha feito antes que sua beleza me arrastara a terrenos inexplorados da minha mente. ― Tenha plena confiança em que os converteis em sua irmã e confidente. Isso contribuiu para que me sentisse pior. ― Eu? Mas se não sabe como sou, nem sequer eu sei.

18 ―- Ela só espera que você esteja sempre ai. Já faz muito tempo que ela vive apenas conosco. ― lhe apoiou Flávio. ― Quanto? ― quis saber. ― Muito. ― prosseguiu Liam. ― Me provoca sempre a ideia de que se refugia nos livros, incitada por nossa tediosa companhia. Sorri e Flávio riu. ― A compreendo perfeitamente. ― disse olhando seu relógio de bolso e ficando de pé. ― Sua forma de..., viver é diferente da nossa. Agora, se me desculpa, vou me refrescar um pouco; este calor é insuportável. Eu me virei para a janela. Não estava nublado, mas tampouco brilhava o sol como para provocar um calor insuportável. Quando voltei a vista para Flávio, ela já tinha ido. Liam olhava para algum outro ponto por cima de minha cabeça com os olhos cristalinos. Piscou duas vezes e disse: ― Tem um pequeno aperitivo preparado na cozinha. Neguei com a cabeça. ― De forma alguma, não penso em comer nada, eu vomito tudo. ― contestei fixando-me em como renovar seu interesse. ― Também não os vi fazê-lo. ― Temos hor|rios diferentes. ― alegou. ― Oh... ― tomei ar, concentrada em retorcer o punho de minha jaqueta. ― Posso fazer algo para ajudar-lhe? ― perguntou observando meu trabalho. ― Estou preocupada. ― comecei a dizer enquanto ele se inclinava para frente, apoiando os cotovelos sobre seus joelhos para prestar mais atenç~o. ― Não tenho conseguido manter no estomago nada de nada, ao contrário, não tenho fome, nem sede... Não entendo, porque também sinto que o necessito. ― acrescentei olhando para baixo. ― Nada material, pelo menos. ― Pode falar com confiança, Lena; ajudarei-lhe em quanto me for possível. Não, suponho que, lembrar quem sou é algo que terei de fazer sozinha. ― Infelizmente, sim. Mas deve saber que a obsessão bloqueia em ocasiões a mente, você deve ficar sossegada, estes assuntos requerem tempo.

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― E se eu não conseguir nunca? ― Até o dia mais longo chega ao seu fim. Paciência, querida Lena, paciência. ― Me ajudaria mais se deixasse de me dizer o mesmo de sempre, não sabe o quanto frustrante que é. ― disse colocando os olhos em branco. Levantou uma sobrancelha, pegou uma pequena caixa de madeira de baixo da mesa e a abriu com cuidado. Mantinha o olhar fixo em mim até colocar um tabuleiro quadrado em frente a ele. ― Acredita que será capaz de se lembrar como se joga? ― O Xadrez? ― sorri. ― Parece surpresa. Do interior tirou uma delicada caixa entalhada em forma de cofre. Abriu-a e colocou cada uma das elaboradas peças no lugar com movimentos ágeis e velozes. ― Com essa rapidez poderia me fazer armadilhas e eu não me daria conta. ― Não costumo enganar a uma dama. ― sorriu divertindo-se. ― Se atreve a me enfrentar? Meditei. ― Não tenho nada melhor pra fazer. Eu me aproximei mais um pouco da mesa até ele terminar de colocar suas peças com uma precisão milimétrica. Olhei minhas pequenas figuras brancas. Decidi que as elaboradas eram desprezadas, eram autenticas obras de artesanato. Escolhi um peão do extremo direito para romper o gelo e observei sua testa franzida pela concentração. ― Você também trabalha? ― perguntei até ele decidir seu primeiro movimento. Negou com a cabeça. ― Não, eu assisto às aulas na universidade. ― moveu o dele contrario ao meu. ― O que você estuda? ― avancei outra vez sem pensar. ― Filosofia.

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― Ah v|... ― sorri. ― Resulta interessante conhecer o que opinavam do mundo os homens e as mulheres de séculos passados. ― Para mim bastaria saber como eu era. Interpôs-se um pequeno silêncio entre ambos. ― Imagino o que esta sofrendo. Olhei para baixo. ― Liam, eu posso te fazer uma pergunta? ― Pode perguntar quantas quiser. Em vez disso, eu centrei minha atenção no quadriculado preto e branco que se intercalava entre nós. ― Não tinha amigos? Ele franziu a testa, mas foi tão sutil que apenas lhe marcou a frente. ― Imagino que no lugar onde você vivia sim. ― disse. ― Mas não aqui. ― Mas como você ficou sabendo de mim? ― eu quis saber. Era algo que ainda não haviam me contado. Ele tomou seu tempo antes de responder; parecia meditar. ― Depois do acidente. ― me explicou ao fim. ― Vieram falando da situação em que você se encontrava. Como nós lhe falamos quando você acordou, não sabíamos nada da sua existência, assim que desconhecíamos de que maneira podíamos te ajudar a se lembrar, só estava ao nosso alcance dar-lhe um abrigo em nossa família e isso foi o suficiente para que a trouxessem para cá. Mordi os lábios pensando. ― Mas, não teria sido melhor me deixar l|? ― perguntei. ― Quero dizer, acredito que me resultaria mais fácil para me lembrar. ― Não sabemos se você ia achar sua família, por isso está conosco, e mudarse é impossível no momento. ― Sim, mas... ― insisti. ― Talvez devesse retornar, eu mesma, e tentar encontrar a mim mesma.

21 ― Duvido que isso seja uma boa ideia, não tão rápido, pelo menos. Deixei cair a cabeça sobra uma mão, abatida; outra vez o tópico do tempo..., quanto se supõe que eu deva esperar? Não poderia aguentar muito mais assim. Estava confusa, desorientada e sozinha; não importava quanto se esforçassem os De Cote em fazer eu me sentir um membro da família, tinha um grande vazio dentro de mim, como se tivessem arrancado algo de repente, e esse algo era meu passado. O fato de não saber quando recuperaria essa parte importante de mim mesma me fazia sentir impotente. Não é fácil começar completamente do zero, sem saber o que você fez, qual eram seus sonhos, a quem você queria, se tinha uma família ou amigos. Nestes dois dias que estava com os De Cote, havia passado por minha mente a terrível ideia de acabar com tudo, o problema era que essa possibilidade me resultava cada vez mais tentadora. Meu desespero aumentou cada vez mais e mais. O perfeito desconhecido da biblioteca se converteu em minha motivação, a única coisa que me fazia levantar da cama para ir a um lugar cheio de gente em que me olhavam como se fosse um bicho raro. Mas ele não estava ali na manhã seguinte. Talvez do começo ao fim, foi apenas uma alucinação minha. A cada hora que me levantava de meu lugar e olhava todo o lugar com o olhar buscando um rastro dele, mas sempre obtinha o mesmo resultado. Pouco a pouco fui abandonando toda esperança de voltar a vê-lo, assim que meu único trabalho a partir desse momento era continuar a dedicar-me a vida contemplativa. Eu me sentava e observava as pessoas, tentando lembrar algo, mas sempre sem conseguir nenhum resultado. Em uma dessas manhãs tão pouco frutífera, eu o vi. Ele já estava ali quando nós chegamos, na mesma mesa da outra vez, a única zona onde tinha janelas, mas nesta ocasião estava só. E quando coloquei meus olhos nele, ele se levantou e andou em direção oposta. Sorri para mim mesma; eu sabia, era real, de carne e osso. O segui com o mesmo olhar, mas desapareceu atrás de uma esquina. Lisange estava concentrada em uma tela de computador buscando as referencias de alguns títulos. Voltei a olhar na direção do corredor onde tinha sumido e mordi o lábio pensando a toda velocidade. E se eu o seguisse? Precisava vê-lo mais de perto. Tomei a decisão: esperaria que Lisange começasse a buscar seus livros e logo ira sair do seu lado. Busquei-o pelos corredores, entre as numerosas e povoadas estantes, mas não o encontrei por nenhuma parte. Era como se as paredes o tivessem engolido,

22 ou como se tivesse submergido do interior de uma novela. Eu me dei por vencida, mas então vi uma pequena escada de madeira que levava a outro andar da biblioteca. Não tinha me fixado nela até esse momento. Nem mesmo nas missões de exploração exaustiva que eu havia realizado desde o primeiro dia. Essa zona parecia deserta. Vacilei, mas tinha algo nesse garoto que me obrigava a querê-lo por perto, como se eu precisasse. Subi pouco a pouco, tentando não fazer barulho. Devia vê-lo, mesmo que apenas uma vez mais, por um pequeno e insignificante, segundo... A parte superior estava formada por estantes, mas continha livros muito gastos, talvez tirados dos catálogos ou demasiado antigos como para resultar utilizáveis a maioria dos usuários. A iluminação era baixa nessa zona, procedia de uma janela semicircular que nascia desde o chão, e uma atmosfera de poeira rodeava todo o ambiente. Minha respiração se deteve quase no mesmo instante, Ali estava, ao fundo, apoiado no vidro, concentrado em um grosso livro cujo nome não fui capaz de ler. A tênue luz que penetrava pelos vidros o fazia brilhar como se tratasse de uma aparição Estava de perfil e que maravilhoso perfil! Nariz reto, lábios generosos, vermelhos e extremamente perfeitos. Não podia ser humano; nenhum homem ou mulher poderia conceber um ser com semelhante beleza, uma beleza obscura e... Atroz. O rodeava uma áurea misteriosa, como se fosse um espectro, talvez fosse isso o que tanto me atraia dele. Por que não podia deixar olhá-lo? Observei cada um de seus movimentos através de um espaço entre os livros a uns três metros dele, procurando não me mover para que nada me entregasse. Mas quase derrubei a estante que eu estava apoiada quando ele se voltou lentamente para min. Seu olhar cravou no meu e uma pequena descarga elétrica sacudiu todo meu corpo. Não disse nada, se limitou a deixar o que estava lendo em seu lugar e a dirigir-se de novo a escada. Escondi a cabeça atrás de uma enciclopédia muito desgastada quando passou por diante sem voltar a fixar-se em min. Eu me senti envergonhada pela maneira em que tinha me descoberto espionando. Em que estava pensando? Deixei o volume e baixei de novo, colocando especial interesse no lugar onde colocava cada pé. Ao chegar ao ultimo degrau, dei a volta e cai contra algo, ou dizendo melhor contra alguém, cai desajeitadamente de costas sobre os últimos degraus. Levantei o olhar desde o chão e o vi de novo, frente a mim.

23 Estendeu uma mão para me ajudar, mas me levantei e saí correndo antes de dar-lhe tempo de dizer algo. Voltei à zona habitada, encontrei Lisange. Levava uma pilha imensa de livros no braço, mas os carregava como quem levava um fino tapete, sem tombar nem mostrar um leve esforço. ― Quer ajuda? ― lhe ofereci tentando desviar um olhar nervoso em direção ao lugar de onde eu tinha voltado. Ocultar a cabeça atrás de todo aquele monte me parecia uma brilhante ideia. ― Não obrigada, Lena, já estou quase terminando. Colocou um novo título em cima de sua improvisada montanha sobre o colo. ― Como pode carregar tudo isso? ― lhe perguntei perplexa, esquecendo-me pela primeira vez do desconhecido. ― Estou aqui h| muito tempo. ― me respondeu com um magnífico sorriso. ― Já me acostumei. Mas, então, ele passou pelo nosso lado e meus joelhos começaram a tremer. Temia que dissesse algo referente ao que tinha me ocorrido um par de minutos antes, mas não fez isso, nem sequer virou a cabeça em nossa direção. Seguiu andando e se afastou de novo. ― Lisange... Quem é esse? ― lhe perguntei em um sussurro apenas audível. Ela soltou de pronto o livro de gramática grega que tinha em uma mão e seguiu meus olhos. Seu corpo ficou tenso de maneira que até eu pude sentir. Nesse momento, ele dirigiu os olhos para ela como se pudesse perceber e se manteve no olhar através de toda a sala sem pestanejar. Eu contemplava aos dois, atônita. ― Lisange! ― exclamei sacudindo-a. ― O que aconteceu? Ela saiu do transe e, nesse momento, com movimentos sutis e elegantes, ele abandonou a sala, visivelmente incomodado. Ela relaxou de novo e, por fim, se voltou para mim. ― Vai me explicar o que aconteceu? ― insisti de novo. ― Quem era? Por que ele se foi?

24 Deixou a pilha de livros sobre uma mesa e me olhou, confusa com minha repentina impaciência. Pensou muito antes de juntar sua cabeça com a minha e dizer-me em sussurros: ― Se chama Christian Dubois, é gente perigosa. ― O conhece? ― perguntei. ― Eu tenho visto o que ele é capaz de fazer, é um assassino. Isso não tinha sentido. ― E porque não esta na cadeia? ― O que? ― perguntou, e notei certa ironia em sua voz. ― Não tem lugar capaz de mantê-lo controlado, Lena. De todas as maneiras, nem um só policial se atreveria a chegar perto dele a menos de cinco metros de distancia. Fique longe dele, diga-me que o vai fazer. Não entendia nada, não parecia tão perigoso como para sair correndo, mas seu olhar era suplicante. ― Está..., bem, acho. Ela assentiu e voltou a sua torre de livros, muito mais relaxada. Sem duvida, não pude duvidar dela. Sabia dele exatamente o mesmo que de mim, quer dizer, pouco mais que o nome. Não podia tocá-lo, nem falar com ele, nem sequer olhá-lo por que Lisange ficaria sabendo de cada um de meus movimentos. A única coisa que podia fazer era me lembrar; assim que fechava os olhos e rememorava aquela vez que nossos olhos se cruzaram, aquele momento que meu coração se descontrolou ao passar do seu lado.

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Alguém deveria me explicar até que ponto é digno humilhar-se...

Está claro o que senti após acordar sem saber nada sobre mim, não era exatamente preparar-me para alguns Exames; embora trancar-me em uma biblioteca não era nem um pouco uma ideia muito tentadora. Nesse momento, para mim, lembrar-me de uma vida era uma prioridade muito acima de aprender história geral, mas, por desgraça, para os De Cote era essencial me escolarizar até ser maior de idade... Assim, eu me negava a concentrar-me nos estudos, não porque odiava fazêlo nem nada parecido, mais sim porque duvidava que minha nova missão fosse ser aprovada em um exame, assim, investia esse tempo em coisas que considerava mais úteis para minha nova situação. Como, por exemplo, a busca de alguma explicação lógica para o que acontecia ou uma prova de que tudo isso não passava de um sonho. Por sorte minha. Flávio se mostrava muito compreensivo comigo. Ele era a favor do ensino por parte dos pais, assim, como agora era meu tutor, havia chegado a um acordo com o colégio mais próximo, para que largasse tudo em suas mãos e logo me examinasse lá. Não tive muitos problemas com isso, primeiro, porque estou segura de que por trás de tudo havia algum tipo de pacto econômico e, depois, porque Flávio já havia demonstrado ser eficaz com este método Lisange; também, só faltavam alguns meses para o final do curso acadêmico. Em casa, as paredes haviam deixado de parecer um lugar tão aconchegante, cobiçado por um mundo cruel que eu não conhecia, para transformar-se em uma prisão em que só me lembrava minha infelicidade. Era incapaz de me sentir "em casa" com os De Cote, apesar de todos os seus esforços para fazer-me ver que eu era um membro a mais de sua família. Eu continuava sendo uma intrusa, pelo menos para mim, e tinha certeza de que continuaria sendo assim, até descobrir que eu era de verdade. Frequentemente embarcava em um grande sentimento de solidão e vazio, Por que era incapaz de me relacionar com as pessoas? Por acaso tinha amigos que se importassem com meu estado depois do acidente? Eu me negava a acreditar que qualquer um, absolutamente qualquer um do lugar onde eu morava antes, sabia onde eu estava agora. Não podiam me mandar uma carta ou um ridículo cartão postal, para que ao menos eu pudesse reconhecer um nome? Podia lembrar-me de coisas que eu imaginava que tinha estudado há um tempo,

27 mas nada relacionado com minha vida antes de chegar a esta casa, e isso estava me consumindo. Havia decidido não compartilhar essas emoções com os De Cote, porque não acreditava que eles fossem capazes de entender como eu me sentia. Lisange era a que mais estava se esforçando para que eu me acostumasse com eles, sendo assim, falar-lhe sobre a infelicidade era algo que, sem duvida, eu não queria. A biblioteca era a única coisa que me restava, então decidi continuar lendo lá e esperar para ver se me deparava de novo com a vida, do inicio ao fim, Podia me ocorrer algo pior? Também Flávio havia começado a me dar livros para ler e alguns exercícios e, embora eu não quisesse estudar, descobri que isso me ajudava a passar as horas. Mas nesse momento, rodeada de gente e altas estantes, todo esse mal estar, a ansiedade e a solidão aumentaram. Havia passado toda a noite sem dormir pela dor e a impotência, perguntando-me até que ponto poderia aguentar essa situação, e não havia sido capaz de derramar nenhuma lagrima sequer. Nem uma! Ardiamme os olhos de forma abrasadora, mas nada, eu não chorava e isso me frustrava muito mais. Além de ter perdido minhas recordações, minha família e meus amigos, eu também tinha deixado de ser uma pessoa normal? Fechei o livro que eu estava lendo bruscamente, tomada por uma força estranha. Eu me sentia presa, como se eu estivesse anexada em um barco que afundava comigo dentro, com a água próxima ao meu pescoço sem eu poder fazer nada para me salvar. O ar entrava em meus pulmões, mas não me aliviava, eu continuava me afogando nessa claustrofóbica sensação. Não tive tempo para pensar, me levantei da cadeira, tinha que sair dali a de qualquer jeito. Saí por uma porta dos fundos que dava no estacionamento e saí do prédio, dobrei-me pela cintura e experimentei respirar. Tomei ar pausadamente, mas não serviu de nada; isso só fazia eu me sentir pior. Era absurdo eu conseguir me acostumar a tudo aquilo, agora ficou claro. Estava presa em um corpo que eu não conhecia, rodeada de estranhos, eu mesma era uma estranha para mim! Vomitava o que comia ou bebia, sofria repentinas e horríveis pontadas de dores por todo o meu corpo e dormir havia se tornado um caso impossível. Necessitava acabar com tudo isso já. Continuava remoendo essa ideia. Eu não tinha culpa do que havia ocorrido e não me sentia com força suficiente para lidar com isso. Levantei os olhos lentamente, pensando em voltar para a casa, e então... Eu "o" vi, como se fosse a resposta as minhas preces. Havia passado dias desde a última vez que nos vimos. Mas agora ele se aproximava do lugar onde eu estava

28 olhando para o futuro. Era uma ideia louca, fruto de uma mente atormentada, mas não tinha muitas opções. Se esse garoto era o que Lisange falou, em poucos minutos teria terminado tudo, e poderia descansar. Ele se aproximou. Olhei ao meu redor, era o momento certo; as pessoas lotavam a biblioteca, absortos em suas leituras, e o estacionamento estava isolado e protegido dos olhos dos curiosos. Eu me encostei-me a uma Van, escondida de sua vista, esperando que ele chegasse. Esperaria até ter a chance de abordá-lo. Levou-me alguns segundos para clarear a mente e perguntar a mim mesmos pela enésima vez se isso era o que eu queria; uma vez tomada a decisão, não haveria como voltar atrás. Sim, uma vez que, desejava com todas as minhas forças deixar para trás o que eu sentia. Abandonar essa estranha forma de vida e poder descansar. Não teria nenhuma garantia de que não fosse ser doloroso, mas nesse momento tampouco podia ser preciso. Voltei a olhá-lo, sem duvida, ele não teria nenhum problema em fazer o que eu ia lhe pedir. Segundo Lisange, era bastante perigoso falar com ele, de modo que não devia me resultar muito complicado convencê-lo. Estava cada vez mais impaciente, a espera estava me torturando. Por que demorava tanto? Fiquei andando nervosa pelo meu esconderijo, amassando e enrugando um panfleto dá biblioteca; quando me dei conta, era mais parecido com um cigarro do que uma folha. Por fim, eu o vi passar diante de mim, com um andar tranquilo e com as costas erguidas. Eu o seguia a poucos passos de distancia. Seus sentidos devem terlhe dito, porque virou a cabeça pouco a pouco e diminuiu a velocidade do andar. Assim, eu aumentei um pouco a minha velocidade, seus passos eram maiores que os meus e eu não estava disposta a perdê-lo. E, de repente, parou. ― O que pensa que esta fazendo? ― disse ele com uma profunda e aveludada voz, tão maravilhosa quanto seu rosto. Ele virou-se lentamente, de modo que ficamos cara a cara, a pouca distancia um do outro. Eu estremeci ao ver seus olhos, eram os mais escuros e penetrantes que havia visto; os mais charmosos que eu me lembrava e mais perigosos agora que estavam tão pretos. Ele me olhou de cima a baixo. Eu aclarei minha garganta e falei. ― Quero que me você me mate. ― balbuciei sem sair do meu estupor. Ele levantou uma sobrancelha. ― Perd~o? ― perguntou, e em seus impenetráveis olhos brilharam uma pitada de surpresa. ― Sei que você pode fazer. ― afirmei.

29 ― Eu sei que você sabe. Essa resposta me desconcentrou, eu não esperava que reconhecesse sem mais nem menos. De perto parecia mais misterioso e assustador, culpa desses olhos assassinos, da forma em que ele olhava nos meus fazendo com que minhas entranhas se agitassem. Ou a imposição de seu físico, uma beleza obscura e inumana que não ocultava já que vestia roupas que realçavam seu físico. Sacudi a cabeça, tentado voltar a pensar com claridade. ― Então, faça-o. ― gaguejei aproximando-me mais dele, tremendo por causa dos nervos. Ele me estudou com um olhar durante uma fraç~o de segundos. ― N~o. ― sentenciou dando a volta e voltando a andar de novo. Corri e fui para sua frente fazendo com que ele parasse. ― Por quê? ― Seu entusiasmo aparente reduziu consideravelmente meu interesse. ― respondeu e continuou andando Acelerei meu ritmo para alcançá-lo. ― Então é verdade, não? Você pode fazer. ― Você fala com se fosse algo complicado. ― disse em tom sarcástico. ― O que eu teria que fazer para que você fizesse? Seguiu andando sem sequer me olhar. ― Não sei. Corre, grita..., faz algo interessante. ― soltou de forma dura e cruel. ― N~o tem graça. ― censurei. Ele virou para mim abruptamente, mas ainda elegante. ― Você tem razão, não tem. Vá. ― Mas você tem que fazê-lo! ― cuspi. Fugi da visão de seus olhos, mas ele se manteve firme, sem mostrar nem uma leve hesitação, ao contrário de mim, que estava prestes a desmaiar. Um pequeno sulco cruzava seu rosto pálido. ― Os que me conhecem, frequentemente não me olham nos olhos. Você sabe o que sou?

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― Sim, eu sei, por isso vim pedir sua ajuda. ― Ajuda para... ― ...Morrer. Ele deu uma gargalhada limpa, mas com seus olhos sempre inexpressáveis. ― Por favor. ― repeti. Tive que manter, por um instante os olhos no chão, me sentia humilhada. ― Faça-o. Logo ficou em silencio e voltou a me olhar com o rosto muito sério. ― Se não tivesse acrescentado isso, talvez eu tivesse pensado nessa possibilidade. Poderia ter sido inclusive divertido. ― ironizou e deu um passo até mim, aproximando-se até que seu rosto ficou um palmo de distancia do meu. ― Mas não sou compassivo, não vou te ajudar. ― Mas... Torceu seu rosto em um sorriso. ― Realmente você não sabe o que eu sou... ― disse. ― Vá embora, você não me interessa. Deu uma volta e continuou andando. ― N~o penso em ir embora. ― eu o segui. ― Então boa sorte. Chegamos juntos a um carro preto e luxuoso. Brilhava de forma espetacular, como se fosse novo ou recém encerado. Abriu a porta e falou: ― Odeio as presas fáceis, Lena. Volte para os De Cote. Entrou e colocou o motor em marcha. Antes que eu tivesse dado conta, seu reluzente veículo desapareceu da minha vista. Eu me afundei em meus próprios pensamentos. Como Christian Dubois sabia meu nome? ― Lena? ― ouvi atrás de mim. Eu me virei e vi Lisange a poucos metros de distancia de mim. ― O que está acontecendo aqui? ― Estava procurando o carro. ― menti. ― Mas não o encontrei.

31 Ela me observou desconfiada, estava segura de que ela não havia acreditado, mas eu não disse nada. ― Esta na entrada principal como sempre. ― fez uma pausa e olhou rapidamente em torno do estacionamento. ― Tenha cuidado, Lena, não fique em lugares solitários. ― Eu vou me lembrar. Caminhei ao seu lado, sem dizer uma palavra. Não esperava essa negativa. O que mais ele queria? Já estava acostumado a fazer coisas assim, não? Odiei a mim mesma; suplicar por minha própria morte havia sido patético. Eu devia sentir-me afortunada por ter sobrevivido a esse acidente, mas, em vez disso, havia buscado desesperadamente acabar com tudo, pedindo ajuda a um garoto que havia zombado da minha cara. Eu tinha que me passar por tonta. Quem em seu perfeito juízo teria feito algo assim? Pelo meu próprio bem e pela pouca dignidade que me restava, decidi não contar o ocorrido a Lisange; também, confessar-lhe que apesar de seus esforços eu preferia morrer ante suas atividades emocionantes não era precisamente uma boa ideia. ― Por que saiu antes? ― me perguntou. ― Precisava pensar. Ficou em silencio, mordendo o lábio inferior e com o rosto franzido. Quando chegamos ao carro, se sentou, mas não ligou o carro. ― Eu sinto muito. ― começou se desculpando, contornando o rosto com uma expressão de verdade e culpa. ― Não estou te ajudando muito. Eu estava perplexa, ela parecia estar sofrendo. Sua expressão aflita me comoveu, mas guardei silencio, assim ela ligou o motor e pegou o caminho de volta para casa. ― N~o é culpa sua. ― eu respondi depois de alguns minutos. ― Eu que não me adapto bem a essas mudanças. De repente, deu uma forte guinada e me virei para a janela. Um incrível veículo negro havia cruzado a toda velocidade o nosso caminho.

32 ― Mas o que...? ― Lisange parecia chateada, seus olhos estavam arregalados, mas mantinha o rosto o mais sereno possível. ― Maldito seja, Dubois. ― exclamou entre os dentes. Era a primeira vez que eu a via abandonar esse ar de devaneio. Um pesado nó se instalou em meu estômago, me lembrei como havia terminado as coisas minutos antes. ― Como você sabe que é ele? ― Para ser franca Lena, Quantos carros como esse você acha que pode ter nessa cidade? Eu não entendia absolutamente nada desse tema, então encolhi meus ombros. Lisange baixou a temperatura do ar condicionado para 16 graus. Olhei para ela aturdida, no entanto não senti frio, então não fiz nenhum comentário. ― Nada neste lugar permite conduzir um carro assim. Não tem necessidade de chamar a atenção de forma semelhante. Dei uma olhada ao meu redor. Está bem, não era uma experta, mas não precisava ser um gênio para saber que no lugar onde estávamos não era precisamente de classe média. Bastava observar através da janela para ver os olhares curiosos que despertava. Olhei-a arqueando uma sobrancelha com ceticismo. Ela preferiu me ignorar. ― Esta segura de que você não quer um carro? Depois de ter sofrido um acidente, ter perdido toda minha família e minhas recordações, ela me perguntava agora se eu queria dirigir? ― Prefiro andar. ― Acho que Liam tem uma bicicleta que não usa desde que chegamos. Está em bom estado, e não dará problema em resgatá-la. Pensei na possibilidade, não parecia muito perigoso para o resto dos habitantes que eu montasse em uma, não? ― Bom, acho que isso estaria bem. ― Genial! ― exclamou com um amplo sorriso.

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Christian Dubois... Meu Salvador?

A tarde já estava muito avançada, mas precisava pensar. O dia tinha sido duro. Minha mente era um fio emaranhado de pensamentos e emoções. Sair de casa às escondidas, surpresa de que os ouvidos da minha nova família não capturassem meus passos. Ia chover, estava claro. O ambiente era cinzento, como eu. Era um desses dias em que, nada mais sai à rua, tem-se a impressão de que tudo está muito apagado, como se alguém tivesse diminuído a saturação de toda cor. E, de fato, não demorou muito para começar a chuviscar. Isso me animou por que me oferecia à desculpa perfeita para me envolver ainda mais na capa de chuva e me esconder embaixo do capuz. Era um alívio, pelo menos uma vez, que as pessoas não me olhariam. Carregava um casaco na mão, não sei por quê; é possível que eu esqueça e o deixe novamente quando debatia entre pegá-lo ou levar a capa de chuva. Ao que parece, meu subconsciente escolheu ambas as coisas, mas não tinha vontade de voltar em casa para deixá-lo, já havia sido uma proeza que não me descobrissem para tentar minha sorte uma segunda vez. Os De Cote não queriam que saísse quando já tinha anoitecido, mas esse era o melhor momento para pensar, quando quase não tinha gente pelas ruas. Cruzei meus braços apertando a capa sobre o peito e segui caminhando, sem uma grande perspectiva do meu redor devido às limitações do capuz. Nesse momento minha mente começou a trabalhar antes que eu pedisse. Não estava preparada para enfrentar o que tinha acontecido comigo. Bom, não acredito que ninguém esteja, mas eu não tinha a maturidade daquelas pessoas que são capazes de enfrentar tudo o que vem sem perder a calma, essas que sempre acabam fazendo o certo. Não era assim. Eu era uma massa de inseguranças em um lugar onde segurança era precisamente algo que não sentia, sobretudo quando se tratava de confiar em mim mesma. É como quando se esquece uma palavra ou um título de um filme e sabe que o tem na ponta da língua, mas não é capaz de dizê-lo e não pode descansar até que lembre. Isso era o que sentia todas as horas do dia e era horrível. Nunca estava em paz comigo mesma e não deixava de ver incoerências em todas as explicações que me davam. Era frustrante.

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Levantei os olhos dos meus pés e me surpreendi ao ver até onde me haviam conduzido. Estava perto da biblioteca, logo ao lado do acesso ao parque. Já havia anoitecido e não tinha gente na rua pelo aguaceiro que caia. De repente achei-a acolhedora, precisava da serenidade dos seus longos corredores desertos. Cruzei a rua e me apressei até a entrada. Tal e como era de se esperar, estava fechada. Rodeie o edifício procurando alguma janela um pouco aberta ou uma fechadura que pudesse forçar, mas não havia forma humana de entrar. Dei um chute em uma das portas, mas foi inútil. Conformeime; meu “brilhante” plano tinha fracassado, para variar. Por isso, desfiz meus passos para sair do estacionamento. - Uma garota nova não devia andar sozinha por aqui. - advertiu uma voz pelas minhas costas. Virei sobressaltada e o vi apoiado sobre o capô de seu carro, tão perfeito, embaixo da chuva como em minha lembrança. Ambos se camuflavam na penumbra como duas criaturas da noite. A escuridão fazia ressaltar ainda mais a palidez de sua pele e seus incríveis olhos negros. Estava mais perto do que teria imaginado, era incrível que não o tivesse visto antes. ― Chamo-me Christian Dubois. ― disse estendendo a m~o, que recusei; ainda lembrava como havia feito eu me sentir mal da última vez. ― Embora, deduzo que isso já saiba. ― Sim... Retirou o braço. ― Achei que devia me apresentar depois da sua penosa atuação esta manhã. O ignorei e olhei ao redor. Ali só estávamos ele, eu e o estacionamento completamente vazio, exceto, claramente, pelo seu carro. ― Se o que pretendia era entrar ai dentro. ― começou indicando com a cabeça o edifício da biblioteca ― Eu conheço formas muito mais efetivas de forçar uma porta do que esmurrá-la. Obriguei-me a reprimir minha expressão indignada. Apertei a mandíbula, lhe dei as costas e procurei através da chuva a direção da saída. ― Sobe. ― pediu, incorporando-se com a intenção de abrir a porta do passageiro.

36 ― N~o, obrigada. ― respondi e me olhou fixamente. Realmente pensou que eu ia concordar? ― Como quiser. Deu de ombros, fechou-a e rodeou o veiculo para sentar-se no acento do motorista. Arrancou enquanto eu voltava a andar e me seguiu no meu ritmo, com a janela abaixada e o cotovelo sobre ela. ― Entenderia que uma pessoa com sentido comum que apreciasse mesmo que apenas levemente sua vida não subisse, mas você me pediu a morte. ― recordou-me franzindo o cenho. ― Ou você se arrependeu? ― Depende. Por acaso você mudou de opinião? ― Quem sabe? Senti a horrível certeza que estava jogando comigo e me detive diante dele cruzando os braços. ― Vai fazer ou n~o? ― aquilo começava a me cansar. ― Isso é o que você acredita, certo? ― De não ser assim, me deixaria tranquila. ― Se quisesse te atacar já teria feito na infinidade de ocasiões que tive. Duvido que possua a paciência necessária para fazer jogos, Lena De Cote. Como sabe meu...? ― comecei De repente, a expressão em seu rosto tinha mudado por completo. Tinha os olhos entreabertos, apertava a mandíbula com força e os nós de seus longos dedos haviam começado a tornasse mais brancos em torno do volante. Segui a direção de seu olhar, mas ali, na escuridão, não via nada. Em troca, o que pude sentir foi um repentino fedor como se fosse esgoto... ― Se importaria de continuar essa conversa aqui dentro? ― perguntou com a voz seca e sombria. ― O que vai acontecer se n~o quiser? ― disse-lhe voltando a olhá-lo. ― Espera e terá a morte que deseja. ― Bom. ― disse cruzando novamente os braços. ― Vou esperar.

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― Acredito que a dor não seja um inconveniente para você, ent~o. ― respondeu sem nenhum rastro de humor em sua voz. Hesitei um instante. Tinha tocado em meu ponto fraco. ― A que se refere? ― Comprovará em três segundos se ficar ai. O repentino rugido do motor despertou meu corpo e assustada, juntei-me rapidamente a ele no interior de seu carro. Não tinha nem fechado a porta quando pisou fundo no acelerador e deixou atrás de si um rastro de fumaça branca e um forte cheiro de pneu queimado. Colei sobre o assento, com as costas retas e a respiração a mil por hora. Christian saiu na Via com uma velocidade vertiginosa. Sua pele brilhava pela água e o cabelo ainda gotejava. Mantinha o cenho franzido e as asas do nariz dilatadas. Todo seu rosto se contraia em uma careta que me fez perguntar se não haveria sido melhor ideia ficar e enfrentar o que havia no estacionamento. Não estranhava que ninguém quisesse se aproximar dele. Parecia zangado e eu era incapaz de compreender a que se devia essa repentina mudança de humor. Senti seu olhar enquanto nos camuflamos entre os poucos veículos da avenida principal. Freou em um semáforo vermelho. ― Eu não sei o que você está jogando. ― falou de repente. ― Mas não pode andar por ai, sobretudo se é de noite. O que acha que estava fazendo? Pretendia que te matassem? ― exclamou fora de si. Senti-me ofendida, o que foi essa atitude agora? Notei como a raiva fluía para o exterior. ― Quem é você para falar assim comigo? ― disse fora de mim. ― Não te conheço! Ignorou-me. O semáforo ficou verde e acelerou fazendo com que meu corpo ficasse novamente colado contra o respaldo do assento. ― O seu clã sabe que anda sozinha de noite pela rua? ― Meu o quê? O que é Clã? Parou o carro em seco e voltou-se bruscamente para mim. Como alto reflexo, retrocedi até a porta. Seus olhos soltavam faíscas. Ia dizer algo ,mas se deteve, respirou fundo voltou para seu lugar. Continuou conduzindo, em silêncio, mas torcendo o volante com as mãos. Tirou os óculos de sol do bolso da camisa e os colocou, apesar de já ser noite. Logo me olhou. - Relaxa – pediu com uma voz muito

38 mais calma. – Te deixarei em casa. ― Como sabe onde vivo? ― balbuciei. ― Nem que houvesse muitas opções. A chuva se transformou em granizo. Concentrei-me no ir e vir do pára-brisa; qualquer coisa era melhor que prestar atenção nele. Era uma situação muito violenta e estava nervosa, não sei se por sua proximidade, por sua reação ou por tudo no geral. Mas não voltou a me dirigir uma só palavra até que estacionou há uns metros da casa dos De Cote. Desligou o motor e cruzou os braços olhando para frente com semblante sério, a veia da sua têmpora palpitava. Não soube o que dizer, ainda que no meu interior agitavam-se milhões de perguntas. ― Da próxima vez. ― disse rompendo o silêncio com voz suave; com uma fingida tranqüilidade que fez com que eu ficasse muito mais nervosa. ― Se quiser te matar, ficarei encantado em te ajudar, mas não vá para a rua colocando outras pessoas em perigo. ― Eu te pedi. ― lembrei-o. Seu mau humor voltou a aparecer. ― Por favor! ― exclamou exasperado me olhando. ― Não achei que fosse sério. Quem pensaria...? ― Eu. ― lhe cortei. Tomou ar para acalmar-se. ― Sim, desde o começo, isso ficou claro. Olhou-me durante uns instantes, analisando algo. Inclinou-se para a esquerda para pegar uma pequena toalha azul e me passou para que me secasse. Eu não a utilizei, estava muito chateada para aceitar algo dele. Como podia ter me sentido atraída por um ser tão irritante? O granizo golpeou com mais força. Isso era a única coisa que se escutava no interior do carro, acompanhado pelo som do pára-brisa e o ritmo do pisca - alerta. Coloquei uma mão na porta para sair, mas sua voz me reteve no interior. ― Se me comprometer a fazê-lo. ― falou de repente sem voltar-se para mim. ― Terei tua palavra de que não voltará a se expor dessa semelhante maneira até o momento chegar?

39 Voltei-me para ele. ― Porque você se importa com o que eu faça? ― perguntei-lhe em voz baixa, sem compreender. Ele endureceu o tom. ― A razão que possa ter só interessa a mim. ― Também me impor... ― Não. ― me cortou de forma brusca. ― Você só se assegura de fazê-lo. De outra forma conseguirá uma morte muito mais dolorosa do que eu posso te proporcionar. Escolhe. Fiquei em silêncio. ― Como posso ter certeza que você cumprirá sua parte? Ele sorriu para si mesmo. ― Não tenho nenhuma razão para querer te manter com vida. ― riu com amargura. ― Acredite não será nenhum problema. Mordi os lábios. Parecia incrível que essas palavras me soassem tão alentadoras. Fixei o olhar em minhas mãos, que torciam e retorciam uma das mangas do casaco. ― Mas, certamente. ― acrescentou. ― Eu estabelecerei as normas deste... ”Jogo”. O olhei. ― Você disse que não tinha paciência para isso. ― lhe recordei. ― Eu me colocarei { prova. ― ironizou secamente. Tentei decifrar alguma intenção escondida em suas palavras, mas não encontrei nada. ― Que normas? ― pedi depois uns segundos. ― Não saberá como o farei e em que momento. Voltei a morder o lábio com força em um esforço sobre-humano para me controlar. Não estava em condições de perder essa oportunidade. ― Porque esperar? ― Há uma última condição que quero que cumpra antes de fazê-lo. ― levantou uma mão quando eu ia perguntar qual. ― Tenho certeza que será capaz de aguardar até que chegue o momento de lhe contar. Além disso, tenho a intenção de te conhecer; quero saber que tipo de vida eu tenho que acabar. Senti-me indignada. ― Isso é mesquinho. ― Importa-me muito pouco sua opinião a respeito. Não sou eu quem tem

40 rogado pela sua morte. Fiquei em silêncio. Queria odiá-lo com todas as minhas forças, mas não era capaz. Certamente devia-se a beleza que irradiava ou a atração que esses olhos exerciam sobre mim. ― Qual é sua resposta? ― perguntou tirando os óculos. ― Eu também tenho uma condição. Olhou-me, atento, examinando-me com suas escuras pupilas. Porque tudo dava voltas quando fixava seus olhos em mim desse modo? ― Sem dor. ― balbuciei sem poder manter o contato visual. Torceu a boca em um sorriso. ― Não posso te prometer isso. ― Então não há trato. Deu de ombros. ― Bem. Voltou o olhar para frente e girou a chave do contato para ligar novamente o motor. Conectou o rádio e começou a soar uma música suave. De repente, abriu a trava e esperou que eu descesse do carro. ― Pensa Lena. ― acrescentou quando estava a ponto de sair à rua debaixo da chuva de granizo. ― Sou tua melhor opção. Não disse mais nada, me limitei a caminhar até a entrada da casa. Senti seus olhos cravados em minha nuca. Quando estive dentro, me apoiei contra a porta e me deixei cair ao chão, enquanto do outro lado escutava o motor do carro de Christian Dubois afastar-se a grande velocidade. Estava furiosa com ele, mas, sobretudo comigo mesma. Subi as escadas e me fechei no quarto. Lá fora continuava chovendo. No fim de um par de horas, o temporal foi acompanhado por trovões e relâmpagos que iluminavam tudo ao meu redor. O vento sacudia com força o vidro da janela e um incessante ruído me fez pensar que devia ter goteiras em alguma parte do quarto. Embora me encontrasse protegida debaixo das mantas da cama, sentia que a tormenta havia penetrado também na minha mente. O que ele me havia proposto era sem dúvida a solução de todos os meus problemas. A dor era, certamente, um obstáculo, porque não era que eu fosse muito

41 valente. Até me surpreendia que tivesse me atrevido a falar da primeira vez. Com ele parecia que tudo era diferente e isso me perturbava. Mas, havia algo que não me convencia totalmente, alguma razão que eu ignorava fazia com que eu duvidasse dele e devia descobrir do que se tratava. Nesta noite também não dormi. No entanto, não culpei a ausência de recordações, a ansiedade ou alguma das coisas, as quais eu estava acostumada a impedir no tempo que vivia ali. Não. Esta ocasião foi diferente. Escutei o absoluto silêncio, a grande desesperança, a amargura que comia o pouco que ficava dentro de mim. Essa noite apenas podia pensar nos olhos penetrantes de Christian Dubois. Estremecia-me ao recordá-los, fixos, cravados em mim e em sua expressão ao avistar algo na escuridão do parque.

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A verdade não dói, a verdade mata.

Na manhã seguinte não voltei a vê-lo perto da biblioteca, nem de nenhum lugar onde eu estivesse. Não compreendi porque meu corpo parecia de repente tão ansioso por encontrá-lo de novo. Liam havia me disponibilizado sua bicicleta, de modo que andar nela tinha se convertido na minha distração do dia. Passava entre as pessoas da forma mais rápida que podia para que não se fixassem em mim. Conheci parte da cidade, embora não podia sair tanto tempo como desejava; Os De Cote eram muito rigorosos nesse sentido. Mas, um repentino cansaço começou a me consumir e tive que limitar minhas saídas. Minha saúde continuava ressentida, não podia comer nem beber nada porque continuava vomitando. Além disso, a agudez dos meus sentidos tinha diminuído, em troca, parecia que ia me acostumando a dor do meu corpo. Havia chegado ao ponto em que quase podia ignorá-la. Nesta tarde cheguei de outra de minhas pequenas expedições antes do que esperava. Liam e Lisange não estavam em casa e Flávio não voltaria até a noite. Encontrava-me estranha. Sentia a boca pastosa, com um sabor parecido a sangue. Fui à cozinha beber um pouco de água porque estava sedenta. Foi reconfortante, me senti muito mais aliviada. Subi para o meu quarto para tentar ler um pouco, mas não fiz nada mais que entrar pela porta e comecei a sentir umas terríveis ânsias. Corri para o banheiro e vomitei na pia. Meu corpo se retorceu até que expulsei a última gota. ― Outra vez n~o... ― supliquei ofegando. Abri a torneira e lavei o que tinha manchado. Lavei meus dentes por consciência, logo coloquei um tampa no ralo e enchi um pouco a pia. Fechei as pálpebras e molhei o rosto, tinha a sensação de que meu cérebro estalaria em chamas a qualquer momento. Sai da água um minuto depois, muito melhor. Deixei que as gotas escorregassem pela minha pele para cair novamente na pia. Respirei lentamente e abri os olhos. Pestanejei várias vezes sem compreender o que via. Estava ante meu reflexo, curvado pelas pequenas ondas que agitavam a superfície. Fiquei imóvel, sem poder reagir durante os primeiros segundos.

44 Enquanto fui consciente do que estava vendo, sai correndo do banheiro. Olhei ao meu redor em busca de um espelho: pelo armário, detrás das portas, em algumas gavetas, mas não encontrei nenhum. Aproximei-me da janela e olhei no cristal, mas não era suficiente. Sai do quarto correndo até o andar de baixo. Ali continuei minha busca. Registrei até nos lugares mais imprevistos, mas não havia nada, nem um só em toda a casa. Isso era possível? Peguei as chaves e sai, mas nem sequer encontrei um carro que pudesse me emprestar seu retrovisor. Corri até o centro e avistei um estacionado em frente ao primeiro bar. Dirigi-me decidida até ele, mas o dono cruzou meu caminho frustrando minha tentativa. Mudei de rumo, dei a volta e entrei rapidamente no local. Nesses lugares sempre costumam ter algum nos banheiros. Todos ali reunidos me olharam quando entrei correndo, como um raio, em busca dos banheiros. Abri a porta de uma vez. Dentro estava escuro. Procurei com ansiedade a pequena luzinha laranja que indicava o lugar do interruptor. Acendi a luz, me aproximei do espelho, desta vez com cautela, e olhei. Mas tudo o que vi me fez tremer. Ai, frente a frente tinha meu reflexo. Era meu, não havia ninguém mais nesse pequeno e fajuto banheiro, mas se não fosse porque sabia que não era possível, havia jurado que essa pessoa não era eu. Meus olhos eram negros, de um negro tão intenso que fazia difícil diferenciar pupila de Iris, meus lábios haviam perdido sua cor para adotar uma cor quase roxa. Mas, isso não era o pior de tudo, o mais impactante era minha pele. Diretamente, não havia cor nela, ao menos nenhuma que pudesse se considerar normal. Era esbranquiçada, como de um giz envelhecido com um ligeiro tom arroxeado. Parecia sem vida, como... Morta. Como ato instintivo, levei a mão ao peito. Guardei silencio tentando captar o movimento do meu coração, mas não encontrei nada, nem uma tênue batida. Voltei a insistir. Eu tinha sentido, recordava perfeitamente como tinha saltado ao ver Christian pela primeira vez. Mas já não era assim, agora não havia movimento no meu interior. Tomei ar diversas vezes. Respirava. Isso tinha que significar algo, não? Mas, então, recordei que não tinha conseguido comer nada nos dias que estava ali, não tinha nem um pouco de fome; tampouco tinha sentido frio ou calor, nem nenhuma outra necessidade, exceto chorar. Porque demorei tanto para relacionar todas essas coisas? Sacudi a cabeça; tudo era um sonho ruim. Sai do banheiro e corri para a rua. Atravessei lugares que nunca tinha visto, andando entre as pessoas sem nenhuma delicadeza, sem me preocupar em pedir desculpas por bater nelas. Corri até que não pude mais, o que foi muito tempo apesar das minhas forças. Cheguei a uma rua sem saída, mas minha mente não estava bastante lúcida para retroceder e procurar outro caminho, por isso cai junto à frente de uma casa

45 de aspecto pobre. Tudo isso me superava, não agüentava nenhum minuto mais. Quis chorar, mas não pude, meus olhos doíam, ardiam e não pude aliviá-los. Bati a cabeça contra a parede, me sentido muito miserável. Agarrei o meu cabelo e puxei com força, mas não se desprendeu nem um só fio. Abracei minhas pernas e enterrei a cabeça entre os joelhos, afogando um grito que podia destroçar qualquer ouvido humano. Permaneci ali, refugiada do mundo, com os olhos fechados, enquanto jurava para mim mesma que isto não estava acontecendo. Não sei quanto tempo estava naquele lugar, agachada na esquina dessa rua abandonada, quando ouvi umas pisadas sobre o chão de areia. Não precisei levantar os olhos para saber quem era. Seu cheiro chegou a minha mente com toda a claridade antes de chegar a ver seus pés. Horas antes sua presença haveria me aliviado, mas agora me irritava. Tinha que estar só, me afastar de tudo e todos. ― Se não veio me matar, vai embora. ― soltei esculpindo cada palavra impregnada com profundo ódio. Ele não respondeu nada. Levantei para encará-lo. ― Vai embora. ― lhe gritei, mas não se moveu. ― Vai embora daqui. Não fez nada. Lancei-lhe tudo o que encontrei ao meu redor: pedras, latas... Mas, não acertei nem uma vez e ele continuava ali, implacável. Desesperada, coloquei o cristal quebrado de uma garrafa contra sua garganta. ― J| terminou? ― disse-me em um tom monótono enquanto eu o ameaçava ― Se de verdade acredita que vou sair daqui por um punhado de pedras, é porque não tem prestado atenção em nada do que eu tenho te dito. ― acrescentou olhando o cristal que apertava contra sua pele. ― Não vai me machucar com isso. Afastei a garrafa do seu pescoço e pressionei contra o meu. ― E sobre mim? ― perguntei. ― O que acontece se eu me corto? Não posso morrer? ― seu corpo ficou tenso sutilmente ao meu lado. ― Não dessa forma; Lancei a garrafa contra a parede. ― Ent~o faz você! ― gritei. ― Não. ― respondeu com uma seriedade irritante. ― Ainda não. ― Porque não? É por esse estúpido trato? ― manteve-se em silêncio. ― Estou farta. ― soltei. ― É insuportável não lembrar nada, odeio não reconhecer a mim mesma, nem saber onde aprendi tudo o que sei ou como fiz. ― tomei ar, quase

46 não podia falar pelo nó em minha garganta. ― Por quê? ― olhei-o suplicante, meus olhos estavam a ponto de arder em chamas. ― Me diz por que não sou capaz de sentir nem sequer o palpitar do meu coração. Nem o ar dos meus pulmões. ― vireime tentado me acalmar, cada vez custava mais trabalho para falar. ― Eu tenho a pele arroxeada e vomito até um pequeno copo de |gua. ― virei e o encarei. ― O que está acontecendo comigo? Ele n~o se moveu nem um milímetro. ― Você já sabe. ― Refere-se ao acidente? ― coloquei os olhos em branco. ― Não posso continuar acreditando nessa história! ― N~o esperava que o fizesse. ― disse com absoluta calma. ― RESPONDE ENTÃO! ― Se você acha que está preparada para conhecer a resposta, então formula sua pergunta. Não mentirei para você. Minha respiração estava descontrolada. Meu peito enchia e esvaziava, mas não sentia o ar entrar nos meus pulmões. Não fui capaz de lhe olhar, baixei a vista, mas ainda assim demorei uns segundos mais para poder voltar a falar. ― Estou...? ― tomei ar, mas as palavras não saiam. ― Estou...? ― Pensa bem, Lena. ― ele interrompeu. ― Uma vez formulada na haverá volta. Fechei minhas pálpebras com força, como se isso pudesse aliviar a dor que me produzia dizer a última palavra. ― ... Morta? Não respondeu imediatamente. A espera me pareceu eterna. Levantei o olhar para enfrentar a verdade de seus olhos e ele respondeu pausadamente. ― Sim. Senti-me muito enjoada, me desequilibrei e cai no chão, sobre uma pequena escada que conduzia a um portal1 abandonado. Ele permaneceu ali, estático, olhando-me frio, sem nenhum tipo de emoção. 1

Refere-se à entrada de algum lugar.

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― O que significa isso? ― perguntei com voz trêmula. ― O que você acha? ― respondeu ele. ― Que tudo o que você me contou é mentira. ― cobri meu rosto com as mãos, apertando meus olhos com força. ― Eles nem sequer são uma família, não é? ― Os De Cotes são seu Clã, aqui consideramos os Clãs como família. ― Eles também est~o...? ― não fui capaz de pronunciar a última palavra. ― Sim. ― respondeu ele. ― E você? ― É evidente que também. Levei a mão ao peito. Nada, não sentia nada. ― Mas... ― oscilei. ― Eu escutei a batida do meu coração. ― Isso não é possível. Ouvi ele se aproximar. ― Por que eu? ― Compadecer-se n~o vai te ajudar. ― afirmou com frieza. ― Não é a primeira nem a última pessoa a quem aconteceu isso. Fulminei-lhe com o olhar. ― Deixe-me em paz. ― roguei enquanto voltava a esconder a cabeça entre as mãos. ― Levanta. ― respondeu-me com a voz tranqüila, mas cortante. Neguei com a cabeça. ― Não. ― Lena, levanta. ― repetiu, desta vez de forma mais autoritária.

48 ― N~o. ― levantei o olhar para lhe desafiar, só sua imagem fez com que me desequilibrasse, mas me mantive firme. ― Penso em ficar aqui até que alguém acabe comigo de uma vez. Olhou-me com uma mescla de ódio e culpabilidade. ― Ninguém vai querer te matar assim, nesse momento seria com fuçar no lixo. ― dediquei-lhe todo o desprezo que podia desprender dos meus olhos. ― Não quero mais escutar besteiras da sua parte. ― disse-me. ― Vai vir comigo queira ou não. Subiu os escassos degraus que nos separavam, rodeou minha cintura com um de seus fortes braços e me levantou do chão sem esforço. ― O que acha que est| fazendo? ― lhe espetei. ― Colocando um pouco de bom senso. ― ME SOLTA! ― Não. ― EU DISSE PARA ME SOLTAR! Bati nas suas costas com os punhos fechados com toda raiva que pude canalizar, mas minhas escassas forças desapareceram com o terceiro golpe. Tinha deixado o carro em marcha no meio da zona da cidade afastada das mãos de Deus. Era inacreditável que ninguém o tivesse levado. Abriu a porta do passageiro com uma mão enquanto me introduzia no interior. Colocou-me delicadamente no assento e pôs o cinto. Não entendia o porquê desse cuidado e segurança. Rodeou o carro e sentou ao meu lado. Ia com pressa. Soltou a embreagem e acelerou. Nem sequer se incomodou em colocar o seu. Franziu a testa em uma severa expressão e um olhar gélido. Parecia absorto em seus pensamentos. Tentei abrir a porta para sair do carro, mas tinha fechado a trava. Olhei-o cheia de fúria, porque não podia me deixar em paz? ― Não vai escapar Lena. Não penso permitir que fique aqui. ― Onde está me levando?

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― Para casa. ― Não quero voltar a essa casa. ― Dá no mesmo. ― Te odeio! ― Parabéns. ― respondeu. Seu tom sarcástico me exasperava. Ofeguei. Não tinha forças para discutir com ele. Cruzei os braços como uma menina birrenta. ― Quem você acha que é? Meu salvador? ― N~o. ― só seu olhar fez com que eu ficasse muda. ― Pelo contrário. Freou rapidamente. Se não fosse pelo cinto de segurança teria batido, mas ele que não tinha posto, não se moveu um centímetro. Saiu rapidamente e abriu a porta com mais força do que a necessária. Tirou-me sem se importar em me perguntar se eu queria sair e me levou até as escadas que conduziam a porta da casa. Mas, ele não pôs um pé sobre a escada, se manteve no seu lugar. ― Ai dentro há pessoas que gostam de você; merecem que lhes de uma oportunidade. ― sua voz agora mais suave. O olhei. ― N~o penso em ficar. ― podia sentir meus olhos avermelharem. Puxei meu braço e me desfiz de sua mão. Subi as escadas de costas, devagar, sem afastar os olhos dele e acrescentei. ― Afaste-se de mim.

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Tudo o que um não-morto novato sabe fazer.



Lena! ― exclamou Lisange quando me viu aparecer. ― Onde estava?

Estávamos... ― DEIXE-ME EM PAZ! ― gritei enquanto subia com toda a pressa as escadas. Tranquei-me no quarto com o trinco e me joguei sobre a cama. Não demorei nem dois segundos em escutar uns dedos golpeando com cuidado a porta. ― Lena. ― a voz de Lisange era cautelosa. ― Você está bem? Mordi o punho para não gritar, refugiada debaixo das mantas. Lisange continuou insistindo. A ela se uniram o resto dos De Cote, um por um, mas não respondi a nenhum deles. No fim de algumas horas, suas vozes se apagaram. Morta...? Eu...? Era absurdo... Não era possível que minha vida já tivesse esgotado. Nem sequer tinha chegado à maior idade! Ainda ficavam alguns centímetros para crescer e não tinham nem saído os dentes do siso 2. Faltavam muitas etapas para experimentar. Esfreguei os olhos insistentemente, me belisquei e inclusive corri ao banheiro e enterrei a cabeça na água para tentar acordar, mas acabei novamente na cama, sem forças. Em situações assim, deseja com todas as suas forças que apenas se trate de um sonho ruim. Chega inclusive a acreditar que só se trata de um desses pesadelos horríveis nos que está passando mal, mas, no fundo sabe que vai acordar. Essa foi minha primeira opção, a segunda não era muito consoladora, mas, ao menos não era tão radical como o que acabavam de me revelar: se não estava dormindo, devia ter ficado louca em algum momento de minha esquecida existência.

PASSARAM-SE UM DIA...

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São os últimos dentes a nascerem.

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DOIS DIAS...

TRÊS DIAS...

QUATRO DIAS...

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Vi passar os dias com suas noites através da janela, e não despertei daquele pesadelo. Não sei muito bem quais são as famosas fases da negação, ainda que sabêlas não teria me ajudado em nada. No primeiro dia gritei, no segundo gritei ainda mais, no terceiro entrei em choque, no quarto contemplei o teto do quarto com o olhar perdido até que a escuridão o fez desaparecer e no quinto, contra todo prognostico, minha mente decidiu raciocinar. Havia apenas uma coisa clara: quando você está sonhando, o tempo nunca passa lentamente. Era sábado. Alguém chamou em minha porta. Levantei-me para abrir, sem preocupa-me em ver de quem se tratava. Logo, voltei para a cama e escondi-me embaixo da colcha, de costas para o recém chegado. Pouco depois, senti um peso ao meu lado e chegou-se um aroma familiar. Lisange. ― Estava pronto para contar-lhe. ― explicou próximo ao meu ouvido. ― O que foi que me aconteceu? ― quis saber, afastando um pouco a colcha, e olhando-a diretamente nos olhos. ― Morri em um acidente? ― Não existe nenhuma Lena. Ao menos da forma em que o imagina. ― corrigiu com cautela. ― Quando falamos do acidente nos referimos a passar dos vivos a..., bem, a isto. É você quem deve descobrir o que aconteceu. ― Lena. ― escutei a voz de Flávio da porta. ― Importa-se se entrarmos? ― É sua casa. ― disse, voltando a cobrir meu rosto. Entre as pregas da colcha, visualizei Flávio aproximar-se dos pés da minha cama e a Liam junto a janela. Senti-me incomodada. Os três observavam-me atentos, podia senti-los. Parecia que esperavam que de repente eu começasse a gritar e berrar, mesmo que, na verdade não os culpava, a julgar pelo meu exílio voluntario durante quase uma semana. Mantive-me ali, escondida, protegida de seus olhares. ― Lena, nós sabemos que esta situação é difícil, mas há coisas que deve saber; que lhe ajudará a compreender o porquê, continua neste mundo.

55 ― Por quê? ― exclamei, mostrando minha cabeça novamente. Este movimento quase consome as poucas energias que me restavam. ― Por acaso não é isso o que há depois da morte? ― N~o exatamente. ― concluiu Flávio, fez uma pausa e continuou. ― Isto é um passo intermediário que nem todo mundo experimenta. Fui dizer algo, mas ele levantou a mão, interrompendo minha intenção. ― Antes de perguntar algo mais, você deveria ouvir com atenção, porque o que vamos te contar é de vital import}ncia. ― aproximou-se mais e sentou-se na cama, respirou lenta e profundamente e voltou a falar. ― Não são todos como você, aqui também há bons e maus; com a diferença de que os maus são muito perigosos. ― A que se refere com isto? ― Há três tipos de existências relacionadas com a morte. ― explicou por fim. ― Guardiães, Grandes Predadores e nós, Caçadores. Não estamos de todo vivos, mas também n~o completamente mortos. ― continuou. ― Podemos sentir ou fazer quase todas as coisas que faz um ser humano, apenas, nos falta a alma. ― N~o entendo. ― interrompi com um leve sussurro, sentando-me na cama. Não tinha sentido em me esconder, eles continuariam me observando. ― Estou muito cansada para isso. ― E será assim até que se alimente. Neguei com a cabeça. ― Eu vomito tudo. ― Isso é porque seu corpo o recusa, seu sistema digestivo já não funciona. “Tudo em meu interior está morto?” Neste momento me veio a mente uma imagem de entranhas secas e decompostas e tive que sacudir a cabeça para afastar esse pensamento. ― Ent~o do que vocês se alimentam? ― perguntei. ― Sangue, como os vampiros? ― N~o. ― disse Lisange. Parecia um pouco mais tranqüila ao pensar que eu brincava, suponho que não percebeu ou não quis perceber, o sarcasmo em minha

56 voz. Nós nos servimos muito melhor de energia ou se preferir, de sentimentos humanos. Levantei uma sobrancelha. ― O que? Tinha que ser uma piada. ― Tudo o que habita o mundo, tem uma finalidade, e nossa existência não é nenhuma exceç~o. ― começou de novo Fl|vio. ― Deve haver um equilíbrio emocional entre os humanos. Nós impulsionamos essa proporção e para fazê-lo devemos passar despercebidos, por isso tentamos nos camuflar entre eles. ― Continuo sem entender nada. ― reconheci. ― Criamos sentimentos nos humanos, os fazemos por que eles mesmos geram emoções que desequilibrariam a humanidade. O homem é um ser incapaz de controlar suas emoções. ― Vocês fazem com que se sintam mal? ― murmurei, não pude esconder o ligeiro tom de reprovação que acompanhava minhas palavras. ― N~o deve vê-lo desta maneira. ― interveio Liam. ― O sofrimento lhes obriga a evoluir. Fiquei em silencio. Flávio cobriu minha mão com a sua e me olhou fixamente. ― Ninguém pode ser feliz eternamente, Lena. ― disse em voz branda. ― Infelizmente, nosso trabalho é brindar-lhes com essas pequenas doses de sofrimento de vez em quando. – Olhei-o com interesse. ― N~o tem que lhes machucar. ― sorriu marcando suas covinhas na bochecha. ― Considere-o como uma vacina. Essa era a primeira coisa positiva que escutava sobre o assunto. ― Como o faz? ― É muito simples, te ensinaremos quando se transformar. Você ainda não é como nós, seu corpo deve terminar de morrer.

57 ― O que? ― afastei a mão e afastei-me um pouco na cama, isso soava tão errado... ― Por isso tem sofrido estes golpes de dor, mas não se assuste, é uma coisa normal, mesmo porque ainda te falta algum tempo. ― Quanto? Baixou o olhar. ― Ninguém sabe a ciência certa, mas não deve preocupar-se com isso agora. ― E o que h| sobre meu passado? ― perguntei. ― O recordarei algum dia? ― Não há razão para que n~o aconteça assim. ― Liam aproximou-se de mim. Por um momento havia esquecido que Lisange e ele também estavam no quarto. ― Mas pode ser que demore décadas em fazê-lo. Deixei-me cair um pouco para trás, contra a cabeceira da cama, novamente sem compreender. ― O que você quer dizer? ― percorri a todos com os olhos. ― Quantos anos vocês têm? Lisange sinalizou a Liam. ― Século XVII. ― logo sinalizou a Fl|vio. ― E XX. Eu nasci no século XVIII. Olhei-os boquiaberta. Não ia ser fácil acreditar que diante de mim tinha testemunhas da história. Ante seus olhos haviam ocorrido os grandes acontecimentos da humanidade, e em troca, não eram muito diferentes de qualquer outro jovem. Tudo parecia mais do que nunca, um sonho. Cravei o olhar em Liam. ― Devo acreditar eu vive h| quatrocentos anos? ― sussurrei, era muito impactante para ser correto. Ele assentiu com sua cabeça. ― Trata-se de uma piada? Como isso é possível? ― Ninguém conhece os mistérios da eternidade. É uma pergunta para qual não podemos dar a resposta. ― Ent~o... ― comecei olhando para Lisange. ― ...Nunca morrerei?

58 Essa revelação colocava-se como um inconveniente para meu propósito com Christian Dubois. ― Toda existência tem um fim. ― explicou-me. ― Você pode morrer por determinadas causas, mas se consegue esquivar-se, não tem limite de idade e nunca envelhecerá. Bom, ainda havia lugar para a esperança. ― Mas mesmo aqui, há uma cadeia alimentar, Lena. Nós nos alimentamos de humanos, sem passar os limites estritamente sinalizados para não ser perigoso para eles, os Grandes Predadores são os que cruzam este limite, e os Guardiães alimentam-se de nós. Ambos implicam em ameaça para os Caçadores, e tem que ter cuidado se quer conservar esta vida. Não era o caso, então... ― Como posso reconhecê-los? Era tranqüilizador pensar que, se meu trato com Christian não funcionasse, ainda me sobrariam outras possibilidades. ― Os Guardiões têm a aparência de qualquer ser humano. ― continuou Fl|vio. ― Podem crescer, por isso são tão difíceis de distinguir, mas quando caçam tem um odor característico que te alertará se está próximo. E quanto aos Grandes Predadores, também é complicado descobri-los por que são bastante parecidos conosco, mas seu coração bate muito mais lentamente do que o de um humano. Quando você se transformar, desenvolverá umas habilidades que te ajudarão a perceber esses pequenos, mas importantíssimos detalhes. Olhei-o sem entender. Batidas? ― Eles estão vivos? ― N~o, n~o. ― apressou-se em corrigir. ― Mas o nosso é o único que não bate, não obstante, o Guardião pode silenciar o seu, por isso tem que estar atenta a todos os seus sentidos. ― Dos Grandes Predadores também deve fugir sempre. ― repetiu Lisange. ― Por que mesmo que se alimentem de humanos, eles têm por costume se divertir à custa de nos machucar.

59 ― Por isso. ― o tom de Liam foi muito mais autorit|rio eu dos outros. ― Não deve se relacionar com ninguém. Pelo menos, não antes que tenha completado sua transformação e sobre tudo, evite sempre sair de casa nas noites sem lua, por que é o momento em que os Guardi~es caçam sem controle. ― fez uma pausa para analisar minha cara de confusão. – Agora você deveria descansar. Não disse nada, apenas me limitei a pestanejar absorta em meus pensamentos. A verdade é que devia assimilar tudo o que eles haviam me contado, toda essa informação tinha começado a me provocar um enorme enjôo. ― Estaremos lá embaixo se você precisar de alguma coisa. Lisange aproximou-se e depositou um beijo em minha testa. ― Você vai superar, tenho certeza disso. ― sussurrou em meu ouvido. Depois disso reuniu-se com Liam na porta. ― Flávio? ― Vou ficar um pouco mais com ela. ― Lena deve meditar sobre o ouviu. ― disse, com uma mão na maçaneta. ― Não ficarei muito Lisange, Descerei em uns minutos. Ela trocou um olhar com Liam, ele assentiu e ambos desapareceram pela porta. Flávio voltou-se para mim com expressão compreensiva. ― Passaram-se muitos séculos desde que morreram, acho que esqueceram como deve sentir-se. ― E você n~o? ― perguntei ainda desorientada. ― Sou o mais jovem. ― sorriu. ― Lembro-me alguma coisa de então. Mas não se preocupe, nós te ajudaremos. ― Se eu estou morta, isso significa que minha família ainda vive. ― sussurrei. ― Não é assim? ― Este é seu lugar agora, Lena. ― respondeu com cautela. ― Já sabe ao que me refiro. Demorou uns segundos para responder.

60 ― Sim. ― esclareceu. ― Seguramente, sim. ― Por que não posso lembrar-me deles? ― Chegará o momento, Lena, com o passar do tempo, o far|. ― disse com voz compreensiva. ― Mas pense que quando o fizer, não poderá interferir em suas vidas. É doloroso, mas para eles você já não existe, e ver que seguem em frente sem você... ― Não lembrar é ainda pior. ― concentrei minha atenção nas finas fibras da manta que me cobria. ― Tem que dar-se tempo. Dei-lhe um olhar suplicante. ― E se não for assim? Como está tão seguro que o conseguirei algum dia? Adotou uma expressão paternal. ― Não esqueça que eu já passei pela mesma coisa. ― Você recordou? ― insisti com ansiedade. ― Quando estive preparado. ― assentiu. ― Posso te perguntar o que aconteceu? Torceu o rosto. Pude sentir que era um grande esforço para ele, mas não se negou a fazê-lo. ― É difícil relembrá-lo. ― puxou o ar. ― Digamos que eu apenas um a mais dos tantos que morrem em combate. ― Todos os outros também são Caçadores? ― N~o, claro que n~o, Lena. ― colocou-se em pé, com as mãos nas costas, de cara para a janela. ― Suponho que sua geração tem visto filmes suficientes para saber que os soldados são treinados para suportar condições extremas e para agüentar todo tipo de tormentos. Mas ninguém te prepara o suficiente para o que se vive lá. Ficou em silêncio por um momento e continuou.

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― Eu tinha um irm~o. ― começou. ― Muito jovem, não devia ter mais de dezesseis anos nessa época. Havíamos ficado sem pais há vários anos antes, então eu cuidava dele, mesmo depois de me casar, e o levei para viver em minha casa. Quando começou a guerra, ele se alistou no bando contrário sem que eu soubesse. Era tão teimoso e imprudente... Não sabia nada de guerra, era apenas um desses jovens impetuosos que sonham com a glória. E, não demoraram em fazê-lo prisioneiro. Tive-lhe tão perto..., mas não sabia que ele estava ali, em meu próprio acampamento. ― sua voz ia perdendo força. ― Não pude evitar que lhe mandassem diretamente ao pelotão de fuzilamento. Pior ainda, eu dei o sinal, Lena, sem saber que ele era um deles. Ordenei a morte do meu próprio irm~o. ― disse segurando o ar. ― É irônico, mas antes de eu ir, havia lhe prometido que ninguém o machucaria. Sua voz apagou-se. ― O que aconteceu com você? ― perguntei com medo. ― Tenho certeza de que pode imaginá-lo. Cai um dia depois, não me preocupei em lutar, nem em proteger-me, perambulei desarmado pelo campo de batalha até que alguém colocou fim em minha agonia. Despertei sendo o que sou e quando lembrei, meses mais tarde, virei o mundo buscando por ele, convencido de que ele também havia voltado nessa estranha forma de vida. Mas me enganei. Não tenho deixado de buscá-lo menos desde então, ainda que, se não esta aqui é por que, por sorte, encontra-se em um lugar melhor. ― fez uma pausa relembrando algo em seu interior, então por fim, voltou-se para mim. ― Voltei ao meu lugar com minha esposa e meu filho apenas para contemplar que já haviam refeito suas vidas... Resulta ser muito doloroso ver que te esqueceram, mas imagino que seja parte de nossa maldiç~o. ― baixou a cabeça, tomando ar logo voltou a levantá-la para mim. ― Talvez não saber o que te aconteceu seja menos doloroso, Lena, mesmo por que jamais estará preparada se continuar se negando a seguir. ― N~o sei como fazê-lo. ― reconheci. Minha voz soou fraca depois de ouvir sua história. ― Encontre uma razão que te anime a continuar. instigou-me, sentando-se em uma cadeira. “Como eu ia ser capaz de conseguir algo assim neste lugar?” ― Descobrir quem você é pode ser uma grande motivaç~o. ― disse Como resposta ao meu pensamento. ― Mas como te disse, ainda é cedo, primeiro terá que alimentar-se.

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Neguei com a cabeça, abatida. ― N~o quero fazer isso. ― reconheci. ― Pode chegar a ser um perigo maior para os humanos se não o fizer. ― A que você se refere? ― A que, sua mente poderia nublar-se a tal ponto, que não reconhecesse essa fina linha, que nos separa do estrago que causamos a nós. Ao que provoca um Grande Predador. Fiquei em silêncio. ― Não é tão ruim quanto imagina. ― insistiu, dando-me um sorriso cordial, que não chegaram aos seus olhos, sombreados desde que havia começado a relatar-me seu passado. Lançou-se para trás e cobriu seu rosto com um pano úmido que eu não havia visto antes. Tinha um aspecto muito cansado. ― O calor é cada vez mais agonizante. ― comentou mudando de assunto. ― Isso eu também não entendo. Descobriu seu rosto para voltar a falar-me. ― Nosso estado natural tende a ser frio. ― explicou pacientemente. ― Podemos tolerar temperaturas um pouco mais elevadas que o normal, mas não muito, por que nossas habilidades enfraquecem. ― Eu n~o o sinto. ― reconheci encolhendo os ombros. Passou o pano por sua nuca. ― Isso é por que seus sentidos não est~o completamente aguçados. ― sua voz também ia perdendo força. ― Nunca se perguntou por que as pessoas estão mais animadas no verão? ― Por causa do sol? ― arrisquei. Ele esboçou um leve sorriso. ― Essa é a crença popular, mas o certo é que os Grandes Predadores suportam o calor ainda pior que nós, então quando sobem as temperaturas, sua

63 presença e a nossa diminuem. Os únicos que toleram bem as mudanças são os Guardiões. Puxei o ar profundamente, tinha tanto para entender... ― Não deve ficar preocupada com todo esse assunto. Baixei o olhar. ― Com o assunto de que morri? ― soltei uma risada amarga. ― Acho que é algo pelo que me preocupar. ― Muita gente daria tudo o que tem para poder desfrutar de uma segunda oportunidade. Essas palavras chegaram a mim mais fundo do que pensava. Teria sido eu uma destas pessoas? ― No momento deve adaptar-se. ― continuou, colocando em pé. ― Te ajudará fazer uma ‘Vida’ mais ou menos normal. Acabavam de me revelar, há poucos dias, que havia morrido, e nesse momento queriam que ‘Vivesse’. Nada, absolutamente nada, tinha sentido para mim. Chegados a esse ponto, tinha apenas duas opções: continuar nessa cama, lamentando-me sobre mim mesma, esperando fundir-me com o colchão, ou tentar entender o que estava acontecendo, me decidir a sair deste quarto e descobrir o que aconteceria a seguir. A primeira, era sem duvida nenhuma, a que mais me tentava, não tinha a força nem física, nem psicológica enfrentar a segunda, mas uma existência ligada a essas quatro paredes também não era uma idéia tentadora. Então, me surpreendi ao lembrar-me de outra possibilidade. Eu não havia pedido esse tipo de ‘Vida’ e não a queria, tinha isso completamente claro. Minha terceira opção chamava-se Christian. Agora, mais do que nunca, seu estranho trato tinha mais sentido do que jamais haveria esperado. Por fim, tomei minha decisão.

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A verdade e nada mais que a verdade.

Levantei-me e fui tomar banho. Não notava se a água estava fria ou quente, mas isso era uma das poucas coisas que ainda me faziam sentir normal. Lisange comentou algo sobre banhos de água gelada para quando eu me transformasse, mas não tinha a mais leve intenção de chegar tão longe neste momento, então não havia prestado muita atenção. Enrolei o cabelo em uma toalha. Vesti uma calça e uma camiseta de manga longa e calcei um Converse.3 O que eu tinha que lutar contra era com a cor de minha pele, agora que havia descoberto a verdade, tinham voltado a colocar todos os espelhos da casa e podia contemplar como cada vez ficava mais pálida. Os potes vazios de base para maquiagem amontoavam-se em duas das três de minhas caixas. O dia estava ensolarado e o aroma característico de terra úmida inundava o ambiente. Esse cheiro levantou um pouco meu animo, alegrava-me. No dia anterior, Lisange havia ficado atônita quando lhe disse que queria continuar acompanhando-a a biblioteca, evidentemente a razão era que eu queria falar com Christian. Nada do que haviam me contado tinha sentido. Explicava algumas coisas, lógico, mas não era estimulante. Não saberia dizer com exatidão o que pensava a respeito. Decepção? Ceticismo? Medo? Acabava de saber o que acontece depois da morte e não parecia ser capaz de assimilá-lo, talvez por que não me lembrava como tinha acontecido. Desde o momento em que o soube, sofri uma sensação de vertigem permanente e muita vontade de vomitar, acompanhados por uma irritante impotência, não sabia o que fazer a seguir. Agora que tudo o que estava me deixando louca (ou talvez sim, nunca se sabe), minha decisão vacilava. Não quero dizer que estava voltando atrás, tinha muito claro que não queria voltar a começar e muito menos sem saber o que era que tinha me acontecido, mas saber mais coisa sobre minha nova existência me tirava a desculpa que me empurrava a querer tirar-me a vida. Além do mais, não queria nem imaginar a expressão dos De Cote ao inteirar-se do que havia feito. A verdade é que lhes tinha carinho, eram os únicos que conhecia e tinham portado-se muito bem comigo, mas também não podia continuar com esta existência apenas por isso. Eles entenderiam cedo ou tarde. Recolhi minhas coisas e desci para a sala. Neste momento, Lisange me esperava já 3

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66 no carro, lendo um livro qualquer enquanto mordiscava distraidamente o lábio inferior com os dedos. Saudou-me com um apático movimento de cabeça quando me sentei ao seu lado. Eu esperei, mas não colocou o carro em movimento, parecia que estava muito compenetrada na leitura. Dei de ombros, No fim e a cabo eu não tinha nenhuma pressa, então me acomodei em meu lugar e esperei em silencio até que de repente, em um inesperado movimento, lançou o livro contra o painel, que rebateu e caiu sob meu assento. — ODEIO ISSO, ODEIO, ODEIO. — começou a gritar. — O que aconteceu? — perguntei alarmada. Girou a chave no contato com um rápido movimento do pulso e arrancou pisando fundo no acelerador. — Os finais felizes não existem. Odeio isso! Esses malditos absurdos humanos e sua concepção do amor. Agarrei-me em minha mochila, dirigia de forma temerária e nem sequer parecia prestar atenção na estrada. — Lisange... — tentei dizer, mas ela virou, sem nenhuma delicadeza, para a esquerda e eu perdi o equilíbrio, batendo contra o vidro da janela. Freou ruidosamente e saltou para a calçada com toda pressa, batendo a porta. Eu a vi afastar-se rápido até a entrada principal. Atordoada, inclinei-me para pegar o livro debaixo do meu assento. Sua capa estava muito desgastada e havia varias paginas marcadas. Virei-o e vi o titulo Romeu e Julieta escrito. Porque teria chamado isso de final feliz? Até onde eu lembrava ambos morriam no final da historia. Ouvi o relógio da biblioteca anunciando a hora em ponto, guardei o livro em minha mochila e sai para a calçada. Não me passou despercebido que o carro de Christian estava parado no estacionamento, e isso me alegrou. Entrei no prédio pensando que encontraria Lisange ali, mas não a vi em nenhuma parte. Procurei por Christian, mesmo estando certa de onde poderia encontrá-lo. Encaminhei-me para o piso acima. Com efeito, tal e qual eu pensava, ele estava lá, mas não lia nada. Estava apoiado contra as prateleiras e contemplava, com os braços cruzados sobre o peito, a escada por onde eu acabava de aparecer. Olhoume e levantou o canto de sua boca em um suave sorriso.

67 — Estou surpreso, não esperava que o enfrentasse tão cedo. — Se estou aqui é por que não é assim. — disse. — E recorre de novo a mim? Para que tire sua patética vida? — ironizou. — Você sempre é tão agradável? — provoquei. — Não. — colocou–se repentinamente sério. — Só com você. Olhei-o confusa. “Estava sendo agradável?” — Porque veio aqui? — perguntou-me. — A verdade é que eu não sei. — gaguejei, e ele voltou a sorrir. — E você? — Tem feito pesquisas para saber se já tem uma resposta? Neguei com a cabeça e ele estalou com a língua. — Só por que me nego a te prometer um final indolor? — riu. — Tinha entendido que você estava firmemente convencida a abandonar este mundo. Aproximei-me um pouco dele e deixei minha mochila sobre um banquinho próximo. — Não é um desses sádicos, certo? Ele riu. — Com quem acredita estar falando? Fiquei em silencio e ele aproximou-se de mim com os olhos apertados. — Não esta voltando atrás por esse pequeno inconveniente, certo? — Já tenho passado pelo suficiente. Não acha? — Pergunte para as pessoas que vivem jogadas na rua, aos doentes..., eles te responderão. Claro que, o que é que você tem em comparação com sua pequena miséria diária? — disse com um sorriso ainda mais aparente. — Não é o mesmo.

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— Com certeza que não. — afastou-se de mim e sentou-se com elegância no chão. — Acreditava que ambos tirávamos proveito desse trato. — reprovei-lhe com o tom mais duro que fui capas de colocar. — E é assim. — Você se comporta como se preferisse deixar correr. — Meu interesse continua sendo o mesmo, mas será muito mais divertido se você se arrependesse. — reconheceu com um sorriso macabro. — Em tal caso não haveria trato. — E teria que te matar sem seu consentimento; que grande tragédia! — sorriu entre dentes. — Você falou de uma condição. — lembrei prontamente. — Quando se ofereceu em ajudar-me, disse que me contaria quando chegasse o momento. Qual é? Avaliou durante uns segundos, a resolução em minhas palavras. — Quero que antes você se converta em uma autentica caçadora. — anunciou com voz grave. — Não cumprirei com minha parte antes que tenha você tenha se transformado e alimentado. — Não penso em fazer isso. — São minhas regras. Não vou tentar te persuadir e você tampouco convencerá a mim. Então escolha. Neguei com a cabeça. — Eu devia ter ouvido Lisange. — sussurrei dando meia volta para sair dali. — O que quer que fosse, estava certo. Escutá-la soa como uma boa idéia. Desci os primeiros degraus da escada e ele colocou-se de pé.

69 — Você se vai unicamente por que ouviu algo que não lhe agrada? — disse do fundo da sala. — Se está aqui é por que procura exatamente o que eu posso te oferecer. Parei. — Em que? Uma morte segura? — Respostas. Eu não sou como os De Cote. Não te direi o que quer ouvir. Nenhum deles te falará com a sinceridade com que eu posso fazê-lo. — Por quê? — perguntei voltando-me para ele. — Porque eles querem que você ame este mundo. — afirmou, avançando lentamente até mim. — E o certo é que em nosso “mundo” não há nada digno de ser amado. Fiquei em siêencio. Ele estendeu-me uma mão. — Sente-se comigo e conversaremos, senão volte para Lisange e finja que superou todo esse assunto. Olhei por um segundo para a escada, em seguida para ele. — Alguém poderia nos ouvir. — Eu duvido, faz anos que ninguém sobe aqui em cima. Hesitei. Ele não se moveu nem um centímetro enquanto eu meditava. Era o eu que queria; a verdade sem subterfúgios. — Você já sabia que estava morta. Por quê? Coloquei um pé no degrau superior. Retirou sua mão, mas seu rosto ficou tenso. — Não é difícil de adivinhar. O que eu não sabia era que você não sabia. Fui para seu lado e sentei no chão. Ele me imitou em instante depois. Tinha aspecto cansado. — O que quer saber? — perguntou sem vestígio de seu sorriso malicioso.

70 — Tudo. — eu disse. — É uma palavra muito grande... — Eu sei. — Formule uma pergunta, por favor. Esticou levemente as costas e desabotoou um pouco a camisa. Por um momento, enquanto eu contemplava esse pequeno bocado de seu peito descoberto, esqueci o que eu fazia ali. Abaixei a cabeça envergonhada. — E então? — chamou-me — O que eu sou? — perguntei, olhando para as pontas do meu sapato. — Caçadora. — Isso eu já sei. — reconheci bufando. Ele pensou por um instante. — Dos três, você é a espécie mais numerosa, ainda que no escalão social encontre-os abaixo dos Guardiões. Seguido apenas pelos humanos e os cachorros. Revirei os olhos. — E quanto a você? — quis saber. — O que você acha que sou? — olhou-me com atenção. — Seu coração bate; disso eu tenho certeza. — mordi os lábios. — Então não é como eu, nem como os De Cote. — Isso é bom ou ruim? — Se pode me matar, você deve ser um Guardião. — arrisquei. — O que te faz pensar que um Grande Predador não o poderia? — Que se alimentam de humanos. — respondi encolhendo os ombros. Levantou uma sobrancelha de forma divertida.

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— E isso significa que não matam? — aproximou sua cabeça até mim. — Me responda uma pergunta: Quem são os Grandes Predadores da cadeia alimentar animal? — Os humanos. — respondi sem pestanejar. — E eles não caçam por diversão? — Sim... — murmurei um pouco aturdida. — Então me diga. Acredita de verdade que um Grande Predador não o faria? Continuamos nos olhando fixamente, sem pestanejar. — Você é um deles? — sussurrei com um fio de voz. Ele voltou a lançar as costas para trás, apoiando-se contra a estante. — Eu sou. Se você quer correr como fazem todos, este é seu momento. — acrescentou com voz aborrecida. — Sabe que não vou fazê-lo. — Sim, suponho que sei. — respondeu soltando um risinho. — Lisange disse que vocês gostam de nos machucar. — Ela te disse isso? — riu. — Todos nós temos nossa forma de nos divertir. Decidi ignorar este comentário. — O que havia esta noite no estacionamento? Era um Guardião? — Era sim. Segui-se um intenso silencio. Resolvi retomar o fio da conversa. — Então tudo o que tem me contado te coloca em... — Os Grandes Predadores encontram-se lá em cima, sim. — E imagino que isso é ruim.

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— Ruim para vocês, com certeza. — sorriu. — Serei sincero, não os temos em muita consideração. Somos mais privilegiados; os Guardiões, em troca, são os que tem poder, por assim dizer. — Nós o que temos então? Seu sorriso congelou-se por uma fração de segundos e logo desapareceu. — A janela de um coração que não bate. — sentenciou. — Não entendo. Fechou os olhos e respirou muito lentamente. — O coração de um Grande Predador e de um Guardião bate, e cada batida bombeia dor. — seu rosto endureceu igual seu tom de voz. — Nós nunca encontramos a paz, por isso sua espécie é tão castigada. Vocês são uma raça muito invejada. Isso me levou a pergunta seguinte. — Quem decide em que se converte? — Isso é muito complicado. Ninguém chegou a verdade absoluta sobre o que é que influencia em uma coisa ou em outra, já que nem todo mundo morre nas mesmas circunstancias. — fez uma pausa. — No que ficamos aqui, somos, para dizer de alguma maneira, e que não descansamos em paz. Desde logo, existem elementos indispensáveis, como por exemplo, que todos experimentam, antes de falecer, arrependimento, vingança ou dor de forma muito intensa. — Então, se morre sentindo algum desses desejos..., acaba aqui? — Não é tão fácil, como te disse influi muitos outros fatores e esse sentimento deve ter se desenrolado ao longo dos anos, mas supõe-se que não podem ser pessoas extraviadas ou cruéis. Se alguém excessivamente torturado se converte nisso, seria um grave perigo para nosso mundo por isso existe um controle para nossa criação: os Caçadores são os mais numerosos por que fazem falta para manter um equilíbrio neutro entre as espécies restantes, e quanto aos Guardiões, só nasce um cada vez que morre outro. — E nós?

73 — Não há controle. Nossa natureza é seletiva. Os Grandes Predadores acreditam em novos Grandes Predadores, os marcam em vida e quando morrem os convertem. Os que não são suficientemente... — hesitou. — Fortes para sobreviver nesta nova vida, morrem antes de cumprir o ano. Deste modo só ficam os melhores. — Os melhores... — repeti para mim mesma. — E como os escolhe? — De todas as formas que podemos impor, a única que na realidade cumprimos é a de não marcar pessoas que suporíamos ser um risco para nossa integridade. Tendo isso em conta, o resto consiste tão somente no que procuramos no momento. Era muita informação, mas precisava saber para poder entender algo. Mordi o lábio, perguntando-me se devia ou não formular a pergunta seguinte. — Como se mata a um Caçador? — perguntei por fim. Ele lançou a cabeça para trás sorrindo. — Não posso responder a isso. — Disse que poderia resolver todas minhas duvidas. — recordei-lhe. — E assim é, mas uma das condições de nosso trato é que você não saiba como vou fazê-lo. — Só queria ter uma idéia. — fiz uma pausa esperando resposta, mas como não reagia, concordei. — E a um Grande Predador? — Tem especial interesse em acabar comigo, Lena? — levantou uma sobrancelha. Fechou os olhos por um momento, concentrado em algo. — Lisange estará te procurando. — disse, abrindo-os de novo. — Será melhor que vá a sua procura. — Você também tem habilidades extra-sensoriais? Colocou-se de pé. — Além de algumas outras que algum dia eu te contarei, mas não tem nada a ver com isto, não é muito difícil de predizer. Vamos. Parei. Como assim “vamos”?

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— Levarei você de volta para casa. — Afirmou como resposta aos meus pensamentos. Levantei sem jeito e virei para pegar a mochila que havia deixada sobre o banco. — Não acho que isso seja uma boa idéia. Tenho que esperar por Lisange. — Ela não vai voltar aqui. — Como você sabe? — Porque se mostra tão desconfiada? Agora tem medo? — Não. — Então, vamos. Nós nos transformamos no centro das atenções de toda e cada uma das pessoas que estavam ali. Ouvi cochichos, gente se apertava do nosso lado para, suponho, dar lugar a Christian. Saímos de novo para a rua. Tentei procurar Lisange por cima das cabeças de todas as pessoas, mas não encontrei nem rastro dela. Em troca, no centro do estacionamento, mostrando-se como um pavão real em pleno trabalho de cortejo, resplandecia o sol refletido sobre a polida carroceria de seu carro novo. Varias pessoas aglomeravam-se ao redor dele, em especial os jovens rapazes. Mas quando nos viram, não demoraram nem dois segundos para afastarem-se assustados. Comecei a brincar com a alça da mochila inconscientemente quando o vi cada vez mais nervosa conforme íamos nos aproximando. Perturbava-me muito a idéia de estar fechada em um lugar “pequeno” com ele, quem sabe por que era perigoso, ou por que em meu subconsciente ainda perturbava essa típica frase maternal que te adverte: “não deve subir no carro de nenhum desconhecido”, porque, no final das contas, não sabia nada dele. Nada me assegurava de que fosse me levar para casa, talvez seu destino fosse um descampado ou um beco escuro. Estava brincando com fogo, estava consciente, mas por alguma inexplicável razão, não me importava. Não sei que tipo de força estranha me empurrou entrar, talvez a esperança de que tivesse a escura intenção de colocar fim a todo meu sofrimento. Fechou minha porta e sentou-se em frente ao volante. Remexi-me incomodada, tinha-lhe tão próximo... deu agilmente marcha a ré e saiu do estacionamento, deixando aos rapazes de antes, maravilhados com o potente som do motor. — Na outra noite você deixou algo.

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Sem diminuir a marcha, inclinou-se sobre mim para abrir o porta-luvas, segurando o volante com apenas uma mão. Tirou minha jaqueta, dobrada cuidadosamente e colocou-a em meu colo. — Obrigada. — murmurei com um fio de voz. Fez um gesto com a cabeça em modo de concordância. Aclarei a voz com dissimulação e abri a mochila para guardá-la dentro. — O que é isso? — perguntou prontamente. — O que é isso o que? — disse surpresa de que existisse alguma coisa interessante entre minhas coisas. — Este livro. — esticou um braço e afastou a manga da jaqueta que escondia o titulo do volume de capas desgastadas que havia guardado esta manhã. — Romeu e Julieta. — leu franzindo a testa. — Não é meu. — apressei-me em dizer, incomodada. Ele voltou a concentrar-se na estrada. — Eu sei. Isso me deslocou completamente. — Imagino que seja de Lisange. — Como... — Aqui todos nós nos conhecemos muito bem. — fez uma breve pausa apertando com força os dentes, que marcaram os músculos de sua mandíbula. — Ela voltou a ler? — Suponho que sim, esta manhã, mas, qual o problema... — Faz-lhe mal. — interrompeu-me. — Porque Christian Dubois, o Grande Predador, se preocupa com Lisange? Por acaso isso te importa? — É complicado.

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— Por quê? Por que este livro é tão importante?

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Dia de montaria.

Novamente, o dia estava cinzento. Não havia nenhum sinal do sol há alguns dias, então as pessoas voltaram a usar seus casacos e cachecóis. Eu circulava entre eles, fora de todas essas mudanças de temperatura. Ver os habitantes Da Cidade passando por meu lado era muito estranho. Eu me senti estranha. Eu nunca poderia voltar a ser parte deste mundo. Agora eles sabiam de uma parte mais importante do mistério que tentou destruir os humanos. E já havia passado por aquilo que muitos temem e eles transitavam ao meu lado ignorando que eu tenha essa resposta, sabendo que eu tinha que responder. É difícil saber um grande segredo e não ser capaz de compartilhar, mas para mim não é assim tão complicado. Não é visto como tal, desde que eu poderia falar sobre isso com as pessoas que eu conhecia. Não havia nenhum perigo especial se me escapa por erro, porque não me relaciono com ser humano e não planejo abordar a primeira pessoa e sussurrar a verdade no ouvido, né? Além disso, existem regras em todas as partes, e guardar esse conhecimento foi um dos principais do meu novo estilo de vida. Certamente, ter gritado aos quatro ventos teria me matado instantaneamente, mas não colocaria em perigo só a mim, mas todos os não-vivos em geral. Se realmente queria acabar com tudo, devia procurar um plano B. A oferta de Christian seguia sem me dar muitas garantias, e eu tinha medo de que o nosso pacto terminasse em um show ou em um jogo, especialmente depois que Lisange o tinha visto. Na pior das hipóteses, eu sabia que essa possibilidade existia, mas devia encontrar alguma outra. Um par de veículos passou por mim sem esforço. Quando cheguei ao cruzamento, um carro veio a uma velocidade considerável e parou perto de mim, bloqueando a passagem, eu quase cai sobre o capô bege. Ouvi freadas atrás de mim em protesto. — Lena! — Lisange saiu do veículo.

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— O que você está fazendo aqui? — lhe perguntei, confusa. — Entra, vamos. Olhei para ela sem entender. Ela levava a bicicleta no porta-malas, assim que a obedeci. Eu não tinha alternativa, com todos os motoristas irritados esperando atrás. Lisange não tinha comentado nada do que havia visto comigo a nenhum dos De Cote, pelo menos não na minha frente, e parecia que tinha esquecido, igual a busca de seu apreciado livro, a qual não me vi obrigada a dizer-lhe que o tinha bem escondido. Esperei um pouco impaciente que ela voltasse a sentar atrás do volante. — Aconteceu alguma coisa? — perguntei quando se sentou ao meu lado. Ela me olhou confusa. — Ah! Não, não, eu só vim para te buscar. — Eu? Para quê? — Queria propor uma atividade. — E por isso você cortou o tráfego? — dei um pequeno sorriso. — Esta cidade não é ruim para alguma ação de vez enquanto... — alegou com uma falsa seriedade. — O que é que você tem para me dizer? Ela colocou o carro de novo para andar. — Nós nos esquecemos de comentar que me acostumei a ir a um clube de equitação nas proximidades. — Não sei montar. — hesitei. — Ou isso eu creio. De jeito nenhum poderia ter adivinhado que se tratava de algo assim. Busquei em minha mente alguma referência sobre o assunto, mas não encontrei nada de nada.

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— Isso nós vamos descobrir quando chegarmos lá. Você gostaria de vir? — É uma espécie de tradição familiar ou algo assim? — Pode ser, é algo que nós amamos. Mas você está na era da internet e esse tipo de coisa; então não sei se... — Na verdade, eu não acho que seja uma boa idéia. — reconheci. — Eu não estou com disposição para montar em um animal, não quero ser um fardo. Eu preferiria que passassem bem sem mim. — Eu acho que te faria muito bem, se você conseguisse distrair-se um pouco. Você experimenta e se não gostar, não vamos forçá-la a ficar, eu prometo. Suspirei, tinha razão. Estava disposta a qualquer coisa contanto que mantivesse minha mente longe de lidar com esse grande predador. — Tudo bem. — concordei. — Eu vou tentar. Deu um aplauso emocionado. — Ótimo! Pena que ainda nos restam alguns dias, uma vez que começar a fazer mais calor terá de sair. Mas no inverno voltaremos. Você vai ver Lena, é precioso. Dobrou uma esquina e desceu uma longa estrada reta, sem curvas. Não demorou mais do que cerca de dez minutos para chegar. Foi completamente longe da cidade, em campo aberto. O cheiro típico dos estábulos não tardou em chegar, mais intenso do que lembrava. Uma cerca longa de madeira, em estado de decomposição, separava a área de estacionamento do campo. Apoiados sobre ela esperavam Liam e Flávio. Ambos equipados para a ocasião com botas de cano alto, capacete preto e roupas leves. Liam, impecavelmente branco, de cima para baixo, e Flávio verde militar. Senti-me fora de sintonia, apesar de que toda a minha roupa, Lisange quem tinha escolhido, sentia que não conseguia fazer combinação: era impossível parecer tão elegante como eles, ou como Lisange. Liam me cumprimentou com um grande sorriso quando me viu baixar, enquanto Flávio cumprimentou Lisange, que já saltou até a bagageira do carro para pegar suas coisas. — Que surpresa, Lena! — Flávio me disse: — Estou feliz que você veio.

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— Esqueceu-se completamente de dizer esta manhã. — Lisange veio para o nosso lado com um capacete debaixo do braço e colocando um par de luvas de montaria. — Felizmente eu a achei no caminho para cá. — Você gosta de cavalos? — Liam me perguntou. — Eu não sei. — reconheci — Acho que eu não tentei isso antes. — Você pode ir vendo os estábulos. — Lisange me puxava pela a mão, quase correndo para o interior do estabelecimento. Quando entrei tinha certeza de que minha primeira impressão foi equivocada. Não era velho, nem estava quase abandonado, como tinha pensado depois de ver cercas de madeira podre. O interior parecia um daqueles clubes exclusivos que só pode ser visto na tela da televisão ou nas fotos em alguma revista, e estava quase deserta. Lisange me conduziu com mais calma agora, no extremo mais longe, onde havia uma escrivaninha de mogno pequena na frente de um grande mostruário de equipamento eqüestre. — Senhorita De Cote, sempre um prazer recebê-la. — um homem alto, magro, de barba e longo nariz pontudo; fez uma reverência solene com a cabeça quando viu Lisange entrar. Então, ele ergueu as sobrancelhas quase unindo com o nascimento de seus cabelos e olhou para mim. — Um novo membro na família? — Renoir; apresento-lhe á Lena De Cote. Ele me fez a mesma reverência e me examinou com cuidado, obviamente, tentando descobrir onde era a semelhança. Era óbvio que não encontrou em nenhuma parte. — Em que posso servir as senhoras? — É a primeira vez que Lena vem, necessitará de todos os equipamentos . Dei uma olhada na etiqueta de algumas luvas que estavam na escrivaninha, o preço quase me fez desmaiar. — Lisange, a verdade é que eu não preciso de tudo isso. As pessoas muitas vezes conseguem montar sem essas coisas.

82 Renoir soltou um pequeno bufo de indignação. — Não se preocupe com nada, Lena, considere um presente de boas vindas. — Você acha pouco um guarda-roupa inteiro que você comprou? — perguntei com os dentes cerrados. — Isso não foi nada. — disse ela gesticulando com a mão com desdém. De repente, algo tirou parte da minha visão. Olhei para cima. Lisange tinha colocado algo sobre a cabeça. — Muito grande. — disse ela para si mesma enquanto pegava outro. Eu renunciei. Um capacete novo caiu sobre meus olhos, mas me limitava muito a visão. — Perfeito! — exclamou. Eu não tentei imaginar que aspecto tinha com aquela coisa, me sentia muito ridícula. Enquanto Lisange virou-se para ir buscar as coisas, tirei da cabeça para examiná-lo de fora, era idêntico ao de Flávio. Alguém atrás de mim o arrancou das minhas mãos; era Renoir, que me olhava com muita raiva. Isso me fez sentir como se ele fosse um ser superior e eu só uma escoria. — Precisaremos de botas para montar. Ele parou de olhar para mim e foi até Lisange. — Qual o tamanho? Eu ia responder, mas ela se adiantou. ― 37. Ele se virou e caminhou em direção a uma estante atrás. — Como sabe meu número? — Levo séculos comprando roupas, acredite em mim, eu posso adivinhar o tamanho de qualquer pessoa. — admitiu com um encolher de ombros. Tinha lógica. O que esperava? O tinha medido enquanto eu estava inconsciente?

83 Renoir retornou com um grande pacote retangular e me entregou. Calcei as botas com algum esforço, mas para minha surpresa, eles se adaptaram muito bem em mim. — Está bom? — Lisange perguntou. — Sim... — Ótimo, já está pronta. Leve-as calçadas, Lena, assim economizaremos tempo. Dirigiu-se ao balcão e deixou as luvas pretas, com as suas, ao lado do casco. Eu mantive minhas sapatilhas na mochila que estava pendurada no ombro, atrasando tudo o que pude para não descobrir o preço total da compra. Eu tinha certeza que era uma grande soma de dinheiro, e eu me sentiria bem melhor sem saber o valor exato. Quando vi Lisange estender seu cartão de crédito, eu sabia que era o momento certo de me juntar a ela. Coloquei a compra no colo enquanto Renoir se desfazia em elogios para ela, e saiu pela porta. Eu a segui. — A senhorita De Cote não quer deixar seus pertences no armário? — me perguntou Renoir um pouco antes de sair pela porta. Eu olhei para fora, Lisange estava chegando a Liam e Flávio. Dei de ombros. — Sim, certo. Andei rapidamente em direção a ele e coloquei a mochila sobre o balcão. — A guardarei em seu armário. Viu a confusão refletida na minha cara, porque ele acrescentou com um tom monótono: — O armário dos De Cote, querida. — me mostrou um retângulo grande por trás do balcão, onde tinha o nome "De Cote", escrito com letras douradas em itálico. Cada família deve ter um, porque havia outros nomes ao redor: Bryar, Dylan, Lavisier, Andrews, Dubois... Dubois? Eu o vi deixar minhas coisas com cuidado na cavidade de mogno, em seguida, se virou para mim com um sorriso, agora muito mais pronunciado. — Espero que tenha um bom dia, senhorita De Cote. — Obrigada...

84 Eu não sei se eram suas características pontiagudas, de seu olhar de ave, seu tom de voz ainda mais afiado do que a expressão do seu rosto, mas aquele homem me dava arrepios. Sai rápido de lá, dando graças em sair ao ar livre novamente. Dez minutos mais tarde, ficou mais que demonstrado que os meus conhecimentos sobre equitação eram nulos. Tinham me escolhido um cavalo cor de caramelo que se supunha muito dócil, mas não me atendeu, foi onde ele queria e em um ritmo que ele marcava. — Aperte os joelhos. — indicou Liam de um lado, cavalgando sobre um belo exemplar Andaluz negro.4 — Deve saber que só você manda. — Eu não acho que jamais tive capacidade de liderança. — lhe disse lutando para que O Córdoba seguisse uma linha reta. Não importa o que eu fizesse, me senti estranha, muito estranha e ridícula. — Não tenha medo, se ver que está hesitando, você terá perdido a batalha. — Já estava perdida antes de começar. — ofeguei. Estava ficando nervosa. O cavalo movia-se inquieto debaixo de mim e também para aumentar o meu desespero, o capacete caia sobre os olhos a cada poucos minutos, limitando minha visão. Suspirei resignada, Tinha vontade de pegá-lo e jogar ladeira abaixo; o que eu queria naquele momento era sair do cavalo e ir para casa, onde, pelo menos, não me sinto tão terrivelmente inexperiente. Liam me olhava com um sorriso estranho, como se esse momento tivesse algo de íntimo. — Prepare-se. — avisou. Olhei para ele com olhos bem abertos. — O que vai fazer? — Eu vou ajudar. Segure bem as rédeas. Mal tive tempo de reagir, puxou um pequeno chicote debaixo do braço e tocou no traseiro do meu cavalo. O Córdoba e eu saímos voando em frente. Dei um grito de susto. Tentei me segurar como podia, com os joelhos bem apertados. Como era possível correr a essa velocidade?

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— Melhor? Liam já tinha me alcançado e andava ao meu lado com um sorriso maravilhoso nos lábios. Eu dei-lhe um olhar aterrorizado como única resposta e ele riu alegremente. — Já cavalgou como uma autentica amazona. — brincou. — Siga-me. Ele me ultrapassou tão elegantemente que eu poderia ter perdido o equilíbrio. A verdade é que, uma vez passada a primeira impressão, foi reconfortante atravessar os bosques e prados a este ritmo. Era como estar em um filme do Oeste. Segui Liam através de toda uma floresta de árvores, passando sob uma grama verde, tudo muito vivo. O sol brilhava através das folhas das copas conseguindo "flashes" de luz das fivelas de Liam. Fomos para uma planície onde, de longe, poderia ver o mar um pouco agitado. Na borda do bosque nos esperam Lisange e Flávio. — Estávamos prestes a voltar para ver o que tinha acontecido. — disse Flávio me ajudando a desmontar. —Não conseguia fazê-lo andar. — reconheci um pouco envergonhada, tentava não cambalear ao pisar em solo firme. — Ele me ajudou. — Liam sempre tão galã... — Como foi a experiência? — Lisange perguntou unindo-se a Flávio. — Foi... — eu tentei encontrar a palavra certa. — Intenso. Sorri para mostrar a minha felicidade. Havia conseguido me sentir melhor por alguns minutos, e inclusive nesse momento a causa era a emoção do trajeto. Olhei em volta. — Vamos! — exclamei. O sol começou a cair refletindo na superfície do mar, milhares de brilhantes cintilavam ao serem regados pelos últimos raios de luz. Por um momento, nós quatro ficamos em silêncio assistindo o show maravilhoso que nos deu a natureza.

86 — Cento e cinco anos; e eu ainda pareço um prodígio. — Liam sussurrou ao meu lado. — É lindo. — admiti. — Tudo: A floresta, os cavalos, o mar... Flávio parecia ser o primeiro a sair do transe. Ele montou a cavalo novamente e acrescentou: — Gravem na mente, pois não temos muito tempo este ano para apreciar todas essas maravilhas. Lisange aproximou-se dele. — Mas a posição da cabana também não é tão ruim. — aponta ela. — Eu amo esse lugar. — De que lugar você fala? — perguntei. — Da casa da montanha. — esclareceu ela. — Não muito longe daqui, mas é um lugar alto o suficiente para que haja neve. Você gostará. — abriu muito seus olhos. — Isso me faz lembrar que devemos começar a preparar tudo. — O quê? — As coisas para ir. — respondeu Flávio. — Passaremos o verão lá, e em setembro, retornaremos. — Mas ainda há algum tempo. — assinalei. — Sim, sim, mas como o calor está mais escaldante do que o normal, nós pensamos em ir para lá, alguns dias, e assim nós vamos organizando tudo. — explicou Lisange. Senti um nó no estômago. — Uma corrida? — Flávio fez uma proposta rapidamente. — É uma ótima idéia, monsieur. — felicitou Lisange com um grande sorriso enquanto voltava e montava no seu cavalo. — O que você acha Lena? Eu? Definitivamente não.

87 — Creio que prefiro dar uma volta, acho que vou até lá embaixo com a bicicleta. — Posso ficar com você se quiser. — assegurou. — Não, Lisange, sério, nós nos veremos em casa logo. Ela avaliou um momento minha expressão. — Ok; então vamos. — disse Flávio apontando o caminho para a corrida. Lisange e Liam o seguiram. Eu fiquei parada ali um momento, tinha visto algo, ou alguém nos observando com muito cuidado por entre as folhas, mas estava muito longe para distinguir quem era. — Lena? — Lisange voltou para me buscar. — Você tem certeza que está tudo bem? — Sim... — eu olhei para longe por um momento, mas quando olhei novamente, o rosto já não estava mais. Balancei a cabeça, com certeza tinha imaginado, então prestei atenção de novo em Lisange. — Ficarei bem, mas acho que você vai perder uma corrida. Ela esticou muito a coluna sobre seu cavalo e disse em uma voz solene: — Ah! Ainda não chegou o dia em que um De Cote me vença em campo aberto. — Então, corra! — exclamei. Sorriu pela ultima vez e desapareceu entre as árvores. Deixei O Córdoba no celeiro antes de voltar para buscar as minhas coisas. Senti um ligeiro alívio. A experiência foi incrível, mas os cavalos não eram a minha. — Desfrutou do dia, senhorita De Cote? — perguntou Renoir quando eu voltei para buscar minhas coisas. — Sim, foi bom. — admiti. — Não tínhamos nos visto antes, tem muito tempo que chegou a cidade? — Não, só há algumas semanas.

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— Que interessante! — disse me olhando com os olhos muito abertos, piscou duas vezes e entregou minha mochila. — Espero vê-la novamente por aqui, senhorita. Por que de repente se mostrava tão amável comigo? Dei de ombros, talvez se devesse a grande soma de dinheiro que Lisange acabara de deixar-lhe por minha causa. Livrei-me das botas, luvas e capacete horrível e guardei tudo no armário. Peguei a bicicleta e sai de lá. Poucos minutos depois cheguei ao lugar que tinha visto do clube. Era uma área deserta, tanto de pessoas como de edifícios ou automóveis. Um pequeno penhasco para o mar. Era bastante íngreme, que supus, era seu aspecto mais selvagem, mas não devia ser superior a uns 15 metros de altura, e a vista era esplêndida. Sentei em uma pedra, a mais lisa que achei na borda, com toda a imensidão do oceano diante dos meus olhos. Era tão insignificante comparada com essa maravilha da natureza... Assim eu me sentia, muito pequena comparada a tudo ao meu redor. Tudo me superava, e eu não era capaz de compreender nada. A brisa forte do horizonte virou meu cabelo e o fez chocar contra meu rosto, o salitre5 inundou meu cérebro e me embriagou com um ligeiro sentimento de bem estar. Essa particular fragrância compensava o fato de que não podia sentir o frescor da brisa em minha pele. Minha mente trabalhava horas extras tentando encontrar uma explicação decente e satisfatória para descobrir o que eu fazia naquele lugar. Havia passado quase um mês desde que havia acordado sendo o que era agora, e nada parecia ter mudado, eu não estava me adaptando, mas sim me obstinava cada vez mais em negar tudo e fugir, mas sendo sincera comigo mesma, para onde poderia ir? Pelo menos me tratavam bem, não conseguia nem pensar o que teria sido de mim, se não fosse assim. Imaginei-me sozinha e perdida no meio do nada e estremeci. Devia dar graças, no afinal das contas, por não estar desamparada nesse novo mundo. Nem tudo estava perdido, é claro, continuava existindo o meu pacto secreto com Christian Dubois. Ainda que por algum motivo, não era capaz de dar uma resposta: Quem sabe a opinião de Lisange me influenciara mais do que eu pensava, e eu não confiava nele, sua súbita mudança de mentalidade era muito estranho

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Salitre - nome popular para alguns tipos de sais

89 para acreditar. Nada me garantia que iria cumprir a sua parte do acordo, apenas a sua palavra, e como Lisange disse, não vale muito. Se os Grandes Predadores eram sádicos, e ele tinha afirmado que não poderia garantir uma morte sem dor, é porque certamente não faria da maneira que eu queria. Talvez só estivesse buscando uma vítima para divertir-se matando. Meu corpo enrijeceu. Um esquisito aroma misturado com a brisa do mar colocou os meus sentidos em alerta. Senti a sua presença, mesmo antes que pudesse relacionar essa fragrância com seu nome. Olhei em sua direção. O vento bagunçava seus cabelos, como o meu, afastando do seu rosto e deixando sua testa livre. Ali reluziam aqueles impenetráveis olhos negros que tanto lhe caracterizavam e que, por algum motivo desconhecido, eu gostava. Sua pele branca como a neve brilhava à luz do sol, assim como uma folha de papel em branco, causando danos a vista, como uma concha branca na areia que devolve a luz do sol. Sentou-se ao meu lado, com os braços apoiados sobre os joelhos e as mãos juntas. Ele olhou para o horizonte por alguns segundos e depois para mim. — O que você estava pensando? — ele perguntou, sem nem dizer Olá. Hesitei um momento, ainda não tinha esquecido o que tinha visto com Lisange. — Na morte. — eu respondi. Não parecia surpreso. — Um assunto muito complicado para estas horas. O céu começou a mudar seus tons azuis por outros vermelhos e o sol era agora mais laranja e redondo. A superfície da água refletia o espetáculo das nuvens. Por que não estou com medo de vê-lo, de tê-lo tão perto de mim? Provavelmente porque o meu instinto de sobrevivência sucumbiu ao poder do seu olhar. — Levo tempo tentando adivinhar por que á mim. — Isso é algo que todos nos perguntamos. — respondeu, rindo entre dentes. Voltei a concentrar-me no mar, pequenos estouros de espuma povoavam a superfície agitada pelo vento. — Gostaria de saber como isso aconteceu.

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Ele também voltou sua atenção para o oceano. — É compreensível. — Você sabe o que aconteceu com você? Assentiu lentamente com a cabeça, com o rosto sério. — O que aconteceu? — eu quis saber, inclinando a cabeça para ele. — Essa é uma pergunta muito pessoal. — Não vai me responder? — perguntei. — Não. Foi um "não" redondo e cortante. Desviei o olhar, envergonhada. — Desculpe. — Não lamente, mas não vai sair por aí perguntando às pessoas como morreu, não é bem visto. Ficamos em silencio. — Você acha que existe o céu? — Nós existimos então tudo é possível. Ninguém nunca pensou na possibilidade de que pessoas tornam-se isso quando morrem. — inclinou-se ligeiramente para trás com um sorriso amargo. — Mas, se existe, é claro que eu nunca irei lá. Sorri tristemente. Ele concentrou-se de novo no horizonte. As últimas luzes davam um novo brilho em seus olhos. Pegou uma pedra do chão e virou-a distraidamente entre os dedos. Observei-o de forma involuntária. — Você tem belas mãos. — sussurrei, e imediatamente depois abaixei a cabeça constrangida, mas ele sorriu tristemente, olhando para longe. — Que são capazes de esmagar o crânio de um homem com pouco esforço ou consumir uma vida mais rápido do que fogo.

91 — Isso significa que a beleza tem seu preço. — Este? — perguntou com uma voz abafada. — Suponho que não compensa. — suspirei. Ele sorriu para mim. — Eu concordo, há algo mórbido em tudo o que rodeia a morte. Esses pobres infelizes falam dela de uma maneira poética, inclusive brindam-lhe ou a perseguem, o que é incoerente e estúpido! — Você acha que é justa? Concentrou-se na pedra ainda rolando entre os dedos. — Não sou ninguém para julgá-la. Eu tenho o que mereço, mas não é assim em muitos casos, há pessoas boas que deveriam viver muito mais tempo. — E, em troca, parece que os ruins são os que mais vivem. Olhou-me com interesse renovado. — Não concordo com isso. Eu era muito jovem quando me ocorreu. — ele fez uma pausa enquanto curvava os cantos dos lábios em um sorriso. — Será que isso cai por terra a sua teoria? — Na realidade não, porque te ocorreu jovem, mas agora você tem toda a eternidade pela frente, o que prova que os maus são ossos duros de roer. Sua expressão era uma mistura muito estranha de diversão e ansiedade. Eu estava imaginando ou ele estava baixando as defesas? — Então você acha que eu sou mau... — Eu só continuei o exemplo que você colocou. — Me parece pouco cortes nomear você como um exemplo. Endureci o tom. — Eu não sou. Ressaltou o seu sorriso. — Não, claro que não, só estava tentando brincar.

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Ergui uma sobrancelha. Esse verbo não era o primeiro que eu poderia pensar para associar a ele. — Na outra noite eu te vi, atacando a um caçador. – soltei repentinamente. — Eu estou ciente disso. — me remexi inquieta. — Você pensou que eu ia negar? — Perguntou. Olhei para a pedra que ainda rolava em suas mãos. — Não, só que não imaginava que fosse admitir, sem mais. Sempre faz o mesmo e isso me deixa desconcertada. — Acho que neste tempo todo eu deixei claro o que eu sou, não tem sentido me contradizer agora. Basicamente, ele estava certo. — O que aconteceu com ele? — Se o que você quer saber é se o matamos, ― disse adivinhando meus pensamentos. — Pode ficar tranquila, não é algo que fazemos muitas vezes. Odiamos o silêncio que ocorre quando nós terminamos com alguém. — observou a pedra por um momento. — Hernan o soltará em um par de dias. O olhei com atenção. — Você está tentando me assustar? — Não. —- sorriu para si mesmo. — Eu sei os métodos mais eficazes para conseguir isso. Pegou uma pedra e a lançou com força do penhasco, para as profundezas do mar. — O que você está pensando agora? — perguntou, virando-se para mim. — Nada. — menti. Olhou para o movimento das minhas mãos.

93 — Não é que eu me importe, mas muitas pessoas temem que esta erva que você está arrancando, cresça. Não estava consciente que tinha arrancado os pequenos brotos de capim, enquanto pensava. Quando vi, os deixei de lado imediatamente para evitar um estrago ainda maior. Suspirei. — O que está fazendo aqui? — esperava que não tivesse vindo à procura de uma nova vítima para torturar, especialmente porque não havia mais ninguém por perto. — Te vi passar e temia que quisesse se jogar do penhasco. Pensei que ele estava brincando, mas seu tom era sério. — Você acha que eu me jogaria, mesmo sabendo que seria inútil? Franziu a testa e duvidei. — Haveria servido de algo? — sussurrei. — Só se o que pretende é molhar-se até os ossos, mas não creio que teria sido essa a sua intenção. — N~o pretendia isso. ― reconheci; surpresa de que não havia me ocorrido essa idéia. — Só queria pensar. Inclinou-se ligeiramente para trás. — Bem, não me agradaria te buscar lá em baixo. — eu me virei para ele, não sabia como digerir essas palavras. — Sua morte é minha, Lena. Preciso ter certeza de que ninguém me adiante. Meu corpo enrijeceu. — Ainda n~o aceitei o seu trato. ― lhe lembrei com a voz grave. — Esperarei. O céu adquiriu uns tons de magenta 6, frisado por uma vasta gama de azul escuro. O sol tinha quase abandonado completamente o horizonte. 6

Magenta é uma cor-pigmento primária e cor-luz secundária, resultado da mistura das luzes azul e vermelha. Sua cor complementar é o verde.

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— É hora de você voltar. Assenti lentamente. Estendeu a mão para me ajudar a levantar, mas eu recusei. O gesto, o que me surpreendeu, mas não queria que me visse como uma verdadeira inútil, que só pensava em lançar-se por precipícios. Quando voltamos para a estrada, vi o seu novo carro estacionado ao lado da minha bicicleta. A verdade é que, ao lado do seu, o meu meio de transporte parecia uma disfarçada bicicletinha infantil. — Não entendo porque você anda “nisso”. — disse ele. — Não te compraram um carro? — Não quero dirigir, acho que seria um perigo para a população. — murmurei. — Absurdo. — sussurrou para si mesmo. Destravou o alarme de segurança e abriu a porta para mim. — Voltarei por conta própria, obrigada. — disse com uma voz dura. — Entra, levarei essa coisa no porta-malas. — Não... — me ofendi pela forma como ele se referiu ao meu pobre veiculo. — Prefiro ir pedalando. Fui até a bicicleta e subi. Ele parecia um pouco irritado. — Te seguirei; para o caso de você mudar de opinião. — Não vou fazer isso. — gritei enquanto me afastava. Ele entrou no carro e ligou o motor. A pista estava vazia, por isso reduzi a velocidade tudo o que podia com a intenção de que desistisse e me deixasse voltar sozinha para casa, mas aparentemente não funcionou. Olhei para trás e o vi com o cotovelo encostado na janela com o vidro para baixo, muito atento a cada movimento meu. Quando me viu virar para ele, apontou com um dedo a estrada, me advertindo que voltasse a olhar para frente outra vez. Revirei os olhos e sacudi a cabeça levemente. Não deveria ter feito um trato com este predador.

95 Cheguei a casa sem problemas, estacionei perto da porta e me virei para Christian. Ele me olhava encostado no capô. — Não me perdi. — joguei em sua cara, me aproximando dele. — E tampouco uma matilha de lobos selvagens me atacou. — Isso é bom ou ruim? — Depende para quem. Dei meia volta sem dizer adeus e voltei para casa.

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Caçador caçado.

Eu entrei em meu quarto, precisava distrair-me de alguma forma. Senteime na cama e peguei o livro que repousava sobre minha cabeceira, Liam o tinha me recomendado há algumas semanas atrás, mas com todo o trabalho extra que Flávio tinha me colocado, não houve tempo de ler três ou quatro capítulos. Isso parecia uma boa hora para voltar a ler, então eu abri e comecei a ler. Tive dificuldade em concentrar-me, sempre sentia a mesma coisa depois de ver Christian; era como se meu cérebro desligasse antes sem que eu pudesse fazer nada sobre isso, e odiava que isso acontecesse. Impedia-me de pensar, raciocinar e até mesmo dormir em muitas ocasiões. Uma batida devolveu-me bruscamente à realidade. Levantei a vista para a entrada, alguém tinha chamado. Um segundo depois, o rosto preocupado de Lisange apareceu atrás da minha porta. — Posso entrar? — perguntou. Sua voz tinha um tom sombrio, que não gostei nem um pouco, algo devia estar errado. — Claro. — fechei o livro sobre as minhas pernas cruzadas, mais uma vez não consegui avançar uma única página. — Aconteceu alguma coisa? — É por isso que eu vim. Ajeitei-me na cama. — O que você quer dizer? — Diga-me você, Lena... Olhei para ela sem adivinhar o que ela queria dizer. — Eu os vi no penhasco. — disse calmamente. — Já sabe o que quero dizer, não há necessidade de entrar em detalhes. Seus olhos exalavam uma mistura incompreensível de emoções. Raiva? Surpresa? Medo? Dor? Então, me lembrei que eles não estavam cientes que eu

98 mantinha contacto com um grande predador. Aparentemente, ela tinha acabado de se dar conta e, é claro, não aprovava. — Eu o conheci por acidente. — confessei com uma voz inocente. — Mas ele veio aqui, eu vi o carro. Aproximou-se de minha janela e lançou um rápido olhar para o exterior, verificando se ele já tinha ido. — Sim, ele insistiu em seguir-me. — Por quê? Devia dizer a verdade antes que comecem a pensar coisas estranhas dele. — Só queria ter certeza de que eu chegaria bem. Aqui estava, acabava de dizer. Se houve algo que ficou claro, era que Lisange não era tão tonta assim, como se imaginava, captou perfeitamente o que implicava essas palavras. Voltou sua atenção para as cortinas e se dirigiu para mim. Devo dizer que nunca me intimidou, nunca tinha visto Lisange dessa maneira, com os olhos saindo de suas orbitas. Pegou um ar e me perguntou: — Desde quando você o está vendo? Senti uma grande pressão; estava encurralada. — Por algum tempo, mas eu não o vi mais de quatro vezes. — corri para adicionar. Cruzou os braços e olhou para longe, tentando se acalmar. Parecia estar fazendo um grande esforço para controlar-se, o que me assustou mais ainda. Aguardei alguns segundos, ela falou novamente. — Lena, eu te disse que era muito perigoso, te adverti para o seu próprio bem, que você não se aproximasse dele. Preciso que você me diga o que está acontecendo. — pronunciou ainda tentando moderar seus nervos. Como eu poderia dizer o que tinha feito exatamente? Por isso, dei de ombros.

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— Nada de importante. Bem aí, por seu bem e pelo o meu, sim, eu devia mentir. Recusei-me por completo, confessar a verdade. — Deve haver uma razão. — disse dando alguns passos até mim. — Uma boa explicação pela qual você se arrisque a chegar perto dele e colocar toda a família ao seu alcance. Dê-me um só motivo que justifique o porquê você se relaciona com o pior predador da cidade. Fiquei em silêncio, eu não podia dizer a verdade. — Lena. — ela endureceu o tom de sua voz. — Ambas sabemos o que esse cara é. Você prometeu que não se aproximaria dele. — Eu sei, mas... Ela parou de andar de um lado para o outro e olhou nos meus olhos de forma fixa. — Este “Cl~” é um dos mais perigosos que existe. Seu instinto animal é brutal. Ele e Hernan são verdadeiros seres bestiais, carniceiros. — ressaltou como se não tivesse sido bastante clara. — Eles mataram e torturaram centenas de vezes, ainda mais do que é normal para um dos seus. — ela fez uma breve pausa. — Eu sei que quando o olha, não parece, mas é aí que reside grande parte da sua monstruosidade, é o que o diferencia de Hernan, para a maioria de suas vítimas é extremamente cativante. Disso eu já havia me dado conta... — Ele não tentou..., quis..., me ferir. — eu disse. — Você é nova aqui, confie em mim eu conheço bem este Grande Predador, melhor do que você. Ele apenas está procurando uma nova vítima para seus jogos. Sabia que ela estava certa e, na verdade, eu não tinha argumento para defesa. Não podia basear-me em nada mais do que o fato de que ele não quis me matar na hora em que eu pedi e não poderia dar essa explicação a Lisange. Só podia dizer a verdade, ou pelo menos parte dela. Tomei ar.

100 — Ele foi honesto comigo. — disse. Eu sabia que isso lhe doeria, mas a outra alternativa seria ainda pior. — Não mentiu sobre acidentes. — olhei para baixo, eu não poderia enfrentar os seus olhos. — Respondeu às minhas perguntas. Arrependi-me de virar a cabeça no último momento para olhá-la, porque a expressão de dor e decepção que invadiu os olhos de Lisange foi tão forte que poderia ter partido meu coração. Ela havia se esforçado muito em me fazer sentir acolhida, e agora eu agradecia assim. Doía-me machucá-la dessa forma, mas o que mais eu poderia fazer? — E de que maneira acredita que um grande predador possa responder as suas perguntas? Pelo amor de Deus Lena, eles não são confiáveis. Ele não deveria tê-lo feito. — Mas ele fez. — disse colocando-me de pé. — E era isso que eu precisava. Você sabe a quanto tempo eu estava tentando descobrir o que estava acontecendo com meu corpo? — Lena... Nós só queríamos te proteger. Você é tão frágil... — acrescentou com um tom abatido. — Saia daqui. — exclamei. Senti um acúmulo de tensão contida e não pude freá-lo. — Não sou. Atrasar a notícia não teria me feito mais forte nem engolir melhor. Christian só me confirmou. Tem idéia do sofrimento que você teria me evitado, se eu soubesse o tempo todo? Se você tivesse me dito... — tomei ar pela dor que produzia a verdade das minhas palavras. — Que nunca mais me recordarei de nada da minha vida. Deixei-me cair na cama e enterrei a cabeça em minhas mãos. — Isso não é verdade... — Lisange sentou ao meu lado, muito mais calma. Levantei o rosto para olhá-la. — Não, claro, é apenas uma questão de tempo. É sempre uma questão de tempo! Poderia ter me dito que isso não se refere ao hoje ou amanhã, mas talvez dentro de meio século ou algo assim. O que acontece se eu não chegar a viver estes cinquenta anos? — Ninguém sabe ao certo... E não há nenhuma razão para que não seja assim. — MAS EU NÃO TENHO TANTA PACIENCIA. — exclamei.

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Lisange respirou profundamente, logo saiu de perto; meu grito tinha a desconcertou. Levantou-se da cama e dirigiu-se para a porta. — Lamento não poder ter sido capaz de ajudá-la, Lena. — disse com os lábios apertados fortemente, como se estivesse tentando não chorar, apesar de não ser capaz de fazê-lo. — Realmente sinto muito. — Não, Lisange... Mas ela já tinha saído pela porta. Coloquei o travesseiro sobre meu rosto. Perfeito, tinha conseguido exatamente o oposto do que queria. Havia a machucado e, de quebra, havia decepcionado e traído todos os De Cote. Fiquei acordada a noite toda. Duvidava de como confrontar o que me viria em cima. Não esperei até o amanhecer, tomei um banho e me vesti. Ao sair, ouvi vozes no piso inferior. Falavam em sussurros. Parei, pensando se devia ou não ir lá para baixo. O medo correu através de mim. Senti muito mais pânico do que naquela noite na biblioteca. Nesse momento, preferia mil vezes enfrentar o que havia no estacionamento, ou até mesmo Christian, do que a expressão decepcionada de Lisange. Respirei fundo. Tinha que corrigi-lo nesse momento; se deixasse esfriar corria o risco deles formarem uma idéia errada. Desci em silêncio as escadas, colocando toda a minha atenção a cada palavra que era pronunciada. — Você deve fazê-lo, Liam. — dizia apressadamente a voz de Lisange. — Eu não acho que seja uma boa idéia. — ele alegou. — Está se encontrando com ele! Por favor! Nós não podemos sentar e assistir como destrói seu futuro! — É sua decisão, Lisange. Não seria justo privá-la desse direito. — Falamos de Christian! Ela não sabe como é. Nesse ponto, eu estado ouvindo, colada por completo na porta da cozinha, ouvindo com atenção. Mas ambos se calaram, de repente, ouvi um movimento de cadeira, e em seguida, a face de Liam apareceu diante de mim. — Desculpe, eu... — tentei me desculpar.

102 — Eu tenho que ir agora. — Lisange fez todo o esforço que foi capaz para evitar olhar-me ao sair da cozinha a toda velocidade. Fiquei sozinha com Liam. — Entra. — pediu inclinando a cabeça para um lado e afastando-se para que eu pudesse passar. Eu obedeci e sentei junto a uma janela. Ele se sentou à minha frente, mas não soube o que dizer. — Devia ter nos contado. — ele admitiu. Seu tom de voz não implicava a reprovação que Lisange tinha mostrado na noite anterior. — Teria mudado a situação em alguma coisa? — perguntei. — Lisange teria preferido; todos nós, na verdade. — Não achei que fosse tão ruim. — reconheci. — Mas, na verdade, é. — Por quê? — eu perguntei, mas parei, lembrando o que aconteceu na noite em que sai com Lisange buscando um livro. Não, eu já não tinha mais argumentos para defendê-lo, na verdade, nunca tive nenhum. — As intenções que possa somente ele conhece. Mas há algo que você deve entender, é que falamos de um grande predador. Não está em sua natureza a humanidade ou o altruísmo. — Eu sei. — disse. — Mas apesar de tudo que tenham me advertido; inclusive o que ele mesmo me contou e o que eu vi... Sou incapaz de ter medo ou ficar longe dele. Talvez se eu conhecer um... — Acredite em mim quando digo que assim é. — me cortou num tom que se tornou muito severo. Ele se levantou da cadeira e cruzou os braços olhando na direção oposta. — Por isso essa situação nos inquieta. — Você também está bravo comigo? — Não, não é isso, Lena, a expressão correta seria a de que estamos preocupados. ― disse vindo para o meu lado e segurando minha mão.

103 — Lisange parecia um pouco mais do que isso. — Ela acha que a vossa “relaç~o” com ele é nada mais que uma demonstração clara da nossa falha, de tempo a ela. Fixei os olhos em algum ponto vazio. — Adoraria poder dizer-lhe que eu não vou mais falar com ele. —confessei. — Na verdade, eu gostaria de parar de fazê-lo, mas há algo sobre ele... — Uma necessidade que a impulsiona a estar ao lado dele. — murmurou. — Exatamente, como...? — comecei a dizer; surpresa de como me entendia. — Eu sei, simplesmente. Mas devo lhe pedir que se afaste o máximo possível dele, quanto antes o fizer menor será o dano. Assenti. Não teria servido de nada começar outra discussão para defender Christian, e mais, na verdade, não sabia por que devia fazê-lo. Eles tinham razão, ela deveria parar de vê-lo. Eu não devia enfrentar os De Cote, por tudo que haviam feito por mim, um garoto que mal conhecia. Levanteime. — Quer que eu leve você em algum lugar? — se ofereceu. — Vou à biblioteca para ver se consigo falar com Lisange, mas prefiro ir de bicicleta. — Como você desejar. Cheguei lá cerca de meia hora mais tarde, mas ela não falou comigo. Liam me pediu para ser paciente, no entanto, eu temia que não voltasse a ser como antes. Passaram-se dias, a situação não se alterou muito. Não voltei a ver Christian; de fato; deixei de procurá-lo, em um esforço para que Lisange visse que eu estava tentando. Mas ela ainda estava com raiva de mim (ou preocupada, como disse Liam). Eu preferia mil vezes que estourasse uma vez e gritasse tudo o que estava guardando, mas ela não o fazia, nem sequer me ignorava, às vezes falava e me tratava bem, o que era pior, porque em sua expressão continuava vendo a mesma

104 decepção. Duvidava que pudesse consertar e que toda esta situação deixasse de ser tão desconfortável, assim pouco a pouco o trato com Christian voltou a plainar em minha mente. Olhei para o relógio, antes tarde do que nunca, e a biblioteca estava começando a se esvaziar. O sol mal iluminava, assim as pessoas começaram a acender suas lamparinas em suas mesas. Nós éramos as únicas que a mantiveram apagada. Arrastei o braço até a pequena cadeia que fazia de interruptor e a acendi. A lâmpada nos iluminou. Lisange tirou seus olhos dos livros e os pousou em mim. Voltei as minhas coisas. Brinquei com uma caneta, nervosa, e de repente percebi que já tinha tomado minha decisão. Remexi-me desconfortavelmente na cadeira, quis sair de lá quanto antes para ir buscá-lo, mas estava escuro e não parecia que Lisange tinha intenção de voltar para casa em breve. — Você está bem? — me perguntou. Hesitei. — Acho que eu já vou, você vem? — Não. — voltou a olhar para as letras em seu livro. — Eu vou ficar um pouco mais. — recolhi minhas coisas tão rápido como podia sem atrair muita atenção. — Lembre-se da lua, Lena. — sussurrou quando me levantei da cadeira. Assenti e sai de lá. A situação ficou tão tensa para mim quando Lisange descobriu sobre Christian, que decidi evitar os momentos embaraçosos dos primeiros dias em seu carro e ir para a biblioteca por minha conta. Nesse momento, agradeci que fosse assim, devia fazer algo e tinha que fazer isso sozinha. Pensei que seria muito mais difícil encontrar a casa de Christian Dubois, mas foi realmente muito fácil. Voltei ao lugar onde tinha buscado o livro com Lisange. Ela havia dito que esta área era habitada por Grandes Predadores, por isso ele também devia viver por ali. Para ser honesta, não tinha muito aonde procurar: havia apenas três casas e duas delas pareciam desertas; portanto sobrava apenas uma, a maior e mais afastada. Vi seu carro estacionado em frente da entrada, juntamente com outros três veículos, dois deles esportivos, assim, não havia dúvida. A parte complicada vinha

105 em seguida, o que eu ia fazer? Chamar e perguntar por ele? Não deixava de ser um lugar cheio de Grandes Predadores... As luzes estavam apagadas, pode ser que não tivesse ninguém, ou que estivessem dormindo. Mas era muito cedo e fiquei surpresa que Christian tivesse ido a algum lugar sem o seu precioso veículo. Suspirei, ali de pé, no meio de uma rua longe de qualquer civilização, de frente a um “quartel” de Grandes Predadores. De repente, ir até ali não parecia uma boa idéia... Olhei para o céu, não haveria lua, então eu não podia ficar muito tempo na rua. Devia ir agora de volta para os De Cote. Um barulho à minha esquerda me assustou. Vinha de um dos lados do edifício. Não tinha certeza do que era, pareciam gemidos de dor, mas não eram como aqueles que eu tinha ouvido com Lisange. Apoiei a bicicleta no descanso do pavimento da rua e me aproximei, em um estúpido ataque de curiosidade. Algo estava se movendo nas sombras e parecia estar sofrendo. Aproximeime, talvez fosse o caçador que tinham torturado na outra noite e se era ele, tinha que ajudá-lo. Subi a ladeira que levava para a parte de trás, mas ali não havia nada nem ninguém. Era um pequeno beco estreito e isolado. Olhei em volta, tudo estava envolto em uma espessa escuridão e o único som que ouvia eram meus próprios passos no solo. — Olá? — sussurrei. Ninguém respondeu. Pisquei tentando ver alguma coisa, mas estava muito escuro. Levei as mãos para a jaqueta para sentir o bolso e tirei o telefone. Tentei iluminar um pouco as sombras, mas o feixe de luz que me dava me permitia um pouco menos que um par de metros. ― H| alguém aqui? — perguntei novamente para a escuridão. Nada, silêncio de novo. Fosse o que fosse, tinha ido embora. Deslizei meus passos para a área iluminada, mas de repente algo caiu sobre mim com um som profundo, como um rugido, e bati no chão bruscamente. Minha garganta deixou escapar um gemido de dor. Atordoada, tentei afastar o peso que tinha em cima, mas foi inútil, não era forte o suficiente para livrar-me dele. A escuridão e o cascalho em meus olhos me impediam de ver o que tinha se lançado sobre mim,

106 mas era algo vivo e soltava muito calor. Dei socos no ar até que mãos fortes prenderam meus braços atrás das costas. — Me solta. — gritei, e logo após uma mão abrasadora cobriu minha boca. O toque dessa pele queimou meu rosto e não consegui segurar um grito de dor, mas senti algo familiar no cheiro que desprendia. — Christian? — disse através de seus dedos. Girou-me com um só movimento. Meu celular tinha caído para o lado, mas ainda estava aceso, e a luz brilhava no seu rosto. Sim, era ele, embora não como o conhecia. Não aparentava seu aspecto elegante e refinado de filhinho rico: tinha a camisa rasgada, o cabelo completamente desgrenhado e seu rosto contorcido. Olhava-me mostrando todos os dentes de forma assustadora, sobre mim, apenas a alguns centímetros do meu rosto, que ainda ardia com o contato da sua pele. Estremeci. Minha respiração acelerou e a sua também, enquanto me olhava com olhos de predador prestes a matar sua presa. Mas então, endireitou as costas para trás com um espasmo e seu corpo ficou tenso novamente. Todas as veias do pescoço e do músculo da sua mandíbula se levantaram ao contrair-se. Soltou um rugido entre os dentes. Aproveitei a oportunidade para escapar de suas mãos, me arrastando, mas eu parei. Hesitei, e de repente senti uma súbita pena por ele e um irreprimível desejo de aliviar sua dor. "AFASTE-SE DELE.” Minha mente gritou. Mas eu não estava segura, porque eu tinha que sentir pena por ele precisamente naquele momento? Engatinhei para trás, mas bati em algo duro. Ouvi outro grito, mas não deu tempo de virar a cabeça para ver o que era. Duas mãos fortes me pegaram no braço, e me levantaram no ar, não pude nem gritar. A próxima coisa que eu senti foi um forte golpe contra um muro e depois cai imediatamente de volta contra o pó de cascalho. Eu era incapaz de me incorporar, meu corpo ainda estava em choque. O mesmo par de garras me levantou, e agora me oprimia contra a pedra dura a vários centímetros do solo. Mas não era Christian que me sustentava. Era algo muito maior e volumoso, os cabelos caíam sobre o rosto de uma forma desordenada, de modo que escondia suas feições. Só podia distinguir os olhos pretos avermelhados e fora de órbita. Chutei-o com toda a força que eu era capaz de canalizar, mas ele sequer cambaleou. Tentei achar Christian com os olhos, mas o meu campo visual estava limitado pela mão desse outro ser que me agarrava ainda com mais força contra a parede. Agarrou a gola do meu casaco e me jogou de costas.

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O impacto contra o chão me deixou um pouco desorientada. A dor tomou conta do meu corpo em décimos de segundo, foi a primeira que realmente senti desde que eu tinha começado a minha vida nova, além do contato recente com Christian. Coloquei uma mão no braço sobre o qual havia caído. Estava quase certa que tinha quebrado e pode ser que uma costela também. Tossi para tentar despertar um pouco. Levei um tempo para reorganizar meus pensamentos e clarear minha cabeça do golpe. Por um momento tinha esquecido onde estava, mas eu o vi de pé, imponente, sua silhueta contra a escuridão do beco. Era hora de fugir. Dei uma rápida olhada no local para ver onde havia deixado minha bicicleta. Não estava muito longe, mas perto o suficiente para ter a oportunidade de agarrála e fugir. Ele levaria metade do tempo para saltar e me alcançar novamente. “Quer morrer assim?” Me perguntei. Da minha perspectiva parecia muito mais terrível do que antes. Não precisei negar. Contei a até dois e meio e fugi. Eu ouvi um tremendo grito, e como reflexo, me encolhi e fechei os olhos com força me preparando para o golpe, mas este não veio. Abri um pouco os olhos e ousei olhar para trás. O estranho estava no chão, enlouquecido de raiva sob o corpo do Christian. Ambos lutavam com ferocidade. Não parei para lhe agradecer. Veloz, peguei a bicicleta e pedalei o mais rápido que permitiu a minha pouca força.

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Dor, pura e simples. Dor.

Fui para casa o mais rápido que pude, olhando para trás, a cada dois ou três passos. Quando cheguei, subi para meu quarto a toda velocidade, livrando-me por um milagre dos De Cote e do incômodo interrogatório a que me sujeitariam se me vissem assim. Joguei a roupa diretamente no lixo, rasgada e enegrecida pelos golpes e cascalho, eu mesma estava toda coberta por essa sujeira. Entrei no chuveiro e deixei a água limpar meu corpo enquanto tentava recordar o acontecido. Agora estava muito claro que não pensava em aceitar esse trato. Deveria elaborar um plano C, ou D, ou o que seja; definitivamente, aquela não seria a solução. Explicar aos De Cote o estado do meu braço foi muito mais complicado do que eu esperava. Não demoraram nem uma hora para perceber que algo estava errado e nem dois minutos para jogar por terra a minha versão de uma dura queda em uma rua íngreme. Mas era impossível que imaginassem a verdade dos fatos, como Christian disse: Ninguém pensaria em ir à procura de um Grande Predador, por isso eles não tiveram escolha a não ser fingir que acreditavam em mim. Flávio se mostrou bastante compreensivo, no momento de voltar a me recolocar no lugar. Aproveitei a queda como desculpa para não sair e ficar no quarto. Era possível que ele estivesse novamente lá, na biblioteca, e eu não queria me arriscar a vê-lo depois de tê-lo encontrado naquele estado. Nada me garantia que ele não quisesse me matar no meio da rua. Estremeci e cobri a cabeça com os cobertores. Tudo voltava a ser muito complicado.

Eu não voltei a ver Christian nos dias seguintes. No fundo, sabia que isso era o correto, mas o que eu não esperava era a reação do meu corpo e da minha mente. Poucos dias depois, comecei a deprimir-me, ao perceber que eu precisava dele próximo; aqueles momentos em que ele falava, até mesmo quando eu o chateava, eram os únicos momentos em que eu conseguia escapar da odiosa frustração. Assim, apesar de estar evitando-o, cada vez que eu saia, surpreendia a mim mesma procurando ansiosamente seu carro preto. Lisange me olhava de soslaio e eu juraria que ela bufava para si mesma. Eu tinha certeza que ela havia notado a minha recente obsessão de voltar a ver Christian, e isso piorava as coisas. Flávio de repente insistiu em enviar-me uma série interminável de trabalhos e exercícios, provavelmente pressionado por Lisange, para que eu

110 esquecido Christian de uma vez. Então, me vi na obrigação de voltar para a biblioteca, embora eu sempre me mantivesse muito próxima da nossa mesa, sem tirar os olhos dos livros, por medo de encontrar um par de grandes olhos negros fixos em mim. A proximidade dos exames ocasionou que de repente, todo o lugar estava lotado de gente. Eu não gostava de multidões e me sentia desconfortável. No entanto, Lisange continuava sem se incomodar com os olhares curiosos que cravavam em nós, ela continuava absorta em seu próprio mundo, agora repleto de novos conhecimentos. Nos últimos dias permanecemos até o fechamento. Para mim, já não me importava passar as horas mortas que passava em algum lugar da casa. Lisange, no entanto, amava aquele lugar e esforçava-se para estudar coisas que iam muito além do que exigido para os exames. Ela tinha tudo o que, a mim, faltava Nesse dia, os olhares me irritavam mais do que o habitual, mesmo quando era Lisange quem me observava. Talvez fosse pela maneira que ela respirava, eu não sabia o porquê, mas desde esta manhã era como se eu estivesse sufocando e tinha voltado a me doer todo o corpo, mas com mais intensidade do que antes. No final da tarde, comecei a sentir um estranho zumbido. Balancei a cabeça tentando dissipá-lo e uma dor muito intensa, como a dor que sentimos na barriga após correr além das nossas possibilidades, instalou-se no lugar onde o meu coração devia bater. Toda a dor que eu estava tentando ignorar voltou com força. Fechei o livro que tinha diante de mim. Fiquei impressionada com o que havia lido nele, certamente isso tudo havia sido uma reação ao seu conteúdo. Mas o zumbido foi crescendo e Lisange continuava me observando, confusa. — Você está bem? — ela perguntou. — Sim. — menti. Minha mão direita começou a tremer e apressei-me em esconda-la embaixo da mesa antes que ela pudesse ver. — Acho que vou dar uma volta, preciso espairecer. Fugi para o canto mais afastado e escondido da biblioteca. Estava cercada por prateleiras, então pude refugiar-me ali sem que ninguém percebesse. Essa área sempre pareceu especialmente deserta. Tentei ler os títulos para saber o porquê, mas eu via tudo distorcido. Algo dentro de mim convulsionou, me dobrei e me joguei no chão, impulsionada por uma forte tontura. Comecei a hiperventilar, mas a asfixia era cada vez maior. Apertei os dentes e prendi a respiração para não gritar. — Lisange... — murmurei entre espasmos.

111 Somente com esse movimento, uma onda de dor me atingiu com violência. Eu segurei como pude, em uma das prateleiras da estante e tentei me levantar, mas um novo aperto fez minha mão escorregar e voltei a cair. O que estava acontecendo? — Lena! — Lisange me agarrou antes que eu pudesse tocar o chão. — Vamos para casa agora mesmo. — sussurrou apoiando-me sobre o ombro. Saímos pela porta de trás, antes que alguém fosse capaz de ver o estado lastimável em que eu me encontrava. Lisange me ajudou a entrar no carro e não freou nem uma única vez até que chegamos em frente a porta de casa. Pegou-me nos braços e subiu a toda pressa as escadas que levavam para a entrada. — Liam! — gritou e abriu a porta com um pontapé. — Ela está se transformando! — O que? — eu perguntei quase com medo. Liam veio às pressas pelo batente da porta com a mesma expressão que Lisange. — Liam... — ela repetiu. — Eu ouvi. — disse, ele segurando-me agora. — Vamos para o quarto. Lisange nos seguiu até ele. Uma vez lá, cercada por uma repentina pressa, foi até as janelas que eu sempre mantinha abertas, fechou as cortinas e acionou dois aparatos de ar condicionado, que eu não tinha visto até então. Liam colocoume cuidadosamente sobre a cama enquanto Lisange procurava algo no armário, e depois olhou para a rua. — Já é noite; melhor. — sentenciou. — Não há risco de que passe algum humano por aqui. Suas vozes chegavam até mim distantes, como se estivessem em outra sala ou como se eu tivesse água nos ouvidos. Senti outro golpe de dor e ambos se voltaram para mim, um alarme despertou em meu interior. — Chamada Flávio? — Lisange perguntou com um fio de voz, de repente parecia muito mais preocupada. — Ele não chegará a tempo.

112 Lisange respondeu alguma coisa, mas não consegui entender; agora tudo está se movendo e as palavras perdiam-se no ar. Agarrei o travesseiro e apertei-o com força ao sentir uma nova chicotada. Cada vez eram mais frequentes e mais dolorosas. Não estava mais pensando claramente. — Tudo se move. — exclamei sem saber muito bem se havia conseguido que minha voz fosse ouvida ou se tinha sido apenas um pensamento. Ambos me olhavam com preocupação. — Lena... Tente relaxar. Voltei a hiper-ventilar antes de gritar novamente. Eu me contorci e, então, caí quase inconsciente. — Liam, isso não é normal. — Eu sei. — ele veio até mim e pegou minha cabeça em suas mãos. — Não durmas! Abre olhos! — Liam, — a voz de Lisange estava angustiada. — O que acontece se ela não superá-lo? — Ela não vai morrer, não vamos deixar que isso aconteça... Lena abra os olhos. Tentei prestar atenção, minhas pálpebras tremiam, mas fui incapaz de abrilos. — Lena... Minha vontade rompeu-se e me deixei cair no nada. — Lena! — instou sacudindo-me ligeiramente. Eu afundava em um abismo cada vez mais escuro e profundo. Estava com medo, mas eu me sentia bem, ali não havia nenhuma dor, nem esse vazio que causava eu não me lembrar do meu passado. Era tão... Tranquilo. Meu corpo relaxou completamente. — Liam... — Lisange mal podia controlar sua voz. — Está morta? Então era isso que estava acontecendo comigo? Estava morrendo de novo?

113 — Ainda não. — a voz de Liam era séria e apressada. — Segure-a. Não senti as mãos de Lisange segurando-me na cama. Toda minha atenção recaiu em um som metálico, como uma faca sendo tirada de sua bainha. Alguns segundos se passaram em que eu não ouvi nada mais do que minha respiração de novo, rápida e descompassada. De repente, curvei as costas em um espasmo horrível de dor e joguei a cabeça para trás sem poder conter um grito. Apertei a boca com força para evitar um novo grito, hiper-ventilando através dos dentes com o corpo todo retesado. Em um esforço sobre humano, abri os olhos e vi Liam segurando meu braço e pressionando uma faca ensanguentada. Acima de seu pulso, também resplandecia um profundo corte. Ele me deu uma ligeira trégua, que aproveitou para avaliar algo, mas pouco depois voltou a enfiar a lâmina em meu braço. — PARE! — implorei entre suspiros. — POR FAVOR, PARE! Lisange colocou uma mão na minha testa e obrigou-me a manter a cabeça apoiada contra o travesseiro enquanto eu me contorcia tentando me libertar deles. Pouco depois, Liam soltou minha ferida. Respirei, tentando me recuperar. Olhei ao redor, com os olhos nublados e perdidos, como se estivesse drogada. Estava pouco consciente de que soluçava em sussurros, e que meu corpo todo tremia de cima abaixo. — Lena! — exclamou Lisange de algum abismo distante, parecia um pouco aliviada. Logo se virou para Liam. — Não há nada que possamos dar a ela? — Não, ela deve passar por isso. — Vou avisar Flávio. — disse saindo pela porta. Liam foi até a janela e olhou para fora por um momento. — Lisange... — chamou, seguindo-a rapidamente pela porta. Pisquei pesadamente. Eu devia fugir desta casa, precisava de ar. Juntei as poucas forças que me restavam e sai da cama. Arrastei-me até chegar às escadas e lá usei o corrimão para me ajudar a descer. Eu mal podia manter os olhos abertos. Saí da casa e entrei na floresta, sem prestar atenção ao lugar onde pisava. Aspirei o ar e logo em seguida o expulsei, ardia-me, mas continuava afogando-me. Corri como pude. Ouvi seus gritos, eles viriam atrás de mim, podia senti-los, mas suas vozes logo ficaram amortecidas pelo calvário que eu estava sofrendo. Continuei me

114 arrastando, sem rumo e tateando, apalpando o que estava no meu caminho, eu só queria me afastar dali. Estava muito escuro, esfreguei os olhos para distinguir alguma coisa, mas tudo era de um grosso manto negro e a dor continuava, era prolongada e cada vez mais forte. Minha mente afundava-se em uma densa névoa. Uma pontada, como uma descarga, através do meu corpo e eu cai ao chão, tinha sido um latido, depois outro e outro... Meu coração palpitava, muito lentamente, e cada movimento tornava-se um tormentoso espasmo terrivelmente intenso para merecer continuar vivendo. Tentei andar segurando o tronco de uma árvore, mas minhas pernas perderam a força e cai rolando por ladeira. Parei em uma área molhada depois de bater em um grosso tronco. Eu não conseguia ver quase nada, mal era capaz de abrir mais do que alguns milímetros. Os gritos cessaram abruptamente. Meus pulmões expeliram todo traço de ar em uma violenta convulsão, queimando minha garganta, então vi que sob minha boca havia se formado uma pequena poça vermelha. Rompi em lágrimas, era tudo o que eu podia fazer. Fechei os olhos e deixei meu corpo inerte, sem forças. Tentei falar para pedir ajuda, mas minha garganta estava agora, afogada em sangue, seu gosto me deu náuseas incontroláveis. Engoli em seco para liberá-la, mas foi como se o fogo queimasse pelo caminho. O estômago me fez vomitar com um novo espasmo. Toda a pele começou a arder como se estivesse em carne viva e alguém tivesse me jogado álcool. E o calor... Um calor insuportável; parecia que tudo ao meu redor estava em chamas. Senti cãibras na cabeça, como picadas cérebro. Um momento depois, uma maré de ruídos, cheiros e texturas invadiram meus sentidos a ponto de querer me levar à loucura. Tentei voltar a abrir os olhos. Tudo ao meu redor estava turvo. Mas, apesar da escuridão, a noite me deixou maravilhada. Era como se eu visse tudo pela primeira vez. Mas as formas misturavam-se e as cores estavam borradas. Havia algo próximo a mim que se destacava por sua brancura. Era... Como um rosto, um estranho rosto. Estendi um braço para a forma, para pedir ajuda, mas evaporou-se antes que eu pudesse tocá-la. Um momento depois, perdi a consciência.

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Meu corpo estremecia como se quisesse chacoalhar. Um frio glacial apoderou-se dos meus ossos enquanto o coração e a garganta queimavam. As pontadas na cabeça tinham desaparecido e a ardência na pele também; não tentei respirar, com medo que se eu fizesse um ligeiro movimento, toda a dor voltaria. Algo atravessou a escuridão em que eu estava submersa. Abri os olhos levemente, com cautela. A primeira coisa que vi foi uma densa luz branca, estava tudo muito iluminado. Pisquei, mas sem sucesso. Eu me sentia muito melhor. Por alguma razão, o frio congelante era reconfortante. Senti curiosidade em saber onde eu estava. Talvez tivesse morrido de novo e agora estivesse no céu, isto se parecia muito mais com o que as pessoas contavam. Mas não, se eu não tinha entrado no paraíso da primeira vez, duvidava que fosse fazê-lo agora. Estendi uma mão para a luz, mas não a toquei, a temperatura aumentava à medida que afastava mais meu corpo. Ao esticar o braço, pequena ondas circulares nublaram mais minha visão. Então, eu comecei a perceber a verdade. Abandonei a paz que eu sentia e me sentei no centro da grande banheira. A grande claridade era tão somente devido à cor das paredes do banheiro. Eu havia estado submersa, com roupas e tudo, em minha banheira cheia de cubos de gelo. Não era o paraíso, mas pelo menos eu me sentia bem. As lembranças da noite passada estavam misturadas, a única coisa que permanecia nítida era o tormento, e o cheiro do meu próprio sangue. Saí da água e peguei uma toalha. Voltei ao quarto. As janelas estavam cobertas pelas pesadas cortinas; então ainda estava às escuras. Tive dificuldade em entender porque de repente via tão bem os móveis, os tecidos... Eu não precisava de luz para ver o que estava na minha frente. Também chegavam a mim, novos sons. Nem uma palavra, apenas o barulho de um pequeno aparelho de ar condicionador, o movimento das lâminas usadas pelos outros, mais modernos para mudar o ar de direção, e a brisa ao penetrar por alguma brecha ou janela não mal fechada. Mas o que mais me surpreendeu foi o som que produziam as gotas de água da minha roupa molhada ao bater no chão. Era incrível. Vesti uma roupa seca e ao fazê-lo, senti um monte de novas fragrâncias. Será que se referiam a isso quando diziam que meus sentidos ficariam aguçados? Circulei pelo quarto definindo a essência de todas as coisas que tinha ao meu redor. Odores que nem sequer sabia que existia, madeira antiga, algodão, queimado, queimado? Esse sim eu conhecia, mas não sabia de onde vinha.

117 Virei a cabeça para a direita e vi o pequeno frigobar funcionando com esforço, ao lado da minha cama. Mas o mais intenso que chegava a mim, era o seu, “seu" cheiro. Abri as cortinas para ver se ele estava lá, mas tive que fechar meus olhos imediatamente. Depois de um segundo, os abri gradualmente. Não havia muito Sol, mas todas as coisas brilhavam mais que o habitual. As cores eram muito mais vívidas e tinham uma série de novos tons. Descobri novas texturas, novas formas... Aproximei-me do espelho que tinham voltado a colocar algum tempo atrás, e tive que sufocar um grito ao ver a imagem refletida: meu cabelo estava completamente seco num curto espaço de tempo e caia em ondas suaves em ambos os lados do meu rosto, sedoso, brilhante e ligeiramente mais dourado, mesmo que, talvez fosse apenas pelo efeito causado pela súbita luz do Sol que brilhava em minha pele impecável, muito mais branca. Felizmente, já não tinha aquele aspecto azulado e cinzento. Não havia nem uma leve marca, nem uma falha, nem uma imperfeição. Meus olhos me observavam pelo espelho, grandes e negros, como sempre, embora muito mais brilhantes, como que febris. Meus lábios, finalmente, tinham cor. Pouco a pouco fui perdendo o interesse pelo espelho, tinha captado um novo som, a batida de um coração, mas lento demais para ser normal. Abri a janela em busca desse som, mas tive que dar um passo para trás. Fiquei tonta com o calor e a torrente de cheiros, mas, sobretudo pela quantidade de luz e brilho das cores que chegaram a mim. Aproximei-me devagar, o carro dele estava lá, mas não havia nenhum sinal dele, apesar da percepção de seu aroma ser tão intenso. O que ele fazia lá? Pensei em ir para baixo para descobrir, mas no caminho até a porta do meu quarto cruzei novamente com o espelho e não pude resistir à tentação de me olhar uma última vez, perplexa com a minha nova imagem. — Sente-se bem? — ouvi atrás de mim, virei assustada e rápido demais, tudo começou a girar ao meu redor. Christian estava sentado no parapeito da janela. Olhei-o confusa, com certeza absoluta de que não estava lá quando abri as cortinas um minuto antes. — Como você chegou até aqui em cima? — perguntei. — Saltando. — respondeu com um encolher de ombros, como se fosse a coisa mais normal do mundo.

118 Aproximei-me dele e olhei para baixo, havia pelo menos cinco metros de altura. — Eu não tinha te visto antes. — Uma pena, estive aqui a noite toda. — afirmou estalando a língua. Dei uma olhada rápida. Ele havia tirado a jaqueta e vestia uma camisa branca enrolada nas mangas e praticamente toda desabotoada, deixando aparecer um pouco da pálida pele de seu peito, mas seu rosto não apresentava seu melhor aspecto. — Na verdade, Lena, faz um calor é horrível aqui fora. O dia estava nublado e não havia nem um pequeno raio de sol batendo na casa. — Esqueci que vocês aguentam pior as temperaturas. — disse a ele, indo para o lado. — Passe, se você quiser. — Entrar nesta casa? — riu. — Não, obrigado, hoje eu não tenho forças para entrar em duelo com Sir William De Cote. Notei certa zombaria em suas palavras, mas, deixando sua ironia de lado, sim, ele parecia realmente cansado — Não imaginava que o calor te afetasse tanto. — Se você planeja me matar, faça isso agora. — Ele levantou as mãos para cima. — Estou completamente desprotegido. — Talvez você devesse dormir. — Sim, claro. — ele riu. — Dormir... Olhei em volta em busca de algo que pudesse ajudá-lo. Virei o ar condicionado portátil em direção a janela para dar-lhe ar e aproximei-me da mesa de cabeceira para pegar o saco com gelo. A temperatura do meu quarto era tão baixa que não havia derretido nem um pouco. Junto com o saco de gelo encontrei o meu celular. — Desculpe não tê-lo devolvido antes. — disse ele. De repente, lembrei-me de como o tinha perdido e um leve temor começou a percorrer todo meu corpo. — Lamento também o que ocorreu naquela noite.

119 — Suponho que a culpa foi minha. — murmurei. — Eu nunca deveria ter ido até lá. — Eu não vou negá-lo. — endureceu sua voz. — Você teve muita sorte de poder escapar. — Isso foi graças a você. — sentenciei, voltando a deixar o celular sobre a mesa. Voltei para a janela e entreguei-lhe o gelo. — Obrigado. — ele pegou o saco e passou por todo o corpo, parando no pescoço e em seguida, no peito. Eu segui o caminho de suas mãos, fascinada, esquecendo-me de todo o medo que pudesse provocar em mim. Seu cheiro era intenso, tentador demais para resistir, doce, mas escuro. Seu efeito sobre mim foi como de uma droga. Naquele momento eu supus que, inevitavelmente, ia voltar a me viciar nele. — Você cheira muito bem. — eu disse. — Você também. Senti que o calor estava concentrado nas minhas bochechas, devia reconhecer que era quase uma sorte não poder corar. Mas então, ele torceu os lábios de tal maneira que voltei a sentir tonturas. Limpei a garganta e olhei para o outro lado. — Precisa de mais alguma coisa? — perguntei-lhe sem olhar. — Eu tinha a esperança de que você saísse, no carro podíamos conversar muito melhor. Um ruído pouco audível chamou minha atenção, alguém estava se aproximando. — É Lisange. Eu me virei um instante para a porta e depois para a janela novamente, mas Christian já não estava ali sentado. Olhei para baixo, e também não estava ao lado de seu carro. Bateram na porta. — Por fim você despertou. — estava enganada, era Flávio. — Ontem eu perdi a ação, como você está?

120 — Bem... Eu acho. — respondi ainda olhando pela janela em todas as direções; continuava procurando uma explicação lógica para o desaparecimento de Christian. Eu me virei para Flávio. Ele se aproximou de mim e tomou minha mão, me fazendo girar sobre mim mesma. — Você esta linda. — elogiou-me com um enorme sorriso. Abaixei meu olhar, envergonhada. — Desculpe não ter sido capaz de estar aqui. Liam me contou que houve complicações. — apontou uma pequena marca roxa no meu braço. Sentei-me na cama, as lembranças da noite anterior iam voltando para minha cabeça. A dor desse corte foi um das primeiras. — O que foi que ele me fez? — Bem. — ele limpou a garganta e se sentou ao meu lado. — Quando nos transformamos; a dor que sentimos durante nossa morte é o que nos ajuda a levar a cabo o "passo", mas não podemos fazê-lo se não tiver bastante em nosso corpo. O contato com o sangue de Liam te ajudou a sobreviver, porque adicionou a quantidade de sofrimento que precisava; misturar sangue de Caçadores provoca muita dor em quem experimenta. — Isso significa que eu poderia ter morrido se ele não tivesse me feito isso? — É muito provável. — Então não sofri quando morri? — Pode ser, mas outros fatores podem ter influenciado. Pensei em palavras dele, isso era a primeira coisa que ouvia relacionado com a minha morte. Era tranquilizador pensar que pelo menos eu não tinha sofrido muito. — Eu me lembro de ter visto uma poça do meu sangue na floresta... — Era o que você descartou. Na última noite seu corpo atravessou o umbral, você se regenerou por completo. — pegou minha mão cheia. — Você já não tem o aspecto de morte que você devia esconder ontem. Hoje você renasceu querida Lena.

121 Sorriu-me, mas seus olhos pararam de repente no ar condicionado que eu tinha virado para a janela e no saco com gelo que repousava na soleira. — Por que você colocou o ar assim? — senti que cheirava disfarçadamente. — Esteve aqui? Eu sabia a quem ele se referia. — Não. — era verdade, na realidade Christian não havia chegado a entrar. — Continua aí fora? — Eu acho... — Você deveria descer e vê-lo. — isso me pegou de surpresa. — Embora eu tenha certeza que você já o viu. Desviei o olhar, para que seus olhos não descobrissem a verdade nos meus, eu não queria ter problemas. — Foi ele quem te encontrou na floresta. Imagino que tenha tentado se manter o mais próximo possível de você, mas não diga nada para Liam nem para Lisange que eu te contei. — dedicou-me um último sorriso. — Eu só vim para ver como você estava, vou deixar você sozinha. Saiu do quarto fechando a porta. Voltei a olhar pela janela, Christian continuava sem aparecer. Terminei de me arrumar em uma velocidade recorde e saí correndo do quarto com pressa. Havia uma fera dentro de mim querendo vê-lo novamente. Cruzei com Liam no hall de entrada, que me acenou com a mão enquanto tentava tirar Golias do topo de um armário. Eu devia ter parado para lhe agradecer por ter salvado minha vida, mas não estava muito certa se devia me alegrar ou não de continuar nesse mundo. Saí na rua e o calor me acertou com um soco, o que me fez cambalear. Parecia estar em pleno deserto no mês mais quente do ano, apesar de ser apenas dez da manhã em um dia nublado, sem sol. Eu me aproximei do carro e me virei para olhar para olhar minha janela. Eu estava certa, eram muitos metros para saltar e não havia um cano ou treliça por onde subir. Sacudi a cabeça, não, Christian não poderia conseguir chegar lá pulando.

122 A porta do passageiro abriu-se a pelo lado de dentro. Entrei sem hesitar muito. A temperatura era agradável, era uma sorte que os carros tivessem ar condicionado. Dentro, Christian parecia muito melhor. Tinha recuperado a expressão normal de seu rosto, mas ainda tinha seu cabelo selvagem e a camisa aberta. O gelo a tinha encharcado e grudava completamente ao seu corpo. Eu não vou negar; isso fez com que o calor voltasse novamente com muito mais força para mim. Ligou o motor. — Para onde vamos? — perguntei. Deu o seu sorriso mais irresistível, nem o ar condicionado podia sufocar as altas temperaturas que sentia ali dentro. — Tomar café da manhã... Chegamos a uma cafeteria. Quando entramos pela porta, coloquei as mãos nos ouvidos, a quantidade de sons que cercava o local era espantoso, pensei que minha cabeça fosse explodir. — Christian... Não vou fazê-lo. — eu sussurrei. Ele virou para mim, mas não disse nada. — Eu não quero machucá-los. — continuei. — Eles sobreviverão, eu te asseguro. — disse esboçando outro dos seus maravilhosos sorrisos. — Mas... — tentei dizer. — Lena. — interrompeu. — Vou pedir-lhe que confie em mim só desta vez, certo? Ninguém, absolutamente ninguém, poderia ter recusado ante esse olhar. Senti que venderia minha alma por seus olhos. — Tudo bem... — sussurrei. — Bom. — ele se endireitou. — Vamos.

123 Christian me levou para a mesa mais distante, na sombra, o único lugar da cafeteria que não tinha janelas, e nos sentamos. Imediatamente depois, seus olhos já percorriam rapidamente todos os pobres humanos que ali estavam. — O que fazemos agora? —suspirei ainda pensando se ia fazer a coisa certa. — Esperar e ter muito cuidado. — ele sussurrou. Olhei ao meu redor. Não havia muitas pessoas. — O que está procurando? — perguntou curiosamente. — Agora que você tem os sentidos mais desenvolvidos, deve aprender a perceber seu estado de animo. — Você me trouxe em uma cafeteria, tem uma idéia da variedade de sons que há aqui dentro? Pratos, talheres, vozes, risos, bocejos, respirações, cigarros acendendo e apagando, corações batendo em muitas diferentes velocidades... Tudo em um volume sobrenatural que embotava minha cabeça. Ele fez uma pausa no percurso de seus olhos e sinalizou com o olhar uma das mesas centrais. — Você se acostumará. Agora, olhe ali. — ele começou. — Vê aquela jovem? A que está sentada no centro daquele grupo de estudantes? Segui a direção dos seus olhos e a vi. Fisicamente parecia mais ou menos normal, com o cabelo loiro puxado para trás em um longo rabo de cavalo, olhos esbugalhados e brilho labial de ultima moda. No começo me custou vê-la, mas ouvila... Não sei como eu não tinha reparado nela antes, tagarelava incessantemente, gesticulando muito com as mãos e coroada por seu próprio riso estridente. — Sim... — Ele passou toda a semana torturando psicologicamente a menina que temos bem à esquerda, não a olhe, ela já teve o bastante por hoje. — Como você sabe? — perguntei-lhe, impressionada. — Olhe em seu interior, leia seu rosto. Eu me virei para ele. — Eu não sei fazer isso.

124 — Tem razão, ainda é cedo. — concordou, franzindo os lábios. — Então, o que eu faço? — Olhe e escute. Essa loira merece um pouco de seu próprio remédio. — Não sou ninguém para administrar justiça. — disse eu, jogando-me para trás na cadeira. — Ela continuará a fazê-lo, não é a primeira vez que a vejo depreciar os que estão ao seu redor. Era curioso que, precisamente ele, me falasse desse jeito. Ele que se divertia às custas de machucar àqueles que eram como eu. Não sabia nem porque eu prestava atenção nele, mas fixei o meu olhar nela tentando ver seu interior. — Concentre-se em sua satisfação, Lena, em sua vaidade. Você consegue perceber como se regozija? — Acho... Que sim. De repente, senti como se meus olhos quase saltassem de suas órbitas. Naquele exato momento comecei a vê-la sob uma nova luz. — Bem. — pelo canto do meu olho, vi aparecer um sorriso irônico. Virei o rosto em sua direção por um momento, mas imediatamente apagou-o de seus lábios, mas uma careta divertida brincava em aparecer. — Ouça Lena... — Eu o faço. — Você tem que captar seu olhar. Por que tinha que me fixar nela tendo-a tão próxima? — Diga-me como. — Estabeleça contato visual, ela se sentirá observada e te olhará. — Fácil assim? — perguntei, arqueando uma sobrancelha. — Fácil assim. — ele repetiu. — Ela não vai perceber?

125 — Estará tão focada em seus próprios pensamentos, que não se fixará em você. Preparada? Foquei toda minha atenção nela, mas não houve nenhuma mudança. Estava distraída torcendo uma mecha de cabelo e começava a me sentir estúpida. Eu não tinha nem idéia do que era suposto acontecer, mas, desde já, não estava acontecendo nada. — Não me olha. — murmurei. — Continue tentando. Sem aviso prévio, senti um braço em volta da minha cintura. Ignorei a menina e me virei para Christian interrogativamente. — Concentre-se. — ele insistiu com um sorriso. Era impossível fazê-lo, sentindo-o tão perto da minha pele, sua respiração, o roçar do seu cabelo... De repente esqueci o porquê estava lá. — Não se distraia Lena, lembre-se da menina. — sussurrou estas palavras lentamente, aproveitando cada uma delas. Tentei de novo. Fixei meus olhos nela, mas agora não me custou nenhum trabalho encontrá-la, ela já me olhava, avaliando-me com seus pequenos olhos entrecerrados. Limitei-me a permanecer ali, quieta, sem afastar o olhar nem um milímetro. Pouco tempo depois, senti uma estranha conexão e chegou a mim uma mistura de sentimentos de uma forma muito; em primeiro a vaidade, essa sensação carregou meu corpo, em seguida, deu lugar ao egocentrismo, só existia Eu, mas não demorou em vir a mim uma forte insegurança, e uma voz começou a brotar em minha cabeça lembrando-me cada defeito, eu não sei se os dela ou os meus, ou ambos; então percebi que não era dela a única voz que eu ouvia, mas sim a minha também. Estas inseguranças deram lugar a tristeza, a solidão e, finalmente, a dor. Eu me vi refletida em seu rosto e senti a falta, o que ela estava fazendo era horrível, mas não não podia nem piscar. De repente, senti vontade de chorar. — Já está bom; Lena. — Christian sussurrou em seu ouvido. Saí do meu devaneio e voltei à realidade. Seus olhos estavam direcionados para a menina e eu o imitei. Ela ainda tinha o olhar perdido e algumas pequenas lágrimas tinham começado a escorrer por seu rosto. Piscou duas vezes, voltando a si, levantou-se e desapareceu da cafeteria. Naquele momento, fui tomada por uma onda incrível de bem-estar, era o melhor que havia sentido há muitíssimo

126 tempo. Minha cabeça começou a desanuviar e comecei a notar certo formigamento nas pontas dos dedos. Era o mesmo alivio que se sente ao respirar o primeiro jato de ar depois de ficar segurando a respiração por um longo tempo. Mas não podia definir exatamente se estava satisfeita, aterrorizada ou envergonhada pelo que tinha acabado de fazer. Christian notou imediatamente. — Isso vai passar, seus amigos te dirão o que quer ouvir e voltará a ser a mesma de sempre. — balancei a cabeça levemente. Isso bastou para começar a diminuir esta estranha sensação. — De qualquer forma, Lena, você deve ter cuidado para não cruzar a linha. Se começam a chorar, você deve deixá-lo imediatamente, se não quer causar dano. Essa é uma regra fundamental no seu caso. — fez uma pausa e depois completou com voz seca. — Como você se sente? — Melhor. — foi a única coisa que consegui dizer, e era verdade. Ele sorriu. O calor que tinha sido recuperado concentrou-se em minhas bochechas. — Adorável. — disse ele, passando a parte de trás do dedo enluvado na minha bochecha. — Minha aluna mais inteligente. — Sou a única que você tem. — lembrei-o, sem perder a minha atenção da sua luva. — Que isso não te suba para a cabeça. Ri baixo. Christian esperou até que estávamos de volta às ruas para retomar a conversa. — Dentro de um tempo nem sequer terá que fazer isso. Você poderá unir-se ao ambiente, de várias pessoas ao mesmo tempo em vez de uma só. — Como? Avistei seu carro perto de onde estávamos. Parecia que havia passado uma eternidade desde que havíamos chegado, embora, na verdade, não tivesse decorrido nem meia hora. — Você acha que Liam ou Lisange param para olhar para algum humano? Não, eles são o centro das atenções, sem pretenderem, eles se alimentam do que despertam nas pessoas. — Você também? — eu quis saber. Apertou os lábios em uma linha fina.

127 — Não exatamente, digamos que em nosso caso, a proximidade é necessária e o contato físico, às vezes, indispensável. — O contato físico? — repeti. — Você quer dizer o mesmo que eu vi você manter com que o Caçador? Ele deu uma pequena risada. — Não, de jeito nenhum. Nossa forma de alimentação é muito menos impressionante. Mas agora, deve se concentrar apenas em você. — Eu não achava que fosse tão fácil. — reconheci. — Normalmente não é, mas neste caso foi mais do que o normal. A menina já desenvolvia certo ciúme em sua direção por estar sentada ao meu lado. — ele sorriu. — Sabe? — olhei para ele franzindo a testa. — A humildade é uma virtude. — Algo que, segundo você, parece que eu não tenho. Abriu a porta do passageiro. — Entre e não proteste, por favor. — disse ele quando viu minha expressão de descontentamento. Concordei. O calor era cada vez mais angustiante. Christian entrou no carro e, imediatamente depois, colocou a temperatura no mínimo, eu não disse, mas agradeci no mais profundo do meu ser. Será que ele tinha notado meu repentino sufoco?

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Monstros.

Não voltamos para casa. Christian me levou a um lugar verde, um grande parque longe do centro. Tudo era novo para mim, como se eu estivesse há anos presa sem contato com o mundo exterior e, de repente, saísse e sentisse tudo pela primeira vez. Era maravilhoso, embora fosse um pouco exaustivo também, sobretudo em meio do campo, rodeada de tantas e tantas fragrâncias, cores e texturas. — O que aconteceu? — perguntei a Christian. Não entendia como aqueles pequenos detalhes poderiam fazer-me tão bem. — Você renasceu. — Sim... — sussurrei para mim mesma. — Exatamente isso, Agora sim. Sorriu-me radiante e, pela primeira vez, acreditei ver que a alegria chegava a seus olhos impenetráveis. Não durou muito, entretanto, mas bastou para me deixar um pouco mais contente. — Christian. — disse caminhando ao seu lado. — Obrigada, de verdade. — Me comprometi a assegurar que você se transformasse por completo. Afastei-me um pouco dele e adotei uma postura um pouco séria. — Por quê? — comecei, e ele me olhou de forma estranha. — Por que você tem ficado toda noite perto da minha janela? — Não sei. — sua voz era sincera. — E a que se deve a sua mudança de humor? Ser der repente tão amável, é só uma forma de proteger sua presa? De fazer de minha morte algo mais divertido para você? Dessa vez roubei toda sua atenção. Deteve-se e me olhou nos olhos. — Não deve confiar em mim. — me advertiu com total sinceridade, Todo o rastro de alegria e juventude desapareceu de seu rosto.

130 — Me responde, por favor. — Você não quer saber. — O que te faz pensar isso? — Você tem medo do que eu possa te dizer, não é difícil ver em seus olhos. — Responda a outra pergunta então. Qual a possibilidade de que cheguemos a ser... Amigos? — perguntei, desviando o olhar. Seu sorriso me surpreendeu. — Não, de nenhuma maneira. Ergui a vista, confusa. — O que somos então? — Duas almas torturadas que precisam desesperadamente uma da outra. Olhei para o lado para impedir que visse o sorriso triste que tinha aparecido no meu rosto. — É uma grande definição. — reconheci. — Eu não seria bom como seu amigo; eu não sou bom em me interessar pelas pessoas. — disse para si mesmo. — Nós, os Grandes Predadores somos as criaturas mais egoístas da face da terra. Virei-me para ele. — Você se preocupa comigo. — minha voz foi apenas um sussurro. — Só protejo meus próprios interesses, Lena. Não vê em mim um único rastro de humanidade, porque não existe. Caminhamos em silêncio. Registrei cada pequeno aroma e cada textura em minha mente; tudo era incrivelmente real agora. Enquanto isso, uma idéia que me aterrorizava, começou a dar voltas em minha cabeça. Paramos junto a um banco e nos sentamos. — Justo antes de Lisange me tirar da biblioteca, lia algo que me preocupou.

131 — De que se trata? — Era um livro sobre espécies mágicas e mitológicas. Estive olhando várias definições e, bom... Tinha uma que se assemelhava a nós; não me lembro qual era, mas dizia que se alimentavam da essência das pessoas e que eram muito perigosos e monstruosos. — E você se sentiu identificada de imediato, não foi assim? — sorriu. Baixei a cabeça. — Era muito real. — De que exemplo concreto, nós estamos falando? Franzi o nariz — Não ria, mas acredito que era um livro infantil. Ele não riu, embora esboçasse um sorriso divertido. — Lena, não é provável que exista nem um só humano que tenha conhecimento da existência desses tipos de vida. Mas, se fosse assim, duvido muito que o colocaria em um livro e, muito menos, em um infantil. Nem sequer somos uma lenda. — Não se trata disso... Trata-se do que senti ao ler essas palavras. — olhei-o. — Me aterrorizou a idéia de causar danos as pessoas. Ele tomou ar de forma pausada. — É curioso que você comente esse problema precisamente comigo, levando em conta o que sou e, o estranho trato que nos une. — deu a si mesmo um segundo antes de continuar. — Contudo, Lena, é uma verdade indiscutível, que só você pode decidir o que fazer. Não deve se torturar com isso; somos necessários para que o mundo funcione. — Isso justifica todo o dano? Onde acaba o equilíbrio e começa a diversão para vocês? O tom de sua voz ficou muito severo. — Esse ponto nunca teve importância para nós.

132 — Você é como todos os Grandes Predadores? — Você se refere a, se eu me divirto em acabar com vidas? Não respondi. — Não é fácil matar um hábito de vida, não. Isso me tranqüilizou um pouco. — Mas é assim, certo? Olhou-me fixamente nos olhos investigando suas profundidades. — Não faça perguntas que não quer que sejam respondidas. — Por acaso deveria querer? — perguntei. Ele riu. — Desde logo. Na verdade estava segura de que a resposta me doeria apesar de conhecê-la. Lisange já tinha me confirmado quase desde o primeiro dia em que o vi, mas ouvir de seus próprios lábios seria um pouco mais duro. Preferia dar a Christian um pouco mais de tempo e o beneficio da duvida. — Vá. — disse tentando deixar de lado um repentino mal estar que agora nos invadia. — Então, nada de super-herói, não? — Não precisamente. — ele reconheceu. — Nem de salvar o mundo? — Só a nós mesmo. — E para que queremos essas habilidades? — Para sobreviver. Sorriu.

133 — Sinto te desapontar, se você esperava uma capa e uma calça rosa. — comentou em um tom sarcástico. — Não, odeio rosa. — Sim... Suponho que eu também. Ambos rimos; um riso tênue. — Me alegra que você já tenha se transformado. — me disse com o tom mais sincero que já tinha ouvido. Fez um gesto de levar a mão enluvada para o meu rosto, mas, no ultimo momento, se conteve. Seus olhos negros brilhavam com uma luz especial. Aquelas palavras me deslocaram por completo. Não sabia se, tratava-se de um sentimento sincero e inocente, ou o fato de que agora eu já cumpria com todas as exigências que ele tinha imposto para levar o cabo a sua parte do trato. — Tudo mudou depois de ontem. — reconheci, e a verdade de minhas palavras me oprimiu. — O que você sente? — Não sei, acredito que me sinto bem. — olhei-o nos olhos. — Diga-me uma coisa, vale a pena? Ser imortal, eu quero dizer. Franziu a testa. — O que eu possa falar para você não tem importância. Não são mais que os delírios de varias décadas sem nada especial. Levantou-se e continuou caminhando, eu o segui até chegar a sua altura e ambos caminhamos um ao lado do outro, em silêncio, contemplando a paisagem. Bom, na realidade, só ele o fazia; eu me limitava a observá-lo. Sorri ante o quanto parecia normal o fato de que caminhávamos juntos, como se fossemos conhecidos de toda a vida. Isso era precisamente o que começava a sentir quando estava ao seu lado, uma estranha confiança. Deteve-se um momento com os olhos cravados para o lado norte do parque, com certa inquietude. Olhei para a mesma direção, mas não tinha nada mais que

134 uma mulher lendo um jornal, sentada em um banco e um casal de jovens, deitados no gramado. — Acredito que será melhor que voltemos já. — disse. — Ainda não vi Lisange e ela deve estar impaciente. Pouco depois já estávamos no caminho de casa, a "minha" casa. Agora sim poderia chegar a considerar como minha casa. Tudo começava a se enquadrar a perfeição, com um quebra-cabeça que tinha permanecido sem completar durante muito tempo a espera que aparecesse a ultima peça, e esta fosse, precisamente, minha transformação. Agora eu era parte de algo. Tinha de novo um lugar no mundo e ele era real, em grande parte, o culpado disso. Christian me deixou em frente ao portão de ferro forjado que dava para a entrada e foi embora. Voltei-me para aquela antiga edificação em que eu tinha "vivido" os últimos dias, e a achei, surpreendentemente bonita. Subi uma vez mais a pequena escada de pedra cinzenta e irregular para chegar à porta de madeira. Preparei-me, como sempre, para utilizar todas as minhas energias para abri-la, mas nesta ocasião não fez falta que apoiasse meu corpo contra ela, bastou um leve empurrão, um pequeno e ridículo empurrão para que essa massa que tantas vezes me havia conduzido ao chão, se abriu sem problemas. Olhei minhas mãos, por isso que eu nunca tinha visto os De Cote tendo problemas para movê-la? Não tinham falado nada sobre uma força sobrenatural. A casa estava praticamente deserta quando cheguei. Todas as luzes estavam apagadas exceto a da sala de estar e o único som procedia do velho gramofone. As notas vacilavam algumas chiando como crispas pela antiguidade do vinil. Nesse momento me dei conta do bem que cheirava os moveis de madeira antiga. Aproximei-me, mas lá tampouco tinha alguém. A porta de cristal que levava ao jardim da parte traseira estava aberta. Saí, mas tudo estava muito silencioso. — Estou aqui. — disse a voz de Lisange em minhas costas. Virei-me. Estava sentada em uma cadeira de balanço de verga, junto à parede. Não a tinha visto ao sair. — Oi. — saudei. — Que tal seu primeiro dia como Caçadora? — perguntou em um tom muito menos seco do que eu esperava. — Não tão bom como gostaria, mas bom.

135 — Aconteceu alguma coisa? — voltei a notar o sinal de preocupação. — Preferia que você não estivesse com raiva, na verdade. Eu a ouvi inalar ar pausadamente antes de responder. — Não estou Lena. — Não? Por quê? — não é que eu não me deixasse feliz, mas me surpreendi com essa mudança de atitude. Ela se levantou e se aproximou de mim. A luz do inferior da casa iluminou parte de seu rosto. Sua expressão era confusa, mas relaxada. — Não confio em Christian. — disse. — E não acredito que vá fazê-lo algum dia. —abaixou a cabeça por um segundo, tomou um pouco mais de ar e logo voltou a olhar-me. — Mas ele descobriu antes de nós que tua hora havia chegado, e em vez de se aproveitar da situação, te ajudou, e estou francamente agradecida a ele. — me deteve antes que eu pudesse dizer algo. — Não o suficiente como para abrirlhe os braços e permitir que seja uma parte ativa desta família, mas sim para conceder-lhe o beneficio da duvida, tanto a ti como a ele. — fez uma breve pausa, a intensidade de seus olhos aumentou. — Vou acreditar em ti, Lena; se de verdade precisa, não será eu quem lhe separará dele. Soltei o ar e abracei-a, pegando-a completamente de surpresa. — Obrigada, significa muito para mim que você entenda. — Mas tenha cuidado, Lena, por favor. — sussurrou em meu ouvido.

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O dia em que um sonho perturbou minha mente.

Não foi mais do que uma sucessão incompreensível de imagens borradas. Seu rosto era a única coisa que distinguia com clareza. Ele estava ali, apenas durante uma fração de segundos, mas seu sorriso calou meu coração de uma forma quase dolorosa. Neste pouco tempo, minha respiração falhou, o mundo inteiro parou e de repente soube que tudo havia mudado. Acordei muito agitada, estranha e confusa, com uma inexplicada dor no peito, mas não era uma sensação física, era algo que me preenchia e entristecia ao mesmo tempo. Seu rosto... Suas mãos... Seu sorriso, a tranqüilidade que me transmitia; a dependência que sentia de seu aroma, de estar junto a ele. Eu me deixei cair de novo sobre o travesseiro com o peso de meu novo descobrimento, oprimindo meu peito. — Estou... — sussurrei incrédula, para o teto do meu quarto. Quase me dava medo o que estava a ponto de pronunciar. Puxei ar e fechei os olhos com força. — Estou apaixonada por Christian Dubois. Agitei a cabeça, apagando essa idéia da minha mente. Não podia ser. Eu gostava, sim, havia me sentido atraída por ele, também, mas daí para o amor há uma grande distancia. Freei meus pensamentos bruscamente, seu cheiro chegada a mim muito nitidamente. Olhei ao meu redor, inclusive para fora da casa, mas ele não estava lá. Em troca, sua essência impregnava cada prega da minha roupa, cada célula de minha pele... Tudo! Não tinha estado consciente até esse momento do presente que estava em tudo o que me rodeava. Devia fugir dali antes que minha cabeça ficasse tão atordoada que me impedisse raciocinar. Corri para o chuveiro e ensaboei a consciência para tirar todo o rastro dele de meu corpo. Tirei uma calça e uma camiseta do fundo do armário, me vesti e são de casa antes que o aroma que desprendia de minhas coisas grudasse de novo em mim.

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Peguei a bicicleta, o ar fresco me ajudaria. Desde a transformação, os De Cote haviam concedido mais espaço, para mim mesma. Não estavam sempre preocupados e eu os agradecia. Agora podia passear pela rua sem ter que pensar na chuva ou na maquiagem. As pessoas continuavam me olhando, claro, mas não era de forma tão descarada como antes, e o modo de fazê-lo também havia mudado. Agora que estava mais calma, parei no caminho para me aprofundar entre a vida da cidade e encontrar alguma pessoa com a qual eu pudesse recobrar as forças. A verdade é que era muito mais fácil depois da primeira vez. Cuidava meticulosamente de cada uma das minhas "vítimas" certificandome de que fossem pessoas que faziam mal aos outros. Isso me ajudou a parar de me sentir tão mal e a dormir à noite. Primeiro, porque, estando alimentada via as coisas de maneira melhor e, segundo, porque pensava que no fundo que eu fazia o bem. Tinham me explicado que não poderia "utilizar" a mesma pessoa mais de uma vez até que tivesse transcorrido, pelo menos, uma semana desde a anterior. Então, me vi obrigada a manter todos os meus sentidos em alerta para encontrar o individuo adequado, coisa que, em um lugar como aquele, não era muito difícil. Nesta ocasião em especial, escolhi um jogador da equipe de futebol de uma universidade próxima. Não me custou muito chamar sua atenção. Parecia que cada vez eu o fazia melhor, esse garoto tinha um ego tão alto que em um par de segundos, me encontrei completamente satisfeita. Quando saí da cafeteria onde o havia encontrado, a rua estava lotada de gente que ia e vinha com pressa. Pedalei sem rumo certo, não ia a nenhum lugar em especial, só queria me afastar o máximo possível de todos os vestígios dele. Era surpreendente a facilidade que eu tinha agora em me mover. Meu corpo estava muito mais livre e rápido, mesmo que tivesse a sensação de que todo esse peso havia se concentrado em minha cabeça, agora obcecada com Christian. Lutei contra minha mente, uma dessas batalhas épicas entre o bem e o mal. Uma parte, a mais racional, me dizia que apenas estava confusa, que o que eu sentia por ele não era amor e sim algo parecido a uma amizade, misturada com uma inevitável atração física. Era isso o que eu havia pensado até este momento, e não tinha ido muito mal, mas a outra parte, a mais masoquista, me dizia que estava apaixonada por ele e me jogava imagens traiçoeiras de seu rosto, seu sorriso, suas mãos... Fiquei furiosa comigo mesma. Seu rosto, seu sorriso e suas mãos eram as mesmas que a primeira vez que o vi. Então, o que havia mudado agora?

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Pedalei tão rápido que a corrente saiu e perdi por completo o controle. Demorei em perceber que descia a toda velocidade por uma estrada bastante íngreme. Lutei contra o guidão, mas ele entortou como se fosse borracha. A bicicleta voou pelos ares e, segundos depois, vi irritada, como terminara chocada contra uma árvore na beira de um bosque. — Genial... Dei um pontapé em um dos postes de concreto que rodeavam a estrada. Tinha apenas chegado a tocá-lo, mas rachou em pedaços. Dei um passo para trás, assustada com minha própria força. Deixei-me cair no chão, de boca aberta, escondendo o rosto com as mãos. O sol penetrava entre meus dedos, tingindo o escuro em cor alaranjado. Um carro parou atrás de mim. Ouvi Uma porta abrir e fechar e uns passos ritmados se aproximando. — Precisa de ajuda? Era minha imaginação ou realmente ele estava ali? Rezei para que não fosse assim. A luz desapareceu e algo me fazia sombra e seu cheiro era inconfundível. Sim, infelizmente, era ele. Em momentos assim é quando se deseja com todas suas forças a terra lhe engula. — Você estava me seguindo? — o encarei enquanto me levantava em um salto. Estava irritada pelas condições em que tinha me encontrado e por seu hábito de aparecer do nada no momento mais inesperado. Certamente foi injusto falar com ele desse modo, mas eu estava tentando escapar dele, de seu rastro e de repente, estava ante mim! E ainda por cima me via estirada no chão com a bicicleta quebrada e os últimos restos quebrados contra uma árvore: era humilhante! — Vejo que está tudo bem. — Não me faz falta a sua ajuda, obrigada. — respondi, e lhe dei as costas para pegar um pedal que tinha caído ao meu lado. — Eu não diria o mesmo. Pude sentir que seus olhos desviavam-se para o desastre que havia causado.

140 ― Isso é problema meu. Olhei ao redor. Não tinha nem idéia de onde eu estava e não havia nada que me parecesse familiar. Que tanto eu ainda me afastado? — Ninguém te disse que não era adequado usá-la depois de se transformar? — Por que não seria? — eu disse, cruzando os braços. — Muita força nos pés. — argumentou. — Pelo menos até que você saiba controlá-la, deveria deixá-la estacionada na garagem. Porque eu não tinha pensado nisso? A verdade é que me bastante vergonha de como eu tinha caído. Ele soltou uma leve risada. — Somente quando é estritamente necessário. — olhou ao redor para se assegurar de que não havia ninguém, pegou-a e dobrou-a ao meio, como se fosse uma simples folha de papel. — O que você está fazendo? — pulei horrorizada. — Vou guardá-la no meu carro. — ele abriu o porta malas, colocou-a para dentro e então virou-se para mim. — Um passeio? Hesitei, o que eu queria nesse momento era me afastar dele. Fiquei tonta ao notar seu corpo próximo ao meu. — Está com pressa? Saí do transe. — Não. — reconheci ainda tonta por sua presença. — Flávio está trabalhando, e Liam e Lisange foram cavalgar. — Não quis acompanhá-los? Bati em minha têmpora dissimulando para calar o lado masoquista da minha mente. — Não, eu precisava ficar sozinha para clarear minhas idéias. — comecei a andar e ele me seguiu. — Algo importante? — Não muito. — menti. — Mas, se não as clarear, minha cabeça se tornará um caos. — temi que ele continuasse perguntando e, que no final, descobrisse que o motivo desse comportamento era ele. Tentei concentrar-me nos cavalos para

141 desviar a conversa. — De qualquer forma, não sou muito boa em toda esta questão de cavalos. — Você exagera. — Não, não o faço. — olhei-o furtivamente de cima abaixo. — Você com certeza se dá bem. Ele sorriu, cortando minha respiração. — Eu me defendo, mas o mérito é todo do meu cavalo. — Você tem um? Por que eu não tinha imaginado? — Sim, é um bonito animal. É normal sentir ciúmes de um cavalo? — Dizem que os animais se parecem com seus donos. — eu disse e calei imediatamente ao me dar conta que havia pronunciado esse pensamento em voz alta. Deixei cair meu cabelo para o lado para esconder meu rosto envergonhado. Prolongou-se um pequeno silencio que eu não me atrevi a quebrar. De repente, ele sorriu. — Imagino que você diz pelo "animal", não é? Ele tentava tirar a tensão que minhas palavras tinham criado no ambiente. Eu deveria deixá-lo ali, mas não, aparentemente, eu estava empenhada em me colocar em evidencia ainda um pouco mais. — A verdade é que não. — sussurrei para o colarinho da minha camiseta. — Nesse caso, acho que deveria dá-lo a você, Lena. Se parece mais com você do comigo. Sua voz não foi baixa, temerosa, nem envergonhada como a minha, e sim suave, profunda e segura, enquanto admirava o horizonte com o rosto concentrado. Limpei minha garganta, mas não fui capaz de dizer nada.

142 — Você ficou incomodado com o que eu disse? — ele me perguntou. Olhei-o desconcertada, como ele podia pensar que o que me constrangia eram suas palavras e não as minhas? — Não. — eu disse. — Tem sido um detalhe de sua parte. — É seu se você o quiser. — riu para si mesmo. — —Embora eu ache que você ganhará a inimizade de Elora. — Quem é? — eu quis saber. — Um membro do meu Clã. Está apaixonada por ele. Pelo cavalo e pelo dono. Um estranho grito brotou do meu interior, por sorte, ele não ouviu, ou talvez sim. — É sua namorada? — eu tive que perguntar, precisava cuspir essa pergunta, mesmo que isso de me acabasse de me delatar. — Não. — respondeu em um tom tranqüilo e sincero. — — Não é algo que nós, os Grandes Predadores sonhemos geralmente em ter. - minha moral foi caindo lentamente no chão. — Pelo menos, não da maneira que você entende essa palavra. — Como então? Talvez houvesse uma pequena esperança... Balancei de novo a cabeça; o lado racional estava perdendo completamente a batalha. Christian me olhou com um leve sorriso. — Trata-se de algo parecido como o direito de posse. — Isso parece fatal! — exclamei, me parando em seco. — Eu sei. — riu de forma tão feliz que conseguiu aliviar a tensão do meu corpo. — Mas não acho que seja o que você pensa. Somos criaturas bastante solitárias, consiste mais em lealdade do que em algo físico. — Algo assim como fraternidade? — eu perguntei. — Muito mais complicado.

143 — E você tem isso com ela? — esforcei-me para que parecesse completamente desinteressada, embora possivelmente sem muito sucesso. Ele levou alguns segundos para responder. — Não. — Mas você gostaria? Ele me olhou intensamente. — Por que te preocupa de repente minha vida particular? — Não sei nada de você. — reconheci. — E acha que isso é ruim? — Depende do que tente esconder. Ele voltou a tomar seu tempo antes de responder. — Às vezes a ignorância pode se tornar o maior dos dons... — sua voz tornou-se mais profunda, parecia que ele estava pensando em algo. — Você tem muito pouca fé nas pessoas. — eu disse. Ele virou a cabeça para frente. — E você tem muita. — Todo mundo tem algo de bom. — soou muito mais certo do que eu lembrava em minha mente. — E se todo o bem que se tiver fosse outra pessoa? Comecei a ficar nervosa e ele parou de contemplar o céu para cravar seus olhos diretamente nos meus. — Alguém diferente do que se é. — continuou — A única pessoa que poderia fazer que esta vida valesse a pena. Algo revolvia meu estômago vigorosamente. Sem percebermos, nós dois havíamos parado cara a cara, com os olhos de um cravado no outro, nossas palavras eram quase sussurros. — Então, essa pessoa seria a mais feliz deste mundo.

144 Mergulhei em suas enormes pupilas procurando algo que tivesse sentido, uma pista que pudesse me ajudar a descobrir o que ele sentia. Mas ele não demorou em quebrar o contato visual. — Eu não acho. — ele olhou para frente e voltou a caminhar. — Não quando ela descobrir como é realmente e que depende dela. Apressei-me em segui-lo. — E se ela não se importasse? — Isso só acontece nas novelas ou nos filmes, a realidade é muito mais complicada. — Depende de quem a viva. — disse com um fio de voz. Ambos ficamos em um profundo silêncio. Continuamos caminhamos um ao lado do outro sem dizer nada, pensando em cada uma das palavras que acabáramos de pronunciar. O bosque tornou-se cada vez mais exuberante e escuro. As copas das árvores balançavam com suavidade ao ritmo de alguma melodia silenciosa enquanto a fraca luz do sol se infiltrava entre seus ramos em feixes de ouro. Não havia fuga. Galhos e folhas secas rangiam sob nossos pés. Não dissemos nada, absolutamente nada. Andamos até que uma fina chuva começou a cair. Então voltamos à estrada. Abriu-me a porta do carro e eu entrei. — Estamos progredindo. — disse de repente com um sorriso radiante. Depois de tanto tempo em silêncio, sua voz me pareceu mais encantadora do que nunca. — Hã? — eu continuava embevecida. — Já não hesita quando lhe peço para entrar no carro. Pensei que se referia a conversa que havíamos tido, mas me enganei. Ou o melhor para ele não significava o mesmo que para mim, talvez fosse algo normal, que ele costumava fazer, ou... Eu que sei! Mas senti que algo se esvaziava dentro de mim. — Eu não tenho outra forma de voltar. — admiti. — Lena. — aproximou um dedo aos meus lábios para calá-los, não chegou a tocá-los, mas provocou tremor em meus joelhos. — Deixe-me desfrutar um pouco esse momento, isto não acontece todo dia.

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Eu sorri. — É uma pena sobre a bicicleta. — sussurrei enquanto ele ligava o motor. — Perdoe-me se não compartilho sua tristeza. — Por que você é tão cruel? — Bem. — meditou. — Devo reconhecer que lhe estou grato, mas isso é tudo. — Acho que é porque agora você é meu único meio de transporte, não é mesmo? — arrisquei. — Não o único, mas sim o melhor. Levantei exageradamente uma sobrancelha. — Quer fazer algum tipo de reclamação? — O cheiro do estofamento é um pouco forte. — brinquei. Ele revirou os olhos e sorriu. — Ainda que se confunda com o seu, e isso é agradável. — Que tocante... — ele zombou. Se havia algo mais que eu gostava além de seus olhos, era sua risada, quando não o fazia de forma cruel. — É um elogio que aprecie minha companhia. — disse ele, em uma voz macia e aveludada. — Não estávamos falando sobre carros? Olhou-me de uma forma tão profunda que me fez estremecer. — Sim. — ele sussurrou para si mesmo, ainda com um pequeno sorriso brincando em seus lábios. — Falávamos sobre carros. Todos meus sentidos colocaram-se em alerta por sua proximidade. E contra minha vontade, cada vez parecia mais evidente o fato de que eu estava me

146 apaixonando por ele. De repente, via isso tão claramente como a certeza de que alguém como Christian nunca se prenderia a mim. Eu me havia permitido o luxo de sonhar acordada com tempo que havia passado, mas devia voltar à realidade. Houve um vínculo, algo parecido com confiança, mas não era amizade e, para minha grande tristeza, tampouco amor. Esse pensamento me entristeceu. Como um cara como ele ia olhar para alguém como eu? O melhor que eu podia fazer era manter segredo, não podia dar-me ao luxo de lhe perder, ainda que qualquer possibilidade de estar junto a ele de outra forma limitaria-se às fantasias da minha mente antes de adormecer. Mas o que eu sentia por ele aumentava com cada segundo que o olhava, que pensava em seus olhos, que sentia seu cheiro e sua respiração na minha pele. Como não havia me dado conta antes? Talvez porque tudo o que havia me acontecido tivesse enlouquecido qualquer emoção ou sentimento que não fosse angustia e desespero. Quem sabe? A única coisa que eu sabia agora, com certeza era que devia esconder dele, a todo custo. Não queria nem imaginar o que ele poderia dizer se lhe contasse... Suspirei. — O que foi? — perguntou preocupado, quebrando o silêncio. — Nada, só estava pensando. — Em quê? — No sentido da vida. — brinquei. — Você é sempre tão filosófica? — Em que você estava pensando? Deu um sorriso torto. — Não penso em responder a essa pergunta. — Eu te contei! — Por favor, Lena. — disse, rindo e revirando os olhos. — Você realmente acha que acreditei nisso de pensamentos transcendentais? Ninguém pode ser tão exageradamente existencial. — Você está dizendo que sou irritante? — tentei soar despreocupada, mas a verdade é que a idéia me assustava. — Não, nem tanto.

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— O que você disse? — exclamei, erguendo-me no assento. — Bem. — admitiu. — A verdade é que no dia em que falamos pela primeira vez, sim você parecia. — Perdoe-me por não aceitar bem o fato de descobrir que tinha morrido. — eu disse indignada. — Você ainda não sabia. — ele me lembrou. — Mas eu não me lembrava de nada! No caso é o mesmo. — meu tom o assustou. — Vai ficar irritada agora? — disse-me. — Eu não estou irritada. — virei-me para a janela e tentei prestar atenção às luzes que passavam rapidamente por nosso lado. — Sim, claro que sim. — Eu disse que não. Bufou. — Você não sabe mentir... Eu me virei para ele. — Tem que saber de tudo sempre? — provoquei. Minha expressão, que pretendia ser de indignação, deve ter sido engraçada, porque ele desatou a rir. — Lena... — Responde. Ele me olhou confuso. — Pensei que se tratava de uma pergunta retórica. — Pois não era. Ele sorriu. Relaxe eu não acho que você seja irritante, era uma brincadeira.

148 Cruzei os braços, com um gemido mais apropriado para uma menina de sete anos. — Você tem um senso de humor muito peculiar. — disse a ele. — Me conformo em ter um. Abri a boca, ofendida. — Não estou dizendo que você não tenha. — apressou-se em acrescentar ao ver a expressão no meu rosto. — Não tente consertar. Ficamos em silêncio, eu me limitei a olhar pela janela. Depois de um momento, lembrei de algo. — De certo... Lisange disse algo sobre, que você havia descoberto que eu tinha chegado um momento antes que eles, a que ela se referia? Seu rosto ficou concentrado. — Bem, intuí que sua transformação era iminente e tentei avisá-la, mas você não acreditou em mim, dizia que era muito cedo. — E por que me aconteceu agora? — Eu não sei, ninguém sabe ao certo quando vai acontecer. — Mas você sabia. — insisti. — Como? Ele parecia desconfortável. — Observei você durante muito tempo, então pude apreciar as mudanças, sobre tudo os de sua pele. — Você sempre tem tanta dificuldade quando vai matar alguém? — eu quis saber revirando os olhos. — A verdade é que não. — suspirou. — Infelizmente, com você parece que tudo é diferente. — Obrigada... — gaguejei. — Suponho. — Não de graças por algo assim.

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A estranha sensação voltou em mim, mais forte do que antes, estremecendo meu corpo. Remexi-me no assento e me enrolei, olhando a paisagem, para que ele não pudesse ver o sorriso de felicidade que pairava nos meus lábios. Contemplei seu reflexo no vidro. Estava tirando sua jaqueta sem prestar atenção à estrada. Um instante depois a colocou sobre meu corpo, e seu cheiro embriagou minha cabeça. Preocupava-se comigo, pensei. Talvez... Não, balancei a cabeça. Isso não... Era impossível. Ele era perfeito e, como tal, estava completamente fora do meu alcance. Mas eu lhe importava, e por muito que me surpreendesse a possibilidade, talvez esse pequeno e, à primeira vista, insignificante detalhe poderia me bastar para chegar a ser feliz. Com esse pensamento rodando em minha cabeça, caí em um profundo sono, imaginando que estava na cama, abraçada ao maravilhoso corpo de Christian Dubois. — Chegamos. — uma voz sussurrou em meu ouvido. Abri os olhos lentamente, e me sobressaltei ao ver seu rosto a apenas alguns centímetros do meu. Eu podia sentir sua respiração se misturando com a minha. — Obrigada. — eu disse com um fio de voz, me recompondo, quanto tempo havia passado? Ele se afastou lentamente de mim. — Vou te ver amanhã? — Quando você quiser. Sorri e voltei para casa. Liam e Lisange estavam na sala de estar, para variar, e ainda usavam roupas de equitação. Captei o cheiro de Flávio, que vinha do andar de cima.

— Francamente, Liam, você deveria dizer a esta menina que pare de assediá-lo. — a voz de Lisange soava muito frustrada. — Tenho tentado de todas as formas existentes não ser rude, mas nada parece funcionar. — dizia ele com voz abatida. — Talvez devesse considerar a possibilidade de não ser educado com ela. — Você sabe que não posso fazer isso.

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— Eu sei. — suspirou, caindo no sofá com os braços cruzados. Liam sentou-se ao lado dela, parecendo cansado e, finalmente reparou em mim. — Como foi seu dia, Lena? Entrei na sala. — Nada fora do normal. — disse. — Exceto que eu tive um pequeno acidente com a bicicleta. Olharam-me preocupados. — Eu estou bem, mas ficou um pouco... — Por que a pegou? Não tinha consciência da nova força que você tem? — Lisange perguntou. Avancei e me sentei em uma cadeira. — Eu temo que não. Não tinha tido nenhum problema até agora. Estava pensando em algo e perdi o controle. — fiquei com o olhar perdido, lembrando tudo o que tinha acontecido depois. — Há algo que a preocupe? — Liam perguntou educadamente. — Não. — menti, saindo do meu devaneio. Sim, era preocupante que eu tinha me apaixonado por Christian, mas senti pânico ante a ideia de ter que contar a eles. Aparentemente, era algo que eu teria que guardar para mim. De repente, um brilhante papel de ouro colocado sobre a mesa chamou toda a minha atenção. Nele havia desenhado palavras com uma caligrafia elegante e ornamentada. Aproximei-me para vê-lo melhor. — O que é isso? — eu quis saber. Lisange se adiantou, pegou o papel e fez dançar na minha frente com um sorriso radiante. Todo vestígio de frustração desapareceu de seu rosto. — Isso, senhorita. — ela cantarolou. — É um convite para uma festa anual para os Caçadores da região. Olhei de Lisange para Liam tentando encontrar algum sentido. — Na verdade é uma tela. — confessou. — Organiza-se uma celebração para que vejam os humanos, mas na verdade é um encontro da nossa espécie. Com eles lá, os guardas não se atrevem a atacar.

151 — Tem tantos Caçadores aqui? — eu disse sem acreditar no que ouvia. — Estão por toda parte. — Liam sorriu, minha ignorância devia parecer-lhe divertida. — Poucos, mas bem distribuídos. — Por que nunca nos relacionamos com eles? — perguntei espantada, mesmo que conhecer mais pessoas como nós, fez-me especialmente nervosa. — Com séculos pela frente, uma vez por ano já é suficiente. — disse ele. De repente, Lisange concentrou-se muito em algo e isso me assustou, não podia ser nada bom. — O que está acontecendo? Ela demorou em responder, com os olhos fechados e o rosto sério. — Temos de encontrar algo para você vestir. — Eu não vou. — respondi revirando os olhos. — Você está louca? Você não pode faltar! É como sua apresentação na sociedade. — repreendeu-me, me olhando como se eu tivesse acabado de me transformar em um monstro grande e peludo. Estiquei-me um pouco na cadeira e fiz um gesto com a mão com desdém. — Você não faltará. — Flávio apareceu pela porta. Tendo em conta o terrível aspecto que apresentava ultimamente por causa do calor, nesse momento estava bastante bem. — Lena irá e se divertirá. — sentenciou. — Te falta distração. — Não desse tipo. — assegurei. — Além disso, não sei dançar. — Que desculpa mais boba! Pensei que você fosse mais inteligente. — exclamou Flávio rindo. — É verdade. — E como você sabe que é assim? — pegou minha mão e a puxou até que fiquei de pé na frente dele. — Não digo que você tenha que saber como se dançava no século XVIII. — disse ele, pegando a minha mão e colocando a outra nas minhas costas. — Mas há certas danças que são indispensáveis.

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Baixei os olhos, eu era muito tímida para me submeter a tais situações, todos os De Cote estavam se divertindo à custa de minha vergonha. Mordi meu lábio nervosamente e coloquei minha mão em seu ombro, tomando muito cuidado para não levantar o olhar do chão para não encontrar seus olhos. Antes que percebesse, estava dando voltas pela sala. — Olha Lena. — riu Flávio enquanto cantarolava uma canção. — Você está dançando! E se você decidir levantar os olhos tenho certeza que iria desfrutar muito mais. — sussurrou. — Não estou me divertindo nada, Flávio. — afastando-me dele, voltei para a cadeira. — Vocês sabem que eu não me ajustarei lá, além do mais, eu me preocupo muito pouco com essas coisas. — Mas eu sim. — alegou Lisange, colocando de pé. — Então, sua obrigação como nova irmã é me deixar feliz. — Você não pode fazer isso... — eu disse, mas ela se aproximou de mim com ambas as mãos nos quadris e expressão intimidadora. — Amanhã quero você bem concentrada, Lena. Temos só um dia, por isso depois de ir a faculdade, procuraremos algo adequado para você vestir. — sorriu radiante e me deu uma palmadinha animada. — Será divertido. Olhei para Liam, suplicando. — Salve-me, te suplico. — sussurrei para ele. — Não penso em provocar a ira de Lisange. — ele se desculpou com um sorriso. — Acho que você não vai querer desagradar sua irmã favorita, certo? Eu fiz uma careta para ele. — Você é a única que eu tenho. — Não fará isso por mim? — ela fez um biquinho. — Você é um ser odioso, sabia? — corri escada acima fugindo com tudo que eu podia, antes que me envolvessem em algo mais. — Esta você me deve; Lisange De Cote. — gritei-lhe lá de cima. Seu riso triunfante chegou nítido aos meus ouvidos.

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Cinturão negro de caratê.



Lisange já foi?

Baixei correndo os degraus tentando calçar-me as sandálias direito. Estive a ponto de tropeçar em Caim... Ou Golias. Ao gato não havia ocorrido melhor idéia que se enrolar no meio dos degraus. — Sim, tinha que fazer umas coisas antes. Disse-me que te veria ali, as nove em ponto. — disse Flávio com um pequeno cubo de gelo na boca. Olhei o relógio e suspirei, não ia tão mal de tempo. Detive-me frente ao espelho que havia próximo à porta, tentando encontrar uma solução de última hora para meu cabelo, mas o reflexo me recordou que agora parecia brilhante e penteado. Sorri e me voltei para Flávio. — Bom, me vou, te vejo logo. Saí veloz de casa. Por sorte estava nublado e o sol não chegava à cidade, mas o calor que eu sentia era como de 40 graus à sombra. Pareceu-me terrivelmente tentador regressar e pedir a Flávio que me deixasse mais perto, mas deixei a idéia; se andasse depressa não tardaria muito em chegar. Não estava muito longe e apesar da temperatura, eu continuava preferindo ir ao ar livre, em especial desde que podia apreciar a nuance com tanta claridade. Cheguei a uma das ruas principais, praticamente vazia. Todo mundo já estava trabalhando e os que ainda não, arrancavam os últimos minutos de seus despertadores antes de se levantarem. O pior desses dias nos que a cidade parecia deserta era que, se nas avenidas principais apenas havia gente, nas pequenas e estreitas ruelas que serpenteavam pelo interior já não encontrava nem uma alma e esse era, o caminho que eu deveria tomar. Entrei um pouco mais. A proximidade de uns edifícios com outros impedia a entrada da luz do sol. Só havia atravessado essa zona um par de vezes no tempo que morava ali, e havia sido antes de me transformar.

155 Rodeava-lhe uma atmosfera de inquietude, algo que me colocava bastante nervosa. Nunca havia visto ninguém nelas, mas era como se cem olhos estivessem postos em cada um dos meus movimentos. Por muito que agora eu era o que era, esse lugar me intimidava. Se tivesse sido um pouco mais esperta, teria pensado em fazer um desvio; contudo, esse era o único caminho que conhecia. Parei. Meu ouvido sobrenatural captou uns passos que se aproximavam de mim, nervosos e pesados; alguém me seguia. Continuei andando, agora mais devagar, pendente de cada pisada que chegava a meus ouvidos. Eram lentas e ressoavam na calçada e nas pequenas poças de água do solo. Um segundo mais tarde, ficaram mais rápidas e depois corriam. Então, eu também comecei a correr. Algo passou ao meu lado a toda velocidade agarrando a alça da minha bolsa. Não vi nem sequer o rosto. Como ação reflexa, eu também a sujeitei e tirei dele. Meu movimento foi tão forte, que o estanho voou no ar, e foi dar contra a parede do edifício oposto, caindo no chão, inconsciente, entre dois recipientes de reciclagem. Não podia haver imaginado que isso aconteceria. Olhei em sua direção assustada, mas não me atrevi a me aproximar para ver se ele estava bem. Fugi dali rapidamente, ziguezagueando entre as ruelas, com a sensação de que alguém me seguia de perto. Olhei para trás, mas não havia ninguém. Continuei correndo sem parar até que saí de novo à avenida principal. Ali me choquei contra algo e caí. — Esta bem? — Flávio! — engasguei. Estendeu-me uma mão para me ajudar a levantar. — O que aconteceu? — Um homem tentou me assaltar. — disse tentando fazer com que minha respiração voltasse a normaliza-se. Ele pareceu contrariado. — Onde ele está?

156 — Não sei, mas não creio que esteja bem. — olhei para trás assustada. — Creio que o machuquei. Sua expressão ficou tensa. — Bateu nele? — Não era minha intenção, eu puxei a alça e, ao fazê-lo, joguei-o contra uma parede. Franziu o cenho. — Acha que alguém viu isso? — Não, a rua estava deserta. — Me mostre onde. Guiei Flávio de novo através do interior, não me custou encontrar o lugar. Contudo, eu fiquei atrás enquanto ele inspecionava a zona. — Esta segura de que é aqui? — me disse olhando ao seu redor. — Completamente. Finas linhas cruzaram a sua testa. — Que foi? — perguntei com ansiedade. — Aqui não há ninguém, deveria estar inconsciente, a menos... — virou para mim com os olhos estreitados. —... A menos que tenha aprendido a controlar tua força e o golpe não foi tão grave. — Mas foi eu te asseguro. Foi jogado contra a parede. — a imagem regressou a minha mente e dei um passo para atrás. — Não era humano. — reflexionou para si mesmo. — Se fosse deveria estar aqui, ao menos, aturdido. Voltou a olhar ao seu redor, com os sentidos aguçados. — Que quer dizer? — Alguém tentou averiguar si você já se transformou.

157 — Quem? — Não sei, mas me faz um favor, Lena, evita este tipo de ruas. Assenti que o faria. Regressamos de novo a civilização, onde o ruído já se havia despertado entre os habitantes. — Como me encontrou? — lhe perguntei. — Pensei que não chegaria a tempo e ti segui com o carro. — Deveria me preocupar pelo que acaba de ocorrer? Ele hesitou. — Tem que tomar cuidado para não mostrar suas habilidades em público. — Não foi voluntário. — me defendi. — Eu mesma me surpreendi, não podia controlá-lo. — Deve fazê-lo. Não tenho a menor dúvida de que existe um bom numero de Guardiões e Grandes Predadores que estarão encantados de saber que há um novo Caçador na cidade. — fez uma pausa. — Há os que não estão sozinhos, Lena, é muito provável que neste lugar haja mais de um á espreita. — Obrigada por me ajudar. — respondi envergonhada pela situação. — Vamos; eu te acompanharei. Ia perguntar-lhe para onde quando, de repente, recordei. — Lisange! Eu havia esquecido por completo. Devia estar me esperando há pelo menos meia hora. Olhei-o com pavor e ele assentiu. Lisange brincava com o relógio a beira da histeria quando conseguimos vêla junto á entrada. — Te verei esta noite, Lena. — disse me dando um pequeno beijo na testa. — Que tenha um bom dia. — Não vem?

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Sorriu cortês. — Devo ir ao trabalho. — Oh, claro. — Lisange cuidará bem de você. — brincou. — Sim. — sorri. — Eu sei. Obrigada por tudo, de novo. O rosto de Lisange relaxou por completo quando me viu chegar. — Por fim. — exclamou, lançando-se sobre mim e tomando meu braço. — Achei que havia se arrependido. — Não, sinto pelo atraso. — dei uma ultima e fugaz olhada para o carro enquanto desaparecia pela estrada. Atravessamos a cerca e o pequeno caminho que nos separava dos grandes portões do edifício. Lisange avançava dando saltinhos de emoção. Os exames chegam a ser muito importante para muita gente, mas apaixonantes... Já havia muitos jovens quando entramos. Passavam de um lugar ao outro falando animadamente. Lisange olhava ao seu redor, admirando cada pequeno detalhe com os olhos muito abertos, inclusive para ela. Tudo era de madeira de cobre: as paredes, o mobiliário, o parquet7 do piso... Um elegante tapete cobria quase a totalidade do grande vestíbulo e uma antiquissima lâmpada pendurada no teto. Atravessamos várias salas, mas ela não parecia interessada no conteúdo das mesas que se dispersavam por todas as partes abarrotadas de formulários e folhetos das diversas e diferentes carreiras e universidades, ao redor das quais se agrupavam um bom número de alunos, com as cabeças muito juntas entre eles e falando em sussurros.

7

Piso de Madeira - Assoalho - Piso de Taco

159 — Não quer informação? — lhe perguntei quando passamos pela quinta sala sem nos aproximar nem sequer um pouco a nenhuma das mesas. — Tenho centenas de informações; só quero sentir este ambiente, estar aqui dentro entre tanta gente normal como uma aluna a mais. — me olhou, os olhos brilhavam. — Não é emocionante? Seguramente, o fato de ter sido uma deles a mais toda uma vida era razão pela qual eu não via com a mesma emoção. De todas as formas, ela não aguardou resposta alguma. Ela puxou meu braço e me fez atravessar todas as salas, admirando-as uma por uma e analisando a cada um dos estudantes, com olhadas tão penetrantes que em ocasiões tinha que dar-lhe uma cotovelada para avisar-lhe de que estavam dando-se conta de sua pouca disfarçada observação. Depois de perder a conta do número de voltas que demos, tive que lhe recordar o porquê de ter vindo. Ela fez cara de espanto e me arrastou até a improvisada mesa que haviam colocado ao final de uma aula repleta de cadeiras onde as pessoas preenchiam seus impressos. Demos toda a documentação à senhora que se encarregava de guardar todos os papéis, uma mulher com o cabelo recolhido para trás, óculos meia lua com cadeia e boca enrugada. Depois de examinar cuidadosamente nossos papéis, nos entregou duas solicitações. — Preencha com toda a informação e me traga de novo. — nos indicou. Nós nos sentamos no fundo, a única zona que ainda tinha lugar livre, e examinamos os impressos. A verdade é que o meu era um mero jogo, porque Flávio já havia acertado com o colégio que eu faria minhas provas lá, mas Lisange sim devia fazer-lo porque também se apresentava aos exames pré-universitários. Para mim ainda faltava um curso para isso. — Menores de 25? — li por cima do formulário de Lisange. — Não creio que haja nenhum para maiores de 100. emocionada. Um garoto passou ao nosso lado e ficou nos olhando. —Podia ter o “para maiores”. N~o acha? — Creio que ganhei o direito de tirar uns anos.

— comentou

160 — Umas centenas de anos você quer dizer. — apontei. Ambas rimos. — A idade não importa quando não envelhece. E, inclusive em nosso mundo. – sussurrou aproximando-se mais a mim. — Sou bastante jovem. — Então, eu o que sou? — perguntei com os olhos muito abertos. — Um bebê? — Sim, isso se aproxima bastante. — sorriu mostrando sua perfeita dentição. — Genial. — disse sarcasticamente. — Assim que ainda terei que esperar umas centenas de anos até que possa ganhar respeito. — Pobre menina impertinente... — zombou. Dei-lhe um sorriso largo, mas, nesse momento, seus olhos se desviaram para a entrada da sala. — Não pode ser. — sussurrou ela de repente, encolhendo-se sem deixar de olhar para lá. — O que Silvana faz aqui? — Quem? Segui o trajeto de seu olhar até a entrada. Justo ali, uma menina alta e loira olhava a sala com interesse. — Uma humana que assedia Liam. — explicou entre os dentes. — Segue-lhe por toda parte. Olhei-a confusa. — Acreditava que não nos relacionávamos com gente normal. — O problema é outro: ele se esquiva, mas ela está obcecada. — ela bufou. — Ou pior... Apaixonada. Lisange estreitou os olhos, como se tentasse ver através da garota. Sentou-se junto a um menino loiro com o cabelo ainda mais claro que o seu. Ele também estava preenchendo formulários.

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— Se parecem muito. — apontei. — Talvez sejam irmãos. — Sim, seguramente. — tirou o olhar dela e voltou a concentrar-se no papel que tinha em frente. — Terminemos logo e vamos embora daqui; temos muito que fazer. Na saída do edifício, Lisange me obrigou a buscar algo bonito para a festa. Não sei quantas lojas, mas desde logo passamos por três cidades diferentes, entrando em todas as butiques que Lisange encontrava em nosso caminho. Tinha um talento natural para encontrar essas lojas. As vendedoras se maravilhavam ao vê-la entrar não sei se por sua aparência de modelo ou pelo gordo cartão de crédito. Talvez fossem ambas as coisas. Era uma dessas poucas pessoas que podem presumir ter estilo; um estilo simples, elegante e nada carregado. Elas a conheciam na maior parte dos lugares que visitamos. Esgotou a todos os empregados e eu estive provando peça atrás de peça, mas nada satisfazia Lisange. Cada vez estava mais segura de que ela buscava algo que não existia. Contudo, aproveitou a situação para me carregar com umas quantas bolsas de roupa nova para meu armário, mas desta vez foi diferente porque, ao menos, me deixou escolher. Era tão boa cliente, e estavam tão maravilhados com ela, que muitos designers lhe presenteavam com roupas. Eu estava assombrada, claro. Inclusive, me surpreendia que Lisange não houvesse sido capa de alguma revista de beleza. E, em contrapartida, nunca tinha visto ela se olhando no espelho mais do que necessário, ou mostrando sua beleza, ou mesmo se vangloriando. Seguramente era algo que tinha assumido; algo que formava parte dela e que havia aprendido a ignorar ao longo dos séculos. Chegamos tarde a casa. Lisange estava um pouco decepcionada por não haver encontrado o que buscava para mim.

162 — Que você vai usar? — disse para tentar animá-la enquanto soltava as bolsas sobre uma cadeira. — Quer vê-lo? — respondeu voltando-se para mim, com os olhos brilhando. — Claro. — sorri, estava segura de que morria de vontade de me mostrar. — Acompanhe-me a meu quarto. Seu quarto não era nada parecido ao meu, agora que o observava, tinha a sensação de que meu quarto destoava completamente do resto da casa. O de Lisange era pelo menos o dobro em tamanho e mais antigo. No único que meu pequeno quarto ganhava do seu, essa na simplicidade. Suas janelas, ao contrário das minhas iam do teto ao chão, cobertas por pesadas cortinas de cor creme presas com bolas douradas, os móveis eram de madeira brilhante e polida, mas o que de verdade o diferenciava era a incrível cama que resplandecia no centro da parede lateral. Era enorme, tinha inclusive uns curiosos degraus para subir até ela, e estava adornada com um magnífico dosel de seda da mesma cor que toda a tapeçaria. Justo em frente destacava uma grande lareira, claro que apagada. Sobre ela havia uma grande pintura a óleo emoldurada. Lisange me observava desde o retrato, mas não tal e como eu a conhecia; seu olhar era mais inocente, e seus olhos, invés de negros como a noite, eram azuis, o azul mais intenso que havia visto antes e sua pele, apesar de ser também pálida, possuía um leve rubor rosáceo nas bochechas. Senti uma pontada nas costas. Ela sempre havia sido bonita. — É lindo. — sussurrei. Lisange se aproximou a mim e o contemplou durante um instante ao meu lado, mas sem a mesma emoção como era normal. — Terminaram uma semana antes de minha morte. — disse passando um dedo pela lona. — Não recordo se cheguei a completar dezoito. A primeira vez que o vi, já era tarde. Olhei para ela e de novo para o retrato, agora era inclusive mais impressionante. — Então, sempre foi linda, deve ter sido bom se sentir assim.

163 — Você também é, e será ainda mais. — Que quer dizer? — perguntei sem compreender. — Ao contrário dos humanos, tempo nos beneficiam; se estamos bem alimentados ganhamos beleza com os anos. Pensei nele, a verdade é que isso era um grande ponto a favor, para que negá-lo, algo alentador que ajudava a carregar a perspectiva de vários séculos de existência por diante. — Então, por isso Liam... — Ele já era imponente antes de morrer. — reconheceu. — Igual você. — apontei. — A beleza para mim não serviu de nada, Lena. Voltei-me, apoiando as costas contra a lareira. — Quem me dera pudesse ter alguma lembrança de minha vida antiga. — Ainda é cedo. — Sempre diz o mesmo, mais me põe nervosa não saber nada de mim, quem me garante que não fui uma pessoa cruel? — Não creio que foi, Lena, seria aqui também. — Talvez tenha me suicidado... — aventurei. Deixei seu lenço sobre o aparador e voltou a me falar. — Não creio, não parece o tipo de pessoa que buscaria sua própria morte. Afastei o olhar, estava claro que ela não me conhecia tão bem como pensava. — Além do mais. — continuou. — Não é tão... Simples. É preciso um grande número de fatores para chegar a esta “vida”. Reuni muitas características, n~o físicas, mas sim psicológicas. Entre elas uma grande força mental e outras muitas que nós não conhecemos. E, ainda para alguém reunir essas peculiaridades, deve ser aprovado pelo [i]Ente[/i].

164 — O que é Ente? — perguntei, não havia ouvido falar disso. — É algo parecido a uma sociedade pequena que controla essas coisas. Está formado por Caçadores, Guardiãs e Grandes Predadores. Para dizer a verdade, são eles que ordenam tudo isto... Especialmente o tema do equilíbrio. São muito importantes. — Isso Christian não me havia contado... — Será mais feliz se esquecer todo o lado negativo deste assunto. Caminhou para um grande baú colocado sob a janela e tirou algo enorme, um monte de tela junta. Estendeu ante mim e tive que esforçar-me para não abrir a boca de assombro. Lisange estendia sobre seu corpo um maravilhoso traje de época de cor verde pastel muito claro. Dado meus escassos conhecimentos em história da moda, só posso dizer que esse traje, sem dúvida, era do tipo de Maria Antonieta. Era francamente bonito e demonstrava que Lisange não havia usado esse estilo simples, mas elegante que agora a caracterizava. Tinha um decote quadrado decorado com pequenos laços que desciam pela coluna na parte frontal do corpete. As mangas pareciam que se ajustavam para os cotovelos, de onde logo saiam pequenos volumes de encaixe branco. Tal e como o via, era enorme, em especial pelo volume da saia. Nunca havia visto tanta tela junta em uma única roupa, e isso supus era apenas a ultima capa. A quantidade de coisas que teria que pôr para armar esse vestido teria que ser surpreendente. — Lisange... É maravilhoso. — disse impressionada. — Faz séculos que não visto, literalmente falando, mas o mantive bem cuidado porque me encanta. — Ficará genial em você. — A última vez que o usei foi... — fez uma careta. — No dia de minha morte. — meditou um segundo. Logo forçou um sorriso. — Neguei-me a voltar a colocá-lo durante todo este tempo. — disse olhando-se no espelho de corpo inteiro que havia perto a janela.

165 — Vou destoar mais do que o normal ao teu lado. — tentei rir para acabar com a pressão do ambiente. Ela piscou e voltou a se mostrar alegre. — Ficará surpresa com o que verá lá. — me disse sorrindo. — Cada um vai conforme a época na qual morreu; por isso eu usarei isto e o seu será mais atual. — E... Os humanos? — Eles pensam que devem ir disfarçados de época ou vestidos de gala, podem escolher e assim não se surpreendem. — soltou uma risada e voltou a se olhar no espelho, pensativa. — Vem ao meu lado. — chamou. Fui para junto dela e ela colocou o traje sobre meu corpo. — Tem razão Lena, vai destoar bastante. Não pode ir vestida conforme esta época, todos fariam muitas perguntas. Uma Caçadora recém nascida? Todos tentaram saber coisas sobre você... Não quero fazer você passar por isso. — disse mordendo o lábio inferior. — Temos que buscar algo menos recente, mas tampouco tão antigo como isto porque notariam que é muito mais jovem. Deixou o vestido sobre a cama e deu uma volta ao meu redor, avaliando algo e dando pequenos golpes na ponta do queixo com um dedo, pensando. De repente sorriu triunfal. — O que acha de algo dos princípios do século XIX? — Em que está pensando? — perguntei retrocedendo um passo. — Creio que conservo algo dessa época. — Está me assustando. —Tenho um branco, lindo. Ficará perfeito e ressaltará esse ar inocente que você tem. Resignei-me. — Promete-me que não me arrependerei por confiar em você. Deu-me seu melhor sorriso. — Você não vai se arrepender, eu te asseguro.

166 Mas não me ensinou. No lugar disso, me obrigou a passar toda a noite submersa na água gelada para poder estar “fresca” no dia seguinte. Assim que fiquei ali adormecida, á tona entre cubos de gelo.

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168

A magia não existe.

Lisange retrocedeu um passo para contemplar sua obra, sorriu e aplaudiu emocionada. A verdade é que quando falou do século XIX não imaginei exatamente a que época se referia. O vestido era branco e de musseline 8, desses de cintura alta e decotada que se usava com luvas que chegavam até os cotovelos na época de histórias como Orgulho e Preconceito. Tenho que admitir que quando me mostrou, gostei mais do que esperava; era simples, sem grandes ornamentos, e isso me encantava. Algo que não perdoaria na vida é que me obrigasse a colocar um espartilho. Disse-me que não tinha motivos para reclamar, porque respirar já não era necessário, e não poderia refutar essa resposta. De qualquer forma, assegurou que a agradeceria quando visse o resultado final. Cobriu-me os olhos antes de deixar que me visse no espelho e os destampou com um “Voil|9” e um enorme sorriso. Nesse momento compreendi o significado da palavra narcisismo. Resultava difícil de acreditar que a garota do reflexo era a mesma que havia conhecido essa manhã em meu quarto. Pisquei um par de vezes e continuava estando ali, olhando-me com uns perfeitos olhos negros. Lisange havia cuidado de cada detalhe, desde os sapatos quase planos com laço até o coque elaborado e distinto, do estilo grego que havia feito entrelaçando todo meu cabelo com pequenas pedras de zircônia. Esse era o único complemento que usava; nem colares, nem brincos, nem pulseiras, só essa discreta decoração no penteado e um cinto de seda rosada abaixo do peito, que rodeava a cintura e caía livre pela parte traseira do vestido. Também havia insistido no tema da maquiagem, mas, por sorte para mim, o único que havia feito foi colocar um pouco de blush nas bochechas (porque

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Tecido. Idioma francês e significa "eis aí".

169 beliscões já não serviam de nada), ressaltado os olhos e aumentado ligeiramente o tom dos meus lábios; tudo de forma muito natural. — Esta perfeita. — me disse, unindo-se a mim, frente ao espelho. — Como o fez? — Séculos de experiência no setor. — zombou. — Tem que me ensinar a fazer estas coisas. Seu sorriso ampliou-se mais, eu ter lhe pedido isso significava que estava mais que satisfeita com seu trabalho e proporcionava a perspectiva de muitas tardes de truques de beleza. Olhei-me de perfil abri muitos os olhos, o vestido era muito decotado para o meu gosto, mas devia admitir que esse corpete tinha sido uma grande idéia. — Bem, é incrível. — admiti. — Não importa o tempo que tenha passado, segue ficando fracamente bem. Por sorte sempre nos ficaram estas ocasiões para desempoleirá-los. Sorri, parecia que inclusive haviam crescido uns quantos centímetros. — Continue deleitando-se com seu reflexo enquanto eu me preparo. Não a ouvi ir-se, nem tampouco regressar meia hora mais tarde. — Que te parece? Olhei-a e, imediatamente depois, me arrependi. Foi ainda pior do que eu havia imaginado. Se meu traje era simples, o seu era todo o contrário. Usava um cinto rodeando-lhe o pescoço uns adornos colocados na pequena torre que havia feito com seu cabelo. Como havia conseguido fazer ela sozinha semelhante penteado? — Você fez algum tipo de pacto secreto para ser assim. — censurei-a. — Não é humanamente possível ter esse aspecto. Ela encolheu os ombros. — Esquece que não sou... — me recordou enquanto se aproximava do tocador e maquiava algo em seu decote.

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— Nem eu tampouco, e olha-me. — Lena, deixa de choradeira, está incrível. — disse levantando muito as sobrancelhas, e suspirando. — Pobres jovens mortais, que será de suas curtas e insignificantes vidas depois de te ver esta noite? — Que graciosa... Sorri ao ver Liam, vestido tão e como eu havia imaginado no primeiro dia, como um príncipe, bom... Ou algo parecido. Nestes tempos, somente ele seria capaz de usar uns pequenos shorts com meias brancas e botas de couro sem perder o ápice de masculinidade ou sem provocar um risinho. Na parte superior usava uma jaqueta negra de mangas volumosas e cortadas, de modo que deixavam ver uma camisa branca por baixo. Complementava a roupa com capa e um chapéu desses de abas largas enfeitado com uma pena incrível. Quando nos viu, tirou-o da cabeça com graça agitando-o no ar com um floreio enquanto se inclinava para frente em modo de saudação. Continuava sem entender porque não havia me apaixonado por ele.

***

Tudo havia sido muito fácil; o havia tido próximo e não me perguntaria todos os dias à quantas pessoas havia danificado nas ultimas horas. — Esplêndida. — disse tomando minha mão, e a beijando como sempre. — Obrigada. — respondi baixando o olhar, envergonhada. Lisange sorria, sem dúvida desfrutava de tudo aquilo. Flávio apareceu ao meu lado, com um traje bastante atual. Era negro e constava de uma jaqueta curta na frente e grande atrás, adornada com uma delicada rosa em uma casa de botão. Sob ela destacavam-se uma camisa, um colete e uma gravata de laços brancos. Para completar a roupa, levava um complemento ao disfarce, ele usava uma cartola na cabeça e um pequeno bastão com um botão prata em uma mão. — Teria a bondade de me acompanhar madame? — perguntou estendendome um braço.

171 Sorri, coibida e aceitei. Chegamos ao carro de Liam. Surpreendi-me ao comprovar que não estava tão longe da civilização como a casa dos De Cote. Nessa zona me atreveria a dizer que havia inclusive habitantes humanos, a julgar pela quantidade de cercas próximas. A festa era celebrada em um grande casarão. Desde fora parecia uma enorme caixa retangular de cor de osso com dezenas de grandes janelas longas. O lugar não parecia tão abandonado como o resto dos casarões da cidade e ainda mantinha esse ar de majestosa pomposidade. Todas as luzes estavam acesas e do interior chegaram sons de vozes acompanhadas por uma música melodiosa. Fora, a rua estava repleta de carros de diversas épocas e inclusive de antigas carruagens; conduzidos por cavalos, que pastavam tranquilamente na lateral. Flávio me ofereceu o braço de novo e nós quatro no dirigimos à entrada. — Esta noite seremos os cavaleiros mais invejados de toda a festa — Flávio disse a Liam, com um sorriso. — Por estarmos acompanhados das damas mais formosas do lugar. Olhei para o chão, envergonhada. Subimos por uma pequena estrada até a entrada. Ali havia mais gente tomando um pouco de ar e falando animadamente. Percebi mais de uma olhava furtiva em nossa direção. — Os De Cote! Recebeu-nos um homem alto e magro, com barba pontuda e um monóculo 10 no olho direito. Nos fez passar sem demora. Beijou minha mão e a de Lisange com um sorriso cordial e fez uma leve reverência a Liam, que em troca, lhe dedicou um breve aperto de mãos. Quando estivamos dentro, a luz me deslumbrou. Tudo era grande, carregado e muito luminoso, de cores muito claras. A festa se estendia pelo andar térreo, que era enorme; na verdade, era tão grande que haviam usado tão somente uma pequena parte do centro para convertê-lo em uma incrível pista de baile. Na borda, se dividiam numerosas mesas com alguns petiscos para, claro, deleite, dos que ainda viviam. Ao fundo, coroado sob uma delicada cortina dourada, tocava uma banda de música muito famosa. Algo me disse que eles tampouco eram humanos.

10

Monóculo é um tipo de lente corretiva utilizados para corrigir a visão em apenas um olho. É constituída por uma lente circular.

172 Havia mais gente ali do que poderia ter imaginado. Mais do que uma festa parecia um concurso de fantasias de época. Resultava muito fácil diferenciar os vivos dos mortos; os primeiros, coibidos, estavam muito mais separados do que os segundo que haviam dominado por completo o centro da sala maior, na qual agora, nos encontrávamos. — E isto, Lena. – sussurrou Lisange ao ouvido. — É toda a alta sociedade. — Me arrisco a aventurar que os humanos não se encontram nada cômodos nesta celebração. — comentou Liam. — Então, porque eles vêm? — perguntei. — Porque é um evento da sociedade Olhei ao meu redor. — É esmagador. Liam e Lisange se desenvolviam perfeitamente entre toda aquela gente, saudando a um e outro, enquanto eu lhes seguia com Flávio. Apresentaram-me como uma prima distante que vinha para passar um tempo nessa cidade. Eu me limitei a sorrir e a me encabular quando tinha oportunidade. De repente, quando estávamos ali há cerca de meia hora, a metade das pessoas voltou suas cabeças para a entrada. Alguém acabava de chegar, mas entre minha estatura, as altas perucas de algumas das pessoas e toda a gente que se interpunha entre essas portas, eu não fui capaz de ver de quem se tratava. Senti o impulso de subir em uma cadeira para ver algo, mas tive que me reprimir. Busquei com o olhar a algum dos De Cote. Mas tampouco os encontrei. Contudo, minha atenção se desviou para um homem alto que olhava quase indignado nessa direção. Seus olhos eram negros, sua pele pálida e seu carcomido uniforme militar parecia bastante autentico, então me aproximei dele. — O que aconteceu? — perguntei em sussurro. O homem afastou o olhar do lugar e o centrou em mim; parecia impressionado e me analisou exatamente da mesma maneira que eu havia feito com ele fazia somente apenas um instante, avaliando se eu era humana ou uma das suas. Pareceu optar pelo segundo, porque se inclinou para chegar à altura de meus ouvidos e sussurrou com voz grave. — Acabam de entrar... — disse baixando ainda mais o tom de voz. — Grandes Predadores.

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— O que? — perguntei entre confusa e surpresa. — Se Lavisier lhes convidou, então foi uma brincadeira de muito mau gosto. Não quero converter-me no centro da atenção de seus monstruosos divertimentos. Estirei mais o pescoço para tentar ver algo, mas não serviu de nada. O homem voltou a agachar-me para mim. — Senhorita, melhor ficar longe de sua vista. — Terei isso em conta, obrigada. — Meu nome é Cánovas, se precisar de minha ajuda. — Lena De Cote. — De Cote? — abriu um pouco mais os olhos. — Um prazer ent~o, “My Lady11”. Beijou minha mão com uma leve reverência e se afastou, não sem antes lançar um último olhar para a entrada. Tive que me resignar em não poder ver nada. Mesclei-me entre as pessoas, observando cada rosto, cada olhar... Só havia uma pessoa quem queria encontrar ali, mas nem sequer sabia se ele havia sido um dos recém chegados. Embora, para dizer a verdade, as probabilidades eram bastante esperançosas. Coloquei-me nas pontas dos pés e tentei, em vão, voltar a buscar entre as pessoas. Justo do outro lado da sala avistei Flávio, que se dirigia ao encontro de Liam e Lisange, não muito longe de onde estava. Dei uma volta ao redor daquele espetáculo e me dirigi para os De Cote, mas então senti seu arome, doce e suave. Minha respiração e meus nervos se eriçaram. Não importa quantos aromas distintos se encontravam ali, o dele eu reconheceria em qualquer lugar. Os De Cote passaram para um segundo plano. Busquei em todas as direções, mas não o vi. Em troca, os olhares que as pessoas me dirigiam, começaram a me intimidar tanto que abandonei o centro da sala e me dirigi a zona menos concorrida, a mais distante. Ali me apoiei conta uma enorme coluna e tentei passar despercebida, com os olhos fechados para poder me centrar apenas nesse maravilhoso aroma. Suspirei...

11

Idioma Inglês, trata-se de um pronome de tratamento dispensado a uma mulher nobre.

174 — Uma dama tão formosa não deveria esconder-se em um baile. — sussurrou alguém ao meu ouvido. Abri os olhos de repente, sobressaltada. Ele estava ao meu lado, apoiado na mesma coluna que eu. — Então você é um dos Grandes Predadores que provocaram toda esta expectativa... — Não tanta como a que você tem provocado senhorita De Cote. Só por ver a expressão de seu rosto mereceu a pena todo o tempo que Lisange havia investido em meu aspecto. Olhava-me com um sorriso tênue e os olhos carregados de algo especial, um sentimento que nunca havia visto antes, como a expressão de um pai ao descobrir que sua filha já é maior. Parecia... Feliz? Tomou-me um dedo, e me fez girar sobre mim mesma, logo me beijou na mão tal e como havia feito Liam no dia que o conheci. Christian comportando-se como há séculos passados era muito mais impressionante que Liam. Desenhou-se um sorriso tonto nos lábios; estava simplesmente, perfeito. Vestia um fraque curto até os joelhos, longo atrás, todo ele de cor vermelho escuro, que deixava entrever uma jaqueta decorativa sobre umas calças brancas ajustadas que chegavam até os joelhos. Completava o conjunto com sapatos negros e meias brancas (iguais suas luvas). Os encaixes do lenço que levava no pescoço como uma gravata lhe dava um ar mais solene. Seu cabelo e seus olhos negros ressaltavam mais do que nunca. — Então você é do século... — tentei adivinhar. — Finais do século XVIII, mas precisamente principio do XIX. Princípio do XIX? Que casualidade... Lisange tinha um entranho sentido de humor. Se não fosse porque sabia que odiava Christian, juraria que ela me havia vestido assim de propósito. — É mais jovem do que esperava. — reconheci. Estreitou ligeiramente os olhos. — Decepcionada? — Somente um pouco. — brinquei.

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Liam e Lisange nos olharam do lado extremo do salão e imediatamente depois ficaram tensos. Seus olhos endureceram e fizeram e um movimento para mais perto, mas ele não parecia se importar muito. Estendeu o braço com a outra mão atrás das costas e fez uma pequena reverência. — Teria a bondade de acompanhar um humilde servo nesta noite? Sorri, sabendo que sua intenção era me afastar da vista dos De Cote. — Será um prazer. Supus que as pessoas se aproximariam para saudar ao homem cujo braço eu passeava, tal e qual havia ocorrido com Liam e Lisange, mas não aconteceu assim. Muitos nos olhavam com receio desde a pista de baile, a maioria com medo; então recordei todos os comentários referentes ao amplo histórico de Christian em temas de tortura a Caçadores. Isso não ajudou a me sentir mais cômoda. A situação já era bastante tensa para mim. Estava morta de vergonha pelo simples fato de ter seu corpo tão perto do meu, desejava que não lhe ocorresse querer dançar comigo porque não poderia aguentar muito tempo ao seu lado sem desmaiar... Portanto, somar isso a sua fama e a reprovação das pessoas, fazia tudo muito mais complicado para mim. Ainda assim, havia quem lhe dirigia uma cortês inclinação de cabeça em modo de saudação, muito temeroso de lhe ofender. Tentei com todas minhas forças não me perguntar a quantos dessa sala, havia atormentado ou feito dano em alguma ocasião. Sacudi a cabeça para afugentar esse pensamento. — Veio sozinho? — perguntei sem pensar enquanto ele me conduzia pela sala. — Não. — respondeu. — Com o resto da... — começou a dizer hesitante. — Família. — Quem são? — quis saber. Olhou-me avaliando algo. — Me pergunto se lhe dizer seria uma boa idéia.

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— Porque não iria ser? — Faz a você, especial ilusão conhecer a Grandes Predadores? — Você já sabe com quem eu vivo. Só quero colocar rostos aos nomes que escutei. — respondi encolhendo os ombros. — Então já ouviu falar de nos... Interessante. — Como se você não soubesse. — Sim, geralmente despertamos certo... Entusiasmo. — disse sorrindo. — Entusiasmo por sair correndo. — corrigi. Ele não riu ante meu comentário. — Exceto que, você é a única que não o fez. — Bom. — olhei ao nosso redor. — Toda esta gente ainda continua aqui. — Eles se perguntam se não há perdido ou juízo. — Sim... Às vezes eu também. — Isso sim que é interessante. — afirmou sorrindo de tal forma que temi não poder me manter em pé. Olhei para o outro lado. — Pensa em me dizer de uma vez quem são os Grandes Predadores aqui? Hesitou por um momento, logo olhou ao seu redor buscando algo e juntou sua cabeça com a minha. Meus joelhos tremeram. — O que está ali em frente, falando com aquele Caçador. — sussurrou. — É Hernan, o vê? Na realidade não, porque estava de costas para nós. O único que podia distinguir com clareza era a expressão de pânico da pessoa que o acompanhava.

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— O Caçador parece aterrorizado. — observei — Não é de estranhar, é quem você viu na outra noite. Olhei-lhe surpresa. — Esse? — pisquei. — Não tem tão mal aspecto depois do que vimos. — Me equivoquei. — tomou ar. — Não o soltou nos dois dias e sim nos três. Cada vez dedica mais tempo a cada um. — O que é que ele faz? — perguntei; na realidade, não queria saber. Arrependi-me em seguida de haver perguntado. — Dizendo a verdade. — disse. — Não tenho nem a menor idéia, e prefiro que continue sendo assim. Nunca conheci a nenhum Grande Predador que desfrutou tanto de ser o que é. Tem algumas habilidades surpreendentes que o faz ser um dos mais perigosos. – continuou enrugando o cenho. – Aquele se aproxima dele agora se chama Lester. Tenho que reconhecer que imaginava alguém parecido com Christian, mas o Grande Predador chamado Lester parecia bastante normal. Não era tão alto, embora um pouco mais corpulento. Seu cabelo caia liso de ambos os lados de um rosto afilado. Tirando os comuns olhos negros, o tom da pele e esse atrativo diferenciador, o único que se pareciam era na sombra escura que lhes envolvia e na forma de vestir; os dois utilizavam fantasias da mesma época. — Também é de sua família? — É o membro com quem melhor me entendo; usa mais a cabeça que Hernan e isso para mim é suficiente. E logo, naturalmente, está Elora. Mas parece que neste momento não está nesta sala. — explicou olhando ao seu redor. — Você se dá tão bem com ela como com Lester? — perguntei entre dentes tentando parecer despreocupada. — É diferente. Definitivamente, não é tão sádica como Hernan, mas sempre tenho a sensação de que esconde coisas. Ela é capaz de conhecer os segredos da maioria das pessoas. — Também os teus? — quis saber. Fiquei bastante tensa.

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— Descobriu nosso trato e o compartilhou com toda a família. Parei de andar e o olhei de frente. — E o que te disseram? — Queriam que compartilhasse você com eles. — eu abri a boca assustada, mas ele sorriu para mim. — Me neguei, naturalmente, têm que aprender a buscar seus próprios Caçadores. — Ok... Obrigada. Tomou ar. — E isso é tudo. Somos apenas quatro, pelo bem desta cidade. — Acreditava que era com Hernan com quem você tinha mais relação. — reconheci. — Não estranho isso, é o que os De Cote acreditam. — Como sabe? — É uma cidade pequena. — disse. — Quer dizer que não é como eles pensam? Uma pequena chama de esperança brotou em meu interior. — Não. — sussurrou. — Eles têm razão. Ignoro o que tenham te contado, mas seja o que for, devem ter suavizado para não traumatizá-la. — riu baixinho. — Não te chateia que digam isso de você? — Tenho exatamente o que ganhei, para o bem ou para o mal. Logo se virou para mim. Olhei-o e encolhi os ombros. — E agora o que? — perguntei. — É uma festa. — respondeu com um sorriso tentador. — Tentaremos nos divertir. Conduziu-me à pista de dança. Os poucos humanos que havia nela se afastaram para nos abrir caminho, mas não eram eles os mais impressionados, mas

179 sim os imortais, que nos olhavam com maior intensidade. Alguns sussurravam entre eles, mas não me importou. — Christian. — sussurrei. — Eu não sei dançar isto. — Não importa, podemos fazer como você quiser. — Não acredito que fique bem. Só de pensar em seu corpo colado ao meu, congelava minha respiração. — Então, me deixe te guiar. — sussurrou colocando uma mão em minha cintura e se aproximando mais de mim. — Esta dança não tem grandes complicações. Tomou-me com delicadeza de mão e me olhou nos olhos... Imediatamente depois afastou o olhar; estava muito nervosa, não me atrevia nem em tocá-lo, e meus joelhos tremeram de forma irracional; o calor havia aumentado uns dez graus com sua aproximação. Se meu coração palpitasse, estaria descompassado. O de Flávio não havia sido nada comparado com isto. — Você está bem? Aclarei a garganta. — Sim. — sussurrei com um fio de voz. — Não dançamos se você não quiser. — disse alçando meu queixo para poder buscar de novo meus olhos. Seu olhar me derreteu; parecia tão inocente e galã que por um momento acreditei que não seria capaz de articular uma só palavra, mas senti a atenção de muitos dos presentes postas em nós, e isso ajudou a me acordar. — Estou bem. Enchi-me de coragem, tomei sua mão e adentrei mais na pista. Ele me seguia com um sorriso divertido nos lábios. Deixei que voltasse a me pegar e, um instante depois, o salão e a multidão de lâmpadas começaram a girar ao nosso redor. Meus movimentos foram lentos, bastante lentos, mas nada comparado com os que vieram depois. Sabia que teria esses problemas de concentração com ele tão perto de mim. Seu aroma me embriagava de tal maneira que era incapaz de dar os

180 passos corretos. Comecei a me frustrar, o calor aumentava e eu estava cada vez mais nervosa. Tinha complicações com o calcado e com o vestido; não estava acostumava a me mover com semelhantes peças de arte em meu corpo. Mas Christian se mostrou muito paciente e não deixou que eu tropeçasse; quando via que isso podia ocorrer, me elevava um pouco no ar para impedir o tropeção. No final, me limitei a deixar que ele me guiasse e, enquanto o fazia, as coisas começaram a fluir de melhor maneira. A brilhante demonstração de meus dotes para a dança só provocou novos olhares, desta vez muito mais reprovatórias. A maioria dos presentes era de outro século e estava segura de que consideravam que uma garota que não sabia dançar é um desperdício. Por sorte, deixamos de ser o centro das atenções quando Liam e Lisange se incorporaram à pista. Eles brilhavam por si sós. O cabelo vermelho intenso de Lisange reluzia sob as luzes, e a cor de seu vestido fazia ressaltar sua pele albina fazendo-a parecer mais do que nunca, uma delicada boneca de porcelana. Era a inveja e frustração de todas as garotas humanas da pista, inclusiva eu, que não o era. Liam se movia com a graça de um bailarino, como se viesse fazendo isso toda a vida. Seus movimentos eram graciosos, dotados de uma elegância extinguida faz tempo. Os dois eram formosos. Se tivesse que colocar uma imagem para cada palavra, eles representariam a perfeição. Estava convencida de que poderiam se apoderar do universo e escravizar o mundo, que todos continuariam os amando. Só uma pessoa me ocorria ser capaz de competir contra essa formosura: Christian. Ele não era nem mais nem menos maravilhoso que eles; sua beleza era diferente. Em Liam e Lisange tudo era harmonia, em Christian, escuridão; a noite e o dia. Odeio fazer essa comparação, mas não existe exemplo mais claro. O coração de Christian palpitava com força, um pouco mais rápido do que o normal. Inconscientemente apoiei a cabeça contra seu duro peito para poder me deleitar com isso enquanto lhe contemplava dançar, em seu mundo, estranho a toda a admiração que despertavam. Por desgraça, ainda havia olhos postos em nos. Seguramente que todos se perguntavam que fazia Christian dançando com alguém como eu, inclusive eu mesma o fazia. Resultava muito mais razoável vê-lo ao lado de alguém como Lisange. Senti suas mãos passarem por minhas costas. Seu roce liberou uma ligeira

181 descarga por todo meu corpo, então decidi esquecer o que ele era e do que eu havia passado e deixar de lado todas as minhas frustrantes inseguranças. Queria me sentir normal, por uma noite, por “essa”; n~o desejava ser mais que uma garota corretamente abraçada ao garoto que queria, e que fora como um sonho, um sonho onde tudo fosse mais fácil e terminaria bem. — Vamos para outro lugar. — me propôs em voz baixa. Passamos ao lado de uma gigante vidraça colorida para sair dessa zona e nos mesclamos com os humanos, que dançavam distantes do que acontecia ao seu redor. — Assim está melhor, não suporto que te olhem dessa forma. Tomou-me a mão e me aproximou dele. Agradeci por ser um baile normal. — Todos acreditam que sou sua nova vitima. — sussurrei contra seu lenço. — Ouvi algo a respeito. — É verdade? — murmurei sem levantar o olhar. Respirou com dificuldade. — É isso no que você acredita? — perguntou com calma. — Não sei, algumas vezes creio que vai cumprir com o trato, mas outras... — Tem medo de mim? — Não. — foi uma resposta automática; nem sequer pensei. Desceu sua boca até a altura do meu ouvido. — Acredita que vou te matar? — inquiriu. — Não. — repeti. — E te torturar? Olhei para ele. — Pode... Haver muitos tipos de tortura. — respondi com uma careta.

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Levantou uma sobrancelha, fingindo surpresa. — É serio? — Você sabe disso mais do que eu. Guardou silêncio e continuou me balançando com suavidade ao som da música. — Você nunca chegou a me dar uma resposta. — sussurrou de novo junto ao meu pescoço. — Eu sei. — disse. Ele deixou de dançar e se afastou meio passo de mim. — Faça-o agora? — seu tom de voz voltava a ser tão sombrio como sempre. — Sim. — respondi sem soar muito decidida, mas estava disposta a acabar com toda aquela incógnita de uma vez. — E? — insistiu buscando meus olhos. — Aceita ou não? Podemos fazê-lo agora mesmo se quiser. Concedi-me um par de segundos antes de responder. — Não. — Bem... — disse esboçando um sorriso. Colocou uma mão em volta da minha cintura e voltamos a dançar. — Não ficou irritado? — perguntei confusa. — Não. Meditei. — Minha resposta não te impediria se caso quisesse fazê-lo, certo? — sussurrei em seu ouvido, embora na realidade fosse mais uma afirmação. — Certo. — respondeu. — Então imagino que agora serei como qualquer outra Caçadora. — comentei para mim mesma.

183 — Não. — negou. — Você nunca será igual ao resto. Tomei ar, minha voz perdendo força. — Nunca saberei quais são suas verdadeiras intenções, se me matará um instante depois... Não fui capaz de terminar a frase. Nossos olhares se encontraram durante uma fração de segundos, o tempo bastou para que uma terceira pessoa nos interrompesse. — Não vai nos apresentar? — disse alguém as nossas costas. Virei-me. Era uma mulher de idade parecida à de Christian. De estatura média, usava um vestido de cor sangue, com um ajustado espartilho adornado e uma larga saia cujas pregas se recolhiam para trás formando um polisón12 e uma pequena cauda muito adornada. Usava o cabelo castanho preso em um complicado penteado lateral com muitas reviravoltas. Ao contrario de mim, parecia bastante enjoada. Avançou para mim, fazendo soar seu vestido e o volume de sua cauda, e impondo-se entre nós. — Elora. — se apresentou. Elora, tal e como temia, era bonita e atraente, todo um golpe para minha auto-estima. Tentei encontrar algum defeito nela, mas não encontrei nada digno de ser mencionado. Não podia compará-la nem de longe com Lisange, mas de mim ganhava sem nenhum problema. Estendi-lhe a mão com timidez, não queria ser desagradável por muito que a proximidade dessa mulher me ocasionasse calafrios. Sua pele era suave e estava por alguma razão mais quente que a minha, podia notar inclusive através do tecido de minhas luvas. — Lena, não é? — assenti. — Christian tem me falado umas quantas vezes sobre você. O olhei interrogativamente, mas ele não se fixou em mim. Tinha os olhos cravados em cada movimento de Elora.

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184 — Imagino que você não se importe em que eu monopolize a atenção de Christian durante uns minutos, verdade? Ele não pronunciou nem uma palavra, portanto me afastei devagar e lhe cedi meu lugar. — Obrigada, é um verdadeiro encanto, querida. Sem dizer nada, os vi desaparecer entre as pessoas. Quando reagi, sai da pista sem saber muito bem para onde ir. Passei junto a um grupo de Caçadores que se exibiam no que parecia um falso duelo com espadas ante a admiração dos humanos, mas nem sequer isso pôde me distrair. Peguei uma bebida para manter as aparências e a levei ao pescoço em uma tentativa de que o frio do gelo apagasse o fogo que ardia em meu interior. Fiquei, junto ao marco de uma porta, observando Christian e Elora dançar. Então essa era Elora... Ela sim sabia onde dar cada passo com perfeição. Para ela não tinha que explicar cada coisa que acontecia, tudo o que ocorria... Com ela podia se dedicar a ser o mesmo e nenhum trato se interpunha entre eles. Experimentei pela primeira vez o sentimento de que tanto se fala; ciúmes, no grande sentido da palavra e, de novo recordei o que eu era; muito inocente; muito tonta e ingênua. Os dois eram iguais, a mesma aura escura os envolvia. Parecia que se entendiam à perfeição, seguramente não necessitavam palavras para averiguar as intenções um do outro, e era muito possível que levassem décadas juntos. Acaso podia eu competir contra isso? Meus olhos ardiam e tive que afastar o olhar. Doía lhe ver com ela, ver que lhe presenteava o mesmo sorriso impactante que a mim. Que tonta havia sido ao pensar que comigo era especial! Meu coração se encolheu. Ouvi Elora rir. Era mais do que eu podia suportar. Dei a volta e me afastei daquele lugar.

***

Por alguma razão que eu desconhecia, os Caçadores mais jovens (em aparência, pelo menos) estavam reunidos atrás de uma porta na qual não havia estado. Notei o olhar de vários garotos humanos fixos em mim. Não se preocuparam em afastar os olhos quando me virei para eles, o que me incomodou ainda mais, portanto deixei o copo e me afastei na direção da zona cheia de não vivos. Mas um braço me cortou a entrada. Retrocedi um passo. Era um homem enorme.

185 — Idade? — perguntou com a voz rouca. — 17. — disse sem pensar. — Então, este não é lugar para você, menina. Eu sorri, em seguida, percebi o problema. — Não acredito que perguntou a sério. — baixei a voz. — Século XIX. — ele me olhou de cima a baixo, avaliando a verdade de minhas palavras. — Deveria te bastar a cor de meus olhos. — murmurei. — Não é o suficiente. — E o sobrenome De Cote. — insisti. Levantou uma sobrancelha com dissimulação — De Cote? — estava tão surpreso como todos os demais. Bufei indignada cruzando os braços. — Embora não pareça. — riu, mas moveu-se para o lado. — Woo! — exclamei, ao entrar. Retrocedi um passo, assustada, devia falar que tinha me equivocado de festa. Tudo era completamente diferente; haviam substituído as lâmpadas por lanternas penduras nas paredes e a música não era suave e melodiosa como no resto da casa, e sim algo quase escandaloso, mais parecido com rock & roll, mas muito mais... Como dizer? Selvagem? Não havia rastro dos movimentos doces e elegantes das danças que havia contemplando minutos antes. Agora, o primeiro que havia visto era as pessoas saltando pelos ares. Pisquei, mas tudo continuava ali. Não me atrevi a me aproximar. Estavam utilizando sua força e sua condição de ”imortais” para dançar como loucos, pelo ch~o e pelo ar, realizando movimentos impossíveis; e isso me assustava. Afastei-me do epicentro daquela loucura; nesse momento não queria tomar parte dela.

186 Encontrei um lugar deserto e em penumbra; era uma pequena estufa separada dos salões por outra magnífica vidraça, menor que a anterior e mais simples. Apoiei-me contra ela e fechei os olhos. Precisava de um pouco de tranqüilidade. — Bem... — sussurrou alguém em meu ouvido. Dei um pequeno salto. — Creio que acabo de encontrar a grande revelação da noite. Virei-me para ver de quem se tratava. Era um homem jovem, loiro platinado e com olhos de cor negros intensos marcados por umas escuras olheiras. Era muito mais alto do que eu, inclusive mais do que Christian e, sem lugar para duvidas, muito mais corpulento. Suas feições eram robustas, quadriculadas, mas atrativas. Vestia uma cor pálida, com uma jaqueta longa colocada sobre um colete longo bordado, calção, meias brancas e sapatos com fivela. Havia algo na forma de me olhar e no modo em que sorria mostrando a maior parte de sua dentadura, o que me obrigou a retroceder um passo para me afastar dele. — Acredito que alguém aqui não tem sido muito honesta com seu vestido. — afirmou observando de cima a baixo com cuidado. — O que quer? — perguntei, hesitando se dava outro passo atrás. — Oh, que lerdeza, não me apresentei! Pode me chamar de Hernan. — disse inclinando a cabeça para frente a maneira de reverência. — Creio que já conhece meu jovem e teimoso “irm~o” mais novo, Christian. Vacilei. Hernan... Recordava perfeitamente o que Christian me havia contato pouco antes sobre ele. — Sim... — Interessante trato o que tem entre vocês. — sussurrou, muito perto de mim. Ouvi seu coração, lento mais potente, seus olhos cada vez eram mais escuros e sinistros. Uma repentina dor me subiu pelas costas. Já havia escutado o bastante. Ao contrário de Christian, ele sim me provocava um irrefreável temor, seguramente pela forma em que sorria ou pela delicadeza de sua voz. Dei meia

187 volta, mas ele me deteve. Olhei sua mão em torno do meu antebraço e logo para ele. — Aonde vai com tanta presa? — disse rindo. — Estão me esperando. — Ambos sabemos que não é verdade. Christian deveria te ensinar a mentir, isso é algo que ele se dá muito bem. — Do que está falando? — perguntei confusa. Aproximou-se de novo para que sua bochecha roçasse a minha e me falou ao ouvido. — Confio que vosso pequeno acordo não impeça que você e eu possamos nos divertir algum dia juntos, senhorita De Cote. Não esqueça... — murmurou exalando contra meu pescoço. — Ele não é o único que pode te matar. — se afastou um pouco e sorriu. — Somente para o caso. Acariciou meu pescoço com uma de suas mãos enluvadas e me beijou na bochecha. Não houve qualquer ardor ao roçar sua pele contra a minha. — Confesso que torturar a indefesos Caçadores não será o mesmo depois de ter te conhecido. — tomou minha mão e a beijou. — Pensarei em você, pequena Caçadora. — Hernan. — exclamou uma voz atrás dele. — O que está fazendo? Ele me sorriu uma última vez e se voltou para o recém chegado. Meu coração deu um pulo de gratidão, metaforicamente falando, ao ver de quem se tratava. — William De Cote. — anunciou ele arrastando as palavras. — Vim em paz, somente queria conhecer a vossa nossa aquisição. Ultimamente se ouve muito seu nome em nossa casa. — Não vou permitir que se aproxime de nenhum membro de minha família. — o tom de voz de Liam era autoritário. — Um pouco tarde para isso, não acha? — sorriu e voltou-se para mim. — Um prazer Senhorita de Cote. Asseguro que este será o começo de uma promissora amizade.

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Inclinou a cabeça para Liam e desapareceu entre as pessoas. Liam se aproximou de mim. — Você está bem? Assenti com a cabeça. — Acreditava que estava com Lisange, na pista de dança. — disse. — Lisange se encontra com Flávio neste momento. — me olhou fixamente durante um segundo. Acabo de ver Christian com Elora. Bati a língua. — Sim, ela o sequestrou e o tem feito dar voltas pela sala. — baixei a cabeça. — Já entendi. — Liam. — hesitei. — Você não sabe se ela é... Bom, se ela é sua... — Amante? — terminou ele. Assenti concentrando minha atenção em estirar a ponta de cada dedo da luva. — Não, não é. — De verdade? — perguntei levantando de novo o olhar. Ele sorriu e me estendeu sua mão direita com uma leve inclinação. — Lena de Cote, se importa de me conceder esta dança? Isso me pegou de surpresa. Fiquei petrificada, mas ele me tomou o braço e me conduziu para a pista. — O que pretende? Colocou a mão na minha cintura e entrelaçou com suavidade a outra com a minha. Apesar da velocidade da música, Liam me levava como se dançássemos uma musica lenta.

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Não sabia dizer qual dos dois deslizava melhor, se Christian ou ele, nem qual deles brilhava mais esta noite. O que tinha claro era que com Liam tudo resultava muito mais fácil e, pela primeira vez na noite, comecei a me divertir de verdade. Ao fim de um tempo, o vi entrar na sala com Elora. Olhou para nós fixamente, desde a entrada. Fique tensa e não fui capaz de voltar a dar nem um passo mais direito. Liam se deu conta de meu repentino estado de ânimo e me concedeu um descanso. Mas eu não me separei dele. Ficamos nos olhando de um extremo ao outro da sala. — Queridos irmãos. — disse de repente Hernan da sala inteira, subindo sobre uma mesa; sua voz me obrigou a afastar os olhos de Christian. — Todos vocês acreditam que nós, os Grandes Predadores, os abandonamos. — O que é que ele está fazendo? — sussurrou Lisange aparecendo ao nosso lado. — Nada de bom. — respondeu Flávio junto dela. — Temos enganado; torturado e, inclusive, matado a alguns de vocês. — continuou. — Mas no fundo sabem que nós os amamos. — ele sorria de forma que provocava calafrios, fazendo com que toda a sala guardasse silêncio, ouvindo cada palavra que pronunciava. — Esta noite não viemos aqui com a intenção de causar nenhum dano, sim uma amostra de nosso compromisso para vocês. Temos compartilhado músicas, casais humanos e agora, queremos lhes dar um presente. — levantou uma bolsa de veludo para que toda a audiência pudesse vê-la. — Aqui nossa mostra de amor para vocês. Com um movimento ágil, ele virou o saco de ponta cabeça e deixou cair algo rolando no chão. Minha respiração congelou, era uma cabeça branca, monstruosa. — Encontramos um Guardião a caminho daqui, ofereço a todos vocês nossos amados irmãos, com a intenção de que... — Santo céu. — exclamou alguém desde a parte traseira, a voz era entrecortada e angustiada. — Que é isto?

190 Toda a sala se virou para ele. Era um humano, disso não tinha nenhuma duvida. Estava junto à porta, escondido atrás de uma coluna. Retrocedeu para a saída, mais os dois Caçadores o pegaram pelos braços. — Que inoportuno contratempo. — disse Elora. De repente via a ambos se aproximar de Hernan. Christian, impassível, se sentou em uma cadeira na penumbra, longe dela. — Quem são eles? O que é tudo isto? — o humano tentava desfazer-se deles, mas todo esforço era inútil, então começou a gritar. — SOLTE-ME, SOLTE-ME! AJUDEM-ME, ALGUEM ME AJUDE! Elora cruzou os braços em um gesto impaciente. — Alguém teria a amabilidade de trazê-lo até aqui. — perguntou. — QUERO SAIR! SOLTE-ME! O levaram até os pés de Hernan, como se fosse uma oferenda a algum rei, e isso não me agradou nem um pouco. Porque tinham que tratá-lo como se fossem superiores? Elora se aproximou do homem e colocou um dedo em seus lábios. — Em um segundo, querido. — ele a olhou com pavor. — Christian, importaria-se de fazer as honras? — Preferiria não ter que fazê-lo. — respondeu ele. Um estranho murmúrio se estendeu entre a audiência. Elora começou a rir, com a mesma risada amarga e gelada que havia ouvido de Christian em alguma ocasião. — Confio que não pretende sujar nosso nome. — Hernan o olhava fixamente, seus olhos destilavam fúria apesar do sorriso. Houve um repentino silêncio, somente interrompido pela luta do humano. Rezei em meu intimo que ele não se movesse, para que não o fizesse..., mas ele o

191 fez. Colocou-se em pé diante de todos, com os olhos ligeiramente estreitados e os braços duros. Juraria que esteve a ponto de virar a cabeça em minha direção, mas se conteve. Então eu vi, vi o terror nos olhos do homem. Seu corpo se convulsionava pelo pânico, Não queria olhar, mas algo me obrigava; uma força muito maior que a minha vontade. Christian se aproximou dele, com o andar compassado. Os Caçadores que sujeitavam ao infeliz humano o soltaram e se puseram de lado. O homem tentou fugir em um esforço vago e inútil. Com a velocidade de um raio, Christian o agarrou pela gola de sua roupa e lançou-o bruscamente contra a parede. A parede rachou sob seu contorno, arrancando um grito de dor da pobre vítima. Dei um passo adiante com a firme intenção de detê-lo, mas Lisange me conteve agarrando-me o braço para me impedir de avançar. Ninguém falava; o mais importante era o que estava ocorrendo a poucos metros de nós. — Por favor... — balbuciou o pobre coitado, uma espessa camada de suor cobria sua testa. — Por favor, não me mate. Christian pegou O queixo com uma mão e abriu-o com força, causando um grito que ecoou ao redor da sala, enquanto aproximava a boca até a sua até ficar a meio palmo de distancia. Então o obrigou a olhar para ele, diretamente nos olhos, e seu trêmulo corpo começou a convulsionar com violentas sacudidas, suspenso no ar pela mão do Predador. A cabeça de Christian se agitava; assim como seu peito e as abas do nariz estavam muito dilatadas. Chegaram aos meus ouvidos um som de sucção e a respiração afogada do humano. Virei-me, já havia visto o suficiente para ter pesadelos durantes meses. Senti pena, pena por ele e por mim, porque o animal que estava lhe fazendo isso era o ser pelo qual eu estava apaixonada. De repente, a absorção cessou. Não devia haver durado mais de um minuto, mas para mim foi como uma eternidade. Olhei com medo. Christian, por fim, o soltou. O homem caiu no chão inconsciente, com um pequeno fio de sangue caindo pela comissura de sua boca. — Mate-o. — disse uma voz de mulher. — Não é necessário. — respondeu Christian com a voz rouca. —Não recordará de nada.

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— Não devemos correr riscos, nos descobrirão. — Esse homem não sabe o que viu. Se você tem tanta ânsia de matá-lo, faça você mesma irmã. Senti seu olhar e não pude suportar. Desfiz-me do braço de Lisange e sai da sala correndo, sem me preocupar pelo que poderiam pensar ou dizer de mim. Pensei entre o humano, golpeando a alguns pelo caminho, e por fim sai para a rua. Respirei o quanto pude em grandes bocados, sem que isso me aliviasse. Meu estômago sofria espasmos, como se quisesse vomitar, as náuseas não tardaram em vir para a minha garganta. Deixei-me cair nas escadarias, mais ainda tardei vários minutos até que consegui me acalmar um pouco. Estava muito impressionada para voltar para dentro. Sabia que o que ele era e o que fazia; essa era sua natureza, mas, ao ver os olhos desse humano... Eu mesma havia sentindo medo. Podia ter o matado ali mesmo, em frente a todos. Talvez não tivesse acabado com o pobre infeliz porque sabia que eu estava olhando, mas e se não tivesse sido assim? Horrorizei-me ao pensar em quantos humanos havia matado ao largo de todas as décadas que havia vivido, ou pior, a quantos no tempo que eu o conhecia. Porque eu tinha que lhe amar?Porque tinha que ter me apaixonado por alguém assim? — Lena, como você está? Era Lisange. Desceu os degraus que nos separavam e rodeou meus ombros com seus braços. — Sinto muito que tenha visto isso. — Porque me impediu? — lhe perguntei incomodada e me separando dela. — Não haveria conseguido nada. Nunca enfrente a um Grande Predador e muito menos em público, onde se esforçam para defender sua honra. Lena, mesmo que seja Christian. — Porque o ele fez isso? — murmurei com a voz entrecortada. — Elora sabia que você o veria fazê-lo. — disse em tom fraco e pausado. — colocou-o contra a parede. Quem desafia a honra de um Clã de Grandes Predadores morre. Fez para torturá-lo.

193 — Você acredita que ele teria matado se não se importasse com a minha opinião? — voltei a abrir os olhos e a olhei, esperando sua resposta. Ela demorou em responder. — Não posso te responder isso porque não sei. Mas creio que Christian mudou bastante desde que a conheceu. Há um mês atrás sim, o teria feito. Para ele e para toda a sala se apenas tivessem pedido. — Ele era tão horrível? — perguntei enrugando o cenho. — Continua sendo, Lena, não esqueça, e não permita que ele te convença do contrário. Se não quer sofrer, melhor que se afaste dele. Guardei silêncio enquanto brincava distraidamente com meus dedos. — Quer voltar para dentro? — perguntou. — Não, preciso ficar sozinha. — Podemos voltar para casa. — assegurou. Neguei com a cabeça. Minha diversão havia terminado, mas não queria estragar a noite deles. — Ainda não sei que é o que quero fazer. — reconheci. — Acredito que ficarei aqui um pouco mais, preciso pensar. Olhou-me de forma compreensiva. — De acordo. — beijou meu cabelo e se pôs em pé. — Mas não muito, tem causado autêntica comoção entre os humanos e se sentiram muito desolados se não voltar a aparecer. Ri e os músculos de meu rosto se desestressaram. — Boa tentativa. — sussurrei. Escutei o “fru fru” de seu vestido se afastar e se perder entre a música. Levantei-me e caminhei para a parte traseira da casa. A única iluminação procedia das luzes do interior. Podia escutar com perfeição as risadas e vozes alegres. Como podiam estar felizes depois do que havia passado?

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Apoiei-me contra a parede. Talvez todos eles já estivessem mais do que acostumados a esse tipo de coisa. Nesse momento, meus ouvidos captaram a conversa de dois homens que falavam perto da janela onde eu estava sentada. Uma era de Liam, sem nenhuma duvida, a outra me parecia conhecida; era um dos muitos Caçadores que me haviam apresentado essa noite, mais não poderia assegurar qual. Escutei com atenção. — Que barbaridade! — exclamou o segundo. — Cada vez são mais jovens. — Eu sei, deduzo que estão perdendo o controle. — Esse grande predador está rondando a sua pequena jóia. Deveria ter cuidado. — Estou consciente. — Não vai fazer nada? Parecia francamente surpreso. — Infelizmente, já é muito tarde. Houve uma breve pausa, onde agucei mais o ouvido. — Lamento querido amigo. Pobre criatura... Pobre criatura? Do que esse homem falava? — Você está bem? — dei a volta, sobressaltada; essa voz já não vinha do interior da casa, e sim das minhas costas. — Sim. — respondi. Coloquei de pé de imediato, sacudindo as pequenas gramas que podiam ter ficado pregadas ao vestido. Ele guardou silencio. — Porque veio está noite? — perguntei. — Hernan queria se divertir. — a voz de Christian titubeava, parecia que lhe custava trabalho pronunciar essas palavras.

195 — Ao que parece não foi o único que conseguiu. — estava segura de que me doía mais pronunciar essas palavras do que a ele ouvir-las. — Não era minha intenção que presenciasse o que acaba de ocorrer. — disse sombrio. — Lena... — Não quero que me explique nada, Christian. — cortei. — Vou para casa. Na realidade, já não tinha nada o que fazer ali. Não queria voltar para dentro nem ficar do lado de fora com ele. Passei ao seu lado, mas ele me deteve pegandome pelo pulso. Olhei-o nos olhos, que estavam mais escuros do que já haviam estado em toda a noite. As luzes da casa projetavam em seu rosto sombras que lhe davam um aspecto muito mais selvagem, malvado. Ou talvez fosse meu subconsciente que imaginava essas coisas pelo que acabara de presenciar. — Permita-me te levar. — Pra que? Não finja que agora se preocupa comigo. — respondi desfazendo-me de sua mão. — Posso ir sozinha. — assegurei. — Você sabe que não vou permiti-lo. — me afastei dele com a firma intenção de empreender o caminho de casa. Ele permaneceu em seu lugar, sem se mover nem um milímetro. — Lena... Segui caminhando. Algo se moveu atrás de mim. Pouco depois estava frente a seu rosto apagado. — Não quero que te irrite por isto. Antes de poder entender ao que se referia, já havia me pegado nos braços e me levava na direção do arvoredo. — O que está fazendo, Christian? — Te levando para casa. — sua voz era grave e profunda. — Coloque-me no chão. — fiquei furiosa. — Não sou uma menininha. Desçame. — ele não disse nada e continuou andando a grandes passadas. — Isto é humilhante, quero que me desça! Parou e me depositou no chão com cuidado.

196 — Importaria-se em me explicar como pensa chegar se não sabe onde estamos? — seu tom foi duro, como de reprovação. Isso me enfureceu. — O que te faz pensar isso? — provoquei. — Nunca presta atenção ao lugar onde pisa, não saberá chegar. Olhei ao meu redor. Por desgraça, tinha razão. Estava escuro e durante a idéia não me havia fixado em nada que agora pudesse me servir de ajuda. Devia reconhecer, mas nunca o faria. — Isso é assunto meu. — disse cruzando os braços. — Se não quer voltar a me ver, eu entenderei, mas vou te levar você queira ou não. Apesar do tom que me falava, meu rosto relaxou de repente em um gesto de surpresa, como podia pensar isso? A idéia de um dia sem ele me aterrorizava. — Onde está seu carro? — disse dando-me por vencida. Fez uma careta. — Não vim com ele. — Então? — Por ai mesmo. — anunciou apontando para o interior de um espesso arvoredo, mas não pude distinguir nada fora do normal nela. O vento mudou de direção, trazendo um cheiro diferente. Sorri para mim mesma, mas não deixei que ele notasse e me mantive em silêncio enquanto me conduzia para o lugar. A música deu lugar pouco a pouco aos sons do bosque e das nossas pisadas. Ele não se voltou nem uma vez para me olhar, nem sequer pronunciou uma palavra. Era como se eu não estivesse ao seu lado. O observei caminhar até que chegamos a uma pequena clareira. Ali pastava tranquilamente um incrível cavalo negro, tão negro que se confundia com a noite, a não ser pelo brilho de seus impressionantes olhos. Era como Christian, escuro, mas com um olhar capaz de te parar a respiração. — É lindo. — admiti. Era a primeira vez que falava desde que tínhamos entrado no bosque. Ele me olhou surpreso.

197 — Elora tem tentado comprá-lo desde que o viu. — sussurrou com ar perdido. — Ela? — senti uma pontada de raiva. — Posso? Tinha ambas as mãos de cada lado de minha cintura. Minhas pernas tremeram sob seu toque. Olhei em seus olhos e assenti, ele me elevou com delicadeza e me sentou sobre o lombo do animal como as senhoritas de antigamente, talvez porque não tinha nem sela nem nada parecido. O cavalo nem se mexeu. Com um movimento ágil, Christian montou por trás de mim bem próximo. Seu corpo desprendia um calor estranho, mas calor, no final das contas. Passou seus braços sob os meus e tomou as rédeas. Eu contive a respiração.

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Quem disse medo?



Obrigada por me trair. — sussurrei.

Ia entrar pela porta, mas ele a bloqueou com o braço. — Se importa em dar um passeio? — a pergunta me pegou desprevenida. — Para que? — quis saber. — Por favor. — disse ele. — Temos que conversar. Concordei confusa. Ele se dirigiu ao jardim na parte da trás da casa e eu segui ao seu lado, esperando impaciente que ele dissesse a primeira palavra. — Bem? — perguntei depois de caminhar cinco minutos sem dizer nada. — Lena. — começou tomando ar no final. — Tentei adaptar você porque era parte do nosso acordo. — O que quer dizer com isso? — perguntei com cuidado. Meus sentidos estavam em alerta, eu tinha um mau pressentimento. — Que nosso tempo terminou. Parei, ele também parou alguns passos à frente, mas não se virou pra me olhar. — Isso só pode significar que vai me matar ou ir embora. — mal tinha voz para falar. — Não voltarei a te ver depois dessa noite. — Por quê? Virou-se lentamente e eu pude ver seu rosto. — Tem muitas coisas sobre mim que não sabe. — E você sobre mim. — aleguei.

200 — Você nem sequer sabe tudo de si mesma, Lena. — Mas isso não vem ao caso agora. — Está errada, essa é a questão. — disse chegando mais perto. Eu também avancei mais um passo em direção a ele. — Acha que não sei o que você é? O que faz? — Não se pode ignorar a verdade, Lena. — respondeu, negando com a cabeça. — Isso é problema meu. Mas temos um trato: se quiser ir, bom, mas terá que me matar. Não pode ir sem cumprir a sua parte no acordo. — Você não o aceitou. — ele me lembrou. — Estou fazendo-o agora. — senti mais segurança do que nunca nessas palavras. — Tarde demais para isso. — respondeu com a voz dura. — Não. Não é. — me aproximei dele com o passo firme. — Se você se for, Christian, eu não quero esse tipo de “vida”. — Pare de dizer besteiras, Lena, não pode se prender a mim. Existem Seres ai fora que merecem seu afeto muito mais que eu. — Isso não me importa. — Por que você é tão teimosa? — perguntou irritado. Por que eu te amo. Organizei meus pensamentos: não me faça mudar de idéia. Nessa hora não me importava em abrir meu coração e me entregar se assim conseguisse não perdê-lo. — Quando te conheci, você me disse que não havia nada nessa vida digno ser amado. — disse sentindo um calor subido e baixando os olhos. — Eu o encontrei.

201 — Por que me disse isso? — fechou os olhos. — Sabe por que eu estou com você. As palavras me golpearam com força no peito. Tinha sido burra achando que poderia ter algo mais, mas ao que parecia a única coisa que ele tinha feito era rir de mim todo esse tempo. Respirei com dificuldade para tentar me acalmar, mas não serviu de nada: meus músculos se tencionaram e a decepção me agarrou. — Então se divirta me matando. Não era isso que queria? — falei encarando-o. — Foi você quem começou tudo isso, portanto termine de uma vez. Por que, o que você está dizendo é muito mais cruel que qualquer coisa que possa me fazer. E a verdade Christian é que eu não sei o que fiz pra merecê-lo. — Nunca disse que seria justo. Seus sermões morais não vão mudar em nada, jogos psicológicos não funcionam comigo. — por que ele estava se comportando assim? Não o reconhecia. Fez uma pausa antes de voltar a falar. — Se quer mesmo que eu fique, terá que saber tudo de ruim sobre mim. — Pretende me afastar de você assim? — perguntei indignada. — Essa é minha condição. — O que me importa tudo isso? Isso é passado. — Não Lena, isso não é passado. — segurou meus ombros me olhando nos olhos. — É o presente e será o futuro. Perguntou-me se eu aproveito com eles. Pois sim, o faço: sou um animal que age por instinto. Não sinto mais que dor e é o que causo, torturo e faço mal aos da sua espécie de forma cruel e também aos humanos. Você mesma viu isso essa noite. — Sim eu vi, mas estou certa de que com um pouco de esforço poderia evitar. — Com um pouco de esforço? — se afastou de mim rindo. — Você o fez essa noite. — gaguejei. — Parou antes de matá-lo. Sei que pode. — Mas eu não quero. — me interrompeu. — Acha que pode me moldar ao seu gosto? Sou o que sou, e nem você nem nada mudará isso. Devia parar de colocar tanta esperança nas pessoas. O mundo é cruel, Lena, nem tudo são boas intenções.

202 Nós íamos nos aproximando cada vez mais um do outro. — Também é cruel para nós? — minha voz tinha força, era só não olhar para ele. — Principalmente para vós. Um impulso correu pelo meu corpo, lutei desesperadamente contra ele, mas no final ele venceu e eu o beijei, não sei por que. Talvez por que soubesse que esses seriam meus últimos momentos com ele. Ou pela tensão que fluía entre nós naquela hora. Foi um beijo rápido e suave, senti uma queimação nos lábios e uma agitação no estômago. Sua resposta me surpreendeu. Agarrou-me pela cintura e me aproximou mais ainda dele, retribuindo o beijo, quase com força, como se pudesse desabafar dessa forma. Enfim podia sentir o toque da sua pele, mas foi doloroso, como uma queimadura. Uma mistura de dor e ardência. Soltei um pequeno gemido. Ele parou com o corpo tenso e se afastou de mim. Abri os olhos e encontrei os dele me olhando fixamente. Respirava com dificuldade. Segurou meus ombros e me separou dele. — Não volte a fazer isso nunca mais, Lena. — O que eu fiz de mal? — gaguejei levando a mão à boca: minha pele ainda queimava. — Não é você. — disse acidamente. — Então. Por quê? — O mais quer de mim? O seu tom de voz e sua atitude tinham mudado completamente. — Por que está falando assim? — era como se eu estivesse de novo em frente ao Christian que tinha visto na biblioteca, perigoso. — Por que é assim que tem que ser! Não me conhece e nem quer conhecer a única coisa que te atrai é minha aparência. — Não é verdade! — Então o que é? Minha bondade? Meu grande coração? A idéia de que eu posso te matar a qualquer momento? De como posso torturá-la?

203 Fiquei em silencio, a verdade é que eu não sabia o que dizer. — Vê? Continua sendo tão..., humana. — me olhou com desprezo. — Eu não escolhi me sentir assim. — me defendi. — Não escolhi nada do que me aconteceu. A única coisa que pude escolher foi me aproximar de você e não vou me arrepender disso. — Mas deveria! — gritou fora de si. — Tenho que te machucar para que você entenda? — se aproximou de mim de um jeito ameaçador. — Eu sou um Grande Predador. Nem sequer tenho por que lhe dar explicações. Isso me deixou perplexa. — Supõem que eu deva estar agradecida? — perguntei sarcástica enquanto cruzava os braços. Ele se virou para ir embora. — Tudo isso é perda de tempo. Eu devia ter questionado a... — A quem? — gritei enquanto ele se afastava. — A Elora? Herman? Quem sabe deveria me entregar a eles de uma vez. Certamente se divertiriam mais comigo do que você. Virou-se imediatamente para mim. Antes que eu percebesse, ele estava do meu lado e com um movimento que eu só fui capaz de sentir, agarrou-me pelo pescoço com uma mão, me levantando alguns centímetros do chão. — Se você acha que pode voltar para casa, Lena. — disse cerrando os dentes. — Eu te garanto que não terá oportunidade de deter Herman. Ele se viu refletido nos meus olhos, olhando quase com pavor e fechou os seus com força. Pouco depois me soltou bruscamente, eu perdi o equilíbrio e cai para trás, humilhada. Fiquei em silencio. Se estivesse viva não poderia conter as lágrimas. A verdade caiu sobre mim e eu entendi tudo, ele não se importava. Não me arrependia de tê-lo conhecido, a única coisa de que eu era culpada era de sentir algo por ele.

204 — Eu estava errada. — sussurrei. — Me desculpe. Sentia tanto. Como eu podia ter me apaixonado tanto por alguém? — Já era hora de você abrir os olhos. Aqui os erros saem muito caro. Armei-me de coragem e me coloquei de pé, em frente a ele, tirando dos meus olhos toda a dor e vergonha que eu estava sentindo. — Sai daqui! — estiquei o braço para a estrada, mas ele não se moveu nenhum milímetro. — EU DISSE PARA IR EMBORA! — insisti. Era inútil tentar tirar o tremor da minha voz, minha vontade se quebrava ao vê-lo ali tão quieto, com seu olhar penetrante. Não suportei mais. Dei meia volta sem falar mais nada, e sem me virar para não gravar seu rosto na minha cabeça. Estava machucada demais. Tinha sido boba em pensar que ele podia sentir alguma coisa por mim. Entrei correndo na casa. Quando fechei a porta, ele já havia montado no cavalo. Apoiei-me contra a madeira e tapei a boca para abafar o grito de dor que se desprendeu do meu peito, dor da rejeição. O que eu tinha feito? Se o queria tanto, por que não fui capaz de escutá-lo? Se esse sentimento fosse tão grande não teria medo de aceitá-lo como ele era. Certamente por isso ele tinha se comportado assim. Não, não. Devia confessar que o amava e que não me importava com o que ele fosse. Abri a porta e sai para rua correndo atrás dele. Ainda podia vê-lo cavalgando rápido quase desaparecendo na estrada. Eu tinha que alcançá-lo tinha que lhe dizer... Corri atrás dele sem tirar os sapatos e com o som do tecido do vestido rompendo o silêncio da noite. — Christian! — gritei. — Christian! Não se vá, não me deixe. Mas pouco a pouco se desvaneceu na escuridão. Eu continuei correndo, era minha única oportunidade, não podia perdê-lo. Cheguei ao fim do caminho, onde ele se dividia em dois. Mas já era tarde, ele já tinha ido... Deixei minhas pernas pararem. O ardor que senti nos olhos me nublou a visão. Sentei-me ali, abatida, na beira da estrada. Daria qualquer coisa para derramar uma lágrima que fosse, mas nem pedindo aos céus consegui fazer meus olhos chorarem. Caí por causa da dor que me apertava o peito. Não podia gritar nem tão pouco respirar por causa do enorme nó que apertava minha garganta e que só me permitia gemer. Meu corpo tremia.

205

Estava tudo terminado? Fiquei de pé com dificuldade, estava tonta. Tomei ar, mas ele entrou aos tropeções nos meus pulmões. Fiquei ali parada por vários minutos, no meio da estrada, olhando o lugar por onde ele tinha ido. Fechei os olhos com força. Precisava voltar para casa e me jogar na minha cama. Recolhi as dobras do vestido e voltei através das árvores. Se os De Cote viessem por ali, não queria que me encontrassem andando por ai sozinha. Isso só complicaria as coisas ainda mais. Tentei desesperadamente não pensar no que tinha acontecido, mas fracassei. Não podia ignorar que tinha acabado de perder uma das pessoas que mais amava. O ar voltou a ser insuficiente e o sentimento de solidão me golpeou como um tijolo. Sim, tão só... Parei de repente. Pela primeira vez me concentrei ao redor. Mas não tinha nada a que podia dar atenção, tudo estava em um profundo silêncio. Sem vento balançando a copa das árvores e mexendo nos arbustos, ou grilos esfregando suas asas... Nada. Captei um cheiro do qual me lembrava perfeitamente. Era uma mistura de esgoto, amônia e adubo para jardim. Entendi logo a razão pela qual meu corpo se tencionou ao senti-lo. Sabia o que significava, eu sentia. Olhei para o céu, ansiosa, procurando pela lua e a encontrei por trás das nuvens. Mas esse cheiro... — Calma. — sussurrei para a escuridão que me rodeava. — Não pode ser isso. Podia ver a casa não muito longe. Se andasse depressa talvez pudesse alcançá-la. Segurei o vestido com força e apertei tanto o passo que quase corria, mas não o fiz para poder estar atenta aos meus sentidos. Um segundo depois senti uma respiraçao gelada na nuca, uma respiraçao entrecortada seguida por um ranger de dentes. Não parei, mas reduzi a velocidade e aterrorizada, me virei. Não pude sequer gritar, minha voz ficou congelada em minha garganta. A menos de dois palmos tinha o rosto contorcido de uma figura escura. Não podia dizer que era um homem apesar de se vestir como tal. Era muito mais alto que eu e ameaçador. Seus olhos eram azuis, elétricos, e a pele branca, não quero dizer pálida, e sim completamente branca, assim como a estranha massa que caia por trás na forma de cabelo. Arregalei os olhos quando o vi sorrir de forma macabra, mostrando seus dentes afiados. Ninguém pensou em dizer que todos os

206 seus dentes pareciam presas. Inclinou a cabeça muito lentamente enquanto acelerava cada vez mais sua respiraçao. Seu hálito penetrou meu corpo e pela primeira vez senti frio, um frio assustador. Seus olhos ficaram brancos e ele me olhou como se tentasse me atravessar. Meu corpo começou a tremer de forma incontrolável e a dor no meu peito aumentou. Levantou sua mão branca até mim, com unhas tão afiadas quanto seus dentes. Horrorizada, temi seu toque. Meu instinto de sobrevivência pôde mais do que a razão, e meu corpo reagiu. Coloquei-me a correr tão rápido quanto minhas pernas podiam. Subi quase saltando as escadas que se dirigiam ate a entrada rezando para não cair. Abri a porta com um empurrão e a fechei atrás de mim, fechando, pela primeira vez todos os cadeados e correntes que vi, justo antes de sentir um forte golpe contra ela. Afastei-me da entrada até que bati na parede oposta. Caim e Goliat vieram aos meus braços. A luz da entrada explodiu me deixando no escuro, agachada em um canto. A porta continuou sacudindo ate que, de repente, parou. Não me mexi, nem sequer respirei. Meus músculos estavam contraídos e meus ouvidos tão aguçados que ate doíam. Lá fora não se escutava nenhum leve sinal de vida. Um pequeno grito cresceu na minha garganta quando, sem aviso, o relógio anunciou a meia-noite com doze badaladas. Esse susto me obrigou a voltar a respirar para tentar me acalmar. Levantei-me me apoiando nas paredes e acendi toda e cada luz do andar de baixo. Com as pernas tremendo, encostei-me à janela e olhei o outro lado. Agucei ainda mais o ouvido: vento, folhas e incluindo a movimentação de algum morcego chegaram até mim. Voltou a ter vida do lado de fora da casa. Respirei, ele tinha ido. Tirei as correntes da porta, recolhi os restos da lâmpada quebrada e subi para o meu quarto. Meu pequeno encontro com o Guardião fez com que a minha conversa com Christian ficasse em segundo plano, mas uma vez sozinha em casa, protegida de tudo lá fora, ela me voltou à cabeça. Vi-me refletida no espelho antes de entrar no quarto. Aproximei-me, dele, minha imagem era de um rosto dolorido e mais pálido que o normal, nem a maquiagem que me restou podiam esconder. Parecia mais morta do que nunca. Toda a vida que ele me trouxe tinha se esfumaçado me deixando com a crua realidade. Não havia nada, absolutamente nada, vivo dentro de mim. Desfiz, sem vontade, o elaborado penteado de Lisange, e meu cabelo caiu livre pelos ombros. Logo retirei a maquiagem, a cor que tinha, voltou a me

207 abandonar, minha pele tinha o mesmo tom do dia em que me vi pela primeira vez em um espelho. Afastei o olhar para não ver minha própria dor refletida. Tirei as luvas, o vestido, os sapatos... Tudo. Apaguei a luz para escapar da minha imagem, entrei na ducha e fiz algo que há séculos não fazia, abri a torneira de água quente. A sensação de frio que a respiração do Guardião deixou no meu corpo estava aumentando e não me abandonava. Deixei a água escorrer pela minha pele, e me confortar, enquanto me lembrava de cada detalhe da despedida, cada palavra, cada palavra gravada em silêncio no meu coração, seus olhos sombrios e sua voz fria... O que devia ter sido uma noite mágica acabou sendo o pior momento da qual me lembrava desde que descobri que tinha morrido. Fechei os olhos, quem dera fosse tão simples assim afastar essa dor incontrolável que me corroia por dentro. Não era capaz de assimilá-la era confuso demais. Cinco, dez, eu não sei quantos minutos depois, desliguei a ducha e me enrolei na toalha. Alguém ligou o gramofone no andar de baixo, uma musica lenta chegou aos meus ouvidos. Senti o cheiro dos De Cote, eles já tinham voltado. Ouvi passos se aproximando do meu quarto e algumas batidas na porta. Não respondi e entraram, pelo som do tecido, estava certa de que era Lisange. Os saltos de seus sapatos ressoaram contra o piso, deu uma volta e quando deduziu onde eu estava seus passos se perderam de novo pelo corredor. Agradeci que não disse nada, que não tivesse me perguntado como eu estava, por que não teria sido capaz de esconder. Molhei todo o chão ao sair da banheira. Não estava consciente de nada ao meu redor. Faltava-me alguma coisa, algo que me fizesse tomar consciência do que acontecia. Via sem olhar, ouvia sem escutar, sentia sem sentir... Apoiei a cabeça contra a parede úmida pelo vapor e deixei minhas costas escorregarem, ate que me sentei no chão, enrolada, agarrada a toalha. Logo comecei a tremer de forma descontrolada, meu corpo sacudiu de frio. Abracei meu corpo e joguei a cabeça para trás, com os olhos fechados, em uma vã tentativa de que isso me ajudasse a esquecer a estranha e incompreensível sensação que havia se apoderado de mim. Cobri o rosto com as mãos e me dei conta de uma coisa. As afastei rapidamente, assustada, só a idéia já me aterrorizava. Levei minhas mãos ao nariz, com medo, depois meus braços, meus cabelos... E não encontrei o que procurava, apesar de inalar com desespero, procurando um rastro seu, um rastro do seu cheiro na minha pele..., mas não tinha. Meus olhos se encharcaram sem derramar lágrimas. Tinha perdido seu cheiro, meu lábio começou a tremer, mas desta vez não era de frio.

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Um pesar mudo se prendeu a minha garganta, inspirei grandes quantidades de ar para liberá-lo, mas foi inútil. Os arquejos se transformaram em gemidos. Tinha ido, tinha ido tudo. Solucei com mais força. A verdade me esbofeteou com força, tinha deixado escapar a minha única oportunidade de ser feliz. Cobri minha boca com a mão enquanto meu corpo se contorcia de dor, e ali, trancada e no chão do banheiro, aprendi a chorar sem lágrimas.

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Ninguém se aproxima da mansão dos De Cote.

Era culpa minha. Eu nunca deveria ter tido ilusões sobre ele. Interpretei errado tudo isso e no final tinha-o irritado. Agora já não voltaria a vê-lo. Eu me sentia sozinha e culpada... Tinha vontade de quebrar as coisas, de jogar tudo pela janela e de me arrancar a pele se isso fosse possível. Burra, burra, idiota, pensei, mas o que você fez? Fiz uma lista mental de todos os insultos que eu era capaz de lembrar, mas nenhum deles representava o quão estúpida havia sido. Eu deveria tê-lo escutado. Ele queria afastar-se de mim unicamente porque eu tinha presenciado aquilo no baile, caso contrário, ele teria dito antes, tinha tido muitas oportunidades para fazê-lo. Talvez não fosse tarde, quem sabe ele ainda poderia voltar rastejando e implorando perdão. Se tão somente pudesse voltar a falar com ele..., mesmo que apenas uma vez. Duvidava que pudesse encontrá-lo na biblioteca, mas também poderia ir à sua casa. Então, uma estranha sensação subiu-me pelas costas e apertou-me o pescoço, fazendo-me lembrar o que ele faria se eu voltasse lá. Alguém bateu à porta. — Lena, você está bem? — Lisange perguntou do outro lado. Custou-me abrir os olhos. Estava exausta. Tinha dormido sem pesadelos, mas não tinha conseguido descansar. As recordações caíram sobre mim. Esfreguei meus olhos e observei o teto acima da minha cama. Não havia nada que me motivasse a levantar, não se Christian tinha ido embora para sempre. — Lena? Voltei a esfregar os olhos com força, tentando fazer com que o ardor que havia retornado a eles desaparecesse. — Eu estou bem. Levantei-me lutando para não cair devido a uma súbita tontura. Caminhei até a porta e abriu-a.

211 — Não parece bem. — disse Lisange. — Você esteve chorando? Sabia muito bem que não podia, mas assim chamávamos o fato de querer fazê-lo. — Eu não tenho dormido bem. — menti. — Nada mais. — Certeza? Assenti com a cabeça. Ela estava certa, tudo havia sido um sonho. Agora tinha acordado e devia voltar a enfrentar a realidade. — Por que não nos avisou para voltar com você? — Não valia a pena. Christian queria conversar. — eu disse, e entendeu imediatamente ao que eu me referia. — Como você está? — Bem; está tudo bem Lisange. — voltei a mentir. — Só conversamos, mas a festa foi boa. O que menos eu queria esta manhã era ter que fingir que tudo tinha sido maravilhoso, e contar-lhes o que tinha acontecido com Christian, tampouco era outro de meus grandes sonhos. Não precisava de muita imaginação para adivinhar que esperavam por esse momento desde que eles descobriram que eu encontravame com ele, e ver esse brilho de alegria no fundo dos seus olhos, apenas me faria ainda mais mal. Não, melhor assim, eles não tinham o porquê saber de nada. Era impossível que imaginavam algo que tinham testemunhado na festa, mas era melhor deixar passar. Era um dia quente, por isso Liam e Lisange decidiram ficar em casa, abandonando sua habitual visita ao centro de equitação. No fundo, acho que também tinha algum tipo de relação com o meu estado de ânimo. Lisange não tinha voltado a me perguntar nada, mas eu tinha certeza que ela suspeitava da verdade. Havia passado tanto tempo longe desde a minha transformação, que não me dei conta até esta manhã de quão fria era a casa. Antiga, de pedra úmida, tudo isso, provavelmente, para torná-la um ambiente o menos quente possível, tendo em mente que a umidade não afetava a nossa saúde, mesmo que, por algum motivo, senti que a minha estava ressentida, o frio que tinha me invadido na noite anterior ainda não tinha ido embora, nem sequer havia perdido intensidade.

212 Mesmo assim, a casa me pareceu confortável e acolhedora, mesmo tendo um aspecto sinistro. Isso ajudava com que as pessoas ficassem longe e a alimentar os rumores de que o lugar era assombrado, nem sequer ocorreu a alguém a absurda idéia de arriscar-se a se aproximar. Ou talvez sim...

— Estão batendo na porta? — não houve campainha, apenas uma pesada argola de metal. O som era tão desagradável e ecoava em todos os cômodos da casa. — Você espera alguém? — Liam perguntou-me, sobre o seu jornal, e ambos me olharam. — Christian? — minha respiração acelerou. — Não. — reconheci. Não podia ser; ele não bateria na porta sem avisar antes que viria, queria evitar qualquer confronto com os De Cote. Meu estômago se encolheu ao lembrá-lo, mas..., e se fosse ele? Voltaram a bater na porta. Eles a olharam nervosamente e Liam colocou-se de pé, seguido ficou por Lisange, e um pouco depois, por mim. A desvantagem desta casa era que eles estavam tão pouco acostumados a receber visitas que a porta não tinha olho mágico, nem mesmo uma pequena fresta pela qual podíamos ver o que está do outro lado. Liam agarrou a maçaneta, deu-nos uma última olhada e abriu. Ficamos em silêncio. Liam atônito, Lisange chocada e eu confusa. Do batente da porta uma garota loira sorria brilhantemente, uma garota loira, magra, de olhos azuis intensos e brilhantes e lábios que pareciam de silicone pintado de vermelho escuro. Um humano na mansão dos De Cote? Analisou a nós três em apenas alguns segundos, parecia um pouco surpresa. Então, suspirou e alisou o cabelo. — Hey, Liam. — deu um risinho bobo. — Como você está? — Silvana? O sorriso da garota vacilou. Eu juraria que tinha ouvido esse nome antes. — Não se alegra em me ver? — Não recebemos ninguém nesta casa. — seu tom era sério e firme. Ela estalou a língua, como desfazendo da importância de algo.

213 — E não entendo o porquê, Liam. — abriu caminho entre Lisange e eu, e atravessou o vestíbulo, observando tudo. — É..., encantadora. — disse olhando nervosamente em volta, estava claro que não estava confiante. — Exceto pelo frio polar, você não congela aqui dentro? Além disso, sei que não é certo, tenho visto aquele garoto muito gago por aqui, qual era seu nome? Você sabe a quem me refiro; certo? — perguntou e um segundo depois, deu uma pequena palmadinha de triunfo. Christopher! Christian? Senti-me ofendida, mas no fundo era um alívio. Se não sabia seu nome era porque não se aproximou dele e isso, ao meu entender, era bom para ele e, portanto, para mim. Não me agradava a idéia de ver essa "Barbie" como aspecto de harpia13 sem cérebro perto de Christian. Mas de repente, lembrei o que tinha acontecido na noite anterior e meus olhos voltaram a arder. Como se ouvisse meus pensamentos, ela concentrou sua atenção em mim. — Quem é essa? — sua voz estava um pouco alterada. — Por que você veio? — Lisange ignorou completamente a sua pergunta. — Eu vim para trazer a Liam um convite da minha festa de aniversário. — respondeu Silvana, devolvendo-lhe um olhar cheio de ódio. Estendeu uma folha de papel rosa mais brilhante que eu já tinha visto, e entregou-a para Liam com o maior de seus sorrisos. Lisange cruzou os braços e levantou de forma exagerada uma de suas perfeitas sobrancelhas. A recémchegada olhou-a por um momento, com expressão de inveja. Liam afastou os olhos enquanto Silvana ajeitava o suéter de cashmere branco que usava preso ao pescoço sobre uma camisa rosa pálido. Embora, é claro, sem perder o sorriso. — Eu não poderei ir, desculpe. Ela fez beicinho. Realmente, ela conseguia convencer alguém com isso? Era a perfeita imagem de um cachorro bulldog. — Sério? Não poderia tentar, por mim? Pobre Liam..., mesmo que eu tinha que admitir que, no fundo, era divertido. — Não é possível. — interrompeu Lisange se aproximando de Liam e rodeando sua cintura com os braços, ele sorriu para a loira. — Mas obrigada pelo convite.

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A harpia (Harpia harpyja) é a mais pesada e uma das maiores aves de rapina do mundo.

214 Ela juntou as sobrancelhas no que, supunha ser uma cara de dor avassaladora. Poderia ter funcionado, se não sentisse certa rejeição por ela desde o primeiro momento, em que Liam tinha aberto a porta, mas, aparentemente ele estava tão animado com a inesperada visita quanto Lisange, ou quanto eu. Logo depois, a expressão da garota tornou-se de raiva, sem dúvida, voltada a Lisange pela maneira como ainda abraçava Liam, e virou em direção à entrada principal. Caim apareceu do nada e pulou em meus braços. — Oh, um gato! Tentou acariciar seu pêlo, mas Caim ficou na defensiva e mostrou suas presas ameaçadoramente. Silvana puxou a mão de imediato. — Que animal tão gago! — Não gosta de estranhos. — Lisange a olhava com o queixo erguido, esperando impacientemente que essa estranha fosse embora da casa. Silvana se virou para Liam. — Bem, sinto muito que você não possa ir. Eu te verei no campus, então. Girou em seus calcanhares e dirigiu-se a pequena escadaria de pedra que conduzia à saída da propriedade. Liam a seguiu. — Silvana. — ele chamou. Ela virou-se, mais rápida do que o normal, como se estivesse esperando por essa chamada, e ficou olhando-o. — Tenha cuidado na volta para casa, essa floresta é muito traiçoeira. Sem esperar por uma resposta, Liam voltou para casa, nos colocamos de lado para deixá-lo passar e ele fechou a porta ante a cara atordoada da garota. — O que "essa" fazia aqui? — Lisange perguntou. — Essa é uma grande pergunta. — Ou seja... — Lisange sussurrou. — Não ficaria surpresa em saber que está vigiando a casa. E nesse caso, o problema é ainda maior, não podemos nos dar ao luxo de ter humanos por perto. Liam sentou-se novamente.

215 — No próximo ano, mudaremos de cidade, estamos começando a despertar a curiosidade entre os nossos vizinhos. — Mudaremos? — exclamei, olhando para Lisange. — Sim. — fingiu um estremecimento. — Esse sotaque fingido me deixa nervosa. Pensei em Christian, as lembranças vieram à minha mente, tão nítidas como se estivesse vivendo-as novamente. Seus olhos, frios e impenetráveis, tinham me permitido ver uma pequena fresta em seu interior. Naquela época, havia se tornado caloroso e acolhedor e um paraíso para mim. Deveria ter deixado que o Guardião me matasse, por que ele não o tinha feito? Pisquei, temendo que alguém quisesse me perguntar o que estava acontecendo comigo. Peguei o jornal e passei as páginas sem prestar muita atenção. Agora que Christian havia ido embora, devia ocupar minha mente com algo que não fosse ele. Talvez os problemas da humanidade fossem um bom ponto de partida. Folheei as páginas tentando me atualizar sobre o que estava acontecendo no outro mundo. Passei pela seção da sociedade. Era uma seção que costumava ignorar, mas uma foto do tamanho de um cartão chamou minha atenção. Olhei-a com especial interesse. Uma jovem loira, perfeitamente arrumada, sorria para o leitor. Eu li o artigo rapidamente. Quando terminei, voltei a lê-lo contendo a respiração. Não era possível. Era ela. O jornal escorregou dos meus dedos. Era a mesma garota que eu havia utilizado para me alimentar pela primeira vez. Eu tinha feito isso? Eu a tinha danificado a ponto de levá-la à loucura? Eu caí para trás na cadeira, com os olhos desfocados. Deus, o que eu havia feito? Não acreditava. Não, não podia ser possível. Christian tinha me parado no momento exato, mas para quem? Ele era um Grande Predador, supunha-se que podia chegar a provocar essas coisas. Se havia parado no momento que ele teria feito, então sim, era possível que eu fosse a causadora. De repente, senti uma vertigem, como quando você vê sangue de uma ferida aberta ou quando você ultrapassa suas forças. Voltei a pegar o jornal e anotei o endereço e o nome da garota, Claire Owen. Respirei. Devia vê-la com meus próprios olhos. Saí correndo da casa, foi a primeira vez em que lamentei não ter meu próprio carro, teria economizado tempo. Sentia-me o ser mais horrível do mundo, enojada de mim mesma. Eu não era assim, eu juro! Não poderia viver à custa de fazer mal aos outros.

216 Por acaso eu era agora a má da história? A Bruxa Malvada? O lobo mau? A bosta...? Era a que as pessoas temiam? Começou a chover, e não era uma chuva fraca, mas sim, praticamente granizo. De repente encontrei-me procurando de um táxi, a desesperada. Não era normal esse tempo tão perto do verão. Demorei quase uma hora até que o motorista me deixou na porta da clínica. Era um quadrado e cinzento, por causa do tempo e dos poucos cuidados, ao contrário do que oferecia o aspecto interior. O lugar, apesar de ser de um branco brilhante, estava escuro e inquietante, talvez por causa de todas as almas torturadas que deveria haver ali. Aproximei-me do balcão. Uma garota jovem com gorro e uniforme de enfermeira me atendeu. — Posso ajudá-la em algo? — perguntou-me depois de fazer uma bolha com a goma de mascar. O cheiro de amoras chegou ao meu nariz. — Eu gostaria de ver Claire Owen. — disse — Você é da família? — Não..., eu sou... — hesitei. — Uma amiga. — A entrada é restrita aos membros da família, para visitas de outro tipo há outros dias especiais, como as tardes de sábado. — virou-se para se concentrar em seus papéis. — Mas se estamos na segunda-feira! — São as regras querida. — disse arqueando uma sobrancelha. — Mas, por favor. — insisti. — Eu li que ela tentou o suicídio, deve estar destruída. Eu preciso vê-la, é muito importante para mim. — de repente, e parecia muito focada em meus olhos e senti que cedia. — Não fique muito tempo. — A verdade é que a pobre moça não teve nem uma única visita. — Nenhuma? Ela negou com a cabeça, ainda olhando-me com essa fixação estranha.

217 — Os Owens envergonham-se dela. A verdade é que a muitos dos pacientes acontece isso também, os abandonam aqui como um cachorro em um canil e desaparecem. — olhou-me. — Onde está o resto de seus amigos? — Não..., eu não sei. Não a conheço da escola. — ela deu uma risada e sacudiu a cabeça virando-a de lado a lado, com desaprovação, enquanto tirava um cartão. — Você vai ficar bem? Ela franziu o cenho. — Nenhuma paciente volta a sair já há alguns anos. Você não sabia? — não fez falta a minha resposta, minha expressão falou por si só. — Diga-me seu nome. — disse, voltando ao seu trabalho. — Lena De Cote. A bolha que estava fazendo estourou na boca. Ela levantou os olhos novamente para mim. — De Cote? — repetiu. — Outra prima de William De Cote?— me olhou com ceticismo. — Será que isso importa? Ele deu de ombros. — Uma paciente tem falado sobre sua família. — Claire? — perguntei ansiosamente. — O que ela disse? — Não, é outra das internas, mas não posso dizer-lhe o nome. A identidade dos nossos pacientes é confidencial. — recitou aquilo de costume, como se tivesse memorizado, enquanto anotava meu nome em um crachá. — O que... — eu hesitei. — O que foi que ela disse? — insisti. — Nada de interessante. Pelo que eu ouvi, pronunciou seu último nome, juntamente com uma variedade de palavras incoerentes. Mas no final, todo mundo que entra aqui, o faz por uma razão, talvez essa seja a sua. — olhei-a confusa. Colocou a identificação sobre o balcão, fui pegá-la, mas ela se adiantou a mim. — Diga ao resto de seus amigos que Claire continua está tendo sentimentos. — soltou o crachá. — Quarto 302, suba por este corredor para a direita. — Obrigada. Eu senti os olhos da recepcionista cravados em minha nuca. Apertei o crachá ao meu peito, em um momento de triunfo, mas lembrei para onde eu estava

218 indo, e a culpa e a tristeza abriram caminho até cair pesadamente em meu estômago. Subi para o terceiro andar e virei para a direita. Então, encontrei o número 302. A porta estava entreaberta e dentro dela vieram alguns sons como de alguns suspiros. Estremeci. Senti o desejo de voltar atrás, mas sabia que logo me arrependeria. Eu tinha que vê-la, se eu tinha sido a causadora do sofrimento desta menina, devia enfrentálo e viver com isso. Entrei. O quarto era como o resto do hospital, de um branco imaculado. Tinha um pequeno armário e uma mesinha com um copo de plástico cheio de água. E ao lado, amarrada com tiras nos punhos, estava ela. A imagem que eu tinha diante de mim, e a que lembrava em minha mente daquele dia, era completamente diferente. A menina loira, popular, confiável e elitista, havia se transformado em um corpo frágil retorcido sobre o lençol da cama em que estava amarrada. Não a rodeava a corte de fãs leais que tinha visto no refeitório, e em seu rosto já não usava a expressão de auto-suficiência e desprezo. Estava pálida e com o olhar perdido no infinito. Eu mal entrei e do nada, ela tentou se levantar. Tinha os olhos muito abertos e a cabeça inclinada para um lado, mais que o normal, tanto que eu pensei que iria cair no chão. Seu estado era lamentável. Eu não poderia ter sido a causa, não tinha poder para fazer essas coisas, ou tinha? — Claire? — sussurrei, e ela olhou-me com mais atenção. — Como você está? — ela apoiou-se na cama com os olhos desorientados. — Eu... — sussurrei com a voz quase inaudível. — Eu sinto muito, realmente. Não pretendia... — calei de repente ao ver seu rosto. Ela abriu muito os olhos, sua expressão passou de confusão a medo seu coração acelerou de forma surpreendente. — Eu não vou machucar você. — tentei dizer. Não mais do que eu já fiz. Eu me aproximei e peguei sua mão, mas ela a puxou de um golpe e começou a gritar incontrolavelmente, enquanto seu corpo se agitava em violentos tremores. Eu me inclinei para trás, assustada. — FORA! FORA! — gritou. — FIQUE LONGE DE MIM! FORA!

Dois médicos entraram às pressas com uma seringa enorme. Enquanto um a segurava, o outro lhe injetava um sedativo.

219 Segundos depois, jazia quase inerte sobre o colchão. Minha respiração ainda não tinha voltado ao normal. Senti uma respiração no pescoço. Virei-me e encontrei uma figura humana contemplando-me sem nenhuma expressão no rosto. — Não se aproxime tanto de Claire. — virei a cabeça para o médico que falava comigo, automaticamente, como em uma ação reflexa. — É muito alterável. — Eu vou lembrar-me disso. — disse eu. — É melhor eu ir. Olhei para a porta, mas a figura havia desaparecido. — Está sedada, ficará tranquila. — De qualquer forma, prefiro deixá-lo descansar. — respondi confusa. — Como quiser. Saí do quarto. Olhei pelos corredores e salas adjacentes, mas não encontrei nem vestígio desta estranha mulher. Vencida, voltei para a rua, sentindo aqueles enormes olhos negros fixos em mim.

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A história de Lisange.

Ninguém havia me explicado o que acontecia a um humano depois de ser ‘‘utilizado’’. Essa palavra soava t~o mal, ainda que ele tivesse me assegurado que n~o sofriam danos graves. Claro, qual é a definiç~o de ‘’grave’’ para um Predador? Todo este assunto me impedia de dormir a noite e pensar em qualquer coisa de manha. A ausência de Christian não fazia mais que piorar tudo, se somente estivesse ali para poder perguntar a ele... Essa manhã havia mais barulho que o normal e isso me fez acordar muito cedo, eu também não estive tendo as melhores noites ultimamente. Meus sonhos pareciam motivados a me lembrar das últimas palavras de Christian, assim que no fundo eu agradecia todo aquele barulho. Fui para baixo, Flávio estava ajeitando um pequeno e elaborado relógio de bolso prateado, em pé do lado de uma pequena mala. O barulho vinha da sala onde Goliat havia subido em uma das cortinas e Lisange estava tentando de todos os jeitos de tirá-lo e para terminar a cena Caim não parava de miar como um louco. — O que aconteceu? — perguntei. — Lena!— disse Flávio enquanto ajeitava o relógio, colocava no bolso, e virava para mim com um sorriso. — Alegro-me que tenha levantado, não queria ter que despertá-la para me despedir. — Vai embora?— perguntei sem entender nada. — Sim, adiantei a viajem a casa da montanha para sair deste calor horrível. Liam acabava de aparecer na escada bem atrás de mim. — Não vamos todos? — perguntei ao ver que os dois tinham malas. — Não, não. Liam vai me ajudar a preparar tudo. Voltaremos amanhã e nos reuniremos todos lá depois das provas. Flávio veio e me abraçou.

222 — E se você reprovar, no próximo ano, nós vamos ministrar aulas a você, viu? Ri em seu ombro, esperei que me soltasse, mas demorou alguns segundos para fazê-lo. Separou-se do abraço e segurou minhas mãos. — Foi um verdadeiro prazer te ensinar Lena. — disse me olhando diretamente aos olhos. — É capaz de fazer mais coisas de que acredita, estou seguro que se surpreenderá qualquer dia. Sorri, Tinham bastante fé que eu iria passar nos exames. — Boa viajem. — desejei. — Boa ou má, contando que seja rápida. — piscou para mim e foi para a porta. Antes de sair me olhou mais uma vez e disse sério. — Tenha muito cuidado ai fora. — Terei. Até alguns dias Flávio. Dedicou-me um último sorriso e foi embora. O fato é que havia deixado Lisange e eu, completamente sozinhas. Ela, claro, ficou louca com a idéia de ser capaz de fazer "coisas de mulher." Durante esse tempo. Depois de ver os resultados que tinha conseguido com a festa, a sua emoção teve melhoras. Estava determinada a fazer-me uns dias de beleza, algo que não estava nos meus planos porque eu realmente me sentia muito confortável com meu novo visual. Mas mesmo eu, parecia incentivada pelo plano, tendo em conta a necessidade desesperada de escapar de todos os problemas que tinha em mente. Nosso primeiro dia, sozinhas foi naturalmente, um longo dia de compras. Acabamos no fim da tarde, carregando uma pilha de sacolas, porque ela queria renovar o armário de Liam. Mas apesar de todas as horas decorridas entre provadores e pilhas de roupa, não podia livrar de me culpar sobre o que havia acontecido com Claire. Toda vez que passava por uma menina loira, as comparações eram inevitáveis e terminou com Lisange percebendo. Ao chegar a casa, seus olhos desviaram para o vidro quebrado que estava na entrada. — O que aconteceu? — perguntou enquanto fechava a porta.

223 — Eu não sei; superaqueceu ou deram um golpe. — eu disse encolhendo os ombros e percebendo o quão absurdo soou as minhas palavras. — Não há vidro no chão. — insistiu. — Lisange eu não sei o que aconteceu. Deixei-lhe na entrada e entrei na sala, mas ela me seguiu. A verdade é não era uma autêntica mentira, eu sabia que tinha quebrado, mas não por que. — Ok, fale. — disse ela, deixando as compras no nosso sofá. — O que te preocupa? —Não acontece nada. — Lena, nós não vamos sair daqui até que me diga. Você pode confiar em mim. — afirmou. Respirei, a verdade é que eu precisava compartilhar isso com alguém, por isso ela não precisou falar mais vezes, peguei o jornal do outro dia que tinha guardado entre meus livros e abri na página. — Essa menina. — comecei, mostrando a foto. — É a que utilizei na primeira vez. Avaliou em dois segundos o artigo inteiro e olhou para mim novamente, um pouco confusa.. — Lena, o que isto tem a ver com você? Arregalei os olhos, surpresa que não tinha visto ao que me referia. — Tudo. — exclamei exasperada. Instando-a para que lesse novamente. — Leia de novo, acho que eu lhe fiz isso.. Mas ela não se moveu, limitou-se a franzir a testa, desta vez preocupada. — Não foi você. — afirmou com total naturalidade, devolvendo-me o jornal. — Como pode ter tanta certeza? — Porque um Caçador não pode fazer isso, e muito menos na primeira vez. Voltei a olhar a página.

224 — Então como pode explicar isso? — murmurei. — Não pode se uma casualidade. — Eu não disse isso. Uma coisa assim é sem dúvida obra de um Grande Predador. Levantei os olhos para ela. — O que você quer dizer? — perguntei. — Você não seria capaz de fazer essas coisas exceto que queira fazê-las intecionamente, e ainda seria necessário vários anos de experiência. — Não entendo... — Quando estamos em pleno... — procurou a palavra certa. —...Trabalho, tem um instinto que indica que devemos parar. Os Grandes Predadores também tem, mais ignoram. Essa é a diferença entre nós e eles. — Mas eu a fiz chorar! Talvez eu não tenha distinguido quando devia parar e... — parei um momento e analisei sobre o que havia dito, na hora entendi o que significavam as palavras de Lisange. — Acha que Christian...? — Ele não deixa de ser um deles Lena, ainda que você se negue a ver. Ainda assim. — voltou a dizer. — Não acredito que seja seu estilo, duvido que ele tenha usado a mesma menina que você, de todas as formas. — continuou, deixando-se cair com elegância no sofá. — Pode perguntar a ele e ver o que ele diz. —Não posso. — reconheci e me sentei ao seu lado. — É bastante difícil que volte a vê-lo. — me olhou surpresa e se ajeitou no sofá; agora tinha captado toda sua atenção. — O que aconteceu?— perguntou. — A verdade é que eu não sei. Queria me contar toda a verdade sobre ele, mais eu me neguei a escutar. — de forma instintiva coloquei a mão sobre a boca. Meus lábios ardiam, mais não tinha nenhuma marca que justificasse a dor. Lisange ficou quieta, como uma estátua, mas estátuas não têm a testa franzida. — Por que não quer? Fiquei em pé, incapaz de ficar sentada.

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— Porque me disse que me afastaria dele, que eu iria odiá-lo... E eu não quero. Lisange, eu não iria suporta isso. — cobri o rosto com as mãos e lembrei que ela sabia mais dele que eu. Ela ficou em silêncio. — É tão ruim o que ele tem para me contar? — perguntei com medo. — A história de qualquer Grande Predador é horrível. — levantou-se e veio para perto de mim. — Você acaba de nascer Lena, há muita coisa de seu passado que poderia chocá-la e ele sabe que se o fizer, terá medo dele, o que, por outra parte, seria o mais normal... —Porque todos insistem em que devo ter medo dele? Você não tem medo dele. — disse dando-lhe as costas. — Mas você é mais vulnerável. — A que? — insisti a beira de ficar histérica e voltei a olhá-la. — Porque razão não poderia falar claro comigo? — Para ele. — respondeu ela me olhando nos olhos. — Não importa quanto pense que precise dele, algumas coisas você não pode ignorar. — Quais? — insisti. Levantou-se e me pegou nos braços. — Você mesma viu o que aconteceu na festa com aquele humano e como torturaram a um dos nossos na outra noite. Abra os olhos! Lena, Isso não é nada comparado com o que ele faz quando não está com você. Temos respeitado a sua decisão. — continuou com a voz suave. — Mas o caminho que você escolheu só te conduz a dor. Acredite em mim quando digo que sou a primeira que sabe o que é ficar cega por algum sentimento e ignorar todo o resto. Por isso me neguei a que ficasse com ele, porque eu sabia que iria sofrer... — De repente, Lisange ficou tensa. Meu corpo inteiro também ficou tenso e ambas ficamos em silêncio. Ela não era a única que havia ouvido. Todos os cachorros da cidade estavam latindo descontroladamente, me atrevia a dizer que estavam assustados. Foi para perto da janela e espiou o lado de fora.

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— O que está acontecendo? — perguntei alarmada. —Percebe isso?— disse Lisange. Fui para o seu lado. — O que? — Nada. — respondeu sussurrando. — Nem vento, nem grilos.... Apenas os latidos dos cachorros; parece que todo o resto ficou quieto. — Como se estivessem mortos. — comentei sem pensar. Olhou-me, f alando com os olhos. —Precisamente isso, Lena. — Por quê? Fechou todas as janela e cortinas e depois apagou as luzes, deixou apenas uma pequena lâmpada fraca. — Lá fora há Guardiões. — infelizmente, eu sabia que tinha razão, era praticamente o que havia ocorrido no dia da festa. Afastei-me da janela. Lisange voltou com uma adaga no cinto, pegou minha mão e levou-me de volta ao sofá. — Não respire. — sussurrou. Caim subiu ao nosso lado e ficou tão quieto que poderia ter passado como parte dos móveis. Os cachorros ficaram quietos e de repente um absoluto silêncio invadiu tudo. Aguardamos imóveis. Em principio não ocorreu nada, mais pouco a pouco o vidro da janela começou a agitar e a luz ameaçou estourar. Então Lisange se apressou a apagar ela. — Estão comprovando se há vida na casa. — sussurrou, de forma tão baixa que mal deu para ouvi-la. Senti a mesma respiração profunda e difícil outra vez, com esse ranger de dentes, horrível. Não fui capaz de me mover nem um milímetro. Uma sensação desagradável percorreu toda minha coluna e o frio voltou com força em meu corpo.

227 O chão também vibrou e juraria que até mesmo Cain se agitou. Lisange mantinha o cenho franzido e os olhos cravados na janela mais próxima, com uma mão firme em torno da adaga e a outra segurando meu braço. Não sei quanto tempo estivemos assim, atentas ao silêncio. De repente, Cain miou e, imediatamente depois ouvi um grilo, seguido de outro..., e outro. As folhas das árvores voltaram a balançar com normalidade. De novo havia vida fora de casa. Lisange soltou meu braço e se endireitou com lentidão. — Já passou? — perguntei com um fio de voz. Abriu um pouco as cortinas e olhou através do vidro. — Sim, mais será melhor se ficarmos aqui essa noite. Pode dormir, eu vigiarei. Tirou todas as almofadas do sofá para que eu pudesse dormir ali e sentou-se na poltrona em frente. Eu a olhava sem piscar até que me lembrei de algo. —Tenho seu livro- confessei. Não sei exatamente porque, mais senti que devia dizer. Ela ficou em silêncio durante um tempo antes de responder. — Obrigada por me dizer. Apoiei-me sobre um cotovelo para vê-la melhor. —Não havia te dito antes porque Christian me assegurou que era ruim para você. — acrescentei a modo de desculpas. — Ainda que ele não tenha me contado a razão. — Muita consideração da parte dele. — pensou alto, mais não parecia muito agradecida. Então me olhou. — Ainda não sabe com cheguei aqui, certo? — Não. — sussurrei. — Queria perguntar quando me emprestou o seu vestido, mas Christian me advertiu que também não era bom fazê-lo. Levantou a cabeça para o teto. Parecia pensar em como me explicar. Cruzou as pernas sobre a poltrona. Logo me olhou. — Quer saber mesmo?

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Assenti levemente. Ela passou uma mão pelos cabelos, inquieta. — Quando estava viva, eu morava com uma família que tempos atrás tinha sido uma das mais poderosas de toda a França, mas na minha época as coisas eram diferentes. Não éramos pobres, ainda tínhamos um bom nome e terras, mas nada comparado com o que havíamos tido um dia. — fez uma pequena pausa. — Eu era uma dessas garotas que não tinha nada melhor para fazer do que sonhar com cavaleiros de capa e espada, montados em grandes cavalos brancos. Eu era inocente... — olhoume e inclinou um pouco a cabeça. — Muito inocente. Um dia acreditei que tinha encontrado o meu cavalheiro. Era um dos filhos de uma família que morava do outro lado da capital. Disse-me que havia se apaixonado por mim no momento em que me viu e eu acreditei! É o que toda menina deseja ouvir. — deu uma risada amarga e colocou os olhos em branco. — Comecei a vê-lo em segredo. Meu pai não queria que me relacionasse com homens até que tivesse casado minha irmã mais velha. Mas era uma injustiça! — Os descobriram? — perguntei. — Não. — negou, movendo a cabeça. — Mas não eram bons tempos e fiquei doente. Ele assegurou-me de que continuaria estando ao meu lado e que quando nos recuperássemos iríamos nos casar e compraríamos uma casa longe das nossas famílias. — Mas isso é era bom, não? — interrompi. — Sim, claro. Mas depois começou a não comparecer aos nossos encontros, mandava-me bilhetes com desculpas absurdas e eu estava cada dia mais doente. Um dia deu-me um livro junto a uma nota que falava de uma maravilhosa história de amor onde o casal decide se matar para poderem ficar juntos. — Romeu e Julieta... Ela assentiu. Pegou a adaga do cinto e ficou jogando-a enquanto continuava a história. — Eu me apaixonei por cada palavra do livro. — respirou fundo. — Poucos dias depois me propôs fazer igual aos personagens. Disse-me que temia que não ficasse boa e morresse doente e disse que ele não iria conseguir viver assim. Inclusive, trouxe com ele um vidro de veneno. — riu uma vez mais. — Deu-me uma morte doce e sem dor como em um sonho. Apertava cada vez com mais força o cabo da adaga. Senti algo pesado no estômago, como se já soubesse que algo ruim iria acontecer.

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— Acreditou... Juntou seus lábios em uma fina linha, com os olhos fechados e tomou ar para tentar relaxar. — Tinha tanto poder no seu olhar, Lena. — sua voz tremia. — Soava tão sincero... Talvez fosse eu que via isso nele, cega pelo meu amor, mais sim. — disse abrindo os olhos olhar-me. — Eu o fiz. Era romântico morrer junto à pessoa amada e ver o que ele sacrificava por mim. Como podia negar? — O que aconteceu depois? Lisange se movia inquieta e inclinou a cabeça para o lado. — Ele não bebeu. Não entendi o que estava acontecendo, por que ele não o fazia, mais já era tarde para mim. Alegou que minha vida já tinha terminado de todas as formas, mas que a dele não podia acabar assim, que ele merecia continuar. Não fui capaz de dizer nada nesse momento. — ela cobriu o rosto com as mãos, sentei-me ao seu lado e tentei reconfortá-la, mais não sabia o que fazer para diminuir a sua dor. — Lisange… — Ele fugiu. — sussurrou entre seus dedos. — Fugiu como um covarde, me deixando morrer sozinha, com o coração em pedaços. Em meu último fôlego, todo amor que sentia por ele se transformava em ódio. — descobriu seu rosto de novo, olhando-me com ansiedade. — Mas apesar de todos esses anos, desses séculos..., eu não consegui esquecê-lo. — Se ele não pretendia morrer, porque te propôs? Soltou uma risada amarga. — Depois descobri que havia ficado noivo de jovem da Corte. Ela tinha muito dinheiro e seu pai desconfiava dele, assim acredito que tinha pressa de acabar comigo o mais rápido possível, antes de se casar com ela. Talvez, apenas quis acelerar o evidente. Estava tão triste e abatida, que senti uma enorme tristeza por ela. Eu não era profissional sobre amor, mais sabia que tinha rompido seu coração. — Eu sinto muito, de verdade.

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—Deveria ter acabado com ele quando me dei conta de tudo, mais foi a única vez em toda minha existência em que não tive forças suficiente. Fui capaz apenas de recorrer aos livros e ir para longe dele. Retirei com cuidado a adaga de sua mão e a coloquei sobre a mesa. — Mas aconteceu há muito tempo Lisange, deve esquecê-lo. — Eu superei Lena, é só que às vezes me lembro e penso que poderia ter acabado de outro jeito. — olhou-me com ansiedade. — Acredite em mim, será mais fácil ignorar como morreu. Minha mente viajou. Será que minha historia era igual a de Lisange e Flávio? — Fique com o livro Lena, não quero saber onde o guardou. Assenti. Lisange cancelou tudo o que tinha planejado para o nosso último dia sozinhas e mostrava-se muito interessada em falar com Liam. De fato, havia decidido não sair de casa até que ele voltasse. Fiquei com ela toda a manhã e grande parte da tarde, mas ficar presa ali era o que eu menos precisava. Alem do mais, o que quer que seja que tenha que contar para Liam, eu tinha certeza que iria agradecer se eu não estivesse por perto, ouvindo tudo com meus ultra potentes ouvidos. Havia se passado apenas poucos dias desde a festa e já sentia que o tempo me consumia lentamente. Que sentido tinha tudo agora sem ele? Talvez tivesse se dado conta de que eu não era mais que uma carga. Pode ser que no final sentisse pena de mim e decidiu perdoar-me a vida..., ou talvez seu lado selvagem e sádico tenha considerado que eu sofreria mais vivendo. Pode ser que esta fosse sua maneira de acabar comigo, uma morte lenta e dolorosa. Cumpria todas as condições que ele havia imposto: eu já havia me transformado em uma autêntica Caçadora e havia me alimentado, nesse tempo, ele teve tempo para me conhecer e fez justo quando eu menos esperava. E se tudo isso fosse apenas um jogo? Suas palavras, seu comportamento... E se o que ele pretendia era fazer com que me apaixonasse e depois acabar comigo desta forma impiedosa? Senti uma forte dor no peito.

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— Não. — eu disse em voz alta. — Ele não faria isso. Não?Então, porque havia ido embora? A idéia de ir procurá-lo era realmente tentadora. Não me importava nem Hernan, nem Elora, nem todo o mal que eles podiam me fazer. Precisava vê-lo uma vez mais. Decidida, virei-me e fui atrás dele. Ainda que, para dizer a verdade, eu não era a culpada pelo o que havia acontecido. Minha reação tinha sido normal e ele não tinha nenhum direito de ficar com raiva e dizer todas as coisas que tinha me dito. Talvez a culpa não fosse apenas minha... Não, não, não, não pensava em me arrastar ante ele. Só me faltava isso! E que ainda risse de mim! Era compreensível que eu não quisesse saber todas as horríveis coisas que ele já havia feito; o que pretendia? Vangloriar-se? Parei em seco, não iria procurá-lo. Girei sobre os calcanhares e fui para casa. Ele tinha se comportado muito mal naquela noite. Nunca pensei que jogasse no meu rosto sua condição na escala social para fazer-me sentir tão inferior. Durante todo esse tempo declarei-lhe meus sentimentos que nem sequer havia mencionado na frente dos De Cote. Havia confiado nele e esse foi o meu maior erro. Nunca deveria ter baixado tanto a guarda. Tinha aberto meu coração para ele! Frustrada, dei um chute em uma pedra, que saiu disparada e amassou a roda de um carro. Parei horrorizada pelo que tinha acabado de fazer, ainda não era capaz de controlar as minhas..., habilidades. Mudei de direção para não ter que cruzar com o dono do carro que olhava para a sua roda amassada, com um gesto de contrariedade, enquanto coçava a cabeça. Um pouco mais a frente vi um menino que me olhava fixamente, sem perder um detalhe de todos os meus movimentos. Assustei-me, e se ele havia me visto chutando a pedra? Dobrei em uma rua a direita e apressei o passo para afastar-me o máximo possível dele, com a má sorte de topar com uma rua sem saída. Virei para voltar, mas, ao levantar os olhos, um grito ficou congelado em minha garganta.

232 A poucos metros, encontrava-se uma mulher com aspecto selvagem, com os olhos fora de órbita; magra e perturbada. Recuei mais ela correu para mim com uma agilidade que nem eu, que era muito mais jovem, tinha. Empurrou-me ate o fundo do beco, iluminada apenas por uma pequena lâmpada. Ao longe pude ver os as luzes da rua acender-se lentamente, iluminado sua figura encurvada. Olhava-me sem pronunciar uma só palavra. Tentei me soltar, mais me segurava com força sobre-humana que não pude combater. Estava claro que ela também n~o era ‘’normal’’. — Solte-me! — gritei. Tapou minha boca com um ágil movimento para que não pudesse gritar. — Fuja. — sua voz era muito áspera. — Você deve fugir. Aproximou-se mais do meu ouvido, com voz urgente, como se tivesse com tanta pressa de sair dali como eu. — Eu o vi, sinto-o em cada osso do meu corpo, em cada músculo..., são cada vez. Eles estão próximos e não irão embora enquanto não conseguirem o que querem... Não há tempo! Isto não é um jogo! A luz que existia piscou e apagou, e a estranha aproveitou o momento para desaparecer. A última coisa que vi foi um estranho avental de hospital ondulando na escuridão. Algo metálico caiu no chão. Agachei-me e o peguei, era uma pequena placa de identificaç~o com um numero e um nome: “H. Lavisier.” Demorei dois segundos para voltar a pensar, mais o suficiente para me lembrar que estava sozinha no meio de uma rua escura. Sai correndo de lá e parei um táxi. A noite já estava próxima demais e não queria voltar a me arriscar. Olhei uma última vez a placa e tentei encontrar algum significado para as palavras daquela mulher, durante todo o trajeto para casa, sem muito resultado. Sai do Taxi antes de chegar e percorri a pequena distância que me separava da casa tão rápido quanto pude. O terreno da casa já estava a vista, iluminado por tênues luzes. Tentei relaxar antes de entrar. O que aquela mulher tinha me dito não tinha nenhum sentido. Certamente não tinha relação comigo. Sim, era bastante provável fosse apenas um delírio.

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— Ola, Lena. A porta se abriu antes de chegar até ela. Era ele. Estava sorridente e fresco, por assim dizer, era evidente que o pouco tempo que tinha passado na montanha tinha lhe feito muito bem, enquanto nós sofríamos aqui, no calor. — Liam, como está? Deu-me um pequeno abraço antes de me deixar entrar na casa. — A viajem demorou, mais valeu a pena. O lugar as encantará, logo vereis. Por algum motivo tinha a ligeira impressão que Lisange já tinha lhe contado todos os detalhes do fim da minha indesejada ‘’relaç~o’’ com o Grande Predador. Agora seriamente não sabia se seu bom humor se devia a neve ou ao desaparecimento de Christian do mapa da nossa zona. — Adivinha! — disse Lisange prontamente. — Liam disse que está tão bom lá encima que em alguns dias nós iremos também para recobrar as forças para os exames, o que acha? — Perfeito. — tentando fazer com que minha voz soasse entusiasmada, mais minha mente estava no que acabara de acontecer. — Você está bem? — perguntou ela olhando-me com atenção. — Parece preocupada. — É. — confirmou Liam afastando-se um pouco para avaliar meu aspecto. — Se tem relação com os Guardiões, não deve inquietar-se. Em alguns dias estaremos longe daqui. Oh, isso... O certo é que o que havia acontecido na noite passada não se encontrava na lista das minhas principais preocupações. Christian havia ido embora. Havia encontrado-me cara a cara com um Guardião e havia sobrevivido por milagre. E uma mulher cuja conduta, eu duvidava, acabava de abordar-me dizendo que era para ir embora. Isso sem contar que o espinho de Claire continuava ali espetado, acusando-me cada vez que tentava me alimentar. Não, definitivamente, esse pequeno incidente ao que ele se referia não era a minha principal preocupação. — Sim, eu sei. Não tenho porque me preocupar.

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Também não ia contar-lhes a verdade. Devia enfrentá-lo, estava confusa e emocionada por tudo que tinha acontecido nos últimos dias, de modo que o que acabara de me acontecer tinha todos os números para tratar-se de um produto da minha imaginação, muito fértil. Mas que sentido teria a placa de identificação que estava no fundo da minha bolsa?

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Gatos.

O som do alarme me despertou. Estava certa de que a pouco tinha ido dormir, mas ao olhar para o relógio, vi que eram cinco horas da manhã e três minutos. Grunhi para mim mesma e me deixei cair na almofada. Não era justo me levantar àquela hora..., mas alguém deu umas batidinhas em minha porta. — Lena; estamos indo! De repente, lembrei-me! A viagem! Saltei da cama como se os lençóis me queimassem, agradecendo mil vezes por poder ter aproveitado as horas de insônia para preparar minha mala. — Lena? — a voz de Lisange soava angustiada. — Você está aí? — Sim! — disse enquanto passava a camiseta pela cabeça. — Já vou! — Vá depressa! Devemos sair antes que o sol se intensifique; do contrário, a viagem será muito incômoda! — Sim, sim! — gritei e cai no colchão, lutando com minhas calças para meter as pernas no lugar certo. — Já vou! Busquei um par de meias e as botas de montaria debaixo da cama. Arrumei meus cabelos em um rabo de cavalo, joguei minha bolsa nos ombros e sai em disparada escada abaixo. Ali, Lisange esperava por mim junto à entrada com o pequeno Cain em seus braços. Enquanto me via aparecer, gesticulou com a mão para que eu tivesse mais pressa. Saltei para a rua que ainda estava às escuras, mas que não tardaria em começar a clarear. Lisange fechava a porta enquanto eu colocava a minha bagagem no porta-malas que estava aberto. Sentei-me no banco de trás e Lisange sentou-se no banco da frente; inalei pausadamente o ar para recuperar o ritmo normal da minha respiração. — Tudo bem? Liam me olhava pelo espelho retrovisor com os óculos de sol já colocados e com um sorriso nos lábios. Como conseguia estar tão sorridente naquela hora da manhã? — Sim. — disse encabulada. — Estou bem.

237 — Então vamos. Um longo caminho nos aguarda. Ele arrancou com o carro e em pouco tempo depois o casarão já havia ficado para trás. Lancei um último olhar com uma pontada de dor; sabia que não veria Christian por um longo tempo, talvez nunca mais, embora “nunca” fosse uma palavra muito pesada. Vi passar a cidade através da pequena janela de vidro colorido. Não havia ninguém na estrada, nem sequer as luzes das casas estavam acesas e, na rua tão solitária, transitavam aqueles que voltavam de uma noite de festa no centro. Liam colocou uma música lenta que me fez ficar sonolenta. Ele e Lisange conversavam entre si em um tom muito baixo, quase apenas em uma movimentação de lábios para que eu pudesse voltar a dormir. Pouco a pouco, a claridade do céu se tornava mais evidente. A iluminação dos postes começava a se apagar e os primeiros carros, dos trabalhadores mais madrugadores, já saiam de suas respectivas garagens. A cidade deu lugar a um bosque e este ao campo, cada vez mais rústico e selvagem. Dormi um pouco, mais ou menos até que, sem aviso algum, Liam parou o carro de repente. Fui projetada para frente e logo me joguei para trás, batendo-me contra o assento. Liam se voltou para mim com um sorriso oblíquo. — Espero que tenha dormido Lena. — Por quê? — perguntei. — Porque, se não tiver dormido, não aproveitou uma grande oportunidade. — Já chegamos? — Não. — e voltou a sorrir. — Mas agora vem a parte interessante. Olhei de um para outro sem entender, em busca de uma resposta. — Coloque o cinto de segurança, Lena. — foi a única coisa que Lisange disse, enquanto ajustava o seu cinto. Liam a imitou. — Não queremos quebrar o carro com os golpes. Sem compreender muito bem, ainda entorpecida pelo sono, coloquei o cinto. Liam ligou novamente o motor, mas em vez de seguir pela estrada, virou à esquerda, saindo do caminho. O que veio em seguida foi uma série de sacudidas violentas por causa das ondulações do terreno. Apoiei meu corpo contra o assento numa vaga e inútil intenção de me manter no lugar, mas os saltos eram tão altos que em mais de uma ocasião me espatifei contra o teto do veículo.

238 Liam e Lisange se divertiam a valer. Gritavam e riam de tal forma que me fizeram lembrar as novelas de velho oeste, em que os personagens montavam em cavalos arredios tentando domá-los. Ouvi o miado enfurecido de Cain, que, em um movimento brusco, caiu sobre mim, rasgando com as unhas a manga da minha camiseta. Tentei pegá-lo, mas o perdi de vista. Não sei quanto tempo ficamos naquela situação, apenas sei que, de repente, o carro freou com uma última sacudida. Vários segundo se passaram até que parassem de rir. — Que tal a experiência, Lena? Liam se voltou para mim com um largo sorriso. — Agitada. Foi a única coisa que pude dizer. Lisange riu. Olhei pela janela e um sorriso escapou de meus lábios. Tudo era lindíssimo: estávamos em um grande manto branco de neve e um vento bem forte balançava um pouco o veículo e não nos deixava ver muito além, mas a temperatura era maravilhosamente agradável. Lisange abriu a porta e saltou na neve e, nesse momento, a tormenta entrou no interior do carro. Liam também saiu do carro e tentou visualizar a direção da cabana. Eu saí com cuidado e afundei as botas no manto branco. Tinham razão. Era incrível como me sentia bem. Senti algo bater em meu peito. Abaixei a cabeça e vi Caim resfolegando ante nossa aparente falta de atenção. Acariciei seu pelo para tranquilizá-lo. Lisange ficou em pé novamente, tirando os flocos de neve de sua roupa. — Não havia me dado conta do quanto sentia falta disso. — confessou. — Deveríamos entrar para buscar o Flávio. — disse Liam. Levamos menos do que o normal para chegarmos, então, não devemos esperar. — Você não disse que o tempo estaria bom? — comentei em voz alta. — Parece que mudou. — ela respondeu. — Consegue ver o caminho? — perguntou Lisange, tentando se livrar da sua jaqueta para ficar de mangas curtas. — Sim, embora seja provável que alguma parte dele tenha provavelmente desaparecido por causa da tempestade. Talvez demore mais um pouco para chegarmos. — Não importa, está perfeito. — cantarolou pulando de um lugar a outro.

239 Lisange era muito esperta e otimista, mas nunca a havia visto daquela maneira. Liam se aproximou de mim e pegou minha mão: — Para não nos perdemos. — sussurrou no meu ouvido, fazendo brilhar um sorriso. Tentei avançar, mas não sem certa dificuldade. A neve já cobria parte da roda do carro, o que fazia o andar algo mais lento e cansativo, mas agora minhas pernas tinham muito mais força, era como se pisasse entre bolinhas brancas de isopor. Entramos no meio da tempestade. O som do vento era tão forte que estrondava em minha cabeça. Nem sequer conseguíamos ouvir a nós mesmos, por isso resolvemos andar em silêncio. Cain se aconchegou em meu colo ronronando, a ele também agradava o frio do ambiente. Em um descuido, o gato saltou no chão, suas pequenas patas mal afundaram na neve e seu pêlo branco se misturou a ela de forma que apenas um par enorme de olhos negros aparecia no terreno embranquecido. A mão de Liam me sustentava com firmeza, mantendo-me a pouca distância dele, gesto que agradeci, pois era o único que sabia chegar até ali e tive medo de me perder se me soltasse. Por mais reconfortante que fosse o frio, não estava segura se conseguiria aguentar por muito tempo debaixo daquele temporal. Liam não parecia muito entusiasmado com a ideia de estar sob uma tormenta incessante. A única que desfrutava daquela perspectiva era Lisange, que, embora não saltasse, mantinha a mesma cara de felicidade. — Aqui está. — disse-me Liam vários minutos mais tarde. Sinalizou um lugar mais à frente de nós. Esfreguei meus olhos para me livrar dos flocos de neve que haviam se prendido em meus cílios e tentei visualizar alguma coisa. Lá, não muito longe, havia uma pequena cabana de madeira clara. Parecia bem antiga, mas se mantinha em pé sem problemas. Tinha dois andares e uma lareira apagada. A neve se acumulava em torno das janelas e obstruía um pouco a porta principal. Não era muito grande, mas parecia capaz de abrigar a nós todos. Dirigi um sorriso a Liam; a verdade era que estava aliviada por ter chegado. Por certo, não pensava em banhos quentes ou em sopas revigorantes, mas sim um pouco de paz de espírito. Caim parou e deu voltas em torno de si mesmo. Dei umas batidinhas no braço de Liam para que olhasse o gato e nós três nos detivemos, contemplando-o. — O que aconteceu?

240 Lisange se aproximou e tentou passar o dorso do dedo em seu lombo para acariciá-lo, mas ele escorreu para o lado e, sem aviso prévio, se perdeu pela tempestade. Ela se pôs de pé imediatamente: — Caim! Pela primeira vez, Liam soltou minha mão. Parecia preocupado. Ambos saíram atrás do gato e eu me vi seguindo-os com toda a rapidez em uma tentativa desesperada de não perdê-los de vista na tempestade. Entraram em um bosque que eu não sabia como chegar. Lutava contra os elementos da natureza: o vento soprava em meus ouvidos, não conseguia ver se as árvores se cruzavam no meu caminho até que elas ficassem a poucos centímetros de minhas mãos e, considerando a velocidade que corria, foi um milagre não ter trombado com nenhuma delas. Também era sorte não me afundar muito na neve, porque jamais teria conseguido alcançá-los. Não os via, tampouco podia ouvi-los, então, segui o rastro de seus perfumes. De repente trombei com Liam, e cai para trás na neve. Ao vê-los, me assustei. Ambos estavam inclinados sobre algo que estava no chão, olhando-o fixamente. Arrastei-me até o lado de Lisange, que sacudiu a neve da superfície de uma pequena tábua de madeira. Nela haviam sido gravadas com pressa algumas palavras. Inclinei-me mais para lê-las. Os traços eram grosseiros e pelo estado da madeira, ela estava há pouco tempo lá. Nas inscrições estavam um nome e uma data, mas os últimos números eram ilegíveis. — Goliat... — murmurei ao ler a primeira palavra. — O gato de Flávio. — Não pode ser. — disse Lisange. — É impossível que... Ela se deteve e não tinha mais aquela feição de felicidade de minutos antes. Um sorriso de terror surgiu em seus lábios. Liam, pelo contrário, mantinha-os apertados. — Flávio... — sussurrou ele pelo bosque Ele se levantou e desapareceu em meio a nevasca a toda velocidade. — Liam, espere! — Lisange se virou e agarrou minha mão com força. — Depressa, Lena! O seguimos por entre as árvores até sairmos do bosque. A cabana apareceu diante de nós, não muito longe de onde estávamos, e Liam já estava na porta. Atravessamos a clareira que nos separava dele tão rápido quanto podíamos e entramos com cautela. — Flávio? — chamamos.

241 Não houve resposta. — Flávio? O vento forte fez as paredes rangerem e nossos passos soaram no assoalho envelhecido. Olhamos todo o primeiro andar da cabana e tudo estava bagunçado: as cadeiras caídas, algumas mesas tombadas, os quadros haviam se desprendido das paredes..., mas não havia nada lá. — Vamos olhar o andar de cima. — sugeriu Lisange, com um fio de voz. As escadas eram antigas e rangiam quando se pisava nelas. Subi devagar, tentando captar cada pequeno som, mas não se ouvia nada, absolutamente nada, exceto a nós mesmos. Lisange cravou os olhos no corrimão, destroçado na parte mais alta. O piso superior estava ainda pior. Uma viga caída cortava o caminho até o patamar. Liam se esquivou com facilidade e seguiu andando. O lugar era pequeno, bem pequeno mesmo, como se notava de fora da cabana. Apenas uma porta estava intacta – e estava fechada. Paramos em frente à porta, nos entreolhamos e Liam a empurrou devagar, fazendo com que ela chiasse. Lisange soltou um grito, eu nem isso consegui. Fiquei parada, congelada na entrada olhando para o interior do cômodo. Os grandes destroços da cabana eram os menos importantes. Nas paredes, no chão, na cama de pernas para o ar..., em todas as partes havia rastros de sangue. — Não. — murmurou Liam. Ele percorreu a casa com grandes passos e revirou os escombros desesperadamente. — Onde... Onde está o Flávio? — gaguejava com ansiedade. Não havia resposta a ser dada, ela era obvia demais para ser pronunciada em voz alta. Lisange rodeou meus ombros formando um abraço. — Não chegue perto do sangue. — ela sussurrou. Não pensava em chegar perto do sangue; eu estava tão chocada que não me atreveria a fazer qualquer coisa. Ainda me lembrava do que havia acontecido quando Liam me fez a cicatriz no braço. Ele lançou a única cadeira que havia ali contra a parede oposta, e ela se despedaçou imediatamente. Logo, se voltou para nós com os olhos carregados de raiva. Assustada, recuei; nunca o havia visto daquela maneira. Liam levou a mão à cabeça, ocultando todo o rosto, exceto a boca. Contraía os lábios para trás e cerrava os dentes com raiva. De repente, nos olhou.

242 — Lisange... — falei lentamente, em um tom seco. — Temos que sair daqui imediatamente. — Por aqui... — sussurrou. Liam afirmou com um movimento fraco de cabeça, com o semblante mais relaxado, mas com os olhos bem abertos. Meus ouvidos captaram algo repentino, um horrível ranger de dentes e uma respiração profunda que vinha do telhado, que acompanhava o mesmo som desagradável de unhas arranhando a ardósia. Olhei instintivamente para o alto. Sabia o que aquilo significava, embora desejasse desesperadamente estar enganada. Liam se virou para Lisange, em alerta: — Já ouvi isso antes. — balbuciei. — SALTE! — gritou Liam. Não esperei ouvir aquilo pela segunda vez. Joguei-me pela janela a tempo de não ser atingida pelo teto que desabava exatamente sobre o lugar que nos encontrávamos a milésimos de segundos e cai rolando pela neve. — CORRA! — berrou Liam. Virei-me para a casa e algo se removia entre os escombros. Assustada, me levantei e sai dali o mais rápido que pude. Liam corria na frente e eu, em último. Não me movia tão rápido quanto eles e era incapaz de seguir seus enormes passos, tentava sim, contra o vento, distinguir o caminho. A neve entrava em meus olhos e eu os esfregava desesperadamente, mas era inútil. Foi então que tropecei em algo e caí no chão. Meus braços se afundaram na neve ao tentar amortecer a queda. Levantei-me o mais rápido que consegui, mas, por um momento, não senti nada ao meu redor, absolutamente nada. A garoa me envolvia por completo, ocultando tudo e nem sequer me tornei consciente do som que penetrava em meus ouvidos. Mantive-me imóvel. Estava desorientada. Havia perdido Liam e Lisange e agora não sabia que caminho seguir. Meu corpo começou a tremer não de frio, mas como se ele estivesse me alertando que alguma criatura perigosa estava por perto, não mais apenas em minha mente. Novamente, o frio soprou, seguindo até minha nuca e meu corpo todo estremeceu. Meus joelhos fraquejaram, mas, nesse preciso instante, visualizei Liam entre a tempestade. Senti uma ponta de alívio, mas já era tarde demais. Ele gritou algo que não consegui escutar, mas que podia imaginar: dizia que estava bem atrás de mim, bem próximo, que correria para me salvar..., mas eu não conseguia reagir. Limitei-me a olhá-lo enquanto minha respiração começava a acelerar, contando os segundos para que tudo acabasse. Então, Liam começou a correr em minha direção. Fechei os olhos, me preparando para o golpe final. O Guardião não esperaria que ele chegasse para me salvar. Nesse momento,

243 veio à minha cabeça a imagem de Christian desfocada, exceto por seus olhos, tão negros e penetrantes como eu recordava. — LENA! Abri os olhos de repente, esse grito parecia muito mais próximo. Liam estava a poucos metros. Então, sem tempo de perguntar a mim mesma a razão de ainda estar viva, ele chegou até mim, me apertou em seus braços com firmeza e Lisange puxou-me por trás com força. Voltamos a nos enveredar pelas árvores. Liam, ziguezagueando, me conduzia. Notei novamente aquela sensação gelada em minha nuca, a mesma que tinha sentido há alguns minutos e quando Christian se foi. Lembrei de seu rosto bem próximo ao meu e lutei contra mim mesma para não virar minha cabeça para trás e me concentrar em correr, o mais que a força da neve permitia. Milagrosamente, me esquivava das ramas, dos troncos caídos e dos galhos. Levavam-me tão rápido que pensei que iria levantar vôo. Por fim saímos do bosque. Tentei parar para ver o que estava a minha frente, mas Liam continuava a me puxar. Gritei quando quase cai em uma encosta íngreme que mais parecia um precipício. Rodopiei, chocando-me contra árvores e arbustos e senti dor, muita dor, e apertei a mão de Liam com mais força. Um golpe na cabeça que fez perder o sentido de orientação por alguns segundos e quando me recuperei, vi o carro a poucos metros de nós. Lisange já havia chegado ao veículo e aberto a porta de trás; ela se apressou em sentar no banco do motorista. — CORRA LENA! CORRA! — gritava Liam. — JÁ ESTAMOS PERTO! CORRA! Chegamos ao carro, uma SUV, que já estava em movimento. Liam me empurrou para dentro e se atirou sobre mim e, imediatamente depois, bateu a porta com tanta força que chegou a balançar o carro. Lisange não esperou nem dois segundos para pisar com força no acelerador. Eu estava gelada, mas não de frio. Liam se afastou um pouco de mim e olhou com ansiedade pela janela traseira. O carro começou a sacudir fortemente, com muito mais violência do que antes porque agora íamos costa abaixo com muito mais velocidade. Liam chegou mais próximo de mim e apertou o cinto de segurança como pôde. Em um ato de reflexo, segurei sua mão com força, mas a força era tamanha que poderia ter quebrado os dedos de uma pessoa normal. — Você está..., está bem? — balbuciou Lisange do banco da frente. — Sim. — respondi respirando com dificuldade, mas sem ter muita consciência do que dizia.

244 Algo golpeou o teto do carro fazendo com que Lisange perdesse o controle do veículo durante um instante. Firmei-me contra a porta. Com medo, olhei para cima e percebi que algo se movia no teto. — O que aconteceu? — perguntou ela, tentando não desviar os olhos da estrada, sem muito sucesso. — Ele está no teto do carro. — anunciou Liam, confirmando minhas piores expectativas. — Volte para a estrada. — disse em uma voz que tentava ser calma, mas Lisange não parecia raciocinar. — Lisange, dirija de volta para a estrada! Ela mantinha o volante com força e não deixava de olhar para cima. Liam se soltou do cinto de segurança e passou para o banco da frente, com a intenção de pegar o controle do carro, mas, nesse momento, Lisange apertou seus lábios e começou a girar a SUV com tanta violência que Liam quase caiu para frente. Quando o carro parou de girar, entramos em uma estrada íngreme, descendo por uma estrada repleta de curvas, à beira de um grande despenhadeiro. As sacudidas acabaram ao chegarmos ao asfalto, mas Lisange fazia as curvas com tanta velocidade que me chocava contra a janela, apesar de estar presa ao cinto de segurança. Em uma curva bastante fechada, o veículo derrapou e ficou apenas em duas rodas. Vi em primeiro plano a encosta que estava a poucos metros de distância. Olhei para trás na esperança de ver que aquele movimento tivera matado o Guardião, que se agarrava ao teto, embora eu não tivesse visto nada cair da parte superior do carro. O que se passou a seguir aconteceu em uma fração de segundos. Uma mão apareceu no pára-brisa, partindo o vidro com um golpe muito forte. Lisange perdeu por completo o controle do carro e fomos jogados para a encosta. A SUV caiu e começou a se amassar como um papel, chocando-se contra troncos, ramos e pedras, girando e dando voltas em torno de si mesmo. O vidro traseiro se rompeu, espalhando-se atrás de mim e todos os airbags se abriram. O carro continuou rodando e, finalmente, se chocou contra o asfalto da estrada, que circundava o pé da montanha. Um instante depois havia apenas silêncio e assim permaneceu durante alguns segundos. Pouco a pouco, senti Liam se mexer e a respiração entrecortada de Lisange à frente. Levantei os olhos e tentei olhar ao redor. Escutei pequenos vidros caírem conforme nos movíamos e os cintos de segurança se abrindo. Liam se virou para trás e colocou uma mão em meu ombro. — Você está bem? — perguntou.

245 Seu rosto imaculado estava sujo de lama e tinha pequenos fragmentos de vidro incrustados em sua pele do rosto e dos braços. — Sim. — respondi me examinado. O que tinha acontecido? Eu não sabia dizer, mas sabia que deveria estar igual a ele. Suas roupas estavam rasgadas e havia cortes em suas mãos e braços, porém, não sangravam. Ambos olhamos para Lisange. Apesar do que tinha acontecido, ela não tinha sofrido nenhum arranhão. Seu airbag tinha sido o primeiro a abrir, evitando assim, a maior parte dos golpes. Ela se virou para nós com um olhar desorientado, mas não disse nada. Avaliou-nos por um momento e levantou seus olhos para cima. A queda me fez esquecer por um momento o motivo de termo fugido, mas, naquele instante, recordei tudo e o pânico voltou a crescer dentro de mim. Estaria ele ali fora? Liam abriu a porta lentamente e saiu para a estrada. Quis detê-lo, mas não consegui. Lisange o seguiu. Não me sentia nem um pouco segura ali dentro sem eles, então, os imitei. Firmei-me com certo temor no teto do carro, mas não havia nada lá. Percorri com os olhos o lugar ao meu redor. Tudo estava em perfeita tranquilidade. — Ele morreu? — perguntei com um fio de voz. — Não. — anunciou Liam com uma voz agonizante de ódio. — Ele se foi. — e logo se virou para nós. — Vamos voltar para casa. Lisange se sentou comigo no banco de trás. Liam arrancou todos os airbags, jogou-os na estrada e pegou o caminho em direção A Cidade. Por sorte, o motor não havia sofrido danos importantes. Escutamos um miado. Caim saiu de dentro da jaqueta de Lisange, que havia dado voltas por todo o carro, com seus pelos desgrenhados. Ela o pegou e o apertou com força, acariciando seu pêlo, com os olhos perdidos no vazio. Ninguém voltou a falar no trajeto de volta para casa. Chegamos bem tarde à Cidade. Durante o caminho, estive aguardando com impaciência que o sol terminasse de se pôr, agradecendo mil vezes que esta noite tinha lua. Quando estacionamos em frente à entrada, Lisange saiu e abriu a casa enquanto Liam tirava a bagagem do porta-malas. Os segui sem saber ao certo o que fazer ou dizer, olhando com ansiedade para trás em cada minuto, a cada ruído que ouvia ou a cada coisa que se movia, por medo do que poderia aparecer. Naquele momento, desejava com todas as minhas forças ter Christian e a segurança que presença dele me proporcionava.

246 Entramos em silêncio e vi Lisange fechar a porta com segurança, exatamente da mesma forma como havia feito algumas semanas antes. Liam deixou as malas no meio da sala e nós três nos olhamos. — Vou pegar algo para nos limparmos. — disse Lisange. — Vamos com você. — apressei-me a dizer. Liam colocou uma mão nas minhas costas e me conduziu para a cozinha. Sentei-me em uma cadeira, o mais longe possível da janela, e esperei que Lisange colocasse a nossa frente uma tigela com água e panos. Ela logo se uniu a nós na mesa, mas sem dizer nada. Decidi dar o primeiro passo. Peguei um pano e comecei a limpar os restos de sujeira dos meus cortes. Não me atrevia a dizer nada. Esperava que um dos dois falasse primeiro, mas pareciam absortos em seus próprios pensamentos. Liam olhava para baixo, concentrado em seus dedos entrelaçados sobre a mesa. O olhar de Lisange parecia perdido, em um lugar ou outro da janela, com a testa um pouco franzida e beliscando o lábio inferior com a ajuda dos dedos, nervosa. Estava prestes a romper o silêncio quando Lisange se levantou de improviso, de sobressalto. Liam ergueu a cabeça aos poucos, eles trocaram olhares e ele acenou com a cabeça. Ela caminhou com passos firmes para o balcão, pegou algo e saiu da cozinha em direção a sala. Fixei-me no semblante desanimado de Liam e vi refletir uma dor que não fui capaz de calcular. Inclinei-me sobre a mesa e tomei sua mão com a delicadeza que minhas mãos trêmulas permitiam. Ele me olhou. — Obrigada por voltar por mim. — disse a ele. — Não haveria chegado ao carro se não fosse por você. Tentou me dirigir um sorriso, mas este sorriso não chegou ao brilho dos seus olhos. — Não precisa me agradecer Lena. — sua voz soava muito mais grave do que o normal. — Acho que tenho sim. Olhei para o seu rosto. Ele ainda não tinha tirado os restos de terra e restavam alguns pequenos vidros cravados em sua pele. Peguei um pano umedecido e comecei a limpar sua face. Retirei um pedacinho de vidro de seu osso molar e uma pontinha vermelha surgiu.

247 — Acredito que não possam sangrar. — reconheci, colocando toda a minha atenção no pote com água. — Temos sangue, embora ele seja bombeado, a única diferença é que não há hemorragia. Enquanto torcia o pano, pensei no que teria acontecido com o pobre Flávio para que deixasse aquelas marcas na cabana? Estremeci. Liam aparou uma mecha de cabelo que caia sobre meus olhos. — Imagino que tampouco fiquem cicatrizes. — comentei tentando evitar seu olhar. — Sim, sem cicatrizes. Concentrei-me em um corte profundo em sua testa. Sabia que aquilo não provocava dor a Liam, mas, mesmo assim, me empenhei para cuidar dele delicadamente. Notei, de repente, sua mão sobre a minha, pressionando-a mais contra seu rosto. Nossos olhos se encontram e nenhum de nós tentou desviar o olhar. Era estranho, mas esse contato me fazia sentir..., bem. Então, a porta da cozinha se abriu aos poucos e nos assustamos. — Lena. — Christian se dirigiu até mim com passos seguros. Isso me cortou a respiração. O que ele fazia ali? Levantei-me e contive o impulso de abraçá-lo com força, embora aquilo parecesse uma loucura. Lembrei-me do horror que havia sido nossa última conversa e dei um passo para trás. — Você está bem? Sua voz soou como um leve gesto de cortesia a mim. Isso me doeu, era evidente que ele continuava a pensar da mesma maneira. — O que você faz aqui? — retruquei. — Ela está bem. — sinalizou Liam antes que ele pudesse responder. — A questão aqui é o Flávio, que está morto. Essa última frase pesou no meu silencioso coração e um estranho calafrio percorreu meu corpo. Ouvi-lo dizer em voz alta era como o constatar da morte. Christian desviou sua atenção de mim e cravou seus olhos no rosto de Liam, que sustentava a cabeça em seus dedos, com os olhos fechados. — O que aconteceu? Liam, sem abrir seus olhos, sinalizou uma cadeira vazia. Christian se sentou devagar e olhou fixamente para Liam e Lisange, que havia voltado e estava à mesa. Imitando-os, voltei a sentar-me.

248 — Ao chegarmos. — Liam começou. — Encontramos restos de sangue de Flávio..., ainda havia um Guardião ali quando chegamos. — fechou os olhos e respirou com força, fazendo com que as narinas se dilatassem. — Tivemos que fugir como covardes. Não estávamos preparados. Conseguimos nos salvar por pouco. — reconheceu com raiva. Dirigi-lhe um olhar, mas ele não notou. Ficaram em silêncio. Christian estava prestes a falar algo, mas Lisange o interrompeu. — Há mais uma coisa. — acrescentou. — Encontramos a tumba de Golias. — O gato do Flávio? — os olhos de Christian se abriram mais do que o normal. — Então é lógico que morreu antes de seu amo. — continuou. — Flávio teve tempo de construí-la. Caim a encontrou antes de chegarmos à cabana. Christian adotou a mesma expressão que havia visto nos outros na montanha. — O que significa isso? — eu quis saber. — Eu não entendo. — Liam se colocou em pé, motivado por uma força interior. — Por que não voltou para o nosso lado? Por que não buscou ajuda? — Talvez fosse isso o que ele queria. — sussurrou Lisange. — Morrer? — Quem poderia desejar uma morte tão cruel? — retrucou Liam. — Flávio odiava esta existência já fazia décadas. — revelou Lisange. Aparentemente, tínhamos mais coisas em comum do que eu pensava. Liam voltou para se sentar, abatido, e eu sabia que as palavras que Lisange acabara de pronunciar o havia ferido. — Sim. — reconheceu. — Ainda se culpava pelo que aconteceu na ponte. — O que aconteceu? — perguntei, mas fui ignorada mais uma vez. — Essa deve ser; sem dúvida, a razão pela morte nas mãos de um Predador. — adicionou Lisange.

249 — Se importariam de me explicar do que estão falando? Christian recostou-se na cadeira, rígido, pensativo, com a testa franzida e com os punhos fechados sobre os joelhos. Nada me respondeu. — E então? — insisti Lisange olhou para mim, como se aquilo tivesse sido a única coisa que ela havia ouvido. Respirou fundo e, por fim, falou. — Flávio cometeu um crime há alguns anos. — comentou. — Que crime? — perguntei. Ela olhou Liam de soslaio e continuou. — Eliminou um Grande Predador que estava a ponto de acabar com a vida de uma garota, bem a tempo de evitar que ela tivesse que saltar de uma ponte. — E...? Não se supõe que isso era o correto? — Não se pode matar um Grande Predador para salvar uma vida humana, Lena. — sussurrou Lisange. Desta vez foi Liam que continuou. — O número de Grandes Predadores é pequeno. — explicou de maneira monótona, sem me encarar. — Somos importantes também para manter o equilíbrio, assim, a morte de um supõe um grande desajuste. — É por isso que eles são tão cruéis e intocáveis. Christian não fez nenhum comentário a respeito. — Mas isso não é justo! — exclamei. — Não somos nós que fazemos as leis, Lena. — disse Lisange. A confusão aumentava em minha mente. — Então, ele se sentia culpado por ter acabado com esse Grande Predador? — Não. Foi porque a garota saltou mesmo assim e não ele não pôde salvá-la. Pisquei confusa.

250 — Mas o que Goliat tem a ver com tudo isso? — Os gatos dos Caçadores não são mascotes, Lena, eles são um símbolo, uma proteção contra os Guardiões; cada Clã de Caçadores tem um. Nesse momento, Caim saltou em seus braços e ela o acariciou suavemente. Também morrerão em seu tempo, mas vivem como nós, até que o último membro da “família” a qual protegem; falecer. O desconcertante é que Golias morreu antes que Flávio, o que não é normal. — Mas ele também era um De Cote? Por que teria outro gato? — Porque antes de fazer parte desta família, vivia sozinho. — prosseguiu. — Ele era o seu próprio Clã. Ao vir para esta casa, Golias veio com ele. Fiquei em silêncio por alguns segundos. — Mas era noite. — insisti. — E, além disso, hoje tem lua. — Lena, esses Guardiões não iam caçar, mas sim matar. — E porque eles têm castigado vocês? Havia tantas coisas que não entendia... — Quem melhor? Eles se alimentam de nós, não? O Ente lhes dá carta branca porque sabe que a sentença será executada. — explicou Lisange de novo. Liam se manteve calado. — E nós, então, o que somos? — perguntei cada vez mais indignada. — Alimento para os Guardiães e Grandes Predadores em potencial. Seus privilégios são mínimos, é o lugar mais baixo da hierarquia, como lhe contei há algum tempo. — disse Christian. Dirigi-lhe um olhar dolorido, recordando como isso havia incidido na última vez. — Podem usufruir de nós para o que quiserem. — a voz de Liam era gutural, como se na verdade pensasse que estava falando sozinho. Era muito para os meus ouvidos. Passei a olhar para Liam e Christian, mas nenhum deles me encarava. Soltei o ar. Não, estava segura de que não compartilhavam da mesma opinião. Não teriam se negado a me matar, mas me

251 ajudavam, embora nossa última conversa parecesse o contrário. Ele continuava tenso. Ele deslizou lentamente do meu lado e se levantou. — É melhor eu ir embora. — disse Christian com uma voz abatida, completamente ausente de vida. — Tudo bem que eu vá? Agora você se preocupa comigo? Não falei, pensei. Não poderia estar bem sem tê-lo ao meu lado. Mas a expressão em seu rosto me preocupava e tive a impressão de que ele não iria se não tivesse algo mais importante para fazer. Embora eu já houvesse me enganado com ele antes. — Sim... — Não fique por aí a noite toda, é perigoso e desnecessário. Protegeremos você. — disse Liam, levantando-se e colocando uma mão no encosto de minha cadeira. — Se houver alguma mudança, avisaremos você. Christian mudou de expressão e lhe lançou um estranho olhar que não entendi. Liam devolveu o olhar com a mesma frieza; era como se eles estivessem se desafiando ou algo assim. Christian saiu de seu transe e virou para a sala onde Lisange já o esperava com a porta aberta. Eu o segui. Ao chegar à porta, ele se virou para mim. — Não saia de casa até que eu venha te buscar, por favor. — Me buscar? — repeti. — Sim, temos que conversar. — Sobre o quê? — perguntei na defensiva. Olhou Lisange de soslaio. — Haverá tempo para isso, agora preciso ir. Vai embora assim? Sem me dizer nada? Mas no fundo, sabia que não teria escolha. Concordei com pesar, ele não me contaria nada com eles ali. Lisange fechou a porta e trancou todas as fechaduras. Logo se virou para mim. — Por que o chamou? — perguntei antes que ela pudesse dizer alguma coisa. — Como se atreve a fazer isso? E sem me dizer nada! — a raiva estava aumentando. — Agora não é momento. — respondeu ela com voz apagada.

252 — Me diga por que. — Lena, por favor, vá para a cama. Ela disse aquilo de tal forma que senti vontade de rebater. Flávio havia morrido e devia deixar momentaneamente o assunto Christian de lado. Apesar da minha petulância contida, assenti com a cabeça e subi diretamente pata o meu quarto, mas não com a intenção de dormir. Conhecia-me o suficiente para saber que não o faria em alguns dias. Assustava-me a possibilidade de ter pesadelos. Quando entrei, abri devagar as cortinas do quarto, abri as janelas e olhei para fora para ter certeza de que ele realmente tinha ido embora. De fato, seu carro tinha desaparecido. Não tinha ideia do motivo de ele ter voltado, mas não estava disposta a pensar nele naquele momento, assim fechei a janela e deitei em minha cama para uma longa noite de insônia. Pensei nas coisas que podia fazer. Logo de cara, todas elas iam contra a possibilidade de ficar em silêncio e com as luzes apagadas. Fui tomar um banho. Foi a única coisa que me ocorreu naquele momento, ainda precisava tirar a sujeira em excesso e a água me ajudava a clarear as idéias. Peguei uma toalha e roupas limpas e fui para o chuveiro. Olhei no espelho e tinha um aspecto pior do que imaginava. Meu cabelo era um emaranhado de restos de galhos, arbustos de árvores, barro e pequenos vidros. A roupa ia além de reparos necessários, eu a jogaria no lixo diretamente, estava cheia de barro e com buracos de todos os tipos e tamanhos. Joguei-a em um canto e me meti embaixo da ducha. Conforme a água ia caindo em meu corpo, fui me sentindo cada vez melhor. Olhei minhas mãos, agora limpas, e pude comprovar que os cortes se distinguiam. Fechei uma das torneiras para lavar o cabelo; não fui a única a ter essa ideia, já que com o aspecto que nós três tínhamos chegado, não me ocorria nenhuma outra possibilidade, na verdade. Comecei a remoer a conversa que havíamos tido minutos antes. Ouvir da boca de Liam que Flávio havia morrido foi muito mais impactante e doloroso do que a imagem que evidenciava o fato na cabana. Ele havia cuidado de mim como nenhum outro, se preocupado com cada detalhe, apoiou-me como se fosse um pai. Era estranho, mas poderia ter chegado a amá-lo como um pai, embora eu suponho que agora ninguém poderia ter certeza disso. Senti-me sozinha ante a perspectiva de um futuro sem ninguém com quem compartilhar tão abertamente todas as minhas dúvidas e emoções. Essa sensação superava a dor, talvez porque era incapaz de acreditar que aquilo tinha acontecido. Todos haviam se alterado com a morte de Golias. Estavam escondendo alguma coisa. Tomara que Christian me explicasse quando estivéssemos a sós no dia seguinte. Christian... Era incrível a mescla de emoções que despertava em mim.

253 Não sei quando tempo estive debaixo da água, mas não foi pouco. Fechei a torneira, enxuguei o cabelo e me enrolei em uma toalha. Empapei todo o chão ao sair do banho, mas estava tão avoada que não me dei conta. Vesti-me e fui novamente para o meu quarto. A noite estava muito escura, mas era possível ver a lua em todo o seu firmamento. Não pude me conter, cheguei próximo à janela com a esperança de ver Christian ali, mas, mais uma vez, não o encontrei. Por que o haviam chamado? E ainda, por que ele havia decidido voltar? Havia desejado esse reencontro mais que qualquer outra coisa, mas ele havia se mostrado tão frio e distante que agora duvidava de verdade se queria voltar a vê-lo. O que menos precisava naquele momento era que ele regressasse para complicar novamente a minha vida. Pela maneira que tinha se comportado, não pareceu que tinha a menor intenção de reatar comigo, mas então, o que ele pretendia? Outra dúvida veio à minha mente: acaso quereria eu falar com ele ou teria demasiado medo de fazê-lo? Já havia o perdido uma vez e agora também o Flávio, não estava disposta a passar por isso novamente. Dei-me por vencida e me atirei na cama. Erro! As imagens vieram à minha cabeça em uma sucessão de cenas típicas de filme de terror. A noite do estacionamento, o dia em que me encontrei cara a cara com um guardião depois da festa, a imagem da cabana ensanguentada, a lápide de Golias, a sensação de algo respirando contra a minha nuca, aquele horrível ranger de dentes e o frio nos ossos. Permaneci imóvel, incapaz ao mesmo de piscar, escutando a escuridão do meu quarto com os olhos abertos e ouvidos atentos, tentando captar qualquer ruído. Minha imaginação começou a criar sons no silêncio e formas nas sombras, formas que pareciam se aproximar cada vez mais e até piscavam e voltavam a se afastar. Escutei uns passos leves no corredor. Meu corpo todo ficou tenso. Um ruído surdo ecoou no silêncio, acompanhado de uma voz suave que mais parecia um sussurro. Relaxei, era Lisange. Saltei da cama e sai para o corredor. Encontrei-a carregando um pesado livro, vestida com um pijama de seda verde delicado, com a pele imaculada e o cabelo perfeitamente penteado, como sempre. — Eu te acordei? — ela me perguntou. — Não. — Também não conseguiu dormir? — Suponho que sim.

254 Não queria reconhecer que dormir me dava pânico. — Estava tentando ler para esvaziar a mente, mas..., inútil. — fez uma pausa, parecia confusa. — Talvez eu devesse começar a estudar. Uma opção é a varanda de Liam, preciso pensar com claridade. Tinha o olhar perdido e estava segura de que não era consciente que estava ali. Continuou falando para si mesma enquanto desaparecia pelo corredor às escuras. Ouvi o som de cubos de gelo bater em um vidro, talvez em um copo, como de costume, o som vinha do andar de baixo. Desci lentamente e encontrei Liam, ainda vestido com a roupa rasgada, tombado no sofá com as mãos atrás da nuca. Tinha o copo com gelo pousado em sua barriga e mordia distraidamente um cubo de gelo. Tinha o aspecto de um boneco maltratado e o rosto muito sombrio. Seus olhos transpareciam dor, muita dor. Não tinha me visto até que fiquei junto a ele. Piscou algumas vezes para tentar dissipar esse rastro de sofrimento e baixou as pernas para me dar um lugar ao seu lado. Sem dizer uma palavra, ofereceu-me o canto, mas me recusei com um aceno; eu estava bem, ao menos fisicamente. Lamentava não ser daquelas pessoas que sempre encontram a palavra perfeita para cada situação. — Você está bem? — perguntei com tanto tímida. — Defina isso, eu lhe rogo. — respondeu olhando para o teto. — Liam... — Não deve se preocupar comigo, Lena. Como você está? Deve estar chocada. — É complicado... — ele se virou para mim pela primeira vez e eu me aproximei um pouco mais. — Não sei o sinto porque sou incapaz de assimilar, não posso crer que não voltarei a vê-lo. Tudo é tão..., surreal. — disse. — Como um estranho pesadelo. — Sim. Talvez toda essa vida seja apenas isso: um pesadelo. — murmurou, centrando novamente sua atenção no teto. Jamais tinha ouvido Liam falar daquela maneira, como se, de verdade, odiava ser quem era. Pela primeira vez, vi os longos séculos em seus olhos. Franzi o cenho. — Achei que gostava desse tipo de vida.

255 — Cada um se apega em alguma coisa para seguir em frente. — olhou-me com tristeza. — No seu caso, imagino que esse é um Grande Predador. — fiquei em silêncio. Há alguns dias, teria dito que sim, sem hesitar um segundo, mas agora, eu não sabia o que pensar. — Não conseguiu dormir? — Não quero dormir. — reconheci. — Entendo você. Suspirou de uma forma lenta e profunda, deixou o copo sobre a mesa e pegou um livro. — Então vamos ler um pouco. — isso me deixou um pouco desconcertada. — Ajuda as crianças a dormirem. — disse a mim enquanto abria o livro na primeira página. — Não me lembro, mas creio que me faziam sonhar com coisas bonitas. — tentou sorrir, mas não conseguiu. Recostou-se no sofá, sentando mais ou menos reto, e sustentou o livro apenas com uma das mãos; com a outra, aparava sua cabeça, com o cotovelo apoiado no sofá. Limpou a garganta. — As Viagens de Gouliver. — começou. Tive a ilusão de que podia me recordar dessa história, mas não disse nada. Deixei que sua voz inundasse a sala. Ele lia com um tom melodioso, suave e aveludado, mas, por mais que me fascinava, mais as palavras pareciam distantes. Sua voz começou a se transformar em murmúrios incompreensíveis para mim. Logo depois, se apagaram, sumindo em um silêncio absoluto. Adormeci. Nem sequer fiquei consciente de que estava adormecendo e, pouco depois, ao que me pareceu, despertei. Não tive sonhos, estava tão cansada que minha mente não conseguiu fabricar nada. Olhei para os lados e não estava na sala com Liam. Estava sozinha e a luz do sol banhava meu quarto. As feridas de minhas mãos haviam desaparecido e não havia rastros do dia anterior, nem uma única imperfeição. Então, ouvi sons que vinham do andar debaixo sai no corredor e desci.

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Lavisier.

Nós não sabemos o que temos nem o quanto apreciamos algo até que o perdemos. É um ditado popular, mas a verdade é avassaladora. Pensamos na morte como algo distante. Mas, ao contrário, está tão presente em nossas vidas... Nunca se sabe como, nem quando, nem por que chegará, ou a quem levará. Como saber quanto tempo falta para o nosso relógio vital soar o alarme, de modo que o contador de segundos fique em zero? Se me contassem, eu nunca acreditaria que não iria vê-lo novamente. Era estranho pensar que nunca mais contemplaria o seu rosto de novo... Não, eu não acreditava que não poderia, nem tampouco queria fazê-lo. Tive até mesmo que parar de pensar, porque um grande nó na minha garganta estava me sufocando. Ele se foi e eu nunca lhe agradeci pelo tempo que esteve comigo, nem sua compreensão, nem a sua bondade. Eu nunca mais poderia fazê-lo. Quem me dera pudesse expressar melhor os meus sentimentos, quem me dera eu fosse capaz de dizer com palavras o que eu sinto, mas, infelizmente eu não sou. Não posso explicar o choque, a falta de ar em meus pulmões, quando o vi lá, o seu sangue, no final, espalhado pelas paredes daquela cabana em ruínas. Sozinho. Como ele deve ter se sentido ao morrer sem ver as pessoas que amava? Qual foi o seu último pensamento? Ele tinha me falado tantas vezes sobre a morte, seus lábios haviam falado em várias ocasiões essa palavra..., era com certeza o tema que mais tínhamos abordado e sem dúvida, não estava preparada para presenciar como a morte levava a coisa mais próxima a um pai, que eu havia tido. Tudo o que me restava fazer, tudo o que realmente poderia fazer naquele momento, era pedir que sua alma finalmente encontrasse a paz.

***

Lisange levantou-se com um salto quando me viu aparecer pela porta da cozinha. Aproximou de mim com expressão preocupada e me abraçou. — Como você dormiu?

258 — Sem pesadelos. — eu admiti surpresa. — Então eu acho que bem. Liam me fez um gesto com a mão como saudação, mal levantando os olhos do jornal que estava lendo, a verdade é que eu esperava encontrá-lo muito pior. — Ontem foi um dia muito difícil. — Lisange reconheceu, com uma estranha compreensão. — O que vai você fazer hoje? Como reflexo, olhei pela janela. Senti-me mal ao pensar o que poderia estar me esperando lá fora desde a primeira hora da manhã, mas ele não estava lá. — Ele ainda não chegou. — ela disse, adivinhando meus pensamentos. — Com certeza deve ter imaginado que dormiria até tarde. Olhei-a e encolhi os ombros tentando esconder minha frustração. Voltei a dar uma olhada para fora. A SUV estava estacionada no mesmo local da noite passada. As lembranças voltaram a minha mente, mas balancei a cabeça para afastá-la. —Flávio... — senti os olhos de Liam como se estivesse lendo minha mente, limpei minha garganta para disfarçar. — O que você vai fazer com o carro? — foi tudo no que pensei para dizer. — Vamos nos livrar dele. Olhei novamente para o veículo que havia salvado nossas vidas e senti pena. — Talvez eu possa dirigi-lo. — arrisquei, esperançosa. Depois de ver a maneira que Christian havia dobrado em duas a bicicleta de Liam, tudo era possível. — Você teria que responder a muitas perguntas, Lena, não é seguro. — sua voz soou forte e seca, imprópria de Liam. — E escondê-lo? — Nosso rastro está lá e não nos convém chamar a atenção. Dei-me por vencida. Dei uma última olhada e voltei a minha atenção na cozinha. Aproximei-me de Liam e tentei ver alguma coisa sobre seu ombro.

259 — O que você está lendo com tanta atenção? — Procuro notícias que tenham a ver conosco. — disse concentrando-se na leitura de novo. — Algo que possa significar a presença na cidade de um maior número de Guardiões ou de Grandes Predadores. Ele estava tenso, dava para ter notado a metros de distancia: mantinha a testa franzida e seus olhos exalavam uma força e um sentimento que me sobrecarregou. Senti a necessidade de afastar-me um pouco dele. Então, ao ver Lisange sair da cozinha, eu me apressei em segui-la. Ela dava voltas de um extremo ao outro do vestíbulo, nervosa e falando sozinha. Eu não aguentava mais, tinha certeza que havia alguma coisa grande que ainda não tinham me contado. Parei-a pelo braço e a levei para um canto. — Por favor, me diga de uma vez o que é que está acontecendo. Ela parou e me olhou com atenção. Estava com os olhos muito cansados, pela primeira vez a vi como uma humana. — Está tudo bem, Lena. — ela tentou sorrir, mas levantou a cabeça para esconder os sinais claros de sua tentativa fracassada. Respirou fundo e falou novamente. — A morte de Flávio afetou-nos, você tem que entender. — E eu entendo, de verdade. — admiti. — A mim dói também tê-lo perdido, você não sabe o quanto, mas não posso deixar de pensar que você está escondendo informações. Tem algo que me escapa. — Em apenas algumas horas, tudo teve uma mudança monumental. O pobre Liam... — baixou a voz e afastou-se da cozinha, entrando na sala de estar. Fez-me um sinal para segui-la e em seguida fechou a porta atrás de mim. Eu a olhei esperando que continuasse. — Estou surpresa com a sua serenidade, a frieza com que está levando a coisa toda. — Não vamos fazer nada? Uma missa, um funeral... — Não há nada a ser enterrado... — Lisange e eu nos assustamos. Liam havia entrado na sala e não tínhamos percebido. Não havia nenhum vestígio da antiga alegria em seus olhos. — E eu duvido que uma oração possa fazer, a esta altura, algo por ele ou por sua alma..., acabou. Lisange levantou-se com um salto. — Liam...!

260 — Deixe-o, Lisange. — estendeu o jornal diante de nossos envergonhados rostos, apontando um artigo. — Encontrei isto. Aproximei-me da página e li atentamente. O conhecido advogado A. Lavisier acaba de anunciar que nos próximos dias deixará a cidade. De acordo com fontes próximas, a razão está relacionada com uma importante oferta de trabalho de um famoso escritório de advocacia de Nova York. Recebemos esta notícia quando completa cinco anos de famosa contribuição para a comunidade. A mudança se realizará com efeito imediato e em poucos dias partirá junto com toda família para... — Lavisier... — repeti em voz alta, esse nome me lembra algo. — São os que chamaram para a festa da outra noite. — E o que isso tem a ver conosco? — eu quis saber. Lisange releu o artigo. — Garanto a vocês que não existe tal oferta. — Você acha que eles vão por que...? — ela começou, levantando os olhos do jornal. — Porque perceberam um aumento de Guardiões, sim. — concluiu ele. — Como os Dawson. Isso me fez lembrar. — Um aumento de Guardiões. — exclamei, voltando a me levantar, Liam e Lisange me olharam atônitos. — Era isso ao que se referia! — Lena, por favor, explique-se. — Na noite antes de irmos à montanha. — comecei. — Uma mulher me abordou na rua, deixou cair alguma coisa quando se foi. Peguei minha bolsa e procurei dentro. — Parece um crach|, e nele est| escrito “H. Lavisier”.

261 Os dois seguiram cada um dos meus movimentos, com expectativa. Quando o encontrei, passei-lhes o objeto para que vissem. — Helga? — trocaram um olhar nervoso e se viraram para mim. — O que ela te disse? — eu tentei me lembrar. — Que os sentia próximos ou algo assim, mas eu pensei que ela era louca. — parei por um momento. — Eu acho que também "sugeriu" que nós fossemos embora daqui. Oh!... De repente tudo começava a fazer sentido. Liam arregalou os olhos. — Por que não nos contou? — sua voz tinha um tom muito duro. Eu não precisei que ele expressasse, eu sabia que naquele momento ele pensava que Flávio tinha morrido por causa do meu descuido. — Porque não parecia estar lúcida. — tentei me justificar, mas sabia que eles estavam certos, tinha cometido um grave erro. — Não está, mas em sua loucura, ela vê coisas que os outros não podem ver. — continuou Lisange. — O que você quer dizer? — eu perguntei. — Helga Lavisier sente a presença dos Guardiões. — ela explicou. — Tem algum tipo de ligação com eles. — E supunha-se que eu deveria saber? — coloquei-me na defensiva. — Não. — Liam respirou profundamente, acalmando-se. — Claro que não, nos perdoe. — Mas Helga estava trancada em um hospital psiquiátrico, certo? — Lisange continuou enquanto voltava a pegar o jornal. — Ela deve ter escapado e é por isso que os Lavisier vão embora. Ela deve tê-los prevenido. — Por que a internaram se lhes servia como alerta?

262 — Uma pessoa como Helga levanta muitas suspeitas. — explicou Lisange rapidamente. — Antes se protegiam com sua loucura, mas ela revelou muitas coisas sobre a família e as pessoas começaram a perguntar. Eles a internaram e se mudaram, mas ela os seguiu e os Lavisier tiveram que interná-la no hospital desta cidade. — Vamos, temos que lhes fazer uma visita. — disse Liam dirigindo-se para a saída. Christian tinha me dito para não sair até que ele chegasse, mas não eu pensava em ficar parada lá e sozinha, eu também precisava encontrar algumas respostas às centenas de perguntas que borbulhavam dentro de mim e além do mais, eu não devia nada a ele. Eu não pensava em voltar a ser a menina boba que deveria dar graças porque o senhor importante se dignava a compartilhar algumas horas de sua longa eternidade comigo. Não, já havia esmagado muito meu pobre orgulho.

***

Uma empregada nos abriu a porta, jovem e perfeitamente uniformizada, desde um calçado brilhante de sola reta até a touca, perfeitamente colocada na cabeça. Fixou seus pequenos olhos em cada um de nós, os avaliando de cima abaixo. Pela palidez de sua pele e a escuridão de seus olhos, eu concluí que ela não era humana. — A família De Cote? — o tom interrogativo foi muito suave, como se fosse mais uma afirmação. — Gostaríamos de falar com o Sr. Lavisier, se não for incômodo. Inspecionou-nos pela última vez com olhos desconfiados e queixo levantado, por um momento pensei que ia fechar a porta para nós, mas afastou-se para nos deixar passar. — O senhor não aceita visitas, mas, dadas as circunstâncias... Ela olhou-me com um interesse descarado, era evidente que não sabia da minha existência e por algum estranho motivo, senti que não confiava em absoluto em mim. A Lisange tratou com indiferença, em troca, tratou a Liam, com uma secreta admiração e respeito.

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Ela nos levou para um elegante salão. Não havia nenhum vestígio do esplendor da festa e, nesse momento, toda a mobília estava coberta por grandes lençóis brancos. Não havia quadros, nem fotos, ou qualquer tipo de decoração. O único vestígio que restava do que dias atrás tinha sido uma gloriosa moradia, era o incrível lustre de aranha que ainda estava pendurado no teto do hall de entrada, juntamente com a grande escadaria em espiral que levava ao piso superior. — O Senhor virá em um instante. Esperamos em pé, junto a um dos enormes móveis cobertos, felizmente ele não demorou muito em descer. Entrou na sala rapidamente, com um sorriso radiante e os braços abertos em sinal de boas-vindas. — Os De Cote! — exclamou. A julgar pelo olhar que Lisange e Liam trocaram, eles também se surpreenderam com esse comportamento. Ele se aproximou de Liam e apertou-lhe as mãos em um gesto politicamente correto, fez o mesmo com Lisange, embora com consideravelmente menor entusiasmo, e depois parou na minha frente, mas fingiu que eu não existia. — Imagino que você saiba por que viemos. — o tom de Lisange era firme, direto e seus olhos fixos, impenetráveis, exatamente o oposto de como eu a conhecia. — Sim. — murmurou olhando-a nervosamente. — Eu posso fazer uma idéia. Retirou uns lençóis e apareceram umas poltronas e um sofá, e nos convidou a sentar. — Nós lemos as notícias desta manhã. — continuou ela. — O mais inteligente teria sido partir antes. — explicou ele. — Mas nós queríamos fazer as coisas direito. Já estão levantando muitas suspeitas. — Você cruzou com algum Guardião? — Lisange prosseguiu. Ele negou com a cabeça vigorosamente. — Claro que não, não teríamos vivido para contar.

264 Ele colocou uma mão sobre o cabelo muito grisalho com gesto cansado. — Então, foi Helga, não é? Ela os alertou. — Nós nunca soubemos onde estava o limite entre sua loucura e seu dom, mas desta vez é diferente, podemos senti-los. — disse ele assentindo lentamente. Inclinou o corpo para frente para se aproximar mais de nós, como se para sussurrar algo em nosso ouvido. — Há mais. Tenho certeza que vocês também notaram. Eles estão por toda parte, nas ruas, nas pessoas, no ar... Inclusive no próprio silêncio! — exclamou fora de si, com os olhos esbugalhados. Eu sabia perfeitamente a que se referia. Depois de ouvir o horrível ranger de dentes e aquela respiração, é muito difícil que volte a esquecer. Ele parou; cabisbaixo, pressionando a ponta de seu proeminente nariz aquilino com a ponta dos dedos. — Nosso Clã sofreu um duro golpe com a tortura a que foi submetido o mais novo dos nossos, nas mãos dos Grandes Predadores, e agora o aviso de Helga... Eu devo proteger esta família, por isso decidi por fugir. É melhor prevenir. — sentenciou, olhando para nós novamente. — Ouvi dizer que vocês sofreram um contratempo. Era incrível o quão rápido corriam as notícias. — Sim. — Liam falou pela primeira vez, com sua voz séria e grave. — Perdemos Flávio. — Eu sinto muito. O que... — ele hesitou. — O que aconteceu? — Um Guardião o atacou. mais. Nós só pudemos ver um.

— Lisange informou. — Ou talvez fossem

— E vocês conseguiram escapar? — ele pareceu surpreso. — Por muito pouco. — eu disse. Ele cravou em mim o mesmo olhar de estranha curiosidade que a empregada, quem nos abriu a porta. — Eu não te conheço, jovem. — realmente não tinham nos apresentado na festa, mas aparentemente não tinha lhe causado uma grande impressão. Ele olhou para Liam. — É uma De Cote? Parece com você. — afirmou, me observando por um momento. — Não te dará trabalho fazê-la passar por sua irmã.

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Liam? Isso era algo impossível, como poderia me comparar com esse jovem de beleza arrebatadora? — Você tem alguma teoria que explique esse aumento? — Nenhuma, em absoluto, querido Liam, mas há uma coisa que é certa: nós não somos os únicos que têm notado a mudança, todos os Caçadores estão fugindo da cidade. Os Dawson nem mesmo avisaram, partiram para o norte e vão se instalar na Groelândia. Nossos Clãs são os únicos que restam aqui. — Adam..., evite os lugares frios. — Nós vamos para algum país central, improvisaremos, sobre Nova York é falso; imagino que vocês deduziram. — Sim. — ele disse, e levantou-se. — Não o incomodaremos mais. O Sr. Lavisier também se levantou e apertou sua mão. — Liam, sabe que tenho um grande apreço por você. Permita-me um conselho: fuja daqui o quanto antes, a situação é grave. — É algo que ainda precisamos decidir. — Liam assegurou. — Nós partiremos em dois dias. — colocou a mão em seu ombro. — Meu amigo, pelo menos, mude-se com seu Clã para esta casa, estão muito vulneráveis no meio da floresta. — Eu pensarei nisso. Obrigado, Adam. Tenha boa sorte. — Desejo-lhes o mesmo.

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A imortalidade só tem sentido se encontrar razão para vivê-la.

Com a visita de Christian na cozinha há uns dias atrás, a ilusão que ele vinha me dominou primeiro, mas, com o passar dos dias, foi acabando para dar lugar a amargura. Durante todo o tempo que não havia estado do meu lado, tentei convencer a mim mesma de que isso era melhor para os dois, principalmente para ele, porque devia admitir que eu era uma carga para ele, mas vê-lo de novo ali, na minha frente, havia feito com que eu perdesse o controle sobre meus próprios pensamentos, não sabia o que era melhor e nem o que meu corpo precisava urgentemente. Desejava encontrar-me com ele de novo, mas também tinha medo de voltar a sofrer, já tinha tido o suficiente e não queria mais. Também existia a possibilidade que ele não quisesse solucionar nada; Só queria saber sobre os guardiões e sair de perto de mim, ou pior, dizer que estava muito melhor sem mim e que estávamos fazendo o correto. Minha cabeça estava cheia de emoções. Apesar do conflito em meu interior, esperei e Christian não chegou; estava machucada, mas isso não fazia que me decepcionasse menos. Pouco a pouco comecei a perceber que, por desgraça, meus sentimentos por ele não tinha mudado apesar do que tinha acontecido naquela noite. Haviam tentado me dizer que não voltaria a vê-lo, mas quando apareceu na porta da cozinha, tudo mudou. Ouvir de seus lábios que viria me buscar havia sido a única coisa que tinha me consolado nessas últimas noites. Tenho que reconhecer que muitas manhãs eu me sentava na janela e esperava ver seu carro preto entrando na casa e imaginando como soaria as desculpas que ele me daria por tudo que tinha me causado, mas seu carro não aparecia. Às vezes, a impotência me fazia ter vontade de ir atrás dele, mas não sabia como reagiria. Em minha mente começou a formar um temor que ele havia se arrependido e decidiu não voltar. Apesar de como havia destroçado o pouco orgulho que tinha me restado, ainda que não houvesse me acostumado em ficar longe dele, e isso fosse tudo que eu fazia durante os intermináveis dias que não terminavam. Ainda sim, não sabia dizer quem detestava mais, ele ou eu, por ter deixado que tudo isso acontecesse.

268 Mas a tens~o era t~o grande na casa que precisava de algo ‘’normal’’ e que continuasse a ser como antes. Lisange saia de casa nas primeiras horas da manhã, com casaco e botas altas, e não voltava ate que o sol estivesse se pondo. Liam dizia que quando ela passava por um mau momento, ia montar a cavalo para poder pensar, mas o fato de não estar nunca em casa a fazia se sentir extremamente sozinha. Agora que Flávio não estava mais conosco, já não havia ninguém com quem pudesse dizer como me sentia. E Liam se isolava em seu quarto e isso me deixava muito preocupada, porque dava a sensação que estava se trancando em si mesmo, como se não encontrasse mais sentido para seguir vivendo e também não sabia como ajudá-lo. Eu me culpava por haver ocultado as palavras de Helga; havia sido um perigoso erro. Não nem podia pensar que talvez eu tivesse culpa pela morte de Flávio e isso me torturava lentamente. Ele havia sido como um pai para mim na minha nova vida, o único pai que conheci, mas nunca mais irei voltar a vê-lo, seus profundos olhos não me aconchegariam, nem me animaria mais... Sentia-me fora de lugar, como se tudo aquilo que era meu mundo havia acabado e só restasse o lixo. Estava de novo perdida, e por minha culpa. Dias depois voltarmos, enquanto esperava impaciente que o carro de Christian aparecesse pela entrada, ouvi umas notas agudas no ar que Invadiram todo o espaço. Formavam uma melodia muito melancólica que provocou algo em meu interior, que me comovia. Em casa só estavam Liam e eu. Sai de meu quarto e procurei a origem do doce som, caminhando mais silenciosa que o normal e deliciando-me com sua música. Não reconheci a canção, mais era linda, capaz de fazer chorar ate o ser mais insensível, ainda que eu não pudesse, não com lágrimas pelo menos. Cheguei até o final do andar em que estava meu quarto e olhei ao meu redor. A verdade é que não havia me dado conta até esse momento que não conhecia nem a metade da casa. O corredor terminava em uma maravilhosa vidreira. Fui pela direita e vi outro caminho. Vinha da porta mais distante. Parei em frente a ela, apoiei o ouvido contra a porta e escutei. Sim, sem dúvida, o som vinha de lá. Abri a porta com

269 cuidado e olhei o interior. Era um quarto muito grande, muito maior que o meu; decorado em um estilo barroco, mais elegante. O estilo de Liam estava em cada detalhe. A direita tinha uma majestosa cama, com quatro pequenas colunas talhada em mogno. Em frente a mesma, havia uma mesa da mesma madeira onde tinha um caderno aberto e uma elegante caneta colocada em um tinteiro muito trabalhado. Junto ao móvel, uma lareira idêntica a de Lisange, com o retrato de seu dono, subia até o teto. Do outro lado, o espaço estava ocupado em sua totalidade por estantes cheias de livros, a maioria deles com aspecto muito antigo. Era a versão masculina do quarto de Lisange, mas um pouco mais detalhada e em tons escuros. Além disso, havia algo que faltava tanto no meu quanto no dela; um balcão muito grande que deixava ver as janelas. No centro, sobre uma almofada redonda, percebi a figura de Liam, encostado contra a janela, se balançando lentamente enquanto tocava um violino. Não me viu entrar e eu não quis interrompê-lo. Encontrei-me encantada, parecia um anjo como todos esses quadros sobre mitologia. Tocava com os olhos fechados, concentrando toda a sua atenção no som que estava criando. Havia caído uma pequena mecha de cabelo em seu rosto, acariciando com suavidade suas bochechas com cada balançar do seu corpo. A música se tornou, de repente, muito mais violenta. Fiquei surpresa. Seus dedos iam e vinha pelas cordas, o arco se movia quase com crueldade, como um toque mortal. Estava indo embora quando escutei um chiado e a musica parou de repente. Liam baixou a cabeça, uma corda havia estourado. Colocou com delicadeza o violino no fundo, perto de um elaborado carrinho de madeira. — Desculpe-me. — disse sem me olhar. Não sabia se referia a mim, mais voltou seu rosto em minha direção, acabando com minhas duvidas. Senti-me envergonhada por haver invadido sua intimidade assim. — È linda. — murmurei. — É sua? Assentiu enquanto voltava a guardar o instrumento na caixa. — Eu a compus para Flávio; é a única despedida que pude dar a ele.

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Minhas pernas temeram e no momento em que um novo nó se formava em minha garganta. Então, sem sequer pensar, cheguei mais perto dele e o abracei. Agarrei-me a seu peito com os olhos fechados e uma enorme vontade de chorar. No inicio Liam ficou imóvel, mais uns segundos depois senti seus braços rodeando meus ombros. —Tudo sairá bem Lena, não permitirei que nada de ruim aconteça de novo. Porque ele estava me consolando, se deveria ser o contrario? — Não sei o que pensar e nem o que sentir. — solucei. — É muito complicado. — Eu sei, gostaria que não tivesse visto a cabana. Meu corpo voltou a tremer e ele me apertou gentilmente em seus braços. — Sinto muito Liam. — murmurei contra sua camisa. — Sinto pelo que aconteceu. — Eu também Lena, não sabe o quanto, ele era a única família que me restava. — Eu me sentia muito unida a ele, mesmo supondo que nada comparado a vocês... Mas Liam, você tem a Lisange e a mim... — Era descendente de minha linhagem, do meu próprio sangue. — disse respirando fundo. — Como? Eu..., eu não sabia. — sussurrei. — Então é ainda pior Liam... Eu tive culpa em tudo o que aconteceu. — O que você quer dizer com isso? — perguntou surpreso. — Que, se tivesse contado a vocês sobre Helga, talvez... Talvez ele não.... — Teria sido morto do mesmo jeito, Lena. — cortou-me. — Só se passaram algumas horas entre os dois..., acontecimentos. Não podíamos fazer nada. — Mas...

271 — Se você vai procurar um culpado, culpe a mim. Sou eu quem deveria ter ficado ao seu lado. — concluiu e saiu de perto para ir pegar o violino. — Porque não tem saído para tomar ar? — perguntou mudando de assunto para romper o repentino silêncio que se estendia pelo quarto. — Christian..., pediu-me para não sair até que ele viesse. Enrugou a testa. — E quando isso acontecera? — Não sei, mas começo a pensar que não irá voltar. — Voltará, não pode evitar. Era a primeira vez que ele dizia em voz alta algo relacionado com o tema, mas fez de tal modo que eu percebi que não gostava do que falava. — Como está tão seguro? Talvez seja melhor assim. — fiquei em silêncio por um momento. — Liam. Porque chamou Christian se não gosta dele? Olhou-me, dos pés até a cabeça. — Porque se realmente tem uma ameaça de Guardião aqui, ele é o único que pode nos proteger. — A mim? — Não sabemos o que eles procuram. — Isso não importa, não preciso dele e acho que não quer colaborar. Observou-me um instante, confuso. — Não entendo, pensava que você confiava nele. — As coisas mudaram, não quero que volte. Minha voz perdeu credibilidade na última parte. Liam me olhou, não havia a menor dúvida que não estava acreditando — Não vou negar Lena, Lisange contou-me o que aconteceu. — Pensei que ficariam felizes. — reconheci.

272 Ficou em pé e veio ao meu lado. — Em parte é assim, mais nós também cometemos o erro de pensar que você estava bem quando não era certo, também não fomos capazes de ver que sua transformação era iminente e ele sim. — tomou ar. — Ele estava ali no momento que precisou dele e ajudou-lhe a seguir em frente, é um fato que não podemos ignorar, ainda que não aprovemos. Não imagina até que ponto é ruim que se relacione com esse Grande Predador, mas sem Flávio nosso poder de proteção diminuiu muito. Acredite, jamais recorreríamos a Christian Dubois se não fosse preciso. Ainda devemos pensar no que faremos a seguir. Estava completamente errado sobre ele. Eu deveria ter-lhe dito que a razão pelo qual Christian sabia que eu não estava bem era porque eu havia pedido que me matasse. — Acho que você tem razão. — reconheci. — Deveria ter percebido com quem estava lidando. — Aprendemos com nossos erros, e você tem toda a eternidade para consertá-los. — Humm..., suponho que sim, mais me pergunto se não é... — Tarde? — ele terminou. — Isso só depende do que fará depois. — disse com voz compassiva. — O que é que deseja? Pensei sobre a resposta durante alguns segundos. — Encontrar uma forma de esquecê-lo para ter paz comigo mesma. — sorri com tristeza. — Mas é pedir muito. — dei de ombros. — A verdade é que duvido que queira falar comigo para voltarmos a ser amigos, então talvez seja mais simples. Mais te garanto que vou tentar. Afinal, devo isso a vocês. Liam colocou uma mão em meu rosto e começou a acariciar minha bochecha. — Não deve se preocupar por nós, apenas procure o seu bem estar, mas tenha cuidado, eu lhe imploro, não podemos saber quanta humanidade ainda lhe resta. Fiquei triste, ele pegou meu queixo suavemente e me fez olhar para seus olhos.

273 — Ninguém fará você escolher, tem minha palavra de honra, mesmo que estas palavras tenham perdido o verdadeiro significado que tinha em meus tempos, quando eu vivia. — Eu gosto quando você fala assim. Apesar da dor que invadia seu rosto, torceu os lábios em um pequeno sorriso, que teria arrebatado a respiração de metade do planeta.

***

Continuei esperando e Christian não voltou. Na última hora da tarde do terceiro dia, quando já tinha começado a resignar-me e perdido toda a esperança, soou a argola da porta. Ouvi que alguém abria os ferrolhos e uma breve e apática saudação de Liam. — Lena. — chamou da entrada sem levantar a voz. — Venha aqui, por favor. Levantei-me tão rápido como se a sala estivesse queimando e fui ao seu encontro. Liam segurava a porta aberta com tristeza e ali, por fim, estava ele, com as mãos metidas nos bolsos e o rosto contraído em uma estranha expressão, que eu não pude decifrar. Fui ate ele, me obrigando a continuar firme, sem mostrar a vontade que sentia de abraçá-lo. — Obrigada Liam. — agradeci com uma leve inclinação de cabeça. — Um prazer. — respondeu de forma monótona. Despedi-me dele e Christian colocou uma mão em minhas costas enquanto me levava até seu carro, mas em vez de parar, passou longe, de forma que fomos passear pela rua apesar do calor asfixiante. Entramos um pouco na floresta, o suficiente para ficarmos escondidos do resto das pessoas, e quando digo ‘’pessoas’’ me refiro aos De Cote. Tinha certeza que eles não estavam olhando pela janela nem nada do tipo, mas respeitei a decisão de Christian de ficar longe dos ouvidos deles. Nenhum de nos falou. Minha alegria por sua chegada estava diminuindo cada vez mais ao ver sua atitude. A última vez que tínhamos ficado a sós, ele tinha partido meu inerte coração em mil pedaços e a ferida ainda sangrava, mais ainda agora, com sua proximidade. Seu cheiro voltou a me invadir, como fazia séculos

274 que não acontecia e minha respiração se acelerou; fazia tanto tempo que desejava voltar a senti-lo. — Como você esta? — perguntou. Não sabia descrever seu tom de voz, era estranho e parecia tenso. Talvez estivesse tão incomodado quanto eu com toda essa situação. — Pensei que não queria voltar a me ver. — o encarei. Arrependi-me de ter pronunciado estas palavras, porque na verdade, só queria me lançar em seus braços e agradecer mil vezes por ter voltado, mas nesses últimos dias parecia que obedecia mais ao lado mais racional do que o emocional . — Não Lena, disse que queria que me conhecesse; acredito que seja necessário. — O que eu penso é que não tem nada a ver. Nunca antes havia ficado preocupado com isso. — Há coisas que mudaram. — Sim, é verdade. — afirmei, tentando sustentar o seu olhar, mas não consegui. —Deixou-me muito claro o que você acha. — Lena... Respirei fundo e continuei. — Christian; tenho pensado muito sobre isso e se é o que quer, eu aceito, não te incomodarei mais, não tem nenhuma obrigação comigo. Deus, porque diabos, eu estava sendo tão tonta? Porque estava o afastando do meu lado de novo? Por acaso não havia voltado? Ele estava ali, esperando para falar, quem sabe para me dar uma explicação do que aconteceu naquele dia, ou talvez apenas para terminar de vez, e eu estava me comportando como uma estúpida. De repente, fiquei assustada. Tinha medo, temia que me machucasse, e não me referia a que pudesse me matar e sim aos meus sentimentos. — Se o que queria era que me adaptasse, o conseguiu. — comecei de novo, concentrada em olhar minhas mãos. — È possível que a culpa seja apenas minha, nunca deveria ter deixado que minhas emoções corressem soltas, acho que nesse

275 aspecto continuo sendo... Como você me chamou? Ah sim, humana, uma humana tonta e estúpida que... Um golpe de ira brotou em meu peito ao lembrar tudo que ele tinha dito naquela noite, todas as palavras que me causaram tanta dor e que, no fundo, sabia que não merecia. Mas quando fui acabar a frase, quando estava prestes a dizer-lhe o quanto detestava ser tão frágil com ele, colocou um dedo nos meus lábios, calando-me. Levantei os olhos, com medo, para enfrentar a força de seus poderosos olhos. — Deixe-me falar Lena. — sua voz era firme e soou como se tivesse pressa em terminar o quanto antes e isso me irritou. Fiquei em silêncio, cruzei os braços e esperei. — Não pense que não tenho pensado em nossa última conversa. — parecia de repente irritado e cortante, e imaginei que no fundo, minhas palavras o havia contrariado. – Quando Lisange me chamou, você não pode nem imaginar como eu me senti ao pensar que poderia ter acontecido algo de mal com você. Ainda que não acredite, você significa mais para mim do que parece; muito mais do que até eu imaginava. Ah sim? Então, porque havia demorado tanto para vir me ver? O que estava esperando? — Então, não tente afastar-se de mim. Porque não quer entender? — perguntou exasperado. Desviei o olhar, temendo que voltasse a dizer que a decisão da última vez era a mais apropriada. — Sei o que você é. — lembrei-lhe. — E o que faz. Talvez, mais tarde, chegue o momento em que eu deva conhecer os detalhes, mas não agora. Além do mais, porque se preocupa tanto com o que eu pense de você? — Quero ser justo contigo Lena. — Justo? — repeti com a voz machucada e cheguei tão perto que podia sentir sua respiração em meu rosto. Finalmente podia voltar a sentir seu maravilhoso aroma. — Justo? Você me fala de justiça? E não deveria ser eu quem determina o que é justo para mim? Não tem que ser comigo Christian; tal e qual você disse, você é um Grande Predador e eu apenas... — Lena...

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— Não é assim? — insisti. — Sim, é. — disse. Dei um passo para trás, ele continuava pensando do mesmo jeito, tudo era inútil. — Então, diga-me por que. — murmurei em um fio de voz. — Recuso-me a acreditar que você não tenha percebido. — parou e olhou diretamente em meus olhos. — Por acaso tenho que explicar-lhe? Neguei com a cabeça. — Não. — lamentei ao perceber que estava se comportando igual a última vez. — Não sei por que voltou, mas eu vou para casa. Virei-me para pegar o caminho de casa. No que estava pensando? Como havia sido tão estúpida ao acreditar que ele viria concertar as coisas? Pedir perdão? Christian? Mas que tonta! Ele tinha razão, continuo sendo muito humana, tão... —Lena, escute meu coração. — O que? Virei-me para ele. Christian aproximou-se em dois passos. — A que velocidade bate? — sussurrou com o rosto a centímetros de distância do meu. Olhei-o sem compreender. — Rápido. — respondi e ouvi como sua respiração acelerava mais. — Sempre bate assim? — perguntou. — As..., às vezes. — sussurrei. — Por quê? — Quando? — insistiu. Afastei-me um pouco dele, nervosa, concentrando em minhas mãos, minha mente começava a perder a lucidez e começava a dar trabalho me manter firme. Seu cheiro era como uma droga para mim.

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— Não sei. — reconheci. — Não consigo lembrar. Ele franziu os lábios, pensando. — Você sabe que o coração de um Grande Predador bate mais lentamente que o de um humano. Agora volte a ouvir. — disse. — Se dou um passo até você. — observou aproximando-se de novo e prendendo mais uma vez meus olhos nos seus. — O que acontece? Muito a contragosto, fechei os olhos e me concentrei em seus batimentos, mas não me arrisquei a voltar a abri-los. — Bate mais rápido e... — minha voz sumia. — Mais rápido. Pegou minha mão com grande delicadeza e passou-a em seu peito. — E agora? Não sabia dizer o que batia mais rápido, se minha respiração, a sua ou o seu coração. Uma profunda dor se apoderou de mim. Apertei meus lábios com firmeza para deter o tremor que havia começado a surgir. Hesitei em levantar os olhos por medo do que poderia encontrar, em enfrentar a realidade, mas, acima de todas as coisas, em se tratar apenas de um sonho. Em um esforço sobre humano, eu o fiz. Seus olhos brilhavam de forma febril. Eu o olhei; confusa. — Você foi..., você disse. — não conseguia terminar nenhuma frase. Formou-se um nó em meu estômago, havia muitas emoções em meu intimo, não entendia nem o que ele tentava me explicar. Que ele me queria? Não, essa não podia ser uma opção, pisquei várias vezes, mas isso não aliviou a dor em meus olhos. Não podia, é muito, não devia voltar a criar falsas esperanças. Ele soltou minha mão. — Foram muitas coisas sem sentido, por que nada disto faz sentido para mim. — admitiu devagar, notava-se que lhe custava pronunciar todas aquelas palavras. — Fui embora pela mesma razão pela qual voltei. — Eu não te entendo. — Há algo que não lhe contei. — confessou. — Em uma ocasião, comentei com você que cada batimento é doloroso.

278 Apertou muito a mandíbula, com os olhos fechados, antes de continuar. — Pois bem, meu coração bate desenfreado quando me aproximo de você, quando tento te tocar..., é um tormento que acreditei não poder resistir. — respirou como se estivesse recolhendo forças para enfrentar suas próprias palavras. — Eu fui por que por um momento, tive medo de cumprir com a minha parte no trato. Eu só pude prestar atenção na primeira metade de suas palavras. — Eu..., te machuco? Então, talvez houvesse sentido ele ter ido embora... — O importante, Lena, é que nestes últimos dias senti uma nova dor, muito diferente. Algo grande e inexplicável, nem sequer poderia dizer que se trate de algo físico, mas agora tenho muito claro qual delas eu não posso suportar. — Christian ... — Eu não sei o que é porque nunca senti algo assim. Eu só sei que fecho os olhos e vejo você, que tenho o seu cheiro incrustrado na minha memória, que a minha ira é desencadeada sempre que outro Grande Predador cruza o meu caminho porque acho que ele pode te machucar. Tenho medo de me olhar no espelho, porque me odeio diante da possibilidade de que possa te corromper. Eu sei que te machuquei, Lena, e toda uma eternidade não será suficiente para te compensar, mas sou uma criatura egoísta que só olha para seu próprio bem estar, por isso estou diante de você, de novo, pedindo que não me tire do seu lado. Quero te proteger de tudo, embora não possa defender-lhe do que eu sou. Segurei a respiração, chocada demais para dizer uma palavra, mesmo toda a mistura de sentimentos pausou por um momento, agora sim, eu estava perdida, já não sabia nem o que pensar. Aquelas palavras que eu tinha esperado durante tanto tempo, estavam parecendo incrivelmente estranhas e doces ao mesmo tempo. E agora? O que supunha-se que eu devia fazer? Como devia reagir? Observei seus olhos, mas eu vi apenas sinceridade neles. Isso seria possível? Havia um mundo em que Christian Dubois me queria ao seu lado? A mim? Meu coração encolheu-se com uma dor diferente, apesar de tudo o que tinha acontecido, de como havia me tratado, eu continuava sentindo que o queria e que, no fundo, uma parte de mim sempre o faria. Mas ele franziu a testa, confuso e preocupado. — Não vai dizer nada?

279 — Não consigo. — reconheci. — Entenderia que não compartilha meus sentimentos, especialmente depois do meu comportamento. Eu geralmente não rastejo dessa maneira, por isso, se você vai me rejeitar, faça-o agora. Christian..., inseguro? Era a primeira vez que sua máscara caia e podia ver em seu interior, a primeira vez que lhe via hesitar, tão vulnerável quanto eu. Então, eu sorri. — Existe algo engraçado em tudo isso? — ele perguntou um pouco na defensiva. — Não. — eu disse através do nó em minha garganta. — Estou sorrindo porque não posso chorar. Ele ficou tenso, virando a cabeça para um lado. — Você acha a ideia tão terrível? — Não me proteja. — respondi. — Você não percebeu que eu apenas quero você? Não volte a escolher por mim, deixe que disso eu mesma cuide. Olhou-me, imóvel durante momento e de repente cortou a distância que nos separava e estreitou-me em seus braços. Sentir seu corpo tão perto de mim..., seu cheiro, a batida do seu coração..., tudo era perfeito agora. Também lhe rodeei com os meus braços, tinha precisado tanto deste abraço... Notei seus lábios macios e delicados sobre minha cabeça. — Não voltarei a te machucar, eu juro. — Eu sei. Se eu não soubesse que era impossível, juraria que meu coração havia batido, ou talvez tenha sido o de Christian, que batia tão freneticamente que tinha sido capaz de atravessar seu corpo e o meu? Ele acompanhou-me à porta e esperou que eu me soltasse. Beijou a minha mão com ternura e olhou intensamente em meus olhos. Senti uma dor estranha na área em que ele tinha beijado. — Vejo você amanhã. — ele sussurrou.

280 — Prometa. — minha voz era suplicante, não ousava deixá-lo, afastar-me. Se isso era um sonho, eu não queria acordar. — Você tem a minha palavra. Indaguei aos seus olhos, mas apesar de encontrar a mesma resposta lá, senti medo. E se não voltasse? E se os dias passasse e ele não voltasse? Mas eu não tinha nenhuma outra escolha, devia confiar nele, mesmo que agora me custasse mais do que antes. Seus olhos foram a última coisa que eu vi antes de fechar a porta.

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Tudo é muito complicado.

Sua voz subiu pelo andar de baixo até meus ouvidos. Levantei-me de um salto, não tinha nada que desejasse mais do que voltar a vê-lo. O mundo brilhava de novo agora que ele tinha voltado. Sai do quarto, apressada, emocionada e sem me preocupar com me ajeitar um pouco. Mas me detive no alto das escadas quando ouvi o tom em que ele falava. Rastejei no chão, escondida, e vi os três sentados em volta da mesa da sala. Agucei os ouvidos sem me mexer nenhum centímetro para que não denunciasse minha presença. — É muito mais sério do que imaginamos. — sentenciou Christian sem nenhum vestígio do rosto da noite anterior. — Ao que se refere? Fez uma pausa antes de continuar. — Pensou na possibilidade de que se trata..., deles? — Claro que sim. — Liam respondeu com naturalidade. — Mas nós sabemos que é impossível. — Talvez sejam imitadores. — sugeriu a voz de Lisange. — Não acredito que seja. Estou certo de que são eles, os autênticos, de novo. Lisange levou a mão até a boca, com a expressão confusa. Eu segurei a respiração. — Explique-se. Christian baixou dois tons o volume, de modo que sua voz era só um sussurro. — A morte de Goliat poderia ser uma imitação de qualquer um, mas Flávio sabia. — explicou enquanto tirava um papel do bolso da camisa e desdobrava em frente a eles. — Essa é uma cópia do que estava escrito na lápide de seu gato.

283 — Já passaram por lá? — perguntou Lisange desconcertada. — Sim, fui buscá-la, tentei ver o que foi que ele escreveu. E agora não tenho nenhuma dúvida, Flávio copiou a citação da Ordem de Alfeo, acredito que tentou nos avisar da ameaça, sabia que, se fosse ali com Caim, ele os conduziria até a tumba. Ficaram em silêncio e eu fiquei ainda mais quieta. O coração de Christian batia com sempre, mas com muito mais força. — Por que não fugiu? — a voz de Lisange estava entrecortada. — Se tivesse voltado para cá, os teria trazido diretamente para nós. — explicou Liam em tom lúgubre. — Não se pode fugir deles, não se eles estiverem te caçando. O que significava isso? — Mas não faz sentido. O que a Ordem faria aqui? — Talvez executar a sentença de Flávio. Não podemos estar certos de quanto sabem sobre sua família. Passaram-se alguns segundos sem que ninguém dissesse nada, os três submersos em seus pensamentos. — Liam, é o que ele disse a Lena... — Quem lhe disse o que? — o tom de Christian deixava claro que ele estava ansioso. Aproximei-me mais, agora que meu nome tinha vindo à tona, minha atenção estava no máximo. Houve um silencio demorado enquanto eu esperava com impaciência que alguém voltasse a falar. — Helga falou com ela. — confessou Liam. — Lavisier? Por acaso todo mundo a conhecia?

284 — Advertiu-a sobre o aumento dos Guardiões. — O que? — exclamou, se colocando de pé. — Devia ter compartilhado essa informação comigo. Alguém se mexeu incomodado. — Não soubemos disso muito antes que você, Christian. — Quem sabe deveríamos ir. — sugeriu Lisange. — Podemos voltar com Gaelle. — Isso é muito arriscado, aqui pelo menos nós conhecemos o terreno... Sem perceber voltei a respirar. Houve um silêncio muito mais palpável que o anterior. Tapei minha boca rapidamente, eles tinham acabado de me descobrir. Liam baixou o tom de voz. — Me acompanhe um momento, Christian, tem algo sobre o qual devemos conversar. Afastaram-se e foram até o outro lado da casa. Eu poderia ouvi-los se me aproximasse mais. Mas alguma coisa me dizia que eles encontrariam um jeito de esconder o que estavam dizendo dos meus ouvidos bem desenvolvidos. Desci silenciosamente pela escada e sai. Sorri com o calor que senti ao abrir a porta, ainda não tinha me acostumado a isso. Contornei a casa e atravessei o campo que tinha nos fundos. Encontrei uma sombra e fiquei ali pra ver o horizonte. Não tinha nuvens e o sol estava tão brilhante que impedia de ver o azul do céu. Aspirei, lentamente, sentindo como cada molécula de oxigênio penetrava os meus pulmões, e logo o deixei sair lentamente. Estava confusa e um pouco irritada. Não entendia por que agiam assim, nem por que me tratavam desse jeito. O que era a Ordem de Alfeo? Era tão perigosa a ponto de os De Cote se sentar com um Predador para falar sobre ela? Quem era Gaelle? Era em momentos assim que mais sentia falta de Flávio. Acredito que ele teria tentado me explicar, no mínimo, tentando me fazer sentir melhor. Mais problemas adicionados a lista... Fechei os olhos, estava se formando um nó em minha garganta, eu tinha que relaxar. Mas por que contaram ao Christian? Preferiam que alguém que eles detestavam ficasse sabendo antes de mim? Nesse instante senti uma presença ao meu lado e me virei para ver quem era.

285 — Como fez isso? — perguntei surpresa. — O que? — Não fez nenhum barulho, não escutei nenhum passo. — As presas raramente notam o Predador antes de serem pegas. — sorriu. — Acho que sou silencioso por natureza. — Sim... — voltei a olhar o céu. — Deve ser isso. Sem pensar duas vezes me virei e o abracei, como que empurrada por uma força invisível. Não o olhei no rosto pra não ver sua expressão. Ele costumava manter certa distância entre nós dois e eu não sabia qual seria sua reação. Encarei meu braço que rodeava sua cintura. Estava tenso, não tinha dúvidas de que o tinha pegado de surpresa, pensei que iria me afastar, mas poucos segundos depois me abraçou e me apertou contra seu peito. Queria perguntar sobre a conversa que tinha ouvido, mas estava tão calma nessa hora, que não queria voltar a realidade. Precisava, mais uma vez, da paz que só ele me dava. Talvez eu estivesse sendo irresponsável ou imatura por não querer encarar a verdade, mas afinal, não tinha a menor dúvida de que haveria muitos outros momentos para me preocupar futuramente. Só queria sentir que ainda existia alguma coisa que funcionava bem, que estava em seu lugar, onde deveria estar, e por um momento foi assim. — Lena, sabe que não posso ficar. — me lembrou quebrando a atmosfera de sonho que eu tinha criado ao nosso redor. — Eu sei. — admiti olhando-o, alguma coisa murchou em mim. — Suponho que isso não será fácil. Verdade? — Christian não respondeu. — Bom, não importa. — disse interrompendo seu silencio. — Acho que posso continuar esperando. — Te verei logo, prometo. O resto do dia passou rápido. Não fui caçar e acabei me deitando cedo, desejando que o amanhã chegasse para que eu pudesse vê-lo. Mesmo que nada me assegurasse que o logo significasse amanhã, algo me dizia que dessa vez, eu teria que esperar muito. Não consegui dormir e minha cabeça começou uma tentativa cruel e sem piedade de destruir a felicidade que sentia, começou a divagar. E se eu me

286 precipitei com Christian? Quer dizer. Fiz mal em acreditar em todas e cada uma de suas palavras? E se eu tivesse sido fácil demais? Talvez devesse ter sido mais dura com ele, não queria que ele acreditasse que eu seria tão boba a ponto de perdoar tudo o que ele fizesse. A rápida troca de opinião, o fato de ter decidido voltar logo, me fez duvidar. Tudo aconteceu rápido demais para que pudesse acreditar. Podia confiar nele? Depois da festa ele não me parecia o mesmo. Quem sabe esse era sua verdadeira identidade, e o outro era só um jeito de brincar comigo. Também, era absurdo ter ficado com raiva por eu não querer conhecer todos os detalhes mórbidos de suas ações sádicas. Que sentido teria saber quanto dano causou? E mais, desde quando ser justo e sincero tinha começado a ser tão importante? Mas, e se ele se arrependesse de estar perto de mim de novo? E se toda aquela despedida voltasse a acontecer? Não consegui evitar me lembrar o mal que fez ao me lembrar de que não era como ele e que não merecia o tempo que estava usando para tentar despedir-se... Tinha visto três Christians diferentes em uma mesma noite, um galante e educado, um enfurecido e o último cruel, e não sabia em qual deveria acreditar ou se deveria acreditar em algum. Mas em troca, tinha visto tanta força em seus olhos quando me falava do seu coração na noite passada... Eu não queria acreditar, precisava fazer, mas não me atrevia. Quem sabe o melhor que tinha a fazer era esperar e ver o que aconteceria. Interrompi meus pensamentos. Sentei-me na lateral da cama e agucei os ouvidos. Ouvi leves passos na grama do jardim quase imperceptíveis até para sentidos como os meus. Aproximei-me da janela e vi Christian andar tranquilo de um lado para o outro, com um andar despreocupado e rítmico. Tinha as mãos nos bolsos e olhava para baixo enquanto sorria. A lua estava no céu, cheia, grande e amarelada. Olhei o relógio, esfreguei os olhos, incrédula, tinham se passado quatro horas desde que tinha deitado. Abri os vidros e olhei para fora. Não tinha sinal do seu carro. Virou-se e me deu um grande sorriso encantador. Logo todas as minhas dúvidas se foram. Esperei ate que chegasse embaixo da minha janela. — O que faz aqui? — sussurrei na noite. — Te acordei? — Não conseguia dormir. E você? — perguntei. — Esperava amanhecer para poder te ver. — Mentira? — perguntei semicerrando os olhos.

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— Que tipo de idéias distorcidas está passando pela sua cabeça? — Poderia estar caçando sua próxima vitima. — sugeri; isso era bastante possível, principalmente depois do que andei pensando. — Certo. — concordou pensando. — Agora que rejeitou o trato, seria muito mais divertido. — Na verdade eu o aceitei. — lembrei-o. — A oportunidade já tinha passado. Cruzei meus braços. — Pretendia me raptar assim... — É muito possível. — Meus gritos acordariam a cidade toda. — Bom... — sorriu. — Tinha a possibilidade de que estivesse dormindo. — Mas não é assim. — apontei. — Não tenho culpa de que você tenha o sono leve, Lena. — Na verdade sim. — reconheci e quase instantaneamente parei com o cenho franzido. — Christian Dubois, metido em uma jaqueta de couro? Sua expressão fez com que tivesse que tapar a boca para abafar uma gargalhada. — Concordo... — admitiu dando-se por vencido. — Deixemos essa história de lado. Tinha a vaga esperança de que não poderia dormir hoje. — olhei-o curiosa, e ele cruzou os braços. — Vai tentar encontrar intenções ocultas nas minhas palavras ou desta vez vai acreditar em mim? Apoiei-me na janela. — O que vai acontecer se não duvidar de você?

288 — Eu te farei uma proposta indecente. — disse dedicando-me o seu sorriso mais arrebatador. Viu que eu ia perguntar e se adiantou. — Vem até aqui que eu te mostro. Descer? Como faria sem chamar a atenção de Liam ou Lisange? — Não posso, vão me escutar. — Então não desça por lá. — contestou encolhendo os ombros. — Muito fácil falar. Por onde quer que eu faça? — Pela janela? – sugeriu. — Pular? Ficou louco? É muito alto. Christian negou com a cabeça colocando os olhos em branco e suspirou paciente. — Já está morta. — me lembrou. Essa frase soava realmente cruel, mas tinha razão, eu tinha esquecido esse pequeno detalhe. — É muito alto. — insisti. — Eu te seguro. Está bom assim? Pensei nos seus braços fortes me agarrando e baixei os olhos, envergonhada. — Certo. — resmunguei. — Eu o farei. Aproximou-se, preparando-se para me segurar, terminei de abrir os vidros, passei um pé e depois o outro saltando para o telhado. Ele estava preparado. — Pula, prometo que não vou sair correndo. Sorri uma última vez antes de me deixar cair. Momentos depois, eu estava em seus braços a poucos centímetros do seu rosto e com os braços em volta do seu pescoço. Em contraste com a minha pele fria a dele estava morna, podia senti-la através do meu pijama. Parecia uma cena clássica de filme, onde a garota foge de

289 casa com seu amado. Embora, era certo que era exatamente isso que estava acontecendo. — Quer que te solte ou o pequeno, um metro e meio que a separa do chão é muito alto para você? Fiz uma careta e desci com pesar. — Bem, o que você queria me mostrar? — disse ajeitando a roupa. Sem dizer nada segurou minha mão e me conduziu ao outro lado do terreno. Tinha alguma coisa escondida nas sombras da casa, vi uma grande moto prateada. Isso explicava a falta do carro. — Achei que isso te ajudaria no seu ardente desejo de se encontrar com a morte. A verdade é que fazia tempo que não pensava na idéia de querer abandonar essa “vida”, mas segui seu jogo. — Christian..., sabe que não seria de nenhuma ajuda. Fingiu estar chateado e colocou os olhos em branco. — E se eu prometer que te ajudarei com isso se a moto não funcionar, você viria? Cruzei meus braços. — Pode fazer melhor. Puxou-me suavemente pela cintura e aproximou o corpo do meu sem deixar de me olhar nos olhos. — Ser objeto de um Grande Predador aumentaria o suficiente o perigo? — sussurrou. — Acredito que eu poderia me contentar com isso por enquanto. — disse sorrindo. Deu dois tapinhas no banco traseiro da moto, estendeu a mão e me ajudou a subir. Quando ele subiu, agarrou meus braços e passou envolta da sua cintura. Eu me agarrei com força, sentindo cada músculo embaixo dos meus dedos, isso bastou para me distrair de todo o resto.

290 — Segure-se. — Para onde vamos? — perguntei enquanto fazia o motor rugir. — Para um lugar perigoso. Sorri por dentro enquanto afundava meu rosto nas suas costas. O vento estava gelado á nossa volta, mas bastante agradável; acentuado pela alta velocidade com que Christian pilotava. Fiquei com vergonha por estar com ele vestida com um pijama ridículo, especialmente por que se soubesse, teria passado a tarde toda decidindo o que vestir. Mas não havia pessoas nem tampouco carros nas ruas. A única pessoa que me via, na verdade era a única que importava. Inspirei seu cheiro, tentei me lembrar o que cheirava tão maravilhosamente bem, mas não consegui adivinhar, não parecia com nada que conhecia, mas era hipnotizador, agradável e doce. Sem que eu percebesse, ele abandonou a estrada e empreendeu uma viagem para baixo através do mato. Apertei-me mais a ele, tenho certeza de que o estava machucando, mas ele nunca me diria. Esse caminho não era longo, pouco depois começou a diminuir a velocidade até que parou suavemente. Desceu antes de mim e me deu a mão, mesmo assim desci cambaleando. — Como está? — perguntou acariciando meu cabelo. Meu cabelo era agora uma massa disforme por causa do vento. Em troca, ele estava perfeito como sempre. — De pijamas e despenteada. Perfeita, não? Christian deixou o casaco sobre a moto, me puxou pela mão e começamos a andar. — Não me importa como você está vestida ou em que estranho estado está seu cabelo. — falou olhando-me intensamente. — Só quero dividir essa noite com você. Tentei disfarçar o sorriso bobo que se desenhava nos meus lábios. — É fácil falar quando se está vestido assim. — me queixei olhando ao redor. — Certo. Aonde você quer me levar?

291 — A um lugar onde podemos ficar sozinhos, sem ninguém, assim não precisa se preocupar com nada. Ninguém vai te ver com esse conjunto. Fechei os olhos e inalei a brisa que chegava até nós. — Cheira a mar e escuto as ondas batendo. Vamos à praia? — Olhe para frente. Nunca tinha estado nesse lugar, assim não fazia a menor idéia do que esperar. Afastou alguns galhos de árvore e colocou na minha frente uma visão incrível. Na verdade eu tinha adivinhado. — Chama-se o Cemitério das Catedrais. Veja como são grandes essas rochas. Fazia jus ao nome, disso não tinha dúvida. As rochas eram extremamente altas, enormes pilares marrons, desgastados pelo mar, que se uniam a costa com estranhos arcos e formas impossíveis, embaixo se viam grandes cavernas que iam fundo na rocha. — Oh... — não consegui dizer nada melhor. Sorriu contente e me guiou por umas pranchas de madeira seca e irregular que desciam ate a pálida areia coberta por pequenas plantas com espinhos. O lugar estava cercado por um dos grandes agrupamentos de rocha. Ali embaixo eram muito mais impressionantes, deviam medir o mesmo que um prédio de dez andares pelo menos. Diante de todo aquele espetáculo se estendia o oceano amplo e brilhante, as ondas quebravam contra a costa, altas, porém tranquilas. Seu som era relaxante e apaziguador, algo que nesse momento eu precisava com urgência. Senti que aqui podia esquecer por uns instantes de todos os problemas. Andamos de mãos dadas pela areia. O mar parecia uma grande gema, um enorme topázio que refletia uma lua enorme, reluzente e redonda no céu, mais perfeito do que em qualquer outra noite, iluminando nossos passos na fina areia que passava por meus dedos. Sua luz refletia na espuma das ondas fazendo-as parecer com autênticos diamantes. — Sabia que você iria gostar. — disse, tirando-me dos meus pensamentos. Dei-lhe um grande sorriso como há muito tempo não fazia. — Obrigada. Se existia alguma coisa mais bonita que o efeito da lua nas ondas, isso era o rosto de Christian. Sua pele parecia mais do que nunca de porcelana, e seus traços

292 pareciam irreais de tão bonitos, de uma beleza clássica a muito desaparecida. Lembrei-me de como tudo havia acontecido. Jamais poderia imaginar o quanto eu iria gostar desse momento. — O que houve? — perguntou. — Pensava em quanto as coisas mudaram desde a primeira vez que te vi. Puxou-me para mais perto enquanto caminhávamos. — Fico feliz que tenha escolhido precisamente aquele dia para falar comigo. — Por quê? — Quem sabe se estivesse de mau humor eu poderia ter aceitado sua proposta. Afastei-me um pouco para olhá-lo e levantei uma sobrancelha. — Não me pareceu que você estivesse muito contente. — assinalei. — Fazia muito tempo que não estava... — ficou em silêncio por alguns instantes. — Por que me procurou para que a matasse? Encolhi os ombros. — A verdade é que não sabia de ninguém mais que estivesse disposto a fazê-lo. — Alguém te disse que eu faria? Neguei com a cabeça tentando me lembrar. — Lisange me disse que você era um assassino, assim supus que não se importaria em fazer uma vez mais... Calei-me imediatamente ao ouvir minhas próprias palavras. Seguiu-se um prolongado silêncio em que não me atrevi a olhá-lo, suas mãos estavam tensas contra a minha. — Sinto muito. — sussurrei.

293 — Não estou com raiva, Lena. Não disse nada que não fosse verdade, machuquei muitas pessoas. — disse calmamente. — Mas, como você pensou que eu o faria? — Não sei. Eu não sabia que não era mais humana então..., de qualquer jeito, a verdade era que a única coisa que me importava era que não doeria. — soltei uma risada nervosa, forçada demais. Ele continuou calado então me lembrei de uma coisa. — Por que me disse que ninguém o olhava nos olhos? Virou-se para mim com olhos tão escuros e penetrantes como o mar. — Precisamente por isso. — Continuo sem entender. — disse confusa. — Conhece o ditado que diz: “h| olhares que matam”? Use a imaginaç~o. Minha boca se abriu e fiz uma careta de surpresa. — Pode acabar com alguém só com isso? — gaguejei. — Essa é a teoria, a prática não é tão simples. Afastou-se e continuou caminhando. Sozinho. Demorei um pouco a reagir. Pisquei algumas vezes e corri três passos até ele. Voltei a segurar sua mão e ele me olhou de olhos arregalados. — Você não se importa? — parecia surpreso. — Deveria? — Supostamente sim. — Por quê? Se quisesse acabar comigo já o teria feito. — eu disse encolhendo os ombros. Christian balançou a cabeça, admirado. — Não tem medo? — No começo era o que eu queria. Lembra-se? Você ter essa habilidade não significa que eu vá sair correndo. — Não posso controlar sempre Lena. Seria conveniente ter cuidado.

294 Olhou-me um instante esperando minha reação. — Acredito que desde que cheguei a essa “vida” n~o tenha feito nada que fosse razoável. — Não poderia estar mais certa. Mas isso é diferente. Respirei fundo, mas isso não me ajudou a relaxar. Por que ele fazia isso? Por que estava tão empenhado em me afastar? Endureci a minha voz. — Não te odeio Christian. — Por que é tão mesquinhamente compreensiva? Ignorei sua pergunta. — Só tem uma coisa que eu gostaria de saber. — comecei e me olhou atento. — Às vezes fica difícil controlar? — Com frequência suficiente para que seja mais prudente não se aproximar muito de mim. — Certo. Levarei isso em conta. — disse colocando os olhos em branco. Caminhamos um pouco mais sem dizer nada. O que acabava de descobrir era surpreendente, os De Cote tinham razão quando diziam que ele era muito perigoso. Os De Cote..., pouco a pouco senti que minha expressão ia se escurecendo. Christian também notou. — O que houve? — A verdade é que me sinto culpada por me sentir um pouco feliz depois de tudo o que aconteceu, faz só alguns dias que Flávio morreu. Não era muito bom, mas sempre... — Por que não me surpreende? — soltou com a voz irônica. — E agora enquanto os De Cote choram sua morte, fujo de casa com você sem saber quais são suas verdadeiras intenções. — O que quer dizer? — Nada..., deixe.

295 Reconhecer que não acreditava nas suas histórias e em nenhuma das suas palavras não ia servir para nada bom. — Lena, você não teve culpa no que aconteceu. Ele procurou por isso. — O que? — disse perplexa. Ele encolheu os ombros. — Não devia ter atacado aquele Grande Predador. — Ele o fez para ajudar aquela garota! — E de que serviu? Ela saltou de qualquer jeito. Parei imediatamente incrédula. — Está defendendo o que fizeram a ele? — perguntei com cuidado. — Se não o tivessem castigado teria dado a chance de outros Caçadores o fazerem, e o teriam feito pior. — E isso não é um problema para você. Não é? — respondi franzindo a testa. — Não para mim, duvido que existam muitos Caçadores por ai, capazes de acabar comigo. — não soou prepotente, mas sincero. — Mas existe uma Ordem por uma razão. Se, mantê-la significa acabar com algum Caçador como Flávio, tem que aceitar. — Era como um pai para mim! — cuspi. — Fala como se estivesse disposto a fazê-lo você mesmo. Ele ficou tenso. — É isso que acredita? Não respondi, limitei-me a olhar a areia. — Bom, mas futuramente, faça um favor a ambos e não se esqueça de com quem está falando. Parei, indignada e lhe dei as costas.

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— Vai fazer lembrar-me disso em cada oportunidade que tiver? — Não estou me referindo ao que você acredita. Quero que se lembre que nunca tive nenhum problema em te contar o que faço, se o tivesse feito, não teria voltado para proteger sua família. Virei-me pra ele. — Talvez esperasse isso, uma desculpa para que te abrissem as portas. Ele franziu os lábios, chateado. — Se vai começar a duvidar de mim, isso não vai funcionar. Liam não e um tolo. — continuou. — E sabe que Lisange é a última pessoa no mundo que confiaria em mim. Se eles não pensam que tenho alguma coisa a ver com isso. Por que você vai pensar? Quer tanto ser infeliz? — Não, mas não quero voltar a me enganar com você. Afastou-se um passo e com o olhar sombrio me estendeu a mão. — Entendo... — inspirou e suas narinas se dilataram. — Vamos, te levarei de volta para casa. — Não, ainda não. — disse sem me mexer. — Então, o que você quer? Hesitei. — Poder confiar em você. Preciso deixar de estar tão chateada comigo mesma. — fiz uma pausa. — Sinto que você poderia fazer qualquer coisa e eu te perdoaria; isso me dá medo. — Não posso te oferecer algo que não sou. — Eu sei. — reconheci abatida. — Quer que eu vá embora?

297 — Eu gostaria que tudo fosse como antes. — confessei com a voz fraca. — Quando minha vida era a única que estava em perigo. Já morreu um e não quero que isso aconteça a ninguém mais. — Flávio tinha que morrer. — repetiu devagar, marcando cada palavra. — Se gosta de mim ao menos um pouco, não repita isso. — Talvez tivesse sido melhor para você se eu não tivesse voltado. — disse desviando o olhar. Uma onda gelada molhou meus pés descalços e estremeci. — Chega! — gritei logo. — Ir embora foi a pior coisa que poderia ter feito para mim. Não sei se tudo o que você disse; toda a insensibilidade que acabou de demonstrar; não é mais que uma nova exibição do cruel que diz ser, mas se o que pretende é que me afaste de você, está perdendo seu tempo. Minha voz estava mais aguda que o normal; senti uma dor profunda no peito. De repente me dei conta de toda a pressão que estava se acumulando ali dentro. Então, sem saber por que, comecei rir. — Lena, isso não tem graça. — Ah não? Não sei mais o que tem e o que não tem graça. Afastei-me dele, entrando na água, sorrindo sem humor. Falava alto, apesar de saber que não era preciso, mas precisava que minha voz fosse ouvida em toda a praia, quem sabe assim poderia afugentar essa dor do meu peito. Olhei para ele. — Não sou capaz de entender mais nada. Você machuca as pessoas e eu deveria me importar. — me faltava o ar. — Mas. — disse andando de volta para ele. — Parece que não é assim. Machucou-me e veja! Aqui estou de novo, como se nada tivesse acontecido. Diz-me. Por acaso me tornei uma criatura egoísta e sem coração? — me calei levando a mão ao peito onde não se escutava mais nenhuma batida. — Sim, deve ser isso... Deixei que as ondas me molhassem, a água chegava aos meus joelhos. Christian se aproximou de mim devagar com medo de que eu me assustasse. Eu ainda pensava no significado das minhas palavras, tudo o que tinha dito era certo. Ele chegou ao meu lado. — Lena...

298 Não deixei que terminasse e me agarrei a ele com força, como se minha vida fosse ele. Caímos, mas não me importei. O olhei com uma serenidade que nunca tinha mostrado. — Só quero ficar com você Christian. Não me lembro do meu passado e não sei o que me espera no futuro, mas você é a maior parte das minhas lembranças e dos meus sentimentos. Não sei por que não tenho medo de você nem te odeio, mas eu te amo. E por desgraça é a única coisa que sei. Analisei a ultima frase. Eu disse que o amava..., ele respirou devagar e passou a mão pelo meu cabelo. — Você faz com que valha a pena que meu coração continue batendo. — sussurrou contra meu pescoço. Levantei os olhos e o olhei seus olhos. — E você que o meu tenha deixado de fazê-lo. Tentei sorrir, mas ele estava sério, ainda mais sério do que estava alguns segundos antes. Logo uma onda nos molhou. Eu ri e dessa vez com vontade, isso o contagiou fazendo sumir qualquer rastro de seriedade. Levantou-me e me levou no colo até a areia. Enquanto me colocava na areia, cai no chão ainda rindo. Não sabia o porquê, mas me sentia melhor, como se tivesse expulsado toda a tensão. Segurei a manga da sua camiseta e o puxei para baixo. Parei de rir pouco a pouco, deitada ao seu lado com a cabeça em seu ombro. Acariciou com ternura meus cabelos molhados, mas segurei sua mão. — Ainda continua usando luvas. — olhei-o. — Por que as colocou? Ele olhou as mãos quase com repugnância, mas não respondeu, era evidente que as usava para não me machucar. — Quando Herman me tocou na festa não aconteceu nada. —lembrei. Seu corpo ficou tenso com minhas palavras. — Esteve com Herman? Assenti com a cabeça. — Ele te disse alguma coisa?

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— Não, só disse que queria me conhecer e que também poderia me ajudar a... — vacilei. — Já sabe ao que ele se referia. Não é? Passou a mão pelo meu queixo e me forçou a levantar o rosto. — Lena, fique longe dele. — Mas por que a pele dele não me queimou? — insisti. — Só acontece com você? — Parece que sim. — Por quê? — Não sei Lena. — Também dói em você? Não respondeu, acho que não queria mentir. Limpei a garganta e tentei recuperar a compostura para me concentrar em sua mão. Eu sabia o que queria fazer. Puxei seus dedos para cima devagar. Soltando o pano que separava sua mão da minha. — Lena... Levei um dedo aos seus lábios. — Shiii. Sorri e o livrei da peça. — O que vai fazer? — perguntou com um pouco de nervosismo na voz. — Experimentar. — brinquei. Aproximei sua mão de mim, tomando cuidado de não tocar sua pele, e beijei a palma. Senti cócegas nos lábios e uma pequena queimação. O olhei. — Suportável? — Suportável.

300 — Sua pele é um pouco mais quente que a minha. — observei. Ele se contorceu um pouco. — É que me alimentei antes de ir te buscar. Franzi o cenho. — Não acontece isso comigo. — Você não absorve vida, Lena. — apontou. A lembrança do que aconteceu na festa dos Lavisier provocou um grande silêncio entre nós. Mordi o lábio e decidi ignorar o que ele acabava de me contar. O que aconteceu naquela noite me machucou bastante. — Voltamos a experimentar. O que sente agora...? Ele me segurou pelos ombros. — É minha vez. Girei o corpo para que seus olhos ficassem frente aos meus. Ficamos nos olhando. Essa escuridão e profundidade, insondável de seus olhos sempre me fazia perder a noção do tempo. Mas o tempo já não importava. — Não aconteceu nada. — respondeu logo. Entrelaçou com cuidado seus dedos nos meus. No começo a queimação foi bem forte, mas pouco a pouco parecia perder a intensidade. — Suportável. — disse com um sorriso. — Bom... Ainda com as mãos entrelaçadas com a minha, colocou os braços ao lado da minha cabeça, sem me soltar. Aproximou sua boca da minha, mas parou antes de chegar a ela. Nossa respiraçao se misturou e uma descarga percorreu meu corpo. Virou a cabeça levemente de um lado para outro para encostar com delicadeza os lábios nos meus. Senti cócegas e uma vontade de puxá-lo mais para perto, mas me contive. Baixou até o meu pescoço. O seu cabelo molhado tinha um cheiro muito bom. Fechei os olhos aproveitando o efeito da sua boca na minha pele. Era uma sensação estranha, ao mesmo tempo dolorosa e agradável. Abri os olhos, me faltou

301 o ar. Ele subiu até minha testa e a beijou. Olhou-me interrogativamente, mas não fui capaz de articular uma palavra. — Bom... Afastou-se, me deixando estupefata, tive que piscar várias vezes pra voltar a realidade. Virei-me para ele e senti ciúmes da lua, estava deitado ao meu lado com as mãos entrelaçadas na nuca, e lhe dirigia um sorriso sedutor. — Está brincando comigo? — perguntei. Virou a cabeça para mim, divertido. — Oh Lena. Achou mesmo que eu ia me aproveitar de uma jovem sozinha e indefesa? — Você está igualmente só. — Não falou sério. — disse com falsa indignação. — Sempre estou só quando estou com você e não sou indefesa, tenho bastante força. — Eu também. — Mas não mais que eu. Encolheu os ombros. — Pode ser, mas não sabe usá-la. — me encarou e deu um sorriso aveludado. — Ainda mais contra mim. Isso era golpe baixo. Apoiei-me nos cotovelos. — Tenho outros métodos. — Isso deveria me assustar? — perguntou levantando uma sobrancelha. Girei sobre mim mesma e me coloquei sobre ele apertando suas mãos contra a areia. O contato com a sua pele me fez vacilar, mas a verdade é que a velocidade dos meus movimentos me assustou. Ele sorriu.

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— Estou impressionado. — Eu te disse que tenho uma força considerável, não acredito que não possa usá-la com você. Apertou os lábios e empurrou sua mão contra a minha com força, um segundo depois a situação estava invertida, eu embaixo e ele em cima. Seu sorriso apareceu triunfante. — Não tem chance contra mim pequena Caçadora. — Eu te adverti que tenho meus métodos. Levantou a sobrancelha fingindo surpresa. — Exijo uma demonstração. Neguei com a cabeça. — Não, você não é uma presa interessante. — me esquivei. Diminuiu a força com que segurava minhas mãos e me olhou surpreso. — Fala como um Grande Predador. — me lembrou. — Sinto muito por ferir seu ego. — Sabe que vai se arrepender do que disse. — disse com um semblante muito sério, mas não dei importância. — Vamos. — disse. — Faça com que eu me arrependa. Aproximou o rosto do meu. — A vingança é doce, minha querida Lena, lentamente é ainda melhor. — falava com os lábios muito perto dos meus. Minha respiração estava tão acelerada que pensei que iria desmaiar. Não podia lutar contra isso. — Quando estiver desprevenida. — advertiu Christian. — Vai se arrepender de ter me desafiado. — Creio que começo a tremer.

303 Vi meu reflexo em seus enormes olhos negros. Pálida sob a luz da lua, com os lábios entreabertos. Sussurrou no meu ouvido. — Ria pequena, pode rir. Sei muito sobre vingança. Voltou a se deitar ao meu lado sorrindo com vontade. Queria saber o que sua cabeça estava maquinando. Deixei o espaço que nos separava e o abracei. Seu coração batia compassado. Se pudesse parar o tempo o teria feito exatamente agora. Suspirei e ele soltou uma risada suave. Apoiei minha cabeça no seu peito. O bater do seu coração era musica para os meus ouvidos. Agora batia tranquilo, calmo, acompanhando sua respiraçao. Suspirei. — Você está bem? — sua voz soou profunda enquanto acariciava meu cabelo. — Tenho medo. — sussurrei. Seu coração acelerou um pouco. — Sim, de que isso seja mais um dos seus jogos. — confessei. — Medo de que um dia você desapareça de novo, ou que seja apenas um sonho. Tem tantas coisas o que temer. — Lena. — sussurrou em meu ouvido. — Não te ofereci esse trato com intenção de te matar, apenas queria te manter a salvo. Também não menti quando disse que não tinha paciência para jogos. E quanto ao resto..., ainda que queira se afastar de mim, já e tarde, já está incrustada no meu coração. — Por que queria me manter a salvo mesmo antes de me conhecer? — Por que desde a primeira vez que te vi, soube que seria minha perdição. Aperto-me mais nos seus braços. Era incrível o quão bem me sentia assim. — Você não tem medo de nada?

304 — Todo mundo tem medo de alguma coisa. — respondeu respirando lenta e profundamente. — Não me preocupa tanto algo que possa te ferir fisicamente, por que confio que posso te proteger, mas... — O que? — Você é tão frágil, tão..., inocente. — deixou cair a mão que me acariciava. — Tenho medo de te corromper, de transformá-la em algo como eu. Tinha uma grande tristeza em suas palavras. Um grande pesar me sobrecarregou. Entendi que por alguma estranha e inexplicável razão eu lhe importava de verdade. Eu! Um ser tão insignificante e..., normal, dentro do que me cabe, claro. Nem a beleza de Lisange nem a complexidade de Elora..., apenas eu e minha estúpida ingenuidade. — Isso não vai acontecer. — disse tentando lhe confortar. — Serei eu que irei te influenciar, logo verá. — Gostaria que levasse isso a sério, Lena. Não estou brincando. — Confio em você e sei que isso não vai acontecer. Teremos muito cuidado, te prometo que nunca irei mudar. — sorri. — A não ser que decida me abandonar, nesse caso... Colocou os olhos em branco. — Você é incorrigível. — Queria poder ficar aqui a noite toda. — É o que quer? Assenti lentamente, sabia que não tinha nada que eu queria mais que sua companhia, mas sabia a opinião dos De Cote. — Muito bem. — O que? — exclamei surpresa. — Nós ficaremos. — disse com naturalidade, como se fosse simples. — Mas Liam e Lisange....

305 — Eles me deixaram ficar na casa. — O que? — repeti agora muito mais impressionada, colocando meu queixo no seu peito para poder olhá-lo nos olhos. Estalou levemente a língua. — Só por segurança, ainda que supostamente eles me queiram o mais afastado possível de você. — disse. — Mas acho que posso me arriscar. Apoiei-me no cotovelo. — Do que falavam essa manha? Remexeu-se incomodado. — Nada com que deva se preocupar. — Christian, os De Cote não te deixariam entrar na casa se não tivesse acontecido algo muito grave. — Estão assustados com o que aconteceu ao Flávio. — Eles não são do tipo que tem medo. — aleguei enquanto me sentava para vê-lo melhor. — Sabe que ouvi essa manha, falou de uma inscrição relacionada com Goliat. Respirou fundo. — Achamos que pode ser um grupo de Guardiões descontrolados. Era a isso que Helga se referia? — E o que isso tem a ver com Flávio? — É possível... — vacilou como se lhe custasse soltar a informação. — Que ele tenha se dado conta, e por isso deixou uma mensagem com Goliat. — É..., perigoso? — Ainda é cedo para saber. — O que vamos fazer? — perguntei preocupada.

306 — Esperar e ver o que acontece. Mas por enquanto, tinha esperança de poder desfrutar dessa bela lua. Saiu do meu abraço com cuidado para poder deitar ao meu lado. Nas horas seguintes não fizemos nada, a não ser nos olhar nos olhos, não falamos uma palavra sequer, sem problemas, durante esse tempo aprendi sobre Christian mais que em todo o tempo em que eu o conhecia. A frequência das batidas do seu coração, o ritmo da sua respiração, a firmeza dos seus músculos, o jeito que seu corpo se tencionava quando eu o acariciava. Sua pele era tão perfeita que não tinha nem impressões digitais, quando sorria, sua boca se curvava um pouco para a direita e sobre a abertura apareciam pequenas ruguinhas que lhe davam esse aspecto tão sedutor. Mas a única coisa que não consegui desvendar foi a cor dos seus olhos. Tinha algo neles que não deixava que me aprofundasse. Isso mexeu comigo, fosse o que fosse, era algo que se colocava entre nós. Estava certa de que não gostava que eu me concentrasse neles por muito tempo, por que sempre os afastava quando percebia que esta barreira começava a ceder. Quem sabe tivesse algo a ver com o fato de que apenas um olhar seu podia me matar.

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Perguntas.

Infelizmente, Fo ato de Christian ter ficado não resultou como havia imaginado. Nos dias seguintes, se o visse poderia me considerar afortunada, se eu conseguisse dizer-lhe "Bom dia" ou dizer-lhe um simples "Olá", já que não ficávamos próximos um ao outro, e isso era frustrante. Lisange jamais nos deixava sozinhos na mesma sala, nem sequer no mesmo andar; na mesa sentava-se entre os dois, e na sala também; se tínhamos que sair eu sempre ia em seu carro e Christian em outro. Assim tive que contentar-me em olhar e fazer uso da minha imaginação, porque, embora procurasse passar fora o menor tempo possível para forçar nossos encontros, era impossível me aproximar dele. A obsessão de Lisange havia chegado a tal ponto que inclusive interceptava nossos inocentes contatos visuais. Ele levou com humor, algo que me desesperava, mas pelo menos sabia que estava ali. No entanto, estava cada vez pior conter meus impulsos de abraçá-lo quando o via esconder um sorriso bobo que aparecia em meu rosto quando nos cruzávamos. Conforme foram passando os dias, a situação mudou e, pouco a pouco, o desconforto foi se apoderando da mansão dos De Cote. Mal havia comunicação entre nós; Liam se isolava e de vez em quando as notas de seu violino chegavam até meu quarto. Por outro lado, Lisange estava confusa porque não entendia a frieza de Liam e isso começava a mantê-la afastada do recém-chegado, de modo que o único que de verdade se fixava em mim era Christian. Mas ele sempre se mostrava muito preocupado por mim, até um ponto obsessivo. Qualquer que fosse minha mínima queixa, ele se desdobrava para solucioná-la, para me fazer sentir melhor. Mas, na realidade, a única que tinha era não poder estar com ele como um casal normal. O tinha mais próximo do que nunca e, em troca, me sentia tão bem como aqueles primeiros dias na biblioteca. Embora isso não fosse o pior. Para piorar a situação, comecei a me sentir muito cansada, não o tipo de cansaço que se tem quando não dormimos, não; era algo mais mental que físico. Estava aparecendo umas estranhas manchas cinza em minha pele que se entendia por todo meu corpo cada vez mais rápido. Não estava certa, mas pensava que tinha algum tipo de relação com o fato de que não me alimentava desde que visitei Claire naquele hospital. Apesar do que havia dito a Lisange, eu continuava me sentindo culpada pelo que havia acontecido e me

309 negava fortemente a possibilidade de machucar mais alguém. Muito esgotada, inclusive para estar de pé na janela olhando o exterior, já haviam passado três dias desde a última vez que saí de casa e cada vez me encontrava pior. Respirei com dificuldade. Todos haviam se dado por certo que meu crescente aspecto desnutrido se devia a morte de Flávio, e em parte era verdade. Tratava-se dele e de todos os demais, mas, por alguma razão, não me sentia capaz de compartilhar com ninguém o que sentia; nem sequer com Christian. Apesar de tudo isso, tinha muito claro que havia algo mais que eu desconhecia; algo muito sério que se negavam a me contar. Estava ficando paranóica ou havia começado a perder o juízo. Tudo havia mudado desde que Flávio havia ido..., que eu o havia perdido. Uns braços me rodearam pelas costas me pegando de surpresa. Nem sequer o havia ouvido aproximar-se, provavelmente porque meus sentidos estavam como quando cheguei aqui, quer dizer, quase nenhum. — Como entrou aqui? — perguntei sobressaltada. — Eu burlei a segurança da sua porta, Liam parece mais animado e Lisange está com ele. — É uma grande noticia. — disse com menos entusiasmo do que pretendia. — Como está hoje? Afastou meu cabelo e beijou meu ombro. A pele não me ardeu; apenas sentia nada ao meu redor. — Cansada. — respondi com voz fraca. — Mas não tenho forças nem para chegar até a cama. — confessei. Christian separou-se de mim, me pegou entre seus braços, me colocou com delicadeza sobre a colcha e sentou-se ao meu lado. — O que te acontece, Lena? — perguntou acariciando minha bochecha com ternura. — Tem me deixado preocupado. — É só que... — vacilei. — Não tenho dormido bem. Pegou minha mão sobre a sua e a roçou em seus lábios. Continuava tendo

310 cuidado de não me machucar quando tocava minha pele, mas imediatamente ficou imóvel. Olhou-me e esticou meu braço, subindo a manga da camiseta. Virei a cabeça em sua direção, uma grande mancha de cor cinza cobria a maior parte desta área. Além disso, continuou a levantar o tecido até o ombro. — Lena, quando foi a última vez que se alimentou? — sussurrou quase sem voz. Genial, era só o que me faltava... — Não me lembro. — Faça-o. Continuava olhando minhas manchas. Sua voz era grave e todo seu corpo estava tenso. — Acredito que um pouco antes da sua volta. Sabia que na verdade fazia mais tempo, mas não acreditei que fosse boa idéia ser completamente sincera neste caso. Ele se colocou de pé de um pulo e eu aproveitei para voltar a cobrir meu braço. — Tanto tempo? — Não é muito... Tendo em conta o tempo real em que levava sem me alimentar, sua volta não ficava tão distante... — Olha essas manchas, Lena; são muitas. — disse, com o cenho franzido, atônito e preocupado ao mesmo tempo. Dizer algo em minha defesa precisava de força que eu não tinha nesse momento, assim dei a volta na cama, lhe dando as costas. — Boa noite, Christian. Seu assombro foi muito maior. Fechei os olhos e quando voltei a abri-los, alguns segundos depois, ele estava ajoelhado novamente em minha frente. — Porque está fazendo isso, Lena? — sua voz agora, era um sussurro. —

311 Por Flávio? Por medo? Ele franziu o cenho. — Talvez. — Não tem que temer nada, eu a protegerei. — disse voltando a pegar minhas mãos. Suspirei. — Sei que devia estar assustada por tudo que tem acontecido, mas não se trata disso. — afirmei fechando os olhos. — É de mim que tenho medo. Esperei por sua resposta, mas, ao não recebê-la, voltei a abrir os olhos. Ele me olhava, confuso. — O que está acontecendo? Se não me contar, não poderei ajudar. — É que você não pode fazer nada. — Me deixe decidir isso. Seus olhos pareciam suplicantes. Virei na cama para contemplar o teto, sem pestanejar. — Claire Owen está em um hospital psiquiátrico. A menina com quem aprendi a caçar, se lembra? Está muito mal. — minha voz perdeu força. — Não posso suportar a idéia que seja por minha culpa. Christian pegou meu rosto em suas mãos. — Lena, isso é o que te preocupa? Você não tem força nem experiência necessária para levar um humano a loucura. —Foi isso mesmo que Lisange disse, mas Christian, se você visse como ela me olhava. Era como se gritasse que a culpada era eu... — Foi vê-la? — colocou-se de pé e engrossou seu tom de voz. — Tinha que fazê-lo. — Não, isso não tem te ajudado, nem tampouco a ela. — se opôs

312 raivosamente. — Como não? Agora vejo as coisas de outra perspectiva. — afirmei sentando-me na cama. — Da maneira equivocada! Está se machucando sem motivo! Está se castigando por algo que não fez! — Não viu seus olhos! — Terá que confiar em mim. — voltou a sentar-se ao meu lado. E ficou em silêncio. — Não deve visitá-la. Sua presença ali não lhe ajudará. — O que posso fazer, então? A ansiedade era cada vez mais latente em mim. — Sair e se alimentar. — respondeu ele. — Voltará a pensar com clareza. — Sim, mas não quero... Poderia jurar que no foi eu? — perguntei. — Com toda segurança. — me pegou pelos ombros. — Deve fazê-lo. — Amanhã. — concedi enfim suspirando. — Mas vou precisar da sua ajuda. — Não deixarei que se esqueça. — me advertiu. — Eu sei. — grunhi para mim mesma. Então, se inclinou nos pés da cama e se pôs a desamarrar os cadarços do sapato. — O que está fazendo? — perguntei confusa. — Ajudando você. — após os sapatos, seguiram-se as meias e logo a jaqueta. Levantou-me com cuidado para poder levantar os lençóis e me colocou entre eles, me ajeitando com cuidado. O olhei com a sobrancelha levantada. — Melhor? — me perguntou. — Já fez isso antes, certo? — as pálpebras me pesavam cada vez mais. Ele não respondeu. — Fica comigo, por favor...

313 Apoiou as mãos sobre o travesseiro em ambos os lados da minha cabeça, de modo que seu rosto ficou em frente ao meu. — Vai me trazer problemas. — Nada que não possa superar. — balbuciei entre bocejos. Sabia que não diria não. — Somente por esta noite. — Bem. Deitou-se ao meu lado, sobre a colcha, e me abraçou. — Porque nunca te vi dormir? — perguntei. — Depois de ver sua reação com minha pobre jaqueta de couro, me assusta o que poderia ocorrer se me vir com um desses..., pijamas. — Você tem me visto assim várias vezes, sobre tudo desde que vive aqui. — aleguei. — Certo, e em certas ocasiões não sabe o quão difícil que é não rir. Abri a boca, indignada. — Como se atreve? Não tem direito de zombar de mim. — Eu acredito que sim. Esboçou um sorriso. — Bem. — disse me sentando na cama, cambaleei como se tivesse bebido mais do que a conta, e peguei meu travesseiro. — Vou dormir em outro lugar. Tentei me levantar, mas o braço de Christian em volta da minha cintura me impediu, tentei me desvencilhar dele, mas todo o esforço foi inútil. Pegou-me com sua mão livre e tirou a minha com delicadeza, me puxou de modo que caí sobre ele e me abraçou, me apertando contra seu corpo. — Você é linda, Lena, independente do que vista. — Vai me responder?

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Sorriu aspirando ar pacientemente. — Eu não durmo. — Ah..., claro. — É verdade, e não deveria surpreender-se, tampouco é algo frequente em Liam e Lisange. — O que quer dizer? — perguntei confusa. — Que eles não precisam; você sim porque é muito jovem. — E a você acontece o mesmo? — Nós não dormimos, simplesmente, porque não queremos. — Por quê? — insisti. — Tem a ver com o coração. — explicou. — As batidas são muito dolorosas para poder nos proporcionar a paz. Os gritos voltam aos nossos ouvidos quando reina o silêncio. Se nos mantiver despertos é mais fácil para ignorá-los. — Mas isso é horrível! — afastei-me um pouco dele para poder ver melhor o seu rosto. Não respondeu. — Eu te farei companhia. — disse me incorporando um pouco. — Lena, você sim precisa. — Já estou sem sono. — menti fazendo um esforço sobre-humano para me manter firme. — Continua sem saber mentir. O olhei sem pestanejar, em uma tentativa de infundir força em minhas palavras, mas me puxou pela cintura e me recolocou sobre ele, com a cabeça recostada sobre seu peito, e me prendeu em seus braços. Deu-me um beijo na testa e começou a acariciar meus cabelos os olhos se fecharam, rendidos. Escutei o ritmo compassado de seu coração; as pálpebras pesavam cada vez mais e mais. — Não é justo. — disse em um balbucio quase incoerente com as poucas forças que me restavam. — Você me fez uma armadilha.

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— Isso é o que acontece quando aposta contra o mal. — Te odeio. — Por fim disse algo sensato. — riu entre dentes e me beijou o topo da cabeça. — Dorme.

***

No dia seguinte, me alimentei obrigada por Christian, mas desde então não havia um dia que não lesse três vezes o jornal em busca de algum indicio que provasse que eu havia passado a linha. Por sorte, a ameaça dos Guardiões só era real pelas noites, embora Christian me lembrasse com insistência o fato que nosso encontro na montanha se produzira pela manhã, de modo que me fizeram prometer que, se saísse sozinha, o faria somente em lugares movimentados e, desde logo, nunca ao pôr-do-sol. Também havia me imposto um toque de recolher que ficava bastante restrito. No entanto, esta manhã não tinha ninguém em casa que pudesse me acompanhar: Christian havia ido realizar os exames do curso, Liam ainda não tinha voltado da compra do jornal e Lisange havia voltado a sua adorada biblioteca. Mas não pensava em ficar esperando; poderia estudar, mas nessa hora não me agradava nada de nada, assim que saí à rua sem rumo certo. Estava nublado, algo que agradeci, e continuava fazendo calor, mas ao menos era suportável. Deixei que meus passos me guiassem; a que lugar não me importava. Precisava refletir sobre tudo o que havia me ocorrido nos últimos dias, mas não espera era acabar sem perceber, em frente as portas negras que fechavam a entrada de um cemitério. As pessoas geralmente têm medo deles. Tem muito poucas pessoas que de verdade se sente bem em um. Quase todos os demais imaginam um terreno cinza e seco, com lápides velhas e estropiadas entre silvas, árvores consumidas e certamente uma igreja abandonada ao fundo. Não é de estranhar, tendo em conta que o maior temor do ser humano é a morte e o que os cemitérios, com suas cruzes e neblinas, são um símbolo indiscutível dela. Era incrível que depois de terem me contado o que havia me acontecido, não tenha estado em nenhum. A verdade é que nunca havia pensado se, em alguma parte do mundo, haveria uma lápide com seu nome escrita nela.

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Haveria alguém colocando flores frescas ou falando com uma tumba vazia? Teria por acaso uma família que ainda se recordava de mim? O caso é que aquele lugar não era sinistro, nem tenebroso. Era uma agradável colina coberta com gramados bem cuidados, com árvores e plantas. Inclusive havia pequenos bancos e caminhos para passear por ali. Chamou minha atenção um pequeno grupo de pessoas vestidos de preto não muito longe de onde estava. Aproximei-me até ficar a uns dez metros deles. Era um enterro, e sem muitas pessoas. Não deviam chegar a dez pessoas, incluindo o padre. — Não é grande coisa. — disse uma voz em minhas costas. — Tenho visto alguns muito mais emotivos. Virei-me e reconheci de imediato a mulher que havia falado. Estava apoiada contra o tronco de uma árvore, olhando exatamente na mesma direção que eu. — Alegro-me em voltar a vê-la, Lena. — Olá, Elora. O sentimento não era mútuo; além do mais, duvidava que suas palavras fossem sinceras. — Veio para o evento? — perguntou com um sorriso, apontando para o circulo de pessoas. Encolhi os ombros, pouco depois uma variedade de lágrimas chegava aos meus ouvidos. — A verdade é que não sei por que estou aqui. Riu entre dentes de forma macabra. — É muito mais cruel do que imaginava, Lena. Eu pensava que tinha vindo porque estava arrependida... — Arrependida? — repeti sem entender. — Do que? — Não finja surpresa, querida, levo anos nisto.

317 — Não entendo... Bufou; pegou-me pelo braço e me conduziu próxima ao grupo de pessoas. Não senti ardência ao seu toque. — Não me diga que não a reconhece. — sussurrou ao meu ouvido com um leve sorriso, assinalando ao grande marco de fotos que havia no centro. Minha respiração parou de súbito e minha garganta secou nesse mesmo instante. — Claire..., o que aconteceu? — perguntei horrorizada. — Me diz você. — Não fui eu. — me defendi virando a cabeça para ela, e a olhei diretamente nos olhos. Retornei até as árvores, não me sentia com forças para enfrentar aquilo. Elora apareceu justamente atrás de mim. — Não disse que foi você, Lena De Cote, embora as evidências... — Não fui eu. — repeti virando para encará-la. — Acredito em você, pequena megera. — disse rindo. Voltei a olhar o grupo. — Os conhecia? — Claro que não, eu escolho melhor as minhas presas. — voltou a apoiar-se contra a árvore cruzando os braços. — Embora sim, eu acredito que é obra de um Grande Predador. Um com muito mau gosto, certamente. Claro que, quem poderia ter interesse que essa garota deixasse de ser um estorvo? — Foi muito menos ele. — repliquei, sentindo um horrível vazio no estômago. — Eu não disse nada. — defendeu-se colocando uma cara de fingida inocência. — Mas pense nas possibilidades... Nenhum Grande Predador em seu juízo perfeito utilizaria um lixo como esse. Quem fez isso, certamente não era para alimentar-se.

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Olhei-a, percebendo no ato suas intenções. — Tenta fazer com que duvide de Christian. — Porque iria eu querer algo assim? Aprecio o meu meio-irmão, e somente quero sua felicidade. — revirei os olhos. — Ou o que seja que ele queira. — Não pode ter sido Christian... — sussurrei para mim mesma. — Certamente. — disse ela. — Permita-me felicitá-la por sua ação com aquele gatuno, não tive a ocasião de fazê-lo na festa. Abaixei a cabeça, envergonhada. — Foi um acidente, não queria lhe fazer mal. Bufou novamente. — Oh, vamos, Lena não lamente por algo assim, se ele o merecia. Fez uma pausa me olhando de cima abaixo. — Teve muita sorte, você sozinha naquele beco..., vai saber que outro tipo de criatura poderia ter sido...! — Não contei ao Christian, como sabe de tudo isso? Sorriu com satisfação ao ver meu olhar desconfiado. — Posso ver todo o passado, não há uma só lembrança sua ou de qualquer outro ser que não possa ver. — senti-me constrangida, invadida. Ela riu. — Calma, há certos momentos que não desejo ver. Embora seja incrível a forma que guarda os seus encontros com meu querido Grande Predador. Enfim, sempre é um prazer falar com você, Lena De Cote, mas tenho que me alimentar. — inclinou a cabeça suavemente e acrescentou: — Até logo. — Elora! — a chamei quando se afastava. — Se não a conhecia, por que estava aqui? Virou, com um sorriso torto, mais próprio de Christian. — Porque sabia que você viria. Levou os dedos aos lábios, me jogou um beijo e sorriu antes de desaparecer

319 entre as árvores. Voltei para meu quarto como um furacão. Estava frenética; ela somente tentou me jogar contra ele. Mas suas palavras não serviram de nada, eu estava completamente certa de que Christian nunca haveria feito algo assim, embora fosse um Grande Predador, e às vezes saísse seus instintos mais selvagens, e ainda sabendo o mal que me sentia a respeito do bem estar de Claire. Estremeci ao pensar no pouco que havia custado acabar com essa pobre garota. Mas o que eu estava fazendo? Duvidava dele! Não, não; ele nunca, nunca, nunca faria algo assim. Abri o jornal justo na página, ali estava a terrível notícia. Joguei-me sobre a cama, relendo uma e outra vez esse artigo; inclusive quando já o tinha gravado na memória, continuei repassando e recordando as palavras de Elora. Pobre garota, que má sorte teve em cruzar meu caminho essa manhã. Com esse pensamento rodando em minha cabeça, caí em sono profundo... Encontrava-me na metade de um campo muito seco, andando por um caminho estreito. Não sabia por que me encontrava ali, somente que lhe buscava desesperadamente. Estava sozinha, tremendamente sozinha, e me sentia pequena e impotente, com medo. Ouvia suas batidas, mas não podia vê-lo. Segui o som, atravessando arbustos e moitas, entrando em suas espessuras. As pulsações cada vez mais fracas, mais apagadas. Deixei de escutá-las, o perdi para sempre. Gritei seu nome, procurando-o. Olhei minhas mãos, delas brotavam vários rastros de sangue. Um segundo depois, o mato não existia mais e voltei a estar em uma estrada árida. Corri em sua direção, sem avançar nem um só centímetro. Eu corria, mas ele nem se dava conta de que eu estava ali e se afastava cada vez mais, sem mover-se. Então caí, e na hora estava em frente a ele. Mas retrocedi um passo, era diferente, era um Christian completamente diferente. Tinha o olhar vermelho e as pupilas dilatadas, como as de uma serpente. Gritei, mas nenhum som saiu da minha garganta, nem um gemido. Sua camisa branca estava ensanguentada até a altura do peito, e então percebi. Não olhava o chão, e sim um coração que batia entre seus dedos, cada vez mais cansado, cada vez mais morto. Ele me olhou com esses olhos que eu não conhecia e me falou: "Eu só desejo fazê-la feliz, Lena." Rodeou meu pescoço com uma mão e apertou com força. O ar deixou de chegar aos meus pulmões. Tentei me desvencilhar de sua garra, mas qualquer esforço foi inútil. Uma espessa neblina começou a me rodear. Tudo começou a ficar embaçado. Voltou a falar, mas seus lábios não eram como sempre, estavam manchados de sangue. Horrorizei-me ao ver que se curvavam para formular suas últimas palavras: "Mas as Bestas não amam." Olhou-me com esses olhos que tanto amava e, em seguida, senti choque por todo meu corpo. Abri os olhos e inalei ar desesperadamente. Observei ao meu redor, desorientada em um primeiro momento, estava sentada no centro da cama e

320 rodeava meu pescoço com ambas as mãos. Pouco a pouco, respirei e respirei. Tinha a boca enjoativa e sentia um forte nó na garganta. Tentei me acalmar. Só havia sido um sonho estúpido. Minha respiração voltou ao normal. Cobri meus braços com a manta e fiquei ali, contemplando o nada. Não pude voltar a dormir a noite toda. As palavras de Elora haviam me perturbado; estava certa de que por isso havia tido aquele pesadelo. No dia seguinte, Liam, com a ajuda de Christian, tampou com madeira todas as janelas e qualquer acesso aos quartos que ocupávamos. Sua intenção era aparentar que havíamos abandonado a casa neste estado e, segundo ele, não devíamos dar mostras de que continuávamos nela, por isto nos vimos obrigados a ter que passar a noite com velas. A única coisa que tinha de bom nisso tudo era que Christian não se separava de mim; dava-me ainda mais atenção do que já havia mostrado antes e tentava dissipar qualquer temor da minha mente. — Estude. — sussurrou enquanto colocava um pequeno candelabro a minha direita. — Faltam somente dois dias para os exames. — Acredito que poderia recitá-los de trás para frente. — disse aborrecida, enquanto fechava um grande volume de história universal. — Como é possível que lembre o que estudei ao longo de toda uma vida e não o que sou? — Tenha paciência, Lena, lembrará. Coloquei os olhos em branco. — Sim..., claro. — Sim, mas por agora deve estudar. Aproximou-se de mim e voltou a abrir o livro. — A história é divertida. — defendeu folheando as páginas. — Para você que viu em primeira mão. — aleguei, me colocando de pé. — Ficaria surpresa em saber, a quantidade de pessoas como nós que povoam estas páginas. — É sério? Como quem? — quis saber, virando-me para ele. — De faraós até políticos e pintores famosos. — capturou totalmente minha atenção, sentia grande admiração pela civilização egípcia. — A grande maioria dos

321 famosos saqueadores de tumbas é um mito. Assim como a destruição das múmias; muitas delas nunca foram encontradas. — Ao que se refere? — Alguns eram verdadeiros, mas em mais de uma ocasião eles fingiam. Diziam que haviam roubado ou destruído o corpo de algum membro da família real para justificar o desaparecimento do corpo ao converterem-se no que somos. Na realidade não foram muitas as autênticas profanações. — Isso significa que poderia cruzar com um grande faraó sem sabê-lo? — franzi o cenho. — Seria complicado, tem passado milhares de anos. O normal é que os mais velhos se reúnam em colônias ou congregações; não podem misturar-se com as pessoas, porque chegaram ao ponto em que não podem suportar as mudanças da humanidade. Quanto mais tempo passa, mais difícil resulta assimilar e adaptar-se. Embora naquela época não houvesse nenhum tipo de controle sobre as transformações, a maioria dos faraós já estavam mortos, se é isso o que te interessa. Deixei-me cair na cama, continuava cansada, mas agora era algo físico. Precisava dormir de verdade. Christian fechou meu livro, o colocou na escrivaninha próxima a janela e se sentou ao meu lado. — Não acredito que está preparada para fazer essas provas. — É uma das poucas ocasiões em que concordamos com algo. — ri. — Pergunto-me porque vai fazê-la se não te interessa. Inalei um grande bocado de ar. — Não é isso, Christian, é simplesmente que há um milhão de coisas acima de uns exames neste momento; mas Flávio queria que os fizesse, e também Lisange. Soa estúpido, mas acredito que é a única coisa que posso oferecer. Baixei o olhar. — Não é estúpido, pode ser que seja aprovada... — O que você sabe? — sorri.

322 Aproximou-se e me deu um beijo na testa. O ardor não foi tão intenso apesar de ter me alimentado recentemente; nem deveria ser porque ele não se deteve ali, foi descendo pelo meu pescoço, mas então quando sua mão roçou minha garganta, todos os meus músculos se contraíram. Desta vez não teve nada a ver com quão nervosa que eu ficava com sua proximidade, nem com o ardor que produzia sua pele, e sim com a recordação do pesadelo, que ainda não havia abandonado minha mente. E então, pela primeira vez, desejei que se ficasse o mais distante de mim. Christian parou, alertado pela tensão do meu corpo, e olhou em meus olhos, buscando em meu interior de forma desconcertante, e então seus olhos se estreitaram; seu cenho franzido e, uma ponta de decepção cruzou seu rosto. Lentamente, afastou sua mão de mim. — Você está com medo de mim. — sussurrou. Sentei-me de novo na cama. Queria dizer-lhe que não, mas as palavras ficaram entaladas; não fui capaz nem sequer de olhá-lo. Não demorou nem meio minuto em interpretar meu silêncio. Balbuciei algo ininteligível, mas nem eu mesma sabia o que queria dizer. Ele saiu da cama. — Têm acontecido muitas coisas. — aleguei como uma pobre desculpa. — De qual acontecimento em concreto estamos falando? Não podia suportar como me encarava, de forma sombria. Levantei e me apoiei na janela. — Tive um sonho. — confessei ao final. — Que tipo de sonho? — Certamente, somente complicaria as coisas, ainda devo buscar um significado. — disse inclinando a cabeça. — Tem algo a ver com Claire Owen? Arregalei os olhos, como ele sabia? — Porque disse isso? — Pelo recorte de jornal junta a sua cama. — apontou a folha dobrada, caída entre a cama e a mesinha de cabeceira. Havia sido um descuido deixá-lo ali. — Por acaso acredita que fui eu? — perguntou de forma calma, mas uma pausa em sua voz me alertou. — Não sei..., é bastante possível.

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— Assim, pensa que eu faria algo a ela depois de lhe assegurar que nada de mal lhe aconteceria.... — Então você nega. — insisti. — Me prometa que não teve nada a ver com isso. — Isso não servirá Lena, e você sabe, sua desconfiança vem de um lugar mais profundo, nada impedirá de acreditar que voltei a mentir. — E faria errado? Por um momento, não pronunciou nenhuma palavra. Limitou-se a olhar-me fixamente nos olhos, sem mostrar nem um leve titubear. — Não. — sentenciou ao final, muito sério. — Todas as suas dúvidas são certas. Sou um Grande Predador, um animal. Não te amo, nem sinto nada por você, nada mais que desprezo, porque não sou capaz de sentir nenhuma outra coisa. Finjo que não é assim porque faz parte de outro dos meus jogos. De fato, retorno cada dia a minha casa para contar ao resto dos meus o quão fácil foi que os De Cote me abrissem a porta. O quão fácil foi acabar com a patética vida de Claire Owen para quem você se mostrava ainda mais vulnerável e assim continuar te torturando pouco a pouco, porque isso é o que faço. Disse-lhe desde o inicio, embora se negue em acreditar, mas isso também é parte do jogo. Eu cheguei no momento adequado, quando mais frágil você estava, e se apoiou em mim. Ensineilhe a ser algo que te aborrece fazendo acreditar que não tinha nenhum mal nisso. Vi nosso pacto como uma nova diversão que não havia jogado antes. Ganhei sua confiança, te abandonei sabendo que não cumpriria com minha parte do acordo porque confiava nisto, em estar neste mesmo lugar, neste mesmo momento, em uma casa de Caçadores, na casa dos De Cote! Somente uma porta insignificante me separava de baixar e abandonar a satisfatória diversão se assim o desejasse. E talvez eu o faça neste mesmo momento. — Porque me diz isso? — perguntei com a voz trêmula. Todos os meus temores haviam sido confirmados, e com frieza! Senti como a parte que ainda confiava nele se esvaziava lentamente até desaparecer. — Porque é exatamente o que deseja escutar; é o que tem ansiado desde que parti. — E tinha razão. — Talvez. A verdade Lena, é que nada me impede de fazê-lo, exceto você e o

324 fato de que ainda me resta humanidade e esse castigo tem provocado que irremediavelmente me sinta obrigado a evitar que você sofra, a me humilhar de forma contínua na sua frente, ver-me obrigado a depender do seu bem estar. Pode acreditar em todo o resto se quiser; nada a impede. Mas tudo o que te disse naquela noite era verdade. Se você vai confiar em alguma coisa, então acredite quando te digo que seria mil vezes menos doloroso arrancar-me o coração aqui mesmo do que permanecer ao seu lado um só minuto a mais e, ainda assim, mil vezes mais insuportável é a idéia de não senti-la. — soltei o ar que estava segurando nos pulmões. — Eu não machuquei essa garota, Lena. Avancei dois passos para ele e me abracei ao seu peito. Pela primeira vez em muito tempo, me senti tranquila. — Obrigada.

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ESTUDAR DEMAIS PODE ALTERAR GRAVEMENTE A IMAGINAÇÃO.

O dia antes de começar os testes, o nervosismo cresceu entre todos nós. Imaginava que Lisange estaria frenética, que durante umas horas esqueceria todos os problemas que nos rodeavam, dominada pela emoção do dia que tanto tinha esperado, mas não foi assim. Esperava poder alegrar-me de vê-la feliz, de contemplar um pequeno reflexo do que ela era antes do que aconteceu a Flávio, mas se manteve fria. Tinha preparado a consciência para essas provas com um entusiasmo surpreendente e, ao contrário, agora parecia como se fosse um simples processo, algo que se via obrigada a fazer para ir adiante, e isso me doeu. Meu entusiasmo pelas provas era pouco, mas tinha sido assim desde o começo, era algo que considerava necessário; não sabia a que deveríamos enfrentar se de verdade nós nos mudaríamos de cidade e era a única coisa pelo qual tinha estado “lutando” desde quando despertei, sem contar minha relação com Christian. Também Lisange tinha tido muito haver; tê-la escutado tantas vezes falar desses testes que já fazia com que o sentisse como uma obrigação e agora precisava pensar tinha feito algo bem. Também, era a única coisa que podia oferecer a Flávio em honra as "aulas" que tinha me dado. Ao parecer, as provas seriam na universidade devido a um fechamento temporário do colégio por uma indesejável praga. Lisange insistiu em estar ali na primeira hora, mas, por desgraça, um ônibus quebrou no meio da avenida principal e chegamos dez minutos depois da abertura. Isso era uma fatalidade para ela, observá-la se contorcendo em seu assento a espera que lhe entregassem seu primeiro teste fez me sentir bem, no fundo eu sabia que estava desejando esse momento. Apesar de haver um curso de diferença entre ambas, compartilhamos a sala de teste. Éramos bem poucas dos que se apresentavam dessa maneira, assim que, utilizar uma sala por ano acadêmico parecia uma tolice. Implorei com todas as minhas forças para que em literatura não perguntassem sobre Shakespeare, portanto respirei aliviada quando vi que se tratava de Kafka. Cálculo foi horrível, um desastre de magnitudes astronômicas. Já começava a escutar Christian em minha cabeça dizendo-me o ruim que era por não ter me esforçado mais. Mas, para ser sincera, nas circunstâncias em que me encontrava,

327 minha nova situação no mundo e o pouco tempo que tinha tido para estudar, o que esperava? Meu ultimo teste do terceiro dia era o único que não compartilhei com Lisange: História. Ela dizia que não podia enfrentar esse assunto porque era incapaz de contar as coisas tal e como as colocaram nos livros; e o fato de tê-la vivido em primeira pessoa fazia que sua forma de contá-la fosse bastante distinta, então tinha preferido um teste de Filosofia, que começava uma hora mais tarde que o meu. Concentrar-se em uma folha de papel quando se tem tantos sons ao redor é uma façanha digna de uma medalha, mas eu o estava fazendo muito bem, ou pelo menos até o momento. Pouco depois de começar esse ultimo teste, captei uns pequenos golpes contra o que parecia uma tubulação de metal. Agucei o ouvido; eram toques lentos e uniformes que pareciam... Sinos. Ergui os olhos e olhei ao meu redor; parecia que ninguém mais o tinha ouvido. Sacudi a cabeça e tentei voltar a concentrar-me na página que tinha em frente a mim. A guerra da independência de 1898. Tentei me lembrar. "A guerra de 1898 levantou-se entre Espanha e EE. UU. — comecei a escrever. — Durante o reinado de..." Fiquei nervosa, o barulho tinha voltado. — Algum problema senhorita... — olhou uma lista. — De Cote? Noventa por cento das pessoas que tinha na sala virou para me olhar, os outros dez por cento aproveitaram para dar uma olhada nas suas respostas. — Nenhum. — apurei minha garganta e voltei a escrever. Por sorte, pude terminar o teste sem que esse som voltasse a me interromper. Entreguei meu exercício e saí da sala. Olhei para o relógio, Lisange ainda estava na metade do seu e só tinha que esperá-la pouco menos de uma hora. Tinha tempo para dar uma volta e voltar justo quando ela saísse; também podia ligar para Christian, a hora passaria voando se falasse com ele. Tirei a mochila para pegar o celular, mas todo meu corpo ficou tenso. Ali estavam de novo os sinos. Estremeci-me. Não havia ninguém próximo que também pudesse tê-lo ouvido; tudo estava muito silencioso e deserto. De onde vinha aquele ruído? Busquei ao meu redor e meu olhar se deteve no telhado; sem dúvida procedia de algum piso superior. Mordi meu lábio pensando apressadamente. Voltei a colocar minha mochila no ombro e me dirigi escadas acima em busca de sua origem. Eram tão sutis que o ser

328 humano não era capaz de ouvi-las, mas não podia esperar até Lisange sair de seu teste. Sentia muita curiosidade. Subi até o piso mais alto e passei por todo ele, mas ali não havia nada. Resignada, ia descer quando encontrei algumas escadas que levavam a um piso mais alto; era incrível que eu não tivesse percebido. Talvez fosse por que ficavam ocultos entre as sombras do corredor. Hesitei e lancei um olhar para cima através da grade, ali tinha luz. Isso me ajudou a decidir. Subi. O local estava em desuso, deserto, e em alguns lugares faltavam azulejos, e as paredes do corredor principal que conduzia as salas de aulas laterais estavam descobertas em algumas partes. As luzes piscavam. Escutei meus passos sobre os azulejos quebrados. O som dos sinos vacilou e apagou, mas eu ainda podia ouvir os sutis restos das vibrações no ambiente. Vinha da porta mais distante, a única que estava em frente e não em ambos os lados do corredor. Aproximei-me dela, com cautela e sem respirar. Estava fechada. Coloquei uma mão na maçaneta, mas parei um instante para pensar no que ia fazer. Senti um pequeno tremor em todo meu braço, mas me obriguei a ignorá-lo. Tomei ar e abri. Dentro estava escuro, inclusive, demais para mim. De novo, mais silêncio. Tateei a parede junto à entrada, buscando um interruptor. O encontrei, mas não funcionava. A luz do corredor iluminava o interior de forma desigual devido à tremulação. Minha respiração era irregular, segurei o ar para que o ambiente deixasse de ser tão sombrio, mas levei uma mão à boca caindo de repente em algo: eu tinha deixado de fazê-lo antes de entrar na sala, mas a falta de ar continuava. Alertei-me. Ali havia mais alguém, observando. Uma sombra passou veloz por minhas costas. Dei meia volta, sobressaltada. — Tem alguém ai? — sussurrei para o escuro. O sopro cessou, mas os golpes voltaram a fazer barulho. Estava certa, vinha desse lugar, mas já não me parecia uma boa idéia ter subido para averiguar o que era. Então, percebi algo que não tinha ouvido antes: o bater de um coração. Era muito fraco e se movia de forma irregular; não era humano, isso eu tinha certeza Como não o tinha ouvido antes? Eu retrocedia até a saída, quando ouvi outro; eram dois já. Sai para o corredor disposta a voltar; não tinha dúvida que tivesse sido um erro. Os sinos aumentaram; parecia que formavam uma melodia fúnebre. Afasteime dessa porta e voltei a respirar para tentar me acalmar, mas não serviu de nada. Nesse momento, percebi um odor, forte e desagradável, e o medo se apoderou de

329 meu corpo; todos meus músculos se contraíram angustiados. De repente, senti outra sombra atrás. Virei-me, ainda mais assustada, e então tudo sumiu de novo no silêncio. Desta vez sim, podia ouvir minha própria respiração. As luzes piscaram de forma mais freqüente até que finalmente se apagaram. Olhei ao meu redor, buscando com os olhos alguma figura, ou melhor, temendo encontrá-la. De novo, voltou às respirações e o primeiro coração, logo, o segundo e, para meu horror, um terceiro. Eram três e me rodeavam. Os notava cada vez mais e mais perto; sua respiração me provocou um aterrorizante calafrio que percorreu todo meu corpo e, de repente, todas as lâmpadas do corredor explodiram. Gritei de forma inconsciente e sai dali correndo enquanto os fragmentos caiam por cima de mim. Não me atrevi a olhar para trás; segui pelo longo corredor até chegar à segurança das escadas. Desci muito depressa. Tinha sido estúpida em subir ali sozinha. O que eu estava pensando? Uma heroína? Por favor! Quando cheguei ao segundo andar, parei. Já não se ouvia nada, nada de nada. Olhei-me nos ombros, mas não tinha restos de vidro, nem pedaços que pudessem ter caído do teto. Levantei os olhos para cima; tudo estava em silêncio. Tive que pensar muito seriamente no que fazer em seguida; tomei coragem, algo muito pouco próprio em mim, e voltei a subir. Aparentemente, sou bastante tonta para não aprender com meus erros. Mas parei um instante antes de dobrar a esquina que levava ao longo corredor pelo qual eu acabava de escapar correndo de três criaturas que desconhecia. Tomei ar e, pouco a pouco, levantei a cabeça. Meus olhos se abriram como pratos, tudo estava em ordem; inclusive as luzes permaneciam acesas e sem tremulação alguma. Não era possível, de onde eu tinha fugido, então? Apoiei-me contra a parede, por acaso estava ficando louca?

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Na boca do lobo.

Algo roçava minha bochecha. Abri lentamente os olhos, acostumando-me com a luz brandamente. O primeiro que encontrei foi a Christian que me olhava sereno enquanto me acariciava. Sem me dar conta, meus lábios se curvaram em um sorriso, era agradável ver aquele rosto tão perfeito, nada mais ao despertar, embora não se tratava somente disso: tudo havia mudado para mim desde nossa última grande conversa, ouvir de sua boca todos meus medos havia tido o mesmo efeito de um grande balde de água fria. Quando os enumerou, um por um, o temor se apoderou uma vez mais de mim, mas agora pareciam quase absurdos. Não sei, é estranho como algo pode parecer tão vital, tão preocupante, e no dia seguinte considerá-lo uma tolice. Eu me livrar dessas dúvidas, o fato de que falamos abertamente, havia significado uma grande mudança, agora estava certa que não cometia nenhum erro ao confiar nele e isso era algo que necessitava de verdade. Desde que voltou, ou inclusive antes, havia estado ao seu lado o tempo todo, mas com receio. Como se diz a alguém a quem quer acima de você mesma que não pode confiar nele, que tem medo de que te machuque, de que seja um monstro e você somente mais um de seus retorcidos jogos? Não, não era nada fácil. Mas agora me alegrava de que essa insegurança foi esfumaçada, agora unicamente ficava o melhor, esse sentimento que por alguma estranha coincidência ele também compartilhava: Amor. Enquanto tentava esconde-lo, eu sabia que ainda existia algo mais que ele mantinha um pouco afastado, não no sentido físico, e sim no emocional. Supõe-se que, quando quer a alguém, sente uma confiança e uma transparência quase plena, mas, por alguma razão que eu desconhecia, Christian negava-se terminantemente a derrubar esse muro que desde o seu regresso havia começado a construir entre nós. E agora não me sobrava a menor dúvida de que se tratava somente de uma demonstração de seu desejo de proteger a si mesmo. — Está linda recém-acordada. Evitei seus olhos, envergonhada, e quando me virei senti um novo perfume. Procurei curiosa de onde vinha aquele aroma, mas não me custou muito encontrálo. Sua mão sustentava com delicadeza um lírio branco com o qual passava por minha pele. — Pelo que vejo conseguiu invadir outra vez. — comentei.

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— Cada vez fica melhor. — disse rindo entre dentes. Acariciei com cuidado uma das delicadas pétalas, tinha uma textura fresca e aveludada. — Alegro-me que tenha vindo me despertar. — observei a flor e logo ele. — É linda. — Não tanto quanto você. Rodeei seu pescoço e o aproximei de mim, fazendo que seu corpo caísse sobre o meu, mas ele estendeu os braços para assegurar-se de que não tivesse que suportar nem um grama do seu peso. Nós nos olhamos, um ao outro durante uns segundo, sem pestanejar. — Gosto da sua forma de me dizer "bom dia". — murmurou ampliando meu sorriso. Dirigiu sua atenção a camiseta do meu pijama, que havia subido um pouco deixando descoberto meu ventre, arqueou uma sobrancelha de forma sedutora, e um sorriso brincalhão. — Mmmm.... Então ele me beijou lentamente por cima do meu umbigo, fazendo-me estremecer. — Não deveria fazer isso. — avisei respirando com dificuldade. — Por quê? A sensação de sua respiração em minha pele provocou uma descarga que percorreu todo meu corpo. — Tem áreas que não estão acostumadas a você. — disse toda inocente, referindo-me a queimação. — Estou te machucando? — perguntou preocupado. — Não, não sei. — reconheci. — Acredito que é..., agradável, por mais surpreendente que pareça.

333 — Bem. Dedicou-me um de seus sorrisos mais atrativos e me beijou no pescoço. — Se continuar a fazer o que está fazendo asseguro-te que não me responsabilizo pelos meus atos. As batidas do seu coração se aceleraram. — Vamos ver. Foi para meu ombro e começou a trilhar com os lábios a trajetória que fez com o lírio. Logo estalou o ar lentamente e descendo de novo para olhar-me nos olhos. Passou uma mão por minha cintura, acariciando enquanto aumentava com suavidade, minha respiração estava fora de controle. Mas, de repente parou, alguém batia na porta. Ambos giramos a cabeça em sua direção e a silhueta de Lisange apareceu iluminada pela luz que do corredor do outro lado do quarto. Fiquei tensa pela vergonha e me enfiei nas cobertas, intimidada pelo modo que havia nos encontrado, a Christian e a mim. Em troca, ele não parecia intimidado ante o rosto severo de Lisange. — O que faz aqui, Christian? Oh, não... — Vim despertar Lena, como você imaginou. — Não acredito que Liam aprove que tenha vindo aqui para fazer..., isso. — ficou em silêncio durante um instante para dar mais dramaticidade a situação. — É tarde, será melhor que saía já daqui. — Nos dê cinco minutos, por favor. — ele pediu educadamente. — Claro. — adicionou com voz azeda antes de fechar a porta. — Na minha casa, não acontece essas coisas. — soltou Christian dando a volta e saindo da cama. — Juro que um dia desses, eu a tranco em um armário. — bufei; estava muito irritada com ela. — Não creio que serviria para nada. — afirmou ele.

334 — Tanto faz; eu me sentiria melhor. Levantei-me e o abracei pelas costas, mas ele estava focado em algo, se notava. — Você faz que meu controle se quebre. — sorriu. — Não me parece tão mal. Negou com a cabeça e se desvencilhou com cuidado dos meus braços. — Lisange tem razão; vim aqui por outro motivo. — Desde quando obedece aos Caçadores? — resmunguei. Joguei-me na cama, cobrindo a cabeça com o travesseiro, mas ele se aproximou e me tirou da cara. — Tenho que ir, mas volto rápido. — prometeu ignorando minha pergunta. — De jeito nenhum. — peguei-o de novo, fazendo-o cair sobre a cama. — Hoje é somente meu. Apoiei-me em seu peito, aprisionando-o contra o colchão. — Somente por algumas horas. — Aonde vai? — eu quis saber. — Até minha casa, tenho que recolher minhas coisas. Liam já me emprestou suas roupas por muito tempo. — Me leva com você. — pedi. — Não. É perigoso. — alegou. — Já fui lá antes. — assinalei, afastando-me um pouco dele. — E teve muita sorte de sair mais ou menos ilesa. Não tem consciência do que poderia ter acontecido. — Mas já os conheci na festa. — lhe lembrei. — Além do mais, iria com você, não acontecerá nada.

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Suspirou. — O que tem de interessante em uma casa cheia de Grandes Predadores? A verdade é que não esperava encontrar nada de especial ali, o que não queria era me separar dele. — Gostaria de ver onde vive. — menti encolhendo os ombros. — Por favor... Ele colocou os olhos em branco e, olhou seu relógio. — Somente se você se arrumar em menos de cinco minutos. Espero que todos tenham saído para se alimentar. Sorri com triunfo. — Feito. — Vou te esperar lá embaixo. — disse se levantando da cama e se dirigindo para a porta. Queria agarrar-me a ele, mas, por desgraça, devia me apressar então me conformei com um jeans desgastado, uma camiseta apertada e uma sapatilha simples branca. Como toque final, deixei meu cabelo cair livremente pelas costas. Dei uma olhada no espelho, levando em conta o tempo apertado que tive, não estava tão mal. Quando desci, vi que os olhos de Christian, me percorriam com atenção especial no conjunto; parecia que no mínimo, havia acertado ao me vestir. — É algum tipo de vingança? — sussurrou pouco depois em meu ouvido, referindo-se ao meu aspecto. — Você é o único que joga sujo. — respondi. Negou com a cabeça, fingindo preocupação. — Não está fazendo isso nada fácil. — assegurou. — Ninguém disse que seria. — lhe dei um sorriso. — Eu e você teremos uma pequena conversa mais tarde. — seu tom era divertido, mas com certeza, com travessuras a vir. Neste momento Caim apareceu

336 no alto das escadas e saltou aos nossos pés, rosnou e saiu correndo para a sala. — Até o gato está ficando louco. — comentou Christian com todo sarcasmo seguindo-o com os olhos. — Fazia dias que não o via. — reconheci. — Pobrezinho, deve se sentir muito só sem Golias. — Lena, é um gato, irá superar. — bufou ele. Cruzei os braços. — Porque é tão insensível? — É um talento natural. Liam apareceu de repente na sala, andava como se fosse uma sombra, escura e moribunda. Não era difícil reconhecer que não havia voltado a ser ele mesmo desde a morte de Flávio. Desejava poder fazer algo para acabar com seu sofrimento, mas sua relação comigo havia esfriado devido a constante presença de Christian na casa. Havia me assegurado que não teria que escolher, mas eu tinha a impressão de que haviam me obrigado a fazê-lo, e odiava essa sensação. — Christian. — parei-o quando estávamos saindo. — Importa-se de me esperar lá fora um momento? Não lhe custou nem um segundo para adivinhar o motivo pelo qual queria atrasar-me um pouco, assim, assentiu e desapareceu pela porta. — Liam. — chamei. — Podemos conversar? Virou-se para mim lentamente. — O que aconteceu, Lena? — perguntou com calma. — Como você está? — a verdade é que não sabia como começar. — Tive dias melhores. — respondeu. — Liam... — Não deve se preocupar comigo, Lena. — me interrompeu. — Tudo está bem.

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Não era verdade, poderia não conhecê-lo como Lisange, mas percebia que ele não estava melhorando. — A morte forma parte de nós. — alegou. — É algo que devemos aceitar. Flávio morreu, não há nada que possamos fazer para mudar isso, e lamentar tampouco vai nos ajudar a seguir com esta vida. Além do mais, a situação em que nos encontramos é delicada, agora há outras coisas em que pensar. — Que te ajudar. — insisti. — E como vai fazer isso, Lena. — perguntou com a voz fraca. — Não há forma de mudar o que aconteceu. Fiquei em silêncio. Ele respirou com pesar. — Christian está te esperando. — me lembrou. — Não faça um Grande Predador se impacientar, seria uma imprudência. Franzi o cenho. — Ainda não entendo porque tem permitido que ele fique. Voltou seu olhar para a parede, certo de que era o lugar em que Christian estava nesse instante. — Por alguma razão, ele somente pensa em nos proteger, e isso é, de fato, o que necessitamos nesse momento. Já teve muitas mortes nesta família..., mas. — continuou. — Que viva aqui agora conosco, não quer dizer que minha opinião sobre ele tenha mudado. É um Grande Predador, um assassino, Lena. Minha decisão vacila, assim certifique-se que não conceda nenhum motivo para mudar de idéia. Abaixei o rosto, abatida, era desolador querer ajudar e sentir-se incapaz de fazê-lo. — Desejo que seja feliz, Lena, vê-la sorrir tem sido o melhor acontecimento nesta casa nos últimos anos. — levantei a cabeça. — Isso é tudo o que preciso. — Liam... Ele colocou um dedo em meus lábios, fechando-os e se despedindo me beijando a mão, mas ainda demorei uns segundos para me mover. Ao sair Christian

338 me esperava no limiar da porta. — Como está? — quis saber enquanto me reunia a ele. Sabia perfeitamente que havia escutado toda a conversa. — Não sei, é muito difícil dizer. Aproximou-se e me abraçou tentando me animar. — E você? — disse junto ao meu ouvido. — Me dói vê-lo assim. — Gostaria de poder confortá-la. — disse após uma breve pausa. — Você já o faz. Separei-me e continuamos andando até o carro. — Nessa noite Lisange vai levar Liam até a cidade para tentar distraí-lo um pouco, o que te parece sair comigo para algum lugar? — Não imagina quão bem que isso soa. — respondi tomando ar. — Acredito que faço idéia. — comentou. — A tensão é asfixiante nesta casa. Encolhi os ombros quando entramos no carro. — É normal. — reconheci. — Estou de acordo, mas tente esquecê-los somente por algumas horas. Ficamos ambos em silêncio. Passar o dia inteiro ao lado de Christian era esperançoso. Era algo especial, talvez esse profundo desejo de voltar a normalidade. Estava faltando alguma estabilidade para encontrar a mim mesma depois de todas essas mudanças bruscas que tinha rodeado a família nas últimas semanas, embora, no meu caso, desde que Christian partiu. Quem haveria dito que agora estaria com ele e que havia partido exatamente porque me queria? O que me dava mais raiva era que o que tinha ocorrido com Flávio foi o que fez decidir-se a voltar e me dar uma explicação. E se não tivesse sido assim? Haveria me dito algum dia? Certamente a essas alturas já haveria renunciado a todo meu orgulho e dignidade e haveria acabado apresentando-me a sua casa, esmurrado a porta na espera que voltasse a me olhar nos olhos para dizer todas as palavras que poderia

339 me fazer esquecê-lo para sempre, mas sabia, sabia que eu não teria suportado. Assustava-me pensar no que estaria disposta a fazer então, recorrer a Hernan? Balancei a cabeça e voltei a prestar atenção em Christian para afastar essa dúvida da minha mente, mas, ao fazê-lo, percebi que ele também parecia muito concentrado em algo, com o cenho franzido e os braços tensos. — Está tudo bem? — perguntei. — Continuo sem entender porque não me contou nada sobre seu encontro com Helga Lavisier. — de repente parecia chateado. — Você não estava quando aconteceu. — lhe lembrei. — Além do mais, por que vem isso agora? — Desculpa. — respondeu evitando me contestar. — Você teve tempo desde então. — riu. — Eu me esqueci. — Não pode esquecer esse tipo de coisa. — replicou. — Quem se importa? — cruzei os braços. — Graças aos De Cote você já sabe. — Lena, eu quero que me conte o que aconteceu; não posso te proteger se não souber. — O que? — ele ficou em silêncio. — Christian..., me proteger do que? — insisti. — Só quero prevenir, não há nada de mal com isso. Pode fazer isso por mim? Desisti, eu não ia conseguir nada. Deixei-me cair de novo contra o encosto do banco e contemplei a paisagem se mover. — Claro... Senti sua mão pegar a minha com cuidado, mas não pronunciou uma única palavra. Pouco depois parou na frente de sua casa e me abriu a porta com gentileza.

340 A luz da manhã parecia muito mais acolhedora que a da casa dos De Cote. Tinha um gramado cuidado e crescente, flores coloridas, grandes janelas com jardineiras..., e estava pintada de um branco imaculado, tudo ao contrário do que se poderia relacionar com uma “família” de Grandes Predadores. De fato, era como uma casinha de bonecas moderna, o qual era bastante perturbador. A casa dos De Cote evitava que as pessoas se aproximassem, mas, em troca, a dele era completamente diferente; parecia a versão rica da cabana das bruxas Hansel e Gretel, convidando a entrar nela para ir direto para a panela. Hesitei em dar um passo adiante, mas o fiz. Christian me conduziu através do caminho de pedra que levava a porta principal, com sua mão entrelaçada na minha. — Agora não terá ninguém, não se preocupe. Prefiro te manter afastada deles. O interior era muito moderno, minimalista, com grandes espaços, formas estranhas e poucos móveis, ao menos assim era a sala em que me encontrava e o brilhante salão em tons brancos e negros que podia ver através de suas portas abertas. Mas, sem dúvida, o que mais destacava era que não havia sinais de vida nela, nem um livro fora da estante, nem uma chave jogada junto a porta; parecia a casa modelo de imobiliária. A fragrância de Christian envolvia tudo; de fato, os objetos haviam perdido seus aromas particulares e haviam adquirido o seu e de alguém mais que não reconheci. Essa era a única prova que existia que alguém vivia ali. — Vem. — indicou me conduzindo para as escadas acima. — É muito diferente da sua. — disse fazendo uma breve pausa, meditando sobre algo. — Suponho que não tem muito sentido que te mostre os aposentos restantes. — pensou alto, e adicionou. — Ficariam loucos se descobrissem sua essência em seu território. — Não recebem visitas? — Somente em segredo, aqui nada inspira confiança. — franziu o cenho. — Vejo que não são os tipos que se reúnem para fazer atividades juntos aos domingos. — Não exceto que tenha Caçadores ou humanos no meio. — Caça...? — Sim, já sabe. — fez uma careta macabra. — Um pouco de diversão em família.

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Ele continuou subindo as escadas; não sabia se havia falado sério ou não, mas preferi não perguntar. Depois seguiu por um corredor e, finalmente, abriu uma porta e me convidou para passar. — Chegamos. O quarto era amplo e luminoso. As paredes eram altas e brancas e o piso de parquet preto, a mesma cor que toda a escassa mobília. Aproximei-me da grande janela; a vista para o mar era impressionante, devia estar perto do clube de equitação que havia ido com os De Cote. Olhei ao redor enquanto ele pegava uma elegante mala debaixo de sua cama e a colocava encima para começar a guardar suas coisas. — O que você acha? — quis saber. — Não sei. — reconheci. — Este lugar é tão..., frio. — Evito ficar aqui mais do que o tempo necessário. — respondeu. — Mas não tem nenhum quadro, nenhum retrato; inclusive eu não tenho nenhum. Sem dúvida foi Lisange que se encarregou dele. — Nenhum em que eu apareça. — apontou. O que era certo. Deixou de lado a arrumação para prestar atenção em mim. — Embora não é verdade que não tenho nenhuma foto. — continuou. — Tenho uma fotografia, somente uma, não necessito de mais. Aproximou-se de sua mesa próxima a janela, abriu a gaveta e pegou um saco de papel com grande delicadeza. Virou-se para mim e me entregou. Éramos nós dois, no dia da festa; não sabia que alguém houvesse levado uma câmera essa noite. Abraçou-me pelas costas, beijou-me na bochecha e contemplou a imagem com o queixo apoiado em meu ombro. — É linda. — sussurrei. — É sua, te dou de presente. — Não. — disse. — É a única que tem, prefiro que fique com você. — Agora não preciso para te olhar, Lena. Assim estaremos pendurados na sua parede.

342 Sorri envergonhada e, então, meu olhar se desviou para a gaveta aberta de onde ele havia retirado o papel. — O que é isso? — perguntei sinalizando uma pequena pasta. — Algo que não deveria te mostrar. Aproximei-me e a peguei com delicadeza. — Posso? Cruzou seus braços. — Não vou conseguir te persuadir do contrário, portanto... Abri com extremo cuidado e olhei em seu interior. Custou-me um momento para ter consciência do que tinha entre meus dedos; tratava-se de uma imagem em branco e preto, a carvão, envolto em papel de seda e feito com uma precisão e um cuidado impecável. — É incrível. — foi a única coisa que pude dizer. — Somente uma bruta imitação, não fui capaz de te captar. — De jeito nenhum! Quando você fez isso? — Durante o tempo em que não nos víamos. Voltei a olhar a imagem, enquanto ele retornava ao meu lado e me rodeava de novo com seus braços. — Gostaria de poder fazer coisas assim. — É lixo Lena, deveria jogá-lo fora. Agarrei a pasta para protegê-la. — De jeito nenhum. É meu. — Sério que quer isso? Afirmei firmemente.

343 — Certo, pode ficar. Gradualmente, respirou fundo em meu ombro, me apertou contra seu corpo e começou a dar pequenos beijos em meu pescoço. Eu ria enquanto continuava observando tudo ao meu redor e, então, eu percebi algo. — Porque tem uma cama se não dorme? Não disse nada de imediato, limitou-se a me segurar em seus braços. — É... — franziu a testa. — Complicado. — Estou ouvindo. — disse voltando-me para olhá-lo nos olhos. Christian suspirou e voltou para a sua tarefa com a bagagem. Em seguida me arrependi de ter perguntado. — Já percebeu que nunca nos vemos quando tem lua nova? — começou. — Bem... A verdade é que não havia percebido que tinha essas noites em concreto. — Nós também temos certos momentos de fraqueza. — continuou. Aproximei-me a ele e me sentei na cama, junto a mala. — Ao que você se refere? — É difícil explicar. — começou a dizer. — Quando não há lua nosso coração pára e todo o sangue retorna a ele. É muito perigoso para todos os que se encontrem próximos. — Ainda não entendi. — confessei. — Imagine que toda essa dor que bombeia em nossas veias se concentre em um só lugar. — ficou em silêncio por alguns segundos e logo adicionou. — É uma das razões por que a maioria dos Grandes Predadores não supera o primeiro ano de vida. — não sabia o que dizer. — Temos camas porque nestas ocasiões nos prendemos por inteiro a elas para que não arranquemos nosso coração. Pestanejei surpresa. — E aguentam?

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Foi uma pergunta estúpida, mas, ainda assim ele riu. — São especiais, ficaria surpresa o que podem suportar. De fato, está mesma está cravada no chão. Sorriu e se concentrou na roupa. — Isso era o que te acontecia na vez que vim aqui? Parou um segundo e me olhou atentamente. — Não sabe a sorte que teve naquela noite. Olhei para outro lado. Lembrava de tudo o que havia acontecido como se fosse agora. — Quem era o outro? Não pude ver o rosto. — Hernan. — respondeu. Senti um calafrio percorrer minhas costas. — Mas não há perigo que o encontre agora; se não, te asseguro que não te traria a esta casa. Ele só retorna muito mais tarde. Deixou-se cair, meditando, em uma grande cadeira de couro negro próximo ao armário. Estendeu-me os braços e fui para eles sem nem ter que dizer em voz alta. — O que foi? — perguntei preocupada. — Tenho que te contar algo. Fiquei alerta; da última vez que havia falado desse modo foi para se separar de mim. — Do que se trata? — disse sem poder esconder um ligeiro tremor na voz. — Tenho estado a noite toda pensando em algo. — segurei seu intenso olhar. — Quero te tirar desta cidade. — Ir embora? Por quê? — perguntei, afastando-me um pouco dele.

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— Você corre um perigo desnecessário aqui. — Mas Liam e Lisange... — Eles entenderiam. — me cortou. — Não estou muito certa disso... — Em todo caso, o farei sem seu consentimento. Você é muito vulnerável aqui e eu não posso permitir que te façam mal. Lena, já aconteceu uma morte. Afastei-me um pouco dele. — Mas você disse que Flávio foi uma sentença. Você está me escondendo algo? Christian pegou minhas mãos entre as suas e as beijou. — Somente tento te manter a salvo, não poderia permitir que te aconteça nada de mal. Deslizei um dedo pela leve ruga que havia aparecido em sua testa. — Você se preocupa demais comigo. — tomei ar e adicionei. — Não me importa aonde vamos, contanto que não me separe de você. — sussurrei ao seu ouvido. — Que comovente... — interrompeu uma voz manhosa. Voltei-me surpresa para a porta. Ali, apoiada, uma mulher nos observava com um sorriso nos lábios: tratava-se de Elora. O cabelo castanho lhe caia brilhante sobre os ombros e nos dava um olhar muito penetrante. Vestia uma calça apertada, de couro preto e uma camisa branca, bastante decotada. A mulher levantou o queixo e fechou os olhos tentando captar algo. Quando voltou a abri-los, olhou Christian arqueando uma sobrancelha. — Não mencionou que ia trazer uma Caçadora em casa, Christian. — acrescentou em tom sarcástico e arrastando as palavras. Christian me levantou para ficar de pé e se interpor entre ambas, como se quisesse me proteger dela. — O que faz aqui? — quis saber. — De repente senti a necessidade de voltar. — me examinou e cruzou os

346 braços. — Agora vejo por que. Avançou para mim, fazendo soar pelo chão o impressionante som de suas botas de salto alto, e estendeu uma mão. — Como vai, Lena? A última vez que a vi estava um pouco alterada. — parecia surpresa, pensou que talvez depois que tentou semear as dúvidas em mim no que estava relacionado a Claire, não haveria querido voltar a ver Christian. Não esperou uma resposta da minha parte. Cravou o olhar na mala que havia sobre a cama, enquanto suas narinas se abriam, forçou ainda mais um sorriso. — Pensando em nos deixar, por acaso? — aguçou o tom de forma sutil. — Somente durante alguns dias. Ela soltou uma suave risada. — Conseguiu que os De Cote te abrissem as portas? Parabéns! — Elora, vai embora, por favor. — Por favor? — voltou a rir. — Não tem que fingir comigo. — aproximou-se do armário e pegou mais algumas peças que soltou sobre a mala. Logo se aproximou dele, juntando muito seu corpo ao seu. Porque estava colocando sua pata no braço de Christian? Senti uma pontada de ódio contra essa mulher. — Sempre foi apaixonado pelo teatro. — censurou muito próximo ao seu ouvido. Ambos já haviam se esquecido que eu estava ali. — Mas deveria ter cuidado, Christian; com boas palavras ou sem ela, o que bate aí dentro é o coração de um Grande Predador, e espero para o seu bem e pelo de alguém mais que não se esqueça. — baixou muito seu tom de voz. — Eu tenho guiado e apoiado esta sua nova forma de vida, Mon Petit, e eu sei melhor do que ninguém quais são suas intenções. — desviou por um segundo seu olhar para mim. — Sua pequena Caçadora se dará conta antes do que imagina. — Conta do que? — perguntei, e os dois se voltaram para mim. Elora se afastou dele e ao passar ao meu lado acrescentou. — Desfrute enquanto pode Lena De Cote, não acredito que dure muito. — logo se virou para enfrentar Christian e acrescentou: — Muita roupa somente para alguns dias, não acha? Sorriu e saiu, tal como havia entrado. Christian manteve seu olhar fixo no lugar pelo qual ela havia desaparecido.

347 — Não preste atenção ao que ela disse. — pediu com a voz marcada pela raiva. — Sabe o que sinto por você e não aprova. — Tem alguém que está ao nosso favor? — Você e eu, e isso é a única coisa que deve importar agora. — contemplou o vazio durante um segundo, mas logo se voltou para si, buscou a mala e a fechou com um movimento brusco. — Vamos já antes que aconteça de vir mais alguém. Aproximou-se; pegou-me pela mão e saímos dali. Não trocamos uma só palavra em todo o caminho de volta. No resto do dia tive a sensação de que me evitava. Nem sequer me olhou, estava fora. Algo não estava bem. Sabia que não me contava algo, era algo que já havia percebido, porque apesar do que sabia, não tinha medo ou, ao menos, não o medo que os demais esperavam de mim. Havia fugido de Guardiões em quatro ocasiões no tempo que estava ali e em três delas havia acreditado que ia morrer, portanto, sabia o que enfrentava. Sentia pânico de voltar a ver algum, mas me mantinha bastante tranquila, convencida de que não ia acontecer nada. Acredito que minha segurança se devia que ainda não havia me atrevido a perguntar outra vez como se matava um Caçador; somente sabia que deixava muito sangue, pelo que estava a cabana quando chegamos. Senti um calafrio, estava certa de que era isso o que estava perdendo. Essa resposta, esse conhecimento era o que marcava a diferença entre minha aparente tranquilidade e a obsessão infernal do resto por me manter a salvo.

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Olhares que matam.

O olhei, era perfeito. Havia me levado a mesma praia da outra vez, mas nesta ocasião havia trazido um pequeno barco de madeira e passeávamos com ele. Para minha satisfação, havia desfeito de seu casaco e agora a única coisa que separava seu corpo de minha curiosa olhada era uma fina camiseta, um absurdo pedaço de tecido que se pegava a ele de forma indecente. — Porque sorri? — disse, me devolvendo ao mundo real. Pisquei um par de vezes saindo do estupor no qual havia caído. — O faço? — perguntei surpresa. Não estranhava em absoluto, quem não se haveria ficado com um sorriso tonto diante de semelhante espetáculo? — Em que estava pensando? — quis saber. Baixei o olhar, envergonhada. — Somente observava a paisagem. Arqueou uma sobrancelha, divertido. Da minha posição, a única coisa que podia ver ou, melhor admirar, era seu corpo, nada mais, nem sequer o longínquo horizonte. — A paisagem? — riu. — E você gosta do que vê? — Bom, estava sorrindo, não? Embora seja como tentar ver o sol no céu nublado. Em que “você” pensava? — Não me dou tão bem com as metáforas meteorológicas. Pensava em você. — Christian, eu não preciso que tente me fazer sentir melhor, de verdade. — disse fingindo despreocupação. — O que quer dizer?

350 Tomei ar e me concedi um tempo antes de responder. — Eu não sou Elora; não sou bonita, nem elegante, nem refinada..., e na maior parte do tempo não sei o que é que está acontecendo ao meu redor. — baixei os olhos. — Sou um desastre. — Hey..., é verdade, não sei como tenho podido me fixar em uma garota assim. Riu mais não o acompanhei. Acabava de confessar uma de minhas maiores inseguranças. — Porque tem me evitado toda à tarde? — soltei. — Isso não é verdade. — negou. — Claro que sim. — insisti. — Tem estado muito distante desde que saímos de sua casa e... — Lena. — interrompeu. — Não é fácil interceder por um Caçador ante um grupo de Grandes Predadores que acham que tenho me rebaixado. — E está se arrependendo? — perguntei com medo. — É isso? — Não, claro que não. Mas é complicado; crêem que estou brincando com nossa reputação e que estou lhes impondo um sentido de debilidade e uma perda de respeito. — Isso é uma besteira. — Não, Lena, é algo muito sério. Guardei silêncio, pensando em tudo isso. — Você queria... — comecei a dizer. — Queria que eu fosse como você? Parou, cruzou os remos sobre seus joelhos e se concentrou em meus olhos. — Se quisesse alguém como Elora, estaria com ela. Encantam-me todos e cada um de seus defeitos do mesmo modo que suas virtudes. Não quero que mude absolutamente nada. — aproximou-se um pouco de mim, estendendo um braço para poder acariciar minha bochecha, e soltou uma risada alegre, aliviando de novo o ambiente.

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— E se eu fosse um Guardião, mudaria alguma coisa? — Não sei se seria mais fácil, mas a verdade é que preferiria que fosse um monstro verde e viscoso antes que um desses. Mas o certo é que, inclusive se fosse de qualquer uma dessas duas maneiras, continuaria deixando-me louco. Tinha um sentido de beleza um pouco retorcido... — Creio que você tem um problema. — sentenciei. — Um muito sério. — Não é o caso porque você é linda, não ouse pensar o contrario. — continuou com seu trabalho anterior. — Na verdade neste momento, estou lutando contra mim mesmo para não me lançar sobre você. — Oh, sim. — provoquei. — Tenho agora mesmo uma pose tão sexy... — eu estava tombada de qualquer maneira sobre o chão do barco, em uma postura não muito feminina. — Você ficaria surpresa em saber com quão pouco consegue fazer-me perder a cabeça. Sentei-me em uma posição para dar-me condições de observá-lo com atenção. — E como faz para se conter frente a semelhante ninfa dos mares? — zombei. Ele riu. — Remo. Se você olhar, verá que já estamos a bastante milhas da costa. Olhei para trás, meus olhos se abriram como pratos ao ver as luzes da cidade tão pequenas e sutis como as estrelas. — Wow. — exclamei. — Com isso deveria fazer uma ideia de quanto me atrai. — Estou impressionada. — brinquei. — Mas, me pergunto... — comecei a me aproximar um pouco dele. — E se os remos caírem acidentalmente pela borda? O que aconteceria? — franziu os lábios pensando.

352 — Mmm! Isso seria sem dúvida um inconveniente para meu autocontrole, mas teria que pegá-la, e já comprovamos em certa ocasião, que você não pode lutar contra mim. — Isso foi a muito tempo. — aleguei. Arqueou a sobrancelha. — Quando você estiver vivendo há séculos; fale-me de novo sobre sua concepção do tempo. — Eu não disse nada de jogá-los, só sugeri uma hipótese inocente de contratempo. Aproximei-me. Aproveitei um segundo no qual ele estava concentrado em observar meus olhos, para lançar um dos remos na água, tão rápido que ele não pôde fazer nada para interceptá-lo. — Ah! Um se foi. — ri triunfante. — E agora? Lançou-se contra mim com tanta forca que estranhei que não fizesse um buraco no barco. Eu caí da madeira que servia de banco, mas não cheguei a bater porque ele me suspendia no ar com um braço, apertando-me contra seu corpo. Contemploume e logo me colocou delicadamente sobre o chão, todo o rastro de sorriso havia desaparecido. — Poderia te matar agora mesmo e ninguém viria te ajudar. — disse com uma voz gutural, colocando a mão em cada lado da minha cabeça. — Ou talvez te torturar, como tenho feito com outros, centenas de vezes e ninguém; iria ouvir você gritar. — O que te impede? — sussurrei de repente, coagida. Talvez não tenha sido uma boa ideia jogar assim com ele. — Fazia anos que não desejava deixar de ser um mostro. — Porque essa palavra soa tão bem quando seus lábios a pronunciam? — perguntei meio drogada. De repente, ele começou a rir.

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— Lena..., creio que é você que tem um problema. — Sim. — reconheci envergonhada por minha resposta. — E leva seu nome escrito nele. — Não penso fazer nada a respeito, então. Mordi o lábio, o tinha tão perto. — E o que pensa em fazer comigo? — balbuciei em um sussurro. — Não sei. Tenho você presa no meio do oceano, sozinha, tudo isto da asa a imaginação. — A sua ou a minha? Porque eu sei o que fazia, mas não sei se sua mentalidade primitiva poderia suportá-lo. Ele abriu muito os olhos. — E o que se supõe que estava maquinando sua mente do século XXI? — Pensava, principalmente, em me desfazer dessa horrível camiseta. — observou-se por um segundo. — O que tem minha roupa que te ofende tanto? — Te esconde de mim. — Então esse é todo o problema. Olhou-me de forma intensa; muito concentrado em algo. Lentamente se aproximou mais a mim, muito mais, a tal ponto que seus lábios roçaram os meus, queimando-me, mas não mostrei nenhuma hesitação, havia desejado tanto este momento... Havia esperado muito tempo, que por fim se decidisse a fazê-lo, mas não importava, era o lugar perfeito, o momento certo. Deixei de respirar para manter a compostura enquanto sentia sua respiração contra minha pele. Mas, então, ele parou. Baixou a cabeça e conteve o ar, com a boca franzida com força. Um segundo mais tarde, cravou seus olhos em mim e subiu até minha testa para depositar ali um suave beijo. Eu não esperava algo assim, me separei dele, sentando um pouco mais afastada. — Qual é o problema? — exigi sem voltar a olhá-lo.

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Instalou-se ao meu lado e me observou durante um instante antes de voltar a falar. — Em minha época as coisas não eram feitas assim, não tão logo. — Mas estamos na minha. — lhe recordei. — E aqui sim se faz. — Não sou como os jovens de agora. ] Levantei as sobrancelhas, surpresa, mas incrédula ao mesmo tempo. — Você pode torturar inocentes, e fazer dano a humanos, mas se preocupa por beijar uma garota? — perguntei em tom sarcástico. — Não é assim tão simples. — Então, explique. Porque não o tem feito? Porque você parou? — Lena, tem que entender, nós não somos como os outros. — me recordou. Coloquei os olhos em branco. — Nem sequer para nossa própria forma de vida. — continuou. Virei-me por completo para ele. — Não entendo nada. Christian levou um instante para refletir. — Os Grandes Predadores não podem sentir nada que não seja dor e vingança, não há lugar para o amor. — Pretende me dizer que na realidade não me quer? — perguntei, afastando-me dele. — Tento te explicar que essa é a razão pela qual somos diferentes dos demais. O normal em meu caso teria sido acabar contigo no momento em que comecei a sentir algo, qualquer coisa; você nem imagina o fácil que teria sido para eu fazer isso. Poderia ter me deixado levar, sucumbir ao seu pedido e me refugiar na minha própria monstruosidade. Mas agora sinto que todo meu mundo depende de você, Lena, e isso nunca havia acontecido; nem sequer entre dois seres de uma mesma espécie.

355 Meditei um segundo antes de responder. — Bom, eu não vejo nada preocupante nisso. — menti em uma tentativa de acabar um pouco com a tensão que acabava de revelar. — Lena, os Caçadores tampouco amam. Tirei todo rastro de otimismo do meu rosto. Isso sim que era impactante, podiam me fazer duvidar do que sentia, ou não, outro ser, mas eu já havia posto nome ao que crescia em meu interior, e isso se chamava AMOR com letra maiúscula. — Como que não? — Fogem de tudo aquilo que possa produzir-lhes dor, e isso inclui isto. — Mas Liam e Lisange... — Não estão juntos, se é o que pensa. Não era que eu acreditava que eles fossem realmente um par, mas era para mim, impossível pensar que não houvesse sentido algo assim por ninguém em todos seus longos séculos. — Por isso devemos ir com cuidado. — Mas, então, nunca... — Essa é uma palavra muito grande. — aproximou seu rosto ao meu e depositou um pequeno beijo na comissura dos meus lábios. — Faz uns meses não haveríamos podido nem sequer nos roçar e agora é inclusive agradável. — sorriu. — Suponho que não me importe se é o preço que tenho que pagar por estar contigo. Correu uma ligeira brisa carregada do cheiro da água salgada. — Portanto somos como as ovelhas negras, não? Uma espécie que não pode amar outra que se nega ao amor. Talvez signifique que nós somos mais humanos. — refleti. — É possível? — Poderia ser. Fui para seus braços e ele me embalou com ternura.

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— Podemos ficar mais tempo? — perguntei. — Todo o que você quiser. Fiz uma careta. — Não, ficariam loucos se eu não estiver lá pela manha. — Me ocuparei disso mais tarde. Enrolei-me em seus braços e contemplei as estrelas. — Christian. — sussurrei rompendo o silencio. — Sim? — Vai contar-me como chegou aqui? Virou-se. Sabia que essa pergunta lhe incomodava. — Há algum motivo especial que eu desconheça e pela qual quer acabar com a magia desse momento? Encolhi os ombros. — Só quero saber por que é o que é. — confessei. — Não é um conto de fadas. — Isso já imaginava. Contemplou-me com um renovado interesse. — Não sabia que você gostava de histórias de terror. Levantei a cabeça para devolver-lhe o olhar. — Depende do protagonista. — Vou ter que começar a pensar que tem uma preocupante tendência masoquista.

357 — Eras do século XIX, não? — insisti, ignorando por completo seu comentário. — Não exatamente. — começou a dizer tomando ar. — Nasci na Itália no final do século XVIII. Passou muito tempo para recordar a data exata. — começou a brincar com os dedos, olhar perdido. — Você se lembra de sua família? — indaguei. — Não, me abandonaram em um orfanato e vivi ali até que cumpri a maioridade. Tenho que reconhecer que já em vida fiz coisas más, ainda que, na maioria das vezes sem ser consciente disso. — aclarou a garganta e continuou. — Juntei-me com gente que me conduziu pelos caminhos equivocados, ainda que eu duvide que um órfão como eu tivesse outro tipo de saída. — Ao que você se refere? — perguntei confusa. — Roubávamos para comer. — tomou ar. — Éramos jovens e somente pensávamos em viver aventuras, assim que, tempos depois, viajamos em uma aventura para o Brasil, em busca de uma oportunidade para começar do zero e conseguir umas terras. — fez uma pausa. — Um dia nos embrenhamos na selva. — deixou de retorcer os dedos e segurou minha mão. — Na segunda noite pegaram bebida, nada novo, havíamos roubado-a de um pequeno comerciante. Mas em meu copo havia algo, imagino que o extrato de alguma planta alucinógena. Seguramente pensaram que seria divertido. Eu era o mais jovem e também o mais ingênuo. Ainda ouço suas risadas; é quase a única coisa que recordo com nitidez desta noite. — apertei-lhe a mão passando-lhe conforto. — Quando despertei na manhã seguinte, não havia ninguém lá. Eles haviam me abandonado, sem nada e no meio de algum lugar. – apertou os dentes com força. — Vaguei sem rumo dia e noite, sem descanso os procurando. Acredito que perdi o juízo por completo porque cheguei a gritar durante dias suplicando aos céus a morte. Percorreu-me algo parecido a um arrepio. — Deve ter sido horrível. — Não sei quanto tempo depois, minha súplica foi ouvida e a morte me acudiu na forma de uma anaconda14. Não recordo bem essa parte, só sei que acabou comigo e, ao parecer, eu também com ela. Nossas almas se fundiram em uma só, por isso tenho habilidades que outros não têm. Sugar vidas não é uma

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Grande cobra, Elas são encontradas na região tropical da América do Sul .

358 qualidade de minha espécie. Depois, despertei o que sou: um Grande Predador que só queria matar. — O que você fez então? — soei ansiosa. — Fui procurá-los. — respondeu com voz áspera e grave. — Persegui-os até acabar com eles. O mais jovem, que havia sido um irmão para mim, eu não matei, mas me assegurei que terminasse preso em um hospital psiquiátrico até o dia de sua morte. Transformei-me em uma besta. — tentei dizer algo, mas ele continuou. — Depois disso voltei para a Itália e tentei por todos os meios que o tempo curasse minha ferida, sem estabelecer contato com outras pessoas, nem sequer com aqueles da minha espécie, mas a pouca humanidade que me restava me torturava, recordando-me seus rostos antes de matá-los. Senti-me um mostro e isso, como a você, começou a me consumir. Remexi-me no lugar. — Como você conseguiu continuar? — Já nem sequer lembro, chegou um momento em que eu não sabia se tinha passado dias ou anos. Tinha uma tia avô, na França, mas não soube até um tempo depois, que sabia de minha existência, mas me renegou porque odiava a minha mãe. Ela não sabia que eu havia morrido, quando me viu aparecer acreditou que estava vendo um anjo. — riu sem graça. — Não sei se foi minha influência como Grande Predador ou ela mesma, mas jurou que se arrependia. Proporcionou-me um sobrenome e vivi com ela durante dois anos. Em sua morte, me deixou em herança, tudo ao seu único parente vivo. — Uau. — Acredito que com ela pude me sentir de novo como uma pessoa normal, mas quando ela se foi, voltei a ser como era antes. Ficamos em silencio, os dois. A água batia contra o barco em pequenas ondas, sacudindo-o na corrente. — Porque não queria me contar? — perguntei. — Não é normal e nem uma boa ideia fazer um Grande Predador lembrar o porquê é o que é; digamos que não é... Seguro. Porque ninguém me contava essas coisas? O beijei na testa.

359 — Quem me dera, pudesse fazer que você se sentisse melhor. — Por quê? Isso é o que faço, é o que sou. Meu castigo é ter morrido com um ápice de humanidade. — Não seja tão duro consigo mesmo. — Devo ser Lena. Você não sabe as coisas horríveis que tenho feito, e que ainda faço... — aproximei-me mais dele. — Está comigo agora e não tem tentado me fazer mal. Se não sente um impulso sádico ou cruel, é por que ainda não está tudo perdido. Colocou os olhos em branco, mais relaxado. — Você é incorrigível... — soltou, acariciando minha bochecha. — Quero estar contigo. — confessei. — Por alguma estranha razão que ainda desconheço.

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A Ordem de Alfeo.

Desceu da moto, me pegou pela cintura e com um sorrisinho me levantou para logo me colocar com suavidade sobre a calçada. Soltou-me sem dizer nada, só me olhava enquanto eu me arrepiava com uma brisa repentina. Eu em troca continuei me segurando a ele. — Fico feliz que agora more aqui. — sussurrei em seu ouvido. — Certamente que sim. Não se libertou do meu abraço, ao invés disso voltou a me pegar e me levantou do chão caminhando, sem nenhuma dificuldade, de costas para a porta enquanto eu lhe dava pequenos beijos no pescoço. Podia sentir sua garganta vibrar por uma suave risada. Mas, então, tropeçou no primeiro degrau e nós caímos. Ambos começamos a rir. — É um perigo, Lena. Nunca tinha me acontecido algo assim. — Isso aconteceu por não se concentrar no caminho. — aleguei entre gargalhadas. Ficamos em silencio analisando a situação. — Não acho que eles gostariam de nos encontrar assim. — comentou, se referindo aos novos companheiros de casa. Olhei a pequena mansão dos De Cote, não havia luzes e estava em silêncio, logo me virei de novo para ele. — Parece que não há nada. — eu disse começando um sorriso divertido. — Então estamos sozinhos. — fingiu seriedade. — Acredito que eu não deva entrar. — Por quê?

362 — Tenho medo do que pode acontecer. — respondeu sorrindo de novo. Levantei uma sobrancelha, divertida. — Christian Dubois tem medo? — Todos nós temos um ponto fraco. — se defendeu. — E quem vai me proteger se você não me acompanhar? — observei. Franziu os lábios como se estivesse pensando. — Certo, nesse caso... Colocou-se de pé sem se afastar de mim nenhum só milímetro e chegamos até a porta. — Está fechada á chave. — me disse Christian ao tentar abri-la. — Oras! Não tenho as minhas, já as perdi há muito tempo. — Para sua sorte, eu não. Tirou de seu bolso uma grande chave de metal e a colocou, sem problemas, na fechadura e entramos. Procurei o interruptor pelo tato enquanto Christian beijava cada resquício de pele que estivesse descoberto. Não estava sendo fácil focar minha atenção em um insignificante botão, tendo ele tão perto. E também, quem precisa de luz? Eu não tinha problemas em ficar no escuro, e duvidava que Christian preferisse o contrário, então eu me esqueci da minha busca e coloquei toda minha atenção nele. — O que houve com a luz? — sussurrou sem parar o seu trabalho. — Se esqueça dela. — sussurrei dessa vez tomando a iniciativa. Ele soltou uma risada, ms eu não o impedi. Estava entregue a minha exploração e me esqueci completamente de manter a postura. Nossos pés se enrolaram e fiz com que Christian perdesse o equilíbrio de novo. Bati contra a parede, mas ele me segurava forte o bastante para evitar que eu chagasse ao chão, mas não pôde evitar que eu batesse contra ela e, para minha surpresa, também com o interruptor que se acendeu imediatamente. — Voltou a fazer. — ele me reprovou.

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— Não acredito que o problema seja só eu... Mas nesse minuto parei congelada. Horrorizada, levei minhas mãos a boca para sufocar o grito que escapou da minha garganta ao colocar meus olhos no que havia atrás dele. Christian se virou imediatamente e me soltou, lentamente, quase tão paralisado quanto eu. Todo o cômodo estava destroçado, as paredes estavam rachadas, os quadros rasgados no chão, as mesas viradas, os enfeites esparramados pelo tapete..., mas não era o que tinha provocado nossa reação, mas algo muito mais macabro e atroz. Diante de nós preso por quatro pontos, estava Caim. O sangue ainda escorria pelo seu pequeno corpo até cair em gotas em uma pequena poça no chão. Com ele estava escrito pela sala: “Chegarão os anjos, e separarão os maus dos justos. E os jogarão na fornalha ardente. Ali haverá choro e ranger de dentes”. Fechei os olhos com força e me virei para Christian, o abraçando. Não queria olhar. Do seu interior brotou um estranho barulho, um rugido mais animal do que de uma pessoa. Colocou-se entre a cena e eu e fez um gesto de entrar na casa, mas eu me agarrei mais a ele, o impedindo de continuar. Sua delicada feição havia se transformado em uma expressão violenta, me assustou ainda mais vê-lo assim, mas relaxou o rosto e se afastou até sair de novo à rua. — O que era isso? — gaguejei, mesmo tendo visto com clareza. Ele não me respondeu, examinava cada canto escuro ao redor de nós com os olhos extremamente abertos. — Fica comigo. — disse, me levando para a estrada. Agarrei-me ainda mais ao seu corpo enquanto ele analisava com o olhar tudo ao nosso redor, mas eu só ouvia os pequenos animais no bosque. — Calma. — passou o braço por meu ombro. — Já se foram. — Não vá, por favor. — lhe pedi, com medo de que ele fosse atrás do culpado dessa atrocidade. Beijou-me a testa apertando ainda mais minha cabeça contra seu peito, na vã intenção de me confortar.

364 — Não vou te deixar sozinha, eu te prometo. — Acha... Acha que Liam e Lisange estão lá dentro também? — gaguejei. — Eu duvido. Tirou um pequeno objeto negro do bolso e o colocou na orelha. Segundos depois a voz de Lisange apareceu do outro lado do telefone e respirei um pouco mais aliviada. — Aconteceu algo. — sussurrou ao celular. — Você esta bem? Seu rosto pareceu relaxar um pouco mais com a resposta. Eu me concentrei nas batidas do seu coração, mais aceleradas que o normal, não queria ouvir nenhuma outra coisa, tinha a imagem de Caim colado na parede, gravada na minha mente. Pouco depois voltou a guardar o celular no bolso. — Estão bem. — anunciou. — Saíram para te procurar por que viram que você não estava em seu quarto quando voltaram. O olhei. — Devia ter avisado que eu ia sair. — Pode ser que por não ter avisado tenha lhes salvado a vida, Lena. Concordei, tinha razão, quem quer que fosse que tinha entrado não me deixava duvidas que tenham tentado acabar com eles. O tempo correu muito lento depois. Tinha a cabeça completamente aborrecida, confusa, e sentia uma estranha falta de ar, fora uma vontade incontrolável de chorar, embora Christian me balançasse em seus braços para demonstrar, de alguma forma, que estava ali para me proteger de qualquer perigo. Mas apesar de que pareceram horas, não passaram mais que quinze minutos até que o carro preto de Liam parou em frente a casa. Lisange desceu rápido do carro e foi até nós. Liam olhava Christian de um jeito estranho, como que reprovando por termos saído sem dizer nada. — Onde estava? — perguntou ela, lançando para mim um olhar duro, não estranharia nada se pensasse que ele havia me sequestrado no meio da noite. — Saímos para dar uma volta. — lhe explicou impaciente.

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— Deveria ter nos avisado. Estávamos preocupados, pensamos que... — A tivesse matado. — terminou Christian com o mesmo tom severo para os dois. — Tem algo muito mais sério agora mesmo do que sua confiança. Esta noite alguns Guardiões estiveram na casa. — O que quer dizer? — a voz de Liam mudou por completo. Christian me apertou um pouco mais em seus braços. — Nos deixaram um presente. Lisange ficou tensa, o olhou, depois a mim e por último a Liam, que já ia em direção a casa com passos firmes e rápidos. Ela o imitou. Eu me recusava a voltar ali dentro, mas Christian fez a intenção de segui-los e eu não queria ficar sozinha ali fora. Quando chegamos ao interior, Lisange cobria a boca com as mãos, com o olhar aterrorizado, Liam deixou a chave cair junto da porta, justo onde eu estava quando vi aquilo pela primeira vez, nesse momento já se encontrava junto a Caim com a cabeça cortada em uma das mãos. — Como eles entraram? — a voz de Lisange estava fraca, tanto quanto a minha se tivesse conseguido dizer alguma coisa. — A porta estava fechada e parece não ter nenhuma janela quebrada. Liam se virou para nós. — Recolhe suas coisas, vamos embora deste lugar. — Para onde? — Lisange perguntou. — Para a casa dos Lavisier. — Nem pensar. — soltou Christian cortante. — Eu levo Lena para fora da cidade essa mesma noite. — Não faria isso. Por um momento pareceu que se desafiavam com o olhar, mas Christian me tomou firme pela mão e me dirigiu escada acima.

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— Vamos Lena. — O que aconteceu? — eu quis saber. — Depois eu te explico, agora arrume as suas coisas. — sua voz era profunda e seca. — Pegue somente o necessário, vamos para longe daqui. — Mas Liam disse que... — Não importa sua opinião. Se apresse. Fui ao banheiro e peguei minha nécessaire 15, quando voltei ao quarto Christian já tinha colocado uma pilha de roupas sobre a cama e guardava com toda pressa em uma bolsa de viagem. O ajudei. A última vez que tinha feito algo assim tinha sido para ir as montanhas e tinha sido fatal. Senti um grande peso no estômago. E se voltasse a acontecer algo ruim? E se dessa vez acontecesse o mesmo? Não podia suportar perder mais nada. — Já está pronta? — me perguntou enquanto cruzava no peito um coldre preto. Assenti colocando no ombro minha mochila, onde colocava sempre o mais importante. Voltou a pegar minha mão, pegou a bolsa e descemos de volta ao vestíbulo. Ouvi uns pequenos golpes e uma tampa se fechar. Pouco depois Liam passou por mim com uma pequena caixa de madeira na mão. Deduzi que dentro dela estavam os restos de Caim. Pobre gato..., talvez ele houvesse se dando conta, antes de todos, do que acontecia. Agora que pensava nisso, Goliat havia agarrado as cortinas com as unhas para não subir a montanha com Flávio e Cain estava nervoso e escorregadio há algumas semanas, se escondia em cantos que eu nem sabia que existia. Eu tinha atribuído isso ao calor, não tinha dado importância e tampouco Liam ou Lisange o havia feito, mas a verdade era que eles não estavam muito atentos ao que os rodeava desde o ocorrido na cabana. Com a morte de Flávio e a chegada de Christian a casa, as coisas mudaram muito rápidas e ninguém passava muito tempo na casa. Formou-se um nó em minha garganta. Talvez fosse melhor que eu me concentrasse em Christian. — Lisange, nos deixe sair. — pediu, tentando se controlar. Ela se colocou entre nós e a saída.

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Pequena bolsa utilizada para levar material de higiene pessoal.

367 — Não. Christian, Lena é um membro do nosso Clã, e não cabe a você protegê-la. — afirmou em tom sério. — Lena venha para o meu lado, por favor. — disse Liam aparecendo atrás de nós. — Mas..., por quê? — Ela não fica. — interrompeu Christian. — Que você tenha abandonado o seu Clã não quer dizer que ela deseje deixar de ser leal ao seu. Não queria ter que deixar os seus serviços agora, se quer continuar ao lado dela, será segundo nossas normas, ela não é um dos seus. Christian mantinha a mandíbula apertada e prendia a respiraçao. Um estranho rugido surgiu em seu interior. — Não me obrigue a... — Não o farei. — interrompeu Liam. — Ainda não demonstrarei a Lena como você é. — Não se dá conta de que é perigoso para ela! — Corre mais perigo ao seu lado. Não vou dizer uma segunda vez Christian, ela fica aqui, e se devemos os enfrentar, que assim seja. Passei os olhos de um para o outro. Não sabia até que ponto eles poderiam aguentar antes de se lançar um contra o outro, e eu não queria comprovar. — Christian... — sussurrei. — Vamos com eles, estaremos todos mais protegidos. Ele virou a cabeça por um instante e logo depois voltou a Liam. — Não precisamos nos precipitar. — interrompeu Lisange. — Vamos para a casa dos Lavisier e conversamos, precisamos debater isso com calma. Olhei para Lisange com todo o agradecimento que pude colocar em meus olhos. — Christian, por favor. Procurei seus olhos, mas ele encarou o chão e voltou a respirar.

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— Lena. — disse Lisange tomando minha mão. — Vamos, te levarei até lá. Fiquei na ponta dos pés e o beijei na bochecha, ele me olhou surpreso. — Não me deixe, por favor. — pedi no seu ouvido. — É claro que não. — sua voz estava rouca. — Eu te disse que não me separaria de você.

***

Chegamos a casa dos Lavisier pouco depois. Na verdade aquele lugar sempre me provocava a estranha sensação de que conseguia me deixar com os nervos a flor da pele só de me aproximar dele. Aproximei-me mais de Christian ao sentir os primeiros calafrios. Chamamos, mas ninguém nos abriu a porta como da outra vez, então esperamos um pouco até que finalmente, Lisange empurrou a porta com cuidado e esta se abriu sem nenhum impedimento. Entramos no interior. A casa estava mais deserta e vazia do que da última vez que tínhamos ido ali. Havia muitas coisas quebradas, móveis partidos, paredes descascadas, marcas de arranhões nas cortinas, folhas secas, vidros... Era como se um animal selvagem tivesse sido preso ali dentro. — O que aconteceu aqui? — sussurrei com um fio de voz. Christian se aproximou a um dos arranhões e o examinou. —Não são garras. — anunciou, passando um dedo sobre um deles. — São marcas de um Caçador. — Como você sabe? — perguntei, aproximando-me a ele. — Se fossem de um Guardião seriam mais estreitas. — explicou-me, apontando as marcas. — Pelo afiado de suas unhas, mas são muito profundas; apenas alguém com uma força de Caçador poderiam afundar os dedos tão profundamente na pedra. — Caçadora, melhor dizendo. — interveio Lisange, dirigindo um olhar eloqüente a Liam.

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Ele concordou. — Helga... — murmurou ele. — Ela vive nesta casa agora...? O eco de minha voz entre as paredes trouxe de volta aquela horrível sensação. — Os Lavisier se foram pouco depois de nossa visita, O mais provável é que a abandonaram aqui. — E está descontrolada. — adicionou Lisange. — A presença que sente deve ser enorme se a fez perder o controle desta maneira. Lançou um olhar ao seu redor, observando todos os destroços. — Talvez devêssemos ir embora. — sugeri. — Não, não. — soltou Lisange, concentrando-se em algo. — Ao contrário, Lena. Devemos ficar. — O que? Virei-me para ela, surpresa. — Lisange, ela está louca. — Não Lena. Jamais poderíamos chegar a entender todo o mal que ela sofre. — Mas ela é perigosa. — insisti. — Não acho, De qualquer forma, isso já tem um tempo. Com certeza, fugiu da cidade. Liam virou-se e olhou para todos com semblante duro. — Acabaram as escapadas noturnas, espero que tenha ficado claro, Christian. Temos permitido que conviva com nosso Clã e não quero me arrepender disso. Temos lhe brindado com muita liberdade, mas acabou e não vamos permitir que coloque um membro desta família em perigo, Temos tolerado muito tempo. — Sei cuidar perfeitamente de Lena. Não estaria mais a salvo em nenhuma outra parte do que comigo. — Não estou tão certo disso.

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— Esse é o problema. — começou Christian de novo, com fingida calma. — Acha que vou machucá-la. — Por razões óbvias. Você é o que é e isso nada e nem ninguém vai mudá-lo. — Liam. — eu pulei. — Concordarão comigo que neste momento o problema é outro. — interferiu Lisange. Liam aproximou-se e uma mesa próxima, com o rosto cansado e se sentou em uma cadeira, afastando os lençóis que a cobriam. Lisange o imitou, mas Christian e eu ficamos onde estávamos. Ele me rodeou com seus braços. — Quem é Alfeo? — soltei de repente, cansada de que ninguém me contava nada. Era nova, sim, mas isso não significava que não fosse capaz de assimilar informações. Todos se viraram para mim e trocaram olhares nervosos. — Quem é? — insisti. — Onde ouviu esse nome? — perguntou-me lentamente Christian. — Eu os ouvi falar sobre ele. Se eu estou envolvida, preciso saber. Afastou-se um pouco de mim e se apoiou contra o batente da porta, olhando o teto. Os sinais de cansaço e preocupação em seu rosto também eram evidentes. — Será melhor sentar-se Lena. Surpresa que de fato, ele fosse ceder, prestei-lhe atenção. — E então? — o animei. — A Ordem de Alfeo. — começou, juntando também a mesa. — É uma Família de Guardiões, um grupo mais radical que decidiu separar-se do resto e seguir suas próprias leis. — Acreditam que são Anjos e que devem transmitir justiça. — disse Lisange.

371 — A frase que você leu em sua casa é seu lema. — continuou ele. — Eles têm esse versículo de São Mateus como sua única religião. — Mas, isso é permitido? — Sim, sempre que não faça mal aos Grandes Predadores considerados inocentes nem a outros Guardiões. — E a nós sim? — estava indignada. — Você é a espécie mais abundante, representam uma ameaça. Eles querem mantê-los a deriva para que não se rebelem contra eles. — O essencial. — interrompeu Liam. — É que tínhamos a certeza que estavam extintos. Há um tempo atrás terminaram perdendo o norte e brigaram entre eles. Todo mundo deu por acabada esta comunidade. — E agora eles voltaram? — perguntei. — Sua ordem principal é a destruição do escudo de cada Clã, no caso de vocês, Cain e Goliat. — continuou Christian. Desviei o olhar por um segundo para Liam; — Achamos que se tratava de imitadores, mas as advertências de Helga, o comportamento dos animais, a inegável sensação do ambiente, a frase, a morte de Caim e Goliat, o que aconteceu com Flávio..., são muitas coincidências. Fiquei em silêncio por um momento, processando a informação. — Por que fazem isso com os gatos? — É uma advertência. Significa que condenaram um membro da família, é uma forma de provocar pânico. — Mas eles, os gatos, não protegem a casa dos Guardiões? — Sim, mas os gatos apenas despertam seus instintos diante de mostras de violência, se quebraram uma janela ou colocaram a porta abaixo, não poderiam pegá-los, mas não foi assim, de forma que os pegaram desprevenidos. — E a quem vocês acham que eles buscam?

372 Nenhum deles respondeu, de fato, todos afastaram os olhos de mim. Christian abria e fechava os punhos sobre a mesa com a mandíbula apertada, Lisange baixou a cabeça procurando que seus olhos não cruzassem com os meus e Liam passava de Christian a Lisange e vice versa. De repente, eu compreendi. — A..., a mim? — murmurei. — Poderiam ir atrás de qualquer pessoa. — Christian apressou-se em dizer. — No entanto, há uma possibilidade bem grande de que você seja o objetivo, Lena. Levantei-me, afastei-me lentamente até a sala e me sentei no penúltimo degrau da escada. Finalmente. Finalmente eram sinceros comigo. Sem preâmbulos, nem suavidade, a verdade tal qual ela é. Christian levantou-se e se aproximou de mim, mas eu fiz um gesto com a mão para que ficasse onde estava. — Flávio acabou com um Grande Predador, mas o que EU fiz? Senti um tremor incomum nos dedos e uma dor intensa na cabeça. — Existe uma razão. — voltou a dizer Liam, cravando os olhos em mim, enquanto se juntava a Christian. — O equilíbrio. Olhei-o desconcertada, não entendia o que ele queria dizer. — Não pode haver um número maior de Caçadores do que estritamente informado. Você apareceu aqui Lena, e nós a acolhemos, mas na verdade não podíamos fazê-lo. Eles devem ter sabido de sua presença e por isso achamos que pretendem persegui-la. — Perseguir-me... — repeti, aprofundando-me no macabro significado destas palavras. — Na verdade, tem sentido. — murmurou Lisange, depois de aparecer também ao meu lado. — Não havia tantos Guardiões por aqui até que você chegou. Não soube o que dizer. Até certo ponto soava até mesmo irônico, porque desde que acordei nessa vida, havia procurado a forma de colocar fim a tudo, mas agora..., não queria morrer. Mordi os lábios. Tentando pensar depressa.

373 — Ok. — sentenciei. — Irei embora. Três pares de olhos me encararam ao mesmo tempo. — O que? — perguntou Christian com voz áspera. — Não vou colocar vocês em perigo. Se eu não deveria estar aqui, irei e pronto. — Infelizmente, não é simples assim Lena. — disse Liam com aparente tranquilidade. — Mas vamos ajudá-los. Neguei com a cabeça. — Não é problema de vocês, não têm que se envolver. — Deveríamos ter ido já. — É perigoso Christian. — insistiu Lisange..., — Estariam esperando vocês. Se eles entraram está noite. O que nos garante que não ataquem no meio da estrada? A próxima cidade esta a quilômetros de distancia e não temos proteção. — Não descarregue a bagagem. — interrompeu Liam. — Iremos embora amanhã quando tiver gente pelas ruas. — Noite de Guardiões, não terá lua. — disse de repente Christian e todos nós o olhamos. — Liam, nós precisamos conversar. — Concordo. Ambos desapareceram por trás da porta. Lisange me olhou, inquieta. — Por que eles se vão daqui? — perguntei, ficando em pé. — O que é que ele tem que dizer que não posso escutar? O que mais estão me escondendo? — Fique tranquila Lena. Não pretendem te assustar. — Sério? Pois conversar em particular não me parece a melhor forma de “n~o assustar” a alguém. A verdade é que cada vez estava mais alterada.

374 — Devem deixar de lado suas diferenças se pretendem estar nisto juntos, por isso eles se foram. Respirei fundo e voltei a me sentar, enfiando os dedos em meu cabelo. — Você já enfrentou algum desses alguma vez? — eu quis saber, com os olhos cravados na porta pela qual acabavam de desaparecer. Ela assentiu lentamente com a cabeça. — Como eles são? — Iguais a qualquer outro Guardião na aparência, mas suas habilidades estão muito mais desenvolvidas, no entanto, o que aguça a sua periculosidade é o fato de que não se preocupam em se expor ou morrer. Eu resistia em perguntar, mas tinha que fazê-lo, devia fazê-lo. — Como se mata um Caçador? — Não acho que precise saber disso agora, Lena. — respondeu, negando com a cabeça. — Claro que sim. Como vou estar prevenida se não sei o que esperar? — Não terá que se preocupar com isso. Vamos te proteger. — Lisange, desde que cheguei aqui, vocês não têm feito nada mais do que me esconder informação. Por favor, pare de fazer isso, eu preciso saber o que pode acontecer. — Lena... — Vocês dizem que sou parte da família. — aleguei com voz dura. — Demonstre-me. Seu semblante mudou, agora era mais escuro e sério. Lisange me observou por um momento, sem saber muito bem o que fazer. — Talvez já não seja a menina frágil que chegou a nossa casa há alguns meses. — E então? Baixou a cabeça, abatida e começou a falar. — A morte de qualquer que seja das três raças mora no coração.

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— Como. — insisti. — Há mais de uma forma, mas a mais comum é infectá-lo. Os Guardiões são afetados com o nosso sangue, tanto quanto nós somos afetados com o deles. Se chegar ao coração a vitima morre. Eu me aproximei mais a ela, para poder prestar mais atenção. — E como se faz isso? Voltou a me olhar. — Com certeza, o mais seguro é injetar esse sangue ali diretamente, em nós só tem efeito dessa forma porque nosso coração não bate, assim que o sangue do Guardião pára onde nos tenha ferido. Não deixa de ser desagradável e doloroso, mas podemos viver. Em contra partida, como o deles sim se move, são mortais em qualquer ponto. — Então, os Grandes Predadores também, certo? — hesitei antes de continuar. — Você disse que mataram Flávio como a um deles. Ao que se referia? Lisange voltou a baixar a cabeça, aflita. Eu me arrependi de tê-lo citado. — A que lhe arrancaram o coração..., ainda vivo. Sem poder evitar, pensei em Christian. — Mas isso é horrível. — exclamei, levando uma mão a boca. Ela assentiu. — Eu sei. Seu corpo é muito forte para que o sangue de Guardião possa matá-lo, mesmo que possa paralisá-lo por um tempo, por isso a forma mais rápida e eficaz é tirá-lo. Fez-se um pequeno silêncio entre nós. — Mas Christian não poderia..., sabe; usar seus olhos com eles? — Ele te contou? — parecia surpresa. Assenti com a cabeça. — O que ele pode fazer é algo muito comum. — sussurrou.

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— Mas poderia funcionar. Ela negou com a cabeça. — Não pode controlá-lo sempre, e nos serve mais que ele não tente porque poderia alcançar a algum de nós. Christian e Liam apareceram novamente. Seu semblante era bastante sério, mas não pareciam ter brigado. — Você está bem? — perguntou Lisange. — Tudo em ordem. — respondeu Christian antes de virar-se para mim. — Lena, você deve dormir.

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NÃO SOU FORTE.

Christian me acompanhou até uma das casas menos arruinadas e aguardou junto a minha janela até que eu me decidi ir para cama. Levei um longo tempo para dormir porque de repente era incapaz de me manter parada. Não fazia mais do que dar voltas por todo o quarto, nervosa; precisava de ar, por dizê-lo de alguma maneira. Sem dúvida, ele me concedeu espaço, suponho que porque estava igual a mim, perdido em seus pensamentos. — Foi uma noite difícil. — comentou enquanto me colocava enfim, entre as cobertas. — Não fique aí. — lhe pedi erguendo os braços. — Vem comigo. Nesse momento precisava mais que nunca senti-lo por perto. — Não é apropriado. — sussurrou sem me olhar. — E espiar uma garota enquanto ela dorme é? Virou sua cabeça para mim. — Vigio para não correr perigo. — Também se pode fazê-lo do outro lado da porta. — eu disse desconfiada. Levantou-se lentamente, sem fazer nenhum barulho, e se aproximou de mim. Apoiou seu peso com as mãos sobre o travesseiro, uma a cada lado de minha cabeça, tão perto que eu pude sentir o frescor de seu hálito sobre minha pele. — Não me deixe sozinha, por favor. Ele não disse nada, se afastou um pouco de mim e encostou-se ao meu lado. Rodeei-lhe com os braços, apoiando-me contra seu peito. — Sairei depois que você dormir. — murmurou junto a meu ouvido. — Liam tentara encontrar qualquer desculpa para me afastar de você, mas estarei atrás da porta a noite toda, lhe prometo.

379 Deu-me um curto beijo na ponta do nariz e me embrulhou como se eu fosse uma menininha. Resignei-me, fechei os olhos e tentei afastar de minha mente tudo o que tinham me contado. Christian tinha fechado a mente, as janelas do quarto e todas as da casa, assim que, depois de uns segundos, tive que remover os lençóis pelo repentino calor, apesar de que não servia muito, também estava segura de que o sufoco também estava motivado por meu estado de ânimo. Olhei para o teto sem saber muito bem o que pensar. Tinha medo; era a primeira vez que todo o assunto dos Guardiões me causava um especial medo e, contudo, estava ali, deitada, esperando pacientemente que o sono chegasse. A verdade é que por dentro estava histérica, para que negar. Tinha “visto” o que aconteceu com Flávio. Lisange me contou que lhe tinham feito e agora se supunha que me esperava algo muito parecido, mas era incapaz de raciocinar de forma normal. Por quê? Talvez fosse porque me custava assimilar as coisas; quem sabe pela manhã soubesse melhor o que fazer ou o que pensar e passasse todo o dia agarrada a Christian andando de cima para baixo. Levei uma mão a cabeça. Não estranhava que os De Cote preferissem o campo. Na cidade tem centenas de sons mesmo quando para o ouvido humano tenha apenas silêncio: a água correndo pelos esgotos, um gato cheirando entre as latas de lixo, a eletricidade das lâmpadas da rua... Durante o dia podia aprender a ignorá-los porque estava distraída, mas de noite era algo impossível. Era muito mais agradável o sussurro das árvores e o pio da coruja, isso ao menos era relaxante... Tentei concentrar minha atenção em um só ponto; de fato, só precisei de um instante para localizar o som que estava procurando. Um suave palpitar de um coração. Concentrei-me em cada batida, só nisso, e todo o resto desapareceu. Acordei no meio da noite, mas não abri os olhos. O coração de Christian estava mais distante, assim que deveria estar já do outro lado da porta, o que ouvia com mais nitidez era o vento, que se chocava contra as cortinas transportando um estranho odor que colocou meus sentidos em alerta. Abri ligeiramente as pálpebras, mas, então, alguém cobriu minha boca com um movimento tão rápido que nem sequer pude gritar. — Eu vi... — sussurrou a recém chegada voz rouca e o olhar perdido. — Eu vi sangue e grandes línguas de fogo por toda parte. — calou por um momento para contorcer-se com um sorriso de dor; sua expressão era de autêntico espanto, mas continuou. — Grandes chamas escarlates que rugem como leões enquanto devoram todo rastro de vida a um passo. — prosseguiu; então me dei conta de que todo o meu corpo tremia de pavor. — Não podeis desprezar o que sois. — tentei libertar-me dela, mas segurou-me com mais força. — Escuta-me! Eu também vi a morte! Deves esquecer-se dessa absurda idéia mortal sobre o amor agora que

380 ainda tem tempo, ou acabaras como ele. Fuja logo, Lena De Cote, antes que seja muito tarde..., para ambos. Nesse momento, a porta veio abaixo. Christian correu até mim, mas ela já tinha ido. — O que aconteceu? Desviei o olhar para a janela, por onde havia se esfumaçado. — Helga... — gaguejei. — O que ela te falou? — olhei-o e ele reconheceu o pânico em meus olhos, como poderia lhe confessar o que ela havia me dito? Baixei os olhos. Não, não podia. — Lena? Abracei-lhe com força, como se pretendesse que dessa forma nada poderia nos separar. — Me falou sobre os Guardiões de novo. Ele me rodeou com seus braços e me balançou suavemente, tentando consolar-me. — Já se foi. Mas não era certo. Suas palavras tinham ficado muito profundas em minha mente, profundo demais para poder me libertar delas. Renunciei categoricamente a ideia de tentar dormir de novo porque quando fechava os olhos a via, com aqueles grandes olhos quase fora de suas órbitas, e no silêncio escutava sua voz, incessante e penetrante. Tinha tanta coisa pelas quais deveria ter medo... Não sabia o que aconteceria a seguir, apenas que já havia tido três mortes. Isso não saia de minha cabeça. Meses atrás, teria ficado quase feliz pela noticia que alguém queria colocar fim a minha existência, porque era o que desejava naquele momento; mas agora... Era diferente. Fazia tempo que tinha descoberto; sem me dar conta, a razão para seguir vivendo: Christian. Ele fez valer a pena me levantar e não sentir meu coração bater, o único motivo que evitava que me aterrorizasse a ideia de não ser normal, e agora temia perder isso, perder ele... Seria mais doloroso que todo o mal que tinha sentido até agora. Simplesmente, me mataria, e já não tinha mais oportunidade, ou mais vidas...

381 Com sorte, em umas horas iríamos a qualquer outra parte. Um lugar onde não me perseguiriam. Começaríamos de novo, fingindo mais uma vez não ser diferente. Essa era uma ideia reconfortante, Christian e eu passeando como um casal normal pelas ruas de uma cidade qualquer... Embora só se as coisas saíssem bem, porque podiam não ser assim. Podia correr o risco de acontecer o contrário? Christian me olhava da cadeira em frente, aparentando tranquilidade para não me assustar mais e ficou em silêncio, esperando que o cansaço fizesse com que minhas pálpebras cedessem. Mas isso não aconteceu, ficamos toda a noite acordados na sala daquela casa. Aproximei-me dele e me afundei em seu colo. Era a única coisa que queria sentir nesse momento, sua presença, a suavidade de sua pele, seu aroma inundando minha mente... Ele me recebeu entre seus braços e suspirou com força sobre minha cabeça; estava tão angustiado quanto eu, embora não o quisera reconhecer. Chegou o amanhecer sem que eu tivesse voltado a dormir. Tinha passado o resto da noite contemplando suas mãos e sentindo seu corpo, se aproximou de meu ouvido e sussurrou com calma. — Vinte e quatro horas, minha vida, e estaremos a salvo. Sorri, apesar da evidente tristeza que mostrava em meus olhos. A dor tinha ficado presa ao meu coração. Vinte e quatro horas; pensei; só isso. Voltei-me para ele e vi amor reluzindo em seu olhar. Isso era tudo o que eu precisava. Então, tomei minha decisão. Sairia de lá. Fugiria para longe para tirar o perigo deles. Agora sabia que não estava louca. O estacionamento, o bosque, o dia do exame..., eles tinham razão, estavam atrás de mim e eu não poderia ignorar as palavras de Helga. Minha morte não era a única que viria, deveria ir. Se isso o salvaria, então era uma grande razão para fazer. Ele era meu motivo para viver..., e também para morrer. Coloquei-me em pé com um salto, com as energias renovadas. — Hoje é o grande dia. Deixei Christian olhando-me atônico enquanto subia voando para o quarto para me preparar. O tempo era, sem dúvida, um reflexo do que fervia em meu interior. Uma grande tempestade ou, pelo menos, um prelúdio para ele. Era um novo dia porque

382 os relógios assim o marcavam, mas o céu estava escuro e nublado e ventava bastante. Isso fazia tudo mais difícil e dramático, mas a decisão já estava tomada. Dei uma última olhada na casa para comprovar que, efetivamente, não tinham dado conta de minha ausência. Respirei um par de vezes e me afastei com passos acelerados. Estava fazendo o certo me separando deles, afastar o perigo. Não sabia lutar, isso o tinha claro, assim que está era a única maneira que conhecia de protegê-los. Não estava disposta a que se arriscassem a uma morte tão dolorosa por minha causa. Se o fizesse direito, talvez nem sequer eu morresse; também, já havia escapado deles em outras ocasiões. E, se não era assim, bom, me doía muito sair desse mundo sozinha, mas não tanto como a ideia de não voltar a vê-lo. Mesmo assim, devia dar graças pelo pouco tempo em que lhe havia tido; ele havia feito valer a pena morrer, e por ele estava disposta a voltar a fazê-lo. Quem sabe? O melhor dessa segunda "vida" tinha outra realidade em que pelo menos podia seguir observando lhe, também não poderia falar e nem lhe tocar,... Não faça isso. Pediu minha mente. — É o correto. — repeti para mim mesma em voz alta. Era a primeira vez que fazia sentido, mas isso não evitou que me fizesse um nó na garganta. Sacudi a cabeça e apertei o passo; devia sair daquele lugar antes que pudesse me arrepender. Comecei a correr através das numerosas ruas desertas de gente por causa do mal tempo. Eu enfrentei o vento, o rugido das nuvens distantes, a tortuosa voz em minha cabeça que gritava para que eu voltasse e o medo que, cada vez mais rápido, ia apoderando-se de meu corpo. Atravessei toda a cidade antes do que pensava. Não era consciente de que velocidade ou energia estava pondo para fugir daquele lugar. Só sabia que, no principio, avançava entre as vegetações rasteiras, e que a única coisa que importava era tirar toda possibilidade para impedir que Christian fosse capaz de captar meu rastro. Teria coragem suficiente para morrer? Assaltou-me esta dúvida enquanto corria. Seria valente o suficiente? Se pensar friamente, ser ou não, não me serviria absolutamente de nada, porque não mudaria o resultado final; mas não, jamais seria valente o bastante para enfrentar um mundo sem ele. Detive-me um momento, assediada por meus pensamentos. Não tinha sido o bastante; minha vida anterior, minhas recordações, meu futuro..., agora também tinha que tirar-me o amor, o maior que tinha sido capaz de sentir?

383 Quem me dera tivesse podido desfrutar dele um pouco mais de tempo, quem me dera tivesse podido me despedir, mas as coisas nunca saem como as temos planejado, e isso não ia ser a exceção. Minha força de vontade fraquejou. Dei voltas de um lado ao outro, roendo as unhas, não queria fazer isso, não podia ficar em um lugar sem ele, uma vida sem ele. Quis voltar, mas não o fiz. Deixei-me cair no chão e escondi a cabeça entre as mãos enquanto uma repentina e abundante chuva me encharcou. Meus dentes tremiam, mas não de frio, e sim de dor; mordi o lábio para tentar parar, mas foi inútil. Os olhos ardiam como nunca antes tinham ardido. — ONDE SE SUPÕE QUE ESTÁ O CÉU? — gritei levantando a cabeça para as nuvens. — O QUE FOI QUE EU FIZ PARA NÃO MERECER SER FELIZ? Aguardei uns segundos enquanto a chuva encharcava meu rosto, mas não recebi resposta. Enrolei meu cabelo e o puxei com força, com a mandíbula apertada para não gritar, e chorei sem lágrimas. Nesse momento, o vento me trouxe um som distante e atenuado pelo temporal. Eram uns sinos. Olhei para cima e vi através da água da chuva um pequeno sino, não muito longe daquele lugar, entre as árvores. Busquei ao meu redor, mas não reconheci o lugar; era provável que já tivesse me afastado o suficiente da casa dos Lavisier para poder fazer um pequeno descanso naquele lugar. Levantei-me e me encaminhei lentamente para ele. Conforme me aproximava chegava aos meus ouvidos, muito mais nítidas, umas vozes que cantavam. Caminhei por entre as árvores até que eu fui a uma pequena clareira. Ali, não muito distante, distingui uma cidade velha tão pequena que não devia aparecer em nenhum mapa e que tinha apenas umas poucas casinhas muito juntas entre si. Dos telhados, podia ver um velho cata-vento sobre uma cruz ainda mais antiga. Dirigi-me até o lugar serpenteando pelas estreitas vielas desse "povoado" até chegar ao pé de uma antiga igreja. O campanário era alto, com um grande crucifixo meio torto em cima. A parte posterior estava completamente derrubada, mas do interior do edifício procediam às vozes de um coro infantil. Hesitei, não sabia se podia por um pé dentro. Ninguém tinha me dito nada a respeito. E se me queimasse ou me derretesse ou algo assim? Em qualquer caso, seria uma morte muito mais rápida que a que me esperava e isso era um ponto ao meu favor. As portas estavam abertas. A Luz que projetava do interior era tênue. Subi hesitante a escada de pedras irregulares, e parei bem em frente a entrada. Em seu interior tinha apenas uma idosa ajoelhada no primeiro banco e um sacerdote dirigindo o coro no altar. Toda a iluminação vinha de diversas velas,

384 muito consumidas, colocadas ao longo do lugar. Coloquei um pé dentro e aguardei, mas não aconteceu nada, depois coloquei o outro e já estava dentro. Olhei-me, continuava tendo o mesmo aspecto, nada tinha mudado. Não pude evitar a sensação de decepção que me invadiu. Avancei até o penúltimo banco e me sentei para ouvir as vozes. Frequentemente, quando vamos morrer tentamos morrer em paz consigo mesmo e com Deus. Meu principal pecado tinha sido namorar a pessoa errada, mas não podia me arrepender dele, de nada na realidade; e mais, tinha de dar graças por que, a pesar de tudo, a morte tinha me levado a felicidade, uma quase efêmera e fugaz, mas a felicidade no fim e no começo. E se o preço era voltar a morrer, devia aceitar e dar graças. Meu silencioso coração se comoveu com aquelas canções. Não tinha sido exatamente uma boa idéia entrar ali, minha vontade se quebrava mais e mais com cada segundo que passava. Sentia um desejo terrível de chorar, cada vez estava mais segura de que muitos de meus problemas desapareciam. Se pudesse pedir algo nesse momento, seria chorar uma última vez. O coro efetuou um descanso e o sacerdote acompanhou a idosa até a porta. — Posso te ajudar em algo? — levantei a cabeça até ele; não era um homem muito alto, tinha uma barriga saliente e largos pés de galinha nos olhos. A julgar pelo grisalho de seus cabelos, devia ter já uma idade avançada. Sorria-me de forma educada. — Estou bem. — menti. — O senhor escuta e atende as necessidades de seu coração, minha filha. — Não acredito que alguém possa escutá-lo padre. — Ele é o Todo Poderoso, não perca a fé. ELE nunca abandona aos seus filhos. Desviei o olhar e ele voltou de novo para o altar. E nesse preciso momento me sentia bastante abandonada. — O faz aqui? — sussurrou de repente uma voz em meu ouvido. Dei um pulo de susto, tinha notado minha ausência mais rápido do que eu esperava, mas não me virei para ele.

385 — Queria saber se podia pisar aqui. — respondi com voz ausente de vida. — Você sabe; nas histórias de terror os não-mortos não podem pisar nas igrejas. — estalei a língua com amargura. — Mas não me aconteceu nada, e pelo que se vê a você tampouco. — tomei ar. — Portanto também mentem nisso... “Não o olhe”. Ordenei a mim mesma. “Não faça isso ou não terá força o suficiente”. — Lena... “Não faça isso, não...” — Algum dia eu escreverei um livro contando a verdadeira história. — continuei sem prestar muita atenção. Ele se sentou lentamente junto a mim e pegou a minha mão. Voltei a respirar profundamente e a afastei. — Não devia estar aqui. — disse com voz seca. Não podia permitir-me baixar a guarda. — Você também. Olhei fixamente o altar, e tentei concentrar em minha voz o pouco empenho que me restava. — Christian eu não quero que me siga. — essas palavras me doeram, mas era o que tinha decidido. — Não vou ficar sentado observando como você se afasta de mim. — Você não pode fazer nada. — Está errada se pensa que realmente vou te deixar ir. É tarde demais para mim. — fechei os olhos com força, não devia olhá-lo. — Se acredita que assim nos salvará, comete um erro. Sua voz era suave, mas dura. Senti sua mão molhada pela chuva contra meu joelho e seu aroma penetrou em meu interior; o contato de sua pele com a minha reavivou toda essa corrente de sentimentos e sensações que eu sentia quando estava ao seu lado. — Estou condenado a viver preso a você.

386 Levantou meu rosto para ele, todos meus esforços foram inúteis. Levantei o olhar e seus olhos detonaram todas minhas barreiras. — Christian... — sussurrei com a voz rouca. Olhou-me de forma intensa; vi brilho em suas pupilas, o mesmo sofrimento que tinha preso ao meu coração. Sua voz se endureceu. — Aonde quer que você vá, Lena, leva uma parte muito importante minha contigo e eu não posso viver sem ela. — mordi meu lábio com força para tentar amenizar a dor das lágrimas secas. — Você mudou todo o meu mundo. — se aproximou mais de mim, colocando sua outra mão em meu joelho, explorando-me o rosto como se fosse algo frágil. — Então, se você me deixar é melhor que seja porque não me ama como eu te amo, porque se for para me proteger estará caindo no maior erro que poderia cometer. — fez uma pequena pausa e continuou. — Se você se for, acabará com a minha vida de uma forma mais cruel e implacável do que poderia fazer qualquer Guardião esta noite. Seus batimentos dançavam descompassados. Desviei o olhar por um instante e pisquei várias vezes lutando contra a dor. — Não posso permitir que você esteja em perigo. — Por acaso acredita que eu poderia continuar se te acontecer algo, Lena? — disse apertando os dentes com força. — Você é a única coisa importante na minha maldita existência, a única coisa que me faz sentir vivo, a única coisa que faz meu coração bater. Não pode me afastar de você. — Mas..., Lisange me contou como se mata um Grande Predador. — sussurrei; ele conteve o ar e deslizou suas mãos até meus ombros. — Tenho medo de que te aconteça algo ruim. — Lisange não deveria... — Eu a obriguei. — interrompi. — Não podia me manter a margem de tudo. É frustrante. — É pela tua segurança. Levantei a cabeça para olhá-lo nos olhos. — Não saber como podem acabar contigo não me faz sentir mais segura, Christian. — acariciou meu joelho com o dorso da mão.

387 — Para mim sim. Lena, eu tenho medo de que queira cometer alguma loucura. — O que você quer dizer? — Quando não te vi. — sussurrou. — Acreditei que tinha te perdido. — E isso era exatamente que estava tentando. Afastar-me de todos... — Era um plano suicida. — É minha decisão e ainda continuo determinada a levá-lo a sério. Não posso ignorar as palavras de Helga. — O que ela te falou? — fiquei em silêncio, afastando-me dele. Não estava disposta a dizê-lo, isso só complicaria ainda mais. Ele compreendeu que não ia lhe contar e colocou minhas mãos entre as suas. — Não importa. Não existe um futuro escrito, desde que nem sequer deveríamos estar aqui. — levantei os olhos para ele. — Lena, eu tenho muito claro que se morri aquele dia na selva e acabei neste lugar foi porque devia chegar a você. A única razão pela qual sobrevivi neste mundo é porque devia te encontrar, e agora que o fiz não penso em te perder. Nem Helga Lavisier nem suas palavras podem mudar isso. Por que devemos nos preocupar do que os outros falam? O que eles sabem do que sentimos? Todos se esqueceram do que é o amor há muito tempo. — Não é suficiente. — insisti com a voz áspera. — Não se você morre por ele. — prolongou-se um pequeno silêncio. Acabava de lhe revelar, sem querer, em que consistia mais ou menos a advertência de Helga. Pegou-me nos ombros e me empurrou um pouco para trás, de modo que pudesse voltar a se encontrar com os meus olhos, e me cravou um de seus olhares mais impactantes enquanto voltava a falar. — Morrer por você seria a coisa mais maravilhosa que fiz em toda minha miserável existência. — sussurrou. — Não diga isso, eu... — minha voz quebrou, pisquei e inclinei a cabeça para o outro lado, não podia suportá-lo. — Não vai ter que fazer, amanhã tudo será diferente, mas, se vai embora e te acontece algo... — no inicio, sorriu, acariciando meu joelho. — Se ambos devemos morrer, procuraremos ser o mais tarde possível. Quem sabe isso não ocorra até dentro mesmo de vinte séculos.

388 Surpreendi-me ao descobrir a verdade de suas palavras; pode ser que tenha razão, quem sabe ainda temos longas décadas diante de nós. Talvez não tenha o porquê acabar tudo essa noite. Rodeei-lhe com meus braços e coloquei meu rosto em seu peito. — Vinte séculos não seriam suficientes. — sussurrei contra sua camisa. — Não penso em te perder. Christian levou uma mão a minha cabeça e acariciou meu cabelo com ternura. — Alegra-me que de vez em quando pensemos igual. — dedicou-me um sorriso. Seu coração continuava batendo um pouco mais rápido que o normal, talvez pela preocupação. — Você já terminou com seu pequeno experimento? — perguntou-me. — Hã? — Não queria saber se te desintegraria? — Ah, esse... — disse, me lembrando. Ele sorriu em silêncio. — Vamos, está ficando tarde. Um pesado nó se instalou em minha garganta ao pensar no que nos esperava ali fora. Pegou-me a mão e a apertou levemente para me dar ânimo. Agarrei-me em seu braço, e saímos da pequena igreja de volta a casa dos Lavoisier.

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Sangue.



Você deve ir embora imediatamente. — exclamou Christian enquanto

entrava pela porta. — Falei com Gareth. — informou Lisange logo depois de aparecer no salão com Liam. — Mão tem problemas em nos acolher em sua casa. Fui até ele. — O que quer dizer com "você ir"? — questionei. — E o que acontece com você? — Lena; lembra-se o que te expliquei sobre o que acontece aos Grandes Predadores? Comecei a entender sobre o que ele falava. — Essa noite não haverá lua; não posso acompanhá-los, mas pela manhã me reunirei com você, eu te prometo. Não tenha medo, tudo ficará bem. — Tenho muito mais medo de lhe deixar do que ver novamente uma dessas caras. — murmurei para mim mesma. Ao ver a expressão contrariada de Christian um calafrio percorreu minhas costas. Acabava de revelar um dos meus segredos mais bem guardados. — O que você disse? Liam e Lisange se voltaram para mim com a mesma expressão de contrariedade, de modo que me preparei para a chuva de sermões que iria vir. — Lena, responde. — insistiu Lisange. — Bem... — tentei pensar com toda velocidade, em uma maneira de sair disso. — Quando fomos para a montanha... — Não chegou a ver o rosto daquele Guardião; assegurou-me isso. — assinalou Liam.

391 — Isto é importante, Lena. — interrompeu Christian. — Você encontrou com algum outro e não nos contou? Não me atrevia a dizer que sim; de repente me sentia como uma criancinha que acabam de pegar roubando guloseimas. — Quando aconteceu? — perguntou calmamente interpretando meu silêncio. Tomei ar para conseguir coragem. — O primeiro foi..., na noite da festa. — confessei ao final; tudo seria pior se não falasse. — Um deles me perseguiu até a casa; na outra vez nem sequer posso garantir que se tratava de um dos vários deles. Lisange levou a mão até a testa com aspecto consternado. — Somente os Guardiões da Ordem caçam em grupos. — ela murmurou. — Isso foi depois do exame. — acrescentei contrariada. — Neste mesmo edifico. — Chegou a ver o rosto de algum? — Somente o que me encontrou no bosque. — deixei-me cair no segundo degrau das escadas do salão, uma horrível sensação percorreu meu corpo ao recordar. Os três pareciam de repente abatidos, especialmente Christian. Sabia que se sentia culpado porque nesta noite eu havia saído para buscá-lo; mas isso não justificava que Liam e Lisange também ficassem assim. — Não entendo, em que isso muda as coisas? — Em tudo. — sentenciou Christian. — Não escapou por milagre, Lena. Sua intenção não era te matar, ao menos não antes de deixar seu aviso; estavam espreitando. — O que quer dizer? Percorri os três com o olhar, mas ninguém respondeu. — Devemos fazê-lo. — disse Liam, falando mais para si mesmo que para o resto.

392 — Sim. — apoiou Lisange. — Não é tarde, ainda há tempo. — Não falo de fugir. — ele retrucou. — E sim de ficarmos exatamente onde estamos. Ela o olhou como se de repente estivesse louco. — Liam, não haverá lua! Eles nos atacarão esta mesma noite se não partirmos já! — É o que estou tentando dizer, Lisange; devemos ficar e enfrentá-los. — Não penso em expor Lena a semelhante perigo! — exclamou Christian fora de si. — Não fale de perigo, Christian; não é o mais indicado para avaliar sua segurança. Eu tampouco quero expô-la, mas pensei, hoje podemos os três protegêla, mas e amanhã? Se não os detivermos, eles a seguirão a qualquer lugar aonde vá. Se colocar um fim a isto agora, o segredo de Lena desaparecerá com eles. — Se lutarem, eles perseguirão vocês também. — disse. — Somente se não destruirmos todos. É um risco que não me importa correr. Christian desviou o olhar, pensando com o punho pressionado contra sua boca. Então, lembrei-me de algo. — A lua! — pensei em voz alta. — Christian, você não pode... — Certo. — apoiou Lisange. — Liam, nós não sabemos quantos são, se nos atacarem esta noite duvido que eu e você consigamos conte-los, se ao menos ele pudesse... — Existe uma forma. — interveio Christian. Seu rosto estava mais pálido que o normal. — Não tem que passar por isso, nós iremos. Lisange se preocupando por ele? — Não. — ainda pensando, ele interveio. — Liam tem razão. Se eles têm

393 espreitado Lena, vão persegui-la aonde vá. Vou fazê-lo, essa decisão não cabe a vocês tomá-la. O olhei. — Fazer o que? — perguntei com medo. — Injetar sangue de Guardião. — respondeu Liam. Saltei do degrau que estava sentada. — O QUE?! — Bloqueará meu corpo. — explicou com calma. — Meu coração se concentrará em combater e atrasará o processo por algumas horas. — Mas logo será muito pior. — Por favor, Lisange, Lena não tem porque conhecer os detalhes. — Claro que sim! — eu chorei. — Quero saber! — Não. Lisange ignorou o comentário. — Mas estará indefeso. — acrescentou; estava cada vez mais inquieta. — Você perderá suas habilidades, isso se não ficar paralisado. — Não com a quantidade certa. O farei no momento indicado, quando começar a perceber os sintomas. — Mas o seu sangue ficará inutilizado ao misturar-se, e então não terá com que atacar. Liam mantinha os olhos fixos em mim. — Sempre elegeram esta noite para atacar porque acreditam que dessa forma não contarão com a ajuda dos Grandes Predadores. — raciocinou Christian. — As condições serão as mesmas e não estou disposto a ficar de fora. Eles não esperam a um Grande Predador aqui. — Mas saberão que é vulnerável. Irão atrás de você e se te infectarem, nós não poderemos ajudá-lo.

394 Lisange se dirigiu a Liam em busca de apoio, mas ele continuava pensando em algo. — Está bem. — aceitou Liam de repente. — Não! Não, não está bem! Não deve permitir isso! — Não me cabe decidir o que pode ou o que não pode fazer. — Lisange estava tão atônita quanto eu. — Como conseguirá? — Nesse sentido não haverá problemas, temos uma pequena reserva em casa. Demorei alguns segundos para compreender para o que eles queriam esse sangue, e tinha muito a ver com o lado mais escuro de Christian. — E para atacar-lhes? — insistiu Lisange, desesperada para encontrar um argumento que lançasse por terra seu improvisado plano. — Eu emprestarei o meu. — VOCÊS SE IMPORTAM DE PARAR UM MINUTO? — gritei com a respiração acelerada. Todos me olharam, mas não disseram mais nada. Dei a volta e subi as escadas correndo. Fechei a porta com uma pancada e me joguei sobre a cama, abraçando o travesseiro. Embaixo, eles ficaram silêncio. ] Uma batalha corpo a corpo contra Guardiões e Christian sem apenas poder se defender. Certa de que era ao que Helga se referia. Isso significava que Christian podia morrer nessa mesma noite, em apenas algumas horas! Porque havia aceitado voltar? Por quê? Por quê? Por quê? Não deveria ter dado ouvidos, agora estaria longe deles. Porque havia sido tão estúpida? Notei um peso ao meu lado e um braço rodeando minha cintura. — Não quero que injete essa coisa. — solucei sem me mover. Encurtou a distância que nos separava até que seu torso ficou grudado em minhas costas.

395 — Não o faria se não acreditasse que fosse necessário. — sua respiração acariciou minha nuca. — Você se machucará. — sussurrei. — Há anos torturo Caçadores com ela, é hora de provar minha própria medicina. Riu de maneira amarga. — Não tem graça. — bufei contra o travesseiro. — Não se preocupe. Tudo ficará bem. Virei a cabeça para ele. — Pára de tentar me consolar, sabe muito bem que pode ser fatal. — Lena. — disse jogando meu cabelo para trás. — Se chegamos até aqui, tem que ter uma razão; não teria sentido terminar tão de repente, não acha? — Pode ser que nosso destino seja morrer essa noite. — Se for o caso, nós descobriremos juntos o que quer que haja depois. Não vou permitir que nada me separe de você. — já não sorria; somente me acolhia com seus grandes e penetrantes olhos. — Soube que te amaria desde o primeiro instante em que te vi. Não havia nem um leve rastro de insegurança ou vacilação em sua expressão, somente sinceridade. — Teve uma forma estranha de demonstrar. — resmunguei. — Porque também sabia que seria minha fraqueza. — E agora estou aqui, abraçada a você, te suplicando que não cometa uma loucura. — Sim, isso é... — riu. — Sou louco por você. Beijou minha testa, e eu aproveitei para pegar seu rosto com as mãos. — Não faça..., por favor.

396 Ele pegou as minhas mãos entre as suas e as acariciou com os lábios. — Não me peça que não lute por você. Se há um só motivo para fazê-lo, é você. — Christian... — Tudo acabará bem, te prometo. Mergulhei em seus olhos e todo resto se evaporou. O tinha ao meu lado, disposto a torturar-se por mim. Trouxe seu corpo para o meu e o beijei; primeiro no pescoço e logo desci. Queria me embriagar em sua essência. Desabotoei os primeiros botões da camisa para poder continuar pelo peito, mas me segurou com delicadeza pelos ombros e me separou dele. Tinha os olhos febris e os lábios mais vermelhos que nunca; seu coração parecia estar correndo uma maratona, mas seu olhar permanecia firme. — Lena. — sua respiração era entrecortada. — Não faça isso. — Por quê? Levantou-se lentamente da cama e se aproximou da janela enquanto abotoava de novo a roupa. — Parece uma despedida. Andou com passos firmes para a pequena cadeira de balanço no outro lado do quarto e se sentou com grande elegância, entrelaçando suas mãos, os cotovelos apoiados sobre o móvel. — Não... — balbuciei, mas tinha um grande nó na garganta. — Vem aqui. Abaixo começou a ouvir-se golpes e, como se tratasse de uma chamada, voltou a se levantar. — Devo ir, mas retornarei em breve. O imitei e o segui pelas escadas. — Aonde? — queria saber, mas ele não me respondeu. Receberam-me os mesmos rostos preocupados que levava vendo esses últimos dias. Cheguei junto a Christian e lhe peguei a mão.

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— A casa é o melhor escudo que temos. — começou Lisange. — Fecharemos o que ficar e aguardaremos; isso evitará que entrem todos de uma vez. Teremos maiores possibilidades se os enfrentar em grupos reduzidos. — Vamos começar. — O que eu faço? — perguntei. — Você não desgruda deles. — respondeu Christian. — Mas quero ajudar. — aleguei. — Lena. — advertiu, e ao ver minha cara adicionou. — Tudo isso é por sua segurança. Realmente não servia para nada? Senti-me completamente inútil. Resignada, me afundei no sofá, um dos poucos móveis que ainda permaneciam em pé. — Retornarei em seguida. — Deu-me um suave beijo na testa e despareceu poR trás de uma porta. — Fique aqui, Lena. — Liam. — interrompeu Lisange. — Não vai acontecer nada se nos ajudar a fechar tudo. Eu estarei com ela. O olhei suplicante. — De acordo. Senti-me um pouco melhor ajudando Lisange a quebrar os móveis, embora não tenha sido uma tarefa nada fácil, sem me dar conta, havia conseguido dominar o uso da minha força e isso me subiu um pouco a moral. Mas, quando Christian retornou, insistiu em que deixasse isso e descansasse; algo totalmente injusto. Tive que me conformar em pregar pedaços de madeiras para tampar uma janela que Lisange havia me cedido em um alarde de compaixão enquanto Christian sustentava Liam no sótão. Era como se eu fosse um pacote e isso me irritava. O pior de tudo era que devia me resignar e ficar em silêncio, porque estavam fazendo tudo por mim.

398 Colocavam em perigo suas vidas sem saber ao que estavam enfrentando, e tudo para me proteger. Apoiei-me contra a parede e deslizei até me sentar no chão enquanto Lisange terminava com as últimas madeiras. — Do que servirá isso se podem quebrar com um dedo? — Eles não podem fazer isso. — disse colocando-se ao meu lado, tinha o aspecto muito cansado. — Não tem essa habilidade. Suas vantagens são a velocidade, tanto como a nossa força. — Mas se movem tão rápido, como vamos enfrentá-los? Lisange franziu o cenho, pensando. — Esse é o grande inconveniente, mas tivemos séculos para aperfeiçoar nossos reflexos. Por isso você é tão vulnerável. Christian passou ao meu lado e perdi o fio da conversa. Parecia doente. Seu andar era pesado, seus olhos estavam vermelhos e sua pele se debatia entre o verde e o amarelo, o mesmo tom de alguém a ponto de vomitar. Desmoronou sobre uma cadeira com a cabeça jogada para trás e as pálpebras caídas, e cobria o antebraço esquerdo com a mão. Parecia apagado, igual a alguém que leva semanas sem dormir, embora na realidade fossem séculos. Não me custou entender porque se encontrava nesse estado. Levantei-me e fui rapidamente para ele. — É essa coisa, certo? Respirava com dificuldade, de forma lenta e profunda. — Estou bem, só será um momento. — Não tinha que fazê-lo. — sussurrei ao seu lado. Olhou-me. — Já falamos sobre isso. — Eu sei, mas odeio te ver assim. — Nesse caso, vou para outra sala. — fez a tentativa de se levantar, mas não pôde sustentar seu próprio peso e voltou a cair. — Christian..., não, não tem que ir, por favor.

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— Me machuca que pense que não merece isso. — Eu te amo. — eu disse em uma tentativa de desculpas. Ele estendeu seus braços e rodeou minha cintura, enterrei os dedos em seu cabelo e beijei sua cabeça. — Você disse: nada de ser super herói. — sussurrei. — Verdade, até que encontrei a razão para ser. Respirei devagar. — O que vamos fazer agora? Separou-se de mim e me sentou em seu joelho, puxando com dificuldade um leve sorriso em seus lábios perfeitos. — Nada, somente ficar juntos. — respondeu. Aconcheguei-me em seu colo. O batimento do seu coração era fraco, cansado e de vez em quando palpitava muito mais forte. Fazia me sentir terrivelmente mal notar seu corpo estremecendo e tenso em uma tentativa desesperada de aliviar o sofrimento, sobre tudo porque eu era a razão para que tenha injetado essa coisa. Eu era o motivo de seu tormento, e esse sentimento me lembrou as palavras de Helga. — No que está pensando? — perguntou de repente aproximando sua testa da minha. — Em seus lábios. Acariciei-o com a ponta de um dedo e sorri com tristeza. — Sempre desejo o que não posso ter. — declarei. — Tudo o que sou pertence somente a você, Lena. — Nunca por completo. — suspirei. Ele deslizou o dorso de uma mão pelo meu rosto. — Precisamos apenas de tempo.

400 — Nunca por completo. — suspirei. Beijei sua mão e encostei novamente em seu ombro. — Isso se passarmos dessa noite. — Tudo vai sair bem. — ele tentou me tranqüilizar. — Como pode estar tão seguro? O olhei. Ele encolheu os ombros com um sorriso travesso nos lábios. — Ainda tenho que te beijar, assim eu terei como me assegurar que sobreviveremos a isso. Sorri afastando uma mecha de cabelo que havia caído sobre seus olhos. Seu corpo voltou a ficar tenso em um novo golpe de dor e eu estremeci; daria tudo para ser capaz de aliviar essa tortura. O tempo passava lento enquanto esperávamos que a noite chegasse. Uma parte de mim ansiava que tudo terminasse, mas a outra estava aterrorizada pelo que poderia ocorrer. Não sabia quantos deveríamos enfrentar, ou se serviria de algo o que havíamos estado fazendo. Todos nos reunimos na sala em ruínas, sobre os estofados rasgados do sofá. Ninguém falava, para variar. Christian brincava distraído com os dedos da minha mão e mantinha o olhar perdido no vazio. De vez em quando se retorcia sutilmente e sua aparência estava cada vez pior. Lisange estava enrolada, segurando os joelhos com os braços, e tinha os olhos cravados em uma das janelas, alerta a qualquer ruído. Liam dava voltas por toda sala, impaciente, com a mandíbula apertada e todos os músculos tensos. Perdi menos como as coisas eram antes, tal e qual havia conhecido no momento em que despertei ali, exceto claro, por Christian. Fazia séculos que não via um sorriso sincero nos lábios de Liam, nem a Lisange tão despreocupada e alegre como no principio, e a Flávio..., tudo havia mudado agora, exceto pelo fato de que me sentia novamente fora de tudo, como se pertencesse a outro mundo muito diferente. Liam de repente apareceu diante de nós, com um pano enrolado no colo. — Eu encontrei isso. — disse devolvendo com cuidado o trapo.

401 Estiquei o pescoço para ver seu conteúdo e descobri três adagas de aço, cada uma de um tamanho e formato. Eu acho que era parte da decoração, mas serviam. Entregou uma a Christian, outra a Lisange e guardou a última para ele. — Lena, não se aproxime do sangue. Assenti. Christian me olhou com o cenho franzido, surpreso de que não reclamei. — Não estou com animo, nem sequer para isso. — sussurrei. Pareceu satisfeito. Lisange levantou e se aproximou da janela para espiar o exterior através das frestas que havia ficado entre as tábuas. — O céu já se fechou. — anunciou. — A partir de agora podem aparecer a qualquer momento. Estremeci. Christian me afastou um pouco e foi para o seu lado. — Apareceu alguém? — perguntou Liam. Christian entrecerrou os olhos, penetrando na noite. — Vejo uma figura humana, está apoiada contra uma árvore a uns cem metros da casa. — Um Guardião? — me aventurei. — É possível, parece vigiar a entrada. Ouvi um ruído e, assustada, levantei os olhos para o teto. Algo se movia no último andar. Christian colocou-se na minha frente a dois passos. Liam já estava no pé da escada, escutando na escuridão. O ruído não parava, parecia que alguém derrubava uma pilha de objetos de metal. É claro, quem quer que fosse, não estava sendo nada discreto. — Talvez seja um ladrão. — arrisquei em um sussurro, incapaz de articular as palavras. Lisange se colocou ao meu lado. — Se for, escolheu um péssimo dia para vir roubar. Liam subiu um par de degraus, descobrindo o antebraço sem afastar os

402 olhos do alto da escada. — Não suba. — pedi. Mas ele não me escutava. Tirou a adaga e afundou a ponta em sua pele. Um segundo depois, voltou a desenhar as manchas de sangue, pronto para atacar. Houve um grande estrondo e um golpe seco sobre a madeira, seguido de um grito agudo. Algo desceu rolando as escadas e caiu aos pés de Liam. Ao ver de quem se tratava, Lisange correu para o seu lado. — Helga! Liam afastou lentamente a lâmina afiada do pescoço da mulher que permanecia no chão. Seu olhar estava arregalado, observando ao seu redor com pavor. De repente, ela reparou em mim, eu retrocedi um passo. — Helga, não é seguro que venha agora. — Você acha que não tenho notado o que se aproxima da minha casa? — reclamou no chão enquanto mantinha seus olhos cravados em mim. — Perdoe a invasão, Adam mandou nos refugiar aqui. — Eu sei que ele o fez. Colocou-se de pé com certa dificuldade, ajudada por Lisange, parecia mais sensata do que às vezes anteriores que havia visto e isso me pareceu chocante, embora não sei bem por que. — Estou aqui para ajudá-los. Havia tirado o pijama branco com que havia visto da primeira vez. Agora usava roupas mais novas, mas colocadas de forma desordenadas, e além do mais, emitia um estranho odor, uma mistura pouco agradável de todos os lugares que tinha estado. Suas feições delatavam todo o sofrimento e a dor que sentia; o cabelo negro desaparecia em diversas áreas da cabeça, aparentando calvícies que não tinha visto antes, mal tinham unhas nos dedos. Devia ser horrível se ver nessa situação. Lisange pegou suas mãos com suavidade e olhou horrorizada. — Isto deve doer horrivelmente.

403 Ela se afastou bruscamente dela. — Vem Helga, vou te fazer curativo. — Não há tempo para isso! De repente, uma mão chegou com força no peito de Liam e o apalpou sem encontrar o que procurava. — O que aconteceu? — sussurrei a Christian. Ela cravou seus arregalados olhos de novo em mim, mas não disse nada. Com um só tapa o sofá, poltronas e mesa, foram lançados para o lado. Fique espantada ante tal demonstração de força. Tirou o tapete e descobriu um alçapão no chão, pouco visível pela camada de poeira. Um pequeno anel sobressaía-se sobre a superfície cinzenta. Helga puxou e desapareceu debaixo do solo. Segundos depois reapareceu com uma pilha de objetos metálicos que tilintavam em sua passagem. Ela nos olhou e jogou no chão, provocando um ruidoso estrondo. — Uma para cada Caçador. — olhou para Christian, acentuando de forma exagerada a última palavra. Levou um e o passou pela cabeça. Observei-a e descobri que se tratava de algo como uma proteção, como um colete que usado pela policia, mas que cobria somente a parte esquerda do torso, desde o ombro até a altura do esterno, passando por debaixo do braço. Christian já havia pegado um e o analisava de perto. — Como os conseguiu, Helga? — Eu mesma os fiz há alguns anos. Acredito que um para cada membro da minha família. Os joelhos se dobraram ao sentir o peso sobre o ombro esquerdo. — Posso? — me pediu Christian. — Vá em frente. Levantei o braço para lhe permitir uma maior liberdade de movimento. Com grande destreza, separou todas as correntes e foi pondo-as uma a uma em seu lugar. Passei um dedo na superfície desse artefato e me surpreendi; o tecido que o cobria era fofo e suave.

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Penetrei um pouco mais no tecido e toquei uma placa sólida, algo muito duro e de grande espessura. Isso explicava o peso. — Levei meses em imprensar todo esse ferro com minhas próprias mãos. — informou Helga, observando como Christian terminava de ajustar as fivelas das últimas correias do couro abaixo do meu ombro direito, assegurando-se de que o esquerdo ficava completamente protegido. Quando terminou, se afastou alguns passos para contemplar-me. Devia ter uma aparência horrível com isso posto, mas ele pareceu satisfeito. — Foi uma grande idéia. — felicitou Christian. — É uma obra de arte. — Os autênticos são quase inacessíveis. — reconheceu Lisange, que ainda continuava surpresa. Utilizava a ponta de sua adaga para tentar atravessar a armadura, mas não conseguiu. — É perfeito. — adicionou. Mas Helga já não estava conosco, seu corpo era a única coisa que ficava. Estava calada, mais pálida ainda e com os olhos vidrados e vermelhos, muito mais abertos do que o normal. — O que aconteceu, Helga? Piscou duas vezes e anunciou com voz gutural: — É a hora. — anunciou. Então se fez o silêncio.

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Ação.

Nem nossas respirações, nem o ar fora da casa..., tão somente escutava as batidas do coração de Christian, algo que não fazia mais que anunciar a tensão. — Não pode fazer que se cale? — soltou Helga. — Assim não podemos pegálos de surpresa. — Arranca-o. — pediu ele com sarcasmo. Helga lhe deu um olhar selvagem. Eu me aproximei mais a ele me interpondo entre ambos e a olhei ameaçadoramente; não estava certa de que fosse se lançar contra ele para fazê-lo. Christian riu baixinho. — Espero que isso não lhe pareça divertido. — lhe sussurrei. — Dentro de alguns anos será. Meu corpo estava entorpecido, expectante a qualquer pequeno indicio que mostrasse que não estávamos sós. Devia reconhecer; nunca tinha sido valente, não era nenhum mistério, e isso não era bom em uma situação como aquela. Talvez eu tenha sido no principio da minha nova vida, quando buscava colocar um fim a tudo, mas agora era diferente. Embora a verdade fosse que, o que me assustava não era o medo de morrer, mas sim algo muito pior; o medo de me separar dele; fosse qual fosse a razão. Se acontecesse algo com ele, eu não queria continuar vivendo mais. Devia ter esse pensamente muito presente, porque se acabassem com ele essa noite teria que aproveitar minha oportunidade com os Guardiões para que fizessem o mesmo comigo. Eu não poderia vingá-lo, somente me restariam forças para me unir a ele e ao que venha depois. Assim devia ser. Confortei a mim mesma; pensando friamente, já havia passado por isso uma vez. Todos prepararam suas armas. Liam pegou a sua com firmeza e parecia pronto para enfrentar o próximo cara; Lisange também fez um corte em si mesmo e Christian ensangüentou sua adaga no braço de Liam, mas, em troca, Helga abriu a boca e enfiou a afiada lâmina em sua língua. Seu rosto era selvagem, destacados por uns olhos violentos e fora das órbitas.

407 Quando consegui fugir do olhar de Christian, me cortei com um abridor de cartas afiado que havia encontrado debaixo de uma mesa quando destruímos todos os móveis, e o escondi debaixo do colete, somente se necessário. Se algo me ameaçar, não ia ficar sentada. Tentei me acalmar, tudo ia sair bem. — Deveria ter partido. — murmurou Helga atrás de mim, em meu ouvido, com voz rouca, me sobressaltei. Uma horrível sensação me percorreu a espinha. — Agora aguente as consequências. Virei-me para enfrentá-la, mas mantive o rosto impassível. Então algo interrompeu a noite, e todos os cães ao redor da casa começaram a latir como se houvessem perdido a sanidade. Olhei para a janela e logo para Helga outra vez, mas já havia retornado a sua posição, próximo a Liam. Então me virei para Christian. Ele me encarou e pegou minhas mãos. — Lena. — disse lentamente. — Se a situação escapar das nossas mãos quero que vá com Lisange; ela a levará para um lugar seguro. Neguei com a cabeça. — Não penso em te deixar. — Isto não é discutível. — Estou de acordo, não é. — Lena. — interveio Liam sem mover-se. — Ele não pode protegê-la e se cuidar para que não o ataquem ao mesmo tempo. Christian buscou meu olhar novamente. — Eu não quero deixar você minha vida; não o faria se não fosse a melhor opção. Uma vez mais, eu era a carga que colocava em perigo ao resto. — Ok. — concordei, dando as costas, irritada. Christian avançou para o alçapão e o abriu pouco antes de segurar minha mão e me puxar. Dei um passo para trás ao compreender o que ele pretendia.

408 — Não vai me prender aí dentro, Christian Dubois. — informei apontando com um dedo o interior do alçapão. — É pela sua segurança. — Dá no mesmo. — afirmei. — Não penso em me esconder. — Lena, por favor, Liam tem razão. Bufei ainda mais irritada. Se sairmos dessa, vão me pagar muito caro. O lugar era pequeno, como esperado. Limitava-se a algumas caixas empilhadas no fundo, um grande saco onde imaginava que haviam estado guardados os coletes, e uma pequena lâmpada desligada. Apertou os lábios contra minha mão como um adeus, interceptando minha intenção de abraçá-lo. Dei-lhe um olhar suplicante antes que fechasse a porta do alçapão, mas ele se limitou a lançar um beijo triste. Ouvi fechar a argola e vi os pés de Christian passando por cima. Pelo menos, havia umas frestas por onde poderia ver o que acontecia. Fiquei esperando, rodeando os joelhos com quase todo o corpo. Não era justo. Eu deveria estar lá em cima, ao seu lado, lutando por ele da mesma forma que ele ia fazê-lo por mim. Jurei que esta seria a primeira e última vez em que eu seria o elemento inativo, o passivo, o inútil. Mas nesse momento ouvi algo, um pequeno som quase imperceptível. — Estão dentro. — sussurrou Lisange. Levantei-me em um pulo e me aproximei do teto, já havia algo ali. Era uma figura alta e imponente; estava com o rosto tampado, deixando descoberto somente os olhos e a boca, e vestia branco, um branco imaculado. Liam era o que estava mais próximo e Christian e Lisange guardavam a retaguarda. Atrás apareceram outros três Guardiões; desejei gritar para lhes avisar, mas antes que pudesse dizer uma palavra já estavam esquivando dos seus golpes. Não fui consciente do momento em que a luta começou; tudo acontecia muito rápido. Os Guardiões apareciam e desapareciam na velocidade de um raio, mas eles sempre estavam preparados para evitar o ataque seguinte. Uma nova figura foi direto para Lisange, enquanto os outros dois atacavam Christian. Ela tinha razão; haviam ido para ele porque sabiam que estava vulnerável. De repente, ouvi um grito, era Helga, eu tinha certeza. Procurei-a o

409 mais rápido que pude, mas não fui capaz de encontrá-la. Quando voltei o olhar, Liam desaparecia escadas acima. Nervosa, voltei a concentrar minha atenção no pequeno grupo que estava lutando a poucos metros de mim. Senti um pequeno arrebatamento de felicidade quando Christian conseguir enfiar sua adaga em um deles. O companheiro com raiva saltou sobre ele o atirando ao chão. Por seus rugidos deduzi que se tratava de uma menina. Os vi lutar: as mãos dela eram como garras e lançavam murros aqui e ali; em um desses ataques ela agarrou o pescoço de Christian. Um grunhido de raiva brotou em meu interior. Levei a mão onde mantinha oculto meu pequeno abridor de cartas, mas me contive; Christian havia se desfeito dela e a havia lançado através de toda a sala. Caiu próxima ao alçapão, que tremeu com o golpe, e ele se apressou a se aproximar da área em que eu estava escondida. Então, ela colocou a mão em seu bolso e tirou algo metálico. Ao vê-lo, Christian gritou algo que não fui capaz de entender. Do objeto surgiu uma pequena luz: era um isqueiro. Virou a mão lentamente em direção a janela, saboreando cada segundo, e aproximou-se da cortina. Não se passaram nem dois segundos até que a chama pegou na cortina e começou a consumi-la. Ela riu e desapareceu, ressurgindo no outro lado da sala., e fez o mesmo. Um instante depois havia vários focos de incêndio. O fogo logo começou a se expandir rapidamente por toda a casa. Ouvi um grande estrondo ao mesmo tempo em que uma grande nuvem cinza caia sobre mim através do teto do meu esconderijo. Como ato instintivo eu me agachei, protegendo a cabeça com os braços, mas pouco depois voltei a me colocar de pé para ver o que havia acontecido, toda a agitação; mas eu não era a única a quem a poeira cobriu a visibilidade, que através do chão era praticamente nula. Eu olhava subir ainda mais pela madeira. Via as chamas ao redor de toda a sala e a fumaça logo começou a penetrar entre as frestas do chão. A temperatura estava subindo muito rápido. Fazia calor, muito calor. Devia sair dali rápido. Empurrei a tampa do alçapão para fora, mas não aconteceu nada; algo a bloqueava. Nem sequer minha força era capaz de levantar o peso que havia sobre a tampa. Retrocedi uns passos, sem saber o que fazer. Olhei ao meu redor procurando algo que pudesse me ajudar, mas não encontrei nada. Estava presa. O ruído era ensurdecedor, não podia ouvir nem a mim mesma. Tentei encontrar Lisange e a Christian, mas estava muito nublado. Golpeei com força a porta e proferi um grito que também não consegui escutar quando o dei, próximo as frestas, duas enormes pupilas azuis e frias como o gelo. Um pequeno grito

410 escapou de minha garganta e caí para trás com o susto. — É um verdadeiro prazer te ver de novo, Lena. — sua voz já não era aguda e estridente, mas sim profunda e perturbadora. Mas apenas um momento depois, desapareceu gritando como se houvesse recebido um forte golpe. Afastei-me assustada até que choquei contra a parede oposta. De repente, dois punhos atravessaram o chão fazendo um buraco mais ou menos; grande. A fumaça começou a entrar mais densa e o calor se identificou. As mãos me agarraram os pulsos e me puxaram para cima. Tentei me soltar, mas então percebi vagamente o rosto de Christian entre a atmosfera entupida e me abracei a ele. — Está bem? — perguntou com ansiedade. Mas não pude responder, pois algo nos golpeou bruscamente, nos separando. Eu caí contra o monte de destroços que bloqueavam o alçapão. Olhei ao redor, mas não pude vê-lo. Nem a nada. Uma sombra navegou pelo teto e caiu em frente aos meus pés: Silvana havia se desfeito do tecido que cobria o seu rosto, mas incluindo o cabelo branco, os olhos coléricos e os dentes pontiagudos eu podia reconhecê-la. Usava uma grande adaga de prata ensanguentada na mão e a girava preparando-se para atacar. Mantinha o olhar fixo em mim e sorria de forma macabra, mostrando ameaçadoramente seus dentes afiados. Arrumei-me como pude sem perder o contato visual nem por um instante. Caminhamos em círculos, uma de frente a outra; ela preparada para atacar e eu tentando encontrar uma maneira de evitá-la. Devolvia-me o olhar fixamente, como se tentasse adivinhar meus movimentos. — Perdoe a interrupção de antes. — disse. — Seu namorado interferiu no pior momento. Pestanejou e apareceu atrás de mim. Sem saber a qual instinto devia agradecer, me agachei bem a tempo de evitar o seu ataque, logo rolei no chão para escapar de outra investida e me coloquei de pé, pronta para esquivar do golpe seguinte. Não era consciente do que fazia, somente podia confiar em meus instintos e meus maravilhosos reflexos, sem os quais haveria caído. Ela se lançou de novo para cima de mim, mas desta vez não tive tanta sorte. Agarrou meu pescoço, levantando-me um palmo do chão, e com uma só mão me jogou contra a cristaleira dos Lavisier. Bati fortemente contra o vidro e caí do outro

411 lado da sala a poucos metros do fogo. Demorou um instante para eu tomar consciência do que acabava de acontecer. Tentei me colocar de pé com dificuldade. Lisange estava equivocada, não tinha dúvidas de que os Guardiões tinham uma grande força. Não consegui me endireitar. Silvana já havia me pegado pelo cabelo e me arrastava pelo chão até me bater contra uma das colunas do centro do salão. Com o golpe, a pedra se quebrou e caí de bruços sem nem sequer poder gritar. O pequeno abridor de cartas caiu sobre a superfície de madeira, junto a minha mão. Ouvi Christian á distância. — LENA! Mas Silvana já estava sobre mim, empunhando a adaga infectada. Cercavame como um animal sedento de sangue. Em uma tentativa desesperada em desviar sua mão da trajetória para meu coração, peguei a pequena faca e fiz um corte profundo na mão. Ela gritou, tive que tampar meus ouvidos para me proteger do tremendo grito, ela se voltou raivosa para mim, disposta mais que nunca a me matar. Apavorada, eu a golpeei sem saber como, para afastá-la, mas foi tanta força que empreguei que atravessou a sala voando e bateu contra a parede oposta. Escutei o som de vidro e a madeira quebrando. Christian pousou ao meu lado, não poderia dizer exatamente vindo de onde, ajudou-me a levantar com uma só mão e me atraiu para si. Senti as madeiras serem retiradas. Desviei o olhar na direção de onde vinha o ruído e vi Silvana recuperada novamente. Ela nos olhava de forma sombria, com um grande sorriso assustador. Christian se interpôs entre ambas empunhando a adaga no alto. Nesse momento, uma parte do telhado caiu onde ela estava, mas Silvana já havia desaparecido; a casa desmoronaria de um momento a outro. Os De Cote apareceram ao nosso lado. — Quantos ficaram? — questionou Liam. Tinha toda a roupa rasgada e manchada pela fumaça, igual a sua imaculada pele. — Entraram quatro e acabamos com todos eles, não? — respondeu Lisange, com a mesma aparência de Liam. — Cinco. — corrigi. — E acabaram com três; Silvana e o outro escaparam. O calor era cada vez mais agonizante. O teto rangeu, as chamas já haviam começado a destruir a fundação. Uma viga incendiada vacilou.

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— Vamos sair daqui! Notei o braço de Christian me puxar com força para o meio dos jardins. Ali não havia ninguém. — Como Silvana pode ser um Guardião e não termos nos dado conta? — exclamou de repente Lisange olhando em todas as direções. — A verdade é que tem lógica. — sentenciou Liam, também em guarda. — De verdade? — perguntei voltando-me para ele. — Poderia ser..., começou a assediar Liam desde a sua chegada. — assinalou Lisange pensativa, se dirigindo a ele também. — Nos equivocamos com suas intenções, quando se apresentou com o convite, pretendia vigiá-la; por isso ficou tão nervosa ao nos ver ali, foi o dia que decidimos não ir ao clube no último momento; ela não nos esperava. Como não nos demos conta da reação de Cain? — Isso não explica como entraram na casa. — Usaram a minha chave. — eu disse, e os três me olharam. — A que perdi faz um tempo. — E como chegou a suas mãos? — questionou Christian, ciente de cada pequeno som. — Não sei, acredito que as perdi no clube. — sua expressão passou do desconcerto a uma dolorosa compreensão. — Renoir... — anunciei de repente iluminada com uma nova luz. — Ele deve ser um dos que estão aqui esta noite. Por isso não forçaram a porta. Certamente as pegou da mochila que guardei ali. De fato, — continuei, pensando a toda velocidade. — Se Renoir é um Guardião, esse clube deve ser o lugar onde tem controlado a todos os Clãs. Vi outros nomes como Dubois, Lavisier..., e havia mais... — Ele queria saber de tudo: quando havia vindo, de onde procedia... — prosseguiu Lisange novamente em guarda. — E... — continuou Liam com ar meditativo enquanto se afastava de nós com grande pesar. — Nos ouviu falar em inúmeras ocasiões de nossa viagem a montanha. — balançou a cabeça, derrotado. — Como pudemos passar por alto com tantos sinais?

413 — Onde está Helga? — perguntei de repente, percebendo no momento sua ausência. — Desapareceu pouco depois de a casa incendiar-se. — explicou Lisange com voz ofegante. — Não voltamos a vê-la. Christian envolveu-me com seus braços para me confortar. — LIAM! — gritou Lisange de repente. Nós nos separamos como se uma corrente houvesse se interposto entre nós e, horrorizada, vi a uma sombra branca atrás de Liam. Tudo aconteceu em câmera lenta. Liam virou para encará-lo, mas, neste momento, a figura enfiou um punhal em seu lado. O vi se encolher de dor, impotente, e caiu no chão de joelhos. Com uma careta de dor arrancou o objeto e o lançou longe. O Guardião já havia preparado outro, para cravar desta vez em seu coração, mas Liam se virou e fundiu a adaga no peito do atacante, que desmoronou no chão. Lisange correu para o seu lado, eu quis segui-la, mas Christian me deteve. Uns gritos estridentes irromperam na noite, alheio aos ouvidos humanos, acompanhados uma vez mais pelos latidos incontroláveis dos cachorros da cidade. Liam levantou-se novamente. Qualquer rastro de cor havia abandonado seu rosto e respirava com dificuldade, apertando a mandíbula com força para esconder o sofrimento. Ele caminhou alguns passos para longe de Lisange e brandiu outra vez sua arma. Christian apalpou seus bolsos, procurando algo com avidez. — O que aconteceu? — perguntei alarmada. — Silvana me tirou a segunda dose do sangue de Guardião. Olhei-o assustada. — Está bem? — não lhe dei tempo de responder, algo desviou minha atenção por completo. — Christian, ali! — sinalizei o alto do telhado entre as chamas. Não podia ver de quem se tratava, mas a uns cinquenta metros de nós havia um Guardião apontando um arco para Lisange, a ponto de disparar. Eles não iam deixar de aparecer? Virei-me para Christian, mas ele estava curvado, com uma mão apoiada contra o coração e os olhos vermelhos.

414 Ergueu-se e me olhou profundamente, acariciando minha bochecha com uma mão. Um mal pressentimento percorreu todo o corpo. Ele abaixou um pouco a cabeça para mim e, com muito cuidado, apertou seus lábios contra os meus. — Vai com ela. — sua voz era ofegante, apenas audível. — Christian... Mas ele deu um passo a frente, saltou ao meu lado, voou pelo ar e aterrissou no telhado. Pestanejei um par de vezes para assimilar o que acabava de ver e, por sorte, um instante depois reagi. Corri para Lisange e me joguei sobre ela, jogando-a no chão no momento que uma rápida flecha raspava por nossas cabeças. Ela olhou para o telhado; ali Christian se envolvia já em uma luta contra o individuo que havia a disparado, logo me deu um rápido olhar. — Obrigada. — me disse Lisange, surpresa. Liam caiu no chão, inconsciente. — LIAM! — desta vez fui eu quem gritou. Corremos para ele, mas do nada, apareceu Silvana interrompendo nosso passo. Desviei de sua adaga por milagre, mas me fez um pequeno corte no braço. a área começou a arder, como se eu houvesse me machucado com ferro quente. Caí no chão, mas Lisange se interpôs entre ambas. No fundo, sabia que elas desfrutavam desse encontro; a aversão que sentiam uma pela outra era palpável, incluindo quando acreditávamos que ela era humana. Lisange sorria e, então, tudo aconteceu. Foi uma série inesgotável de movimentos. Silvana era um conjunto de borrões que apareciam e desapareciam, e Lisange apenas se movia no lugar. Em uma de suas múltiplas aparições, Lisange se jogou contra ela pegando-a de surpresa e esta não pode desviar. Ambas foram lançadas com grande força para o fundo do jardim, distantes de nós. Poucos metros de distância, vi um pequeno objeto no chão que refletia o fogo que queimava a casa. Silvana devia ter perdido a ampola de Christian nesse último ataque. Corri e a peguei antes de perder a chance. Quando virei a cabeça, vi que Lisange e Silvana voltavam para a área. Arrastei-me até o lugar onde jazia Liam, enquanto Christian e Lisange lutavam entre a vida e a morte. — Liam. — sussurrei. — Lena... — sua voz apenas audível e sua respiração irregular. Mantinha os olhos fechados com força pela dor. — Me fale o que está acontecendo, eu te

415 imploro. — me pediu. — Christian está lutando contra um Guardião no telhado, acredito que o sangue deixou de fazer efeito. — olhei nervosa para o lugar, mas somente podia distinguir manchas se movendo muito rápido. — E Lisange está com Silvana. — continuei. — Nem vejo nada mais. Liam tomou ar para falar de novo. — Lena..., você deve fugir. — Não penso em deixá-los. Lisange parou, de repente, Silvana havia desaparecido. Deu voltas sobre si mesmo, em guarda, mas já não voltou a aparecer. Aproximou-se rápido do nosso lado, exausta, e se dobrou pela cintura tentando normalizar a respiração. — Christian está mal. — foi a primeira coisa que disse.

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Adeus.

Ouvi as sirenes dos bombeiros cada vez mais próximas, mas ainda estavam alguns quilômetros dali, muito tarde para deter toda aquela loucura. De repente, a voz de Christian sobressaiu-se claramente entre todo o ruído. — LISANGE! LEVA A LENA DAQUI! FAÇA AGORA! Caiam estilhaços de todos os lados, a fumaça começava a nos rodear e dificilmente se distinguia algo, as vigas enfrentando cada vez mais fracamente a esse monstro. Ambos se moviam muito rápido, saltavam, voavam... Aquilo parecia retirado do mais profundo dos meus pesadelos. —Não vou deixá-lo. — adverti, me afastando dela. Liam estava novamente em pé, ao meu lado. — Eu vou ajudá-lo, vai embora! — Você está ferido, não pode se arriscar! Ouvi um grande ruído, algo quase ensurdecedor. Virei a cabeça em pânico para a casa a tempo de ver como a fundação cedia e os restos da casa dos Lavisier desapareciam entre as chamas. — CHRISTIAN! — gritei correndo para lá com os olhos muito abertos, mas Lisange me seguiu e me deteve me pegando pelas costas antes de poder me aproximar o suficiente. Lutei e ambas caímos no chão. — Lena; devemos partir. — disse me contendo com força. — TEMOS QUE TIRÁ-LO DALI. — gritei fora de mim. — Não pode entrar! Morrerá! Liam entrou na minha frente e se virou para nós. Não parecia nada bem; a ferida que havia recebido tinha uma péssima aparência, mas, ainda assim, se ergueu tanto quanto pode e endureceu seu rosto antes de adicionar: — Faremos o

418 que havia sido combinado. — olhou para os escombros e logo para nós. — Vá embora! Um instante depois, Liam desapareceu atrás da fumaça. Lisange agarrou meu braço e me puxou com muita força, mas eu resisti; não podia afastar-me nem um passo dele, não sem saber se ainda estava vivo. Negava-me a deixar Christian ali e agora também Liam. — Lena nós temos que ir. — Não posso fazer isso. — solucei, sentindo que minhas forças começavam a fraquejar. — Sabem se cuidar. — insistiu apressadamente. — Você não. Vamos! Mas não me movi, não queria. Então, notei que alguém me levantava do chão: Lisange havia me pegado e corria já na direção contrária. — NÃO! LISANGE! POR FAVOR, DESCE-ME! DESCE-ME! NÃO QUERO DEIXÁLO! Ela ignorou minhas súplicas e continuou correndo, ignorando meus esforços, impotente, via se afastar cada vez mais do horizonte e Christian que... "Grandes línguas de fogo que rugem como leões", a voz de Helga ressoou na minha cabeça mais clara do que nunca. Ela havia visto! Havia me advertido! E, eu, estúpida, não tive força o suficiente para fazer o correto. Por quê? Porque havia permitido que ele me convencesse a voltar? Agora, talvez..., talvez ele estivesse..., não, não podia pronunciar essa palavra. Já tinha perdido Flávio, não podia perdê-lo também, ele não... Canalizei toda a minha raiva e comecei a me retorcer e a espernear em uma tentativa desesperada para que Lisange me descesse. — ME SOLTA! LISANGE! Mas ela não parou até chegar próxima a uma ponte antiga. Livrei-me de seus braços e saí correndo rua abaixo, com a intenção de voltar; olhei ao redor sem saber por onde ir. — Lena! — me chamou do topo da estrada. — PORQUE VOCÊ FEZ ISSO? — gritei voltando para ela. — TINHAMOS QUE AJUDÁ-LOS. — Não podíamos fazer nada por ele!

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— NÃO! MENTIRA! — subi um pouco para enfrentá-la. — Não devíamos lhe deixar ali. — Foi Christian quem decidiu lutar. — argumentou enquanto descia em minha direção. — Você sempre foi contra ele! — Lena! Não se esqueça que Liam também está ali embaixo. — Diga-me como voltar! — mas ela não respondeu; então caí em algo. — Porque você me trouxe aqui? — sussurrei de repente. Nós estávamos na parte mais alta da cidade, dali podia ver sem problemas a casa em que estávamos há poucos minutos. Uma grande fumaça avermelhada se estendia na metade da noite. Pude ver grandes jorros de água que se levantava contra as chamas, eu tinha um nó no meu estômago. Porque havia me levado ali? Por acaso era essa a sua maneira de permitir eu me despedir dele? Virei-me para ela, aterrorizada com a idéia, a olhei interrogativamente, mas ao fazê-lo, encontrei seus olhos vidrados e uma expressão de dor que nunca havia visto antes, meu coração se apertou; não precisei de mais nada, nem uma só palavra. Lisange abaixou o olhar atormentada, confirmando meus piores pensamentos. Havia me afastado para não vê-lo morrer. — Disse... — mordi o lábio com força e prendi o ar. — Disse que havia mais de uma forma de acabar com um Grande Predador. O fogo é uma delas, certo? — Não há nada que resista ao fogo, Lena, nem mesmo nós. Respirei profundamente incapaz de pronunciar uma só palavra, e me virei para a coluna de fumaça que subia para se misturar com as nuvens na noite. Por um momento não reagi, somente pude contemplar os restos de chamas, ausente, sem ser consciente de nada ao meu redor. Ela me rodeou com um braço, mas minhas pernas vacilaram e se dobraram, fazendo que caísse no meio da estrada. Fechei os punhos com força e deixei minha testa repousar sobre o quente asfalto enquanto meu corpo convulsionava em afogados soluços. — Não posso viver sem ele. — balbuciei. — Não deveria ter voltado, eu..., ou eu devia fazê-lo... — minha voz apagou-se. — Ele pode ter se salvado do desabamento. — sussurrou, ajoelhando-se ao meu lado.

420

— Ele estava lá quando o teto desabou!— exclamei levantando a cabeça e contemplando com os olhos ardendo por lágrimas que não podia derramar. — Entre as chamas! — Lisange não disse nada, mas não fazia falta. Arrumei-me um pouco e esfreguei os olhos com as mãos. — E o que aconteceu com Liam? —Ele estará bem. — me tranqüilizou. — Sua ferida não o matará. — Mas o fogo... — Terá se mantido a distância. Tem existido por séculos suficientes para saber onde estão os seus limites. Voltarei por ele enquanto está a salvo no aeroporto. — Aeroporto? — perguntei horrorizada, me virando para ela. — Christian me disse que se reuniria com você lá se fossemos obrigados a nos separar. Olhei novamente para os restos da casa. — Sabe tão bem quanto eu que ele não estará lá. — minha voz sumia, novamente pela falta de ar. Ela não respondeu. Acredito que seu silêncio era uma afirmação, então virei a cabeça para ela, mas ao fazê-lo, me assustei; Lisange olhava em todas as direções ao nosso redor, percorrendo a escuridão com os olhos muito abertos. Algo estava errado. — Lena, não se afaste de mim, temos que ir embora daqui agora mesmo. — seu tom de voz havia ficado grave e urgente. Concentrei-me no que nos rodeava. De repente, tudo havia sido tomado por esse silêncio antinatural que precede ao perigo. Lisange tirou de seu cinturão a adaga e me deu a mão para me ajudar a levantar. — Vamos! Nós nos encaminhamos rua acima para a ponte, mas não cheguei a dar dois passos quando algo me atingiu com força, me jogando no chão. Escutei um rugido amortizado pelo vento e, de novo silêncio. Coloquei-me de pé, bastante enjoada, e dei girei ao meu redor, mas não havia nada. A pequena luz que iluminava a área piscou e derreteu. Uma vez mais estávamos no silêncio, a escuridão e eu.

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— Lisange? — perguntei avançando e buscando ao meu redor. — Lisange? — mas ninguém respondeu. — Lisange? Desta vez minha voz soou embargada, pressa pelo repentino pânico que invadia todo meu corpo. Caminhei ao redor procurando-a, mas não havia rastro dela. Uma série de instintos lutava para se apoderar de mim: gritar, correr, me esconder..., mas estava paralisada. Olhei o céu e a escuridão com ansiedade e descobri que estava sozinha. O fogo já havia se extinguido, as chamas já não pintavam o céu, mas eu estava longe dessa área. Um agudo apito atravessou meus ouvidos, o som do silêncio seguido de uma respiração na nuca. Não esperei para ver o rosto, saí correndo na direção contrária, para o centro da cidade, mas algo me pegou pela camiseta. O tecido se rasgou e caí de bruços no chão. Em seguida, uma mão me pegou pelo tornozelo e me arrastou pelo asfalto arranhando minha pele. Engoli em seco tentando cravar minhas unhas para impedir que me levasse, mas não pude lutar contra essa força. Por um momento passou por minha mente a idéia de me reunir com Christian, mas, então, algo caiu em frente a mim quando passava por baixo da ponte. Gritei, levando as mãos a cabeça e provocando toda a resistência que pudesse. Começaram a me puxar mais rápido, mas, de repente, me soltaram. Antes sequer de poder planejar a possibilidade de virar a cabeça para enfrentar o Guardião, alguém me pegou pelos braços. Olhei com pavor o recém chegado e juraria que meu coração deu uma volta, sem pensar duas vezes, me grudei a ele; era Christian. Não passou nem um décimo de segundo até que uma forma sobrenatural pulou para a parte superior da ponte enquanto via desaparecer o rosto de Silvana, sorrindo, na escuridão. — Está bem? — me perguntou. Mas não pude responder, havia deixado a moto ligada, então me sentou-me nela e arrancou a uma velocidade vertiginosa, afastando-me dali. Agarrei-me a seu peito, sem tirar o olhar da coluna de fumaça. Algo me apertava o peito, e não tinha nada a ver com o estranho escudo de Helga. Era dor: Lisange havia desaparecido; a última vez que havia visto Liam, ele estava ferido e Helga era muito provável que houvesse morrido. Desconhecia para onde íamos, e o que seria de nós então, somente sabia,

422 com certeza, que Christian havia sobrevivido, mas seu corpo se convulsionava a cada instante. Meus olhos ardiam enquanto atravessávamos as estradas escuras. Christian parou antes de chegar à autopista. Desci de um pulo e me ajeitei para tomar ar. Em um arrebatamento de ira e impotência, arranquei o protetor de Helga e o lancei contra a escuridão. — Devemos voltar para ajudá-los. — eu disse, virando para ele. Christian se aproximou de mim tentando se manter de pé. — Não, é tarde; devo te tirar desse lugar o quanto antes. — MAS NÃO PODEMOS DEIXÁ-LOS ASSIM! — Eles têm arriscado suas vidas para te pôr a salvo. — me lembrou. — Voltar agora seria uma péssima forma de agradecê-los. — Mas... Ele me abraçou. Não me dei conta até esse momento de que todo o meu corpo tremia. Ele estava duro, extremamente tenso, impaciente para me afastar dali o quanto antes possível. Mas esperou, rodeando-me com seus braços, até que me tranqüilizei. — Eles sabem se proteger. Tudo ficará bem. — sussurrou, sabendo que eu o escutaria. Seus músculos se contraíram para combater um novo espasmo. Tentou afogar um gemido, mas não precisava escutá-lo para saber que estava sofrendo. Então, senti sua mão pressionando com delicadeza a minha contra seu peito. — Eu te amo. Fechei os olhos com força antes de voltar para a estrada. Uma parte importante de mim permaneceu naquela cidade.

A Saga continua em Revelacción.

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Créditos:

Tradução Josy Heitor Hay Sacha Nichole Elane Silmara Rafaela A. Elizete Kelli

Revisão Hay

Revisão Final Thábata

Formatação Hay

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"All Creatures of the night get together After Dark"
Anissa Damon - Saga Exodo,01 - Exodo

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