Lindsay Armstrong - Separados pelo casamento (Sabrina 1250)-convertido

319 Pages • 35,623 Words • PDF • 921.6 KB
Uploaded at 2021-09-24 12:49

This document was submitted by our user and they confirm that they have the consent to share it. Assuming that you are writer or own the copyright of this document, report to us by using this DMCA report button.


Separados pelo Casamento By Marriage Divided Lindsay Armstrong

A intensa paixão os levará ao casamento? Bárbara sabia que estava em débito com Arthur Keir desde que ele salvara sua família da falência, mas aceitar o desprezo dele era demais! Por que Arthur se comportava de maneira tão agressiva com Bárbara? Só porque Página 1

ela tivera uma educação privilegiada e convivera com pessoas de alto padrão social? Só porque ele era considerado um novo-rico? A vida dura que Arthur levara até fazer sua fortuna o tornara um homem cético e descrente das pessoas. Por isso, ao conhecer Bárbara ele a tomara por uma mulher frívola e superficial. Porém, com o passar do tempo foi obrigado a admitir que ela era tentadora, sensual e... absurdamente desejável. Mas será que haveria um futuro para eles, já que o passado dos dois ainda estava tão presente? Digitalização: Simoninha Revisão: Rejane Querida leitora, Os dias são mais saborosos quando a gente tem romance para ler... Estou com uma coleção deles sobre a minha mesa, cada um, tenho

certeza,

melhor

do

que

o

outro.

Portanto, neste mês, não perca um só dos Romances

Nova

Cultural.

Eles

vão Página 2

transformar seus dias em puros momentos de paixão!

Fernanda Cardoso Editora

SEPARADOS PELO CASAMENTO Lindsay Armstrong Copyright © 2000 by Lindsay Armstrong Originalmente publicado em 2000 pela Silhouette Books, divisão da Harlequin Enterprises Limited. Todos os direitos reservados, inclusive o direito de reprodução total ou parcial, sob qualquer forma. Esta edição é publicada através de contrato com a Página 3

Harlequin Enterprises Limited, Toronto, Canadá. Silhouette, Silhouette Desire e colofão são marcas registradas da Harlequin Enterprises B.V. Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas terá sido mera coincidência. Título original: By Marriage Divided Tradução: Nancy de Pieri Mielli Editora e Publisher: Janice Florido Editora: Fernanda Cardoso Editoras de Arte: Ana Suely S. Dobón, Mônica Maldonado Paginação: Dany Editora Ltda. Página 4

CAPÍTULO I A propriedade se chamava Lidcombe Peace e ficava cerca de uma hora de distância da cidade de Sydney em direção à região montanhosa do sul. A casa, construída no topo de uma colina,

contava

com

uma

vista

deslumbrante. No andar térreo, era inteira cercada por uma varanda de pedra que convidava ao descanso em um dia quente de verão como aquele. Ao se aproximar com o carro, Arthur viu uma mulher na varanda. Parecia estar a sua espera. O porte era altivo e elegante como se ela fosse

a

dona

daquele

lindo

lugar.

Na

verdade ela era. Ou fora. Porque algo lhe Página 5

dizia que a jovem só poderia ser Bárbara Harris, a filha de Walter e de Domênica Harris, os responsáveis pela construção daquela

residência

embora

as

terras

tivessem sido herdadas. Um historiador de formação acadêmica, Walter Harris e a esposa Domênica, pessoa muito

bem-relacionada,

proporcionaram

uma educação privilegiada as filhas. Ele, Arthur Keir, um homem sem tradições, que havia aberto seu caminho à custa de esforço e trabalho, estava ciente de que jamais teria colocado as mãos em um patrimônio como aquele, se a jovem herdeira não tivesse sido obrigada a lhe entregar a chave. Com a súbita morte do pai, Bárbara viuse obrigada a vender Lidcombe Peace para saldar

as

dívidas

que

vinham

se Página 6

acumulando durante anos, sem que ela soubesse. Arthur veio preparado para encontrar uma mulher amarga e sofrida, não uma pessoa calma e serena como Bárbara Harris parecia estar. Ela era linda. Talvez a jovem mais linda que já vira com cabelos castanho-escuros, quase negros, à altura dos ombros, pele alva e acetinada e olhos azuis. Estava usando um vestido cor-de-rosa, abotoado na frente, que realçava sua altura e seu corpo perfeito. O chapéu de palha, que carregava com as duas mãos, lhe emprestava um toque de inocência que ele achou adorável. — Sr. Keir? — Ela veio recebê-lo com a mão estendida quando ele desceu do carro. — Sou Bárbara Harris. Como vai? Pensei em Página 7

instruir meu advogado para realizar este pequeno

ritual,

mas

acabei

decidindo

cumprir a tarefa eu mesma. Seja bem-vindo a Lidcombe Peace! Arthur Keir estreitou os olhos. Assim como esperava, a jovem parecia sincera em seus votos. Era estranho, mas exatamente por não notar o menor tom de falsidade na voz,

ele

se

sentiu

profundamente

perturbado. — Muito prazer, srta. Harris. — Ele apertou a mão de Bárbara em um gesto firme e profissional. — Foi um gesto amável em vista do que deve estar lhe custando... Bárbara

Harris

examinou

o

novo

proprietário pela primeira vez. O negócio havia sido concretizado por meio de uma imobiliária e até que os termos fossem Página 8

acertados, ela e aquele homem haviam travado

uma

verdadeira

batalha

na

negociação de preço. Não fosse a falência iminente, ela não teria concordado em lhe vender a propriedade por um valor tão inferior

ao

montante

que

pretendia,

oferecido

não

embora

pudesse

o ser

considerado insignificante. Em sua mente, ela havia formado a imagem de um comprador de idade mais avançada. No entanto, Arthur Keir não deveria ter mais de trinta e cinco anos. Era alto, moreno e elegante. Com seus ombros largos e sua postura, ele se destacaria entre uma multidão. Além disso, vestia-se com bom

gosto.

Seu

terno

cinza-claro

apresentava um corte impecável e fazia um bonito contraste com a camisa azul-cobalto Página 9

e a gravata azul-marinho. O que mais lhe chamou a atenção, contudo, foram os olhos cinzentos. Aqueles olhos não perdiam nada. Nem sequer os contornos de seu corpo, Bárbara pensou. — Sou uma mulher prática e realista, sr. Keir. Algum bem teria de ser vendido. Na situação que minha mãe, minha irmã e eu nos

encontramos,

sustentar

uma

não casa

podemos deste

mais

tamanho,

principalmente por ser apenas um local de lazer. Além disso, quem realmente não podia conceber a vida em outro lugar era meu pai, e ele não se encontra mais entre nós. — Sobre o nome da propriedade? — Arthur quis saber. — Minha avó a batizou. Ela se chamava Lidcombe quando solteira e sua flor favorita Página 10

era a rosa da paz. Peace em inglês. — Bárbara indicou o jardim e um canteiro de roseiras. — Embora a casa tenha sido construída depois que ela morreu, nós fazemos questão de cultivar as rosas da paz em sua memória. — Elas são lindas e eu prometo que continuarei a cultivá-las. Quanto à casa ser usada para lazer, não sentirá falta de ter aonde ir? — Confesso que sim. — Bárbara abriu a porta que dava para o interior da casa. — Ainda mais por ser próxima à cidade. Por outro lado, atribulada como ando, sair de férias está fora de cogitação. — O que você faz? — Tenho uma confecção

infantil

e

assino meus próprios modelos. Os pedidos Página 11

são tantos que mal consigo dar conta. Além disso,

estou

pensando

em

expandir

o

negócio para a linha feminina esportiva. A surpresa de Arthur Keir tornou-se ainda

maior.

Em

sua

imaginação,

as

herdeiras de Lidcombe Peace eram sustentadas pelo pai e seus interesses giravam apenas em torno de eventos sociais. A investigação que fizera fora por demais superficial.

Chegava

a

se

sentir

constrangido diante da jovem e de sua situação penosa. — Perdoe-me, mas eu confesso que fiquei curioso por estar negociando com a senhorita e não com sua mãe. A propriedade, afinal, está registrada em nome dela. Bárbara colocou o chapéu sobre uma mesa de mogno e olhou para ele. Página 12

— Minha mãe e minha irmã são ótimas pessoas, sr. Keir, mas não sabem tratar de negócios. Da mesma maneira que acontecia com meu pai. — Bárbara deu um breve sorriso. — Não sei de quem herdei os genes que me fizeram colocar os pés no chão. Mas não há problema porque elas me passaram uma procuração para cuidar deste assunto. — Bárbara se deteve por um instante. — Trouxe uma cópia do inventário? — Sim — Arthur respondeu ao mesmo tempo que tirava o documento do bolso do paletó. — Embora grande parte dos móveis e objetos tenham sido incluídos na venda, o senhor está lembrado de que concordou que conservássemos algumas peças? — Sim — Arthur tornou a dizer. Página 13

— Minha sugestão é que aproveitemos a oportunidade para conferirmos o inventário de forma a evitar eventuais desavenças no futuro. Arthur Keir fitou-a com o rosto franzido. De repente, estava entendendo o mistério da atração

instantânea

que

a

garota

lhe

despertara. Ela tinha fibra. Ele ainda não sabia

como,

mas

inventaria

alguma

desculpa para trazê-la de volta de forma a poder conhecê-la melhor. O silêncio estava se estendendo. Ao se dar conta de que Bárbara o fitava com curiosidade, Arthur obrigou-se a mudar de tática. — Acho que é uma boa idéia, srta. Harris, e caso sinta que se arrependeu a respeito de alguma peça e prefira levá-la Página 14

consigo, por favor, avise-me. Ele percebeu que seu cavalheirismo a tocou e que o impulso fora natural. Isso o fez sentir bem. Levaram

mais

de

uma

hora

para

completar o inventário, apesar de Arthur já ter examinado a casa uma porção de vezes. Não se sentia o homem mais feliz do mundo por possuí-la. A felicidade para ele era mais do que aumentar sua fortuna, mas não podia dizer que não estava satisfeito com a aquisição. Quem não gostaria de viver em um lugar bonito, com luz natural em todos os cômodos e uma vista espetacular? A casa parecia vazia, no momento, sem muitas das peças

de

decoração

da

família.

Menos

aconchegante, talvez... — Não é casado, eu suponho. Página 15

— Não, srta. Harris. Como adivinhou? — Arthur quis saber, impressionado por ela ter lido, aparentemente, seu pensamento. Eles se encontravam na sala de estar e olhavam as rosas no jardim, lado a lado. Bárbara era alta, mas mesmo que estivesse usando sapatos de salto, ficaria mais baixa do que ele. Arthur Keir tinha um tipo másculo e determinado. A impressão que teve foi a de estar junto a alguém que não se detinha diante de nada quando queria algo. — Bem, se eu fosse a esposa de um homem que havia acabado de adquirir uma casa, teria dado um jeito de acompanhá-lo em sua primeira visita, fosse como fosse — Bárbara

respondeu

com

um

sorriso

enigmático. — Por outro lado, talvez seja mais fácil adquirir uma propriedade sem Página 16

ouvir a opinião de outros. No caso de uma esposa, ela, provavelmente, teria sugerido uma nova decoração e sua conta bancária iria diminuir de modo considerável. — Não creio que permitiria mudanças em Lidcombe Peace, srta. Harris, mesmo que tivesse uma esposa. —

Não?

admirada

e

— ao

Bárbara mesmo

perguntou, tempo

com

reprovação, pelo que Arthur sentiu. O que a garota estaria pensando? Que ele era um tirano? — Não, porque gosto de tudo a respeito desta casa. Inclusive da decoração. Arthur a viu pestanejar antes de olhar ao redor, com orgulho, e suspirar ao tornar a fitá-lo, como se estivesse lamentando o fato de não ter mais nada a ver com o lugar. Página 17

— Bem — ela estendeu a mão naquele momento —, vou deixá-lo à vontade. As outras chaves estão em um chaveiro, na despensa. Em vez de apertar a mão de Bárbara em despedida, Arthur fez um convite. —

Vi

um

pequeno

restaurante

a

caminho daqui que me pareceu agradável. Como também preciso voltar para a cidade, poderíamos aproveitar e almoçar juntos. Bárbara hesitou e consultou seu relógio de pulso. — Eu agradeço, mas estou atrasada. — Não costuma fazer um intervalo para o almoço? — Sim, sempre que encontro tempo entre um compromisso e outro. Não é o caso no momento. Página 18

— Então, que tal jantarmos esta noite? Bárbara

tentou

encontrar

uma

desculpa. Como não dissesse nada, logo ficou óbvio que ela não tinha nenhuma. —

Tampouco

regularmente,

srta.

costuma Harris?



jantar Arthur

caçoou. Bárbara estremeceu ao sarcasmo. E também se perguntou a razão de não querer tornar a ver aquele homem. Era uma reação instintiva, descobriu, a um processo sutil que começara no instante que eles se olharam pela primeira vez. Era mais do que atração física. Havia uma ligação forte entre suas mentes. E isso a perturbava. Estava preparada, afinal, para detestar Arthur Keir e com uma boa razão para isso. A venda de Lidcombe Peace poderia ser incluída nos Página 19

anais da história como uma guerra. Não contava com o senso de humor daquele

homem,

porém,

e

com

sua

inteligência. De repente, talvez pudesse ser interessante conhecê-lo mais a fundo... Ou, na verdade, o motivo era muito mais simples e se resumia em uma palavra: sensualidade? Era impossível não se sentir impressionada pelo corpo daquele homem e por sua aura de poder. Foi justamente essa capacidade que ele tinha de dominar a mente de uma mulher, fazendo-a se sentir feminina, que a levou a decidir. — Faço minhas refeições nos horários certos, em geral, sr. Keir. A verdade é que não está sendo fácil para mim me desfazer de Lidcombe Peace, embora eu tente afirmar Página 20

o contrário. Portanto, acho preferível cortar o vínculo com o passado de uma vez por todas, e com quem estiver ligado a ele. Irritada

consigo

sentindo

tão

mesma

por

influenciada

estar

por

se

aquele

homem, principalmente quando ele sorriu, Bárbara ergueu o queixo. — Adeus, sr. Keir. Acho que nossos caminhos se separam aqui. Se tiver alguma dúvida, poderá tratar diretamente com meu advogado. Com essas palavras, Bárbara apanhou o chapéu e se dirigiu ao carro sem olhar para trás embora sentisse que cada um de seus passos estava sendo observado. Sentou-se atrás do volante e bateu a porta, ainda sem olhar para o homem na varanda. Apenas quando girou a chave pela Página 21

terceira vez, sem que o motor desse sinais de funcionar, ela tornou a fitá-lo. Foi preciso cerrar os dentes e contar até dez para não esmurrar o volante e praguejar quando o viu descer os degraus, com as mãos nos bolsos, e uma expressão de triunfo nos olhos. — É o motor de arranque — ele disse alguns minutos depois. — Incrível como não teve problemas antes com seu carro. Bárbara se abanou com o chapéu. — Agora que você mencionou isso, tenho notado um barulho estranho. Saberia consertá-lo? Arthur não respondeu porque estava agradecendo sua sorte. Não tinha profundos conhecimentos de mecânica, mas o que sabia era suficiente para levar o carro até Página 22

uma

oficina

especializada.

Diante

das

circunstâncias, contudo, ele preferiu mentir. — Lamento dizer que não. Mas, se quiser, posso lhe dar uma carona até a cidade. — Arthur limpou as mãos em seu lenço e fechou o capo. — Se não se importar, é claro, de fazer uma pequena parada no caminho. Estou faminto. Bárbara

fitou-o

com

expressão

frustrada. — Eu também posso rebocar seu carro até uma oficina próxima. Assim que ele estiver consertado, eu o mandarei a seu endereço — Arthur se prontificou. Bárbara olhou para o Range Rover zero quilômetro e não teve dúvidas de que ele transportaria seu carro pequeno e modesto sem nenhum esforço. Página 23

— Não abuse de sua sorte, sr. Keir — Bárbara resmungou. — Claro que não, srta. Harris — Arthur respondeu, entre sério e brincalhão. — Mas tenho certeza de que se sentirá melhor depois que fizer uma boa refeição. E o melhor remédio para o mau humor. Falo por experiência própria. O restaurante contava com um espaço aberto. As mesas estavam dispostas sob uma pérgola que sustentava uma parreira carregada. Além do espetáculo bonito dos cachos maduros, as mesas recebiam uma agradável

e

refrescante

sombra.

Os

passarinhos pareciam estar especialmente alegres aquele dia e faziam um alvoroço entre os arbustos. As toalhas amarelas contribuíam para a exuberância do cenário. Página 24

Arthur Keir estava certo. Ao término do almoço, cujo cardápio consistiu de torta de carne acompanhada por um vinho da casa, seu humor havia melhorado. Ao ponto, aliás, de ela reconhecer que seu modo de tratar Arthur Keir envergonharia sua mãe. Para se desculpar, Bárbara procurou se mostrar

delicada

à

mesa,

deixando-o

abordar os assuntos que quisesse, e se mostrando interessada por todos eles, de esporte à política. Antes que saíssem do restaurante, ela chegou até mesmo a contar algumas

particularidades

sobre

seus

negócios. — criação,

A

etiqueta é

voltada

Primrose, ao

de

público

minha infantil

feminino, dos quatro aos doze anos apenas. — Por que esse limite? — Arthur Página 25

estranhou. Bárbara deu um sorriso. — Porque prefiro roupas bem femininas, com babados e enfeites e após os doze, as meninas querem parecer adultas. —

Como

sabe?

Fez

pesquisa

de

mercado? — Não. Experiência própria e simples observação. — Como começou? Com uma velha máquina de costura no porão? — Oh, não. Depois que me formei na faculdade, em moda e marketing, aluguei um ateliê em sociedade com uma amiga, contratamos arregaçamos

algumas as

mangas.

costureiras Eu

cuido

e da

criação dos modelos e da parte comercial e ela da confecção. — Como conseguiram o capital para Página 26

iniciar a produção? — Arthur quis saber. — Minha avó Lidcombe deixou-me um pequeno

legado

e

eu

completei

o

investimento com um empréstimo bancário. No início, confesso que foi difícil, mas o investimento se pagou com o tempo e agora já estamos começando a contar com a perspectiva de lucros porque duas grandes lojas de departamentos concordaram em estocar

maior

quantidade

de

nossos

produtos. — Parece ter nascido para os negócios, srta. Keir — Arthur Harris elogiou. — Obrigada. — Estou sendo sincero. Como alguém que começou com um único caminhão nos confins do país e conseguiu construir uma transportadora

em

rede

internacional, Página 27

entendo seu esforço. Bárbara

não

conseguiu

ouvir

o

cumprimento. Sua mente foi longe à menção da palavra transportadora. — Então você é Keir, da Keir Conway Transportes? Ele se limitou a fazer um sinal de concordância com a cabeça. — Céus! Como pude deixar de fazer a conexão? — Bárbara perguntou mais a si mesma do que ao homem a sua frente. De repente, seu olhar tornou-se duro. — Se eu soubesse, não teria vendido Lidcombe Peace por menos do que o dobro! —

Nunca

considero

fecho

um

desvantajoso,

negócio

srta.

Harris

que —

Arthur respondeu com firmeza. — Mas não tenha dúvidas quanto ao valor que recebeu. No caso de Lidcombe Peace, eu paguei o Página 28

preço justo. Bárbara demorou a responder. Quando o fez, havia uma expressão desconfiada em seu olhar. — Eu sabia que não seria uma boa idéia. — O quê? Almoçar comigo? — Exatamente. — Posso lhe dar um conselho? — Arthur perguntou outra vez com aquele sorriso provocante. — Não se arrependa do que foi feito e não pode ser mudado. Inclusive sobre negócios.

Se

não

tivesse

vendido

sua

propriedade para mim, talvez levasse anos para conseguir um comprador. Bárbara empurrou o prato e encolheu os ombros. — Talvez esteja certo. Não tive escolha. Página 29

Portanto, obrigada. Inclusive pelo almoço. Agora preciso realmente ir... — Não me trate assim, Bárbara. O pedido feito em tom autoritário a fez encará-lo, surpresa. — Não sei a que está se referindo. — Sim, você sabe. Além disso, eu já pedi o café. Bárbara mordeu o lábio. — Se está insinuando que eu... — Está me tratando com arrogância? Está me olhando de cima? Sim, Bárbara. Você pode não ter feito de propósito, mas me olhou como se eu não existisse. Bárbara quis protestar, mas Arthur continuou. —

Estou

ciente

dos

problemas

financeiros de sua mãe e do fato de que a venda de Lidcombe Peace não resolverá a Página 30

situação. Naquele momento, Bárbara sentiu que empalidecia. — Sei, por exemplo, que a casa onde sua mãe reside foi hipotecada para cobrir alguns dos investimentos desastrosos de seu pai e que o dinheiro da venda de Lidcombe Peace será praticamente engolido com a quitação dessa dívida. Bárbara pensou em mentir sobre a situação, mas sabia que não adiantaria. — Você está bem informado, mas se acredita que essa declaração me fará calar e lhe

fazer

uma

reverência

está

completamente enganado! A conversa foi interrompida com a chegada do garçom que trouxe o café e levou os pratos. Página 31

— Se gostamos ou não um do outro, isso não vem ao caso. Bárbara franziu a testa. O que Arthur Keir estava insinuando agora? — O que isso significa? Ele

não

respondeu,

mas

o

modo

insistente como examinou-lhe os cabelos, o pescoço, os seios e as mãos que seguravam a xícara, não passou despercebido. Irritada, Bárbara largou a xícara. Estava trêmula de raiva. Não apenas de Arthur Keir, mas de si mesma. Porque sabia a que ele estava se referindo. Eles podiam não gostar um do outro, mas a atração física existia e era forte. Quando ele chamou o serviço de autosocorro, por exemplo, ela não conseguiu desviar os olhos de sua figura que impunha Página 32

respeito até mesmo ao telefone. Depois, quando foram à oficina para verificar sobre o conserto, a facilidade com que tratou com o mecânico tornou a lhe chamar a atenção. Durante o almoço, ela se viu admirando, mais de uma vez, as mãos morenas e ágeis e os punhos cobertos de pêlos. Mas a verdade era que atração física apenas

não

relacionamento.

lhe

bastava

Gostar

era

em o

um mais

importante. Ao menos para ela. — Não estou interessada, sr. Keir. — Bárbara resolveu ser direta. — Em atração e admiração mútua? — ele indagou. — Em homens com quem faço negócios — Bárbara fez questão de dizer. — E em pessoas

de

quem

não

gosto.

Mas, Página 33

principalmente, em homens sobre os quais não sei nada. —

Está

certíssima,

srta.

Harris



Arthur observou. — Aplaudo seu ponto de vista.

Eu

fôssemos

não para

estava a

cama,

sugerindo

que

mas

nos

que

conhecêssemos melhor. Bárbara sentiu que o sangue lhe subia à cabeça, mas conseguiu imprimir um tom de indiferença à voz. — Obrigada, mas não estou interessada. Embora o convite não tenha sido verbal, foi o que deu a entender com o modo que insistiu em olhar para mim. Acho isso... intolerável. Dessa vez, Arthur riu de um modo espontâneo e divertido. — Eu ficaria surpreso se a maioria dos Página 34

homens

não

olhassem

para

você

com

segundas intenções, Bárbara. — Está enganado, sr. Keir — Bárbara retrucou,

indignada.



A

maioria

dos

homens sabe se comportar. Arthur balançou a cabeça. — Bem, Bárbara, ao menos já descobriu qual é minha posição perante você. Mas, mudando de assunto, sua mãe também possui um grande depósito em Blacktown, não é? — Sim — Bárbara respondeu, sem entender aonde ele queria chegar. — Está alugado para um bufê. — Venda-o. Bárbara pestanejou. — Por quê? Ao menos, o aluguel nos proporciona um rendimento mensal e certo. — Você não se deu conta ainda, mas Página 35

aquilo é uma pequena mina de ouro. Existe um projeto para a construção de uma estrada no local. As empresas vizinhas estão impedidas de executarem seus planos de expansão. Algumas terão de se deslocar para outra zona industrial com altos custos no processo. É sua grande chance de recuperação. O imóvel está valendo muito. Não o venda por menos do que isto. — Arthur tirou uma caneta do bolso e escreveu a cifra na conta do restaurante. Bárbara olhou para o papel e arregalou os olhos. — Você não está falando sério! — Sim, eu estou. Enquanto outras propriedades foram desvalorizadas, a sua está valendo uma fortuna. — Como está a par de tudo isso? — Página 36

Bárbara perguntou um minuto depois. — Nunca deixo de fazer minha lição de casa. — Não está interessado no depósito, está? — Não, Bárbara. Acha que eu estaria aconselhando-a a pedir esse valor, se fosse o caso? Eles se entreolharam: ela, desconfiada; ele, irônico. — Não consigo entender o porquê de você ter efetuado uma investigação tão minuciosa a nosso respeito só porque queria Lidcombe Peace — Bárbara confessou após uma longa pausa. Arthur custou a responder. — Teve algo a ver com o motivo pelo qual eu queria aquelas terras. Página 37

— Você disse que pagou o preço justo. — Sim, levando uma série de aspectos em consideração. Uma expressão de raiva surgiu nos olhos de Bárbara. — Como meu desespero, por certo. Ele encolheu os ombros. — A vida pode ser comparada a uma selva, srta. Harris. Mas se seguir meu conselho, vender o depósito e aplicar o dinheiro de maneira sábia, sua mãe poderá viver com conforto até o fim de seus dias. Eu diria, até mesmo, que ela conseguiria recuperar

o

padrão

a

que

estava

acostumada. Bárbara respirou fundo para não gritar de raiva. Não podia perder o controle. Afinal, e se Arthur Keir estivesse certo? Sua mãe era uma dessas pessoas que Página 38

todos amavam, mas que, de vez em quando esquecia

a

realidade

e

se

tornava

extravagante ao extremo. Estivesse em boa ou má situação financeira, contudo, uma palavra que Domênica Harris desconhecia era tristeza. — E provável que eu siga seu conselho, sr. Keir. A menos, é claro, que pretenda ganhar algo em troca? — Como seu corpo? — Não consigo enxergar outro motivo — Bárbara respondeu com frieza. — Talvez esteja certa. Bárbara se levantou antes que caísse em tentação e desse um tapa em Arthur Keir. Ele, entretanto, permaneceu sentado e com aquele sorriso odioso nos lábios. Ao menos até ela virar as costas e começar a se Página 39

afastar. — Um momento, Bárbara. — ele se levantou. — Quero que fique claro que eu não esperaria nenhum tipo de pagamento caso você resolvesse seguir minha sugestão. Mas

gostaria

realmente

de

conhecê-la

melhor. Por que não tenta fazer o mesmo comigo? Sem mais palavras, Arthur vestiu o paletó e eles se foram. — Seu carro chegou, Bárbara. Bárbara interrompeu seu trabalho e olhou para a sócia, Natalie White, no momento que ela depositou as chaves sobre a prancheta. Eram sete horas da noite e as funcionárias já haviam saído. — Já? — Bárbara estranhou. — Não pode

ser.

O

mecânico

disse

que

só Página 40

conseguiria a peça amanhã ou depois. Natalie deu uma piscada. — No entanto, ele acaba de ser entregue por um jovem com uma capa com o logotipo da Keir Conway. O rapaz pediu para avisá-la que seu patrão deu ordens para que a peça fosse encontrada e comprada hoje de forma que você pudesse ter seu carro de volta. Ele disse também que, embora não creia que o defeito persista, é hora de você começar a pensar em trocá-lo por um veículo novo. Oh, e você não lhe deve nada nem à oficina. Bárbara disse um palavrão entre os dentes. Natalie sorriu. — Sei o que você pensa a respeito desse Arthur Keir, querida, mas tem certeza de que não está enganada ao afastar um provável

príncipe

encantado

de

seu Página 41

caminho?

De

acordo

com

minha

experiência, quando um mecânico calcula um dia ou dois para conseguir uma peça, na verdade ele está se referindo a uma semana ou duas! Bárbara quis manifestar sua opinião, mas Natalie não deixou. — Se levarmos em consideração que seu carro faz dupla jornada e é o responsável pela entrega de nossas mercadorias... — Pode parar! — Bárbara respondeu com um suspiro. — Você está certa. Eu deveria ser mais sensata com relação a Arthur Keir. Natalie apoiou-se em uma das mesas usadas para o corte dos modelos e estreitou os olhos. — Ele parece genuinamente interessado Página 42

em você, Bárbara. Acha isso ruim? — Natalie

hesitou.



0

que

aconteceu

exatamente entre vocês? Era estranho, Bárbara pensou. Seu breve

encontro

com

Arthur

Keir

havia

adquirido uma nuance surreal. Quase não conversaram durante o trajeto de volta. Em Sydney, ela se limitou a agradecer pela carona e pelo almoço. Mas não precisaria ter se preocupado. A despedida, ele nem sequer tentou marcar um novo encontro. Apenas a deixou em sua casa, disse adeus e acelerou o carro. Agora estava claro que a despedida não fora definitiva. As chaves em sua prancheta eram uma prova. Ao recordar o episódio, Bárbara pensou que mais parecia um sonho. Ou pesadelo. Página 43

— Para ser sincera, Natalie, esse homem me deixa nervosa. À noite, Bárbara repetiu as mesmas palavras à mãe e à irmã. Aos vinte e dois anos, três a menos do que Bárbara, Christy ainda morava com a mãe em uma casa em Rose Bay com vista para uma marinha. Próxima a um shopping center, a casa onde Domênica Harris morava havia vinte anos era seu orgulho e sua alegria. Ela dizia que preferiria morrer a ter de se mudar de Rose Bay, embora o espaço fosse demasiado para apenas duas pessoas. A mãe tentara todos os argumentos para impedir que Bárbara se mudasse para um apartamento em vez de continuar morando com a família. Após a morte do marido, ela Página 44

tornou

a

insistir,

dessa

vez

para

que

Bárbara voltasse e fizesse companhia a ela e a Christy. Mas Bárbara não se deixou convencer. Sabia por experiência própria que ela e a mãe se entendiam melhor quando cada

uma

tinha

seu

espaço.

O

que

costumava fazer era passar uma noite ou outra com elas, ou, às vezes, o final de semana. Christy era mais reservada do que Bárbara.

Quando

estava

em

casa,

se

dedicava mais aos estudos do que às conversas com a mãe. Christy resolvera seguir o caminho

do

pai

e

fazer

mestrado

em

história. Freqüentava a universidade pela manhã, enquanto as tardes eram dedicadas a um emprego como assistente de um escritor. Página 45

Naquela

noite,

enquanto

jantavam,

Bárbara chegou a se espantar com a eloqüência da irmã, sempre tão quieta. — Por que não aceita? Se ele lhe ofereceu consultoria financeira grátis, isso poderia

significar

o

fim

de

nossos

problemas. Bárbara fez uma careta. O relato não estava completo. Ela não havia mencionado o lado pessoal de sua conversa com Arthur Harris. Mas antes que pudesse explicar, sua mãe ergueu os braços. — É maravilhoso! E sensacional! Estou salva! — De repente, ela baixou os braços e olhou para Bárbara. — A menos que você não tenha nos contado tudo... — Oh, não — Bárbara gaguejou, incapaz de ver aquele entusiasmo desaparecer. — É Página 46

que eu não sei se podemos confiar naquele homem. Afinal, ele confessou que se aproveitou das circunstâncias para adquirir Lidcombe Peace por um preço baixo. Eu acho isso intole... — Mas se ele está certo sobre o depósito, sua atitude está mais do que desculpada,

Bárbara



a

mãe

a

interrompeu. — Acho que devemos convidá-lo para jantar. Ele deve ter uma boa razão para querer nos ajudar e... — Espere um pouco, mamãe — Bárbara interrompeu-a. — Primeiro, deixe-me fazer algumas indagações. Antes de convidá-lo, quero dar uma olhada em Blacktown. A mãe se mostrou indecisa. Christy Página 47

olhou para ela e em seguida para Bárbara. — Você disse que o nome dele é Arthur Keir.

Ele

e

o

dono

da

Keir

Conway

Transportes seriam a mesma pessoa? — Sim — Bárbara admitiu. — Você o conhece? — Não, mas fiz uma pesquisa para o novo livro que Bob está escrevendo. O título é Dinheiro Novo. Para você ter uma idéia, Arthur Keir é a personagem principal. — Oh, um homem que se fez sozinho! — a mãe exclamou, desapontada. Bárbara e Christy trocaram um olhar. Nada acabava mais rapidamente com o entusiasmo de Domênica Harris, nascida de uma família tradicional, do que um novo rico. Bárbara, contudo, não resistiu a pedir mais detalhes à irmã. Página 48

— Ele nasceu e foi criado em uma fazenda no oeste. Parece que a mãe o deixou quando ainda era pequeno porque não suportava a vida que levava com o marido caubói.

Ele

começou

com

um

velho

caminhão... — E o transformou em um império do transporte — Bárbara concluiu a frase. Christy olhou para a irmã à espera de uma explicação que não tardou. — Ele me contou essa parte. O que mais devo saber? — Que Arthur Keir certamente sabia de que estava falando quando avisou-a que mamãe

poderia

ganhar

uma

pequena

fortuna com a propriedade de Blacktown. — Christy se deteve por um instante. — Por que você não gostou dele? Página 49

Bárbara não foi capaz de escapar à perspicácia da irmã. — Não sei por que, mas ele me deixa nervosa. Christy assentiu com um gesto de cabeça. — Por outro lado, um peso enorme seria tirado de suas costas se mamãe pudesse voltar a viver como antes, não? Bárbara olhou em direção à cozinha, de onde vinha a voz de Domênica Harris, entoando uma canção. — Com certeza — Bárbara admitiu. — Mas faça-me um favor, está bem? Tire da cabeça da mamãe a idéia de convites para jantar ou para o que quer que seja até que eu consiga encarar a situação. — Certo — Christy concordou. — Se a mamãe insistir, eu lhe direi que ele é filho Página 50

de um camponês e não se fala mais nisso. As duas irmãs sorriram uma para a outra. — Não que dê para notar! — Bárbara declarou. — Cá entre nós, eu lhe pareço do tipo arrogante? — Nós sabemos que não, minha querida —

Christy

respondeu,

mas

piscou

em

seguida. — A não ser uma ou outra vez quando você levanta o nariz igual à mamãe! Passaram três semanas. Nesse período, Bárbara enviou um cheque a Arthur Keir para cobrir as despesas com o conserto de seu carro e fez algumas pesquisas sobre o cenário

de

Blacktown.

O

cheque

foi

devolvido, rasgado ao meio, sem nenhuma explicação. Por mais que o gesto a tivesse irritado, Página 51

Bárbara decidiu não ir à fundo na questão. Irritou-a, também, o que sabia ser um despropósito, que Arthur estivesse certo sobre a propriedade em Blacktown. Para

se

acalmar,

ela

tentou

se

convencer de que tomaria conhecimento da valorização do imóvel uma hora ou outra. Mas não conseguiu se convencer de que seria capaz de fixar um valor para a venda. Por fim, sua mãe lhe telefonou uma tarde avisando que daria um coquetel a alguns amigos e que contava com sua presença. — Por que esse convite de última hora? — Bárbara estranhou. — Você me conhece, querida. Pensei que a tivesse avisado. De repente, resolvi ligar para ter certeza. Ainda bem! Página 52

— Quem você convidou? A

mãe

mencionou

apressadamente

e

disse

alguns que

nomes

precisava

desligar porque ainda tinha de cuidar de certos detalhes. — Está bem, mamãe, obrigada. Talvez eu me atrase um pouco. — Bárbara desligou e respirou fundo. Duas horas depois, quando se lembrou da festa, precisou correr para não se atrasar demais. Tomou uma ducha e vestiu seu vestido preto favorito, decotado nas costas, mas enfeitado com tiras e um broche de pérolas que sua avó de Lidcombe Peace lhe deixara. Para terminar a indumentária, calçou sandálias pretas e aplicou um toque de batom e de sombra. Detestava correr e detestava mais ainda Página 53

chegar atrasada a um evento, mesmo que não fosse uma grande fa das reuniões organizadas pela mãe. Assim, Bárbara não estava com o melhor dos humores nem em sua melhor aparência quando chegou. O fato de encontrar Arthur Keir entre os presentes serviu apenas para confirmar suas suspeitas. E para piorar seu humor!

CAPÍTULO II Bárbara procurou a irmã com o olhar e fez um sinal discreto em direção a Arthur Keir. Christy encolheu os ombros como quem queria dizer que nada pudera fazer a respeito. Mais ainda, que ficara tão surpresa quanto ela com a presença. Página 54

Ao tornar a olhar para Arthur Keir, Bárbara teve a infeliz certeza de descobrir que ele havia se virado e testemunhado a mímica entre as irmãs. A última a chegar à cena foi Domênica, linda e elegante com seu vestido novo de chiffon azul com detalhes em lantejoulas douradas. Bárbara notou que a mãe estava usando um novo corte de cabelos e que havia sido maquilada por um profissional. Ou seja, ela havia passado algumas horas, aquele dia, em um salão de beleza. O mais importante, Bárbara pensou, era que sua mãe estava feliz e animada. Seu riso estava de volta e parecia contagiar todos os presentes. Até mesmo ela não conseguiu permanecer zangada por muito tempo,

inclusive

quando

a

mãe

se Página 55

aproximou e beijou-a e lhe cochichou ao ouvido para que não brigasse com Arthur Keir porque ele era um homem fascinante! O que Bárbara não esperava era que a mãe fosse puxá-la pela mão e levá-la até o outro lado da sala, onde se encontrava Arthur Keir. — Aqui está ela, por fim, sr. Keir. Eu lhe disse que ela não iria me decepcionar. Fique aqui, querida. Vou pegar uma taça de champanhe para você. Bárbara respirou fundo e esfregou o nariz para se lembrar de não erguê-lo. — Olá. — Ela forçou um sorriso. — Como vai? Não esperava encontrá-lo aqui. — Imagino que não, mas estou bem, obrigado, Bárbara. — Ele a fitou, inquiritivo. — Estou certo ao deduzir que você preveniu Página 56

sua mãe contra mim? — Certíssimo — Bárbara respondeu. — Se soubesse que ela o convidaria contra minha vontade, teria vindo de saltos altos. Domênica

se

aproximou

naquele

instante e surpreendeu não só a última frase, mas também o modo como Arthur Keir olhou para Bárbara como se a estivesse despindo. — Por quê? — Arthur quis saber. — Minha filha costuma ter dificuldade em encontrar homens mais altos do que ela. Foi isso que você quis dizer, não, minha querida? — Foi — Bárbara respondeu por não ter alternativa. — Ah, obrigada por arcar com as despesas do conserto de meu carro. Preferia ter pago eu mesma, mas... Página 57

— O que foi isso? — Domênica se apressou a indagar, mas, por sorte, alguém apareceu e ela precisou se afastar, deixando Bárbara

e

Arthur

em

total

silêncio

e

embaraço. Havia algo a respeito de Arthur Keir que lhe tirava a ação, Bárbara pensou ao olhar, de esguelha, para o terno escuro que ele estava usando aquela noite. Seria sua elegância? Seu charme? A verdade era que embora não o tivesse visto durante três semanas, não conseguira afastá-lo de seu pensamento nem sequer por um dia. — Você está espetacular. Bárbara forçou-se a parar de olhar para a taça de champanhe para encará-lo. — Tinha certeza de que estava horrível. Corri tanto hoje que mal encontrei tempo Página 58

para passar uma escova nos cabelos. Arthur deu um sorriso. — Acho que seus cabelos devem ser lindos em quaisquer circunstâncias. Mesmo quando você se levanta. Bárbara quis retrucar, mas a voz se recusou a sair por um instante. — Não faça isso. — 0 quê? Dar asas à imaginação? — Arthur sugeriu. Bárbara fez que sim e tornou a olhar para a taça. — Foi o que fiz nessas três semanas, eu confesso. Imaginar você comigo. Os olhares tornaram a se encontrar. Naquele momento, sua mãe e todos os convidados desapareceram. Só restaram ela e Arthur na casa de Rose Bay. Por mais que quisesse,

Bárbara

não

conseguiu Página 59

interromper o contato. Não era algo apenas visual. Todos seus sentidos estavam alertas. Era como se uma voz estivesse lhe dizendo que gostava de tudo a respeito daquele homem. De argumentar com ele, de lhe propor desafios, e sabia que gostaria ainda mais de ir para a cama com ele. A palidez que cobriu o rosto de Bárbara diante dessa constatação foi substituída pelo rubor à súbita chegada de Christy. — Minha irmã — Bárbara apresentou, satisfeita

interiormente

ao

notar

o

desagrado de Arthur pela interrupção. Não esperava que eles já se conhecessem. — Aposto que minha mãe o procurou — Christy disse sem preâmbulos. — Sim — Arthur admitiu. — Ela disse que por mais que gostasse de suas filhas e Página 60

que quisesse seguir a orientação delas, precisava se aconselhar comigo. Bárbara e Christy se entreolharam. — Aconteceu tão de repente que nós decidimos não fazer nada precipitado — Christy explicou. — É claro. Eu entendo perfeitamente. Certa de ter detectado um toque de cinismo naquelas palavras, Bárbara tomou o resto do champanhe enquanto tentava encontrar

uma

forma

de

introduzir

o

assunto que tinha em mente. — Estava certo sobre Blacktown, sr. Keir. Somos gratas por seu conselho e... — Não estão falando sobre negócios, eu espero! — A mãe tornou a se reunir a eles. — Aqui não é o lugar nem esta é a hora! Talvez possamos marcar outra noite nesta Página 61

semana para conversarmos. Aceita jantar conosco na sexta-feira, Arthur? —

Seria

um

prazer,

mas,

lamentavelmente, estarei em Perth. Poderia ser na próxima sexta-feira? — Por que não? Enquanto sorriso,

a

Domênica

expressão

de

ostentava

um

Bárbara

era

beligerante. — No entanto, seria bom se Bárbara e eu pudéssemos discutir alguns detalhes sobre Blacktown ainda esta noite. — Oh, eu sinto muito — Bárbara respondeu

com

tanta

naturalidade

que

parecia estar sendo sincera —, mas tenho um compromisso mais tarde. — Que pena! — Domênica exclamou. — Bem, vocês me dão licença, queridas? Quero Página 62

apresentar Arthur a algumas pessoas. Bárbara e Christy ficaram olhando, perplexas, os dois se afastarem. — Agora entendi tudo — disse Christy, divertida. — O quê? — Bárbara perguntou sem entender nada. — Do jeito que vocês olharam um para o outro, pareciam ser os únicos seres do planeta. Eu me aproximei e vocês não me viram. Bárbara suspirou. — Esse homem realmente me afeta, Christy, mas não da maneira que você pensa. Como se não bastasse, mamãe está chamando-o de Arthur e ele está chamandoa de Domênica. — Acho que sei porque ele está te Página 63

afetando. — Sabe? — Arthur Keir não é seu tipo de homem. Em geral são os homens inseguros que a atraem. — Inseguros? Christy deu um pequeno sorriso. — Admita que gosta de dizer sempre a última palavra. Controle e poder são seu lema.

Por

isso

você

e

mamãe

se

desentendem muitas vezes e Primrose se tornou um sucesso em direta proporção ao fracasso de sua vida amorosa. Bárbara se serviu de outra taça de champanhe e olhou para a irmã como se tivesse acabado de conhecê-la. — E eu que pensava que você vivia em um mundo à parte. Há quanto tempo Página 64

descobriu tudo isso a meu respeito? — Há alguns anos — Christy admitiu com um sorriso maroto. — Mas não teria dito nada caso não tivesse presenciado as faíscas disparadas por você e por Arthur Keir. Foi a primeira vez que notei isso acontecer com você, minha irmã. Não fuja. Poderia se arrepender. Está na hora de viver um pouco a vida. — Você perguntou, por acaso, a opinião de Arthur Keir? — Estou sendo honesta, Bárbara. Você se transformou em uma pedra desde que papai morreu. Tem dado duro o bastante. Merece dar uma chance a si mesma. — Eu darei. Mas não agora. Se as circunstâncias fossem diferentes... — Que ele é bonito, você não pode Página 65

negar. As palavras de Christy ficaram ecoando na mente de Bárbara pelos trinta minutos seguintes.

Pouco

a

pouco,

estava

conseguindo relaxar. Tudo

mudou,

porém,

quando

ela

presenciou uma cena. Estava perto de Arthur, embora conversasse com outra pessoa. A voz de sua mãe se destacava no grupo. Ela estava contando às pessoas sobre nunca ter ouvido o nome Keir antes e sobre ter deduzido que ele era um dos inúmeros novos ricos que surgem de vez em quando.

Acrescentou,

então,

que

ao

conhecê-lo, ficara surpresa porque não dava para notar por suas atitudes que ele era um homem sem tradição e sem cultura. Bárbara

sentiu

o

fôlego

faltar

ao Página 66

perceber que Arthur apertava a taça como se fosse quebrá-la. Naquele exato momento, ela tomou uma surpreendente decisão e interrompeu a conversa. — Se o convite ainda está valendo, poderemos ter aquela conversa. — Ela hesitou e sorriu. — O que acha de irmos a um restaurante? Arthur estreitou os olhos. Parecia estar debatendo consigo mesmo sobre o que fazer. Por fim, inclinou a cabeça em um gesto formal. — Será um prazer, srta. Harris. Estavam

no

Range

Rover

quando

tornaram a falar um com o outro. — O que houve com seu compromisso? — Deixei para amanhã. Na verdade, havia prometido a mim mesma que daria Página 67

uma ordem em meu apartamento. Não estou decepcionando ninguém, portanto. — Não precisaria ter faltado à palavra que deu a si mesma só por causa da atitude irrefletida de sua mãe. — Achei que devia, Arthur. — Bárbara o tratou pelo primeiro nome pela primeira vez. — Posso parecer arrogante, mas não sou realmente. Não aprovo o que ela fez. Para ser

franca,

achei

seu

comportamento

imperdoável. O restante do trajeto até o restaurante foi feito em silêncio. O próprio Arthur o escolheu. Era um lugar renomado por sua comida e também pelo ambiente, ambos excelentes. As mesas estavam instaladas em locais reservados. Bárbara sentiu os pés afundarem nos tapetes orientais feitos à Página 68

mão. Ao se sentar, ficou admirada com a maciez do banco em couro. Nenhum outro restaurante que conhecia era tão luxuoso. Uma toalha de damasco branco cobria a mesa, iluminada por velas. Os talheres eram de

prata

e

os

copos

de

cristal.

Para

completar a decoração, havia um vaso alto de

porcelana

à

entrada

com

lírios

perfumados. Ela se lembrou, então, de que ouvira dizer que aquele era o restaurante mais caro da cidade e o mais difícil de conseguir uma mesa sem fazer reserva com antecedência. Isso a deixou intrigada. Arthur Keir era um freqüentador tão assíduo e bem-vindo que nunca lhe faltava uma mesa? — Você havia realmente se lembrado da desordem em seu apartamento quando se Página 69

recusou a sair comigo? — Arthur insistiu. Bárbara estava tomando um gole de água e precisou afastar o copo dos lábios. —

Não



confessou.

Um

instante

depois, fez um movimento com os ombros. — Você me deixa nervosa de vez em quando. — O que sugere que eu faça para resolver esse problema? — Não me pressione, sr. Keir — Bárbara respondeu em tom de ameaça para morder o lábio em seguida. — Olhe. Eu só estou aqui para compensá-lo pela atitude de minha mãe. Um brilho divertido passou pelos olhos de Arthur. — Não sou tão vulnerável à opinião dos outros quanto pensa. Não me incomoda que me encarem como um novo rico. Página 70

Bárbara franziu o rosto. — Eu me incomodaria — admitiu. — Acredito que você também. — Por um instante apenas — Arthur acabou confessando. — Houve uma outra razão — Bárbara continuou. — Algo que você me disse somado a uma observação de minha irmã sobre eu parecer minha mãe de vez em quando. Quero que saiba que não faço de propósito. Arthur recostou-se na cadeira. — Obrigado por sua consideração, mas fique tranqüila a meu respeito. Não me importo com o que as pessoas dizem sobre eu ser alguém que se fez sozinho. Tenho trinta e seis anos, nasci nos confins de Tibooburra e percorri um longo caminho até Página 71

chegar onde estou. As marcas do passado às vezes se fazem notar. Não ligo. Em outras palavras, aceite-me ou deixe-me. Apenas não continue se desculpando. O garçom chegou com as entradas naquele momento. Bárbara provou as lulas que havia escolhido e elogiou-as. Estava tomando um gole de vinho branco quando decidiu voltar ao assunto. — E se eu optar por deixá-lo? — Está

querendo saber

o que

eu

pensaria sobre você? Bárbara fez que sim com a cabeça. — Eu pensaria que você é ainda mais elitista que sua mãe. —

Por

quê?



Bárbara

indagou,

espantada. Página 72

— Porque precisaria se considerar muito melhor do que eu para querer ignorar a atração que sentimos um pelo outro desde o instante que nos vimos. Em vez de protestar, Bárbara decidiu aproveitar a calma e o requinte do lugar para refletir. O prato principal foi servido. Um filé com

cogumelos.

Em

vez

de

prová-lo,

Bárbara olhou para seu acompanhante. Ao contrário do que imaginara, ele se mostrou tranqüilo

durante

todo

tempo.

Sem

importuná-la com olhares, sem apressar sua resposta. — Como sabe que não existe um homem em minha vida? Não seria razão suficiente para eu ignorar você? — Certamente que sim. Por outro lado, Página 73

não acha que seria motivo de preocupação estar

atraída

por

outro

quando

existe

alguém em sua vida? Bárbara quisesse

olhou

para

fulminá-lo.

Mas

ele

como

não

se

adiantou

porque Arthur não se deteve antes de terminar seu pensamento. — Mas não existe nenhum homem em sua vida, Bárbara. — Como pode afirmar que não? — ela protestou. — Por acaso sua lição de casa incluiu uma espionagem em minha vida particular? — Não precisei fazer averiguações. Sua mãe me deu a informação espontaneamente. Tivemos

uma

longa

conversa.

Fiquei

sabendo que Christy adora ler e se parece com seu pai. Também sei que você teve Página 74

alguns namorados, mas que nenhum de seus relacionamentos foi sério. Na opinião de

sua

mãe,

a

causa

disso

é

seu

temperamento. — Arthur aguardou que a informação fosse assimilada. — Você não concorda? — Que minha mãe fale de mim pelas costas? Não. —

Pelo

que

pude

observar,

vocês

divergem em seus pontos de vista. Estou certo? — Sim. Algo que não acontece entre você e a sua, não é mesmo? — Mal disse aquelas palavras, Bárbara se arrependeu. — Desculpe. Eu falei sem pensar. — Parece que você também andou fazendo lição de casa — Arthur retrucou, sarcástico. Página 75

— Não foi proposital — Bárbara tentou explicar. — Christy é assistente de um escritor e tem feito pesquisas para um novo livro sobre pessoas que se fizeram por si mesmas. Você está entre elas. — Ah! E o que mais ela descobriu a meu respeito? — Que você é muito inteligente, mas isso nós já sabíamos. — Bárbara hesitou. — É verdade que nunca mais encontrou sua mãe? —

Em

parte

sim,

porque

quando

finalmente a encontrei, ela já havia morrido. — Sinto muito — Bárbara murmurou, sincera. — Não se preocupe com isso. Sobre ela ter me abandonado, a pesquisa está correta. Bárbara

procurou

ler

a

mente

de Página 76

Arthur,

mas

não

conseguiu

detectar

nenhuma emoção. — Imagino que ela deva ter tido suas razões. — Meu pai nunca foi uma pessoa fácil de conviver. Bem, mas estávamos falando sobre sua mãe. Com o filé havia sido trazida uma garrafa de vinho tinto. Arthur perguntou se ela gostaria de prová-lo. Bárbara sorriu. — Por que não? Assim, talvez, eu consiga me sentir à vontade mesmo falando sobre minha mãe. — Eles comeram e beberam em silêncio por alguns minutos. — Admito que ela me faz perder a paciência de vez

em

quando.

É

de

seu

pleno

conhecimento que não estamos nadando em um mar de rosas, por assim dizer. Pensa Página 77

que não calculei a pequena fortuna que ela gastou com o coquetel? Um vestido novo para começar, champanhe francesa porque essa bebida não poderia faltar, e por aí vai. — Bárbara balançou a cabeça. — Ao mesmo tempo é emocionante vê-la trabalhar como voluntária em instituições para crianças carentes. Se soubesse como ela amou meu pai e como se preocupa comigo e com Christy... — Certo. Já entendi. Vocês duas seriam capazes de dar a vida uma pela outra, mas brigam por qualquer banalidade. Bárbara recostou na cadeira e tomou um gole do vinho. Naquele instante, deu-se conta de que estava começando a relaxar. — Sim. Arthur

fitou-a

de

uma

maneira Página 78

estranha. — Bem, agora que essa parte já está resolvida, que acha de falarmos sobre nós? — Sobre o quê, por exemplo? — Sobre irmos dançar, talvez? Antes que Bárbara pudesse responder, ele sorriu. — Não responda nada antes de pensar um pouco. Tenho certeza de que ouvirei um não caso a deixe seguir seu impulso. Não

era

agradável

saber

que

era

transparente para Arthur Keir. Assim como ser considerada uma esnobe. — Onde? — Bárbara não se conteve. — Aqui mesmo. A danceteria abre às onze horas. Bárbara consultou seu relógio de pulso e se surpreendeu ao descobrir que faltavam poucos minutos para as onze. Era Página 79

como se as horas ao lado de Arthur não tivessem passado. — Está bem — decidiu. — Ao menos faremos um pouco de exercício. E eu me sentirei... — Tranqüila em relação a sua mãe? Bárbara traduzir

fez

um

gesto

indiferença.

Não

que

tentava

esperava

que

Arthur fosse lhe sorrir de um jeito que um arrepio lhe subiu pela espinha. — Tentarei compensá-la pelo sacrifício — Arthur prometeu com um olhar de malícia que a fez corar. — Eu não quis... —

Claro

interrompeu.

que —

não Você

— já

Arthur deu

a

várias

demonstrações de que não saiu comigo por pena. Página 80

Bárbara

pensou

em

retrucar,

mas

venceu a irritação e apenas lançou um desafio. — Espero que seja um bom dançarino, sr. Keir. — Não perde por esperar, srta. Harris. Às onze horas em ponto, duas portas foram abertas e o restaurante deu acesso a uma espécie de caverna de Aladim. Bárbara pestanejou,

surpresa.

O

ambiente

era

espetacular. Parecia uma gruta com pedras preciosas nas paredes e no piso. Uma música

suave

os

envolveu

enquanto

terminavam de tomar o café. Arthur esperou que outros casais se deslocassem para o local antes de seguirem para lá. — Vamos acabar logo com isso? — Ele Página 81

se levantou. Bárbara não pôde evitar um sorriso. Arthur continuava se referindo ao encontro como se fosse uma penitência para ela. Não era verdade. Isso ficou ainda mais claro

dez

minutos

depois,

quando

começaram a se mover ao ritmo da música. Arthur Keir não era apenas bom, mas ótimo dançarino. Cruzar os dedos para que a noite terminasse logo, tornou-se algo fora de cogitação. Sentia-se leve como uma pluma nos braços dele. As mãos em sua cintura eram firmes e delicadas ao mesmo tempo. Em contraste, o corpo que roçava o seu ao compasso da música lenta e sensual era forte e musculoso. Mas o que realmente a perturbou foi o Página 82

modo

como

dançavam

em

completa

harmonia e a intensidade com que Arthur olhava para ela. Era como se ele estivesse explorando sua pele com as mãos e sua boca com os olhos. Para

alívio

de

Bárbara,

ou,

talvez,

inconsciente desagrado, uma música menos contagiante substituiu a outra e lhe deu a chance de romper o elo daquela poderosa atração. — Eu gostaria de descansar um pouco. Um sinal de alarme soou para Bárbara quando Arthur a manteve por mais alguns instantes no círculo de seus braços. Ela deveria ter perdido o juízo. Nada no mundo lhe pareceria mais desejável do que permanecer para sempre no calor daquele abraço. Página 83

O súbito brilho de ironia que viu passar pelos olhos cinzentos a fez estremecer. Todos seus instintos clamavam para que se acautelasse

contra

o

fascínio

daquele

homem. Precisava ter em mente que mal o conhecia. Que ele não podia deter em suas mãos o futuro não apenas de sua mãe como o dela própria. Mas Bárbara não conseguiu lhes dar ouvidos. A vontade de dizer a ele que mudara de idéia e que queria continuar dançando, de olhos fechados, como se não houvesse mais nada no mundo além de eles dois e da música, era irresistível. Voltou a si ao se dar conta de que Arthur estava olhando para ela de modo inquiritivo. No mesmo instante, engoliu em seco e tentou recuar. Mas Arthur pareceu Página 84

ler sua mente, outra vez, e segurou-a com mais firmeza ainda antes de soltá-la. Bárbara não saberia dizer como chegou à mesa sem tropeçar. Suas pernas estavam trêmulas e ela precisou respirar fundo várias vezes até conseguir se acalmar. — Teria sido interessante, Bárbara — Arthur murmurou enquanto tomavam um licor. — A que você está se referindo? — ela perguntou embora, no fundo, soubesse a resposta. — Algo aconteceu entre nós enquanto dançávamos e eu espero que você não negue. Fico cogitando de quem foi a culpa. Nossa, do ambiente ou da música? Bárbara

baixou

os

olhos

e

tentou

contemplar as opções. Dizer a verdade? Em Página 85

hipótese alguma. Jogou os cabelos para trás e se fez de ingênua. — O senhor decide, sr. Keir. Enquanto isso, agradeceria se me levasse para casa. Sou uma mulher ocupada. Preciso levantar cedo para trabalhar. A menos, é claro, que prefira que eu chame um táxi? — A menos que você faça questão de se fazer de difícil, Bárbara? — Arthur caçoou. Por um triz, ela não se levantou e saiu do restaurante. — Não gosto de me repetir, mas desta vez abrirei uma exceção. Não me pressione, sr. Keir. Esta é a segunda vez que nos encontramos. Não tente me cobrar pelo serviço que acha que me prestou. Eu não lhe devo nada. Página 86

— E eu não lhe pedi nada em troca de meu conselho sobre Blacktown. Venda a propriedade ou conserve-a. Cabe a você e sua família decidir — Arthur respondeu, seco. — A partir deste momento, está livre de mim e de qualquer taxa. — Mas minha mãe o considera seu salvador. Acha que deve lhe ser grata pelo resto de sua vida. — Foi sua mãe quem me procurou, não o contrário. — Então você não tinha intenções de me procurar? — Eu não disse isso. Como poderia se nessas três semanas que estive fora, quis estar com você durante todo o tempo? Bárbara hesitou. — Que tipo de proposta pretendia me Página 87

fazer antes que minha mãe o procurasse? — Ir ao cinema ou a um piquenique na praia seria trivial demais para você? Em vez de ofendida, Bárbara sentiu vontade de rir. —

Um

piquenique

na

praia?

Uma

mudança e tanto em comparação com este luxo. — Ela olhou ao redor. — Não é qualquer um que consegue uma mesa aqui sem reserva. — Eu tinha dezessete anos quando vi o mar pela primeira vez. Nunca senti tanta emoção.

Meus

olhos

se

encheram

de

lágrimas. Desde aquele dia, sempre que encontro tempo, o que infelizmente é muito raro, vou caminhar em uma praia. O sorriso de Bárbara apagou. Quando tornou a falar, sua voz soou contida. Página 88

— Acho que meti os pés pelas mãos mais de uma vez esta noite. Arthur não disse nada. Ainda comovida, Bárbara confessou que havia crescido junto ao mar e nunca se dera conta de sua sorte. — Eu gostaria muito de fazer um piquenique com você, se me convidar. — Vou tirar o dia de amanhã de folga, Natalie



Bárbara

decidiu

para

perplexidade da sócia. — Sei que não é o momento ideal — Bárbara olhou para a pilha de vestidos à espera de uma inspeção final antes de serem passados e embalados —, mas surgiu algo importante que não pode ser adiado. — Um compromisso social? — Sim. Página 89

— Com aquele homem? Bárbara não disfarçou o espanto. — Como adivinhou? —

Você

esteve

distraída

a

manhã

inteira. Como naquele dia que almoçou com ele. — Bárbara fez uma careta que provocou um sorriso em Natalie. — Então, o que pretende fazer amanhã? — Iremos à praia. Caso o tempo não mude, é claro, para me favorecer. O sorriso de Natalie aumentou. —

De

acordo

com

a

previsão

meteorológica, o sol continuará brilhando. — Natalie apontou para as roupas empilhadas. — Não se preocupe. Eu darei um jeito. Aproveite e se divirta sem dores na consciência. Na manhã seguinte, Bárbara acordou Página 90

com os raios do sol banhando a varanda de seu

apartamento.

Deu

um

suspiro

e

abraçou o travesseiro. Encontrar Arthur Keir era uma tarefa difícil em condições normais, quanto mais em uma praia. Não pudera resistir, contudo, a sua paixão pelo mar. Nem à lembrança dos momentos que estivera naqueles braços ao som de uma música. Seria possível que sua irmã estivesse certa? Bárbara sentou-se, dobrou as pernas e apoiou o queixo sobre os joelhos. Ou seria seu sexto sentido que a alertava para tomar cuidado com Arthur? De qualquer modo, ela havia concordado em fazerem um piquenique na praia e não voltaria atrás em sua palavra. Portanto, o que tinha de fazer era se levantar, tomar um Página 91

banho e se vestir. Às dez horas, estava pronta, esperando por ele no hall do prédio. Vestira shorts branco e uma blusa azul do tom de seus olhos, aberta no alto, de maneira a deixar ver o biquíni também azul. Em vez de sandálias, sapatilhas

Bárbara de

brim.

preferiu Para

calçar

completar

a

indumentária, prendeu os cabelos em um rabo-de-cavalo e colocou um boné. Embora Arthur tivesse avisado que se encarregaria das provisões, ela apanhou sua sacola térmica e preparou-a. Fosse o espírito de

colaboração

ou

de

independência,

decidiu levar frutas, queijo, duas latas de refrigerante, café e um bolo de cenoura, que ela mesma havia feito. Às dez e três, o já familiar Range Rover Página 92

verde-escuro parou à porta e Arthur veio em sua direção. Estava usando uma bermuda bege e uma camisa pólo verde, mas sua expressão continuava séria como se estivesse em traje formal. Pela primeira vez, Bárbara se deu conta de que Arthur sempre olhava para ela com seriedade no momento que se encontravam, para depois esboçar um sorriso. Como naquele instante. Ele atravessou a calçada sem parar de fitá-la e sorriu apenas quando lhe estendeu a mão. — Isso significa que eu passei no teste? — Bárbara não resistiu à observação. — Isso significa que você é um colírio para meus olhos — Arthur respondeu sem lhe soltar a mão. — E que o destino está a meu favor, mais uma vez, embora segundo Página 93

você eu não deva abusar da sorte. Bárbara não pôde impedir que uma onda

de

prazer

a inundasse ao

ouvir

aquelas palavras. A praia não estava totalmente deserta como Arthur gostava, mas por ser um dia de semana, o movimento estava bem pequeno. O cenário era perfeito. Areias douradas, montanhas verdejantes ao fundo, céu azul e sol quente. Eles foram direto para o mar. Só depois de nadarem, Arthur armou o guarda-sol e estendeu

a

toalha

em

um

local

mais

reservado onde as areias davam lugar à relva e às pedras. Comida não faltaria! Ele levou pedaços de frango assado, pãezinhos crocantes, uma salada de queijo com azeitonas pretas, e Página 94

uma

outra

salada

exótica

de

abacate,

tomate, cebola e salsinha. Os pratos eram brancos e os talheres possuíam cabos de acrílico colorido. Arthur cuidou de todos os detalhes. Bárbara sentou-se na toalha e agitou os cabelos para retirar o excesso de água. — Estou impressionada — confessou com um sorriso ao vê-lo retirar o material do cesto. — Você sabe arrumar um piquenique muito bem. Mal dá para acreditar que é solteiro. Arthur riu, divertido. — Não mereço esse crédito. Quem preparou tudo foi a sra. Bush, minha empregada e mão direita. — Nesse caso, o que teria providenciado para

não

passarmos

fome

caso

a Página 95

organização ficasse por sua conta? Arthur deu uma piscada. — Eu teria sugerido que subíssemos no carro

e

pararia

na

lanchonete

ou

no

carrinho de cachorro-quente mais próximo. O

clima

era

de

alegria

e

de

descontração. — Cá entre nós, eu não me importaria — Bárbara confidenciou. — Nunca consegui dizer não a um hambúrguer nem a um cachorro-quente. Arthur

olhou

para

o

piquenique

e

suspirou. — Agora você me diz! Pobre sra. Bush! — Oh, não. Eu adoro sanduíches, mas adoro ainda mais pratos como esses. Pode dar meus parabéns a ela. Arthur se sentou e abriu o vinho. Página 96

Bárbara observou-o em silêncio. De shorts azul-marinho e o peito bronzeado com gotículas de água que brilhavam ao sol, ele atrairia a atenção de qualquer mulher. — Você nada muito bem para um menino que cresceu sem conhecer o mar — Bárbara se apressou a retomar a conversa para

não

se

perder

naquele

tipo

de

pensamento. — Há represas e riachos no interior da Austrália embora a paisagem desértica seja dominante. Mas o mar é algo à parte. Você também nada muito bem. Bárbara aceitou o vinho e tomou um gole com os olhos baixos. — Eu disse alguma coisa errada? — Arthur estranhou o súbito silêncio. — Não. Sinto muito pela minha falta de Página 97

tato outra vez. Arthur estreitou os olhos à declaração. —

Bárbara,

o

que

você

acha

de

desistimos de tentar falar sobre assuntos que não estão realmente nos interessando? Bárbara franziu o rosto. — Está me pedindo para usar de total franqueza? Arthur serviu o primeiro prato e concordou com um gesto de cabeça. — Está bem — ela disse após alguns instantes. — Eu queria lhe perguntar sobre Lidcombe Peace durante todo tempo, mas me sentia constrangida. —

Se

planos,

a

tudo

correr

mudança

conforme

será

daqui

meus duas

semanas. — Quer dizer que pretende se instalar lá em definitivo? Não usá-la como casa para os Página 98

finais de semana? — Por que está surpresa? — Arthur quis saber. — Não sei — Bárbara respondeu. — Talvez porque seu trabalho o prende à cidade. — Não pretendo me desfazer do lugar que tenho. Aliás, o mais provável é que continue a passar a maior parte da semana na cidade, mas não me chamarei mais Arthur Keir se não fizer de Lidcombe Peace minha residência oficial e morar lá o maior tempo possível. Pretendo transformá-la em uma fazenda produtiva com gado e cavalos. Colocarei novas cercas, abrirei mais açudes e cultivarei a terra. A propósito, você sabe cavalgar? —

Sei



Bárbara

respondeu, Página 99

entusiasmada. — Nos dias de hoje, as distâncias praticamente

não

existem.

As

pessoas

podem controlar seus negócios por meio de botões. Além disso, para quem foi criado longe de tudo, Lidcombe Peace parece ficar a uma quadra de distância. A principal razão, contudo, é o estágio a que cheguei em minha vida quando ganhar dinheiro deixa de ser o mais importante. — Fico contente em ouvir isso — Bárbara declarou, séria. — Minha avó adorava estas terras e sempre se queixava que meu avô não as aproveitava como devia. Se ela pudesse ouvi-lo, estaria feliz. E você, aparentemente, ainda conserva o amor por esse tipo de vida em seu sangue. Página 100

— Sim — Arthur concordou. — Sempre gostei

de

carneiros

fazer na

duas

garupa

coisas: de

um

pastorear cavalo

e

consertar motores de carros. —

No

entanto,

não

foi

capaz

de

consertar meu carro três semanas atrás — Bárbara lembrou. Arthur terminou de comer e depositou os talheres sobre o prato. — Bem, para dizer a verdade, eu poderia ter dado um jeito. Ao menos até você chegar a uma oficina especializada. — Por que não deu? — Bárbara insistiu. A expressão de humildade não poderia ser mais fingida. — Sinto muito. Fiquei preocupado que o carro pudesse falhar no meio do caminho e... Certo. Eu queria almoçar com você. Página 101

— Como no amor e na guerra valer tudo?



Bárbara

se

arrependeu

de

imediato. — Quero dizer, isso explica o que fez? — Não pude evitar — Arthur admitiu. — Assim como não estou conseguindo evitar fitá-la. Você está adorável, Bárbara. Como uma sereia. Bárbara tentou se manter séria, mas não conseguiu. — Esse tipo de conversa não o levará a lugar algum! — Quer passar um fim de semana comigo

em

Lidcombe

Peace?



ele

perguntou como se não a tivesse ouvido. Por

um

instante,

a

respiração

de

Bárbara ficou suspensa. — Seria difícil para você? Quero dizer, Página 102

pensar que eu pretendo realizar os sonhos de sua avó depois de tanto tempo? — Esse seria o único motivo do convite? — Sabe que não. Quero conhecê-la melhor. Poderia convidá-la para jantar, para dançar, para fazer outro piquenique na praia,

mas

como

estou

ciente

da

importância que dá para aquelas terras, achei

que

agradável

poderíamos e

nos

unir

o

conhecermos

útil de

ao uma

maneira menos comum.

CAPÍTULO III O

mar

estava

calmo.

As

gaivotas

revoavam, esperançosas e atentas. De vez em quando, uma delas efetuava um vôo Página 103

rasante e apanhava um peixe. O silêncio era quebrado apenas pelo marulho das ondas e pelo grasnar das aves. Apenas eles dois e um pescador se encontravam na praia e o homem parecia estar se preparando para ir embora. —

Será

que

você

não

está

me

convidando só para se firmar como o verdadeiro dono das terras? Talvez para me seduzir no próprio lugar que já foi meu? — Seduzir você? — Arthur zombou. — Como? Pela força? — Não sei. Afinal, eu mal o conheço. O olhar de Arthur era de censura, mas ele não perdeu o controle. — Também poderia ter lido a meu respeito nos jornais, caso eu fosse quem você se atreve a imaginar. Página 104

Bárbara não foi capaz de encará-lo. — Eu poderia ter passado sem essa, admito. Desculpe-me. Mas, por que outra razão um homem e uma mulher desejariam passar juntos o final de semana? A sós — Bárbara completou. — Seja como for, eu preferiria esquecer que Lidcombe Peace um dia foi minha. — Ela pigarreou. — A propósito, quer saber porque aceitei fazer um piquenique com você? — Dá para deduzir — Arthur respondeu. — Você quis afagar meu ego porque sentiu pena do garoto que cresceu sem privilégios e que teve os olhos inundados de lágrimas da primeira vez que viu o oceano? Bárbara levantou-se com ímpeto. Antes que pudesse se afastar ou retrucar, Arthur a tomou nos braços. Havia um sorriso em Página 105

seus lábios embora não houvesse humor em seus olhos. — Não me peça para soltá-la. Deixe-me abraçá-la por um momento em vez de nos obrigar a suportar a tortura da imaginação. O bom senso insistia que Bárbara negasse esse gesto, mas ocorreu-lhe que não era uma prisioneira e que poderia se afastar se realmente quisesse. Não quis. Uma estranha fascinação a impedia de tomar a atitude. Era a mesma fascinação que ela sentira pela

manhã

ao

vê-lo,

alto,

moreno

e

atraente, de shorts e camisa pólo. A mesma fascinação de duas noites antes. O que estava sentindo por Arthur, nunca sentira por outro homem. Seu coração batia forte cada vez que aquelas mãos se moviam por Página 106

sua cintura e subiam até os seios. Ela pensou

que

deveria

protestar.

Nenhum

homem, afinal, tinha o direito de tocá-la contra sua vontade. Mas seria contra sua vontade? Com

os

olhos

fechados,

Bárbara

percebeu que estava gemendo de prazer. As mãos de Arthur eram suaves e gentis. Elas se moviam em seu corpo como ondas de quentes sensações. De repente, elas se afastaram para cingi-la pela cintura. Nos braços de Arthur, ela o ouviu murmurar seu nome contra seus cabelos. Depois, quando ele se apossou de seus lábios, ela correspondeu. O estrondo de um trovão os separou um do outro. Olharam para o céu, aturdidos. A chuva caía sobre ambos com intensidade e Página 107

fúria. Ao se darem conta da escuridão que os envolvia, eles se fitaram com genuína surpresa. O assombro durou alguns segundos. Depois disso, puseram-se a recolher o piquenique. Correram pela areia ou ao menos

tentaram

correr.

Foi

um

alívio

chegarem ao local onde haviam estacionado o carro. —

Estou

molhando

seu

banco



Bárbara se desculpou ao afastar os cabelos gotejantes dos olhos. — Não se preocupe com isso. — Arthur apanhou uma jaqueta xadrez com zíper no banco de trás e mandou que ela vestisse. — Obrigada, mas e você? — Bárbara perguntou, tremendo de frio. Ele fez um gesto com o ombro. Página 108

— Aqui dentro está quente. Você disse que trouxe café? Está aí algo em que a sra. Bush não pensou. — Café e bolo de cenoura — Bárbara lembrou. E só tornou a falar depois que acabaram de comer. — Deveríamos ter previsto.

Choveu

ontem

e

estava

fazendo

demasiado calor hoje. — Não é preciso encontrar justificativas, Bárbara — Arthur murmurou. — Desista, como eu fiz. Aconteceu porque nenhum de nós pôde evitar. Bárbara baixou os olhos. Sentia as faces queimarem. — Não quero falar sobre isso. — Como preferir — Arthur concordou. — Sobre o jantar de sexta-feira com sua mãe? Página 109

Um arrepio percorreu as costas de Bárbara. A tempestade poderia estar mais branda do lado de fora. Dentro do veículo, a atmosfera parecia soltar faíscas. Bárbara prometeu a si mesma que iria se controlar. Não queria ser carregada por aquela onda de sensualidade que ameaçava engolfá-la a qualquer instante. Ao menos precisaria resolver os assuntos com sua mãe antes. — Por que está me olhando desse jeito? — perguntou, irritada, ao ver os olhos de Arthur pousados em seus lábios. — Sempre admiro quem tem garras para lutar, mesmo que seja contra mim. Ao mesmo tempo, não se deixe iludir por essa sua força — Arthur aconselhou. — Porque eu não irei desistir. Então, você janta Página 110

comigo e com sua mãe na sexta? Ou acha melhor eu jantar apenas com ela para acertarmos alguns detalhes? — Talvez seja melhor vocês jantarem sozinhos — Bárbara admitiu. Arthur ligou o carro para irem embora. — Valeu a pena? — Arthur perguntou subitamente em referência ao piquenique. — Apesar de tudo? — Fazia tempo que eu não passava um dia tão adorável — Bárbara confessou. Arthur sorriu. — Acho que vou sonhar com essas palavras esta noite, srta. Harris. —

Você

é

impossível.



Bárbara

balançou a cabeça. — Como o tempo em Sydney. Ao ver este sol, não dá para acreditar que estava chovendo a cântaros alguns Página 111

minutos atrás. A noite do tão esperado jantar havia chegado. Seria o primeiro encontro de Arthur e Bárbara após o piquenique. Ele havia

garantido

que

não

precisaria

da

jaqueta e que ela poderia devolvê-la quando tornassem a se encontrar. Ele parecia estar com pressa de deixá-la. Embora gentil, foi extremamente breve à despedida. Nos dias que seguiram, Bárbara se esforçou por não pensar em Arthur e por manter o bom humor. Sempre que a sócia perguntava por ele, ela mudava de assunto. Apesar da insistência de Arthur para que

ela

guardasse

a

jaqueta

consigo,

providenciou para que um mensageiro a entregasse

nos

escritórios

da

transportadora. Página 112

Três dias depois, ao chegar em seu apartamento,

encontrou

entre

sua

correspondência um pacote com dois livros, sem nenhum bilhete de explicação. Sentou-se com eles em sua sala. Cada móvel e cada objeto de decoração haviam sido escolhidos por ela própria. Os móveis eram de mogno e os enfeites se resumiam em arranjos de flores e folhas desidratadas e em uma coleção de elefantes feitos de todos os tipos de materiais, desde pedra e madeira até vidro e couro. Um dos livros era um dos melhores que ela já havia visto sobre moda. O outro era um romance que Arthur havia comentado no trajeto de volta da praia pelo qual ela se interessara. Assim, Bárbara não precisou consultar Página 113

o nome do remetente na etiqueta para adivinhar que Arthur o enviara a seu endereço. Outros três dias depois, um novo pacote foi entregue pelo carteiro. Embora também contasse com uma etiqueta da Keir Conway Transportes, era mais fino e bem menor. Bárbara encontrou um CD ao abrir a embalagem e imediatamente o colocou para tocar.

Sentiu-se

transportar

para

o

continente da África por meio de sua música e pelo som da selva. Adorou-o. O

que

faria

com

todos

aqueles

presentes? O livro sobre moda foi útil. Ele a inspirou

a

criar

novos

modelos

para

meninas em cores diferentes e exóticas. O romance era tão bom que não conseguia Página 114

largá-lo. Faltava agora descobrir quais eram as preferências de Arthur Keir para poder retribuir sua atenção. Uma vez, ao passar por uma galeria de arte, Bárbara entrou e cogitou comprar uma tela de uma paisagem árida do outback com um

cavaleiro.

Desistiu,

porém,

porque

receou despertar nostalgia em Arthur com esse tipo de presente. A oportunidade de agradecer surgiu no dia anterior ao jantar. — Bárbara?! — a voz soou surpresa ao telefone. — Sim, Arthur. Desculpe-me incomodálo em seu trabalho, mas... — Você não incomoda — ele se apressou a dizer. — Eu deveria ter me lembrado de lhe dar meu número direto... Página 115

— Tudo bem. Serei rápida. Obrigada pelos livros. Adorei-os. Mas estou ligando porque recebi uma oferta pelo imóvel de Blacktown. É um pouco menos do que você avaliou, mas... — Não aceite — Arthur interrompeu-a. Bárbara respirou fundo. — Se você me deixasse terminar... Sim, o

valor

é

mencionou

mais —,

baixo

mas

eles



Bárbara

garantem

o um

depósito de trinta dias e querem pagar à vista. — Na esperança de seduzi-la com a idéia de não precisar correr atrás de um financiamento.

Cuidado,

Bárbara.

Estão

fazendo isso só para que você abaixe o preço. Não se deixe iludir. — Não sei se terei coragem de recusar a Página 116

proposta. Acho melhor ter um pássaro na mão do que ver dois voando! — Por que não troca essa imagem por outra da quantidade de champanhe e de vestidos que sua mãe poderá comprar com a diferença? — Você tem certeza? E se a pessoa desistir? — Virá outra — Arthur respondeu, categórico. — E claro que a decisão é sua, Bárbara. Agora, me desculpe, mas preciso desligar. Ao ouvir a ligação ser interrompida, Bárbara pestanejou, incrédula. Em seguida olhou, zangada, para o telefone, mas ainda precisou esperar até o jantar de sua mãe para poder extravasar sua indignação. A mãe surpreendeu-a com um pequeno Página 117

banquete. A entrada seria uma salada de batata sobre um leito de alface crespa. Depois

seriam

servidos

um

pernil

de

carneiro com molho de ervas e mostarda e cenouras

e

aspargos

como

acom-

panhamento. A sobremesa seria gelatina de morango, framboesa e amora com creme chantilly. Uma toalha de renda branca cobria a mesa. O aparelho de porcelana Sèvres mais fino de sua mãe seria usado aquela noite, bem como os copos de cristal Stuart. As velas estavam prontas para serem acesas nos castiçais de prata. Para completar a decoração, brotos de camélias flutuavam em um amplo cachepô. Bárbara sentiu-se indignada no primeiro momento. Sua mãe não deveria ter se dado Página 118

a tanto trabalho. Desde que as finanças começaram a ir mal, ela não contava com empregados

para

domésticas.

Por

ajudá-la melhor

nas

que

tarefas soubesse

cozinhar, e por mais que gostasse de oferecer

jantares,

sua

mãe

certamente

estava cansada. Ao

pensar nisso,

Bárbara

esqueceu

imediatamente a irritação e se apressou a oferecer ajuda. — A mesa está linda e o cheiro está delicioso! — Bárbara abraçou e beijou a mãe. — Por que não toma um bom banho de imersão para se apresentar bem bonita e perfumada? Eu cuidarei dos detalhes que faltam. E levarei champanhe para você tomar

enquanto

se

veste.



Bárbara

lembrou-se desse costume dos tempos de Página 119

seu pai e percebeu que havia tocado sua mãe com esse gesto quando ela a abraçou forte. As velas já haviam queimado até a metade e o café e os licores tinham sido servidos quando o assunto negócios foi abordado pela primeira vez na noite. Fora um jantar íntimo, com Arthur Keir como único convidado. Domênica, como sempre,

foi

uma

anfitriã

delicada

e

competente. Bárbara estava linda com uma calça comprida preta justa e túnica azul. Os cabelos estavam presos em um coque alto e um colar de pérolas com várias voltas enfeitava seu pescoço. Christy usava um vestido branco e Domênica um conjunto de saia e blazer amarelo-claro. Página 120

Enquanto tomava seu café, ocorreu a Arthur que as mulheres da família Harris não eram apenas bonitas e elegantes, mas agradáveis e inteligentes. Bárbara,

porém,

não

lhe

parecia

inteiramente à vontade. Parecia haver algo de errado com ela. Ou seria sua imaginação aquela sombra em seus olhos azuis? Não. Não era impressão. Ele tinha certeza de que Bárbara

estava

esgotada

por

se

sentir

responsável pela resolução de todos os problemas que a família estava enfrentando. Assim, quando Domênica sugeriu que conversassem, ele entendeu de imediato a que ela estava se referindo. — Fiz algumas anotações. — Arthur tirou uma folha de papel do bolso do paletó. — A maioria diz respeito à venda de Página 121

Blacktown.



uma

outra

sugestão,

contudo, que considero a mais importante. Ao perceber que Arthur olhava para ela, Bárbara pigarreou. — Segui seu conselho o outro dia sobre Blacktown,

embora

tenha

consultado

mamãe e Christy antes. Agora, podemos saber qual é a nova sugestão? Arthur fez que sim com a cabeça e entregou o papel. Bárbara o leu por alguns instantes. Subitamente, olhou para Arthur e devolveu-o. — Sinto muito. Esqueci de lhe dizer que... — Bárbara se deteve e olhou para a mãe. — O que foi? — Domênica quis saber. — Pretendemos conservar Rose Bay. — É impraticável — Arthur declarou, Página 122

taxativo. As três mulheres o encararam sem condições

de

argumentar

sua

patente

autoridade. — Os custos são proibitivos. A casa é antiga e imensa. A importância necessária à manutenção apenas do jardim corresponde ao pagamento de um condomínio em prédio de luxo. — Arthur olhou para as três mulheres,

uma

a

uma.



Se

vocês

venderem este imóvel e também Blacktown, não apenas quitarão todas suas dívidas, como

poderão

comprar

uma

bonita

propriedade. Além disso, o saldo permitirá que a mãe de vocês viva o resto de seus dias com conforto. Eu diria que ela poderá até mesmo fazer algumas extravagâncias de vez em quando. Página 123

A

expressão

de

perplexidade

de

Domênica fez Bárbara olhar para Arthur como se quisesse fulminá-lo. — A que está se referindo? — Domênica perguntou. — A um cruzeiro de férias, ou a uma primavera

em

Paris,

ou

um

verão

na

Toscana. As escolhas são inúmeras. Eventos musicais, por exemplo. — Arthur olhou ao redor. — Com seu bom gosto, eu diria que poderia iniciar uma carreira, com sucesso, em galerias de artes ou de antigüidades. Você é uma mulher inteligente. Tenho certeza de que seu marido, onde quer que esteja, ficaria feliz ao saber que você está bem e que continua fazendo aquilo de que mais gosta. Domênica Harris respirou fundo. Página 124

— Você está certo. Era por causa de meu marido que eu não queria me desfazer deste lugar, mas não é nestes tijolos que ele está, e sim em meu coração. — Ela olhou para as filhas. — Vocês podem vender a casa. — Confesso que ainda estou pasma — Bárbara

murmurou

mais

tarde

quando

acompanhou Arthur até o portão. — Sempre achei que seria o certo a fazer, mas cada vez que abordava o assunto, minha mãe ficava perturbada. Além disso, confesso que tinha esperança de que com a venda de Blacktown não seria necessário sacrificar esta casa. — Isso foi antes de eu conhecer sua mãe e descobrir o verdadeiro motivo que a impedia de se desfazer do imóvel. Esta noite, eu

tive

a

sorte

de

conseguir

fazê-la Página 125

raciocinar a respeito. Algo me diz, porém, que essa não era a única preocupação em sua mente. Bárbara

deu

um

pequeno

sorriso.

Estavam sob um facho de luz e ela notou, pela primeira vez, alguns fios prateados entre os cabelos de Arthur. Pensou em mentir, depois em dizer a verdade. Em vez disso,

olhou

para

ele

e

endireitou

os

ombros. — Quer jantar comigo amanhã? Ele fitou-a, sério, como sempre fazia, antes de responder. — Obrigado, Bárbara. Eu adoraria, mas estarei me mudando para Lidcombe Peace amanhã. — Sim, é claro. Eu havia esquecido. — Por que não aparece por lá? — Arthur Página 126

convidou. — Tirei a semana inteira de folga para dar uma ordem na casa. — Eu... — Procure dormir uma noite inteira para variar. — Arthur tirou a mão do bolso e apertou delicadamente o queixo de Bárbara. Eles trocaram um sorriso e Arthur subiu no carro. Bárbara esperou que o Range Rover desaparecesse de vista para tornar a entrar. Bárbara e Christy dormiram em Rose Bay aquela noite. Pela manhã, Bárbara mal podia acreditar na diferença que a conversa causara. Era como se sua mãe tivesse se transformada em outra mulher, mais calma e mais madura. Da noite para o dia, Domênica Harris abraçara uma nova proposta de vida. Ela se pôs até mesmo a fazer Página 127

uma lista do que iria levar para a casa nova e o que iria vender. As três juntas trocaram idéias sobre o local para onde ela poderia se mudar. Por volta do meio-dia, Bárbara recebeu uma ligação por parte do corretor dizendo que o interessado em comprar a propriedade de Blacktown havia concordado com o valor estipulado. — Então Arthur estava certo! — Bárbara exclamou consigo mesma. Fazia muito tempo que ela não se sentia tão

leve.



quando

chegou

em

seu

apartamento, deu-se conta de que a carga havia sido retirada de seus ombros apenas para ser substituída por outra. Agora estava em dívida com Arthur. Não apenas por ele ter resolvido seus problemas financeiros, Página 128

mas também por ter compreendido sua mãe e

influenciado

suas

decisões

de

uma

maneira positiva. O único problema, Bárbara temia, era que se tivesse de recompensá-lo, teria de ser nos termos de Arthur. Como passar um dia daquela semana em Lidcombe Peace, por exemplo. Se não aceitasse seu convite, o que ele pensaria? Que ela ainda se julgava um ser superior? Não era verdade. Ao mesmo tempo, ela se sentia de mãos atadas. Algo a impedia de se soltar com Arthur Keir. Quando

Bárbara

se

aproximou

de

Lidcombe Peace, na manhã do domingo, havia um carro que ela não conhecia diante da casa. Estava um dia lindo. Ao longe, dava para ver Sydney. Página 129

Ela estava se preparando para descer quando viu Arthur ao lado um homem, uma mulher e três crianças. Hesitou. A presença de estranhos poderia ajudar ou, talvez, atrapalhar. Se eram íntimos, sua presença iria provocar especulações. De qualquer modo, não ficaria bem ela manobrar o carro e ir embora. Uma garota de cerca de dez anos veio ao seu encontro e olhou com franca admiração para seu vestido. — Mamãe, compra um igual para mim? — a menina perguntou para riso geral. Arthur e o casal se aproximaram e Arthur fez as apresentações. Eram amigos e estavam indo

embora

depois de

terem

passado a manhã na fazenda. — Estávamos ansiosos por conhecer Página 130

este lugar — disse Lorraine Bailey. — Sinto não podermos ficar mais. As crianças têm uma comemoração no colégio e não podem faltar. — Você veio — ele murmurou assim que ficaram a sós. — E conquistou todos. Madeleine, em especial. — Eu não — Bárbara brincou. — Meu vestido. Arthur olhou para o corpo de Bárbara, mas logo voltou a admirar os cabelos que a brisa despenteava e os olhos azuis como o céu daquele dia. — Sim, eu vim — Bárbara disse depois de alguns instantes. — Com um plano em mente — acrescentou. Ao olhar inquiritivo de Arthur, Bárbara sorriu e abriu o porta-malas do carro. — Trouxe ingredientes para preparar Página 131

nosso almoço. — Não queria lhe dar trabalho, Bárbara. — Não será trabalho algum. Estou com vontade de cozinhar. — Pretende servir alguma obra-prima? — ele brincou. — Hambúrgueres — Bárbara respondeu com orgulho. — Trouxe cerveja para o caso de você ainda não ter conseguido organizar sua despensa. Bárbara

parou

de

falar

ao

ter

as

compras roubadas de suas mãos. — Você é um gênio, srta. Harris. Nada me apeteceria mais do que um suculento hambúrguer e uma cerveja gelada! Arthur sentou-se à mesa da cozinha enquanto esperava que os hambúrgueres ficassem prontos e Bárbara terminasse de Página 132

temperar a salada. — Não se sente incomodada por estar aqui? Bárbara tirou os ovos da frigideira com uma espátula. — Um pouco, mas sou-lhe grata acima de

tudo,

Arthur.

Você

resolveu

as

complicações de minha vida e minha mãe parece outra pessoa agora. Arthur abriu as latas de cerveja. Estava usando jeans e camisa cáqui aquele dia. Seus cabelos estavam desalinhados e a barba estava por fazer. — Espero que não tenha vindo aqui apenas por esse motivo. Bárbara colocou os ovos fritos por cima das carnes. — O lanche está pronto — ela anunciou ao cobrir o recheio com o pão e enfeitar os pratos com batatas chips. — Por que não Página 133

comemos na varanda? Arthur não se moveu. — Bárbara. Ela recuou e encostou na pia. — Você ainda me deixa tensa, Arthur — Bárbara confessou. — Não sei explicar a razão assim como não sei lhe dizer porque vim. Tinha de lhe agradecer. Disso eu tenho certeza. Ah, eu queria agradecer também pelos livros. Sua escolha não poderia ter sido mais acertada. Arthur não respondeu de imediato. De repente, cruzou os braços e sorriu. — Proponho pegarmos nossos pratos e irmos para a varanda antes que sua obraprima esfrie. — Fale-me sobre os Bailey — Bárbara pediu para quebrar o gelo depois que se Página 134

sentaram

para

comer.

Ela

pretendia

demonstrar naturalidade, mas o ambiente a constrangia e o perfume das rosas trazido pela brisa a remetia demais ao passado. — Conheci Pete há alguns anos quando cursávamos a faculdade. Ele fazia Direito e eu

Economia.

Fui

seu

padrinho

de

casamento e agora sou padrinho de seu filho mais velho. Lorraine é dona de uma floricultura. — Gostei deles. — São boas pessoas. — Você tem muitos amigos? — Alguns — Arthur admitiu. — O que pensou? Que eu continuasse a ser o velho caubói solitário? — Confesso que a idéia me passou pela cabeça. Página 135

— A presença de Lorraine e de Pete serviu para dar provas de que sou normal? Bárbara se levantou, ofendida com o tom inesperadamente ríspido. — O que pretende fazer? Ir embora? Porque já considera seu débito pago? —

Eu

tinha

certeza

que

acabaria

acontecendo algo assim. — Não, Bárbara. — Arthur se levantou também. -— Você apenas encontrou uma desculpa conveniente para se afastar de mim. Porque tem medo. Porque gosta de controlar tudo e todos. E realmente se considera superior a mim. Portanto, minha querida, pode ir a hora que quiser. Porque eu não preciso que olhem para mim com condescendência. Prefiro relações onde a satisfação seja mútua. Página 136

Bárbara saiu sem olhar para trás. Subiu em seu carro e se afastou quase sem enxergar o que estava à frente de tanta raiva. Por pouco não atropelou um boi. E foi justamente por causa dele que ela parou e conseguiu voltar a si. Pestanejou ao se dar conta de que aquele não era o único boi naquela área. Além de comprar gado, Arthur havia mandado construir um galpão e levantar novas cercas. Sua avó choraria de emoção se pudesse ver aquilo. Com

os

olhos

cheios

de

lágrimas,

manobrou o carro e voltou. Arthur continuava na varanda. Estava sentado

em

uma

cadeira

com

os

pés

apoiados em outra. Havia uma lata de cerveja em sua mão e ele parecia estar Página 137

olhando para as terras que havia comprado sem conseguir vê-las. Bárbara subiu lentamente os degraus e parou atrás dele. — Tenho uma forte tendência para ser autoritária,

dou

a

impressão

de

ser

arrogante, mas nenhum homem jamais me fez sentir como me sinto por você. Não sei como lidar com isso. Se tiver paciência e conseguir me ajudar nesse sentido, e se ainda quiser me mostrar as melhorias que realizou em Lidcombe Peace, eu gostaria muito. Ele

não

se

moveu.

Após

alguns

instantes, Bárbara pensou que seria melhor ir embora e esquecer daquele homem de uma vez por todas. Então ele se levantou, ficou de frente para ela e lhe estendeu a Página 138

mão. Quando ela a aceitou, abraçou-a com ímpeto e afundou o rosto em seus cabelos.

CAPÍTULO IV — Este abraço já durou demais, você não acha? — Arthur perguntou algum tempo depois. — Eu acho — Bárbara respondeu, mas não fez nada para se afastar. Em vez disso, tocou a sobrancelha que escondia uma pequena cicatriz. — Como a conseguiu? — Caí de um cavalo e me machuquei na cerca de arame farpado. — Você teve sorte. Poderia ter perdido uma vista. — Por falar em olhos, você tem os mais Página 139

lindos que já vi. E com os cabelos soltos desse jeito, parece uma cigana. — Primeiro você me chamou de sereia, agora de cigana. — Ambas têm o poder de afetar meu equilíbrio. Prova disso é eu não conseguir soltá-la. Bárbara riu. — Como não sinto a menor vontade de ser libertada, por que não aproveita e me dá outro

beijo?

Depois,

então,

poderemos

pensar em fazer outras coisas... Mal disse aquelas palavras, Bárbara sentiu um calor febril subir por seu corpo. Não estava se referindo a sexo, mas as palavras

poderiam

ter

dado

aquela

conotação. De repente, o que começara como um jogo amigável e divertido, havia Página 140

provocado uma nova tensão. Arthur beijou-a e ela não conseguiu se controlar. Ergueu os braços e envolveu-o pelo pescoço. Quando sentiu que as mãos dele tocavam sua pele, sob o tecido, fez o mesmo e se pôs a acariciar o peito, os ombros e as costas de Arthur sob a camisa. O queixo áspero contra seu rosto e seu queixo

a

faziam

cravar

os

dedos

nos

músculos rijos dos ombros. Ocorreu-lhe, naquele

instante,

que

Arthur

sabia

proporcionar prazer a uma mulher. Ele exalava masculinidade pelos poros. Era glorioso sentir a pele quente sob seus lábios, sentir a doce fricção dos seios contra aquele peito, ver o brilho da paixão nos olhos cinzentos. Mas como ela iria se sentir quando Página 141

terminasse? Embora ainda estivesse nos braços de Arthur, trêmula e ofegante, a frustração já a invadia. — Entendo o que está querendo dizer — Bárbara murmurou e finalmente conseguiu forças para se afastar e ajeitar os cabelos e a roupa. Arthur segurou as mãos de Bárbara novamente entre as dele. — Eu não disse nada. — Não. Eu estou dizendo. Você apenas pensou

e

me

mostrou

que

eu

estava

brincando com fogo. Não estou certa? Bárbara percebeu que havia atingido Arthur pela crispação de seu rosto. — Não pode haver fogo se não há o que ser queimado — Arthur retrucou, sério, mas em seguida se forçou a sorrir. — Em vez de Página 142

começarmos uma discussão, Bárbara, que acha de ver os bois que comprei? Bárbara precisou de alguns segundos para se recompor. Aquilo era um novo aviso? Ou não? Ela balançou a cabeça. — Vamos? Eles percorreram toda a propriedade de carro, mas também caminharam por longos trechos. Arthur contou a Bárbara sobre seus planos e ela lembrou fatos importantes do passado como os locais que mais sofriam em épocas de chuvas e de geadas. Ao percorrerem as margens do riacho, ela lhe mostrou o lugar onde poderia ter se afogado à idade de quatro anos. — Eu cismei que queria pescar e entrei no rio sem avisar ninguém. Sabia que era raso na margem, mas não imaginava que a Página 143

correnteza fosse forte o suficiente para me arrastar. Não preciso dizer que fui retirada coberta de lama, com a roupa rasgada e tossindo sem parar. — Serviu de lembrete para o resto de sua vida, eu imagino. — Sem dúvida — Bárbara concordou. — Eu nem sequer chorei. Achei que havia merecido o castigo. Afinal, eu era proibida de chegar perto do rio. — Ah, então você foi uma criança dada a aventuras? — Não muito quando criança, mas não posso

afirmar

o

mesmo

da

época

da

adolescência. E você? — Também aprontei algumas para meu pai. Arthur e Bárbara estavam sentados no Página 144

alto de uma colina de onde dava para ver quase toda a propriedade. — Você gostava de seu pai? — Bárbara sentiu uma vontade súbita de perguntar. — Ele ainda é vivo? — Não e não. — Nem mesmo depois que você se tornou adulto conseguiu gostar dele? — Não. Eu queria acreditar que foi o abandono de minha mãe que o endureceu, mas acho que fazia parte de seu temperamento ser frio e amargo. — Você teve uma infância difícil? — Não exatamente. Eu sentia falta de algo, é claro, mas a oportunidade de crescer solto, de ter uma intensa atividade física, de andar a cavalo me compensava de certo modo. Página 145

Bárbara ouvia, fascinada, a história de Arthur. Sua eloqüência facilitava a criação de imagens mentais. Era quase como se ela conseguisse

vislumbrar

Arthur

quando

menino. — Lidcombe Peace deve parecer pouco mais do que uma miniatura em comparação com as terras extensas em que. foi criado. — Talvez — Arthur concordou. — Por outro lado, estes são os primeiros acres que realmente me pertencem para que eu faça com eles o que quiser. Foi

uma

emoção

que

surpresa sentiu

para ao

Bárbara

ouvir

a

aquelas

palavras. — Quer passar a noite aqui? — Arthur perguntou baixinho. — Em seu próprio quarto, em sua própria cama? Página 146

Bárbara olhou para as nuvens no céu e para os pinheiros altos plantados por seus ancestrais. Nada lhe agradaria mais do que ficar em Lidcombe Peace. Mas seria capaz de se controlar se a convivência com Arthur fosse além da amizade? — Você não me acusaria depois? Diante da atração que sentimos um pelo outro, quero dizer? — Não — Arthur respondeu e pareceu sincero. — Sua companhia me faria feliz demais para eu ser capaz de acusá-la de alguma coisa. Em todo caso — ele deu um sorriso maroto —, você pode me colocar em meu lugar se eu tiver idéias tolas. — Confesso que minha preocupação diz mais respeito a mim mesma — Bárbara admitiu e franziu o rosto de brincadeira. — Página 147

E não ouse caçoar do que eu disse, Arthur Keir! Mas Arthur caçoou e eles riram e se abraçaram para depois subirem novamente no Range Rover e voltarem para a sede da fazenda. Estavam sentados no tapete da sala, com

as

costas

apoiadas

no

sofá,

contemplando as chamas na lareira. A noite estava chegando rapidamente e trazia com ela o frio, algo que pareceria impossível durante

o

dia

enquanto

o

sol

estava

brilhando. Arthur havia aberto uma garrafa de vinho e eles estavam tomando a bebida em silêncio. Bárbara mal conseguia respirar. Arthur estava com o braço ao redor de seus ombros e lhe acariciava o pescoço com a Página 148

leveza de uma pluma. — Esses dedos adorariam passear por todo seu corpo, Bárbara, mas eles sabem resistir. — Ótimo, porque o jantar está quase pronto. — Em que posso ajudá-la, madame? — Pode arrumar a mesa, senhor — Bárbara respondeu, depositou o copo sobre a mesinha e se levantou. Depois olhou para baixo e riu da expressão contrariada de Arthur. — Seria isso ou queimar nosso jantar. — Confesso que preferiria deixar que queimasse



Arthur

piscou,

mas

se

levantou em seguida. Embora estivessem

a

geladeira

bem

e

a

despensa

abastecidas,

Bárbara Página 149

preparou uma refeição rápida e simples: macarrão ao molho de queijo e salada. — Você pretende continuar usando tudo que

comprou

juntamente

com

a

propriedade? — Bárbara se referiu às panelas e aos utensílios de cozinha. — Ainda não abri todas as caixas que trouxe na mudança — Arthur explicou. — A garagem está cheia delas. A sra. Bush virá amanhã e ficará por alguns dias para cuidar da organização e para contratar alguém para me ajudar. — Eu pensei que a sra. Bush fosse continuar com você. — Ela continuará, mas na cidade, onde passarei grande parte do tempo. Além do que, ela não gosta do campo. Página 150

— Onde você mora na cidade? — Bárbara quis saber. — Em uma casa, em um apartamento...? — Eu moro perto da marina, ao norte, em uma cobertura com uma esplêndida vista para o mar. — Deve ser bonita. — É. E seu apartamento? —

É

pequeno

com

apenas

um

dormitório. Dá vista para um parque. Não é como aqui, mas... — Lidcombe Peace não está em mãos inimigas, Bárbara — Arthur murmurou. Bárbara respirou fundo e passou uma das mãos pelos cabelos. — Não, é claro que não. —

A

consciência

de

tê-la

perdido

atingiu-a neste momento, por assim dizer? Página 151

— Não sei explicar. Parece algo irreal. De repente, sinto como se estivesse sem raízes. Para você ter uma idéia, meu pai costumava se sentar na cadeira onde você está sentado. Aos domingos, o cardápio do jantar era macarrão com queijo. Só agora me dei conta de minha escolha de cardápio. Arthur se levantou e foi até Bárbara. Pegou-a pela mão e levou-a até a sala onde a instalou em uma poltrona. Puxou uma banqueta, a fez apoiar os pés sobre ela e em seguida colocou um CD no aparelho. — Ao menos os CDs eu já coloquei no lugar apropriado. Agora, trate de relaxar enquanto preparo um café para nós. Ao som de Sonho de uma Noite de Verão de Mendelsohn, Bárbara fechou os olhos e Página 152

se entregou ao prazer do momento. Quando tornou as abri-los, Arthur estava a sua frente, com uma bandeja nas mãos. Bárbara fez espaço para que ele se sentasse na banqueta onde apoiara seus pés. Depois ficou assistindo enquanto ele servia o café e acrescentava algumas gotas de conhaque. — Acha que estou precisando de uma bebida para me reanimar?



Bárbara



Arthur

perguntou, desconfiada. —

Provavelmente

não

respondeu. — Você me parece à vontade na medida do possível. Sei que sua vida não tem sido fácil. Acho natural que tenha se cansado de ser forte em período integral. — É verdade. Não tem sido nada fácil. — Como estão os negócios? — Arthur Página 153

indagou após uma pausa. — Começando a melhorar. Vendi um de meus modelos para uma rede de lojas do ramo esportivo. Trata-se de uma peça para a prática de ginástica aeróbica que entrará em produção daqui uma semana. Estou contratando mais costureiras para esse trabalho. — Bárbara se deteve como se estivesse refletindo. — Marquei algumas entrevistas para amanhã às nove. Se não quiser

chegar

atrasada,

precisarei

me

levantar ao nascer do sol. — Eu a lembrarei — Arthur prometeu. — A propósito, o que acha de ir a um concerto na sexta-feira à noite? Eu estarei na cidade e gostaria muito que você fosse comigo. O concerto será no Jardim Botânico e o tema será Mozart ao Luar. Página 154

— Você não disse que não iria trabalhar na semana que vem? — Bárbara estranhou. — Irá à cidade só por causa do concerto? — Por causa do concerto e de uma reunião. O que me diz? — Adoraria. — O concerto tem início às oito. Irei buscá-la às... — Chegue por volta das seis para jantarmos antes — Bárbara sugeriu e tentou disfarçar um bocejo. — Hora de ir para a cama — Arthur se apressou a encerrar a conversa. — Quer uma camiseta emprestada? Bárbara levantou-se também. — Não, obrigada. Usarei isto. — Bárbara mostrou um tecido que a acompanhava por quase todos os lugares que freqüentava. Página 155

— Um xale? — Arthur estranhou. — Não, não é um xale. É mais um manto. É feito de pashmina e é a peça mais útil que tenho em meu guarda-roupa. — Bárbara acariciou o tecido e abriu-o em toda sua extensão. — O que é pashmina?— Arthur quis saber. — É o tipo de cashmere mais fino, leve e macio que existe — Bárbara explicou. — Este manto leva trinta por cento de seda e setenta por cento de cashmere. As mulheres mais elegantes do mundo o usam. — Para dormir? Bárbara enrolou-o em seu corpo. — Como um sarongue. Serve para muitas situações. Depois que terminou de ajeitar o manto, Bárbara ergueu os olhos e Página 156

viu o modo como Arthur estava encarandoa. Uma onda de calor a invadiu. Era como se pudesse ler a mente de Arthur e ver a cena que ele estava imaginando: ela, nua, na cama, apenas com o manto colorido a cobri-la. Com um movimento rápido, Bárbara dobrou a pashmina. — Desculpe-me. Não foi proposital — disse, corada. Arthur não disse nada, mas o clima de sensualidade que fora criado entre eles era quase palpável. Bárbara se lembrou das mãos de Arthur nas suas, dos abraços e dos beijos que trocaram. Sua respiração tornou-se rápida. O desejo que Arthur a tocasse chegava a lhe causar dor. Sem perceber, ela abriu as mãos e o manto caiu a seus pés. Página 157

Arthur o ignorou. Seus olhos estavam pousados nos lábios úmidos e rosados. — Nada nos impede, Bárbara. Desde que você não se arrependa depois, com o nascer do dia. Bárbara se inclinou para apanhar o manto. Quando tornou a se levantar, fez a única pergunta que lhe ocorria. — Como posso saber? — Se não sabe, será melhor esperarmos até que sua mente clareie. Até lá, boa noite, minha querida. — Como Bárbara não se movesse do lugar, Arthur se aproximou, lhe deu um beijinho e apertou a ponta de seu nariz. — Não é o fim do mundo. Agora, vá para seu quarto. Se não conseguir dormir, sempre existe o recurso de uma ducha fria! Na

noite

da

quinta-feira,

Arthur Página 158

telefonou para o apartamento de Bárbara e avisou que não teria condições de jantar com ela na sexta-feira, mas que poderia encontrá-la no Jardim Botânico caso ela não se importasse de ir de táxi. — Não, é claro que não — Bárbara respondeu,

sem

conseguir

disfarçar

o

desapontamento. — Sinto — disse Arthur —, mas estou com

a

agenda

imprevisto

e

eu

atribulada. estarei

Surgiu

viajando

um para

Singapura no sábado às sete da manhã. — Onde nos encontraremos? — Bárbara quis saber? — Na entrada da marina? — Combinado. Quanto ao jantar, daria para você guardar os pratos para a ceia? — Arthur propôs. — Poderíamos ir para seu apartamento após o concerto. Página 159

— Tudo bem. Até! — Bárbara desligou e ficou pensando. Ela havia deixado Lidcombe Peace, atrasada, na segunda-feira. Passou horas virando de um lado para outro na cama e só pegou no sono quando era quase hora de acordar. Arthur precisou bater a sua porta uma porção de vezes. Após

um

banho

rápido,

encontrou

Arthur com o desjejum a sua espera. Ele havia preparado ovos com bacon, torradas e um bule de chá. Estava vestido, barbeado e penteado. Tinha o ar saudável de quem havia

levantado

cedo

e

feito

uma

estava

com

caminhada. Ela,

em

contrapartida,

olheiras, sem maquilagem, com as roupas do dia anterior e mal-humorada. Bastou Arthur fitá-la para dar um Página 160

sorriso. — Não precisa dizer nada. Já percebi que você não é do tipo que acorda de bem com a vida. —

Percebeu

errado



Bárbara

respondeu. — Em geral, acordo bem. Hoje foi uma exceção. — Por que não come algo? — Arthur ofereceu ao vê-la se servir apenas de uma xícara de chá. — Porque estou enjoada com o cheiro do bacon. Meu aparelho digestivo ainda não acordou por completo. Arthur colocou duas torradas em um prato e empurrou-o em direção a ela. —

Tente,

então,

as

torradas

com

manteiga ou com mel — ele sugeriu ao mesmo tempo que se servia de um pouco de Página 161

tudo. — Céus, você me faz sentir ainda pior! — Bárbara exclamou. — Não acorda apenas alegre

e

charmoso,

mas

também

com

apetite! É demais! Arthur se pôs a rir. — O que prefere que eu faça? — Ele largou o garfo e a faca. — A uma ordem sua, estou pronto para largar tudo isso e beijá-la até fazer com que se sinta melhor. Foi impossível não sorrir. Bárbara pegou uma fatia de torrada e besuntou-a com manteiga. — Acho que você deve comer a outra torrada, para não desperdiçar comida boa, porque eu tenho de estar a caminho do trabalho em cinco minutos. Bárbara voltou ao presente e olhou ao Página 162

redor. Ela havia atendido a ligação em seu quarto. A decoração seguia tons de rosa e branco, desde as paredes até o tapete e a colcha sobre a cama comas almofadas. Os móveis haviam sido trazidos de Lidcombe Peace. Eram lindas e antigas peças em mogno como as da sala. Além da cama, o criado-mudo era o móvel mais importante para Bárbara. Sobre ele, ela sempre mantinha um bloco de desenho e um estojo de lápis. Porque as inspirações

aconteciam

quando

ela

se

recolhia ou quando acordava. Bárbara viu-se esfregando os braços da maneira que Arthur fizera na segunda-feira ao se despedirem. Depois desse gesto, ele tomou suas mãos nas dele, encostou a testa à dela e pediu que dirigisse com cuidado. Página 163

A emoção provocou um nó na garganta de

Bárbara

e

inundou

seus

olhos

de

lágrimas que foram contidas, a custa de muito esforço. Por quê?, Bárbara perguntou-se vezes sem-fim. Por que Arthur a emocionava pelo simples fato de ser gentil? O que ela não queria admitir, mas que seu coração já sabia,

era

que

estava

cada

dia

mais

apaixonada por ele. Na noite seguinte, uma linda noite de luar, Bárbara esperou Arthur não muito longe

do

espetáculo.

local

onde

Embora

aconteceria

faltassem

o

apenas

quinze minutos para as oito horas, o entardecer ainda não havia dado lugar para a escuridão da noite. Ela estava usando uma saia preta longa Página 164

e reta com uma blusa grafite de mangas compridas enroladas até os cotovelos. O batom

vermelho

era

a única cor com

exceção do azul dos olhos. Os cabelos estavam soltos e esvoaçantes. O conjunto emprestava-lhe uma aparência sofisticada e elegante. O movimento de pessoas entrando no parque para assistirem ao concerto era intenso. Bárbara olhava para cada um dos rostos, mas Arthur não estava entre eles. Ela estava começando a pensar que ele não apareceria quando o viu e, mais uma vez, fitaram-se

por

um

longo

tempo

sem

trocarem palavras. A

simples

presença

de

Arthur

a

hipnotizava. De calça caqui e camisa azul sob

uma

jaqueta

esportiva,

ele

estava Página 165

magnífico. Aproximou-se e, sem dizer nada, ergueu a mão e acariciou-a no rosto. Bárbara fechou os olhos e lhe beijou a palma da mão. Não foram necessárias palavras. Os gestos

e

significado

os

olhares

que

alcançavam

ultrapassava

o

um

contato

físico. Aquela

intimidade

profunda

os

acompanhou por todo concerto e foi embora com eles quando se dirigiram, de braços dados, ao Range Rover. Estavam enlevados não apenas pelo luar e pela magia da música de Mozart, mas pelo fato de estarem juntos. Quase não falaram durante o trajeto para o apartamento de Bárbara. Assim que Página 166

entraram e ela fechou a porta, atiraram-se nos braços um do outro e se beijaram. Mas o

que

começou

comemoração

ao

transformando

em

com

um

encontro, um

apelo

beijo

de

foi

se

de

forte

sensualidade. Em uma comemoração ao desejo que seus corpos sentiam um pelo outro. A

excitação

estava

espelhada

na

respiração de Arthur no momento que ele desabotoou a blusa de Bárbara e a fez deslizar pelos ombros até revelar os seios cobertos por um sutiã preto de renda. Também foi demonstrada pelo modo como Arthur deslizou as mãos pelas costas e pelos quadris de Bárbara. O prazer a fez jogar a cabeça para trás e arquear o corpo em um convite para que as carícias continuassem. Página 167

Mais tarde, quando Arthur se afastou e encontrou forças para lembrar Bárbara de que estavam prestes a entrar em um caminho sem volta, ela o surpreendeu com a atitude que ele mais desejava no mundo. Sem dizer nada, Bárbara o segurou pela mão e o levou para seu quarto. Entre beijos, Arthur terminou de despila e a carregou até a cama. O tempo de parar para se despir antes de se deitar ao lado dela, a deixou trêmula. Não de frio, mas de excitação. Mas Arthur não se aproveitou de sua paixão. Ele foi gentil como nunca. Primeiro a tranqüilizou

com

a suavidade

carícias

com

a

e

doçura

de

suas

com

que

pronunciou seu nome. Depois a beijou com delicadeza não Página 168

apenas no rosto, nos olhos e nos cabelos, mas também no pescoço e nos ombros. Só então, Arthur passou para as zonas mais sensíveis do corpo feminino. E, mais uma vez,

teve

a

surpresa

de

também

ser

acariciado com sensualidade, de modo que ambos estavam experimentando emoções e sensações incríveis com mútua satisfação até explodirem e se abandonarem completamente saciados. Eles só se lembraram da ceia às duas horas da manhã. Arthur vestiu a roupa com que fora ao concerto, mas Bárbara colocou um robe de seda. Ela havia preparado frango ao molho agridoce de cebolas e uma salada toscana de atum, anchovas, ovos cozidos e tomate. Página 169

Para acompanhar, ela serviu pão italiano e vinho clarete. Enquanto

Arthur

servia

o

vinho,

Bárbara viu-se sorrindo. Era a primeira vez que sentia necessidade de tomar um vinho encorpado em sua vida. Mas também, era a primeira vez que fazia amor com tanta paixão. Algo lhe dizia que depois daquela noite, ela nunca mais seria a mesma. Tomara um banho antes de dar os últimos

retoques

ao

jantar.

Enquanto

terminava os preparativos, Arthur banhouse também. Agora que estavam novamente juntos,

o

silêncio

parecia

dominar

o

ambiente. —

Você

perguntou

e

me ela

permite? fitou-o.

E



Arthur

antes

que

pudesse imaginar o que ele tinha em mente, Página 170

viu-o levar os pratos para sala, voltar e erguê-la nos braços. Depois de acomodá-la no sofá, voltou à cozinha para apanhar os copos e o vinho. Mais uma vez ele a surpreendeu quando se sentou a seu lado e a puxou para seu colo. — É difícil voltar à Terra sem termos a sensação de que estamos caindo em um precipício — Arthur cochichou no ouvido de Bárbara. — Principalmente quando é tão perfeito. Ela sorriu, aliviada. —

É

exatamente

como

estou

me

sentindo. Como se estivesse flutuando. Arthur segurou-a pelo queixo e beijoulhe os lábios até que ela abriu os olhos e encontrou os dele. Página 171

— Eu também estava cogitando o que farei enquanto você estiver fora — Bárbara contou e ergueu a mão para acariciar-lhe as faces. Arthur beijou cada um de seus dedos. — Eu só ficarei fora por três dias. — Parecerá um século. — Para mim também. Por que não viaja comigo? Bárbara sentou-se no sofá e pegou os copos de vinho. — Para começar, não tenho reserva... — Isso não seria um problema. — Não posso me ausentar do trabalho no momento. — Desses três dias, dois serão sábado e domingo. — Eu não terei condições de folgar nem mesmo durante o final de semana



Página 172

Bárbara declarou. — Mas a razão fundamental é que não tenho energias, nem fibra moral, nem presença de espírito o suficiente para ir a parte alguma neste momento. Principalmente para Singapura. Arthur achou divertido o jeito de ela falar. — Não pense que será diferente comigo. Terei de reunir uma força colossal para sair daqui. Bárbara tomou um gole do vinho e encarou-o. — Você sabia que isso iria acontecer esta noite? — Não. E você? — Não — Bárbara admitiu. — Mas confesso que a possibilidade me ocorreu em pensamento. Mais ainda, o porquê desse Página 173

ímpeto. —

Não

seria

porque

estamos

nos

apaixonando? Bárbara sentiu um arrepio percorrer seu corpo. — Sim. Oh, sim, mas... — Você acha que estamos indo rápido demais? Bárbara viu os olhos de Arthur estreitarem. Engoliu em seco. Mas, em seguida, suspirou de alívio ao ver um sorriso naqueles lábios. — Essa é a Bárbara que eu conheço. Inteligente e sensata. Bárbara hesitou e então sorriu. — Isso mostra que você não a conhece tão bem quanto pensa. — Em que sentido? — Bem, há uma voz dentro dessa Bárbara que diz que ela, se tivesse bom Página 174

senso, deveria colocar um freio em você e nela própria. Fez-se silêncio por um momento. Em seguida, Arthur se pôs a rir e abraçou-a. — Há uma outra voz dentro desse homem que diz que prefere que ela continue sem o bom senso. Todo

constrangimento

de

Bárbara

desapareceu com essa declaração. Pelo resto da noite, seu comportamento foi natural e espontâneo.

Eles

conversaram

com

entusiasmo e riram como há muito não faziam. A impressão de Bárbara era que uma nova etapa havia começado em seu relacionamento com Arthur. Que haveria ternura e amizade além de fogos de artifício. — Tenho de ir agora — Arthur disse por fim. — E você precisa dormir. Página 175

Arthur se levantou e estendeu as mãos para ajudá-la a se levantar também. Então abraçou-a e demorou para soltá-la. — Boa viagem, sr. Keir. —

Cuide-se,

despenteou

os

srta. cabelos

Harris. de



Ele

Bárbara

e

percorreu as mãos lentamente por seu corpo por baixo da seda. Bárbara fechou os olhos e deitou a cabeça em seu ombro enquanto cenas dos momentos de amor lhe voltavam à mente. — Não pense que está sendo fácil para mim — Arthur murmurou. — Estou tentando não pensar em nada —

Bárbara

confidenciou.

Em

seguida

cochichou no ouvido dele. — Talvez seja mais fácil se você não me tocar. — Isso é pedir demais.



Arthur Página 176

segurou as mãos de Bárbara e beijou-lhe as palmas. Depois olhou no fundo de seus olhos. — Voltarei o mais depressa que puder. Nada conseguiria me deter mais do que o estritamente necessário. Assim que a porta fechou, Bárbara voltou para a cama e adormeceu quase de imediato. Eram dez horas quando acordou e só

porque

alguém

estava

tocando

sua

campainha. Vestiu rapidamente um robe e passou as mãos pelos cabelos. Quando atendeu, teve a grata surpresa de deparar com um garoto de entregas segurando um enorme buquê de rosas. Não por acaso, eram brancas, rosa-claro e pink. As cores de seu quarto. Bárbara abraçou as flores e aspirou o Página 177

delicado perfume. Arthur não poderia ter oferecido um presente mais especial. Para ela, o buquê significava uma celebração pelo que havia acontecido entre eles na noite anterior. — Nunca me senti tão feliz em minha vida — falou consigo mesma. — Você fez de mim uma outra mulher, Arthur Keir. Com um sorriso nos lábios e a felicidade no coração, Bárbara colocou as rosas em um vaso, tomou uma ducha e foi para o trabalho com uma nova disposição. Nas

semanas

seguintes,

Arthur

e

Bárbara passaram juntos cada momento livre. Ela descobriu uma porção de pequenos detalhes a respeito de Arthur. Que embora ele pensasse que estava se dedicando mais a Página 178

sua vida particular, ganhar dinheiro ainda continuava a ser sua ocupação principal. Admirava-o muito por ter conseguido uma formação superior com as poucas chances de escolaridade que tivera. Estavam

em

seu

apartamento

uma

manhã de domingo, depois de terem saído para jantar e para dançar no sábado. Tomavam o café e Arthur lia o jornal. A rapidez com que ele leu uma matéria incitou-a a fazer um comentário. — Tive sorte no sentido de meu pai gostar de ler — ele explicou. — Acho que essa era sua única concessão ao lazer. Ele lia tudo que lhe caía nas mãos, fosse ficção ou não-ficção. Eu aproveitava e lia também. — E seu amor pela música, de onde veio? — Bárbara quis saber. Página 179

— Como não veio de meu pai, acho que o herdei de minha mãe. Bem, acho que o dono da fazenda onde meu pai trabalhava também

foi

responsável

em

parte.

Ele

adorava música e eu o ouvi várias vezes conversando com meu pai sobre minha educação. Ele se ofereceu, inclusive, para me pagar uma escola. Em um de meus aniversários,

deu-me

uma

enciclopédia

completa de presente. — Quase consigo ver você criança em minha mente. Arthur largou o jornal e olhou para a camisola de seda que ela estava usando. — Sabe o que estou tentando enxergar neste momento? — ele indagou. — Você, sem essa linda camisola... Bárbara sorriu. — Mas nós acabamos de sair da cama... Página 180

— Está querendo me dizer que é cedo demais para você? — Ele deu a volta à mesa, ajoelhou-se e acariciou as pernas de Bárbara. — Acho que sim. Por outro lado, sou uma garota que consegue se adaptar às circunstâncias... —

Está

me

chamando

de

"circunstâncias"? — Arthur estreitou os olhos que brilhavam de malícia. As mãos deixaram as pernas e subiram em direção aos seios. Bárbara o fez encará-la. — Sabe o que mais? Além de ter sido um menino brilhante, acho que você nunca resistiu a um desafio. Uma noite, Bárbara convidou Natalie e seu namorado para jantarem com eles. Página 181

Quando Arthur chegou, encontrou-a à beira das lágrimas. —

O

que

houve?



perguntou,

assustado. — Minha pia entupiu! O triturador de lixo não está funcionando! Como alguém pode preparar uma refeição se não pode contar com uma pia decente?! — Bárbara exclamou, encanador,

dramática. mas

ele

— só



chamei

pode

vir

o

aqui

amanhã! —

Acalme-se



Arthur

murmurou,

solícito. — Você já se olhou ao espelho? Bárbara olhou para baixo. Estava com a roupa que usara para ir ao trabalho, mas na confusão, metade da blusa havia saído de dentro da calça cujo zíper estava aberto. Os pés estavam descalços e os cabelos em Página 182

completo desalinho. — Oh! Estou horrível! O pior é que me sinto

horrível.

Arthur

abraçou-a

pela

cintura. — E eu que acreditava que nada a fazia abandonar sua postura de rainha. Um forte rubor tingiu as faces de Bárbara naquele momento. — Essa era a última observação que eu esperava ouvir neste momento. —

Desculpe-me.

Talvez

possa

compensá-la consertando seu triturador de resíduos? — Você sabe? —

Posso tentar. Desde, é claro, que

você me pague um sinal. Bárbara começou a se sentir melhor no mesmo instante. Ergueu-se nas pontas dos Página 183

pés e lhe deu um beijinho nos lábios. Ele riu. — Não se esqueça de que isso foi apenas a entrada do pagamento. — Prometo não esquecer. Arthur

recomendou

que

Bárbara

aproveitasse o tempo, enquanto ele resolvia o problema, para se banhar e trocar de roupa. Dez minutos depois, ele lhe deu a notícia de que a pia estava em ordem e cobrou a primeira prestação da dívida que estipulou em outro beijo. Depois que Natalie e seu namorado foram embora por volta da meia-noite, Bárbara fez questão de pagar o saldo da dívida com uma surpresa. Ela lhe mostrou os diversos usos de uma pashmina em uma dança sensual antes de levá-lo para sua Página 184

cama.

CAPÍTULO V Bárbara estava completando vinte e seis anos.

Fazia

três

meses

que

estava

namorando Arthur e que passavam juntos todos os momentos livres. No meio do expediente, sua sócia estava olhando

pela

janela

quando

fez

uma

observação estranha. — Hoje é seu aniversário, não? — Você sabe que sim — Bárbara brincou. — Ou foi por outro motivo que me deu os parabéns quando chegou e este belo par de luvas. — Bárbara indicou o presente em cima de sua mesa. Página 185

Natalie pigarreou. — Arthur já a cumprimentou? — Ainda não. Ele deve regressar hoje da Malásia. Por quê? — Você anda tendo problemas com seu carro, não? — Você sabe que sim. Não atrasei outra vez ontem porque ele quebrou a caminho daqui? — Acho que seus problemas nesse sentido acabaram. O enigma, de repente, começou a fazer sentido. — O que está querendo me dizer? — A menos que outra pessoa neste prédio esteja fazendo aniversário, você não precisará mais economizar cada centavo para trocar de carro. — Ainda não sei de que você está Página 186

falando, mas... — Bárbara foi até a janela e perdeu a fala ao ver Um carro prateado novo em folha diante do prédio. Sobre a capota havia

um

enorme

laço

cor-de-rosa

e,

amarradas à antena, uma porção de bexigas prateadas em formato de coração com os dizeres "Feliz Aniversário". — Não acredito. Ele não faria... — Eu acredito. Ele fez. — Natalie se pôs a rir ao mesmo tempo que abraçava a sócia. — Menina, você realmente conquistou esse homem! Bárbara levou as duas mãos ao rosto. Sua expressão era de total incredulidade. — Ele não pode ter feito isso! Ninguém dá um carro de presente de aniversário. A menos que... — Céus, pare de reclamar! Metade das Página 187

mulheres

do

mundo,

inclusive

eu,

adorariam que um homem lhes desse um carro de presente. Não foi do dia para a noite, afinal. Faz meses que você anda com a cabeça nas nuvens por causa de Arthur Keir. Eu já os vi juntos. Formam um lindo casal. Quanto ao presente ser caro, qual o problema? Ele tem dinheiro para lhe dar centenas de carros. — Acho melhor esclarecer essa situação, antes

de

mais

nada.



Bárbara

imediatamente tirou o fone do gancho para devolvê-lo em seguida. — Seria perda de tempo. Arthur ainda não chegou de viagem. Se

o

incerteza,

problema um

de

minuto

Bárbara depois

a

era

a

dúvida

deixou de existir com o toque da campainha e a entrega de um pacote contendo um Página 188

manual do

proprietário

e um chaveiro

dourado com as iniciais B e H e as chaves de um carro. — Agora está convencida? — Natalie perguntou. Bárbara fez que sim com a cabeça. — Há uma verdadeira multidão ao redor do carro. Umas cinqüenta pessoas, eu diria, fora o guarda que está se aproximando. — Certo. Certo. Não precisa dizer mais nada. Eu vou descer. Domênica Harris pretendia dar uma grande festa em homenagem à filha mais velha aquela noite. E como a casa já estava à venda, também serviria como uma festa de despedida. Bárbara não tinha planos nem dinheiro para gastar com um evento nas proporções Página 189

a que sua mãe estava acostumada, mas como sabia do esforço que ela estava fazendo para se desligar de Rose Bay e seguir em frente com sua vida, decidiu assumir mais esse desafio. Naquela tarde, quando voltou para casa do

trabalho,

Bárbara

encontrou

uma

mensagem de Arthur em sua secretáriaeletrônica. Ou melhor, da assistente dele. Ela dizia que o vôo estava atrasado e que Arthur a encontraria na festa porque não teria como buscá-la para irem juntos. Bárbara não gostava de receber recados de

Arthur

por

meio

de

intermediários,

embora nunca tivesse se queixado. Daquela vez, no entanto, além de aborrecida, ela ficou zangada. Se Arthur teve condições de ligar para a secretária, por que não gastara Página 190

mais um minuto de seu precioso tempo para lhe telefonar? Mas, seria apenas essa indelicadeza de Arthur que a estava incomodando?, Bárbara se perguntou. Ou o motivo real era o presente de aniversário e a necessidade que ela sentia de devolvê-lo antes do encontro em casa de sua mãe? A raiva aumentou ainda mais quando ocorreu a Bárbara que Arthur havia alegado um atraso inevitável deliberadamente, só para impedir que ela tivesse aquele tipo de reação. Ao se dar conta de que o tempo estava passando e que acabaria chegando atrasada a sua própria festa, Bárbara tomou um banho perfumado e se vestiu. Meia

hora

depois,

maquilada

e

Página 191

penteada, ela se mirou ao espelho e se sentiu satisfeita com a imagem que viu. Saia longa preta de seda tailandesa, corpete tomara-que-caia

avermelhado

e

uma

corrente antiga de ouro e rubi ao redor do pescoço. Em vez de deixar os cabelos soltos como vinha fazendo nos últimos dois meses, Bárbara prendeu-os em um coque formal que

lhe

emprestou

uma

aparência

de

rainha. Parecia alguns anos mais velha daquele jeito, mas era exatamente o que pretendia. Sua conversa com Arthur seria séria. A garota cigana e a sereia não combinariam naquelas circunstâncias. Bárbara estava apanhando a bolsa para descer e chamar um táxi quando um ruído à janela lhe chamou a atenção. Página 192

Estava chovendo. Chuva e noites de sexta-feira eram a alegria dos motoristas de táxi. Certa de não conseguiria chegar a tempo, caso insistisse em esperar por um que estivesse livre, decidiu mudar de idéia quanto a se negar a usar o carro novo. Sentia-se tensa e ansiosa. Parecia ter voltado aos dias que conhecera Arthur. O conforto que sentia a seu lado e que a levara a

se

portar

como

parceira

dele

sem

constrangimento foi esquecido. Não vinha ao caso que as pessoas os tivessem visto em toda sorte de locais públicos, como parques, restaurantes

e

teatros.

Nem

que

eles

tivessem sido fotografados em uma galeria de arte, em um iate e em um evento beneficente. Não vinha ao caso tampouco que em vez Página 193

de diminuir, a paixão entre eles estava aumentando. Sua mãe e Christy estavam felizes por ela.

Como

gostara

de

Arthur

desde o

primeiro momento, sua mãe já havia perguntado mais de uma vez se eles tinham planos de casamento. Em todas elas, Bárbara fizera um gesto de indiferença com o ombro e se recusara a pensar a respeito. De um momento para outro, porém... Bárbara teve um sobressalto ao se aproximar de Rose Bay e ver o Range Rover verde-escuro. Ao que parecia, Arthur não estava tão atrasado que não pudesse ter ido apanhá-la. A

surpresa

somou-se

a

irritação

quando, após percorrer os limites da casa, Página 194

descobriu que não havia sobrado nenhuma vaga para ela. Sem alternativa, Bárbara parou longe. E como esquecera de trazer um guarda-chuva, cobriu

a cabeça

e

os

ombros

com

a

pashmina da qual raramente se separava. Ao abrir a porta, a primeira pessoa que viu a sua frente foi sua mãe. Feliz e entusiasmada, ela a abraçou e beijou. Domênica ainda não havia soltado a filha quando Arthur se aproximou com o mais adorável dos sorrisos. —

Está

princesa

parecendo

indiana

esta

uma noite,

misteriosa Bárbara.

Parabéns, minha querida. — Obrigada — Bárbara agradeceu e tirou o manto. Não conseguia explicar, mas nem sequer a doçura com que Arthur a Página 195

recebeu, afastou a frieza provocada pela contrariedade. — Quanto a seu presente, lamento mas não posso aceitá-lo. — Ela devolveu o chaveiro dourado com as chaves. Não houve tempo para Arthur responder e muito menos para recusar as chaves que Bárbara colocou em sua mão porque Christy veio correndo e se atirou nos braços da irmã. Então ao som de Parabéns a Você entoado por trinta vozes reunidas na sala de estar, Christy e Bárbara seguiram para lá. Sem opção, Arthur teve de colocar as chaves no bolso e acompanhá-las. Cercada pelos convidados que faziam questão de cumprimentá-la, Bárbara não teve como dar atenção a Arthur. Ao menos foi isso que ele pensou no início. O sinal de que havia algo errado foi Página 196

percebido somente quando após abraçar e ser abraçada por todos, Bárbara continuou afastada. — Eu fiz alguma coisa que a ofendeu? — Arthur perguntou, por fim, quando o bufê foi servido e eles se encontraram à mesa. — Eu teria ficado mais feliz com um buquê de flores. — Mas continuaria com o coração na mão cada vez que tivesse de tirar o carro da garagem — ele retrucou. — Problema meu. — Bárbara fitou-o, séria, e se afastou para só tornarem a se falar à sobremesa. Por

sua

vontade,

Bárbara

o

teria

ignorado durante toda a festa, mas sabia que essa atitude provocaria comentários além de preocupar sua mãe, radiante como Página 197

anfitriã, no que deveria ser sua despedida de Rose Bay. Portanto, foi pelo bem de sua mãe que Bárbara concordou que Arthur se sentasse a sua mesa e o recebeu com um sorriso, quando ele a procurou. Não só isso, mas conversou

como

se

nada

houvesse

acontecido até que os outros ocupantes se afastaram para repetir a sobremesa. — Eu poderia ter comprado um colar de brilhantes ou de pérolas — disse Arthur na primeira oportunidade. — Qual teria sido a diferença? — Nenhuma — Bárbara respondeu com a mesma ironia que detectou no comentário. — Eu o teria devolvido do mesmo jeito. — Que tipo de presente prefere que eu dê? Página 198

— Flores, livros, discos. Talvez outro elefante para minha coleção. — Por acaso isso é uma lição de etiqueta para

o

menino

sofisticação

da

que

cresceu

cidade?



longe

da

Arthur

a

interrompeu. — Claro que não! — Bárbara respondeu, arrependida

de

algumas

palavras

que

dissera, mas sem dar demonstração. — É uma lição de como não fazer uma mulher se sentir sustentada. — Quer dizer que um carro só pode ser oferecido a uma esposa? É proibido oferecer à namorada aquilo de que ela mais está necessitando? Era um presente, Bárbara. Eu o dei a você com laço de fita e tudo. Bárbara respirou fundo. — Você foi muito atencioso, mas... — Página 199

Ela hesitou. — Mas seu presente custou cerca de trinta mil dólares! Será que você não percebe? —

Percebo

que

sua

mãe

está

se

aproximando — Arthur disse baixinho e se levantou. — Posso lhe trazer mais alguma sobremesa, Bárbara? Sra. Harris, por favor, sente-se em meu lugar. Gostaria que eu a servisse? Ah, e parabéns pela linda festa. Domênica agradeceu e se sentou. — Ele é tão simpático! Vocês fazem um par adorável. Estou com um pressentimento de que ele lhe fará uma surpresa na hora de cortar o bolo. Não acha que seria a ocasião perfeita para vocês ficarem noivos? As palavras da mãe tiveram o efeito de uma

punhalada

em

Bárbara.

Naquele

momento, ela entendeu o porquê de sua Página 200

decepção. Ela, também, estava nutrindo secretamente essa esperança. — Ora, mamãe, nós só nos conhecemos há três meses! — Sim, eu sei disso. Eu apenas... — Domênica parou de falar abruptamente. — Ou eu estou enganada e ele já lhe deu um presente? — Arthur me deu um carro —- Bárbara respondeu com um fio de voz. — Ele mandou entregar em meu trabalho com uma fita cor-de-rosa e bexigas prateadas em formato de coração. Eu... A mãe pestanejou quando Bárbara foi incapaz de prosseguir. — Um carro? Arthur lhe deu um carro de presente? — Sim, mamãe — Bárbara confirmou. Página 201

—- Mas eu... — Era exatamente de que você estava precisando! Quanta consideração! E que romântico ele mandar entregar o presente com fitas e balões. Você é uma garota de sorte, Bárbara. Sem que Domênica e Bárbara notassem, Arthur havia voltado à mesa e estava próximo

o

suficiente

para

escutar

a

conversa. — Mas ele gastou uma fortuna. — Tudo é relativo, querida — a mãe lembrou. — Ele tem muito dinheiro. O que esperava? Que ele fosse lhe dar um buquê de flores? Ele não se sentiria bem. Não quando, obviamente, está apaixonado por você. — Natalie é da mesma opinião — Página 202

Bárbara estava dizendo quando percebeu que ele estava perto. Arthur

não

disse

nada.

Nem

ela.

Representaram seus papéis até o fim da festa que terminou sem maiores surpresas, exceto pela chegada tardia de um jovem que Christy apresentou como um amigo, mas que, pelo que Bárbara percebeu, não tirava os olhos de sua irmã mais nova nem sequer por um segundo. Faltavam quinze minutos para meianoite quando o bolo de aniversário com vinte e seis velinhas foi trazido. Mais uma vez, todos cantaram em homenagem a Bárbara. Depois que ela apagou as velinhas, Arthur propôs um brinde. — A Bárbara, que ilumina a vida de muitas pessoas e principalmente, a minha! Página 203

Os aplausos foram entusiásticos. — Você não acha que deveríamos ter sido os últimos a nos despedir? — Bárbara perguntou trinta minutos depois, sentada ao lado de Arthur no Range Rover. Como a movimentação de carros nos arredores da casa ainda era grande, Arthur confiou a Christy a tarefa de guardar o carro novo de Bárbara na garagem, assim que os convidados se fossem. Disse a ela e a Domênica que queria levar Bárbara consigo porque ainda tinha uma surpresa para lhe fazer. — Quase todos já foram. Tenho certeza de que compreenderam que o namorado da aniversariante quisesse ficar um pouco a sós com ela. Bárbara se recusou a encará-lo. Página 204

— Não estou com humor para iluminar sua vida neste momento, Arthur. Para onde está me levando? — Para minha casa. Lá teremos mais privacidade caso você insista em termos nossa primeira briga. Bárbara cerrou os dentes para não gritar. Por mais que tentasse fazer Arthur compreender o que ela estava sentindo, ele não lhe dava ouvidos. Como se não bastasse seu sorriso permanente, ele tirou algo do bolso e o colocou em seu colo. — Eu queria lhe dar isto em particular. Era um pequeno estojo

de veludo.

Quando o abriu, Bárbara encontrou um elefantinho de ouro com duas safiras azuis no lugar dos olhos. No mesmo instante, virou a cabeça para a janela para que Página 205

Arthur não visse que estava chorando. Ela já conhecia a cobertura onde ele morava. Era ampla e luxuosa. Além do quarto, era a sala íntima que eles mais usavam. O lugar era aconchegante com paredes verde-escuras e sofás em couro de onde podiam admirar a coleção de objetos de arte que ele possuía. Era ali que eles jogavam xadrez ou ouviam música. Também era ali que costumavam comer e assistir televisão. Muitas vezes, fizeram amor naquele tapete macio... E foi para lá que Arthur a conduziu depois que completaram o trajeto, em total silêncio. — Quer comer ou beber alguma coisa? —

ele

ofereceu

enquanto

afrouxava

a

gravata e tirava o paletó. Página 206

— Não, obrigada. Sinto se o ofendi. Estou me sentindo horrível especialmente diante disto. — Bárbara indicou a pequena jóia. — Mas você não devia ter me dado um carro. Não é certo. — Só você achou errado — Arthur lembrou. —

A

opinião

dos

outros

não

me

interessa — Bárbara retrucou, desalentada. — O que devo dizer para você me entender? Eles estavam bem próximos, mas ao mesmo tempo a quilômetros de distância. — Acha que eu não me preocupo por você estar precisando de um carro novo e não ter meios de comprá-lo? —

Acontece

que

eu

não

estou

preocupada com isso! Tenho dívidas para pagar antes. Seria uma mera questão de Página 207

tempo,

Arthur.

Tenho

capacidade

para

ganhar meu próprio sustento. — É assim que eu a faço sentir? Uma inútil? Bárbara não foi capaz de sustentar o olhar ferido de Arthur naquele momento. — Não gosto de pensar que estou sendo... — Mantida por um homem? — ele terminou a frase de forma brusca para em seguida se sentar ao lado dela e perguntar baixinho — E se eu lhe oferecer o carro em base de um leasing? Você poderia deduzir parte do pagamento como despesa da firma. Afinal, você sempre usou seu carro para entregar mercadorias. — Você aceitaria? — Bárbara indagou, entusiasmada. — Se isso a deixa feliz, sim. Página 208

— Nesse caso, eu concordo. Essa idéia de leasing já havia passado por minha cabeça. A

expressão

de

Arthur,

contudo,

continuava séria e taciturna. Bárbara sentiu necessidade de reforçar seu pedido de desculpa. —

Existe

uma

maneira

de

você

consertar a situação — Arthur sugeriu. — Qual? — Bárbara sentiu o coração bater mais forte. Ele se levantou, diminuiu a intensidade da luz e colocou um CD. Quando voltou para junto de Bárbara, inclinou a cabeça e estendeu a mão. — Concede-me esta dança, senhorita? Nos braços de Arthur, Bárbara sentiu que estremecia quando ele murmurou em seu ouvido que estava esperando dançar Página 209

com ela desde a festa. — Eu, em contrapartida, estava aliviada por minha mãe não ter planejado um baile — Bárbara confessou. — Por quê? — Arthur quis saber. — Porque seria impossível continuar zangada com você, sr. Keir. — Percebo. — Arthur se pôs a tirar os grampos

que

prendiam

os

cabelos

de

Bárbara. — Então, se eu tivesse esperado por este momento para lhe dar o carro, você não teria recusado? — Sinto dizer, mas embora fosse mais difícil para mim, eu o teria recusado do mesmo jeito. — E se eu a estivesse acariciando como agora? — Arthur deslizou as mãos pelas costas e pelos seios de Bárbara, por baixo Página 210

da

roupa.



Não

pode

imaginar

os

pensamentos que me assaltaram enquanto eu a observava durante a festa e não podia tocá-la. — Não acho certo que estivesse dando vazão a fantasias libidinosas sob o teto de minha mãe — Bárbara fingiu que estava escandalizada com a ousadia. — Sempre tenho fantasias com você — Arthur sussurrou. — Dia e noite. Com você perto ou longe de mim. Responda. Teria sido capaz de dizer não nestas circunstâncias? — Arthur a fitou nos olhos e colocou as mãos em sua cintura enquanto se moviam ao ritmo sensual da música. Bárbara precisou respirar fundo. Sentir o calor de Arthur em seu corpo estava afetando-a mais do que desejaria admitir. Página 211

Ao mesmo tempo, sabia que ele estava desafiando-a. — Sim, eu teria sido — ela afirmou sem baixar os olhos. — Mas teria sido ainda mais difícil. Adoro dançar com você. Em especial a sós como agora. Confesso que sonhei com isso desde a primeira vez. Bárbara percorreu os braços de Arthur depois dessas palavras, acariciou seu rosto e beijou-o de leve nos lábios. Depois fechou os olhos, encostou a cabeça em seu pescoço e continuou a se mover ao som da música. — Como isso aconteceu? — Arthur perguntou, inclinado sobre Bárbara, entre os lençóis. Estava amanhecendo e o quarto já estava inundado de luz. Das primeiras vezes Página 212

que

o

partilhara

com

Arthur,

Bárbara

cogitara sobre as outras mulheres que já haviam se sentido como princesas em um palácio. A cama de dossel lhe dava essa impressão. Ao comentar a respeito, Arthur riu e contou que a decoração viera junto com o imóvel. — Como aconteceu? Está se referindo ao fato de termos acordado à aurora quando passamos quase a noite toda fazendo amor? Ou ao fato de estarmos tão entretidos que esquecemos

de

fechar

as

cortinas?



Bárbara perguntou, provocante. — Arthur afastou o lençol e deslizou os dedos pelo vale entre os seios. — Eu estava me referindo à mudança de seu estado de espírito. Lembra-se de como chegou aqui ontem à noite, srta. Harris? Página 213

— Ah, sim. Eu me lembro que você, muito sensatamente, cedeu à força de meus argumentos, sr. Keir. — Não sei sobre essa parte de sensatez, mas concordo sobre seus poderes... — Se continuar me acariciando desse jeito, quem acabará cedendo serei eu. Posso dar uma sugestão? — Bárbara brincou. — Desde que não tente sair desta cama em um futuro muito próximo — Arthur respondeu. — Isso nem sequer passou por minha cabeça



Bárbara

confessou

com

um

suspiro. Sem que Arthur esperasse, ela se sentou com ímpeto e se inclinou sobre ele. Arthur riu, surpreso. — O que pretende fazer comigo? — Mantê-lo em suspense — respondeu, Página 214

enigmática. — Este será mais um de seus testes? —

Talvez.

Gosto

desta

posição

de

domínio. Afinal, acho que tenho esse direito uma vez que me tornei uma escrava da perfeição de seu corpo, sr. Keir. —Bárbara se contorceu voluptuosamente e sorriu, triunfante,

quando

o

ouviu

gemer.



Entende agora o que eu estava querendo dizer? — Sim, completamente. Bárbara começou a beijá-lo naquele instante e não conseguiu mais manter sua posição porque Arthur a fez rolar na cama e eles não pararam até saciarem mais uma vez o imenso desejo que sentiam um pelo outro. — Sobre ontem a noite... — Arthur Página 215

tentou falar mais tarde, mas Bárbara o impediu. — Deixemos a noite de ontem para lá. A história do carro é uma página virada. Uma súbita contração nas feições de Arthur deixou Bárbara novamente tensa. Em franca expectativa, ela quase deixou escapar um suspiro de alívio quando ele propôs que fossem à praia e mais tarde a Lidcombe Peace. O dia foi maravilhoso e simples como Bárbara gostava. Comeram cachorro-quente na praia e tomaram refrigerante. Eram quase quatro horas quando chegaram à fazenda. A

impressão

de

Bárbara

Lidcombe

Peace

pertencendo.

Freqüentava-a

era

continuava quase

que lhe como Página 216

antes, quando o lugar ainda pertencia a sua família. Arthur até mesmo lhe pediu que contratasse o mesmo casal que cuidara da casa e do jardim durante anos. Era ela quem decidia o que devia ser plantado e comprado. Também foi ela quem escolheu a decoração nova do quarto que passaram a ocupar. Em um dos armários, ela até mesmo deixou algumas roupas. Para cuidar dos animais e dos serviços da fazenda, Arthur contratou um capataz de cerca de sessenta anos, excelente pessoa e caubói nato que ele conhecia desde criança. Havia ocasiões, entretanto, que Bárbara se sentia culpada por continuar desfrutando da propriedade quando sua mãe e Christy ficaram impedidas de fazê-lo. Naquela

noite,

enquanto

conversava Página 217

com Arthur diante da lareira, Bárbara comentou que não vira mais sua irmã desde seu aniversário e que o jovem que ela lhe apresentara talvez fosse a razão de seu desaparecimento. A menção a Christy trouxe de volta os acontecimentos da festa. Por mais satisfeita que Bárbara se sentisse por ter vencido a batalha com relação ao carro, no fundo ela estava decepcionada por ter esperado em vão por um anel de noivado. Ela olhou para Arthur e sentiu uma onda de emoção invadi-la. Pareciam casados de tão à vontade que se sentiam um com o outro. Sentado em uma poltrona, de jeans e camiseta, lendo o jornal, a imagem que Arthur lhe transmitia era de um marido, em casa, em um dia livre. E ela era a esposa, de Página 218

pijama, sentada sobre os pés em outra poltrona. — Fale-me sobre as outras mulheres de sua vida. Arthur baixou o jornal e franziu o cenho. — Por quê? O que a fez pensar nisso agora? — Nada especial. — Ela encolheu os ombros. — Curiosidade. De acordo com minha irmã, eu sempre tive preferência por homens menos seguros de si mesmos. — É como me encara? Como alguém seguro? — Talvez eu tenha me acostumado aos tipos mais acadêmicos por causa da criação que recebi. Meu pai era um historiador, vivia entre outros professores e alunos. — Ela fez uma pausa. — Você já teve um Página 219

relacionamento como o nosso com outra mulher? — Não, mas já tive outras mulheres. Não me lembro delas como mais ou menos seguras de si mesmas, mas como ruivas. De uma maneira inconsciente, Bárbara estremeceu. — Foi você quem pediu para saber — Arthur se justificou. — Achei que devia ser honesto. — Você foi e eu acabei de descobrir que não simpatizo mais com as ruivas. — Ela tentou brincar. — Foram muitas? —

E

seus

homens?



Arthur

questionou. — Apenas um — Bárbara respondeu, sincera. — E não durou muito. Mas você não me respondeu. Quem foi que alegou Página 220

honestidade? Arthur colocou o jornal no chão e se levantou. — Tenho trinta e seis anos, Bárbara, e sou um homem normal. Mas não tive muitas

mulheres,

como

imagina,

e

nenhuma delas foi importante para mim como você. Ele

se

aproximou

e

se

sentou

na

banqueta de modo que ficou um pouco mais baixo do que Bárbara. — Eu gostei mais de algumas do que de outras, mas nenhuma significou o mesmo para mim do que você. Então

por

que

não

me

pede

em

casamento, meu amor?, Bárbara pensou e teve certeza de que não deveria fazer nunca aquela pergunta quando Arthur continuou: Página 221

— Você talvez não tenha percebido, mas acertou

quando

fez

aquele

comentário,

meses atrás, sobre eu ser um solitário. Eu sempre contei apenas com minhas mãos e meu cérebro. E com um sonho. Às vezes olho para o passado e me pergunto se valeu a pena. — Por quê? — Bárbara perguntou com um fio de voz e a voz embargada. — Por quê? — ele repetiu. — Porque a autoconfiança é algo bom até que você descobre que é impossível ceder. — Ele disse sério e sorriu em seguida. — Acho que temos o mesmo temperamento. É por isso que de vez em quando explodimos. Bárbara pestanejou ao detectar um duplo sentido na declaração. Antes, porém, que pudesse pedir que Arthur explicasse, ele Página 222

mudou de assunto e olhou para ela de um jeito irresistível. — Acho que está na hora de nos recolhermos. Estou notando que está tão cansada quanto eu. Consegue pensar em alguma coisa melhor do que irmos para a cama e ficarmos abraçados até o sono chegar? Sem esperar pela resposta, ele a ergueu nos braços e a carregou para o quarto. Conforme prometera, apenas a manteve aquecida junto a seu corpo e afagou-lhe os cabelos até que adormecesse. Na

manhã

seguinte,

saíram

para

cavalgar. Se havia uma imagem que remetia Arthur ao passado era a garupa de um cavalo. Arthur explicou a Bárbara as qualidades Página 223

esperadas

em

cavalos

que

conduziam

boiadas. Precisavam ser ágeis e confiáveis em primeiro lugar. Os mesmos que eram capazes de liderar o gado podiam ser usados em jogos de pólo. O mercado para esse tipo de animal era excelente. Quando Bárbara quis saber se Arthur já havia jogo pólo, percebeu que ele e o capataz, que havia se juntado a eles para fazer duas ou três perguntas ao patrão, trocaram um sorriso. — Já. Comprei meu primeiro caminhão com

o

prêmio

que

ganhei

em

um

campeonato. — Então você foi o campeão? — Bárbara perguntou, surpresa. — Um dos melhores que já vi — declarou o homem. Página 224

No momento que tornaram a ficar a sós, Bárbara aproveitou para examinar Arthur. Havia muitas dúvidas em sua mente, mas a verdade era que se sentia bem só por estar com ele. Sobre o cavalo, seu amado parecia um deus.

A

impressão

que

dava

era

que

conseguiria dominar o animal mesmo que estivesse com as mãos atadas. Arthur falava com a égua como se ela realmente pudesse entendê-lo. Bárbara viu-se perdida em devaneios em seguida. O que Arthur insinuara a noite anterior

sobre

eles

terem

um

re-

lacionamento especial? Estaria implícito o aviso

de

que

embora

estivessem

se

entendendo bem, ainda era cedo demais para fazerem planos para o futuro? Página 225

Uma imensa inquietação a invadiu. Três meses. Realmente fazia pouco tempo que se conheciam, mas a idéia de casamento não ocorria a ele? Arthur não queria filhos? Ele parecia

gostar

das

crianças

de

seus

amigos... A lição que Bárbara aprendeu naquele dia

foi

a

de

nunca

confiar

em

suas

habilidades como amazona, quando sua atenção não estava voltada para o cavalo que estava montando. De repente, quando um bezerro se distanciou da boiada, seu cavalo disparou e a atirou ao chão. A queda poderia ter sido feia

se

a

relva

não

estivesse

alta

e

amortecesse o impacto. Após um momento de tonteira, Bárbara se levantou e se apalpou. Nenhum osso Página 226

quebrado, mas hematomas ela sabia que teria. Assim como paciência. Porque o modo como Arthur correu para ela foi uma prova do quanto a queria e se preocupava com tudo que lhe dizia respeito. Portanto, qual o problema em continuarem vivendo como estavam?

CAPÍTULO VI Quatro meses e o inverno estava quase chegando ao fim. Arthur e Bárbara foram esquiar nas férias em Mount Buller e um mês depois, Arthur

simplesmente

telefonou

para

Bárbara no trabalho e disse que passaria para apanhá-la em meia hora. Página 227

— O que houve? — ela estranhou. — Detesto o mês de agosto. — O mesmo acontece com mais da metade da população do hemisfério sul — Bárbara respondeu, divertida. — Não necessariamente com aqueles que vivem próximos à linha do Equador. — Não, acho que não. Aliás, eles devem adorar... Por que está me dizendo isso? — Vamos comigo? — Para a linha do Equador? — Bárbara indagou e se deteve, preocupada. — Arthur, o que há com você? Está com algum problema? — Estou. Só consigo pensar em você, em uma ilha tropical, de biquíni, sem nada para fazer a não ser nadar, comer, e ir para a cama comigo. Página 228

Bárbara riu alto. — Parece esplêndido, mas... em meia hora? —

Você

não

vive

dizendo

que

os

negócios estão prometendo? — Sim, as perspectivas são boas — Bárbara admitiu —, mas daí a largar tudo e viajar? Meia hora não seria suficiente nem sequer para eu ir para casa quanto mais para fazer as malas e organizar minha agenda. — Já está tudo pronto. — O quê? — Eu comprei tudo de que você irá precisar. É claro que não precisará de muita roupa em uma ilha tropical... — Está me dizendo que comprou roupas para mim? — ela o interrompeu. Página 229

— Comprei, embora deva admitir que prefiro você sem elas. Ou melhor, prefiro você com elas porque um dos maiores prazeres de minha vida é despi-la. Já notou? Bárbara sentiu que corava. Olhou para Natalie e agradeceu, mentalmente, por não estar usando o dispositivo viva-voz de seu telefone. — Então? — Arthur insistiu. — Posso passar para buscá-la? Como dizer não? —

Está

bem.

Mas

se

isso

não

é

chantagem, eu corto meu pescoço. Arthur desligou entre risadas. Bárbara virou-se para a sócia e antes que tivesse tempo de falar, ela fez um gesto com a mão. — Vá e aproveite. Você tem sorte. Até hoje, eu só fui convidada para ir ao cinema Página 230

ou jantar. — Mas eu sinto como se estivesse abandonando meus deveres. Eu... — Fique tranqüila. Darei conta de tudo por aqui. Apenas não esqueça de ligar e de dizer onde está e quanto tempo pretende se ausentar. Bárbara

queria

responder

que

não

pretendia ir a parte alguma. Que, em vez disso, convenceria Arthur a voltarem ao trabalho

no

dia

seguinte.

Mas

acabou

simplesmente agradecendo e se despedindo. Passaram cinco dias e cinco noites mágicas em Dunk Island. Todas as dúvidas e receios caíram por terra sob o encantamento das florestas e praias da ilha. Andaram a cavalo, jogaram golfe, passearam de mãos dadas e ela usou flores de hibiscos Página 231

nos cabelos todas as noites. Pela primeira vez, porém, ela percebeu que Arthur precisava de ajuda para relaxar. — O que foi? — perguntou na terceira noite quando acordou e não o encontrou a seu lado na cama. — Não estava conseguindo dormir — Arthur respondeu ao vê-la a seu lado na varanda. — Negócios? — Ela o abraçou pela cintura. — Não exatamente. — Arthur estava olhando para a silhueta escura de Mount Kootalo.



Estava

sonhando

de

olhos

abertos. Já pensou como seria viver em uma praia, sem outro compromisso que não fosse desfrutar da natureza? Bárbara ouviu-o suspirar. Página 232

— Parece tentador — respondeu —, mas em base temporária. Acho que eu não suportaria viver sem meu trabalho. Arthur concordou, mas a impressão que deu a Bárbara foi que sua mente estava distante.

A

conversa

terminou

nesse

momento e Bárbara o levou de volta para a cama, onde o fez dormir depois de relaxá-lo com o mais tradicional dos métodos. Na manhã seguinte, após o desjejum, sentaram-se em espreguiçadeiras junto à piscina. A praia era uma continuação do hotel e oferecia uma paisagem espetacular com

seu

mar

azul

e

seus

inúmeros

coqueiros. Bárbara turquesa

estava sob

um

usando

um

sarongue

biquíni branco

amarrado à altura dos seios. Os óculos Página 233

escuros e o boné quase não deixavam ver seu rosto. Os planos eram explorar as praias ao sul

após o almoço,

mas que almoço?

Quando se sentaram à mesa, Arthur mal tocou no garfo. —

Não

se

trata

apenas

de

uma

preocupação normal com o trabalho — disse Bárbara, apreensiva. — Não — ele admitiu por fim. — Existe a possibilidade de haver uma fusão na empresa e eu quero que o interessado saiba que embora eu esteja me dedicando ao transporte rodoviário no momento, tenho planos de adquirir uma pequena empresa aérea em um futuro próximo. —

Quer

dizer

que

não

pensa

em

expansão no momento? Página 234

— No momento, só estou pensando em nadarmos de volta para nossa praia. — Ele se espreguiçou e Bárbara sorriu ao pensar que ainda ficava hipnotizada pelo corpo de Arthur embora já estivessem juntos havia seis meses. — Sabe o que acontece quando a maré recua, não? — Este lugar vira um lamaçal. — Exatamente. A não ser, é claro, que você queira tomar um banho desse tipo. Dizem que faz bem para a silhueta. — Acha que estou engordando? Arthur a examinou da cabeça aos pés e um brilho de desejo surgiu em seus olhos. Bárbara sorriu, satisfeita. — Quem chegará primeiro? — desafiouo. —

Veremos.

Quando

estivermos

lá, Página 235

pensei em irmos a Purtaboi de jet ski. Purtaboi era mais uma das várias ilhas da baía. O fato de Arthur ter feito tanta questão de viajarem para aquele local a fez cogitar,

subitamente,

se

aquilo

não

significava para ele mais uma de suas metas na vida, como fora a aquisição de Lidcombe Peace. Naquela noite, enquanto se arrumava para jantar, o pensamento voltou à mente de Bárbara. Estava sozinha no quarto. Arthur fora ao escritório para enviar alguns faxes e eles ficaram de se encontrar no bar. Mesmo para uma ilha tropical, fazia frio à noite nos meses de agosto. Ela se decidiu por uma blusa de mangas compridas que deixou por fora da calça e colocou uma corrente prateada na cintura. Página 236

Olhou-se ao espelho para conferir sua imagem e ocorreu-lhe que Arthur conhecia perfeitamente suas preferências e também seu tamanho. Tudo que lhe comprara fora de seu agrado além de cair bem. O que não lhe agradou foi a interrogação que leu em seus olhos. Se Arthur estava vivendo um impasse e ela tinha certeza de que havia algo errado pela tensão que detectava em suas atitudes, o problema teria a ver com ela, talvez? Estaria chegando o momento de eles tomarem uma decisão de uma forma ou de outra? Ao se fazer aquelas perguntas, Bárbara estava escovando os cabelos, mas quando deu por si, estava apertando a escova como se fosse quebrá-la. O que poderia fazer, além do que já Página 237

vinha fazendo para ajudá-lo a se decidir? Tomar a iniciativa de se declarar? Bárbara largou a escova e respirou fundo.

Que

outra

declaração

seria

necessária depois da felicidade partilhada nos últimos meses? Ao ver Bárbara, Arthur se levantou e a recebeu com um sorriso. A noite foi perfeita mais uma vez. Era como se apenas eles existissem e a suave e romântica música ao fundo. Dará tudo certo, Bárbara falou consigo mesma. Mas não deu. Outros dois meses passaram e Arthur parecia ter voltado ao normal. Isto é, ele havia voltado às atribulações do trabalho e eles se encontravam apenas nas horas Página 238

vagas. A casa de Rose Bay foi vendida e Domênica e Christy se mudaram para uma nova casa na cidade. A linha esportiva criada por Bárbara estourou em vendas e sua fama cresceu. Surgiram

duas

novidades.

Christy

contou a Bárbara que ela e Ian Holmes, o jovem que fora a sua festa de aniversário e que

estava

fazendo

residência

em

um

hospital, estavam noivos em segredo. Christy mostrou o anel de noivado que ele lhe dera e que ela estava usando no pescoço, preso a uma correntinha. — Ian queria falar com mamãe, mas eu não deixei. Prefiro prepará-la antes. Bárbara abraçou a irmã com carinho. — Não que nós tenhamos planos de Página 239

casar por enquanto — Christy explicou. — Ainda faltam seis meses para Ian terminar a residência médica. — Christy hesitou. — Pensei que você e Arthur fossem ficar noivos antes de nós. Tudo que Bárbara conseguiu fazer foi engolir em seco e confessar que eles ainda não haviam chegado a esse estágio. Uma semana depois, quando Bárbara acordou, depois de ter passado a noite no apartamento de Arthur, viu-se sozinha na cama. Sobre o travesseiro ao lado havia um bilhete

explicando

que

ele

havia

se

esquecido de avisá-la que teria de partir cedo para Darwin e que só estaria de volta em duas semanas. Disse que não tivera coragem de acordá-la para se despedir e deixou um botão de rosa sobre o papel. Página 240

Bárbara sentou-se na cama, olhou ao redor e descobriu que nunca havia se sentido tão vazia. Um choro convulsivo a sacudiu. Meia hora depois, contudo, ela já havia tomado banho e se vestido além de arrumar a cama como sempre fazia. O quarto estava impecável como no momento que eles chegaram. O botão de rosa havia sido devolvido ao vaso que a sra. Bush arrumara e um novo bilhete havia sido colocado sobre o travesseiro. Só que, desta vez, estava guardado dentro de um envelope lacrado. Quando saiu, Bárbara estava levando consigo tudo que lhe pertencia como livros, CDs e roupas. As chaves que Arthur lhe dera,

colocou

em

sua

caixa

de Página 241

correspondências. Dois dias depois, estava de partida para a Europa com sua mãe. Durante dois meses, Bárbara tentou se distrair com os desfiles e pesquisas ligadas à moda além de comprar novos tecidos e reunir idéias para novas criações. Ao mesmo tempo, esforçava-se por proporcionar a sua mãe as férias que ela bem merecia. Domênica havia levado um choque com a notícia do rompimento de Bárbara com Arthur. Gostaria de ter feito perguntas sobre o motivo que os levara a isso, mas a dor que viu nos olhos da filha a deteve. Quando

chegaram

a

Roma,

após

visitarem Paris e Madrid, Domênica viu a primeira chance de Bárbara se recuperar, quando conheceram o conde Emilio Strozzi, Página 242

dono de uma tecelagem, cujo pai fora amigo de seu falecido marido. Além de ser alto e atraente, o conde tinha trinta anos, era solteiro e possuía uma mansão à beira de um lago. Que o conde desejava estender seu interesse comercial ao prazer da companhia de sua filha, logo ficou patente a Domênica. O fato de Bárbara não corresponder ao flerte durante as três semanas em que estiveram em contato não o impediu de convidá-las para o baile em comemoração ao centenário de fundação da fábrica nem para passarem um fim de semana em seu palazzio. Bárbara não viu mal algum em aceitar o galante convite extensivo a sua mãe. O que não lhe ocorreu foi que como um dos solteiros mais ricos e cobiçados do país, o Página 243

conde era alvo constante dos paparazzi e que ela acabaria saindo em todos os jornais, mais exatamente na coluna de fofocas. Mas Bárbara conseguiu deixar a Itália sem sucumbir aos encantos de Emilio e sem lhe partir o coração. Não se importou com fotos e publicações sobre eles dois. Não tinha feito nada errado. Nunca lhe passou pela cabeça, porém, que

esse

material

poderia

chegar

à

Austrália. Foi Natalie que a alertou a respeito quando ela voltou ao trabalho e contou sobre os tecidos maravilhosos que comprara na Itália e que não demorariam a chegar. — Arthur ligou para cá, de Darwin, um dia depois de sua partida. Bárbara não respondeu. Página 244

— Por que você não o avisou sobre sua viagem? Por que eu tive de lhe dar a notícia? Bárbara mordeu o lábio. — Sinto muito ter feito isso com você. Eu escrevi uma carta, mas ele só a recebeu quando chegou em casa. —

Não

consigo

acreditar

que

você

terminou com Arthur — Natalie murmurou. — Eu não queria... — Então não foi por causa do conde italiano? Bárbara arregalou os olhos. — Você está brincando? — Bem, foi o que pareceu... — Não foi nada disso. Nossos pais foram amigos. Eu só o conheci por causa de minha mãe. De outra forma, eu teria feito o negócio com

um

funcionário

qualquer,

provavelmente. Houve um jantar e um baile, Página 245

mas minha mãe esteve comigo todo o tempo. — As fotos dão outra impressão. Bárbara ficou aborrecida ao saber que os jornais haviam torcido a verdade, mas não deu muita importância ao fato. Fazia

um

mês

que

Bárbara

havia

retornado de viagem quando recebeu um convite para uma festa em casa de um casal de

amigos

que

estavam

festejando

o

regresso ao lar após um período de dois anos no exterior. Bárbara conhecia Sue dos tempos

do

colégio.

Ela

e

o

marido

trabalhavam na televisão. Ele como repórter, ela como diretora de documentários. Não que Bárbara estivesse com ânimo para festas, mas gostava de Sue e ela e o marido deveriam ser, provavelmente, as únicas pessoas que não estavam a par de Página 246

seu envolvimento com Arthur. Mas o mais importante era a certeza de que era preciso seguir em frente com sua vida. A tristeza estava afetando seu poder criativo e os negócios não podiam mais esperar. A comemoração aconteceria em um domingo à tarde e seria um churrasco. Bárbara vestiu uma saia preta de comprimento midi, uma blusa de linha creme de mangas

curtas

e

prendeu

os

cabelos.

Embora o dia estivesse bonito, levou sua pashmina caso esfriasse. Bárbara

preparou

um

pacote

de

salgadinhos de queijo para Sue, embrulhouo com papel celofane vermelho e amarrou com uma tira de ráfia junto com um cartão de boas-vindas. Para Mark, ela comprou uma garrafa de champanhe e prendeu um Página 247

cartão similar ao gargalo também com ráfia. Dirigiu-se ao local, em Castle Hill, com o carro que Arthur lhe dera de presente, mas que ela passara a considerar efetivamente seu após a venda de Rose Bay, quando pôde pagar sua dívida. A propriedade dos Dodson era grande o suficiente para eles terem um estábulo com vários cavalos. O churrasco foi feito sob a sombra de altas e antigas árvores para vinte e poucos convidados. O clima foi afetuoso. Entre as novidades, a mais importante era que Sue estava grávida. Um dos convidados estava erguendo um brinde

ao

casal

quando

chegou

um

retardatário. Foi, então, entre risos e champanhe que Arthur viu Bárbara pela primeira vez em Página 248

mais de dois meses. Achou-a elegante e adorável como sempre. E parecia óbvio que estava se divertindo. Como se o fim de seu relacionamento,

comunicado

a

ele

por

algumas palavras rabiscadas em uma folha de

papel,

agradecendo

por

tudo,

mas

dizendo que era chegada a hora de ela seguir em frente, não lhe tivesse doído. Bárbara virou-se para ver a quem Sue estava acenando e ele sentiu uma satisfação cruel ao vê-la empalidecer. Sue apresentou-o aos outros amigos como alguém que ela e Mark conheceram um mês atrás em um jogo de pólo. Então, quando Sue foi apresentá-lo a Bárbara e ela mencionou que eles já se conheciam, a amiga a deixou, muda de espanto, ao lhe confiar Arthur enquanto iria Página 249

buscar as saladas. — Você não quer ajuda? — Bárbara tentou segui-la. — Não é preciso. Apenas cuide deste bonitão por mim. — Sue se afastou depois de dar uma piscada. — Nós nos conhecemos? — Arthur repetiu com uma insolência que fez Bárbara estremecer. — Aqui não é lugar para recriminações. —

Concordo

plenamente.

Portanto,

apenas me diga, antes de assumirmos nossos papéis de bons amigos, se o conde italiano está mais de acordo com seus padrões sociais do que eu. Bárbara não conseguiu responder tal seu choque. E antes que se refizesse, Mark se reuniu a eles e não houve mais nenhuma Página 250

chance de uma conversa a sós até o final da festa. Na primeira oportunidade que surgiu, Bárbara se despediu. Estava exausta. O fato de Arthur ter ficado quase o tempo todo com uma loira, amiga de Sue, contribuiu para seu deplorável estado. Para piorar seu humor, no meio do caminho, ela descobriu que estava com um pneu furado. Encostou o carro, saltou e passou as mãos pelos cabelos sem saber o que fazer. Nunca havia trocado um pneu em sua vida. Como se não bastasse, estava escuro e não havia nenhuma casa por perto. O frio a fez pegar a pashmina e cobrir-se. E esperar. Não demorou e apareceu outro carro. Ao ver os faróis, Bárbara rezou para que fosse Página 251

alguém

vindo

da

festa

e

não

um

desconhecido. Mais do que um simples conhecido, foi justamente Arthur quem parou e a fez cogitar se o que diziam a respeito de destino não era a pura verdade. — Que coisa, não? — Arthur indicou o pneu furado com um toque do pé. — Com mais de vinte pessoas na festa, tive de ser eu a parar para salvar a dama em situação difícil. Ou eu estou errado e você sabe trocar um pneu? Ou, talvez, eu deva seguir adiante e deixar para que outro carro pare para ajudá-la? — Não, por favor... Foi o tom angustiado de voz que o fez parar com o sarcasmo. — Está bem. Você tem uma lanterna, Página 252

por acaso? — E antes que ela respondesse. — Imagino que não. Nenhuma mulher que conheço carrega ferramentas. — Arthur apanhou a própria lanterna e a deu para Bárbara segurar enquanto ele abria o capo e apanhava os acessórios necessários para a troca do pneu. A única observação foi a respeito de um prego ter sido o responsável pelo estrago. Bárbara assistiu à operação em silêncio também. Queria dizer algo, mas lhe falou coragem. Por fim, Arthur terminou o serviço e limpou as mãos em um lenço. — Poderá ir para casa agora, mas não esqueça de consertar o pneu amanhã. Boa noite. — Ele se virou para voltar ao Range Rover, mas ela o deteve. Página 253

— Não foi o que você pensou! — O modo como Arthur olhou para ela a fez corar. — Não teve nada a ver com padrões sociais... — Não acho que este seja o lugar nem esta a hora para explicações — Arthur a impediu

de

continuar

como

ela

fizera

durante o churrasco. — Se tem certeza de que quer me dar alguma explicação, por que não me segue e conversarmos em meu apartamento? — Sim, eu gostaria de explicar, mas prefiro que você venha comigo. Farei café e... — Lembra-se quando mudou de idéia sobre sair comigo só para se desculpar pela indiscrição de sua mãe? Bárbara apertou os lábios. Em seguida desligou a lanterna e devolveu-a. Página 254

— O convite foi feito. Depende de você, aceitá-lo ou não. — Bárbara entrou no carro e foi embora, deixando Arthur parado na estrada. Ele chegou dez minutos depois do que ela. O café estava pronto em uma bandeja com um prato de biscoitos. — Entre. — Ela fechou a porta. — Desculpe-me se esqueci de lhe agradecer por ter trocado meu pneu. Eu realmente nunca fiz isso. — Se tornar a acontecer, tranque-se no carro e peça ajuda pelo celular. — Era o que eu teria feito se tivesse um — Bárbara respondeu. — Café? Arthur a seguiu até a sala e olhou ao redor. Depois se sentou, aceitou o café e Página 255

recusou o biscoito. — Como você tem passado? — Bárbara perguntou, sentada de frente para ele. — Bem, obrigado. — Ele encolheu os ombros. — E você? —

Como

sempre.

Ocupada.

E

os

cavalos? Lidcombe Peace? Arthur

não

respondeu.

Embora

parecesse à vontade, suas feições estavam tensas. O modo como a encarava parecia atingir o fundo de sua alma. Havia um brilho de cinismo em seus olhos, como se ele não pudesse acreditar que estavam falando

como

desconhecidos

quando



haviam partilhado de total intimidade. — Está bem — Bárbara murmurou. — Irei direto ao assunto. Eu o deixei porque... Naquele instante, Bárbara descobriu Página 256

que não conseguiria dizer a verdade. Suas mãos tremiam tanto que precisou desistir de tomar o café. Fora impossível na ocasião e continuava sendo impossível. Como dizer a um homem, afinal, que queria casamento e filhos e não uma relação puramente física? Como abrir seu coração sem correr o risco de parti-lo ainda mais? — Porque os negócios estavam me pressionando e eu precisava me dedicar mais, me concentrar mais em meu trabalho. Não teve nada a ver com quem você era ou quem não era. — Foi por isso que saiu de minha cama e caiu nos braços de Emilio Strozzi? Porque com ele você podia combinar seus negócios com prazer? Página 257

Para alívio de Bárbara, a raiva veio em seu socorro. Raiva e orgulho. Naquele momento, ela se levantou e não se importou em parecer ou não arrogante. — Sinto muito, mas está ficando tarde. — Ela consultou seu relógio de pulso e fitou-o com frieza. — Se não se importa, tenho de me preparar para uma reunião amanhã cedo. Bárbara estava recolhendo as xícaras quando Arthur a segurou pelo pulso. Em sua dignidade, ela não protestou. Limitou-se a encará-lo como se quisesse fulminá-lo com os olhos. — Você pode querer me tratar como uma condessa a um plebeu, mas há um assunto pendente que precisamos discutir. Ele a faz sentir como se flutuasse no espaço, Página 258

como disse a mim uma vez neste mesmo lugar? Já dançou com ele quase nua? Ele sabe quais são as regiões mais sensíveis de seu corpo? —

Você

está

sendo

desprezível!



Bárbara protestou, corada e pálida em seguida. — O que fez comigo, Bárbara? Queria aprender lições de amor para depois praticálas com outro homem? Com

um

esforço

sobre-humano,

Bárbara se desvencilhou e agrediu-o. Ele não revidou. Foi justamente por esse motivo que ela não conteve mais as lágrimas. Arthur olhou para ela e cerrou os dentes e os punhos. Um instante depois, fechou os olhos e atraiu-a de encontro ao peito. — Case comigo, Bárbara. Página 259

Ela sentou-se e afastou os cabelos dos olhos. Os lençóis estavam amarrotados e havia roupas espalhadas pelo chão. Se os encontros anteriores haviam sido explosivos, a escalada de paixão daquela noite não teria como ser descrita. Porque apesar do antagonismo, do ciúme e da angústia, a saudade havia aumentado ainda mais o desejo e a necessidade que sentiam um do outro. Bárbara jamais poderia clamar que ele a possuíra contra sua vontade porque a raiva havia desaparecido diante da inevitável e clara realidade, havia uma ligação entre eles que

era

forte

e

poderosa,

quer

eles

gostassem da idéia ou não. Fora

essa

constatação

que

a

fez

responder com outra pergunta. Página 260

— Por quê? Ele também se sentou. — Foram os retratos no jornal que o levaram

a

decidir,

Arthur?



Bárbara

prosseguiu. — Você deveria saber — ela murmurou. — Nunca houve nada entre mim e Emilio Strozzi. O pai dele foi amigo de meu pai. Não fosse por esse motivo, eu teria tratado com um de seus funcionários. Ele chegou a tentar um flerte, mas não foi recíproco. Não imaginei que fossem inventar histórias a nosso respeito. Tampouco tive a intenção de provocar ciúme em você. — Quando vi aquelas fotos, pensei que fosse enlouquecer. O que poderia pensar a não ser que você me deixou por causa do tal conde? — Se não confia em mim, não vejo Página 261

porque

continuarmos

esta

conversa



Bárbara retrucou, cabisbaixa. Arthur a segurou pelo queixo e obrigoua a encará-lo. — Acho que não temos outra escolha exceto casar. Se você não se interessou pelo conde italiano, eu tampouco me interessei por outra mulher o bastante para olhar para ela uma segunda vez. Havia

uma

lógica

inegável

na

declaração, mas ao mesmo tempo era uma negação a tudo que ela ansiara por ouvir. Desapontada, Bárbara baixou os olhos que ele começou a beijar para depois seguir pelas faces, pelos lábios e pelo pescoço. — Não é apenas isso! Não é apenas sexo! — ele exclamou abruptamente e se pôs a enumerar as coisas boas que eles faziam Página 262

juntos, os interesses comuns, o gosto pela música

e

pelos

necessidade

de

livros, ela

até

ter

mesmo

alguém

a

para

consertar seu triturador de lixo e trocar seus pneus. Bárbara viu-se sorrindo por causa do jeito brincalhão de Arthur. Mas, como seria o

casamento

deles

sem

nunca

terem

discutido seus planos para o futuro? Sobre ter filhos, por exemplo? E também sobre a vida

independente

que

levavam

sem

confiarem completamente um no outro? Como acontecera em Dunk Island que ela, apesar

de

preocupando,

saber

que

algo

não

teve

a

o

estava

liberdade

de

perguntar a respeito, nem ele de desabafar com ela. O casamento mudaria isso? Haveria Página 263

amor

suficiente

para

corrigirem

essa

situação? Só o tempo diria, Bárbara pensou. E ela estava disposta a acreditar que sim. — Sim, Arthur. Eu quero casar com você! Duas semanas depois, eles subiram ao altar.

CAPÍTULO VII O

vestido

era

simples

e

branco

e

Bárbara colocou um véu de tule sobre os cabelos. Estava tensa e podia sentir o mesmo por parte de Arthur. Os abraços efusivos de sua mãe, contudo, e também de Christy, de Natalie e de todos os amigos pareciam transmitir a certeza de que ela e Página 264

Arthur seriam felizes. Houve um instante, rápido como um piscar de olhos, que ela sentiu uma forte emoção

dominar

Arthur

quando

seus

olhares se cruzaram diante do altar. Apesar

do

pouco

tempo

para

os

preparativos, Domênica conseguiu organizar um delicioso e requintado almoço para os amigos mais íntimos em um restaurante com vista para a marina. A lua-de-mel de duas semanas seria em Lidcombe Peace por acordo mútuo. No carro, eles quase não conversaram, mas ao chegarem, Arthur a tomou nos braços e a abraçou junto ao peito como se nunca mais fosse soltá-la. — Sinto-me honrado, Bárbara. Você nunca esteve tão linda. Página 265

Vai dar tudo certo realmente, Bárbara pensou. Desta vez, dará tudo certo. Ela havia sentido falta de Lidcombe Peace. Não imaginava quanto até avistá-la após mais de três meses de ausência. Aquelas duas semanas de férias seria uma bênção. Um oásis em suas vidas atribuladas, quando se acostumariam à idéia de estarem casados. Arthur estava se revelando um marido perfeito. Prestava atenção a cada detalhe. Um

dia,

enquanto

passeavam,

ele

lhe

comprou um cachorrinho que chamaram de Buddy. Desde o primeiro dia, contudo, Buddy demonstrou especial devoção a seu marido. — Tenho a impressão de que sou aceitável quando você não está por perto, Página 266

caso contrário sou carta fora do baralho! —

Eu

sempre

adorei

cachorros



Arthur contou. — Tive um quando criança. Nós éramos inseparáveis. — Buddy foi um presente para mim ou para você? — Bárbara perguntou com fingida seriedade. — Para nós dois — Arthur respondeu com um sorriso. — Por falar nisso, em breve seremos pais. — Sinto contradizê-lo, querido, mas isso não é verdade. — Bem, pais é modo de dizer. O potrinho de nossa égua, Josephine, deve nascer a qualquer momento. E Josephine teve sua filhote no dia seguinte, cujo nome passou a ser Elba. Naquelas

duas

semanas,

eles Página 267

cavalgaram todos os dias pela propriedade. Como fazia calor e os dias não poderiam estar mais bonitos, aproveitaram para nadar e

pescar.

Algumas

vezes,

Arthur

demonstrou seus talentos para a culinária, preparando sozinho os peixes. Bárbara

dispensou

o

casal

de

empregados durante aquele período para que ela e o marido pudessem ficar completamente à vontade. Os

genes

Lidcombe

tiveram

oportunidade de aflorar. Como sua avó, ela descobriu que adorava jardinagem e que tinha um jeito especial com as plantas e flores. Com a ajuda de Arthur, realizou seu sonho secreto de cultivar uma horta. As refeições, em sua maioria, ficaram a seu cargo e ela aproveitou o tempo livre para Página 268

criar deliciosos pratos. À noite, Bárbara sentava-se ao piano e cantava. Estava um pouco enferrujada no início, mas com o passar dos dias, os genes herdados de sua mãe também vieram à tona. Arthur parecia gostar desses serões. Uma noite, quando estavam sentados diante da lareira, com Buddy dormindo no tapete, Arthur disse abruptamente. — Não foi uma má idéia, afinal de contas, não é? Bárbara fingiu considerar a pergunta. — Não. — Não parece muito segura, sra. Keir. — É um pouco cedo para julgar, mas até o momento a idéia me pareceu... ótima. — Ainda bem que disse isso, ou eu poderia

pensar

que

não

está

muito Página 269

entusiasmada. Bárbara endereçou um olhar ao marido que o fez rir e acariciá-la sob a blusa. — Eu quis dizer que não foi uma má idéia em sentido mais amplo. Não sei sobre você, mas estou adorando ser casado. — Eu também — Bárbara concordou e se espreguiçou com sensualidade. — Sintome maravilhosa! O que significavam as outras pequenas coisas da vida?, Bárbara viu-se cogitando um dia daqueles. Eles haviam decidido vender a cobertura de Arthur e o apartamento dela na cidade e comprar um imóvel novo para quando quisessem ou precisassem ficar na cidade por alguns dias. Também decidiram juntos sobre a compra de aparelhos elétricos para Página 270

contarem com o mesmo conforto tanto em Lidcombe

Peace

Restringirem

as

quanto atividades

na

cidade.

profissionais

estava fora de cogitação. Ao menos no futuro imediato. Fizeram planos para construir uma quadra de tênis em Lidcombe Peace e combinaram uma viagem em breve para Tibooburra

de

modo

que

ela

pudesse

conhecer as raízes de Arthur. As duas semanas logo terminaram e eles tiveram de voltar para a cidade. Alguns dias depois, Arthur viajou para o Oriente Médio de onde só deveria retornar após dez dias. Ele queria levar Bárbara consigo e ela teria adorado acompanhá-lo, mas Natalie estava saindo de férias e alguém teria de ficar para cuidar dos negócios. Em outros tempos, Página 271

Bárbara até poderia tentar pedir que Natalie adiasse suas férias, mas depois de se ausentar tantas vezes sem que a sócia reclamasse, o mínimo que poderia fazer era cuidar de tudo para que a sócia viajasse despreocupada. Bárbara notou o modo estranho que Arthur ficou olhando para ela durante a explicação. — Está se perguntando por que eu quis me casar com você se não tenho condições de

acompanhá-lo

em

suas

viagens

de

negócios, não é? Arthur encolheu os ombros. — Não. Eu entendo. Essa viagem surgiu de repente, afinal. Mas confesso que me pergunto de vez em quando se você tem planos de trabalhar a vida inteira. Página 272

— No momento, estou sem tempo para pensar nisso — Bárbara respondeu —, mas acho que mais tarde, quando vierem os filhos, não ficarei fora mais do que meio expediente. —

Como

seria

se,

por

acaso,

nos

tornássemos sócios? — Sócios? Em que sentido? — Se eu comprasse uma parte de sua firma, por exemplo, e passasse a cuidar da administração? Você continuaria com o departamento criativo e lhe sobraria mais tempo para ser minha esposa. Bárbara não soube o que responder. Arthur sorriu e segurou-a pelo queixo. — Pense nisso enquanto eu estiver fora. Foi uma idéia que me ocorreu. — Certo. Página 273

— Por que não aproveita e começa a procurar um novo lugar para nós? — Farei isso — Bárbara respondeu, séria. — Quer que eu o leve ao aeroporto? — Tudo bem, mas se não for incômodo. Estou acostumado a ir de táxi. — Ir de táxi é uma alternativa — Bárbara concordou. — Mas não conheço nenhum motorista que queira lhe dar um beijo de despedida. — Ainda bem! — E nenhum motorista se preocupa tanto com seu bem-estar, nem com sua segurança. E nenhum se sentirá tão só durante sua ausência. Arthur segurou a mão de Bárbara e levou-a aos lábios. — Serão apenas dez dias. Página 274

— Eu sei, mas sentirei saudade desde o primeiro. — Eu poderia colocar alguém em seu lugar agora mesmo. — Obrigada, Arthur. — Ela beijou a mão dele e apertou-a contra a face. — Não daria certo e você sabe disso. Bárbara ausência

esteve de

atribulações,

sua

ocupada

Arthur. mente

durante

Apesar estava

a

das sempre

voltada para ele, o que gerou tensão e ansiedade. No quinto dia, ela identificou a causa do desassossego. Não era apenas a falta de Arthur que estava sentindo, mas a dúvida com relação à proposta que ele lhe fizera de se tornar seu sócio. A idéia parecia sensata e racional. Ela era uma esposa e seu marido vivia viajando. Página 275

Poderia ser perfeito. Ela uniria os negócios ao prazer das viagens. Por que, então, não conseguia encarar a possibilidade de dividir seu pequeno império? Por que queria ter Arthur constantemente a seu lado sem precisar fazer nenhum tipo de sacrifício? Porque ainda não estava segura dos motivos que o levaram ao pedido de casamento? Esses

pensamentos

ficaram

ricocheteando pela mente de Bárbara aquela noite, impedindo-a de conciliar o sono. Estava

amanhecendo

quando

ela

desistiu de rolar na cama em busca de um sono

que

não

chegava.

Levantou-se,

preparou um sanduíche e uma xícara de chá. Queria

se

convencer

de

que

suas

reações eram naturais. No espaço de um Página 276

mês, ela havia rompido com Arthur, reatado o namoro e se casado. Saltara de uma profunda

tristeza

para

uma

grande

felicidade. De repente, à felicidade se misturara o vazio da ausência. Pensamentos confusos começaram a assaltá-la. O que teria acontecido se ela não tomasse

a

drástica

decisão

de

deixar

Arthur? Ele a teria pedido em casamento? Ao chegar ao trabalho, Bárbara decidiu que precisava afugentar as dúvidas de seu coração e de sua mente. Era tudo fruto da falta que ela estava sentindo do marido. Quando

ele

voltasse,

o

relacionamento

voltaria ao normal. Três dias antes do regresso, porém, Arthur telefonou dizendo que precisaria ficar no

país

por

mais

uma

semana

em Página 277

conseqüência de uma crise econômica que estava afetando diretamente uma de suas empresas. Bárbara se despediu afirmando que estava tudo bem, que ela entendia, mas assim que colocou o fone no gancho, sua primeira reação foi suspirar e se lamentar. — Nada mudou! Faltavam dois dias para Arthur retornar de viagem quando Natalie voltou de férias. — Natalie, estou pensando em colocar alguém em meu lugar para as ocasiões em que preciso me ausentar. O que você acha? — Acho uma excelente idéia. Agora que é uma mulher casada, certamente não irá querer passar o tempo todo trabalhando. — Natalie hesitou. — Confesso que já me passou pela cabeça o pensamento de que Página 278

você, talvez, queira deixar nossa sociedade. — Não — Bárbara se apressou a dizer. — Mas como os negócios estão melhorando, talvez pudéssemos contratar alguém para nos ajudar. — Ao menos uma pessoa — Natalie concordou. — Arthur não se importa que você trabalhe? — Ele me conhece o suficiente para saber que eu enlouqueceria se não tivesse o que

fazer.

E

ele

sabe,

também,

a

importância que dou a isto. — Bárbara olhou ao redor. — O problema é ter alguém em meu lugar para quando ele viaja. O que pode acontecer de um minuto para outro, como você é testemunha. Ficaram alguns instantes em silêncio. — Na verdade, Arthur propôs comprar Página 279

uma parte da sociedade e assumir a direção. Como você se sente a respeito? — Se você saísse... — Não. Eu continuaria cuidando da criação — Bárbara se apressou a explicar. — Acho que sim. Tenho certeza de que com Arthur daria certo. Afinal, ele é seu marido. — Eu sei — Bárbara murmurou. — Mas eu gostaria de tentar do meu jeito antes. A volta de Arthur falou por si só. Ele chegou na sexta-feira e passaram o fim de semana em Lidcombe Peace. Foram dias inesquecíveis. Na noite de sexta-feira, Bárbara vestiu o mesmo vestido que estava usando quando eles se conheceram. E Arthur o reconheceu. — Eu me lembro do jeito que você olhou Página 280

para

mim,

como

se

o

vestido

fosse

transparente. Ele lhe dirigiu o mais malicioso dos sorrisos e não protestou contra a acusação. Mais do que isso, comentou que aquela fora a primeira vez que Bárbara o fitara com ar de superioridade. — Você não teria feito o mesmo em meu lugar? Arthur desabotoou o vestido e o fez deslizar pelo corpo de Bárbara até que chegasse ao chão. — Oh, sim e espero que continue fazendo, mas só com os outros homens que se atreverem a olhar para você como eu estou olhando agora. Eles se abraçaram e se atiraram sobre a cama. O que aconteceu depois foi pura paixão e erotismo. Página 281

O assunto sobre ele assumir uma parte da sociedade não voltou a ser mencionado até vários dias após seu regresso do Oriente Médio. Bárbara levou-o para visitar todos os apartamentos que havia considerado bons e ficou eufórica quando a preferência recaiu sobre seu favorito. O entusiasmo se tornou ainda maior quando Arthur o comprou à vista e o entregou a ela com carta branca para decorá-lo. Ele

não

pretendia

levar

nada

da

cobertura a não ser sua coleção de objetos de arte. Quanto ao apartamento de Bárbara, Christy e lan estavam considerando as possibilidades de comprá-lo. Uma noite, eles estavam tomando chá após assistirem a um concerto quando Página 282

Arthur trouxe a questão novamente à baila. —

Você



refletiu

sobre

minha

proposta? Bárbara baixou os olhos e respirou fundo antes de encará-lo. — Já, mas eu tive outra idéia. Arthur Demorou

ouviu-a um

sem

longo

interrupções.

tempo

antes

de

responder. — Você decide. Bárbara franziu o rosto. — Por que eu estou com a impressão de que você não aprovou minha sugestão? — Por que eu estou com a impressão de que

você

nunca

concordará

com

um

expediente de menos horas? — Você consegue deixar a Keir Conway Transportes de lado? A propósito, eu sempre quis saber quem é Conway. Página 283

— Não é ninguém na empresa. Era o primeiro nome de meu pai. — Pensei que você não gostasse de seu pai. — Isso não significa que ele não tivesse sido — Arthur murmurou. — Sobre deixar minha empresa, não, eu não seria capaz. Assim como não quero deixar minha esposa cada vez que sou obrigado a viajar. Uma sensação estranha se apoderou de Bárbara ao comentário. Ela procurou mudar de assunto. — Neste momento, estamos juntos e a sós. Arthur esticou-se no sofá e estendeu os braços. — Por que não vem comigo? Eu posso lhe dar uma boa demonstração sobre quais são os principais deveres de uma esposa. Página 284

Bárbara sorriu. — Deveres de uma esposa? Você acha que eu encaro nossos melhores momentos como deveres conjugais? — Espero que não. — Você sabe que não — Bárbara sussurrou, sedutora, ao mesmo tempo que tirava os sapatos e se deitava sobre o marido. — Meus momentos com você são intensos, mágicos e desafiadores. — Desafiadores? — O desafio de não saber, muitas vezes, em que você está pensando — Bárbara murmurou. — Eu poderia dizer o mesmo a seu respeito. Bárbara estava deitada no ombro de Arthur. Ao ouvir isso, olhou para ele. Página 285

— Pensei que fosse um livro aberto para você. Arthur segurou a mão de Bárbara e brincou com o anel de rubi e brilhantes que lhe dera de presente de casamento. — Acho que não devemos nos preocupar com isso. Somos seres individuais e não há nada de mal em nos surpreendermos um com o outro de vez em quando. Bárbara fitou-o naquele instante. Não gostou muito de ouvir aquilo, mas admitia que era verdade. Arthur tinha o direito, afinal de contas, de não se expor a ela por completo. Não fazia o mesmo com ele? Não havia partes de sua vida que não admitia acesso? — Se é assim, tentarei surpreendê-lo de vez em quando — Bárbara tentou brincar para

que

ele

não

percebesse

sua Página 286

contrariedade. A técnica teve início em seguida. Bárbara se levantou e estendeu a mão em um convite. — Venha comigo para o escritório. Vamos fazer um teste para descobrirmos se você

tem

condições

de

receber

uma

promoção. Bárbara o levou para o quarto e o jogo adquiria proporções inimagináveis. Arthur a excitou, a fez implorar para que a levasse até o fim em suas emoções, mas quando o momento estava chegando, ele se afastava. — Eu desisto — Bárbara disse, sem fôlego, mais de uma hora depois. Ele ergueu a cabeça e olhou no fundo de seus olhos. — Diga o que eu quero ouvir. Página 287

— Está bem. Você foi promovido! — A que? — A meu marido do coração! Eu te amo, Arthur. Ela ouviu um gemido antes de receber o maior abraço, possivelmente, que Arthur já lhe dera. E sentiu-o tremer muito quando ambos alcançaram o êxtase. Eles estavam se preparando para sair de casa, na manhã seguinte, quando Arthur a segurou pelo pulso. — Bárbara. — Sim? — Ela estava muito elegante porque

iria

almoçar

com

um

grande

comprador de moda. — Você está bem? — Estou. Por quê? — A noite de ontem foi um tanto... Página 288

incomum. Bárbara fez um movimento de descaso com o ombro. — Não sou tão frágil quanto imagina. — Mas eu exagerei. — Não foi o único responsável, eu garanto — ela parecia despreocupada, mas a verdade é que a questão permanecia sem resposta em sua mente. Haveria alguma razão oculta por trás do jogo que fizeram? — De qualquer modo, desculpe-me se passei

dos

limites.

O

que

acha

de

almoçarmos juntos? Bárbara hesitou. Ela não havia contado a ele sobre seu encontro com o comprador. — Infelizmente não será possível. Tenho um almoço de negócios. Daria para trocar o almoço por um jantar? Eu lhe faria seu prato preferido, sr. Keir. Página 289

Bárbara sentiu que ele enrijecia diante de suas palavras, mas o convite o acalmou. —

Hambúrguer?



Ele

deu

uma

piscada. Bárbara se pôs a rir. — Do jeito que você gosta. Com batata frita e cerveja! — Combinado. — Arthur se inclinou e beijou-a. — Tenha um bom dia, sra. Keir. Naquela noite, Bárbara sentiu que a velha camaradagem estava de volta. Eles riram e conversaram e fizeram amor. Por que, então, ela continuava a sentir um aperto no fundo do coração? Mudaram-se para o novo apartamento, mas os fins de semana, em sua maioria, eram dedicados a Lidcombe Peace. Ela contratou uma pessoa como sua assistente e passou a viajar com o marido. No início, a Página 290

experiência

foi

ótima.

Mais

tarde

eles

concordaram que em viagens estritamente de negócios, seria melhor ela ficar em casa do que sozinha em hotéis. Mais

dois

meses

transcorreram

e

Bárbara se viu sentindo, de repente, como se estivesse nadando contra uma maré invisível. Arthur trabalhava demais. Aos poucos ela começou a entender a dificuldade que ele tinha de se desligar dos problemas. Muitas vezes, o celular tocava no meio da noite e ele precisava resolver assuntos do outro lado do mundo. Os jantares para clientes importantes aconteciam com freqüência. A sra. Bush cuidava de quase tudo, mas a responsabilidade era sempre da anfitriã. Página 291

Com o crescimento de sua empresa, Bárbara se sentia feliz, mas extremamente cansada. Mesmo com o quadro de pessoal aumentado, ela voltava para casa todas as noites sem energia. Sem saber como, e sem identificar os sinais de perigo, Bárbara começou a ficar mais e mais em casa quando Arthur viajava e receber tantas ligações quanto ele pelo celular. Eram felizes um com o outro. Ainda sentiam

desejo

e

suas

relações

eram

ardentes como no início. Continuavam gostando das mesmas coisas. Mas o fato era que viviam suas vidas quase exatamente como antes de casarem. Tarde demais, Bárbara reconheceu que as mensagens estavam sendo transmitidas Página 292

havia

tempos.

Apenas

ela

não

quisera

enxergá-las. O problema começou quando surgiu aquela

sombra

em

sua

mente,

aquela

incerteza sobre o real motivo que levou Arthur a pedi-la, finalmente, em casamento. A explosão aconteceu, no entanto, por um nada. Como dizem, foi a gota d'água. — Querido, daria para você levar seus clientes para jantar fora amanhã? Não estou com disposição para organizar cardápios nem para ficar sorrindo a noite inteira para um bando de desconhecidos. Eles haviam acabado de terraço,

mas

como

estava

jantar

no

esfriando,

resolveram entrar para tomar o café. — Deixe por conta da sra. Bush. Ela está acostumada. Sempre organizou tudo Página 293

para mim. — Eu sei, mas agora não me sinto bem se não colaborar ao menos em parte. — Por que não tira o dia de amanhã de folga, então? — Seria ótimo, mas eu tenho duas, não, três reuniões marcadas para o lançamento de

minha

nova

coleção

esportiva

para

crianças. Bárbara estava levando a xícara aos lábios quando detectou o olhar sério do marido. — O que foi? — Esses desconhecidos, como você diz, são importantes para mim. Não quero leválos para nenhum restaurante. Quero recebêlos aqui. Não me importa o que você pensa. Bárbara depositou a xícara na mesa, se Página 294

levantou devagar e com os olhos cheios de lágrimas de incredulidade se pôs a gritar que

não

era

empregada

dele,

que

se

recusava a receber ordens e que vivia melhor antes de se casarem porque podia ir e vir quando lhe convinha. Arthur largou o jornal, se levantou e estreitou os olhos. — Sabe qual é o problema? Você está cansada. Está trabalhando além de seus limites e o que mais me surpreende é que não precisa disso. Bárbara empalideceu. — Por que eu deveria desistir de minha empresa? Para me tornar uma anfitriã de seus

importantes

clientes

em

período

integral? — Você sabe que poderia deixar isso a Página 295

cargo da sra. Bush. — Não acho certo! Quero dar meu toque pessoal a tudo que fazemos. Para que isto ao menos pareça um lar. — Então você acha que não temos um lar? — o tom de voz soou seco. — Exatamente! Sinto-me como uma amante a maior parte do tempo! — Bárbara chorava e falava aos atropelos. — Nós nunca fomos

para

Tibooburra,

nós

não

construímos a quadra de tênis, nunca conversamos sobre ter filhos, e não gosto de sua proposta de nos surpreendermos. Nunca sei o que você está pensando e detesto isso! — Porque lhe falta tempo! — Arthur retrucou. — Porque você não quer ter tempo! Como quer ter filhos se vive tão ocupada que não consegue nem sequer Página 296

saber em que estou pensando? — Não é isso! — Bárbara protestou. — Você não quer que eu saiba em que está pensando. Você continua a ser aquele caubói solitário. Foi por isso que não me pediu em casamento até eu deixá-lo. — Bem, já que sabe tudo, por que se casou comigo? — Você sabe porque. A questão é por que você se casou comigo. Quando descobrir a razão, talvez possamos conversar se devemos ou não continuar juntos. Até lá, estou de licença! Arthur não tentou detê-la quando a viu apanhar a bolsa e as chaves do carro.

Página 297

CAPÍTULO VIII Bárbara

se

instalou

em

seu

velho

apartamento porque ainda faltava um mês para o casamento de Christy e Ian. Seus

objetos

pessoais

haviam

sido

levados ou para Lidcombe Peace ou para o apartamento

novo,

mas

os

móveis

continuavam no lugar. Bárbara entrou no quarto e encontrou a cama feita, como a deixara. No armário, ainda havia algumas roupas e na cozinha ela nunca deixara faltar chá nem café. Preparou uma xícara de chá e se sentou na sala para pensar no futuro. Mas não conseguiu pensar em mais nada a não ser em Arthur e em sua passividade quando ela Página 298

o deixou. Ele não tentou impedi-la de partir. Ele se comportou da mesma maneira que antes. Nunca procurou localizá-la nem entrar em contato quando soube de sua viagem para a Europa. O cansaço a fez ir para a cama. Chorou até adormecer sem conseguir enxergar uma saída para a situação. De madrugada, contudo, ela se levantou, olhou para o parque que recebia os primeiros raios da aurora, e subitamente encontrou o que esperava ser a solução para o problema. Levou

uma

semana

para

Bárbara

colocar o plano em ação. Arthur não a procurou. Nem ela a ele. Então ela foi para Lidcombe Peace, preparada para esperá-lo pelo tempo que fosse necessário. Página 299

Arthur apareceu quatro dias depois e não poderia estar mais carrancudo. Nos três dias anteriores, Bárbara se distraiu com jardinagem, com caminhadas junto a Buddy, com arrumações de armários e várias outras tarefas domésticas. Sentia uma paz interior como nunca sentira antes. No quarto dia, Luke estava de folga e o casal havia pedido uma licença especial que ela deu. Tinha planejado cortar a grama e resolveu realizar a tarefa de qualquer modo. Já vira o cortador em funcionamento e o manuseio parecia simples. Estava

tudo

indo

bem

quando

ela

calculou mal um gesto e o cortador se precipitou até a metade para dentro de um buraco. Ela tentou puxá-lo para trás. O motor Página 300

parou ela não conseguiu movê-lo. Apesar de pequena, a máquina pesava uma tonelada. Tentou e tentou sem sucesso tanto ligálo quando retirá-lo de dentro do buraco. Por fim, vermelha e suada, tirou o chapéu e gritou de raiva. Estava a ponto de dar um pontapé no cortador quando ouviu a voz de Arthur. — Você acabará se machucando! Ela se virou e quase caiu. O estresse acumulado

durante

meses,

mais

a

serenidade apenas aparente dos últimos dias

a

inundaram

como

uma

onda

gigantesca. — Não se atreva a rir de mim, Arthur Keir! Você também não é grande coisa como marido.

Nunca

está

por

perto

quando

preciso de você! Página 301

— Estou aqui agora. — Sim. — Ela apoiou as mãos no quadril. — Hoje aqui, amanhã no fim do mundo. Eu não preciso de você! Ele a fitou por um longo momento. Ela estava de jeans, camiseta e botas. Em contraste, ele estava de terno grafite, camisa branca e gravata cinza. — Mas o cortador de grama parece precisar de mim — ele retrucou e endireitou as rodas. Bárbara fechou os olhos e cerrou os dentes ao vê-lo retirar a máquina do buraco em segundos. Virou-se, então, e se pôs a caminho da casa enquanto ouvia Arthur levar o cortador de volta para a garagem. Cinco

minutos

mais

tarde,

ele

a

encontrou na varanda, um pouco mais Página 302

calma e muito assustada com sua falta de controle. Nenhum dos dois falou por algum tempo. — Desculpe-me, mas você me conhece. Certas contrariedades me tiram do sério. Ele

fez

que

sim

com

a

cabeça

e

perguntou se ela aceitava um refresco. — Sim, por favor. Está quente hoje. Enquanto Arthur desaparecia pela porta da cozinha, Bárbara se abanou com o chapéu. Seu marido estava estranho. Teria vindo pedir o divórcio e não fazer as pazes? — Obrigada — Bárbara agradeceu com voz trêmula. — Não esperava me encontrar aqui, provavelmente... — Eu sabia que você estava aqui. — Ele se sentou de frente para ela do outro lado da mesa. — Luke me avisou. Eu sempre soube Página 303

onde você se encontrava, Bárbara. — Mas... — ela se deteve, confusa. — Tive de tomar algumas providências — Arthur explicou. — Quer que eu lhe conte? Bárbara respirou fundo. —

Antes

soubesse...

Por

eu

gostaria favor,

que

não

leve

você em

consideração o que eu disse antes. — Não levarei, mas quero que me ouça primeiro. O olhar sombrio de Arthur provocou calafrios em Bárbara. Ela ainda tentou protestar, mas ele foi firme. — Não. — Arthur colocou a mão sobre a dela. — Eu preciso lhe dizer que, pela primeira vez em minha vida, pude entender meu pai. Agora eu sei o que significa perder Página 304

quem a gente ama. Senti isso por duas vezes. A dor é tão forte que congela a alma e coloca uma couraça ao redor do coração ao mesmo tempo que nos torna vulneráveis. Agora eu sei porque ele era como era. Porque apesar de suas diferenças, ele amou tanto minha mãe que nunca pôde esquecêla nem amar outra mulher. Agora eu sei porque me aconteceu o mesmo. O coração de Bárbara estava batendo tão depressa que ela sentia dificuldade em respirar. —

Meu

outro

problema

foi

a

incapacidade de confiar plenamente em alguém. Você estava certa quando disse que o velho caubói solitário continuava vivo em mim. Bárbara suspirou. Página 305

— Eu sempre tentei relevar, mas, de repente, foi impossível suportar a idéia de que você só queria meu... — Corpo? — Sim — Bárbara admitiu com um fio de voz. — Nosso envolvimento físico sempre foi ardente e apaixonado. Eu me perguntei muitas vezes, Arthur, se não foi por esse motivo que você não quis casar comigo. Para que a relação não desgastasse, digamos. — Não, Bárbara. Eu queria casar com você, mas havia jurado a mim mesmo que nunca correria o risco de me expor a uma situação como a de meu pai. Bárbara

estava

tremendo

e

não

conseguia parar. — Nos últimos dias, porém, quando eu me dei conta de que não estava conseguindo Página 306

tomar uma atitude, como deveria ter feito naquela noite para impedir a qualquer custo que você fosse embora, eu me obriguei a lutar comigo mesmo para ter você de volta. Bárbara ouviu em aturdido silêncio porque essa atitude que Arthur se obrigara a tomar envolvia uma mudança radical em sua vida e em seu império. Ele havia até mesmo contratado um diretor-gerente para ocupar seu lugar. Como presidente, Arthur continuaria no comando, mas as viagens e a maioria das reuniões ficariam a cargo de outra pessoa. — Eu disse a você que era o que pretendia fazer antes de você me deixar. Uma voz em minha consciência já vinha me alertando sobre a possibilidade de eu ser mais feliz longe de telefonemas noturnos e Página 307

aeroportos internacionais. —Arthur olhou ao redor. — Foi por isso que comprei esta propriedade. No entanto, eu logo descobri que ela não era o bastante. Que o que eu realmente queria era ter você. Mas minha insegurança me atormentava porque não acreditava que poderia conservá-la a meu lado. Bárbara enxugou uma lágrima. — Eu tinha uma certa razão em pensar assim, não é, Bárbara? — Por que diz isso? — Você sempre teve reservas sobre nosso relacionamento. Por que, então, se empenhava em trabalhar tanto? Não era para ter em que se agarrar se não desse certo? Sua determinação em se entregar em primeiro lugar a sua empresa ativou meus Página 308

velhos medos. O sinal se tornou alarmante quando você se recusou a aceitar o carro de presente.

Bárbara

esperou

que

Arthur

terminasse de falar. — Você estava certo. O trabalho era uma válvula de escape para mim, mas não pelo motivo que pensou. Sabe quando descobri que queria me casar com você? Quando, você me deu o carro em vez de um anel de noivado. — Então foi isso... — Foi — Bárbara admitiu. — Depois, naquela ilha, eu percebi que você estava vivendo um impasse. Achei que o motivo era eu. — Era — Arthur confirmou. Bárbara baixou os olhos. — Mas você não disse nada e eu não Página 309

consegui entender como podíamos estar tão perto e não dar o passo final. Depois, quando eu soube que Christy estava noiva em segredo de Ian, senti que deveria ter acontecido

conosco

antes.

Outra

vez,

encontrei um botão de rosa e um bilhete em seu travesseiro, mas estava sozinha. Foram pequenas coisas que, somadas, atingiram uma

proporção

insuportável.

E

eu

fui

medos,

eu

embora. — Por que não me disse? —

Se

você

tinha

seus

também tinha os meus. — Teve algo a ver com você se entregar por inteiro a alguém que não viveu no mesmo padrão social? —

Não

continua

pensando

isso

realmente de mim, não é? Arthur hesitou. Página 310



Às

vezes

fico

observando

sua

elegância natural e penso em sua criação e na minha. Sinto-me inferior nesse sentido. Não consigo evitar o pensamento de que estava com vinte e dois anos quando vesti meu primeiro terno, e ele era de segunda mão. A declaração de Arthur a tocou fundo. — A única barreira que já existiu entre nós foi meu medo de você não me amar como eu te amo. Foi por esse motivo que me agarrei ao trabalho. Eu não conseguia entender por que você custou tanto a me pedir em casamento. Depois, quando nos casamos, achei que nada havia mudado. Se possível, o casamento nos separou ainda mais. Nesse momento, Bárbara olhou para Página 311

Arthur com uma nova luz. — Mas eu refleti muito e finalmente me dei conta do que estava fazendo. Sim, Arthur, eu também tomei algumas providências. Você ainda não sabe, mas tive uma oferta para vender minha parte na sociedade e decidi aceitá-la. Arthur se levantou com ímpeto. — Não precisava ter feito isso. — Sim, eu precisava — ela afirmou com serenidade. — Natalie está satisfeita com o novo sócio e eu continuarei a trabalhar na empresa. Queria que você soubesse, mesmo que não quisesse mais continuar comigo, que não serei mais uma esposa apenas de meio-período. Arthur atraiu-a de encontro ao peito de um modo quase desesperado. Página 312

— Eu quero você comigo para sempre. Parece que desta vez nos entendemos. Eu errei com você, Bárbara. Fui um tolo esse tempo todo. Acabei forçando-a a tomar um caminho drástico. — Não. Eu pensei muito antes de assinar aqueles papéis. Foi como se um peso fosse tirado de minhas costas. Sintome outra pessoa. Eu não havia percebido que além de nos separar, o excesso de trabalho estava impedindo que eu fizesse o que

realmente

gosto

de

fazer

que

é

desenhar. — Ainda assim, sinto-me culpado. Bárbara beijou-o. — Você teve uma infância difícil. Teria sido um milagre se todas as dificuldades que passou não tivessem deixado marcas. Página 313



Por

que

está

rindo?



Arthur

perguntou algum tempo depois. Eles se amaram daquela vez com a mesma paixão de sempre, mas a intimidade foi maior do que nunca porque disseram um ao outro o que nunca havia sido dito antes. Bárbara acariciou o ombro do marido e se moveu sensualmente sob o lençol. — Estava pensando que meu famoso autocontrole foi para o espaço por duas vezes só no dia de hoje. — Bem, confesso que eu já havia notado que você não se dá bem com aparelhos que, de repente, resolvem parar de funcionar, como trituradores de lixo e cortadores de gama. Bárbara tornou a rir, brincou com os cabelos dele e beijou-o no rosto. Página 314

— Eu não estava me referindo a isso, seu tolo. Eles estavam deitados, olhando um para o outro. — Eu te amo mesmo quando chuta pobres cortadores de

grama



Arthur

caçoou. — Quanto à segunda vez que você perdeu o controle hoje... Teria sido, por acaso, há aproximadamente trinta minutos, quando a tive em meus braços? — Sabe que sim. Sabe que perco por completo a compostura quando vamos para a cama. Arthur abraçou-a. — Bárbara, sabe o que fiz quando você foi embora? — Não. —

Peguei

o

primeiro

avião

para

Tibooburra e fui visitar o túmulo de meu Página 315

pai. Depois voei para Newcastle, onde minha mãe foi enterrada e jurei aos dois que eles continuariam a viver em mim e em você, mesmo que eu tivesse de mover céu e Terra para tê-la de volta. E que a infelicidade deles e do início de minha vida de casado seria revertida

em

felicidade

porque

eu

não

poderia conceber meu futuro sem você. Bárbara sentiu um nó na garganta. — Oh, Arthur, eu sabia que ainda daria certo.

Tanto

amor

não

podia

ser

desperdiçado. À tarde, quando tornaram a sair na varanda, Arthur e Bárbara olharam para o céu e para o jardim. — Parece um novo mundo — Bárbara murmurou. — Mas você continua a ser minha Página 316

sereia,

minha

garota

cigana

e

minha

princesa indiana. Está linda, Bárbara. Ela o enlaçou pelo pescoço. — Eu me sinto esplêndida, graças a você. Sabia que uma vez, neste mesmo lugar, comparei-o a um sheik? Arthur examinou-se com calça jeans e camisa de brim e fitou-a com interrogação. — Não estou me referindo à roupa — Bárbara respondeu, rindo. — Mas a sua sensualidade. Aquilo me perturbou. — Você não deu demonstração. — Eu tinha acabado de conhecê-lo — Bárbara respondeu e fitou-o com ar de superioridade. Depois das risadas, Arthur apanhou uma rosa e entregou-a a Bárbara, que a recebeu com todo seu amor. Página 317

LINDSAY

ARMSTRONG



Estou

acabando de publicar meu qüinquagésimo romance! Ao olhar para trás e me lembrar dos outros cinqüenta heróis e heroínas que criei, ainda me surpreendo com a sensação que tenho de que eles se tornaram pessoas reais. Cada vez que termino uma história, tenho uma sensação de perda como se lamentasse deixá-los partir. Espero que gostem de Bárbara e de Arthur Keir como gostei de criá-los, desde a semente de uma idéia, até lhes dar vida e permitir

que

eles

desenvolvessem

suas

próprias personalidades. Página 318

A todas minhas leitoras, meu muito obrigada.

Sem

vocês,

eu

não

teria

conseguido.

Página 319
Lindsay Armstrong - Separados pelo casamento (Sabrina 1250)-convertido

Related documents

94 Pages • 30,030 Words • PDF • 649.5 KB

40 Pages • 575 Words • PDF • 3.2 MB

1 Pages • 4 Words • PDF • 598.9 KB

2 Pages • 115 Words • PDF • 33.9 KB

47 Pages • 4,584 Words • PDF • 6.9 MB

179 Pages • 31,745 Words • PDF • 841.3 KB

3 Pages • 834 Words • PDF • 207.5 KB

165 Pages • 37,786 Words • PDF • 894.9 KB

225 Pages • 67,916 Words • PDF • 1.9 MB

327 Pages • 92,720 Words • PDF • 1.8 MB

47 Pages • 3,102 Words • PDF • 1.1 MB