@ligaliteraria Arthur - Mari Sales

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Família Valentini – Livro 3 Mari Sales 1ª. Edição

Copyright © Mari Sales Edição Digital: Criativa TI _____________________________________________ Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, lugares e acontecimentos descritos são produtos da imaginação da autora. Qualquer semelhança com nomes, datas e acontecimentos reais é mera coincidência. _____________________________________________ Todos os direitos reservados. São proibidos o armazenamento e/ou a reprodução de qualquer parte dessa obra, através de quaisquer meios – tangível ou intangível – sem o consentimento escrito da autora. Criado no Brasil. A violação dos direitos autorais é crime estabelecido na lei n°. 9.610/98 e punido pelo artigo 184 do Código Penal.



Sinopse Paula teve a difícil missão de enfrentar o irmão mais novo da família Valentini. Metódico e recluso, a reunião para convencê-lo a ir no casamento de Benjamin deveria acontecer juntamente com Carlos Eduardo, mas ela foi sozinha. Confiante de suas habilidades, mesmo cercada pelos desastres que causa, ela penetrou as barreiras de proteção desse irmão antes mesmo de saber. A mulher que quebrou suas regras não deveria atraí-lo. A racionalidade não deveria dar lugar para o impulso, mas foi isso que Arthur fez, mudou seus limites e desafiou a mais centrada das amigas. Ela não se intimidava facilmente. Ele não sabia o que estava por vir ao dar brecha para que Paula pudesse agir. Será que o amor, o mais indescritível dos sentimentos, sobreporia toda lógica que rondava o irmão mais misterioso?

Dedicatória Para a mulher feita de paciência, carinho e dedicação, muitas vezes mulher maravilha, outras vezes um ser humano gente como a gente. Paula, minha linda, obrigada por ser inspiração e se doar além do necessário.

Capítulo 1 Paula Minhas mãos não paravam quietas no meu colo. Dentro de um táxi, seguia em direção ao prédio principal do Grupo Sustentável Valentini, a empresa de Arthur Valentini, minha missão quase impossível. Não havia contado para ninguém, mas tinha pesquisado sobre o irmão mais novo, seus feitos e tudo o que o envolvia. Ele não aparecia muito na mídia, mas o pouco que ele deu o ar da graça de sua beleza e aura misteriosa, me encantou como nunca antes. Não acreditava que estava atraída por Arthur, três amigas e três irmãos, isso era muito enredo de novela mexicana ou de livro, mas era fato. O cara, além de ser metódico e com mil e uma regras para uma simples reunião, era genial. Suas descobertas e o quanto sua tecnologia inovou poderia transformar o mundo inteiro em sustentável. Nas poucas horas de voo que tive, tentei não pensar no que me aguardava. Quando segui para o hotel e acompanhei minuto a minuto até o presente momento, orei para todos os deuses da calma para que não saísse do meu modo zen e surtasse de ansiedade como Ray normalmente fazia. — Aqui senhorita — o taxista chamou minha atenção assim que o carro parou. Olhei para os lados e encontrei o prédio imponente que poderia ser minha perdição. Abri minha bolsa, derrubei algumas coisas no chão do carro até pegar minha carteira e pagar o motorista. — Obrigada — agradeci de forma gentil e envergonhada, recolhi tudo o que derrubei de forma desordenada e saí porta afora respirando fundo e contando até dez. Para que pudesse realizar essa reunião, um manual me foi encaminhado. Pelo cuidado e métricas, poderia dizer que ele tinha TOC, ou seu marketing tinha, porque nunca havia visto isso na minha vida. Desde como me portar, como falar e o que vestir estavam descritos nesse manual. Não mentir e não se aproximar fisicamente do dono da empresa também. Tudo parecia muito bizarro, mas na minha profissão, aprendi a observar mais do que falar, justamente para interpretar as entrelinhas. Uma das regras eu já estava infringindo que era participar apenas as pessoas informadas. Carlos Eduardo deveria estar comigo, além de ser um ótimo

argumento para que Arthur nos recebesse, ele seria o elo de ligação para fazê-lo voltar para casa e ajudar com a conclusão dos mistérios que os rondavam. Ainda tinha intenção de fazê-lo aceitar minha proposta de implantar todo o seu sistema de reutilização de água no hospital que Ray era voluntária. Estava encantada e muito tocada com todos que lá trabalhavam e seus pacientes. Depois que minha amiga comentou sobre isso, resolvi ser voluntária também e estava disposta a gastar um pouco do meu tempo para mudar a vida dos colaboradores, voluntários e pacientes. — Sai da frente! Alguém trombou em mim na calçada e minha bolsa foi para o chão. Novamente. Nem tinha reparado que fiquei muito tempo olhando a porta da recepção do local e não entrei. Caminhei com passos firmes até a recepção e um medo incontrolável começou a tomar conta quando a recepcionista, muito simpática, confirmou meu nome na sua lista, mas não encontrou Cadu. — Aqui consta dois nomes para a reunião. Acho melhor esperá-lo e os dois entram juntos. — Por trás de um balcão, a moça que estava ladeada por dois seguranças me comunicou um tanto nervosa, mas bem disfarçado. — Eu vim sozinha. Senhor Carlos Eduardo teve uma emergência... do coração e precisou se ausentar. — Bem, Letícia era um assunto que envolvia o coração, certo? — Você recebeu as regras para participar de uma reunião com o senhor Valentini? — perguntou engolindo em seco. Isso seria medo? Ele não parecia ser um tirano, apenas controlador. — Sim, recebi. Assumo todos os riscos, não se preocupe. Parecia fácil falar quando o único órgão do meu corpo que parecia descontrolado era o coração e ele estava pulando igual uma criança em cama elástica. Uma hora sairia pela boca e todo o meu corpo cairia no chão igual uma jaca madura. Disponibilizaram-me um crachá, passei por detectores de metais, minha bolsa passou no raio-x e segui dentro do elevador até o último andar. Eram mais de vinte andares, o prédio inteiro era dele. Arthur Valentini tinha um grande império em forma de regras e organização estrutural. Tentei liberar minha mente do nervosismo que se aproximava, não havia mais nada a ser feito, a reunião seria conduzida apenas por mim e

precisava não só conseguir o apoio dele com o hospital, mas encontrar uma brecha para dizer que conhecia seus irmãos e precisava que ele estivesse comigo no voo de volta. Simples, suave... As portas do elevador se abriram e mal dei um passo, o salto do meu sapato enroscou no trilho da porta do elevador, me fazendo puxar minha perna com força e quase cair de cara no chão. Ah, não, lado desastrado. Você não foi convidado para a reunião. Soltei meu pé, levantei o rosto e encarei a recepcionista do andar com um sorriso amarelo. Aproximei confiante, mas tudo foi decaindo quando ela me olhou da cabeças aos pés, olhou para o meu lado e constatou o que já tinha sido informado para a outra recepcionista, eu estava sozinha. — Bom dia senhorita. Em que posso ajudá-la? — Sou Paula, tenho uma reunião com o senhor Arthur... — Na minha agenda consta Paula Cardoso e Carlos Eduardo. Onde está a segunda pessoa? — Ela ergueu uma sobrancelha para mim. — Você recebeu as regras para a reunião com o senhor Arthur Valentini? Respirei fundo precisando assumir essa situação com unhas e dentes, sem me intimidar. E se o cara tivesse morrido, eu nunca mais conseguiria realizar uma reunião nessa empresa? — Carlos Eduardo teve uma emergência. Eu explicarei na reunião para o senhor Arthur toda a situação. — Acho melhor remarcarmos... — Não! — Coloquei minhas mãos para frente e só não segurei os ombros da mulher, porque estava muito distante. — Falta menos de trinta minutos, por favor, eu lidarei com isso na reunião. Ela virou a cabeça e me analisou. Percebi que ficou nervosa, talvez, minha falha em não seguir regras poderia recair sobre ela também. — Acho melhor realizar a reunião só com o Denis, o gerente de marketing, assim nada dará errado. Coloquei minhas mãos em cima da mesa, mostrei meu desespero nos olhos e falei baixo: — Preciso de Arthur nessa reunião. É questão de vida ou morte! Bem, segundo obstáculo resolvido. Ela não demorou em digitar algo no computador e me indicar a sala de espera. Não tinha a menor noção do que me esperava, mas de uma coisa eu

sabia e era feita, de coragem e ousadia... com uma pitada de falta de coordenação motora.

Capítulo 2 Paula Sentei em uma das cadeira na sala de espera para reunião e minha perna não parou quieta um segundo. Levantei e fui até a cafeteira me servir do poderoso líquido reanimador, vulgo café. Enquanto colocava estudava como funcionava essa geringonça, uma máquina de café expresso diferente, com dois bicos por onde o líquido deveria sair e vários botões. Peguei um café e por instinto, apertei o botão com um círculo redondo e um risco, desenho universal para ligar. Um barulho, outro barulho e então, os dois bicos começaram a sair café e na base da cafeteira parecia não ter um ralo. — Meu Deus! — desesperei, porque começou a respingar café na minha saia, que era cinza e minha blusa que era branca. Entre me afastar, deixar tudo acontecer e lutar para vender essa máquina, acabei ficando no lugar, peguei outro copo e coloquei no segundo bico, contendo os danos, mas não evitando os respingos na minha roupa. Olhei para baixo e fiz uma careta. Ótimo, minha roupa não estava mais adequada. Não bastava ter quebrado uma regra, agora quebrei duas. E sim, existia uma regra sobre usar roupas que estivessem passadas e sem manchas ou sujeiras. Ah, o seu TOC já estava me dando nos nervos, ele não iria atrapalhar a minha paz interior. Tomei o café, andei pela sala e um rapaz jovem me abordou na porta: — Senhorita Paula? — Sim? Ele me olhou da cabeça aos pés e sorriu contido. — Essa máquina é infernal, não? — brincou e me senti um pouco aliviada. Acenei com a cabeça e segurei o segundo copo de café. Tomei os dois, para não criar mais confusão com o metódico. — Sou Danilo. Poderia me acompanhar até a sala de reuniões? — Sim, obrigada Danilo. Seguimos lado a lado em silêncio pelo corredor. A penúltima porta foi aberta, uma sala de reuniões moderna e bem iluminada pelas janelas de vidro me fizeram abrir um enorme sorriso.

Sem me importar, desviei do rapaz e olhei a vista maravilhosa que dava daqui. — Bonito não? — Virei para olhá-lo. — Sim! Parece que estamos mais próximo do sol. — Você precisará usar o computador, certo? Vou ligar o projetor, você poderá utilizar tudo o que está instalado nele e no final, pode deixar como está, eu venho desligar. — Obrigada. Ele saiu da sala e eu abri minha bolsa em busca do pen drive. Amaldiçoei-me mentalmente por ter vindo com essa enorme, que tudo o que colocava dentro se perdia como se estivesse em um buraco negro. Olhei para o relógio e constatei que ainda tinha três minutos. Virei todo o conteúdo da bolsa em cima da mesa e finalmente encontrei o bandido do pen drive. Minha ação parecia rápida, mas não foi, porque dois homens entraram na sala sem se anunciar e me tiraram o fôlego, ou melhor, apenas um deles fez. Arthur Valentini não era nada do que as fotos indicavam. Seus músculos estavam expostos pela camisa social agarrada ao seu corpo e a barba por fazer me fazia imaginar coisas muito malvadas entre quatro paredes. Os dois se sentaram à mesa e apenas o homem do marketing me olhou, Arthur estava muito absorto com os itens espalhados em cima da mesa, mais precisamente uma foto minha apenas de biquíni. Ou melhor, minha foto e minha carteirinha de associado do clube onde praticava natação. — Olá, bom dia, me desculpe a bagunça. Estava procurando o pen drive da apresentação. — Recolhi com pressa todos os itens e quando cheguei nos que Arthur encarava, pensei que ele finalmente me olharia, mas não, se manteve olhando a parede agora, como se minha presença não fosse importante. Suspirei irritada, ele poderia ser um gênio, mas com certeza um sem educação. — Bom dia senhorita Paula. Sou Denis e estou com Arthur porque seriam duas pessoas a conversar sobre a proposta 524, referente a implantação do sistema de reaproveitamento de água no hospital da sua cidade, certo? — Sim, Carlos Eduardo, irmão do Arthur, deveria estar comigo, mas precisou se ausentar por conta de uma emergência. — A única reação dele foi quando mencionei o nome do irmão. Os olhos piscaram mais vezes que o normal e depois seguiram normalmente.

— A senhorita recebeu nosso manual de reuniões? De novo com esse assunto? — Senhor Denis, desculpe a falha em cima da hora, mas Carlos Eduardo está em uma missão perigosa e um tanto peculiar nesse exato momento. Meu propósito nessa reunião também é informar o senhor Arthur sobre sua família e... — Poderia começar com o seu projeto? — Denis me corta encarando a mancha na minha roupa e meus olhos vão direto a Arthur, que continua “ausente”. Suspiro e aceno em concordância. Tudo bem, vamos seguir conforme a onda e assim que ela estiver pronta, irei surfar. Acessei o conteúdo do pen drive e fiz a apresentação com minha melhor forma. Esse projeto estava me deixando orgulhosa, mostrou o quanto era versátil sobre os assuntos que trabalhava e também, que meu coração era bom ao mesclar sustentabilidade e caridade. Não era convencida, nem tinha tanto ego para ser inflado, mas uma coisa reconhecia, que era quando fazia um bom trabalho e esse era um deles. Passei a maior parte falando sozinha. Foram pouquíssimas as vezes que Denis interrompeu, fez anotações e questionou. Tudo transcorreu muito bem e quando terminei o último slide do arquivo, sorri e encerrei a primeira parte da reunião. — Esse projeto seria pioneiro no país, não só mudaria a vida daquelas pessoas que trabalham e são obrigadas a estarem no hospital, mas também mudaria o mundo, por não precisar usar tanta água e a reciclar. — Um projeto ousado e seu estudo foi muito bem desenvolvido. Parabéns. Não posso fornecer nenhum resultado antecipado, mas posso lhe adiantar que foram poucas as pessoas que conseguiram impressionar como a senhorita. Sorri vitoriosa, não cabia em mim tamanha satisfação. Agora era momento de falar com Arthur, dele finalmente me olhar.

Capítulo 3 Paula Não precisei soltar nenhum som, porque assim que ficamos em silêncio, ele virou o rosto para mim e me encarou sério, ou melhor, indiferente. — Por que informou que meu irmão estaria na reunião? — sua pergunta parecia aço na minha pele, me cortando e penetrando em minha pele. — Posso falar em particular com você? — pedi e desviei meu olhar para Denis. — Seu projeto é bom, você é profissional, por que usou meu irmão para conseguir essa reunião? — Arthur me chamou atenção novamente e de forma automática, puxei uma cadeira ao seu lado e sentei. Apesar de não demonstrar com ação, seu olhar me indicava que eu ultrapassei uma barreira que não deveria. — Conheci seus irmãos por conta das minhas amigas, que são namoradas deles. Não sei detalhes sobre o assunto, me foi passado por cima a atual situação das investigações sobre seu pai. — O quê? — falou baixo e sabia que tinha ganhado sua atenção. — A morte do seu pai não foi da forma como foi pintada na época. Letícia foi sequestrada, esse último mês foi uma loucura... — Quem é Letícia? — Minha amiga, namorada de Cadu, ou melhor, Carlos Eduardo. Benjamin vai casar e seria importante você estar presente na cerimônia ou antes, para ficar a par de toda a investigação. Ele se levantou abruptamente e começou a andar pela sala de reunião como se estivesse enjaulado. Denis olhava para mim com repreensão e para Arthur com preocupação. — O que está acontecendo? — sussurrei para o homem do marketing que estava na reunião. — Você perturbou sua mente — sibilou e se levantou, tentando se aproximar do CEO da empresa, mas ele se desviou e veio até mim. Com as duas mãos apoiadas na minha cadeira, ele aproximou seu rosto do meu e senti não só seu cheiro inebriante, mas seu hálito refrescante. Seus olhos cintilavam confusão e algo em mim foi tocado, não só para acabar com seu sofrimento, mas para acalmar meu coração que vibrava em uma frequência diferente.

— O que você sabe sobre a morte do meu pai? — Sei que você precisa falar com seus irmãos e esclarecer isso — respondi sem desviar o olhar dele. — Eu não quero saber por eles. Fale! — aumentou um tom e não me intimidou. — Senhor... — Denis tentou interromper, mas apenas um olhar para ele o fez recuar. Seu olhar voltou feroz para mim e ao invés de me intimidar, eu simpatizei. Era como se me desafiasse e eu queria fazer o mesmo com ele. — Você nunca quis ter um encerramento sobre esse assunto na sua vida? — perguntei de forma suave. — Eu não vou sair daqui. — Seu irmão vai se casar, é uma ótima oportunidade para reaver... — Eu não vou sair daqui! — seu tom era nervoso. — Eu também não, enquanto você não concordar. Ficamos um tempo nos encarando. Sabia que tinha ultrapassado alguns limites, que ele tinha alguma particularidade em sua personalidade que havia deixado passar, mas não desistiria sem lutar. Rayanne conseguiu encontrar os diários, Letícia sobreviveu a um sequestro e eu... faria de tudo para executar minha parte. — Eu não falo com meus irmãos há muitos anos — fala com pesar. — Sei disso e está em tempo de reverter essa situação. Não sente falta deles? — Eles sentem minha falta? — retrucou e precisei sorrir, porque imaginar os três juntos era muito emocionante. — Não foi só a vida das minhas amigas que mudou, mas de Ben e Cadu. Há uma peça faltando nesse quebra-cabeças e você é importante para que ele seja resolvido. Percebi que sua respiração mudou, ele estava afetado com minhas palavras ou meu olhar, não sabia, mas qualquer um dos dois teria que fazer o papel de convencê-lo. — Não vou sair daqui. — Arthur, a vida é feita de desafios. Até quando vai se manter em solo firme e não se aventurar em uma onda descontrolada? Sei que fui ousada na minha afirmação poética, mas era tudo ou nada. Ele parecia inconformado em sair de sua cidade, ou mesmo desse prédio.

O que será que te assombra, Arthur? — Você gosta de água. — Oi? — Minha confusão foi porque ele tinha afirmado e não perguntado. Como ele sabia? Ah, minha foto e carteirinha... — Você me desafia em terra, eu te desafio em água. Venha! Ele se afastou e eu olhei para Denis confusa. Ele deu de ombros, colocou um papel a minha frente e pediu para assinar. — A ata dessa reunião. Entraremos em contato em breve. E a propósito, sua roupa está manchada. — Culpa daquela máquina de café. Por que não recebi o manual de instrução dela junto com toda a papelada antes dessa reunião? — Ousei antes de pegar o papel e assinar. Peguei minha bolsa, o pen drive e saí andando pelos corredores em busca de Arthur e seu desafio em água. Parecia loucura, ele parecia um pouco louco, mas tudo o que queria era me entregar a todas as propostas que ele tinha para mim. Era estranho ter pesquisado tanto sobre ele e não ter um indício desse jeito excêntrico. Poderia assustar algumas pessoas, intimidar outras, mas comigo, era apenas atração. Você me desafia em terra, eu te desafio em água. Céus, o que me aguardava depois da curva desse rio?

Capítulo 4 Paula O rapaz que tinha me encaminhado para a sala de reunião, Danilo, me encontrou andando perdida pelo corredor da empresa e me levou até a sala de espera novamente. Ele me ensinou a usar a máquina e engatamos uma conversa amigável, me deixando mais tranquila e menos ansiosa com o que estava por vir. — Bem, vou te deixar aqui e avisar seu paradeiro para a secretária do chefe. — Ele é sempre assim? — perguntei quando o rapaz virou as costas para mim. — Como? — Ele virou novamente e franziu a testa. — Intenso? — respondi incerta e ele deu de ombros. — Há vários boatos na empresa, nenhum que valha a pena compartilhar. O que sei são suas ações e além de correto e com um senso de justiça ímpar, ele tem um enorme coração. O resto... — São apenas detalhes — completei e apertei o braço de Danilo que nem sabia, mas deu uma grande e valiosa informação. — Obrigada e desculpe meu intrometimento. — Tudo bem. Até outro dia. Deixei meu corpo cair na poltrona confortável, olhei para o teto e escorreguei, até ficar em uma posição nem um pouco profissional. — Vamos? É claro que Arthur tinha que aparecer nesse momento, me pegando não só desprevenida, como também vulnerável. Ele estava na porta, a jaqueta do terno esquecida mostrando todas as suas curvas por debaixo da camisa social azul. Ele era muito musculoso e por ser o irmão mais novo, deveria ser o menor, mas nada nele era reduzido. Levantei sem nenhuma graça, peguei minha bolsa e parei a sua frente. A vergonha tinha ido embora e deu lugar para a curiosidade e o desafio que ele falou. Nada me deixava mais animada e ansiosa que sair da minha zona de conforto. — Vamos de helicóptero até minha ilha. Já providenciei vestuário apropriado para você. Arregalei meus olhos e quase sorri ao lembrar de 50 tons. Era só o que

me faltava, ele me apresentar o quarto vermelho da dor, no caso dele, tinha cara de que seria azul. — Posso pegar minha mala no hotel — falei me convidando e sem nenhum pingo de medo de estar com um estranho em uma ilha. Ah, precisava falar com as meninas, se não desse sinal de vida em dois dias, que mandasse um resgate. — O que você precisar estará nos esperando lá. Venha. E assim ele me deu as costas e segui seu rastro até um elevador perto da sala de espera. Subimos mais dois andares, que não achava possível que existia e saímos para uma pequena recepção e uma porta ao fundo. — Plano de voo autorizado senhor — um homem que vestia roupas de piloto de avião falou. Seguimos para a porta e então, um vento forte nos acertou, me fazendo quase cair dos saltos que estava. Arthur foi quem me segurou pelo braço e não me deixou cair, a sensação de sua mão na minha pele me fez ter visões nem um pouco recatadas sobre tê-lo me tocando em outros lugares. Isso que dava ler muito, principalmente os livros mais eróticos. Tudo era motivo para fantasiar. Andamos até o helicóptero e sua mão não soltou do meu braço enquanto não me sentei no banco de trás e afivelei os cintos. Eu iria andar pela primeira vez nessa coisa. Ele puxou um fone do teto para ser posto em meu ouvido e observei o piloto e Arthur sentando no banco da frente. Meu coração batia forte no meu peito, como uma escola de samba em pleno carnaval. — Tudo bem? — uma voz suave soou no meu ouvido e vi quando Arthur virou o rosto na minha direção. — Sim. É minha primeira vez, então, estou um pouco assustada. — Meu piloto é o melhor da sua categoria e qualquer problema, eu também sei pilotar. — Uau, quantos ofícios você esconde na manga? — perguntei brincando e nervosa quando o helicóptero começou a se erguer do heliponto. — Nunca consegui fazer apenas uma coisa por muito tempo. Graduei em Administração de Empresas, Jornalismo e Engenharia Mecânica enquanto isso fiz outros cursos paralelos. Piloto de avião foi um desses. E ele tinha apenas 29 anos. O cara era excepcional, com certeza. Não que isso fosse um problema para mim... Espera, eu estava pensando nele de

outra forma que não fosse profissional ou apenas platônico? — Eu sempre fui gordinha — falei sem que me fosse perguntado. Senti que tinha que compartilhar algo meu como ele fez. — Já cheguei a pesar mais de 100kg e foi a natação que me vez mudar de vida e escolher a saúde ao invés da satisfação por comer. — Eu sou vegetariano. — Li sobre isso. Na verdade, nos termos de hoje, você seria considerado vegano, porque não come nenhum derivado animal. — Sorri, porque estabelecemos uma conexão invisível de confiança e amizade ao compartilhamos essas informações nem um pouco profissionais. — Rótulos só servem para segregar e individualizar o que é coletivo. — Bem, isso me lembra que entrarei em um regime forçado sem carne pelo tempo que estaremos nessa ilha. O que iremos fazer lá? — Kitesurf. Minha boca abriu em choque, meus olhos procuraram o mar do lado de fora do helicóptero e tudo o que tinha a ver com água. Ele iria me levar para fazer Kitesurf? Esse seria meu desafio? Estava muito fácil... não porque eu praticava, mas era um anseio de meses. — Conhece o esporte? — perguntou e virou para trás. Ele deve ter estranhado meu silêncio e não resisti a sorrir de orelha a orelha para esses olhos misteriosos e curiosos. — Tem certeza que esse é o desafio? Ele virou para frente e não me permitiu olhar o pequeno sorriso que se formou, mas sua voz foi um indício dele: — Eu vou para a sua cidade e no casamento do meu irmão se você aprender em dois dias Kitesurf e fizer duas manobras sem cair da prancha. — É... — Agora ele exagerou, porque nenhum esporte se aprende tão rápido assim. — Eu não sou como você, Arthur. — Já sentia a derrota me alcançar. — Quem teme em perder já está vencido. — Ele virou para me encarar novamente e o brilho nos seus olhos era hipnótico. — Também sou faixa preta em judô e os ensinamentos dele podem ser usados no Kitesurf. Quanto mais você repetir os movimento, mais estará apto a executá-los com perfeição. Desse jeito ele iria entrar no meu coração antes mesmo de limpá-lo para receber visitas.

Capítulo 5 Paula Desviei o olhar e encarei a floresta abaixo de nós. Logo estaríamos perto do mar e então, para o desafio que achei que seria fácil, mas não passava de uma missão impossível. Peguei meu celular e aproveitei o silêncio para desabafar. Paula>> Ai, meninas, entrei numa fria. Josi>> Joga água quente que você se livra. Ray>> O que aconteceu? Falou com Arthur? Alci>> Verdade, teve reunião com o irmão mais novo. Conte tudo, ele não come carne, de verdade? Josi>> Eu não quero saber o que ele come, tenho mais interesse em saber o que ele veste, como é seu beijo... Alci>> De preferência, veja logo se o irmão está vivo e entrega na mão dessa mulher, não aguento mais ela falando desse Arthur. Paula>> Ele é muito intenso, direto e... Ray>> Eu preciso dele no meu casamento, Paula! Paula>> E irá, mas preciso aprender Kitesurf em dois dias. Vocês têm noção que estou no helicóptero indo para uma ilha fazer isso? Ele fez uma troca, ele irá comigo para o casamento se eu aprender o esporte. Alci>> Está no papo então, você ama esportes aquáticos. Josi>> E se não der conta, pode deixar que eu assumo. Olho para a foto desse homem e não sei explicar, só sentir. Ray>> Você falou sobre a suspeita que temos do irmão gêmeo estar vivo? Olhei para suas costas e depois para o celular em dúvida sobre iniciar esse assunto do nada. Essa era a última coisa que queria usar de argumento. Possibilidade não é certeza, não poderia dar esperanças para no final, ela não existir. Paula>> Prefiro não falar sobre isso agora. Deixe que os irmãos se entendam. Josi>> Enquanto isso você tira uma foto da sua vista e mande para nós! Thata>> Gente, isso me lembrou muito 50 tons.

Ray>> Pensei igual! Paula>> Também! Ele não está pilotando, mas deixou claro que pode assumir sem nenhum problema. Tirei a foto, enviei e aproveitei para tirar foto de Arthur de costas. No momento que fiz, ele virou para o lado e me encarou, me pegando no flagra. — O que está fazendo? — Tirando foto do helicóptero para minhas amigas. Se eu não der notícia em dois dias, elas têm instruções para enviar uma equipe de resgate. — Você estará sob minha proteção, nada irá te machucar. Meu coração aqueceu, meu ventre contraiu e tudo o que queria era sorrir, beijar seus lábios e dizer que estava me sentindo segura ao seu lado. Ao invés disso, enviei a foto de Arthur para minhas amigas e encerrei a conversa com: Paula>> Se eu conseguir sobreviver e não me apaixonar em dois dias por esse homem, me internem, porque trocaram meu coração por uma pedra de gelo. — Você faz apenas natação? — Arthur chama atenção, mas não volta a me olhar. Guardo meu celular e me concentro em falar sobre mim. — Comecei com natação, depois caminhada, descobri a bicicleta, então funcional... — Substituiu as endorfinas da comida pelas do exercício físico. — Exatamente. Mas não é tão fácil quanto falar, eu ainda não resisto a um enorme bife com batata fritas ou um sorvete cheio de chocolate de várias cores enfeitando. — O alimento deve ser fonte de energia apenas, não de prazer. — Diz o homem que deixou de comer carne há mais de 5 anos — brinquei e isso fez com que ele virasse para me encarar. — Foi só uma brincadeira. — Eu entendi, só não concordo que carne seja mais saboroso que os vegetais e grãos que a terra nos oferece. — Eu te desafio — falo audaciosa. — Passe pelo primeiro que te propus, depois conversamos sobre um segundo. — Ele volta sua atenção para frente e meu sorriso aumenta só de pensar que poderia estar mais tempo do que o necessário com ele. — Eu vivo para sair da minha zona de conforto. — Percebi que você não se intimida fácil como todos que me cercam.

— Aí você se engana, eu me intimido e muito. — Esperei ele virar para me encarar, mas não fez. — Poderia olhar para mim? — Estamos em procedimento de decida. Olhe para fora. E faço o que ele me pede com um olhar assombrado pelo mar, floresta e céu azul. Esse é o melhor cenário que eu poderia ter na minha vida, trocaria alguns dias da minha semana apenas para estar em paz nesse lugar. — Você tem algum compromisso amanhã ou depois? Meu piloto poderia te levar e buscar caso necessário, senão, ele só voltará quando nosso compromisso terminar. O chão começou a ficar mais próximo e não consegui dizer mais nada, assustada e excitada com a emoção de estar descendo. Assim que o helicóptero alcançou o chão e as hélices começaram a desacelerar, senti algo descontrolado dentro de mim. Ele saiu primeiro, abriu a porta do meu lado e me ajudou a sair de tantos cintos. Assim que o fiz, meu salto me fez tropeçar, caí em cima de Arthur e ambos desabamos no chão de areia, ele por baixo, eu por cima. Coloquei minhas mãos em seu peito e mal ergui minha cabeça para ser assolada por um beijo eloquente de Arthur. Sua boca era urgente, a minha correspondia e tudo ao nosso redor parecia ter sumido e dado lugar para o desejo latente que surgiu da adrenalina de nos desafiar.

Capítulo 6 Paula O beijo não durou muito tempo, a sanidade e racionalidade tomou conta de mim antes que pudesse apreciar o doce sabor do café em seus lábios. Tentei me ajeitar para levantar, porém, foi impossível fazer sem antes sentar escarranchada em seu quadril e sentir sua excitação. Assim que fiquei de pé, ele também se pôs e segurou meu braço. Seus olhos mostravam confusão misturados a paixão, o que me aqueceu por dentro e também me fez questionar minha sanidade e profissionalismo. Eu acabei de beijar o meu cliente? Bem, ele me levou em uma ilha deserta, acho que essa parte do âmbito profissional poderíamos pular. — Estou atraído por você — Arthur falou de forma direta e atingiu meu ventre, fazendo com que borboletas começassem a voar no meu estômago... na verdade, meu corpo inteiro começou a reagir a sua declaração, estava a ponto de um ataque de nervos. — É... — nada. O que poderia dizer? — É tão estranho sentir atração por uma mulher que desde o primeiro momento que olhei, só faz o que não estou preparado para lidar. Eu tinha regras, você as quebrou! — Agora ele parecia um pouco contrariado, o que me fez sorrir. Homens metódicos e seus dias controlados por horários, metas e listas... — Se serve de consolo, eu não planejei nada. — Ele trouxe meu corpo para perto do dele e respirei fundo seu cheiro inebriante misturado a maresia do mar. — Eu também... — Vamos almoçar, descansar e então, seguir o cronograma que estabelecemos. Você tem dois dias para aprender e então, se concluir com êxito, vou seguir viagem com você até a cidade onde moram os meus pesadelos. Será que ele não tinha filtro ou esse era o jeito de lidar com o desconhecido? Ainda me segurando, seguimos em direção a casa em um caminho de pedras. Meu salto mais atrapalhava do que ajudava a essa altura e numa tentativa de me concentrar no homem que estava comigo, puxei meu braço de seu aperto e inclinei meu corpo para remover um dos sapatos. — O que está fazendo? — Não estou conseguindo andar direito e além do mais, vou estragar

meus.... Ei! — gritei assustada quando fui erguida por braços fortes e envolvi meus braços em seu pescoço numa tentativa de não cair no chão. — Você não precisava... — Normalmente faço esse trajeto com um triciclo, mas como nossa vinda não foi programada, não teve tempo hábil para abastecê-los. Você é uma convidada, não precisa lidar com tanto inconveniente. — Um empresário como você carregar uma Coach é um tanto inconveniente. — Não na minha ilha — respondeu seco e revirei meus olhos para seu raciocínio lógico. — Além do mais, estou atraído por você e essa é uma boa oportunidade para conhecer seu corpo e saber se conseguirei te colocar contra a parede e te foder. Olhei para ele em choque enquanto o mesmo apenas continuava a caminha olhando para frente. — Eu não vou foder com você! — falei indignada, mas minha região erógena estava completamente de acordo com ele. Traidora de uma figa, quem manda aqui sou eu! — Você vai, porque você também me quer. Sua pupila dilatou quando falei o que sinto, seu corpo se arrepiou ao mínimo toque do meu. — Ele parou em frente a uma grande área que antecedia uma casa completamente revestida de vidro. Era impressão minha ou ele assistiu Crepúsculo e fez uma casa muito semelhante? Oh, céus, será que vampiros realmente existiam? Senti um apertão nas pernas e respirei fundo esperando o resto do seu argumento. — E você correspondeu ao beijo tanto quanto eu, nós iremos foder, basta apenas decidir se antes do almoço ou depois. Isso seria arrogância ou apenas o jeito dele? Na dúvida, mexi meu corpo para sair do se agarre, fiquei de pé e apontei um dedo para o seu rosto. Tinha tanto para falar, tanto para discutir, mas então, o filho da mãe abriu um sorriso, segurou meu dedo com delicadeza e o beijou com carinho. — Talvez depois do nosso treino, linda. Vou me trocar, dona Catarina lhe mostrará seu quarto e as roupas adequadas para o almoço. Isso não era bom, ainda mais para uma pessoa tão pacífica como eu. Queria discutir tanto, mas ele conseguia resgatar a paz que sempre me habitou. Estava em uma enrascada!

Ele se afastou enquanto uma senhora sorridente se aproximou. — Olá, moça, como vai você? É amiga do menino Arthur? Acompanhei com os olhos aquele homem se afastar com um sentimento estranho no peito, como se parte de mim tivesse ido com ele. Talvez fosse curiosidade ou apenas... Ele parecia ter conseguido roubar algo que ainda não sabia o que era. — Oi? — Voltei minha atenção para a senhora, que estendeu a mão me guiando. — Como você é a primeira pessoa que ele traz para seu recanto de paz, vou imaginar que seja sua namorada ou futura esposa! — Ela parou de andar e segurou meus braços eufórica. — Faça o seu casamento aqui, prometo cuidar de tudo como se ele fosse meu filho. Na verdade, eu o considero, é muito... — Dona Catarina, não acho sensato você depositar tantas esperanças em mim. Sou Coach, vim em uma missão para um cliente meu e também, para os irmãos mais velhos de Arthur. Eles... Ela estava ansiosa, me cortou mais uma vez: — Você é a noiva do irmão mais velho? Fiquei sabendo do casamento, recebemos o convite, mas Arthur... — Ela me soltou e voltou a andar. — Ele é um menino especial. Percebi que esse adjetivo tinha mais de um significado e guardei a informação para explorar mais no futuro ou usar como questionamento quando o assunto surgisse. Mas de uma coisa tinha certeza, ele estava se tornando especial para mim em menos de 24 horas.

Capítulo 7 Paula A casa era linda, caminhei em silêncio apenas para admirar o tanto de espaço que ele tinha, o quanto os vidros em volta davam um ar de liberdade e imensidão. Subimos as escadas de madeira e depois, a porta do primeiro cômodo a direita foi aberta. — Há roupas em cima da cama, porque não tive tempo de lavar, passar e ainda guardar na cômoda. — Tudo bem. — Entrei no quarto e olhei para o que me esperava. — Toalhas e lençóis estão na cômoda do lado da porta do banheiro. Também não tive tempo para arrumar tudo no devido lugar. — Imagina, não precisa se preocupar, sou simples e bagunceira — falei tranquilizando a mulher que parecia ficar nervosa cada vez que comentava sobre o assunto. — Pode deixar que assumo a partir daqui. — O que precisar, estarei na cozinha até às 19 horas. Sorri para a mulher, fechei a porta do quarto e encarei a vegetação visível pela parede de vidro. Olhei para cima e encontrei cortinas, mas antes de pensar em ocultar essa visão para que pudesse me trocar com privacidade, andei até o vidro e coloquei minhas mãos nele. Liberdade. Sentia como se estivesse no filme Lagoa Azul, mas com a tecnologia a meu favor. Um peso que nunca soube que existia nas minhas costas pareceu sumir pouco a pouco enquanto meus pensamentos foram induzidos pelo poder da natureza e o quanto estava precisando de um tempo de folga. Voltei a olhar para a cama e as roupas que foram escolhidas para mim, decidi por ousar e desconcertar esse homem sincero e sem papas na língua. Pelo lado lógico, para o almoço, deveria usar um vestido floral ou aquela bermuda e bata, mas como sei que depois da refeição e do descanso iríamos para o mar aprender Kitesurf, fui direto para o biquíni e blusa térmica. Ligando o meu botão zen, mais conhecido como o foda-se, tirei minha roupa sem me preocupar com a falta de privacidade que a parede de vidro me dava e coloquei o biquíni comportado que havia ali. A parte de cima parecia um top esportivo e a de baixo, uma calcinha short. Aproveitei que havia elásticos de cabelo e fiz duas tranças nos meus

cabelos, me deixando com um ar mais jovial do que meu cabelo liso e reto que uso para o dia a dia. Peguei meu celular, fiz uma selfie com a mata ao fundo e enviei para as meninas. Paula>> Olá. Gostaria de dizer adeus ao mundo globalizado e cheio de tecnologia. Vou virar vegetariana, nadar no mar todos os dias e dormir com a lua e as estrelas como teto. Paula>> Traduzindo: cheguei, estou bem, mas não sei se meu coração ficará depois de hoje. Thata>> Que milagre eu ser a primeira a responder. Que bom que deu tudo certo, só não entendi a parte do coração. Josi>> Lá se vai meu futuro marido. Tudo bem, sem crise, eu fico com algum primo de segundo grau... Alci>> Que bom que você está bem e se surgir o momento para dar, aproveita amiga. O cara é um gato e Josi, para de drama! O casamento da Ray está bem aí, haverão muitas opções. Josi>> Eu só falo verdades! Meus filhos precisam dessa genética Valentini. Quem sabe uma inseminação... Thata>> Cada uma de nós temos o príncipe encantado que encaixa na nossa vida. O seu está reservado, Josi. Josi>> Do jeito que minha vida anda, acho que é sapo que me aguarda e não príncipe. E antes que vocês inventem alguma coisa, só estou brincando. Sabe a Ave Maria? Então, estou cheia de graça hoje. Ray>> E aí Paula, quando você volta com ele para o casamento? Ben não disse, mas eu sinto, ele não vai casar se todos os irmãos não estiverem aqui. Thata>> Calma, mulher. O Cadu não tinha viajado também? Alci>> Verdade, Letícia ainda não deu notícias. Será que os pais dela mataram o pobre coitado? Paula>> Darei o melhor de mim aqui. Ray, Benjamin vai casar com você com ou sem irmãos. Lembre-se que o pedido foi feito para você e não para os irmãos. Se Arthur é para mim, eu não sei, mas o cara conseguiu se infiltrar em mim sem pedir licença. Josi>> Estou louca para saber como foi entre Cadu e Letícia. Thata>> E Paula e Arthur? Josi>> Pare de lembrar que não sobrou nenhum irmão para mim.

O jeito é continuar sonhando com os boys literários. Ray>> Esqueceu que ainda tem o gêmeo perdido? Abandonei o celular, sentei na cama e respirei fundo. Sim, o gêmeo perdido que pode ter grande parcela nesse jeito diferente de ser de Arthur. Ele também comentou que voltar para a nossa cidade era sinônimo de pesadelo, coisa ruim. O que será que ele passou? Coloquei um chinelo e desci as escadas, seguindo o meu olfato e o cheiro de legumes cozidos. Isso me fez lembrar que Arthur era vegano e muito provavelmente não haveria carne. Dois dias sem um bife suculento ou um frango grelhado. Bem, havia mar, então, poderia convencê-lo de fazer um peixe. Entrei na cozinha e nela havia uma grande mesa de madeira retangular. A mesa estava posta e Arthur estava sentado no canto mais afastado. Ele vestia uma regata branca e provavelmente uma bermuda para combinar. — O cheiro está maravilhoso dona Catarina — falei caminhando até ficar de frente para ele e sentar no banco. Seu olhar parecia perfurar meu crânio, eu havia feito algo que não estava no manual, com certeza. Azar o dele, porque naquele momento estava me sentindo um tanto... Letícia. — Você está vestida para o Kitesurf. — Sim. — Peguei a jarra de suco de laranja e comecei a me servir, mas meu lado destrambelhado tinha que dar as caras e me fazer respingar por toda a toalha. — Droga, desculpa. — Não foi nada, querida. Essa jarra é perigosa mesmo — dona Catarina logo me socorreu, me fazendo aliviar por apenas alguns segundos. — Desastrada. — Sim, eu assumo e não escondo. Recomendo tirar as facas de perto de mim. — Brinquei e ele estendeu a mão para fazer o que disse. Segurei sua mão e o contato fez com que nossos corpos acordassem. — Foi uma brincadeira. — Não quero arriscar nosso momento com uma ida emergencial ao hospital. — Não é para tanto... — Ele forçou sua mão para longe de mim e soltei. Bem, fiquei sem faca para cortar a comida. Hum... acho que agora precisaríamos discutir um assunto muito delicado para um vegano metódico e isso tinha tudo para ser... divertido.

Capítulo 8 Paula — O que temos para o almoço? — Panzanella à moda brasileira. — O que é isso? — Uma salada italiana com ingredientes brasileiros e pão italiano. Fiz uma careta e logo ele me acompanhou. Como imaginava, isso iria dar uma boa discussão. — Não como pão. — É saudável, pode comer. — Pode trocar meu pão por outro carboidrato que não seja batata doce. — Não entra carne nessa casa, de nenhum tipo de animal — ele praticamente rosnou e dei de ombros, não intimidada por seu radicalismo. — Tudo bem, você tem o direito de não comer carne e eu, de não comer pão. — Virei para o lado e disse: — Dona Catarina, o meu faz sem o pão. — Não irá te sustentar para a atividade que faremos hoje. Você precisa comer um pouco de carboidrato e a proteína está nos legumes que estão na salada. — Eu não vou comer pão! — Você PRECISA comer! No meu caso, pão era o maior vilão da minha alimentação. Quando cheguei a pesar mais de 100kg, vivia a base desse alimento feito pelos deuses da alimentação maravilhosa e só descobri que poderia emagrecer se eu finalmente o abolisse da minha vida. Para o alcoólatra, álcool era sua perdição. Para manter meu peso, pão era meu vilão. Não conseguiria comer um e não saberia dizer se eu conseguiria mantê-lo longe novamente. — É um alimento saudável, a farinha utilizada é completamente sem glúten... — Eu não posso e não vou comer pão. — Dona Catarina colocou o grande pão italiano na minha frente e me senti salivar. — Eu vou resistir à tentação, não vou voltar a ser obesa como fui antes. — Um pedaço não fará com que engorde. Além do mais, você está com o corpo ideal e que muito admiro.

Olhei fundo em seus olhos, tentando mostrar não só meu desespero de cair na tentação, mas o quanto sofri para ter o corpo que tenho hoje. — Eu não consigo comer apenas um pedaço, Arthur. Eu amo pão, mas ele é meu vilão. — Sabe que não precisa ser, linda. — Minha respiração ficou descompassada, tanto pelo apelido que ele provavelmente me deu quanto por estar me pressionando sobre o assunto. — Vamos fazer outro desafio? Enquanto a antecipação do que iria falar permeava o ar, dona Catarina nos serviu, sua salada com pedaços de pão italiano e a minha não. — Não há necessidade de desafio quando tudo está na sua cabeça. Coma, pare e siga a vida. Nós não iremos fazer Kitesurf hoje se você não estiver bem alimentada. — Eu como pão, você come peixe — falei ignorando suas outras palavras. — Não. Peguei meu garfo, selecionei algumas folhas, legumes e coloquei na boca. Meu olhar era desafiador e o seu, desconsertado. — Estou excitado e tudo o que penso nesse momento é em jogar tudo de cima dessa mesa no chão e te provar. Engasguei ao engolir a comida e quando fui tomar um pouco do suco, que já havia derramado pela toalha, ele não desceu pelo buraco certo e engasguei ainda mais. Arthur levantou e veio para o meu lado, bateu nas minhas costas e me olhou desesperado. — Porra, mulher, se é isso que você quer, tudo bem. Foda-se minha dieta, você come o pão e eu vou comer o peixe. Não tinha como reagir de outra maneira, levantei e o abracei envolvendo meus braços em seu pescoço. O meu medo de cair na tentação era grande, mas minha satisfação em tê-lo na mesma vibração que a minha, de sair da zona de conforto, me deu forças para continuar. — Obrigada — falei baixo e beijei sua bochecha. Ele segurou minha bochecha e trouxe seus lábios até os meus, num beijo doce e carinhoso transformando minhas pernas em geleia. Foi breve, mas o suficiente para compartilharmos algo muito além do que apenas um toque íntimo.

— Eu ainda te quero em cima dessa mesa. — Preciso me alimentar para o Kitesurf e comer... — Voltei a me sentar, olhei para o pão e suspirei. Um dia esse momento chegaria, era apenas agora, apenas hoje, eu daria conta. Certo? Pela minha visão periférica vi Arthur sentar à mesa e começar a comer. Cortei um pedaço de pão e mesmo que minha boca estivesse salivando para devorar o pequeno pedaço, coloquei mais duas garfadas de salada na boca antes de sentir o sabor do pecado de farinha sem glúten. Maravilhoso. O gemido não passou despercebido pelo meu acompanhante e tenho certeza que ele ainda tinha sua promessa na ponta da língua para me deixar envergonhada e também pronta para cometer uma loucura. Seguimos comendo em silêncio, a cada mordida no pedaço de pão era uma conquista minha não querer devorá-lo inteiro. Trocávamos olhares intensos, algo aconteceria depois que terminássemos a refeição, mas seu celular tocou, ele se afastou de mim e não voltou até que fosse o momento certo para que começássemos o desafio. Eu iria aprender Kitesurf.

Capítulo 9 Paula Depois do almoço, sozinha com dona Catarina que não me deixou ajudar a lavar a louça, andei pela praia e encontrei não só o material para praticar Kitesurf, mas uma vista linda e uma praia maravilhosa. Em uma mesa sendo protegida por um guarda-sol gigante havia alguns petiscos de soja, água e protetor solar. Bem lembrado, me lambuzei com o creme branco e quando estava terminando a área do rosto, lá vinha Arthur, sem camiseta e com um short de tactel. — Protetor solar? — falei animada demais, imaginando minhas mãos pelo seu corpo, mas o que ganhei foi uma carícia leve no meu nariz e um sorriso divertido que estava me fazendo apaixonar a cada minuto. — Faltou espalhar mais por aqui e já estou com protetor. Vamos para a aula? E as próximas horas transcorreram com ele me instruindo e eu atenta a tudo. Kitesurf era um esporte que se praticava com uma prancha com suporte aos pés e uma pipa presa na cintura, era parecido com um paraquedas pequeno. Confessava que olhando os vídeos na internet e as pessoas ao vivo parecia tão fácil e prático, mas controlar o vento e velejar era quase uma missão impossível de se conseguir em apenas algumas horas. Arthur era paciente, didático e astuto. Quando eu não conseguia seguir um comando que ele explicava, ele fazia de forma diferente e ia variando até que eu finalmente acertasse. No final da tarde, eu estava velejando sozinha, mas morrendo de medo de ser levada para dentro do mar e cair. — Vamos parar por aqui hoje. Amanhã começamos cedo. — Ele me trouxe para a areia e começou a desafivelar a pipa da minha cintura. — Faz você? — Segurei suas mãos. — Fazer o quê? — Kitesurf. Gostaria de te ver... Ele me olhou por um bom tempo antes de continuar a me desequipar. Não respondeu, mas por algum motivo sabia que iria fazer e me ter como expectadora era algo novo para ele. Assim que fiquei livre, observei o quanto ele era ágil em se equipar e parecia que fazia isso a vida inteira.

— Você é diferente, muito diferente — ele falou terminando de prender a pipa na cintura. — Você também — rebati. — Não estou acostumado com essa atração e a voz no fundo da minha mente que diz que estou indo rápido demais, que você nunca me entenderá como deveria. Engoli em seco quando o vento nos atingiu e quase o levou para longe antes que pudesse tranquiliza-lo sobre o assunto. Ele estava atraído e gostando de mim, isso o deixava inseguro, sentimento que não deveria fazer parte do seu dia a dia organizado. Dessa vez fui eu a beijar seus lábios. O vento queria levá-lo para longe, mas sua força e necessidade de continuar me tocando o fazia controlar tudo a sua volta. Minhas mãos exploraram um pouco dos seus músculos abdominais e quando chegou no seu peito, coloquei minha mão no seu coração e dei um passo para trás, desfazendo nosso contato e nosso beijo. Ele estava nervoso tanto quanto eu. — Uma vez li em um livro que é melhor seguir o coração do que a razão, que provavelmente é essa voz na sua mente. Dessa vez ele não segurou quando o vento o puxou e como o rei dos mares, voou sobre as águas, fez acrobacias e me encantou além do que já estava. Quanto tempo nos conhecia, uma dia? Algumas horas? Sua sinceridade e a situação que compartilhávamos mudava a equação e aumentava o peso dessas horas compartilhadas. Ele me queria, eu também o queria, restava apenas saber até quando duraria e se essa paixão poderia evoluir para amor. Ray conseguiu Ben, Letícia, há muito custo, conseguiu Cadu. Era minha vez de provar que também conseguiria lidar com o assunto do coração tão bem quanto lidava com os assuntos da minha profissão. Como no almoço, quando tudo parecia tender a nossa entrega sem ressalvas, Arthur se afastou, interrompeu suas atividades sobre as águas do mar longe do ponto que eu estava e entrou para a casa, me deixando sozinha no entardecer. O melhor pôr do sol do mundo era quando seu reflexo estava no mar. Sentada no chão de areia, pensando se deveria pressionar de uma vez ou não aquele homem, ou deixar que fiquemos apenas nas preliminares e

paquera, senti o mar me chamar. Estranhei como o barulho das ondas e o cheiro da maresia me inebriava. Seguindo os comandos da natureza, com apenas a lua a me observar e algumas luzes espalhadas pela ilha e por onde estava, removi minha blusa térmica e dei um passo em direção a água. Não havia nenhuma loucura na minha mente, apenas uma necessidade de liberdade. O único momento que me mantinha nua era no banho ou entre quatro paredes com um companheiro. Porém, uma necessidade afrodisíaca me dominou e a cada passo que eu dava para a água, mais a necessidade de liberdade assolava o meu ser. Passei muitas horas trabalhando, deixei de gozar duas férias, eu precisava me libertar. Claro, todos os beijos, carícias e diretas que Arthur me proporcionou serviram apenas de combustível para minha necessidade de nadar nua no mar. Dessa vez não me preocupei se alguém iria ver, removi meu top, depois a calcinha e corri para o mar mergulhando na pequena quebra de onda, me transformando em uma sereia com pernas. Segui um pouco mais para o fundo sabendo o tanto que poderia seguir sem sofrer com a fúria do mar a noite e curti alguns minutos de paz e autoconhecimento. — Liberdade! — falei contente e deixei meu corpo flutuar um pouco antes que sentisse alguma coisa me segurando pela cintura e me trazendo de volta para a água. Que essa liberdade não me custasse tão caro!

Capítulo 10 Arthur Não adiantava nada, quando mais eu me afastava, mais queria estar com ela, prová-la, tomá-la! A voz contraditória na minha mente havia desaparecido quando a observei levantar de seu local na praia e remover suas roupas. Por um momento achei que ela queria cometer uma insanidade, mas depois percebi que recebeu o mesmo chamado que eu quando coloquei os pés nessa ilha. Liberdade. Poderia citar todos os motivos para não me relacionar com essa mulher. Sabia que no momento que provasse seus lábios ela me teria na palma da sua mão. Nunca me permiti estar com uma mulher que me atraísse, porque sabia exatamente o que acontecia quando um homem estava apaixonado e fazia de tudo para agradar a sua mulher. Isso nunca iria acontecer comigo e se eu seguisse passo a passo tudo o que planejei para a minha vida, não cairia em nenhuma armadilha. Mas então, meu irmão mais velho tentou contato com um convite de casamento. Não era obrigado a ir e não iria. Família significava ter sentimentos e sentir levava à fraqueza. Em seguida, uma mulher surgiu junto com meu irmão do meio para uma reunião na minha empresa. Havia pesquisado sobre ela, sabia tudo sobre seus gostos e hobbys e nada tinha me impressionado. Era apenas uma mulher como qualquer outra. Que grande mentira, ela escondeu das minhas pesquisas não só seu jeito desastrado, mas seu olhar confiante, sua voz acalentadora e suas palavras que davam significado a tudo. Meu Deus, essa mulher conseguiu me colocar de quatro! Relutar não adiantava mais, então, segui como sempre fazia, era sincero, não media palavras e muitas vezes, ofendia. Não deveria ter ficado surpreso quando ela não se intimidou, apenas continuou me desafiando mais e mais. Sabia que iria tomá-la para mim, só queria protelar o máximo que conseguia para ver se isso era apenas ilusão da minha mente ou uma sedução forçada de sua parte.

Quando a vi remover toda a roupa e mergulhar no mar, não pensei duas vezes em fazer a mesma coisa que ela. Saí do local onde estava escondido observando-a, removi meu short, a sunga que estava por baixo e a alcancei quando exibiu seu corpo perfeito para o luar. Sinto informar, lua, mas essa mulher será apenas minha! Conhecia esse mar com a palma da minha mão e com habilidade, trouxe seu corpo para ficar colado ao meu e seu olhar assustado me disse que acionei o pânico e a adrenalina em suas veias. Seria o melhor tempero para o que tinha em mente para ela. — Você me assustou, Arthur! — Envolveu seus braços a minha volta e suas pernas também. — Quero estar dentro de você. — Deixe que eu recupere um pouco do fôlego e vamos voltar para a casa. Eu também quero — assumiu um pouco envergonhada, mas não era isso que eu planejava. Essa água seria maculada por nós e as lembranças dessa noite seriam eternamente gravadas nessa areia. — Você é desportista e cuida da sua saúde como eu, certo? — Sim? — respondeu insegura. — Além de cuidar da minha saúde, faço exames periódicos por conta da falta de vitamina D no meu sangue. Inclusive, comprei essa ilha e pratico Kitesurf por causa disso. Minhas mãos percorreram suas costas e apertaram seus ombros por trás, fazendo com que seu corpo descesse um pouco e encontrasse meu membro. Esse era exatamente o local onde a queria. — Arthur... — Nunca transei sem camisinha, estou limpo e pela lógica você também deve estar. Só preciso da sua confirmação para que possamos foder nessas águas. Você toma algum método contraceptivo? — Sim para as duas perguntas. Ela respirou fundo, a dúvida sobre confiar ou não nas minhas palavras a fazendo recusar. — Você sabe que nada é 100% seguro —falou em tom mais firme. — Tanto quanto eu sei o que acontecerá se você não aprender Kitesurf em um dia e meio e nossa aposta nos fizer cada um seguir para longe do outro. Parecia que tinha acionado um botão em seu corpo, porque ela se encaixou em mim com suas pernas e tomou minha boca em um beijo que me fez

apenas ceder e ser guiado por suas vontades. Fui me movimentando aos poucos enquanto nosso tesão ia aumentando exponencialmente. Segui com ela em mim em direção a praia. Quando meus pés conseguiram se firmar em solo, fiz com que ela se encaixasse melhor para que eu seguisse em um vai e vem alucinante. Quando não senti mais a água nos meus pés, deitei-a com cuidado e soltei seu lábios para olhar no fundo dos seus olhos quando a fizesse gozar. — Quero te levar tão alta quanto essas estrelas. — Só faça — sussurrou, pegou minha mão e colocou em um dos seus seios. Apertei, me inclinei e suguei ao mesmo tempo que aumentei o ritmo das minhas estocadas. Se o som alto dos seus gemidos era algum indício de que tinha conseguido o que ela queria, minha boca em seu pescoço conseguiu fazer o restante do trabalho e juntos, encontramos nosso clímax. Urrei quando me movimentei pela última vez dentro dela e deixei meu corpo cair sobre o seu. Com suas mãos delicadas, ela afagou meus cabelos, minhas costas e chegou até minha bunda, apertando de forma carinhosa e arrancando um gemido, por fazer com que me movimentasse dentro dela. — Linda... — Obrigada por esse apelido, eu amei — ela falou e suspirou. — Será que dona Catarina viu algo? — Não importa quem viu, uma vez que você está comigo e foi mais que excepcional. Virei meu corpo e cai de costas na areia ficando ao seu lado. Sua mão buscou a minha e ficamos um bom tempo assim, compartilhando um momento que mudaria nossas vidas para sempre.

Capítulo 11 Paula Fui carregada no colo até uma ducha externa. Lavei não só o sal e areia do meu corpo, mas também qualquer vestígio de insegurança que queria me assolar. Observava Arthur fazer o mesmo que eu na ducha ao lado e... havia uma peça faltando, algo que estava na minha cara e eu não conseguia identificar. — Eu gosto quando você fica me encarando achando que conseguirá descobrir algo com isso — falou com seu jeito sério de sempre passando as mãos no cabelo. Seu porte atlético era excepcional, ele tinha todos os músculos que um rato de academia gostaria de ter. Impossível não ficar encarando. — Já que não posso descobrir olhando, que tal falando? — Saí de debaixo da ducha e tentei torcer meu cabelo curto, que teve as tranças desfeitas pela nossa peripécia. Nossa nudez não era um problema, pelo contrário, estava muito confortável estando assim com ele. — Por que se afastou dos seus irmãos? — Aconteceu de forma mútua. Cada um decidiu seguir um rumo empresarial e confesso que quanto mais afastado deles, mais eu me sentia melhor. — Melhor? Ele desligou as duchas, abriu um armário que nem sabia que estava por perto e tirou duas toalhas, uma delas ele me entregou. — Sempre estive em consultas médicas desde quando me lembro. Meus pais, por muito tempo, acreditaram que eu era excepcional, depois que era super dotado e então, que sofria de alguma síndrome ainda não descoberta. Meu coração se aqueceu por um momento enquanto escutava sua revelação. Sei que é de sua personalidade ser direto, falar a real, mas para mim, compartilhar um pouco da sua vida era como se ele quisesse algo a mais comigo. — E você tem algum diagnóstico conclusivo? — Quando criança, sim, mas adulto, eu só... — Ele enrolou a toalha na cintura e fiz o mesmo no meu corpo. Seu olhar foi para o céu e seu semblante mudou para algo sombrio. Sabia que estava perdendo alguma coisa no meio do caminho. Apesar da minha formação em psicologia, por estar sempre voltada para a área empresarial, não enxergava o que estava na minha cara.

— Você nasceu de uma gestação gemelar — falei e dei um passo para mais próximo dele que estendeu sua mão, segurou a minha e puxou meu corpo para colar com o seu. Claro que eu tinha que tropeçar nos meus próprios pés e quase nos fazer cair no chão. — Você está bem? — perguntou preocupado. — Se vamos estar juntos por um tempo, recomendo que se acostume com meus dois pés tortos e toda uma bagagem destrambelhada que me acompanha. — Endireitei meu corpo e suspirei. — Gostaria de entender o real motivo de querer me abrir para você, uma estranha com a qual tive relações sexuais sem preservativo. Sei que corremos um risco, sei das probabilidades de engravidar mesmo que você use algum método contraceptivo, mas... — Ele tocou meu rosto por um momento e depois soltou. — Eu só não me importo. Por mim, ficaríamos nessa ilha até que um de nós se cansasse, mas temos um desafio e cumpro com minhas promessas. — Eu gosto daqui. Por mais que havia o risco de não conseguir cumprir com esse desafio e ele não seguir comigo para o casamento da Ray, fiquei feliz pelas suas palavras. Apesar de tudo, ele era um homem de palavra e isso muito me agradava. Envolvi meus braços em seu pescoço e percebi um leve movimento de seus lábios para cima. Ele gostava da minha espontaneidade e eu amava o seu sorriso contido. Seus braços envolveram minha cintura e nossos quadris se conectaram tendo apenas as toalhas como barreira. — Você é tudo o que nunca pensei em admirar. — Vou levar isso como um elogio — falei divertida e beijei seu queixo. — Eu quero falar mais sobre mim, mas também quero continuar sentindo suas provocações. — Vamos para dentro? — Afastei-me um pouco. — Vamos conversar deitados numa cama? Confesso que estou exausta. Como das outras vezes, ele me carregou no colo e seguiu para a casa principal, toda de vidro e iluminada. Entramos sem cerimônia e seguimos para o quarto onde estavam minhas roupas. Será que esse também era o quarto dele?

Colocou-me na cama, deitou de lado ao meu lado e começou a falar: — Sempre me senti faltando um pedaço. Consegui identificar esse sentimento quando adolescente, depois de muitas vezes ser excluído ou sofrer com as chacotas que meus colegas faziam por eu ser inteligente. — Você gostava de estudar ou tinha facilidade para aprender? — As duas coisas. — Ele deitou de barriga para cima e apoiei meu corpo em um dos meus braços para observá-lo. Seu olhar era distante, seus pensamento com certeza estavam navegando em outras épocas. — Admiro muito o que você faz. Não só para a sociedade, na sua empresa como um empresário de sucesso. Você é lindo pelos seus músculos e beleza sem igual, mas também lindo pelo empenho em se manter sustentável dentro e fora da sua casa. Ele não me encarou, mas sei que sentiu o poder do meu elogio, porque sua respiração acelerou e tinha certeza que as batidas do seu coração também. — Não se falava do meu irmão dentro de casa. Eu era curioso, pegava as informações no ar, por isso sempre tive dentro de mim e pelos fatos que meu irmão gêmeo estava vivo. Eu precisava saber onde, quando e o motivo dele não conviver conosco. — Vocês eram univitelinos? — Sim, eu sentia nossa ligação interrompida, mas não encerrada. Enquanto era criança, aprendi a me blindar com os estudos e me mantendo afastado. Quando me tornei independente, eu só... tive medo de descobrir que tudo o que passei quando criança era apenas fruto da minha imaginação. Então, comprei uma ilha, continuei afastado e dedicado a empresa. Sobrevivi. Suas palavras eram tão duras e sofridas, não conseguia imaginar o tamanho da dor que ele carregava, mas poderia tentar compartilhar o fardo por algumas horas e quem sabe alguns dias. Meu lado conselheira e querer ajudar estava aflorado. Sabia que isso poderia dar brecha para que ele me magoasse, mas não pensei nisso quando tudo o que queria era colocá-lo no colo e dizer que tudo iria ficar bem.

Capítulo 12 Paula — Se serve de consolo, eu gosto de você como você é. — Fiquei com o rosto vermelho, ainda mais porque ele finalmente me encarou e eu, para me esconder, deitei ao seu lado e coloquei minha cabeça no seu peito. Estava comprovado, seu coração estava mais acelerando que o meu. Seu braço envolveu meu corpo e nos mantivemos assim por um tempo. — É irracional — ele pensou alto, porque sua afirmação não combinava com nada do que foi dito anteriormente. — Eu sempre fui gordinha e nunca me preocupei com meu peso ou aparência, porque meu foco sempre foi em trabalhar e ajudar as pessoas. — Comecei a dar um pedaço de mim para ele. — Até que tive problemas de saúde com minha pressão arterial, diabetes e as articulações do meu joelho. Nunca vou esquecer do que o médico me falou quando saiu o resultado dos meus exames: você se preocupa tanto em ajudar os outros que a única e mais importante pessoa que precisa de cuidado você deixou de lado. — Nosso corpo e mente precisam estar bem para que possamos não só ajudar os outros, como para trabalhar. Por que você gosta tanto de ajudar os outros e não a si mesma? — Eu me fiz a mesma pergunta e confesso que ainda não achei a resposta. — É claro que você sabe a resposta, só tem medo de assumir — falou na lata e senti como se fosse um tapa da cara. Infelizmente, tocar nesse assunto sempre me remetia a lembranças ruins. Idas ao médico, várias pessoas me dando sermões ou sentenças de morte... eu mudei, escolhi minha saúde acima de tudo, será que as pessoas não conseguiam deixar o passado para trás? Ou era eu que não conseguia aceitar meu fracasso comigo mesma? — Melhor dormirmos, amanhã teremos mais Kitesurf e você não se saiu tão bem hoje. — Ele se levantou da cama e caminhou em direção a porta. — Não vamos dormir juntos? — Esse não é meu quarto. Dormir na mesma cama que outra pessoa é um limite que não irei ultrapassar com ninguém, mesmo você que já está impregnada na minha mente e em tudo o que vou fazer. Recebi o segundo tapa verbal e isso me fez bufar, levantar da cama e

seguir para o banheiro sem mesmo me despedir dele. Sabia que esse era o seu jeito, mas haviam palavras diferentes e formas melhores de se dizer isso. — Idiota, arrogante, insensível... — comecei a resmungar, tirei a toalha e fui ligar a ducha, para lavar direito o meu corpo. Sei que tinha apenas dois dias com ele, que sentiria falta depois, mas no momento, queria socar a sua cabeça contra a parede. — Algo me diz que você se ofendeu com o que eu falei. Estava dentro do box quando ele falou da porta do banheiro me fazendo gritar de susto, virar muito rápido e escorregar. Minhas costas bateram no box e meu braço no registro da ducha, pelo menos não caí no chão. Ótimo, esse não era o momento para tanto desastre. — Precisa de ajuda? — Ele me olhou pelo vidro e lágrimas escorriam dos meus olhos, de frustração e também pela dor que senti da batida. Pelo jeito ficaria roxa, senão preta nessa região. — Vá embora... — murmurei. — Por que sinto que você se ofendeu, está chateada com algo que eu disse e não entendo qual parte foi errada? Ele poderia ser sincero, mas a sensibilidade para ler as pessoas era zero. Havia dito que gostava desse jeito dele, então, que agora aceitasse sua confusão. — Falar sobre os motivos que me levaram a ter uma vida saudável é um assunto delicado para mim. Você me dispensar para não dormirmos juntos também me chateou, por mais que você tenha todos esses argumentos. Nós transamos, trocamos confidências, nos tornamos íntimos... — Impossível nos tornamos íntimos apenas com algumas horas conversando. Eu sei muita coisa sobre você porque pesquisei, você também sabe sobre mim, mas... — Arthur, por favor, só me deixe. — Agora o choro veio com força e minhas palavras saíram trêmulas. Coloquei uma mão no vidro e suspirei numa tentativa de não desmanchar na frente dele. — Eu não quero sair daqui. — Eu preciso de um momento — supliquei e o vi dar um passo para trás. — Vá dormir, eu também irei, amanhã será um novo dia. — Linda... Ele não poderia facilitar minha vida, certo? Não iria implorar por algo que estava além do que ele poderia dar. Foi claro em dizer que eu era especial,

mas não aquela especial que esperava que fosse. Virei as costas para ele e não disse mais nada, apenas foquei no meu banho e em lavar minha alma. Estava uma bagunça emocional, queria tanto poder dizer que nosso encontro foi algo como mágica, amor à primeira vista, paixão a primeira foda... mas esse era o mundo real e eu só precisava parar de me iludir e pensar em mim, apenas em mim. Vim aqui para ajudar o noivo de Ray e seus irmãos. Não iria me sacrificar para algo que estava além de mim. Como Arthur mesmo disse e meu médico nunca cansou de repetir, precisava cuidar de mim antes de ajudar qualquer outra pessoa. Dormi, tive sonhos agitados, me mexi na cama e até removi o lençol do colchão de tanto que não parei um segundo. Aproveitando o momento natureza, dormi nua e acordei com o sol iluminando apenas uma fresta do quarto. Alguém havia abaixado as cortinas e lembrava muito bem que antes de dormir, admirei a natureza e todos os seus encantos, ou seja, Arthur passou por aqui. Coloquei o vestido floral sem nada por baixo. Iria buscar minha roupa na areia e começaria mais um dia de aprendizagem com o professor gostoso, musculoso e nem um pouco sensível. Isso estava saindo muito mais diferente do que eu imaginava.

Capítulo 13 Paula Antes de sair do meu quarto, peguei o celular e digitei alguma coisa para enviar às meninas. A madrugada tinha sido agitada pelo grupo também, Letícia mandou mensagem, falou que estava oficialmente namorando e que seus pais haviam conhecido o genro. Ela também estava torcendo para que eu conseguisse trazer Arthur para a festa, porque sua amiga misteriosa, que ajudou com seu sequestro e outros assuntos, dizia que descobriu o paradeiro do irmão gêmeo de Arthur, ou seja, Antonio estava vivo e eles precisavam se encontrar. Engoli em seco e respirei fundo, porque não seria eu a portadora dessa notícia. Ele iria para ver os irmãos e quando encontrasse o quarto elemento, decidiria o que fazer. Era apenas a pessoa que o levaria até a sentença final. Desci as escadas e passei primeiro na cozinha, o cheiro de café serviu de bálsamo para minha noite sofrida e para as notícias que viriam. — Bom dia menina Paula. Gosta de tapioca? — Claro! — falei sorridente ao saber que não teria nenhum pão para me torturar. Servi um prato e sentei à mesa de madeira posta com outros alimentos para o café da manhã. Olhei o pão servido e não me senti tão intimidada como ontem. Para falar a verdade, aproveitei muito do seu sabor, mas não fiquei como imaginei, que seria psicopata em devorar todo o pão do mundo. — Eu venci, rapazinho! — falei baixinho e vitoriosa para o pão. Quando levantei minha cabeça, Arthur me observava cauteloso da porta da cozinha. — Tapioca? — Levantei o alimento e ofereci, depois mordi e saboreei a iguaria vegana. Cumprimentou Catarina, caminhou até o outro lado da mesa, a minha frente e sentou. Continuou me observando, não disse nada e comecei a achar engraçado. Será que ele percebeu que não tinha nada por baixo do meu vestido? — Você está sorrindo. — E comendo — falei divertida, Arthur sincero e direto estava à postos.

— Ontem você me expulsou do seu quarto e estava chateada. Catarina tossiu lá do fundo e segurei o riso alto. — Também falei que amanhã, no caso hoje, seria um novo dia e olha como estava certa. — Mordi mais um pedaço de tapioca e peguei a jarra de suco de laranja. — Eu sirvo. — Ele tomou da minha mão. Revirei os olhos, mas não me importei. — Medo que eu derrube mais suco na sua toalha? — Sim. Aceita café? — perguntou pegando a jarra com o néctar preto e cheiroso. — Por favor — respondi erguendo minha xícara em sua direção. Tomei um pouco do café e inspirei seu cheiro sentindo que tudo parecia no seu devido lugar. — Por que você não está mais chateada? — Por que eu deveria continuar chateada? — Tomei mais café, porque a discussão seria divertida. Raciocínio lógico versus a cabeça de uma mulher. — Falar que ficou doente porque não se cuidou como deveria a abala. Esse fato ainda não mudou, ou seja, você não deveria... — Exatamente porque esse fato não mudou e nunca mudará que quem precisa se mexer sou eu. — Terminei de comer meu café da manhã, tomei um pouco de suco e me levantei. — Vou buscar minha roupa que ficou na paria. — Está na lavanderia, menina Paula — Catarina falou e sorriu constrangida. Ela sabia o que fizemos e voltei a me sentar para recuperar a cor no rosto. Arthur não havia comido nada, estava me observando e analisando o que não havia lógica: o comportamento humano. — Ontem queria bater sua cabeça na parede, hoje quero sentar no seu colo e te dar bom dia como anseio. — Como assim? — Ontem você se abriu, eu me abri, esperei uma coisa e recebi outra. Isso se chama frustração. Levantei, dei a volta na mesa e fiquei ao seu lado. Percebi que Catarina tinha saído da cozinha, então virei seu corpo, sentei escarranchada no seu colo e envolvi meus braços no seu pescoço. Ele engoliu em seco, eu sorri. — Da mesma forma que sou destrambelhada e você me aceita, eu preciso te aceitar com sua lógica e jeito insensível... pelo menos enquanto

estivermos juntos. Ele colocou as mãos nas minhas costas, desceu até minha bunda e então, colocou a mão por debaixo do vestido. — Você está... — Seu olhar era chocado. Movimentei meu corpo, beijei seus lábios e encontrei a paz que procurava e nem sabia. Ele ainda tinha gosto de menta, da pasta de dente e me senti ousada ao aprofundar o beijo e ele corresponder com suas mãos me tocando de forma tão íntima. Muita gente reclamava que eu era passiva demais, compreendia e aceitava ser pisada ou rechaçada. Na verdade, respeitava a individualidade de cada um, mesmo que demorasse um pouco, ou uma noite, como foi o caso. Como trabalho de Coach, o ponto principal para o meu sucesso era justamente esse, respeitar as diferenças e identificar o potencial de cada um e alocá-lo onde melhor pudesse render frutos. Ninguém era ruim ou incompetente, eles estão apenas em locais onde não podem aproveitar seu potencial. E Arthur tinha um ótimo potencial, não só como homem e empresário, mas como amigo e amante. Bem... ele só não serviria para dar conselhos ou acalmar uma mulher a beira de um surto. Ele era insensível? Talvez... ou talvez era apenas eu que não havia encontrado o caminho certo para o seu coração. — Bom dia Arthur — falei quando interrompi o beijo e admirei seus olhos em tons verdes e azuis. — Preciso estar dentro de você! — Ele levantou comigo no colo e eu saí de seu agarre com um sorriso travesso. — Você precisa se alimentar direito senão não terá forças para me ensinar Kitesurf. — Apontei para mesa e seu olhar derrotado era uma vitória pessoal para mim. — Eu vou descansar e te espero na praia. O melhor e pior momento da nossa vida era quando tínhamos o melhor argumento do mundo... e quando ele era jogado na nossa cara depois.

Capítulo 14 Paula Ainda com olhar desconfiado, Arthur me ensinou com paciência e tranquilidade. Ele não tocou no assunto novamente sobre minha mudança de humor e nem eu, porque meu foco era aprender e fazê-lo com que fosse nesse casamento e encontrasse a parte que lhe faltava. Será que conseguiriam encontrar o gêmeo a tempo? Por causa dos meus pensamentos longe e a falta de foco, por mais que estava me empenhando, não houve progresso e o horário do almoço chegou. — O sol está muito forte hoje, vamos começar mais tarde no período vespertino — Arthur falou removendo os equipamentos do meu corpo. — Você não conseguirá muita coisa se continuar com a evolução que está. Você velejou muito pouco sozinha e ainda precisará fazer duas acrobacias. — Eu estava em cima da prancha, sei exatamente como está meu desempenho, espertão — falei com ironia. — Não era minha intenção te ofender. Estou apontando o óbvio. Revirei meus olhos quando me livrei do equipamento, me afastei e não olhei para trás. — Se sabe que não está se saindo bem, por que está sendo irônica? — ele perguntou me seguindo. — É exatamente porque não estou me saindo bem que estou sendo irônica. Isso também quer dizer que estou chateada! — Mas é apenas um desafio que beneficiaria meus irmãos e não você. Parei e virei para encarar Arthur. — Esse desafio beneficiaria mais pessoas do que você imagina. A responsabilidade de te levar para o casamento de Benjamin não é apenas para união familiar. Minha amiga descobriu coisas sobre o passado dos seus pais que te ajudariam a entender muita coisa do seu futuro. — As consequências das escolhas dos meus pais causaram a desunião dessa família que não é sua e não entendo o porquê se preocupa tanto. — Ray vai se casar com Ben e Letícia está namorando Carlos Eduardo. Elas são minhas amigas e isso significa que eles também são meus amigos e farei o que estiver ao meu alcance para ajudar nessa situação. — Eu não entendo essa lealdade por quem você acabou de conhecer e

que não está diretamente relacionado a você! Segurei seu rosto, beijei seus lábios com fúria e me afastei. — Eu também não entendo essa atração que sinto por você, mesmo falando coisas ilógicas para mim, sendo que para você é óbvio. — Nossos pensamentos são muito diferentes. — E nem por isso serviu de barreira para não nos entregarmos sem proteção naquele mar. — Apontei para a água. — Eu vou me empenhar mais, quero aprender o Kitesurf não só por eles, mas porque é uma modalidade que me atrai muito. Mas, se eu não conseguir, queria que você fosse mesmo assim comigo. — Não. Meu coração se apertou, seu jeito racional de pensar iria massacrar meus sentimentos e dos seus irmãos. Sempre sério, beirando ao indiferente, ele me encara enquanto controlo minha respiração que começou a ficar descompassada. — Vamos almoçar, preciso comer um pouco de pão para passar minha frustração por pensar apenas com o coração e você apenas com a razão. Virei as costas e saí em direção a casa. No meio do caminho olhei por cima do meu ombro e não vi Arthur me seguindo. Cheguei na casa e dona Catarina me entregou uma toalha. — Quer comer agora ou vai descansar primeiro? Vi que vocês não pararam um minuto. — Será que poderia levar meu prato até o quarto? — Faço uma careta e ela sorri com simpatia. — Arthur some e eu sempre fico à espera... dessa vez não. — Ele parece complicado quando você presta atenção nas suas palavras, menina Paula. Se eu puder dar um conselho... — Você conhece o manual do Arthur. Diga, sou toda ouvidos! — Segurei suas mãos em desespero e nós duas rimos. — Não entenda, não leia nas entrelinhas, apenas sinta o seu coração. — Ela colocou minha mão no meu peito e senti minhas batidas. — Sinta o coração dele, é o único que fala a verdade. Muito filosófico para minha pouca paciência no momento, mas acenei afirmativo. — Obrigada. Vou me servir... — Eu levo. Pode subir, tomar um banho e descansar. Quando você

sentir fome, a comida estará te esperando. Beijei sua bochecha e subi as escadas com pressa. Não fechei a porta do quarto nem do banheiro quando me despi e entrei debaixo do jato de água morna. Quando chegasse em casa procuraria uma ducha igual a essa. Além de ter um jato forte, era grande e não deixava nenhuma parte do corpo sem água. Meu cabelo começou a dar sinais de ressecamento e me tranquilizei por saber que tudo isso duraria até amanhã apenas. Merda, apenas até amanhã e eu nem conseguia ficar em cima da prancha para velejar. Bati minha mão na testa e encerrei o banho, porque precisava de tempo para meditar e alinhar toda a confusão mental que estava. Primeiro, foco no Kitesurf. Segundo, aproveitar o momento com Arthur. Ele poderia ser um bom amante, mas tinha certeza que depois daquele discurso de dormir junto ser um limite muito alto, relacionamento poderia ser descartado. Ou seja, estava vivendo apenas uma aventura com data de encerramento se não concluir com sucesso o primeiro passo. Terceiro... minhas amigas e seus homens. Depois pensaria neles e em como lidaria com a vitória... ou o fracasso iminente. Com uma toalha na cabeça e outra envolta no meu corpo, fui para o quarto e dessa vez não me assustei quando vi Arthur e uma bandeja com meu almoço em cima da cama. — Você precisa comer. — E você precisa — passei a mão na boca em sinal de parar de falar. Ninguém iria perturbar minha paz nesse momento. Precisava de silêncio e não uma distração com músculos aparentes e apenas uma sunga cobrindo o que já tinha experimentado e apreciado.

Capítulo 15 Paula Tentei não rir quando franziu a testa em confusão. Ele não mostrou interesse em sair da posição meio sentada e meio deitada, então, aproximei da comida, sentei na cama e coloquei a bandeja no meu colo. Olhei para ele, que não disse nada, mas me encarava como se fosse uma joia rara. Queria brincar, conversar, saber mais sobre tudo o que se passava na sua mente, mas segui o conselho de dona Catarina e escutei o coração. Depois de duas garfadas na salada e uma mordida nesse pão dos deuses, coloquei minha mão no seu peito e senti não só os músculos definidos, mas seu coração acelerado. Se era nervoso ou surpresa pela minha ação, preferi escolher a opção em que eu era beneficiada. Voltei minha mão para a bandeja, parti o pão e coloquei um pedaço na sua boca, que abriu e me sorriu de forma tímida como da outra vez. Mordi a língua quando uma vontade imensa de dizer o quanto ele era lindo assim me assolou. O silêncio era bom entre nós, porque não havia lógica nem emoção, éramos apenas nós seguindo nossos instintos. Ao mesmo tempo que me servia da salada, também o alimentava. Dividi minha refeição e quando tudo terminou, tomei um gole do suco de laranja e ofereci sem palavras, que o tomou e agradeceu com os olhos. Alguns poderiam pensar que esse foi o almoço mais sem graça do mundo, mas para mim e o meu corpo, esse foi o mais sensual e excitante. Estava apenas de toalha e quando coloquei a bandeja no chão, removi o pano felpudo que cobria minha cabeça e deitei da cama virada para ele. Ele fez o mesmo, seu sorriso nunca saiu do seu rosto e seus olhos tinham um carinho que me cativou. Tentei demonstrar que foi bom para mim também, que o que fizemos foi bom, muito bom. Ele tocou meu rosto e sua mão desceu pelo meu pescoço e seguiu para os seios. Desfez a amarra da toalha e me expôs para ser admirada. Abri a boca para dizer algo, mas ele foi veloz em colocar um dedo e me calar. Manter o foco? Sim, estava longe disso, quem estava no controle era ele e tinha muita intenção de me entregar a seu bel prazer. Ele tirou sua sunga ainda deitado e uniu nossos corpos ao mesmo

tempo que sua boca encontrou a minha. O doce da laranja ainda estava vivo em nossos lábios e a pressa que não tínhamos enquanto compartilhamos a refeição se fez presente nesse momento. O beijo foi lento, sensual e dizia com todas as letras da luxúria que ele me queria pela tarde inteira, rendida e entregue. Também queria sua entrega, precisava mais de sua parte e com minha mão, segurei seu membro e movimentei para que ele endurecesse mais ainda em minha mão. Ele gemeu, seu quadril se movimentou e o desespero começou a tomar conta. Ergui uma perna e enlacei seu quadril dando passagem para que eu fosse preenchida por todo o poder que Arthur tinha. Nós dois arfamos quando ele fez a primeira investida e de forma lenta, se manteve me beijando e entrando e saindo de mim. Não demorou muito para que acompanhasse seus movimentos e encontrasse meu clímax. Logo em seguida ele fez o mesmo, liberou meus lábios e me manteve cativa em seus braços. Apesar de saber que precisava ir no banheiro me limpar, a combinação do treino hoje de manhã, almoço e sexo me fez bocejar e fechar os olhos. — Essa ilha nunca mais será a mesma sem você. Essa foi a última coisa que escutei antes de me render ao cansaço e dormir. *** Quando abri meus olhos e senti um corpo atrás de mim, quente e gostoso, confessaria que não me assustei. Essa situação parecia tão certa, a minha mente pareceu processar tão bem que nem minha respiração mudou de ritmo. Olhei para baixo e vi suas grandes mãos espalmarem minha barriga. Ele realmente me abraçou e parecia estar dormindo tanto quanto eu. Ah, se ele ultrapassou esse limite comigo, então, deveria significar alguma coisa, certo? Será que ele conseguiria ver que poderíamos ser algo além do que um desafio. Mesmo sabendo que poderia quebrar toda essa névoa gostosa que estávamos, virei meu rosto e então, um pouco do meu corpo para encarar um Arthur dormindo, seu sono era pesado. Sua respiração suave e seus braços pareciam chumbo em cima do meu corpo. Lembrei de suas palavras, que sentia falta de algo, incompleto e tudo o que via em seu semblante calmo e sonolento era a perfeição. — Você é perfeito e completo, mesmo com um buraco na sua história familiar — sussurrei e saí com cuidado do seu abraço. Percebi que estava limpa

entre as pernas e sorri para o homem que pensava nos outros tanto quanto eu. Peguei meu celular, sentei na poltrona e conferi o horário. Droga, lá se foram algumas horas de treino de Kitesurf, havíamos dormido demais. Pensei em acordá-lo, mas quando conferi que havia uma mensagem particular de Letícia para mim, decidi por saber o que queria antes de qualquer coisa. Letícia>> Paula, como estão as coisas por aí? Parecia que eu estava vendo que você e Arthur teriam algo, mas não achava que seria tão imediato. Ele está bem? Vai voltar com você para o casamento? Letícia>> Tudo bem, olha quem fala sobre amor instantâneo... Letícia>> Sei que você deve estar focada aí, mas preciso que saiba sobre algumas coisas. Capela, aquela minha amiga misteriosa, está monitorando os passos do Alberto, que era amante da mãe dos rapazes. Ele disse que os gêmeos podem ser filhos dele, mas minha intuição acredita que isso foi uma inverdade plantada na família para causar discórdia. Você sabe o quanto esses vilões tem o ego lá na estratosfera e acha que tudo gira em torno do seu umbigo, certo? Enfim, sendo filho ou não, precisamos de uma amostra de DNA para que minha amiga confirme essa informação. Letícia>> Cadê você, Paula? Mulher, dê sinal de vida, estou longe das meninas, mas a Ray está quase surtando porque o casamento está bem aí e não estamos ao seu lado. Diga que você trará o irmão rebelde, que entrará com ele ao seu lado como padrinho... acho que só assim você acalmará a noiva, porque minha vontade é de dar um sossega leão na nossa amiga a lá Letícia. Antes de responder olhei para um Arthur relaxado e dormindo na minha cama. Cada um tinha sua cruz e suas crenças, não o forçaria vir comigo se ele colocou o desafio como moeda de troca. Tudo bem, queria que ele largasse tudo e fosse por mim. Sim, estava sendo muito egoísta e bem apaixonada, mas que se danasse os julgamentos, também merecia ser feliz e ter um homem que me colocava acima de tudo, inclusive do seu orgulho. Paula>> Lê, confesso que as coisas não estão saindo como o planejado. Kitesurf é mais difícil do que pensava e Arthur é um ótimo instrutor, além de ser um amante excepcional. Sim, nos entregamos ao desejo, por vezes ele parece falar mais alto do que minha missão, mas... ele enxerga tudo de forma racional e segue suas palavras de forma literal, ou seja, Arthur só irá me acompanhar se eu velejar em cima daquela prancha e

ainda fazer duas manobras. Letícia>> Que bom que você leu e retornou. Mas... Oh-ou... você está gostando de verdade dele? Paula>> O suficiente para que não queira me esforçar mais e que ele me acompanhe porque me quer e não por causa de uma aposta. Letícia>> Uma parte de mim diz para você seguir seu coração e fazer o que você quer. Outra parte de mim, aquela apaixonada pelo teimoso e desconfiado do Cadu, que você se esforce, porque haverão outras oportunidades para se estar com ele. Família é sempre mais importante. Porcaria... ela não poderia ser a geniosa de sempre e me instruir a mandar todos para as montanhas? Arthur começou a se espreguiçar e digitei uma mensagem final rápida para a minha amiga. Paula>> Não prometo nada no final, apenas minha presença no casamento. Sei o caminho, qualquer coisa os irmãos aparecem aqui na ilha do Arthur e conversam, sei lá. Há solução para meu fracasso em não aprender Kitesurf, o importante é isso. — Que horas são? Larguei o celular e ainda nus, me aproximei da cama pelos seus pés e engatinhei até o seu quadril. — Hora de nos conhecermos melhor... Segurei seu membro que começou a despertar para vida e sorri para seus olhos desejosos. Sim, Arthur, dessa vez eu estava dando total liberdade para que pensasse apenas em mim e nos poucos momentos que nos restavam juntos nessa ilha.

Capítulo 16 Paula — Estou conseguindo! Arthur, eu estou velejando! — gritei sem conseguir me conter quando o vento bateu na pipa de forma estratégica e com o conhecimento que adquiri de ontem para hoje, consegui me manter firme e praticamente caminhei sobre as águas. Só poderia ser uma intervenção divina, eu poderia vencer esse desafio e então, Arthur viria comigo para o casamento e quem sabe, conseguiríamos engatar um relacionamento... Ah, como sonhava! Ainda mais olhando essa imensidão de azul, da posição que estava, era tudo o que mais almejava. Como não escutei nada vindo do meu instrutor, arrisquei virar a cabeça e olhar em direção a praia. Quando ganhei impulso e parecia bem equilibrada, não senti mais as suas mãos de apoio e estava por conta própria. Fui surpreendida quando vi outra pipa no ar e Arthur se equipar para me acompanhar. Já estava perto do final de tarde, essa vitória só veio depois de um bom momento relaxante com muita troca de fluídos e a liberdade que essa natureza trazia. Perdemos metade do nosso horário de treino, mas não me importei, porque no final ganhei mais um pedaço de Arthur que ele nem imaginava que me deu. Ele gostava de me carregar, depois do sexo me levou até o banheiro em seus braços. Em uma análise fria, parecia que tinha necessidade de mostrar que poderia cuidar de mim, ou era apenas ele sendo carinhoso. Independentemente da resposta verdadeira, estar com ele foi muito mais do que especial. Enquanto me equilibrava insegura, mas muito feliz, vi Arthur se aproximar com seus próprios equipamentos. Ele parecia um super-herói, confiante e astuto com suas acrobacias e sorriso fácil. Sim, mais uma vez fui agraciada com seus lábios curvados para cima e semblante de paz. Era nas águas e na natureza que ele se encontrava. Fiquei tão focada nele que esqueci de mim, desequilibrei e caí na água. Meus pés ficaram para cima e não consegui recobrar a posição anterior para acompanhar o homem por quem me apaixonei. Sim, estava apaixonada. Essa aventura começou sem nenhuma intenção de sonhar e agora, no final, era o que mais fazia.

Ele se aproximou de mim e conseguiu controlar sua pipa para não se enroscar com a minha. — Vamos voltar para a praia e começar do início. Você conseguiu velejar, foi muito bem, mas precisa se manter firme para fazer as manobras. Se não foi o mar que me jogou um balde se água fria quando caí, Arthur o fez. Sim, era um pequeno passo para mim, havia muito para fazer e o tempo não estava a nosso favor. Conseguimos chegar a praia e tirei os equipamentos por mim mesma. — Por que está fazendo isso? — Estou cansada, preciso de um tempo. — Livrei-me de tudo e me joguei de costas na areia respirando de forma ofegante. — Temos apenas meia hora até o sol finalmente se por e a noite não é possível fazer o trabalho de instrução com segurança. Olhei para ele e o vi esboçando um sentimento pela primeira vez. Estava angustiado, ansioso e precisei de apenas alguns segundos para entender o real motivo. — Você quer que eu consiga concluir esse desafio. — Sim, eu preciso ir com você. Levantei apressada e me joguei em seus braços. Ele ainda estava com os equipamentos, então, fomos os dois para a água rasa. — Você sabe que não precisa disso para me acompanhar, Arthur. Eu também gosto de você, quero e se não for exagero demais da minha parte, preciso de você ao meu lado. Ele nos sentou e depois, me afastou, confuso. — Precisamos seguir com nossas palavras. Não podemos burlar o que foi acordado no início. Mordi meu lábio inferior numa tentativa de controlar minha língua. Nessa hora, tudo o que mais desejava era que ele fosse normal e seguisse seu coração. O coração. Coloquei minha mão no seu peito nu e percebi que o bronzeado em sua pele tinha aumentado. Arthur estava da cor do pecado e nada mais me faria feliz do que tê-lo junto de mim fora dessa ilha. Morava sozinha há muito tempo, passava natais e passagens do ano da mesma forma, por minha própria escolha. Na verdade, escolhi trabalhar, ser independente e não seguir o que minha mãe sonhou para suas duas filhas:

casamento, filhos e ser dona de casa. Minha irmã mais velha se adaptou, mas não eu. Agora entendia muito bem o que era a necessidade de estar junto com outra pessoa e esquecer do mundo. Amava meu trabalho, mas se fosse para ficar com Arthur nessa ilha, eu largaria tudo, com certeza. Mas esse não era um conto de fadas, aqui não existia felizes para sempre sem pensar que depois de alguns dias ou semanas, me arrependeria de trocar minhas ambições pelas deles... ou pelas nossas. — Por que você está tocando constantemente meu coração? — Porque só assim consigo realmente te sentir. — Sorri de forma triste, as batidas me indicavam que nada mudaria se eu não concluísse esse desafio. — Hoje eu não tenho mais condições de nada. Preciso de um banho, de comida e cama. Não sei se foi o tom da minha voz ou apenas porque me afastei, mas ele se livrou do equipamento o mais breve possível e me levou em seu colo até a casa principal. Deitei minha cabeça em seu ombro e inspirei seu cheiro único misturado ao cheiro de mar. Ele sempre me lembraria conforto e liberdade. — Tome um banho e desça para fazermos uma refeição diferente. Tudo bem? — Ele me colocou no chão do banheiro do meu quarto e assustei por nem ter percebido que havíamos ido tão longe. — Bife? — perguntei divertida e comecei a remover minha roupa. — O tipo de bife que um vegano comeria — respondeu e me deixou sozinha com o sal e a areia do corpo. Mesmo preferindo cama, a exaustão corporal e mental querendo me dominar, me preparei para o que me guardava, porque tinha certeza que seria surpreendida por Arthur Valentini mais uma vez.

Capítulo 17 Paula Dessa vez precisei passar duas demãos de shampoo e condicionador nos meus cabelos. Uma hidratação seria necessária para o casamento da Ray, senão iria parecer um espantalho. No espelho consegui admirar meu rosto levemente bronzeado e pernas. Como nunca deixei de vestir a blusa térmica, não tinha nenhuma marca de biquíni. Bem, amanhã mudaria isso. Coloquei um dos vestidos soltos que havia ali, me limitei a por apenas uma calcinha e agradeci os seios não tão grandes, que me permitiam a ousadia de usar roupa sem sutiã. Bocejando, saí do quarto e desci as escadas. Não havia nada na cozinha, nem na sala, mas algumas luzes e chamas me chamaram atenção do lado de fora da casa. O sol já tinha se posto e a atmosfera estava mais fresca. Descalça, saí da casa e caminhei alguns passos até uma mesa posta para duas pessoas, velas e uma churrasqueira portátil mais ao lado. Arthur vestia uma camiseta branca, short de tactel e nada nos pés como eu. — Churrasco? — perguntei me aproximando dele, que mexia em algumas coisas na grelha da churrasqueira. Envolvi meus braços em sua cintura e quando ergui minha cabeça, foram seus lábios que me cumprimentaram. — O mais saudável e saboroso. — Olhei para a churrasqueira e vi legumes assando e rodelas que pareciam carne, mas não poderia ser. — Carne de soja? — Sim. Vá se sentar, está quase pronto. Inspirei seu cheiro, fazendo com que se arrepiasse e fui me sentar. Ele não era imune a mim, mesmo com todo esse jeitão curto e grosso. — Demorei tanto assim no banho? — Uma hora mais ou menos. Foi o suficiente para que conseguisse adiantar tudo e ainda tomar banho. — Ele apareceu com uma bandeja e colocou no meio da mesa. Havia molhos em volta e vinho nas taças. Esperei que ele se sentasse e o encarei de forma saudosa. Precisava gravar todos os seus traços e momentos na memória, uma vez que essa poderia ser nossa última interação. — Você me olha como se fosse a última vez, linda. — E talvez seja. Apostei alto demais. — Peguei a taça de vinho e ergui. Ele fez o mesmo e tocou na minha. — Obrigada pelos momentos

inesquecíveis. — Mesmo sabendo que amanhã é quase impossível que consiga uma manobra, já que se equilibrou na prancha apenas hoje, te respeito e estou orgulhoso do seu empenho. O seu jeito desastrado de lidar com as coisas ao redor não te afetou em aprender Kitesurf. Sorri sem me ofender, recebi essa declaração como sendo apenas o jeito dele de me fazer um elogio. — Você também me surpreendeu. Tomei um gole e comecei a me servir do alimento que preparou. Realmente era muito saboroso, a combinação dos molhos me fez gemer algumas vezes e sorrir para seu olhar de luxúria. Estava mais do que saciada para o dia, qualquer coisa que me sugerissem fazer que não estivesse envolvido meus olhos fechados e uma cama bem macia, eu recusaria. Bocejei três vezes antes do meu cavalheiro praiano me pegar no colo e carregar para dentro de casa. Envolvi meus braços em seu pescoço e beijei seu ombro antes de suspirar. — Parece que nada de mal acontecerá enquanto você me carrega. — Nada de ruim acontecerá, mesmo que você não esteja comigo. Ele beijou minha testa e fechei os olhos, me deleitando com o cansaço e me embriagando com seu cheiro. Meus sonhos seriam maravilhosos com um homem muito musculoso e que andava sobre as águas do mar. Ele me depositou na cama e apenas virei de lado para me aconchegar melhor. Não reparei que ele se despiu e me abraçou por trás, muito menos que não estávamos no nosso quarto. Era um momento surreal para ele e só percebi quando acordei no outro dia. Como sempre, despertei primeiro e saí do abraço de Arthur sem que percebesse. Olhei em volta e encontrei mais vidro do que no meu quarto. Aqui não havia descido as cortinas e poderia admirar a beleza da ilha por um outro ângulo. Estava no quarto principal, com certeza. O tamanho e a cama com dossel era um indicativo de que Arthur me levou para sua cama, ou seja, eu ultrapassei o limite que ele mesmo impôs para nós. Céus, precisava que ele viesse comigo. Na sua mente, apenas um motivo racional faria com que quebrasse sua promessa nesse desafio e... só dependia de mim, precisava me esforçar. Corri para fora do quarto, encontrei o meu e fui até o banheiro. Nele

estava todas as minhas roupas para a água penduradas no box. Vesti o biquíni depois de fazer uma higiene pessoal e conferir que era antes das sete horas da manhã. Teria muito tempo treinar, precisava disso. Não comi, nem acordei Arthur, minha intenção era surfar e fazer duas manobras. Com dois quilos de protetor solar no corpo, já que estava sem a blusa térmica, fui até o local onde estava os equipamentos para Kitesurf e eu mesma comecei os trabalhos. Alguns poderiam me chamar de louca, se eu contasse metade do que estava fazendo iriam querer me internar ou me chamariam de trouxa. O homem tinha que me valorizar, correr atrás de mim, mas era claro que seu mundo interno não se assemelhava com o da maioria e o segredo para que pudesse entrar no seu coração, como ele fez no meu, era seguir pelas suas regras. Aprendi com o meu emprego e com o dia a dia que não cabia a nós julgar as pessoas, mas respeitar suas individualidades e aceitá-las se não interferissem na nossa própria felicidade. Pela minha pressa e nervosismo, demorei um pouco para me firmar em cima da prancha e velejar. A parte das manobras não foi explicada por Arthur, então, foquei em me manter bem equilibrada para aprender essa lição hoje. Demorou um tempo até que Arthur aparecesse na praia e me encarasse com os braços na cintura. Como sempre, sem camisa e um short de tactel, parecia um deus praiano ou apenas... meu Arthur. — Por que não me acordou? — Por que dormiu comigo? — Fiz força para que conseguisse me aproximar da praia. Ele logo invadiu a água e me ajudou a descer da prancha. Bem, teríamos uma conversa que mudaria muito nossas vidas... pelo menos a minha.

Capítulo 18 Paula — Você precisava de proteção — ele falou quando olhou nos meus olhos e segurou minha cintura para que a pipa não me levasse embora. — Dormir junto é um limite muito alto para ser ultrapassado. Não foi isso que você disse? — Não consegui te deixar sozinha e... — relutou para não continuar, o cenho franzido era indicação que estava em confusão, por isso coloquei a mão no seu coração e suspirei. — Consigo dormir bem com você ao meu lado. Sofro de insônia, é ilógico você ter curado um problema que venho há anos tentando resolver. Por isso precisava, mais uma vez, dormir com você. — E constatou que sou igual Bromazepam . — Levantei uma sobrancelha e segurei seu rosto com minhas mãos. — Você gosta de mim, Arthur? — Você me atrai, me confunde e me faz questionar algumas decisões na minha vida. — Gosto de você, estou apaixonada e gostaria muito que você viesse comigo no casamento do seu irmão. Por mim. — Você precisa cumprir o desafio — falou com dificuldade. — Cumpro com minha palavra, sempre! — Posso tentar, darei o meu melhor, Arthur, mas se o horário do almoço chegar e eu não conseguir concluir o que você espera de mim... — Lambi meus lábios e ele olhou para ele. — Quero você comigo. — Linda... Beijei-o de forma suave, esse seria meu último beijo, o adeus que não tinha intenção de dar. Ele envolveu seus braços no meu corpo, tentou aprofundar e abrir meus lábios com os seus, mas interrompi e me afastei. — Tenho muito o que aprender. Duas manobras até o almoço. E por mais que meu coração gritasse e lutasse para que ele aceitasse meu sentimento, pedi que minha cabeça tomasse conta e com uma determinação nunca antes vista em mim mesma, me dediquei e quase pulei uma onda com a prancha, servindo assim como uma manobra. Estava nítido o quanto o horário do almoço chegou e nos deixou decepcionados. Meu estômago roncou, o olhar de desespero de Arthur destroçou meu coração e tudo o que queria era... ir embora. [1]

Quando voltei para a praia com meus ombros caídos e controlando as lágrimas, não dissemos mais nada nem trocamos carícias ou toques roubados. Ele removeu meu equipamento, tirei a areia do meu corpo na ducha externa e fui para o meu quarto enrolada em uma toalha, para voltar a colocar minhas roupas sociais de quando cheguei aqui. — O helicóptero está pronto — Arthur falou da porta do meu quarto enquanto eu tirava algumas fotos da paisagem que cercava o ambiente. Não queria encarar o homem que estava atraída e me desmanchar na frente dele. — Você precisa comer algo. — Posso levar de lanche? Recebi um e-mail de cliente e tenho urgência em sair daqui. — Uma mentira deslavada, avisei a todos que tiraria férias até o casamento da Ray. — Pedirei a Catarina que faça para você. Olhei por cima do meu ombro e não mais o vi. Sentei na cadeira, abri o aplicativo de mensagem e jorrei meu coração para as minhas amigas. Paula>> Foram os momentos mais libertadores da minha vida. Fiz coisas que nunca poderia se não estivesse com Arthur e agora estou indo embora, derrotada e sem o terceiro irmão para o casamento. Ray, me perdoe pela falha. Juro que tentei, dei tudo de mim e ainda perdi uma parte do meu coração no caminho, mas não foi possível. Vou precisar de um tempo sozinha, mas prometo voltar um dia antes do casamento, para a despedida de solteira e dia de noiva. Ray>> Oh, amiga, acho que meus surtos deram a entender que tudo dependia disso. Eu gostaria da união dos irmãos, mas se não é para ser no meu casamento, que seja em outro momento. Thata>> Que bom que você está voltando, se quiser ficar em casa até o período do casamento, ela está à disposição. Ray>> Tenha seu tempo e minha casa também está disponível, bem como minha avó. Letícia>> Venha para a casa dos meus pais, fique no meu lugar, eu não sei mais ser filha deles. Estou voltando antes do tempo e meu chefe já está me ligando perguntando quando vou voltar de férias, isso porque o cara que me expulsou do escritório praticamente. Josi>> Letícia amiga da onça. Jogando para os pais que você mesma não aguenta? Paula, não vai na onda dela não! Letícia>> Vai na minha onda sim. Meus pais darão muito amor, carinho e comida. Eles grudam e te fazem de filha de cinco anos. É disso que

ando fugindo e acho que é isso que ela precisa. Alci>> Sei... você quer ir atrás de um certo Cadu, não aguenta de saudades e inventa desculpas. Até agora não acredito que ele te deixou aí e não te trouxe com ele, mesmo que amarrada. Letícia>> Como assim? Eu falei que precisava de um tempo. Ele demorou para confiar em mim, agora, vou testar se essa confiança é mesmo de verdade ou calor do momento. Thata>> Oh, Letícia, você é má! Letícia>> Sou calejada pela vida, isso sim. Josi>> Agora estou com medo de pegar a sobra da Paula. Se o cara teve uma chave de perna da nossa amiga e não se rendeu aos seus encantos, comigo é que ele não irá fazer nada... já estou até me vendo cantando “na rua, na chuva, na fazenda...” Letícia>> Acho que você está olhando para o gêmeo errado, Josi. Alci>> Isso seria uma premonição? Ray>> Por que essa música? Josi>> “dizem que sou louca, por eu ter um gosto assim, gostar de quem não gosta de mim”. Ah, Josi, se soubesse que essa parecia muito mais a minha trilha sonora que a sua... Thata>> Gente, Paula precisa do nosso carinho! Paula>> Obrigada. Eu só precisava de um pouco de normalidade e risos, vocês sempre me dão isso. — Vamos? — Arthur apareceu novamente na porta do quarto e carregava na sua mão duas vasilhas plásticas. Paula>> Beijos, amo vocês. Digitei as palavras que nunca escutarei de sua boca e muito menos deixarei que saísse da minha. Guardei meu celular na bolsa, levantei da cadeira e parei um momento na frente dele. — Aqui sua comida. Não deixe de se alimentar. — Ele não me permitiu admirá-lo, ergueu os potes e me entregou. — Agradeça dona Catarina por mim. — Tudo bem. Caminhamos lado a lado pela escada e então, para fora da casa. Quando meu salto emperrou entre a areia e o caminho de pedras, Arthur me

carregou no colo até o helicóptero. Colocou-me sentada, afivelou meus cintos e colocou o fone no meu ouvido. — Você vai ficar aqui até quando? — gritei para tentar ouvir minha própria voz. Deu de ombros, pegou minha mão e colocou no seu peito. Ele ainda estava sem camisa, seu peito ainda tinha um pouco de sal e areia da praia e o seu coração... batia forte e sofrido. Não precisei de mais nenhuma palavra quando virou as costas e me deixou observando se afastar. — Senhorita, tenho instruções para seguir até o hotel onde uma suíte te aguarda ou para o aeroporto, onde o jato particular do senhor Valentini te espera para voltar à sua cidade. Abri minha boca em choque, o piloto virou para me encarar e sorriu com diversão. — Posso ficar no hotel e só voltar para minha cidade daqui alguns dias? — Você está com carta branca para fazer o que quiser. Ligando as hélices. E foi assim que me despedi do lugar paradisíaco onde curti minha liberdade e deixei uma parte do meu coração que não parecia interessado em se regenerar.

Capítulo 19 Paula Quase uma semana enfurnada dentro de um quarto de hotel, assistindo filmes, seriados, trabalhando pelo celular e... na fossa! Arthur não poderia ser mais atencioso porque não existia mais dinheiro que pudesse gastar comigo. Quando cheguei no hotel pelo heliponto, que não era o que estava hospedada, havia instruções para que informasse onde estava minha bagagem e quando quisesse sair, um motorista estaria à disposição. Quando quisesse voltar para casa, haveria um piloto de avião. Ah, se dinheiro também trouxesse o amor da nossa vida em dois dias... Com tudo ao alcance das minhas mãos, um dia antes do casamento da Ray voltei para a nossa cidade e então, percebi que ali não era mais domínio de Arthur. Enquanto ele fazia algo por mim, havia funcionários a mando dele, me sentia de alguma forma conectada. Depois que cheguei na minha cidade e nenhum motorista ou segurança me abordou ou segurava uma plaquinha, percebi que estava por minha conta. Peguei um táxi até meu pequeno apartamento, deixei minhas coisas lá e fui para a casa da Ray. Antes mesmo de sair do meu carro a vi com Letícia e Josi na varanda da frente, conversando alto e rindo, como se não faltasse nada em suas vidas. Coloquei meu sorriso padrão no rosto e cheguei gritando animada por revê-las. — Paula, que bronzeado maravilhoso! — Josi me abraçou e me olhou da cabeça aos pés. — Como você está amiga? — Letícia perguntou, sempre intuitiva. — Tem comida que minha avó fez e de dona Judite — Ray falou e todas nós olhamos para ela divertida. — Ah, eu estou com fome. — Quando você não está com fome, noiva? — falei divertida e seguimos para dentro da casa, onde uma farta mesa estava posta. — É a ansiedade, falta menos de um dia para casar e tudo o que penso é que vou sair da casa da minha avó, nunca mais ver ela... — Sentou em uma cadeira e colocou duas coxinhas na boca. — Você imagina que é menos de um dia pensando nisso. Eu constato que é quase um dia tentando te acalmar de não surtar! — Letícia se serve e mostra a língua pra Ray, que faz uma careta. — Também te amo.

— Chegou que horas? — Josi perguntou me avaliando minunciosamente. — Agora mesmo. Só fui em casa, deixei a mala e peguei o carro para vir aqui. — E o coração? — Ray perguntou. — Se fosse eu estaria xingando... ou chorando... estou nervosa. Falem de qualquer coisa que não seja o casamento, por favor? — Eu vou sobreviver, meninas. Arthur vai ser um homem que marcou minha vida, porque ele é... singular. — Comecei a comer e todas me olhavam com atenção. — Pelo olhar de vocês, querem saber de tudo, né? — Você não começou a contar por quê? — Josi estendeu a mão e apertou a minha. — Fale tudo, vamos acalmar a noiva e esperar Alci e Thata que chegarão juntas depois do almoço. Tirando os detalhes mais íntimos de nossa relação, acho que consegui contar tudo. O café caindo na minha roupa, ele me intimando na sala de reunião e todo o nosso romance desde o beijo quando nos derrubamos no chão. Ou seja, a primeira coisa que fiz ao pisar naquela ilha foi beijá-lo. Dona Maria, avó da Ray, nos servia e às vezes sentava com a gente escutando nossas loucuras. Não bastou contar minha aventura, mas toda vez parávamos para comentar de algo parecido que víamos no livro, já adicionávamos em nossa biblioteca do leitor digital e voltávamos a narrativa. Ainda dói pensar que tudo não passou de uma aventura, que Arthur estaria preso em seus pensamentos e conceitos até que conseguisse enxergar o fim do túnel dos sentimentos e amor. Se seu jeito de ser era alguma patologia ou doença, não me importava com isso, apenas que quando sentia seu coração, conseguia traduzir todas as suas palavras e ações. A campainha tocou logo depois de almoçarmos e começarmos a assistir As Branquelas. Alci e Thata chegaram de mala e cuia com enormes sorrisos e felizes que estavam livres por um final de semana. — Vão todas dormir aqui? — a avó de Ray nos interrompeu na sala. — Lá na casa do Ben tem mais espaço, acho melhor... — Não vamos lá de jeito nenhum. Trouxe colchonetes, vamos todas dormir na sala vendo tevê e comendo besteiras. — Letícia se aproximou da noiva e sorriu. — É sua despedida de solteira, você vai tomar umas tequilas antes do grande dia! — Tequila! — Josi pulou e levantou as mãos para o ar.

— Como uma noite de pijamas. Fique tranquila, meninas, eu vou deixar tudo pronto para vocês, além de muita comida. — Dona Maria saiu da sala e nos deixou conversando. — Eu vou casar amanhã! — Ray falou com um gemido. — Eu nem vi o Cadu, vocês acreditam? Ele está louco me mandando mensagem no celular, eu só respondi que o verei amanhã — Letícia falou divertida. — Você, por um acaso, será a noiva? — Josi fez uma cara divertida. — Foi a mesma coisa que ele me perguntou. — Ela deu de ombros. — Fortes emoções nos aguardam amanhã. — Novidades sobre o mistério da morte do pai deles? — Alci perguntou e sentou no sofá. Eu sentei no chão junto com Letícia, Ray sentou numa poltrona e Thata e Josi sentam juntas completando o espaço vazio do sofá. — Sabem que é segredo, que eles não confiam em ninguém. — Letícia revirou os olhos. — Homens e seu jeito de não terem amigos. Nós temos e confiamos, eles precisarão lidar com isso. — Apoiada! — Josi curvou o corpo, estendeu a mão e as duas batem as palmas em acordo. — Vou contar o que sei e isso me lembrou... — Letícia me olhou e lembrei que ela pediu algum material genético de Arthur. — E eu estava com cabeça para isso? — Fiz uma careta e deitei no chão. — Conta o que você sabe, depois sofro novamente contando para Alci e Thata sobre minha aventura numa ilha deserta, na casa dos Cullens. — O quê? — Thata pergunta divertida. Quem responde é Letícia, mas ela continua a falar e contar sua aventura quando foi sequestrada pelo ex-namorado e a atual dele, que ela não conhecia. Também falou da ex do Benjamin, que parecia que Cadu também havia tido um affair, a ida a casa de suingue, sua amiga misteriosa Capela e quando o irmão do meio dos Valentini mostrou que confiava nela. Ah, se uma de nós fosse escritora, nossa vida daria um belo enredo de livro.

Capítulo 20 Paula — Ah, me poupe, ele confiava em você desde a primeira transa sem camisinha — Josi resmungou. — Não, ele não deu o braço a torcer nessa época — Letícia retrucou. — Homem é tudo besta, acha que é comandado pelo que diz, mas no final das contas segue a cabeça de baixo — Alci bufou. — Ou seguem o coração, porque esse sempre fala mais alto — Ray diz apaixonada e todas ecoam uma exclamação. — Tenho certeza que o idiota do Alberto Mendes não segue essa linha de raciocínio — Letícia zombou. — Vocês conhecem Alberto? — Dona Maria aparece na sala e se aproxima da neta. — Ele não é um bom homem. — Vovó, você sabe de algo? Ela suspirou e olhou para todas nós antes de falar: — Eu nunca quis remexer nesse passado, mesmo achando injusto como ele foi divulgado nas mídias e para a família. Eu só tinha muito no meu prato naquela época. — Você aguentou o vovô e nem deveria. — Como você mesmo disse, minha neta, às vezes a gente só segue o coração. — Dona Maria pegou uma cadeira, sentou perto de nós e todas estavam mais do que atentas para o que ela tinha para dizer. — Eu era amiga da Vivian, conheci Benjamin e Carlos Eduardo quando bebês, até que... — Ela suspirou. — Frank sofreu um acidente, mudou e isolou sua mulher do mundo. Só voltei a falar com ela quando a vi no supermercado grávida e um tanto infeliz. Praticamente invadi sua casa e ela me contou tudo... — Tudo o quê, vovó? Vou começar a roer unha aqui... — Não! — foi um coro nosso impedindo que ela estragasse a unha antes do casamento. — Meu Deus, não deveria remexer no passado — a avó lamentou, colocou as mãos no rosto por um momentos e encontrou sua própria motivação para continuar: — Vivian estava se relacionando com outros homens, a pedido de Frank, porque estava se sentindo impotente por não poder fazer o papel de marido por conta de um problema no seu... enfim. Vocês me entenderam.

— Problemas de ereção! — Letícia falou e todas riram pela vergonha da avó. — Isso. Vocês têm que entender que minha época é diferente da de vocês, essa liberdade não era assim dessa forma, sem julgamentos. — Foco, vovó, a mãe do Ben estava se relacionando com outros homens... — Eles frequentavam um ambiente onde se fazia troca de casais e só depois de muito tempo que descobri que Miguel, seu tio Ray, também frequentava com ela. Vivian me falou de um tal Alberto e o quanto a amizade dele com o marido era forte. Nesse meio tempo, Frank melhorou do seu problema, mas continuou induzindo sua esposa a ir a esses locais e... ela estava confusa demais, porque estava gostando de outros homens e não conseguia se ver como mãe. Quando ela se descobriu grávida e havia se relacionado com três homens diferentes... — Que babado! — Thata falou e colocou a mão na boca. — Isso porque era outra época, se fosse na nossa, estaria tudo isso no casos de família — Josi brincou. — Naquele dia que invadi sua casa em busca de respostas, nossa conversa foi interrompida por Frank e nunca mais a vi, até o velório dos dois mortos naquele dia de tragédia. Eu a abracei e ela não parava de dizer que fez algo imperdoável e que a culpa era dela por tudo isso acontecer. Ela não merecia perdão. — Faz sentido se você pensar que ela deu um dos filhos para Alberto — Letícia falou, se levantou e pegou o celular que estava no raque da tevê. — O filho da puta ainda encheu a boca para falar que ele era o pai do Arthur e Antonio. — Não é, porque os três são muito parecidos — dona Maria argumentou com confiança. — Parecer não diz muita coisa, precisa de exame de DNA — Alci comentou. — O que está fazendo aí? — perguntei para a Letícia. — Repassando um pouco de informação para Capela. Em um primeiro momento, achamos que Vivian havia se entregado para Alberto escondido e agora, percebe-se que ela amava o marido, a família e estava confusa. — Exatamente, menina, ela nunca faria nada para prejudicar sua família. Ela amava seu marido, só estava confusa.

— Então, o irmão gêmeo do Arthur realmente existe e cresceu longe da família? — Não só existe como está sendo monitorado pela minha amiga. — Letícia sentou ao meu lado e mostrou a tela do celular. Letícia>> Como assim você já encontrou o gêmeo perdido e o Alberto? Capela>> A semelhança dos gêmeos é gritante. Alberto e Antonio estão na cidade e arrisco dizer que irão no casamento causar algo. Algo me diz que o irmão perdido não sabe sobre sua verdadeira origem. Letícia>> E agora? Capela>> Deixe que as estrelas brilhem. Vocês podem ficar tranquilas, iremos cobrir suas costas. — O que foi? — Ray perguntou e tentou inclinar o corpo para ver a tela do celular, mas Letícia escondeu o aparelho. Ah, se nossa amiga descobrisse que em seu casamento poderia acontecer algo de ruim, ela surtaria em dobro. — Parece que realmente Antonio existe, você poderá parar de cobiçar meu Arthur — brinquei com Josi, que mostrou a língua para mim. — Se ele olhar para mim e não se cuidar, vou fugir com ele e nunca mais aparecer — brincou. — Nunca é muito tempo, Josi — Alci falou. — Vocês acham que pode dar algum problema no meu casamento? — Não! — outro coro para acalmar nossa mascote. — Vó, por que você nunca disse nada antes? — Ray perguntou chateada. — Minha filha, tem histórias que são melhores deixarem enterradas. O que os olhos não veem, o coração não sente. Mas como escutei sobre tudo o que vocês fizeram e o tanto que estão a fundo nessa investigação, achei por bem finalmente tirar isso de mim. Um silêncio estranho se instaurou no ambiente e minha mente voou para Arthur e o quanto não dormiria mais nos seus braços. — Eu preciso de um copo de água! — Thata falou, quebrando o clima tenso e fazendo com que todas saíssem da inércia. — Vou tomar um banho. Qual banheiro posso usar? — Alci perguntou para avó. — Quero mais um pouco de coxinha! — Levantei e troquei um olhar

com Letícia. É, havia muito mais para acontecer do que imaginávamos e era melhor manter em sigilo. Nossa amiga merecia o casamento que sempre sonhou.

Capítulo 21 Paula Apesar do sono mal dormido e de não conseguir um minuto parada e em silêncio, estava feliz. A amizade que construí pela internet, despretensiosa e com o objetivo de trocar leituras se tornou uma família. Não tinha como ver de outra forma, porque meus olhos estavam cheios de alegria apenas por vê-las conversando e se arrumando para o casamento da Ray. — Quero minha unha preta! — Letícia falou para a manicure que a atendia. — Eu prefiro do mesmo tom dos nossos vestidos — Alci comentou. — Eu vou de rosinha — falei levantando o tubo de esmalte. Estávamos no melhor salão de beleza da cidade. Poderoso e querendo agradar, Benjamin reservou esse dia para que todas fossem atendidas com o mesmo prestígio que a noiva. Teve depilação, fizemos sobrancelhas, algumas já estavam com o cabelo escovado e com um penteado sofisticado e outras esperavam sua vez. A noiva vestia um roupão branco com seu nome bordado atrás e as madrinhas um roupão azul claro também com nossos nomes. Tudo estava personalizado, o cuidado que a cerimonial tomou em nos agradar fez com que anotasse seu nome para algum evento futuro que algum cliente precisasse. — Sua mãe não quis ficar com a gente, Ray? — Thata perguntou e vi a noiva fazer uma careta e depois revirar os olhos. — Minha mãe falou que isso é coisa de jovem, que ela estará me esperando na porta da casa dos Valentini. — Será que fizeram um altar digno de foto com por do sol? — Josi falou, juntou as mãos e suspirou. — Eu quero um casamento que comece no final do dia, as fotos sairiam maravilhosas. — Você casa pelas fotos ou pelo marido? — Letícia brincou. — Fotos, claro. O homem dos meus sonhos é um bônus. Todas riram e entreguei meus pés para a manicure, que começou fazendo uma massagem fenomenal. Fechei meus olhos, deixei minha cabeça cair no encosto do banco e recordei que dei um pouco de trabalho para a cabelereira, que precisou fazer uma hidratação no meu cabeço antes de escovar, uma vez que estava judiado pelos dias no mar.

Ah, o mar... ele nunca mais seria o mesmo, o cheiro da água salgada sempre me lembraria um certo homem sincero e sem um pingo de empatia ao dizer o que pensa. Quando voltei a abrir meus olhos, vi que Letícia estava franzindo a testa para a tela do celular enquanto as outras estavam conversando animadamente. Ela levantou o olhar e me viu encarando. Ela entortou a boca, deu de ombros e relaxou em seu lugar, Letícia também estava fazendo as unhas do pé. Hum... muito suspeito. Provavelmente era alguma informação nova do casamento e orei para que nada atrapalhasse o dia da minha amiga, pelo menos até que ela saísse em lua de mel com seu amado. Almoçamos no mesmo lugar, brindamos a vida, a amizade e o destino que nos uniu. A tia da Letícia trouxe nossos vestidos, nos ajudou a vesti-los e voltou para sua casa para se aprontar para o casamento. Insistiram para que descansássemos depois do almoço, mas nossa língua tinha outros planos, eram muitas mulheres e muitos assuntos para serem postos em dia até o grande momento. — Gente, vou casar e sair da casa da minha avó! — Ray começou a surtar assim que colocou o vestido de noiva e se olhou no espelho. Esplêndida, ela parecia uma boneca com seu vestido de princesa, joias delicadas e cabelos presos no topo. — Isso não quer dizer que você está indo para a forca, amiga. É apenas uma cerimônia de transição, agora você poderá dormir todos os dias com seu boy e visitar sua avó — Letícia tentou acalmá-la. — Ele me pediu para ir morar com ele em seu apartamento, em outra cidade. — Ela virou para nós e lágrimas enchiam seus olhos maquiados. — Não vá chorar agora. Cadê a crise de riso? — Aproximei e segurei sua mão, numa tentativa de apaziguar seu coração. — Você está sendo forçada a algo? — Não, mas... — Então sorria para a selfie! — Alci falou segurando o celular e tirando uma foto nossa. Todas se uniram e novamente tiramos mais uma foto, Ray parecia mais sorridente. — Desisti de fazer a entrevista de emprego na emissora. Quero seguir Ben, mas acho que estou sendo a pior das mulheres. Não deveria ser ele a me seguir e fazer minhas vontades? Logo eu, a defensora do movimento feminista... — Ah, não, esquece esses conceitos que não tem voz aqui! — Thata se

aproximou dela, segurou suas mãos e olhou fundo em seus olhos. — Por que você tem que fazer o que acha, mas não fazer o que seu coração quer? — E se eu não gostar da cidade? Se me cansar de ficar apenas no apartamento? — Ray tinha a voz embargada. — E se você gostar? E se encontrar um ofício em casa, ou um emprego na cidade? E se trabalhar junto com seu marido em prol da empresa da família, porque agora, você também será uma Valentini! — Thata, que palavras lindas... — Josi finge limpar uma lágrima e Letícia empurra seu ombro com o seu próprio. As duas riem e eu me aproximo delas, ainda queria saber se havia novidades sobre o gêmeo perdido. — Você escreve sua história, você faz o que quiser da sua vida. Seja feliz e no mais... — Alci abraça Ray e Thata. — Se algum dia ele te magoar ou você quiser um tempo, sempre terá nossa casa. Pega um jatinho, um táxi, ou mesmo venha à pé e tenha seu momento conosco. — Viva a amizade! — Josi levantou a mão e as profissionais da beleza que nos acompanhavam bateram palmas quando ecoamos seu brinde. — Novidades? — cochichei com Letícia, que mostrou o seu celular para mim. Capela>> Eles estão na redondeza, operação RayBen em andamento. — Elas são tão organizadas, tem até nome shippado para os dois — sussurrou Letícia divertida. — E agora? Ray não merece ter seu sonho estragado. — E não vai, Paula. Nós vamos primeiro para a festa, vou falar com Ben para ir embora para a lua de mel o mais rápido possível e o resto a gente cuida. Olhei para a minha amiga que parecia confortável em comandar a situação que para mim parecia muito caótica. Ela percebeu minha admiração, deu de ombros e guardou o celular em uma bolsinha escondida na perna, por debaixo do vestido. — De contadora passou a agente secreta? — perguntei brincando, mas com um fundo de verdade assustador. — Vou tentar ser recrutada, adoro viver fortes emoções. A Contabilidade é muito pouco para a minha fome de ação. — Eu quero fortes emoções! — Josi entrou na conversa e olhou curiosa para nós duas. — Joga na roda, vocês precisarão da minha ajuda.

— Tenho uma missão para você, vá resgatar Arthur da ilha deserta para entrar como padrinho com Paula! — Letícia falou sorrindo. Nossa amiga revirou os olhos e mostrou a língua. — Não querem me falar, tudo bem, vou agir por conta própria. — O motorista chegou, iremos em dois carros! — Thata anunciou e tirou nossa atenção da brincadeira que estava se tornando perigosa. Falar de Arthur fez com que meu coração se apertasse. Sentia sua falta, tinha certeza que esse era um amor que levaria eternamente no coração, sob minha pele e na minha mente. O tempo ajudaria a lidar com a saudade e quando eu estivesse pronta, quem sabe me abriria para outros homens. Credo, só de pensar em outros homens sentia meu estômago embrulhar de uma forma que não gostava. Despedimo-nos de Ray, ela iria em um carro sozinha com a cerimonial. Seu pai, sua mãe e sua avó já estavam esperando na entrada da casa. Eu, Letícia e Josi fomos em um carro, Thata e Alci em outro. Passou muito tempo antes de alguém começar algum assunto: — E aí, vão falar o que está rolando ou me deixarão no vácuo? — Josi exigiu. — Relaxa, mulher, quando a hora chegar você saberá o que fazer — Letícia respondeu sem olhá-la. — Josi, ela só quer te perturbar. Estou com saudades de Arthur, Letícia está tentando encontrar um contato para que eu consiga falar com ele. — E acho que meus serviços não serão mais necessários. — Letícia apontou para fora do carro, meu olhar seguiu sua direção e meu coração falhou uma batida antes de acelerar como um cavalo de corrida. Havíamos chegado na casa dos Valentini, o carro estava seguindo para nos deixar na entrada da casa e lá, além dos pais e avó de Ray, estava Arthur em seu terno impecável, seu cabelo bem alinhado, o bronzeado ainda em seu rosto e seu olhar sério. — Arthur? — exclamei surpreendida e não deixei o carro parar quando abri a porta e tentei sair para encontrá-lo. Ele veio... mas será que foi por mim?

Capítulo 22 Arthur Sufocado. Ansioso. Disperso. Depois que coloquei Paula no helicóptero, lutei contra mim mesmo. Minha cabeça doeu, meus músculos protestaram e a vontade de gritar excedeu qualquer razão que eu tinha. — AH! Corri pela praia, hora acelerado e gritando, hora ritmado e tenso. Não vi as horas passarem, nem lembrei que não havia comido ou bebido água até que fui tomado pela tontura e caí de joelho na areia. Perturbado. Por que não conseguia ser diferente? Seguir meus mais íntimos anseios ao invés da razão que confortava? Nesse momento não estava mais satisfeito com minhas conquistas, minha sobriedade não estava servindo de escudo, mas sim, me sufocando. Estava sem ar. — Menino Arthur! — escutei dona Catarina gritando ao longe. Olhei por cima do meu ombro e a vi correndo em minha direção. Ela era uma senhora de idade, esse tipo de exercício não faria bem. Levantei com dificuldade, a dor no corpo não era um terço da dor que sentia no meu peito. — Oh, menino Arthur, por que deixou que Paula se fosse? Por que não foi com ela? — Ofegante, ela chegou até mim e colocou a mão no meu rosto com carinho. Apesar de nunca pedir e achar que não precisava, ela foi a figura materna a qual me apeguei. Essa ilha era especial não só pela solidão, mas por tudo que aqui existia. Agora, o sentido de estar aqui estava sendo dizimado, uma vez que Paula se foi. — Ela não conseguiu... — estranhei minha voz embargada. — Não quero mais sentir o descontrole que ela me causa. Como farei parar? Por que ela não se esforçou mais? Tirou sua mão do meu rosto e colocou no meu coração. Ficou alguns

segundos assim, me fez lembrar dela e senti dor. Porra, que dor! — Vamos voltar para casa, lá você conseguirá pensar melhor de barriga cheia. — Sorriu carinhosa, colocou a mão nas minhas costas e me guiou. — Ela é uma boa moça. — Ela me faz querer ser irracional. Minhas vontades e padrões não tem serventia quando conflitam com ela não estar do meu lado. Eu a desafiei com a intenção de recobrar o controle sobre minha vida, mas... — E não é a descrição do amor? — Andávamos devagar, minhas pernas formigavam pela cãibra. — Eu não a amo. — Não precisa dizer isso para mim e tente se controlar e não dizer isso à Paula. Você não entende o sentimento, mas ela pode sentir ao tocar seu coração. Franzi a testa, confuso com o que tentava me induzir a pensar. — Não minto, cumpro com minha palavra e se digo que o que sinto não é amor, então não é. Dona Catarina balançou a cabeça de forma negativa. Caminhamos por um tempo em silêncio até que avistamos a casa envidraçada e me lembrei do nosso jantar à luz do luar. Minha intenção foi oferecer o máximo que conseguiria chegar perto do seu churrasco, de comer carne... Peixe. Parei de andar e dona Catarina me observou entrar em pânico com um enorme sorriso. Por que meu desespero era motivo de alegria a ela? — O coração não se engana, rapaz. — Ela me desafiou e não cumpri a promessa — constatei horrorizado sobre nossa troca de pão com o peixe. — Ela foi embora e não cumpri com minha palavra que comeria peixe. Preciso... — De comida, banho e sofrer um pouco mais para entender que se você gosta de alguém, não deve encontrar desculpas para estar com ela. Você faz porque quer, simples assim. — Ela me empurrou e caminhei sentindo meu coração querendo pular do peito. — Por que devo sofrer esperando ao invés de resolver tudo de uma vez? Tenho que ir embora daqui! — Dê um tempo para ela assimilar e ter a certeza que é você que quer. E você, faça o mesmo! — ordenou. — Sou o dono dessa ilha, dona Catarina.

— Eu sei. Por isso, rei dos mares, vá tomar um banho, vou preparar sua refeição. Ela seguiu para a cozinha quando entramos na casa e eu fui para o meu quarto. Senti o cheiro de Paula nos lençóis e tomei banho, me acalmando aos poucos sobre minhas próximas ações. Analisei as possibilidades e quando sentei à mesa para degustar da melhor refeição vegana do mundo feita por dona Catarina, estava seguro e sóbrio. Voltei a estar no controle. Iria vê-la no casamento, confrontaria sobre nosso segundo desafio e tentaria, como me foi dito, seguir meus impulsos irracionais. Estar com alguém apenas por estar, me manter perto de Paula apenas para aquietar meu coração e meus conflitos metais. Bromazepam? Não, ela era minha endorfina.

Capítulo 23 Paula — Espera o carro parar, não vá tropeçar nos seus pés e cair de cara no chão! — Letícia e Josi me seguraram antes que pudesse causar um desastre. O carro parou, eu saí com cautela e não precisei sair do lugar, porque Arthur me viu, deu grandes passos até me alcançar e parou na minha frente com sua respiração ofegante. Seu olhar era tudo o que senti falta enquanto fiquei sozinha naquele quarto de hotel. Quando sua mão tocou meu braço, era esse contato que senti falta enquanto tinha overdose de seriados e livros românticos. — Linda... — Oi cunhado, tchau cunhado. Vou dar alguns minutinhos antes de trazer os mais interessados para cá — Letícia falou apressada, piscou um olho para mim e saiu puxando uma Josi admirada. — Você veio! — falei o óbvio e minha vontade era de abraçá-lo e guardá-lo em um pote. — Eu te fiz comer pão e eu não comi o peixe, como combinado em nosso segundo desafio. — Suas mãos encontraram minha cintura e seu corpo conseguiu se aproximar mais ainda do meu. Coloquei minhas mãos em seu peito e segurei a respiração, porque... ele não tinha vindo por mim, muito menos pelos irmãos, mas por causa de sua palavra. — Veio cumprir o que me deve? — Soltei o ar dos meus pulmões e olhei para o lado, um pouco decepcionada. Qual era o problema de vir aqui e dizer que sentiu minha falta, que sua vida não tinha mais sentido sem mim... ou... que aquela ilha só o lembrava dos nossos momentos tórridos de paixão? — Eu gostaria de cumprir esse desafio em outro momento, se você me permitir. — Outro momento? Por quê? — Voltei a olhá-lo com confusão e em seus olhos encontrei paixão, admiração e... era diversão? — Enquanto não cumprir o desafio, terei motivos para estar com você. — Esboçou um sorriso tímido, o melhor presente que poderia ganhar nesse momento. Meu coração se aqueceu, minha mente se iluminou e meus movimentos refletiram tudo o que eu ansiei por quase uma semana. Envolvi

meus braços em seu pescoço e beijei seus lábios com a fome de dez leões. Meu corpo foi empurrado para o lado e pressionado na lataria do carro, o corpo musculoso de Arthur me envolveu e protegeu como ele sempre gostava de fazer e eu, de receber. Ele não conseguia expressar seus sentimentos, acreditava que as palavras de amor não seriam pronunciadas tão cedo, mas ele conseguiu usar sua própria ideologia em favor de voltar para mim. Tinha que ser suficiente. — Arthur? — a voz de Ben nos interrompeu, o beijo parou, mas não seu olhar em mim. Olhei para os lados até encontrar os irmãos se aproximando de forma cautelosa. Eu teria muito tempo com o homem que me proporcionou momentos memoráveis, estava na hora de deixá-lo resolver sua vida com sua família. — Seus irmãos te esperam — falei segurando seu rosto, ele não parecia querer sair de onde estava comigo. — Até quando poderei cumprir com o desafio? Meu coração se apertou, o medo estava claro nas suas palavras. Ele se expressava com a razão e o entendia, estava na hora de me expressar com o coração e fazê-lo entender também. — O seu desafio agora é ficar ao meu lado enquanto seu coração falar mais alto. — Toquei seu peito e o senti tão frenético como o meu. — Gosto de você, me apaixonei por você e por mim, não haveria desafio nenhum para nos separar, porque sinto amor... eu amo você. — Eu... — Vá conversar com seus irmãos, construa a união que sua família precisa e então... eu estarei aqui, observando e te esperando. Coloquei as mãos em seus braços, virei seu corpo e o empurrei em direção aos seus iguais. Precisei limpar uma lágrima atrevida que escorreu pelo meu rosto ao observar Ben abraçar Arthur e Cadu, um pouco envergonhado, abraçar os dois. Era o reencontro que o mais velho tanto almejava e sem saber, o que os outros irmãos precisavam. Eles se olharam, trocaram cumprimentos másculos e tapas nas costas nem um pouco suaves. Mais atrás vi todas as meninas abraçadas e olhando esse encontro. Apenas nós sabíamos o quanto foi necessário para que isso acontecesse e o que estava por trás dessa desunião.

A cerimonial interrompeu a confraternização deles, olhei para trás e vi o carro da noiva ao longe esperando para chegar e começar a cerimônia. — E agora? — Arthur se aproximou, envolvi minha mão no seu braço e segui para onde a cerimonial estava organizando a entrada dos padrinhos. Dois primos de Ray e um colega de Benjamin acompanharam Thata, Alci e Josi, Letícia teve seu Cadu como acompanhante e eu, meu Arthur. A música começou a soar e numa fila, vi os pais entrarem, depois a avó e então, minhas amigas com seus acompanhantes. — Você disse que me ama? — Arthur perguntou em tom baixo e olhei para ele sorridente. — Conhece o amor? — Demos um passo para frente e apertei seu braço com carinho. Quanta responsabilidade em cima de mim, apresentar o amor, aquele sentimento incondicional para alguém que só enxergava a razão e a lógica. — Sentimentos são abstratos demais para se descrever ou explicar. Sinto atração, sinto uma necessidade incontrolável de estar com você e... — Agora é a vez de vocês. Devagar e sigam para o lado esquerdo — a cerimonial falou e nos instruiu a seguir pelo caminho acarpetado vermelho, com pétalas brancas espalhadas e arranjos de flores delicados. Sorri sem me conter, observei o noivo ansioso no altar e então, agradeci aos céus pelo final da tarde, o pôr do sol e então, as fotos maravilhosas que Josi ansiava e que com certeza Ray agradeceria também. Posicionamos do outro lado do noivo junto com Alci e o primo de Ray. Encaramos a entrada e aguardamos a noiva bela e plena se aproximar e caminhar em direção ao altar. Ela tinha lágrimas nos olhos, o pai havia se posto na entrada e caminhou até o noivo, juntos. Assim que Ray olhou para mim e encontrou Arthur ao meu lado, as lágrimas se transformaram em riso nervoso e quando o pai entregou a noiva para seu prometido, as risadas aumentaram e nos fizeram sorrir. Nossa amiga e seu jeito diferente de encarar o mundo. — É... o... Arthu-tur? — Então, seu riso se fez mais alto e Ben precisou abraçar sua futura mulher para tentar controlá-la. Ele não parecia incomodado, seu olhar apaixonado e sonhador ao ter o amor de sua vida em seus braços era motivo suficiente para que o admirasse cada vez mais. Benjamin era perfeito para Rayanne. — Está tudo bem, estamos tudo bem! — o noivo falou.

— Tutu! Arthur Tutu! Coloquei a mão na minha boca para controlar o riso, diferente de Letícia e Josi, que riam abertamente. Céus, que apelido mais horrível ao mesmo tempo que fofo! — Por que ela me chamou de Tutu? — Arthur me perguntou e acabei tossindo uma risada. — Ela engasgou com a emoção e te deu um apelido. — Observei-a ganhar controle e Ben acariciar seu rosto. Eles se completavam e se entendiam, esse era o amor que todos deveriam ter na vida. — Linda, eu não preciso de apelido — respondeu sem entender e apenas bati de leve no seu peito. — E linda seria o quê? — O adjetivo que melhor lhe descreve. Não há nada que não agrade meus olhos em você, por isso linda. Meu rosto ficou quente com sua sinceridade. Sua visão sobre a minha pessoa era quase descrever o amor de forma lógica. Apertei minhas pernas, respirei fundo e me aproximei mais ainda do meu homem. — Quero que você repita essa frase quando estivermos sozinhos entre quatro paredes — sussurrei no seu ouvido e esqueci do mundo ao escutar o juiz de paz iniciar a cerimônia. Era oficial, a família Valentini uniu os três irmãos e ainda ganhou um novo membro, Rayanne. Quem seria a próxima?

Capítulo 24 Paula Depois das fotos, felicitações, da valsa e do brinde oficial dos noivos, eles anunciaram a saída para a lua de mel e deixaram Letícia e Cadu como seus representantes. Estávamos compartilhando uma mesa com Josi, Alci e Thata. Letícia e Cadu não tinham planos para sentar, a pista de dança, o flerte com o olhar e a malícia de suas mãos em seus corpos diziam que estavam completamente entregues à seu próprio mundo, sua própria felicidade. — Então, Arthur, o que o trouxe aqui? — Josi puxou assunto e vi quando Alci cutucou nossa amiga e ela só fez uma careta. — Preciso cumprir um desafio que Paula me fez — respondeu tranquilamente. — Vai ensinar Kitesurf para ela aqui? — Esse desafio foi concluído e ela perdeu. — Eu comi pão, ele me deve comer peixe! — Tentei puxar a conversa para mim, porque o jeito de Arthur poderia ser mal interpretado pelas minhas amigas. Eu ainda não tinha falado tudo sobre ele, haviam coisas que não eram necessários detalhamentos, apenas que aceitassem como verdadeiro. — Opa, problema resolvido, tem no cardápio! — Josi falou divertida e novamente foi cutucada. — Sério, Alci, por que estou sendo agredida dessa forma? — Paula me permitiu cumprir o desafio em outro momento — Arthur falou um pouco nervoso. — Na verdade, enquanto ele não comer peixe, ele ficará comigo. — Sorri engessado para ela. — Vamos deixar o mocinho junto com a mocinha por enquanto, pense na minha felicidade! Josi arregalou os olhos, faz uma careta e se levantou constrangida. Tinha certeza que queria apenas brincar, mas acabou abordando um assunto delicado e o tiro saindo pela culatra. Ela estava muito sem graça. — Sabia que ainda daria merda... — Thata comentou e a música animada que tocava ao fundo parou. Olhamos para todos os lados e Arthur envolveu seu braço em meus ombros quando dois homens caminharam para perto da pista de dança e uma réplica idêntica de Arthur apareceu ao lado de um homem muito mal-encarado.

Havia três homens vestidos de preto atrás deles e tudo indicava que esse era o momento que a amiga de Letícia monitorava. Alberto e Antonio tentariam estragar o casamento de Ben e Ray. — Ele é igual ao Arthur! — Alci comentou chocada e colocou as mãos na boca. — Meninas, encontrem Josi e se mantenham seguras — falei assim que Arthur se levantou e tentou seguir em direção à eles. Segurei seu braço e conferi que Letícia estava atrás de Cadu, com o celular no ouvido enquanto ele parecia controlar a situação. Muitos convidados se afastaram de suas mesas e outros só encaravam sem entender o que realmente acontecia. Era um desastre emitente, precisava ajudar e... — Ele é quem estou pensando? — Arthur falou e novamente segurei seu braço. Nem conseguia imaginar o que estaria se passando na cabeça dele, conheceu o irmão gêmeo nessa situação e sem todos os detalhes sobre a investigação de Ben e Cadu. Arthur andou em direção a pista de dança como se estivesse hipnotizado, tentei pará-lo, mas seu corpo musculoso não era páreo nem para minha histeria. Ele não precisava se expor, nem sabíamos se estavam armados ou o quê! A única coisa que suspeitava era que a tal Capela estaria pronta para agir e salvar a noite. — Espera, Arthur, você precisa saber... — minha voz soou alto demais, o irmão gêmeo virou o rosto em nossa direção e ficou em choque quando nos viu. Finalmente os passos foram parados, o que acompanhava Antonio começou a discutir com Cadu de forma inteligível e a luz foi apagada do lugar, fazendo com que gritos e desespero tomassem conta de todos. Não consegui raciocinar, porque Arthur me pegou no colo e seguiu para longe do tumulto que se tornou a festa. Estávamos no grande gramado da casa, tendas, mesas e decoração estavam sendo iluminados apenas pelo luar nesse momento. Pouco tempo depois a energia voltou, mas estávamos longe de todos, Arthur entrou na casa e conhecendo de cor todos os cômodos, nos levou até a biblioteca, entrou, fechou a porta e nos colocou sentados no chão no canto mais afastado da porta. O aperto em meu corpo era forte, a respiração e a adrenalina corria solta em nosso sangue e antes que começasse a falar, resolvi sentir e o abracei

com braços e pernas, levantando meu vestido e me expondo sem pudor. — Odeio essa casa —falou entredentes, o primeiro sentimento verdadeiro que o vi expressar sem reservas. — Odeio tudo o que ela me faz lembrar. — Eu estou com você. — Odeio me sentir pequeno, incapaz, impotente... — praticamente rosnou e o apertei mais e mais, porque ele fez o mesmo e começou a se balançar. Os barulhos diversificados que faziam do lado de fora me deixou insegura, a preocupação com minhas amigas era tamanha, mas no momento, precisava recuperar meu Arthur antes que eu mesma me perdesse. — Eu te amo, tudo vai ficar bem. — Afastei minha cabeça e comecei a depositar beijos em seu rosto. — Eu te amo e tudo ficará bem. — Eu odeio... — Ame, Arthur! — Segurei seu rosto com minhas mãos e ele parou tudo o que fazia ou pensava para prestar atenção em mim. — Sabe a escala para medir o PH da água de um aquário? De um lado temos base, de outro temos ácido. Considere base o amor e ácido o ódio. Eles estão na mesma linha, coloque uma solução no seu coração para que esse ácido se torne base ou que pelo menos volte ao neutro. Parecia que segundos, minutos ou horas se passaram com ele me encarando com um misto de surpresa e consternação. Eu mesma não sabia de onde essa comparação tinha surgido, mas me dei alguns tapinhas nas costas por sempre contextualizar as metodologias que usava com assuntos relacionados ao dia a dia dos meus clientes. Arthur entendia lógica, racional, o palpável, então, que encontrasse uma forma de explicar o amor para ele e nada melhor do que fazer isso tendo o seu ódio como base, ou melhor, como ácido. Ele me colocou deitada no chão com velocidade, meu vestido já estava levantado, então, ele só precisou colocar minha calcinha para o lado. Em seu caso ele demorou um pouco mais, pois precisou desafivelar seu cinto, desabotoar a calça e então, abaixar o zíper para liberar seu membro. Seu olhar advertindo que queria me possuir era toda a indicação de que ele tinha me entendido. A compreensão do que eu sentia por ele o encontrou e ele parecia... admirado. Ele foi selvagem em suas investidas, me invadiu com todo o seu poder e me fez revirar os olhos de prazer em poucos minutos. Sua boca encontrou meu pescoço e meus braços envolveram seu pescoço.

— Se o que você sente por mim é o oposto do que sinto por essa casa, então a dúvida que eu tinha foi dizimada, também amo você! Não tinha estímulo melhor para encontrar o clímax do que juras de amor sussurradas ao pé do ouvido nesse momento tão íntimo. Busquei seus lábios para que pudesse beijar e gemer assim que encontrei o céu da luxúria e segundos depois, ele me acompanhou, se rendendo ao cansaço mental e soltando todo o peso do seu corpo em cima do meu. — Arthur... — sussurrei seu nome e lembrei de seu novo apelido Tutu. Ele disse que me amava... ele se declarou para mim e me faltavam palavras para expressar o quanto me sentia honrada de tê-lo comigo. — Linda, não pretendo sair da minha dieta vegana tão cedo. Esse desafio faço questão de perder. Ele se apoiou em seus braços e acariciei seu rosto exibindo um sorriso. — Então perca, meu Tutu, porque no final, quem sairá ganhando somos nós.

Capítulo 25 Paula Limpos, recompostos e com o coração transbordando de tanto amor, saímos da biblioteca e procuramos a festa. Ninguém parecia presente no lugar a não ser pessoas de preto e minhas amigas. — Alci! Thata! — Tentei correr na direção delas quando nos aproximamos do jardim, mas Arthur me segurou quando quase caí de cara no chão. Claro que ele me segurou e ameaçou me carregar, mas o parei no meio do caminho. — Preciso ver minhas amigas. — Enquanto vocês sumiram, muita coisa aconteceu! — Alci se aproximou e nos avaliou da cabeça aos pés. — Ainda estou chocada com tudo. Observei um carro se aproximar pelo gramado e parar perto das tendas. — Cadê Letícia? O que aconteceu? — Você quer a versão resumida do tipo Letícia ou do tipo Josi? — Thata perguntou e cruzou os braços, virando o corpo para o carro e observando pessoas vestidas de preto caminharem para longe. — Eu tenho que escolher mesmo? Tem alguém ferido? — perguntei ansiosa. Senti Arthur endurecer ao meu lado e lembrei também de seu gêmeo. — Pode se acalmar que não há pessoas importantes feridas — Alci me acalmou e fez um gesto com a mão para Thata. — Fala logo, mulher. — Na versão Letícia, o vilão Alberto apareceu com Antonio, o gêmeo desaparecido e queria acabar com a festa e alegria dos Valentini além de acertar as contas. O que eles não contavam era que tínhamos agentes secretas, a SAI, Stars, sei lá como elas se chamam ao nosso lado e resolveu tudo sem derrubar nenhum sangue, mas assustando todos os convidados. Mesmo com o tom brincalhão, ao escutar o nome de Antonio coloquei a mão sobre o peito de Arthur e senti seu coração. Ele queria respostas, estava nervoso, mas não sabia se expressar ou se deveria. — E a versão Josi? — É que a Ray deu sorte por ter ido embora antes da muvuca que ela não gosta, o Cadu conseguiu bancar o herói por apenas alguns segundos antes das mulheres trabalhadas no poder chegassem, apagassem todo mundo com tranquilizantes, mas perdessem o gêmeo perdido. Ou melhor, o gêmeo voltou a ser desaparecido

— Onde está Antonio? E então, olhei para todo os lados, vi Cadu e Letícia caminharem abraçados em nossa direção enquanto o carro se afastava e uma mulher de dentro dele acenasse um adeus para nós. — Cadê a Josi? — eu estava cheia de perguntas. — Essa é a pergunta de um milhão! — Letícia falou assim que parou perto de nós. — Eu vi quando ela arrastou Antonio para longe quando as mulheres da SAI abateram os seguranças que estavam atrás deles. A gritaria começou, a correria tomou conta e... — Ela deu de ombros e percebi que os irmãos trocavam olhares sérios. — Nosso irmão está vivo, temos muito o que conversar. Você pode ficar por aqui? — Cadu perguntou e como resposta, recebi um aperto no corpo e ele acenou em concordância. — Ótimo, agora vamos para o escritório e colocar todas as cartas na mesa. — Até nós? — perguntou Alci chocada e animada. — Ele que fale não para ver minha ira — Letícia sorriu de forma diabólica, levantou na ponta dos pés e deixou um beijo no rosto do namorado que a encarava divertido. — Estou treinando para ser uma agente secreta, me aguarde. Começamos a caminhar de volta para casa entre risos e descontração, menos da parte de Athur. — Vai ficar tudo bem — sussurrei no seu ouvido e ele me direcionou um sorriso contido assim que chegamos na sala. — Enquanto não cumprir o desafio e você continuar comigo, pode não ficar tudo bem, mas sei que é o certo a acontecer. Eu estava bem, nós estávamos bem, só esperava que Josi e Antonio também.

Outras Obras

Selvagem Moto Clube: https://amzn.to/2QlULdz Sinopse: O presidente do Selvagem Moto Clube está gravemente doente e um sucessor precisará ser escolhido antes que John morra. O vice-presidente deveria ser o herdeiro legítimo, mas seu mal caráter e negócios ilícitos fazem com que essa vaga seja disputada. John nunca quis que sua família se envolvesse com seu Moto Clube, mas sua filha Valentine entra na disputa pela presidência e nada mudará sua decisão. No meio dessa disputa entre o comando do Selvagem, Doc é o único homem que ela poderá confiar para lutar pelo Moto Clube e quem sabe pelo seu coração, que há muito foi judiado por outro motociclista. Entre a brutalidade e o preconceito, Doc e Valentine encontrarão muito mais do que resistência nos membros do Moto Clube, mas intrigas e traição.

Aranhas Moto Clube: https://amzn.to/2x62CDU Sinopse: Ter um relacionamento afetivo nunca foi preferência na vida de Rachel Collins. Seu trabalho e seu irmão eram as únicas prioridades, até que seu caminho cruza com o de Victor Aranha em um tribunal, em lados opostos. O homem de postura arrogante e confiante, presidente de um Moto Clube, abalou os planos da advogada. Tempos depois, os dois se encontram informalmente e a chama adormecida se acende. Prudente e competente, Rachel acaba em conflito de interesses ao ser convidada por Victor, para uma noite sem compromisso. O lado pessoal dos dois estava pronto para colocar em risco tudo o que construíram. Ela seguia as leis. Ele as quebrava. Victor precisa de assessoria jurídica, e claro que convoca a atrevida Rachel Collins. Tentada pelo desafio, acaba envolvida em muito mais do que suas teias, mas no lado obscuro do Aranhas Moto Clube.

Piratas Moto Clube: https://amzn.to/2QpLOzN Sinopse: Ser o presidente do Piratas Moto Clube nunca tinha passado pela cabeça de Richard Collins, um homem respeitado e de valores tradicionais. Ele assumiu o posto de chefe de família muito cedo e isso trouxe sequelas para sua confiança. Apesar disso, ninguém sabia que debaixo daquela postura firme e cheia de argumentos morava um homem assombrado pelas suas limitações. Nina está envolvida em todos os assuntos dos seus amigos, principalmente quando Richard, seu Lorde da vida, está em causa. Quando ele precisa de proteção extra, além do que já tem por causa de JFreeman, ela não só se voluntaria, mas decide investir, finalmente, na sua atração pelo homem que é o verdadeiro príncipe de terno e gravata. Apesar de serem de mundos diferentes e com convicções completamente opostas, as circunstâncias colocarão à prova tudo o que acreditam, inclusive seus próprios medos. As aparências trazem julgamentos precipitados e as histórias de família mal contadas também. Existem muito mais segredos pirateados do que ocultos nessa história.

[1]

Utilizado no tratamento de ansiedade, nesse caso, usado para indicar calmante.
@ligaliteraria Arthur - Mari Sales

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