[JO LEIGH] UMA RAZÃO PARA FICAR

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UMA RAZÃO PARA FICAR Jo Leigh Título original: catching his eye

"Uma noite. Uma noite perfeita. Eu ficaria feliz com isso, com a lembrança..." — Emily Proctor, referindo-se a Scott Ditton. A comum Emily Proctor tinha tantas chances de namorar o lindo e famoso Scott Ditton quanto de acordar com um corpo perfeito e magro. Mas suas melhores amigas, ou As Amigas, estavam dispostas a realizar o maior desejo de Emily. Oh, bem, que mal podia haver em tentar? Scott só voltara a cidade para ajudar a família. Assim que resolvesse todos os problemas, estaria fora dali. O único problema era que havia esquecido o charmoso e pacato estilo de vida da pequena cidade, o conforto dos velhos amigos... como Emily. Havia algo de diferente nela... Algo que talvez pudesse dar a Scott uma razão para ficar.

Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh

Digitalização: Polyanna

Revisão: Sheyla Oliveira

Copyright © 2000 by Jolie Kramer Originalmente publicado em 2000 pela Silhouette Books, divisão da Harlequin Enterprises Limited. Título original: Catching bis eye Tradução: Débora da Silva Guimarães Isidoro Editora e Publisher: Janice Florido Editora: Fernanda Cardoso Editoras de Arte: Ana Suely Dobón, Mônica Maldonado Paginação: Dany Editora Ltda. Copyright © 2001 by Harlequin Books Originalmente publicado em 2001 pela Silhouette Books, divisão da Harlequin Enterprises Limited. Título original: Colton's Bride Tradução: Débora da Silva Guimarães Isidoro Todos os direitos reservados, inclusive o direito de reprodução total ou parcial, sob qualquer forma. Esta edição é publicada através de contrato com a Harlequin Enterprises Limited, Toronto, Canadá. Silhouette, Silhouette Desire e colofão são marcas registradas da Harlequin Enterprises B.V. Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas terá sido mera coincidência. EDITORA NOVA CULTURAL LTDA. Rua Paes Leme, 524 - 10° andar CEP: 05424-010 - São Paulo - Brasil Copyright para a língua portuguesa: 2002 EDITORA NOVA CULTURAL LTDA. Impressão e acabamento: DONNELLEY COCHRANE GRÁFICA E EDITORA BRASIL LTDA DIVISÃO CÍRCULO - Fone (55 11) 4191-4633

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Como Chamar a Atenção de Um Homem... E Trocá-la Por Seu Coração! Especialmente criado para Emily Proctor por As Amigas. "O que quer que faça, nunca diga sim no primeiro encontro!" Samantha Barnett "Seja misteriosa. Não termine as sentenças. Olhe para o horizonte como se um amante distante a chamasse. Deixe-o imaginar e faça-o esperar." Julia Carey "Pelo amor de Deus, saia e compre lingerie nova." Lily Graham "Não faça jogos. Apenas se aproxime dele e diga que toda a vez que o vê você fica perturbada e excitada. Uma vez em sua vida, diga sim!" Hope Francis "Vá com calma. Use a cabeça. É muito fácil cometer um engano que pode destruir tudo. Isso é sério." Zoey Hoffman "Socorro!" Emily Proctor

CAPÍTULO I Décimo - Sexto Aniversário de As Amigas Emily Proctor serviu mais um daiquiri para cada amiga. Na verdade, não eram simplesmente amigas. Elas eram As Amigas. Unidas pelo juramento de fidelidade eterna. Reunidas por escolha, forjadas por dezesseis anos de escola e pais e namorados e... oh, tudo. — Não devia estar bebendo isto — Lily confessou, mas só depois de ter sorvido um gole generoso. — Vou ter de levar JT ao futebol as oito dá manhã. A babá não pode acompanhá-la, porque precisa viajar para Dallas logo cedo. — Por que não chama Glen Cassidy? Ele tem mesmo de levar Cody, e talvez não se incomode de pegar JT. Lily olhou para Hope Francis. Pólo oposto de Lily, Hope tinha um metro e cinqüenta e quatro de altura contra um e sessenta e nove de Lily, e Hope tinha cabelos escuros, quase negros. Ela os cortava na altura da nuca, retos, criando uma impressão angular. Nela, o efeito era mais do que satisfatório. Parecia exótica, especialmente com aqueles

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh olhos "Winona Ryder", olhos que ela realçava com lápis preto e sombra escura. Sem mencionar o batom vermelho-bombeiro, que àquela altura havia sido quase todo depositado na borda do copo. O problema com Hope, pelo menos em sua opinião, era que ela parecia ter cerca de dezessete anos, e isso a aborrecia. Lily sorriu e levantou-se do sofá para seguir o excelente conselho. — Por isso a mantemos aqui, Hope. Além de linda, também é brilhante. Hope sorriu lânguida. Depois arrotou. Alto. Todas riram. Emily caiu de braços na cama de hotel é esmurrou o travesseiro. Era bom estar com as amigas. Todas elas. Hope, Lily, Sam, Zoey e Júlia. As Amigas. Conheceram-se no quarto ano da escola elementar da Sra. Mann, e a união surgira do ultraje que sofriam por conta da estúpida brincadeira de Paul Morrison durante o recreio. Todos os dias ele levantava os vestidos das colegas. Por um momento, Emily tentou imaginar o que teria acontecido com Paul. Mas não tinha importância. O que importava era que elas se haviam encaixado como peças de um quebra-cabeça. Todas eram compatíveis. Enquanto bebiam, Zoey começou a reclamar dos cabelos, como fazia todos os anos, dizendo que eram vermelhos demais, crespos demais, exuberantes demais para serem exibidos em público. E as outras garotas afirmavam que isso era bobagem. Todos os anos. — Seus cabelos são maravilhosos — elogiou Samantha. — Como os de Nicole Kidman. Zoey suspirou. — Oh, sim! Não seria ótimo se eu também tivesse o corpo e o rosto daquela mulher? Júlia sorriu. — Seria ainda melhor se tivesse o marido dela. Zoey, que estava reclinada na poltrona diante do sofá, virou-se para a amiga. — Fala sério? Gosta dele? — E quem não gosta? Aquele sorriso! Aqueles olhos! — Ele é baixinho — Lily opinou ao desligar o telefone e retomar seu lugar no sofá. — Prefiro homens mais altos. Altos, fortes e meio selvagens. — Não brinque! — exclamou Júlia. Mas Emily e todas as outras sabiam que ela estava sendo sarcástica. Lily sempre fora específica sobre o homem com quem se casaria. Embora nunca houvesse admitido, a imagem da perfeição correspondia a Jesse Hyatt, um ex-colega de escola. Infelizmente, ele nunca sequer olhara para Lily, mas ela ainda o considerava a personificação da perfeição masculina. — Eu tenho certos padrões — Lily apontou com falsa prepotência. — Padrões que, infelizmente, vocês desprezam. Todas assobiaram e vaiaram ao mesmo tempo. Emily riu. — Pelo amor de Deus! Ouvir tal coisa de uma mulher que foi nocauteada aos dezesseis anos! — JT é a melhor coisa que já me aconteceu — Lily respondeu séria. Pelo tom de voz, Emily percebeu que a amiga sentia necessidade de recuar nas

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh brincadeiras. Na maior parte do tempo Lily fazia piadas com todas elas sobre sua família nada ortodoxa, mas em alguns momentos, como quando bebia um pouco demais, tornava-se defensiva. — Desculpe-me. — Emily levantou-se para ir buscar alguns biscoitos. Cada uma levara comida suficiente para o final de semana, e pelo que vira até aquele momento, Emily desconfiava de que não haveria um único nutriente à mesa. Todas se concentraram em três grupos básicos de alimentos: chocolates, bolachas e doces. — Sabe de uma coisa? — Júlia disparou pensativa. — Talvez não se apegasse tanto a esse ideal se pudesse sair ao menos uma vez com Jesse Hyatt. Talvez não saiba, mas não vai recuperar sua virgindade, mesmo que passe o resto da vida se reprimindo. — Não estou me reprimindo. O problema é que ainda não conheci o homem certo. — Pelo menos não é a única — Hope suspirou. — Uma de nós já devia ter encontrado o príncipe encantado, não? 'Zoey assentiu. — Ou um sapo que pudesse ser transformado, pelo menos. Sam balançou a cabeça. — Deve estar brincando, Zoey. Só pode estar. Encontrar um parceiro de vida é a decisão mais importante da vida de uma mulher. Não devia agir como se tudo fosse uma grande piada. Hope sorriu para Emily. — Pena que o homem ideal de Sam seja velho demais para ela. E casado. — De quem está falando? — quis saber Sam. — De Bob Villa, é claro. Juntos, montariam uma casa sem comprar um único objeto. Você tricotaria as colchas, ele construiria o forno... Seria a união perfeita. — Só porque tenho habilidades manuais... — Habilidades manuais? Você devia ter uma escola de artesanato! — Olhe só quem está falando! Não sou eu quem vivo dizendo que todos deviam ser iguais a mim! — Ei! — Emily interferiu com firmeza levando as mãos aos quadris. Mas, em vez de recitar o sermão que as amigas mereciam ouvir, ela apenas notou que seus quadris eram os maiores do grupo. Hope, Lily e Samantha eram proporcionais. Júlia era magra demais, embora comesse como um animal selvagem, e Zoey era exuberante, apesar de considerar-se gorda. Mas ela não era gorda. Emily era. Não era nenhuma obesa mórbida, mas podia perder algo em torno de dez ou quinze quilos. Devia perder... — Emily? — Hope chamou, interrompendo seus pensamentos. — Sim? — Não devia estar gritando conosco? — Oh, sim. Parem com isso. Todas riram, e o clima voltou a ser relaxado e divertido como antes. Mas Emily teve de forçar o sorriso. Não podia passar ao menos um final de semana sem sofrer com aquela maldita obsessão por peso?

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh Não. Especialmente depois da notícia que ouvira naquela manhã. Era melhor contar às outras de uma vez. Mas, antes, precisava de mais um biscoito antes de retomar seu lugar. Enquanto Emily enfiava a mão no pacote, Lily se servia de mais um daiquiri. — Tenho um anúncio a fazer. O tom baixo e tenso de Emily silenciou o grupo. Todas olhavam para ela, e podia sentir o rosto quente. Odiava corar, mas essa era outra característica sobre a qual não tinha controle. — O que é? — Sam perguntou curiosa. — Scott Dillon está voltando à cidade. Silêncio. Um silêncio realmente longo. Hope olhou para Sam. Lily olhou para Júlia. Zoey olhou para Emily, que abaixou a cabeça. — Quando? — perguntou Lily. — Amanhã. — O quê?! — Todas gritaram ao mesmo tempo. — Acalmem-se, por favor! — Emily reagiu irritada. — Eu estou bem. Não é tão importante assim. — Não é? — Zoey duvidou. — Por que demorou tanto para contar a novidade? — Porque acabei de descobri-la. — Nos últimos cinco segundos? — Não. Hoje de manhã. — Continue. — Zoey encheu um copo com água. — Quero toda a história. — Kelly me contou que a mãe de Scott tem encontrado dificuldades para administrar a loja depois da morte do marido. Scott vai voltar para ajudá-la até que pensem em outra solução. — Kelly? — Hope olhou para Lily. — Ela não é namorada de Jeff Whaley? — Exatamente. A que tem aquele emprego estranho. Júlia balançou a cabeça para as duas fofoqueiras. — Esse não é o assunto principal. Emily respirou fundo. Teria preferido que as amigas continuassem discutindo o emprego de Kelly. Scott Dillon não era seu tópico preferido, pelo menos fora das fantasias e dos sonhos. Felizmente não tinha de oferecer explicações detalhadas. Todas sabiam que fora louca por ele desde o fim da escola fundamental. Ele havia sido Romeu na dramatização de final de ano, e ela ficara com o papel de Julieta. A atração infantil e inocente ganhara a força de uma paixão incontrolável. Ah, como sofrerá quando ele levara Cathy Turner à festa de formatura! Suas amigas tiveram a decência de não mencionar que ela jamais tivera a menor chance com Scott Dillon. Um homem lindo como ele, capitão do time de futebol, presidente da turma, jamais pensaria numa menina como ela em termos românticos. O mundo não funcionava assim. Ela era a amiga, o ombro sólido, aquela que sempre ia descobrir se as Cathy Turner da vida estavam interessadas nos Scott Dillon. Mas nunca era a namorada. O amor. Não com suas bochechas rechonchudas e seu quadril

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh avantajado. — E então, o que vai fazer? — Zoey perguntou. — O que poderia fazer? — Convide-o para sair. Emily gargalhou. — É claro. — Não estou brincando. Ele sempre gostou de você, Emily. Quero dizer, Scott ainda telefona, não? — Sim, ele telefonou há um século, mais ou menos. Como amigo. Mais nada. — Agora ele é mais velho. Mais maduro. — E deve estar saindo com mulheres mais velhas e mais maduras. Modelos, talvez. Eu jamais teria chance... — Não pode ter certeza disso. Pode acontecer, não? — Não — Emily respondeu com um suspiro. — Mas teria sido maravilhoso. — O quê? — Uma noite. Uma noite perfeita. Champanhe, lua cheia, música, flores... Eu teria ficado feliz com isso, sabem? Com a lembrança. Ninguém disse nada por um momento e, mais assustador ainda, ninguém comeu nada por esse tempo. Emily imaginou que todas deviam estar pensando em seus sonhos secretos, naqueles desejos eternos por coisas que jamais poderiam acontecer. Acabaria superando. Sabia disso. Era especialista em cair de pé. — Muito bem — disse, decidindo que era hora de mudar de assunto. — É hora de vestirmos nossos pijamas e escolhermos alguém de quem possamos falar. — Hein? — Shh. Sam piscou, tentando entender o que ouvia. Estava escuro demais para enxergar alguma coisa. — Venha — Hope cochichou. — E não faça barulho. Sam levantou-se do colchonete que conquistara no jogo de Pedra, Tesoura e Papel. Não era a cama, mas pelo menos também não era o chão. Hope a conduziu até o banheiro da suíte, embora fossem quase quatro horas da manhã. O que estava acontecendo? Uma vez no interior do banheiro, Hope fechou a porta e acendeu a luz. Todas estavam lá. Todas, exceto Emily. Zoey usava seu pijama do Pernalonga. Lily vestia uma camiseta imensa que anunciava a mais nova novela de Stephen King. Júlia preferira uma camiseta cortada e um short, um traje que deixava à mostra o abdome plano e as pernas bem torneadas. E Hope? Ela usava um pijama masculino. A camisola conservadora de Sam parecia aborrecida e sem graça no meio de tantas variações. — Muito bem, aqui vai a proposta — Hope começou animada. — Vamos dar a Emily o que ela quer ter. — Uma boa noite de sono? — tentou Zoey. — Não. Uma noite com Scott Dillon. Uma noite perfeita. Sam abriu a boca, e não foi a única a reagir com espanto.

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh Todas, exceto Hope, se mostravam chocadas. — Você enlouqueceu? — perguntou Lily. — Ela nos mataria! — Zoey complementou. Júlia sentou-se sobre a tampa do vaso sanitário. — O que podemos fazer? Hipnotizar o sujeito e convencê-lo a sair com ela? Comprá-lo e entregá-lo numa caixa de presente? Hope sorriu. — Duvido que tenhamos de ir tão longe. Se agirmos corretamente, Scott Dillon convidará Emily Proctor para sair sem que seja necessário exercermos pressão. — Por que, se ele nunca se interessou por Emily? — Lily lembrou. — Porque vamos transformar nossa pequena Emily na criatura mais sexy e atraente que aquele sujeito que já viu. Ninguém disse nada. Alguém, Zoey, provavelmente, soluçou. — E então? — Hope insistiu. — Somos ou não somos As Amigas? — Somos — Zoey respondeu. — E prometemos ou não ajudarmos umas às outras? — Prometemos — concordou Sam. — Mas... — Nada de mais — Hope cortou. — E possível realizarmos minha proposta. E sabem o que vai acontecer? Emily sairá dessa experiência com tanta confiança e autoestima, que poderá conquistar todos os homens que desejar. Scott Dillon, George Clooney... Qualquer um. — Não acha que está sendo muito otimista, Hope? — Talvez, Júlia, se eu estivesse trabalhando sozinha. Mas somos nós! Todas nós! Podemos fazer qualquer coisa. — Só mais uma pergunta. E se Emily disser não? — Faremos com que ela diga sim. Os troféus do futebol estavam alinhados em simetria perfeita, polidos, exatamente como os deixara há nove anos, quando saíra da casa dos pais a caminho do Texas, para a A&M. Scott olhou para a parede, para os quadros e as fotos, as flâmulas verdes, enfim, todas as recordações de Sheridan High, coisas que os pais preservaram como se compusessem um valioso tesouro. Havia sido um tempo muito bom. Um tempo importante. Mas seguira em frente. Pelo menos tentara progredir. Scott olhou para a mala aberta sobre a cama e começou a guardar as roupas nas gavetas, sentindo a culpa devorá-lo por dentro, Não queria estar ali. Estava no patamar mais alto, a um passo de uma carreira de sonhos depois de anos de decepções. Destinado, finalmente, a reconquistar a antiga glória. Mas, em vez de preparar-se para uma entrevista na ESPN, estava em seu antigo quarto, em sua antiga cidade, em sua antiga vida. Não era justo. Mas, como o Treinador Teller sempre dizia, nada é justo, exceto um belo dia de primavera. O treinador. Pelo menos poderia ir visitá-lo. Já era um consolo. Ouviu os passos da mãe no corredor, os chinelos rangendo sobre o piso de madeira. — Scott?

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh — Sim, mãe? — Ele fechou a última gaveta e forçou um sorriso antes de encará-la. Puxa, ela havia envelhecido. Mais do que deveria. Era assustador. Nascera quando os pais já eram maduros, a mãe com quarenta e um anos, o pai com quarenta e cinco. A mãe sempre tivera mais energia do que qualquer pessoa que conhecesse, mas agora ela caminhava com dificuldade. Levara muito tempo para subir a escada. Desistira de tingir os cabelos, que agora eram brancos, em vez de louros avermelhados, como se acostumara a vê-los. A parte vibrante de seu ser desaparecera, e Scott queria muito ajudá-la a recuperar essa porção tão vital. O declínio começara com a morte de seu pai. Ela amava o marido, e Scott tinha a sensação de que seu sonho era juntar-se a ele. Mas não devia pensar nisso. Não enquanto tivesse um filho para cuidar. — Fiz torta de repolho para o jantar — ela anunciou. — Vai me deixar mimado! Ela sorriu, e as rugas em torno de seus olhos o impediram de retribuir o sorriso. Como poderia deixá-la sozinha? — Tem tudo de que precisa? — Sim, como sempre, mãe. — Esta é sua casa. Sempre será. Sabe disso, não? Sua mãe nunca fora uma dessas mulheres grandes e exuberantes, mas parecia ter encolhido com o passar dos anos, de forma que, ao abraçá-la, Scott descobriu que o alto de sua cabeça não chegava a tocar seu queixo. Ele a envolveu com cuidado, temendo machucá-la com a força dos braços. A pobrezinha perdera muito peso. Por um momento ficaram em silêncio, abraçados, trocando afeto e consolo. Scott sabia que era responsável por aquela mulher, como ela fora responsável por ele durante todos os anos em que estivera crescendo. Sua mão se recusava a vender a loja, e não se sentia capaz de administrá-la. Sendo assim, restava ele. Em vez de ser o mais novo comentarista esportivo da ESPN aos vinte e seis anos de idade, seria o gerente da Dillon's Market. Nada era justo, exceto um belo dia de primavera. — Você enlouqueceu? Hope balançou a cabeça. — Confesse Emily. Você sabe que vai ser bom. — Não quero nem saber! — Ela pulou da cama e pegou as roupas, ansiosa para tirar a camisola e encerrar aquela conversa. — Está mentindo — Hope acusou enquanto a seguia até o banheiro. — Será uma grande aventura, e você precisa de um pouco mais de emoção. — Uma aventura no terreno da humilhação? Não, obrigada. — Quem disse alguma coisa sobre humilhação? Emily não podia acreditar que a amiga fosse estúpida. Por outro lado, Hope era uma eterna sonhadora, razão pela qual não conseguia enxergar os aspectos negativos de seu plano. Mas Lily tinha os pés no chão. Sam era prática, e Zoey compreenderia que o que tramavam era um desastre, embora também tivesse seus momentos de devaneio. — Vou tomar uma ducha, e quando sair não quero mais ouvir falar sobre isso. Capiche? Hope tentou falar, mas Emily bateu a porta do banheiro e trancou-a por dentro. De

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh todas as loucuras... Ela deixou as roupas limpas sobre o balcão, abriu o chuveiro, despiu a camisola... e se deparou com o espelho. Oh, Deus! Não que fosse horrível. Mas era tão sem graça! Cabelos e olhos castanhos não seria um grande problema, não fosse o queixo duplo que prejudicava o formato do rosto. Quanto ao resto... Um metro e sessenta de altura e quase setenta e dois quilos de peso! Queria chorar. Em vez disso, deu as costas para o espelho e entrou no chuveiro. O banho ocupou sua mente por alguns minutos, mas, se não se acalmasse, acabaria arrancando a própria pele. Melhor contentar-se em ficar parada sob o jato de água morna. Talvez assim pudesse relaxar. As garotas acreditavam poder transformá-la como se fosse Cinderela na noite do baile, mas sabia que isso era impossível. Não tinha os requisitos básicos para ser bela. Mesmo que perdesse todo o peso extra, comprasse roupas novas e mudasse o estilo dos cabelos e da maquiagem, ainda seria a velha e ordinária Emily Proctor. E Emily Proctor nunca chamaria a atenção de Scott Dillon. Por que se incomodar? Emily fechou os olhos e pensou nas palavras que haviam brotado de seu cérebro. Por que se incomodar? Se não podia ter Scott Dillon, por que se incomodar? Céus! Era ela a maluca, não suas amigas. Que tipo de escolha de vida era essa? Não merecia nenhum esforço? Só por ser quem era? Por ser ela? Não. A resposta havia sido não por toda sua vida. Por não poder ser linda como Júlia, charmosa e brilhante como Hope, elegante como Sam, inteligente como Zoey ou corajosa como Lily, desistira de viver. Covarde! Essa era a melhor palavra para descrever sua atitude. Passava todo o tempo escondida no único lugar onde havia morado, devorando toneladas de chocolate em vez de participar do banquete da vida. Perdera o jogo antes de ele ter começado. Não podia ter Scott Dillon. E daí? Se não fizesse alguma coisa por si mesma, jamais seria Emily Proctor. Não a Emily Proctor que devia ser. Aos vinte e seis anos, não tinha a menor idéia de quem deveria ser. Professora? Sim, mas isso não descrevia toda sua personalidade. Professora de teatro para alunos do ensino médio? Mais uma vez, não era o suficiente. Amiga. Sim, esse era um item muito importante. Filha? É claro. Mas cada definição que encontrava descrevia uma porção externa de seu ser. Uma parcela do que mostrava ao mundo. Quem era ela? Quem era a mulher que estava ali naquele momento, nua sob o chuveiro do Sheridan Holiday Inn? Lágrimas rolaram por seu rosto misturando-se à água do banho. Logo sua vida teria o mesmo destino. Seria levada sem deixar traços. E só ela poderia fazer algo para impedir que isso ocorresse. O que tinha de mais próximo era, como Hope descrevera, o programa Scott Dillon de dieta, exercícios e tratamento de beleza. Com o apoio emocional, físico e espiritual de As Amigas. Não devoraria mais pacotes de batatas fritas no carro. Não tomaria mais um pote

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh de sorvete no meio da noite. Faria exercícios e não desistiria da ginástica, mesmo quando ela fosse desagradável. Tinha de reconhecer seu corpo, seu estilo de vida e sua solidão para poder fazer alterações. Algo estranho aconteceu em seu estômago. Medo. Não, não era só isso, Excitação. Sim, sentia-se excitada. Talvez nunca pudesse ter Scott, mas poderia ter uma vida. E talvez, se aprendesse a amar e respeitar a si mesma, um dia pudesse encontrar alguém que a amasse.

CAPÍTULO II O sinal soou anunciando o intervalo. Vinte e um exemplares de Romeu e Julieta se fecharam ao mesmo tempo. Era inútil prosseguir. Os alunos só esperavam que ela desse a orientação necessária para o dever de casa e os dispensasse. — Leiam da página dezoito à página trinta, e depois façam uma redação de duas páginas sobre o relacionamento entre os Montéquio e os Capuleto. Um gemido coletivo precedeu o ruído das cadeiras sendo arrastadas. Todos pareciam apressados para deixarem a sala de aula, mas Emily não estava aborrecida, como costumava acontecer. Não. Naquele dia tinha planos próprios. O quarto dia do programa começara mal. Tola, iniciara os exercícios físicos com muito vigor, e os músculos, particularmente os das pernas, eram testemunhas de sua tolice. Emily levou dez minutos para recolher todo o material e arrumar a sala de aula. Infelizmente, tinha muitos exercícios e trabalhos para corrigir. Mas depois do intervalo seria a vez da aula de teatro, e não queria deixar tudo espalhado. Emily ouviu o acidente antes que ele acontecesse. Solas de borracha derrapando no piso. Passos apressados vindo em sua direção como um trem desgovernado. Infelizmente, era tarde demais para sair do caminho, e ela fechou os olhos e esperou pelo choque inevitável. Os livros voaram de suas mãos. Emily tentou manter o equilíbrio, mas foi impossível, e ela caiu sobre a lateral direita do corpo. O aluno, alguém que não conhecia, nem parou para pedir desculpas. Simplesmente continuou correndo para o fim do corredor, para a saída. Gretchen Foley olhava para ela com ar assustado, as mãos na porta do armário do corredor. — Tudo bem, srta. Proctor? .— Sim, Gretchen, eu estou bem. — Quer ajuda para ir à enfermaria? — Não, obrigada. Gretchen encolheu os ombros, fechou o armário e seguiu para a lanchonete sem se dar ao trabalho de ajudá-la a recolher os papéis. Qual era o problema com aqueles garotos? Haviam sido criados na selva? Naquele momento uma mão masculina surgiu do nada, estendida diante dela. Emily suspirou, feliz por constatar que ao menos um aluno da escola ainda se preocupava

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh com educação e boas maneiras. Ela levantou a cabeça para descobrir quem era seu salvador e sentiu o coração parar de bater. Scott Dillon! Oh, Deus! Qualquer um, menos ele! Fizera todo o esforço para evitálo. Não queria que ele a visse naquele estado. Especialmente no estado em que encontrava! Ele franziu a testa, aproximando as sobrancelhas de desenho perfeito. — Tudo bem? A resposta foi um movimento afirmativo de cabeça. Sabia que não seria capaz de falar. O que mais poderia fazer, se não aceitar a mão estendida e rezar para que ele não tivesse uma hérnia depois de levantar seu peso do chão? Para seu alívio, Scott nem precisou se esforçar muito. — Ei! — ele exclamou ao vê-la em pé. — Não sabia que era você! — Sou eu. — É surpreendente. O que faz aqui? — Trabalho na escola. — Sim, é verdade. Agora lembro. — Ele balançou a cabeça, e Emily não soube se o espanto se devia ao fato de ela ainda estar vivendo em Sheridan, ou por ter ido lecionar no mesmo local onde haviam se formado. Mas Scott não ficou parado por muito tempo. Em vez disso, abaixou-se e começou a recolher os livros e papéis. — É um prazer revêla. Como tem passado Emily? — Bem — mentiu. — Você está ótimo. — Agora dizia a verdade. Ele estava mais lindo do que se lembrava, e devia ter crescido vários centímetros desde que partira. Os cabelos escuros e ondulados conferiam um ar rebelde ao rosto de traços harmoniosos, e olhos cor de chocolate brilhavam emoldurados por cílios longos e encurvados. E aquele sorriso... Ficara fascinada por ele desde a primeira vez. Scott entregou os papéis e olhou para o fim do corredor. — Marquei um encontro com o treinador na lanchonete e já estou atrasado. — Não se prenda por mim. — Mas... você precisa de ajuda com esses livros. — Bobagem! Estou acostumada a carregá-los. Agora vá. Sei que o treinador detesta esperar. Foi bom vê-lo outra vez. — Foi mesmo. Temos de tomar um café juntos qualquer dia desses. Emily assentiu, mas ele não viu, porque já se afastava na direção da lanchonete, caminhando pelo mesmo corredor por onde seus olhos o seguiram no passado. Cinco dias por semana, sempre o amando à distância. No mesmo corredor onde ele beijara Cathy Turner, sem saber que estava partindo seu coração. O sorriso desapareceu de seus lábios. Devia estar orgulhosa do tom controlado, do comportamento normal e calmo, apesar do tumulto que a dominava por dentro. Ele a vira em um de seus piores momentos. Esparramada no chão como uma ameba gigante, braços e pernas abertos, cabelos em desalinho, e conseguira até perder um sapato. Perfeito. Uma reunião de conto de fadas, se algum dia testemunhara uma delas. Conseguira estragar tudo antes mesmo de começar... Scott correu pelos corredores familiares, lamentando não ter chegado um pouco

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh mais cedo para saborear as lembranças. Como Emily apontara, o treinador detestava esperar. Emily Proctor. Não esperava vê-la novamente. Surpreendera-se ao descobrir que ela permanecera em Sheridan. Ela era tão brilhante, que havia imaginado a velha amiga em Nova York, escrevendo livros ou participando da política local. Ela devia ser uma excelente professora. Seus alunos tinham sorte. De vez em quando pensava nela. Nas conversas que tinham quando eram alunos daquela escola. Em como havia esperado ansioso pelas aulas com ela. Ao passar pelos vestiários e ver os cartazes nas paredes, os avisos e os alunos com mochilas nas costas, sentiu o cheiro do lugar e voltou no passado. Havia algo de engraçado naquele aroma. Nunca o percebera quando freqüentava a escola, mas quando passara pela porta do prédio, minutos antes, ele tomara de assalto seus sentidos. A combinação de corpos jovens e suados, perfume, meias de ginástica, livros, giz... Era ò perfume de sua juventude. O cheiro da saudade. A grama ainda estava úmida, o que tornou a situação ainda pior. Ninguém devia estar fora da cama àquela hora, muito menos fazendo abdominais na grama molhada da pista de atletismo do ginásio. Só mais três. Emily olhou para Hope com rancor, o que era muito fácil, considerando sua atual posição. Ela se mantinha sentada sobre seus joelhos enquanto contava os abdominais. O que Hope não sabia era que só estava viva porque Emily não tinha força suficiente para matá-la com as próprias mãos. — Vamos, você vai conseguir. — Vá... — Emily fez um enorme esforço para erguer o corpo dolorido apoiando-se apenas no abdome. — Pará... — Ela encostou os cotovelos nos joelhos e começou a retornar ao chão lentamente. Mas, em vez de manter a cabeça alguns centímetros longe do solo, despencou. — O inferno — concluiu ofegante, porém orgulhosa por ter se esforçado. Hope levantou-se de um salto e estendeu a mão para a amiga, que a agarrou como havia feito com a de Scott dois dias antes. — Eu o vi — ela contou. — Como disse? — Eu o vi. — Viu quem? Emily suspirou. — Scott Dillon. Lembra-se dele? O motivo de toda essa tortura. — Oh, ele... Está brincando! Como? Onde? O que ele disse? — Preciso tomar um banho. — De jeito nenhum. Ainda temos duas voltas em torno do campo do futebol antes de encerrarmos a sessão. — Por que está falando no plural? Eu não vou fazer mais nada que... Hope agarrou-a pela camiseta e puxou-a de volta à pista. Algumas pessoas já corriam em torno do campo, embora fossem pouco mais de seis horas da manhã de um

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh sábado. Alguns eram professores, mas a maioria do grupo era composta por estudantes, quase todos musculosos, bronzeados e invejáveis em seus shorts minúsculos. Mas Emily... Ninguém jamais olhava para suas coxas. Nunca. Ela começou a correr, se é que podia chamar aqueles passos trôpegos de corrida. Na realidade estava andando depressa e mancando. Mas Hope soltou sua camiseta, o que já ajudou bastante. — Agora fale. Pare de fazer suspense. — Não foi nenhuma maravilha, Hope. — Por que não? — Eu estava sentada no chão no meio do corredor da escola, perto da minha sala de aula. Hope parou. Emily passou por ela correndo. Ou tentando correr. — Oh, não. — Oh, sim. — Por que estava sentada no chão? — Ioga. — Estava cansada demais para ser sarcástica. Depois de engolir algumas doses de ar, ela reduziu o ritmo dos passos até quase se arrastar pela pista. - Um aluno, e imagino que tenha sido Tommy Wells, se chocou contra mim, e eu cai. — E daí? — Scott me ajudou a ficar em pé. — Não é incrível? Seus olhos encontraram os dele e... — Foi humilhante. Eu estava horrível, numa posição lamentável, e ele nem se abalou. — Quer dizer que ele não a reconheceu? — Oh, sim, ele se lembrou de mim. Mas não reagiu. Não como se houvesse encontrado alguém especial. — Tem certeza? — Eu estava lá. — Ah... Correram em silêncio por um tempo. Emily podia ter dito mais alguma coisa, mas os pulmões estavam ocupados com a tentativa desesperada de respirar e salvar sua vida. — Aposto que houve mais. Você não viu, só isso. Não percebeu. — Não houve mais nada. — Não acredito nisso. Emily não discutiu. Mas moveu-se para a direita ao ouvir passos que se aproximavam apressados. E também levantou a blusa de moletom para enxugar o suor da testa. — Ei! — O corredor estava passando por ela. Oh, não! — Emily! Não sabia que corria. Ela sorriu para Scott, que parecia ter saído de um anúncio de material esportivo com aquele tórax perfeito e os cabelos desalinhados pelo vento. Pensou nos próprios cabelos, presos de qualquer maneira por uma fita de tecido absorvente. Sabia que algumas mechas se soltaram e estavam grudadas em sua testa suada. A roupa fora escolhida com o mesmo cuidado com que se penteara, e na frente da camiseta Bart

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh Simpson gritava: "Não Tenha Uma Vaca!". — Olá, Scott — Hope cumprimentou-o sorrindo, parecendo bonita demais para as circunstâncias. — Hope? Uau, esta é mesmo a semana dos reencontros. Também continua vivendo aqui? — Pergunto a mim mesma por que insisto nisso todas as manhãs, mas ainda moro aqui. Ele riu e reduziu a velocidade para acompanhar o ritmo de Emily. Por mais que tentasse, ela não conseguia melhorá-lo. Sabia que era melhor ir mais devagar do que sofrer um infarto nos próximos trinta metros. Por outro lado... — Lembra-se daquele café sobre o qual falamos no outro dia? — Scott perguntou. Ela assentiu, sem saber se conseguiria continuar correndo e falando ao mesmo tempo. — Ótimo. Amanhã? Não trabalha aos domingos, certo? Dessa vez Emily fez um movimento negativo com a cabeça. — Vou ter de trabalhar, mas posso parar um pouco por volta das quatro, se estiver livre nesse horário. Mais uma vez ela assentiu. Com esforço, acrescentou um sorriso ao movimento. — Perfeito. Eu telefono para você. Seu número está no catálogo? Mais um movimento afirmativo com a cabeça. — Certo. — Scott olhou para Hope. — Foi bom revê-la. — Obrigada. — A voz dela soava tão normal quanto a dele. — É bom tê-lo de volta. — Boa corrida — ele desejou, aumentando a velocidade e deixando a dupla de amigas para trás. Pelo menos Emily tinha algo fantástico para olhar enquanto ele se afastava. Continuava movendo as pernas, balançando os braços, o tempo todo pensando em um plano de fuga. Na próxima curva da pista, correria para o vestiário feminino, e não se deteria enquanto não estivesse trancada lá dentro, sã e salva. Incapaz de ir tão longe, Emily correu para um dos bancos dos treinadores e caiu sobre ele, os pulmões em brasa, as pernas moles como gelatina, o rosto tão quente que poderia fritar um ovo sobre a própria testa. — Oh, meu Deus! Quais são as chances? Bem, ele a convidou para sair. Já é um bom começo. Emily olhou para o rosto de Hope. Por que ela não suava? — Do que está falando? — Ele a convidou para sair. Eu ouvi. E você aceitou o convite. — Só para esclarecer as coisas por aqui, eu não disse nada. E não vou tomar café com Scott amanhã. Hope sentou-se ao lado dela no banco. — Essa sua decisão é totalmente inaceitável. Vai encontrar Scott nem que eu tenha de arrastá-la pelos cabelos até a cafeteria. — Tem um exército para ajudá-la nessa missão? — Lily, Sam, Zoey, Júlia... — Você está certa. Por que não? Vou aceitar o convite de Scott. Tomaremos café,

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh conversaremos, e farei o possível para deixar todas as minhas expectativas em casa.

CAPÍTULO III Scott entregou à Sra. Newberry o pacote com feijões verdes e forçou um sorriso. A recompensa imediata de um sorriso mais genuíno e radiante não serviu para melhorar seu humor. Não conseguia deixar de pensar na passagem aérea em sua pasta. Primeira classe, de Los Angeles a Bristol, Connecticut. O avião estaria voando naquele exato momento, mas outro passageiro ocupava o assento que teria sido seu. — Os tomates estão maduros? Uma voz estridente soou atrás dele. Scott virou-se e viu Dora Weeks, uma das melhores amigas de sua mãe. As duas tinham a mesma idade, mas, naquele momento, Dora parecia muitos anos mais jovem. Era pequenina, com menos de um metro e sessenta de altura, e seus cabelos brancos estavam presos. O que havia de maior nela eram os óculos. As lentes eram tão espessas que tornavam os olhos estranhos, como se tivessem o dobro do tamanho real. — Sim, Sra. Weeks, estão maduros. — Não muito, espero. — Não. Se quiser, posso ajudá-la a escolher os melhores tomates. Ela assentiu. — Seu pai sempre escolhia os tomates para mim. — Ele era bom nisso. — Scott sentiu uma estranha a inesperada pontada de dor no coração. Dora Weeks pagou pelas compras e saiu. Scott voltou ao corredor dos pães para certificar-se do que devia ser reposto. Para uma manhã de domingo, a loja estava bem cheia. Eram apenas nove e meia, e várias pessoas percorriam o espaço dividido em alamedas estreitas. Eram vizinhos, velhos conhecidos da infância e da adolescência, gente que o vira nascer e crescer. Notou Jack Gates, que finalmente se aposentara depois de ter passado a vida trabalhando na loja de ferragens. Lembrava-se de quando Jack o ajudara a construir uma casa de cachorros para Knute, o velho labrador. Knute havia morrido há quinze anos, mas a casa do cachorro, ainda no quintal, parecia sólida, embora envelhecida. Como o próprio Jack. Aura Lee Merchant estudava a prateleira de molhos para salada, o corpo todo tremendo por conta da doença de Parkinson. Ela havia sido professora na Escola Elementar de Sheridan, embora nunca houvesse estado em sua sala de aula. Ted Cooper, a Sra. Freed, Karen Crane... Todos eram clientes da loja há anos. Nunca haviam trocado o velho mercadinho por supermercados. Apreciavam o atendimento personalizado e, mais que isso, gostavam da sensação de continuidade. Pelo menos era essa sua teoria. Mas, quaisquer que fossem os motivos daquela gente para continuarem comprando na loja que fora de seu pai, eles deixariam de freqüentá-la se as coisas não melhorassem por ali. O pão francês estava acabando. Os pães de forma também

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh chegavam ao fim. Precisava telefonar para os fornecedores e descobrir o que estava acontecendo. Um rapaz, uma presença surpreendente no pequenino mercado freqüentado por pessoas idosas, aproximou-se dele com evidente hesitação. — Sr. Dillon? — Sim, sou eu mesmo. O jovem tossiu. Limpou as mãos suadas na calça jeans. A julgar por sua aparência, devia ter cerca de treze anos. A camisa no estilo vaqueiro havia conhecido tempos melhores, mas estava limpa. — Meu nome é Jeff Grogin. — Como vai, Jeff? O rapaz estendeu a mão. Scott apertou-a, imaginando se aquele seria o próximo repositor da loja. — É verdade que participou de vários campeonatos estaduais como atacante e marcou muitas dezenas de gols? Um fã. O menino era jovem demais para tê-lo visto jogar. Mas, em uma cidade daquele tamanho, sua carreira de jogador de futebol era mais do que conhecida. — Sim, é verdade. O menino piscou algumas vezes. — Também jogo futebol. — É mesmo? — Sim, sou integrante do Tigers. Jogo na posição de zagueiro. — Quantos anos você tem? — Dezessete, senhor. De repente Scott teve a sensação de ser muito velho. — Bem, o que posso fazer por você? — Estava pensando se gostaria de... Bem, se aceitaria tomar um refrigerante, ou coisa parecida. Scott levantou uma sobrancelha. — Está me convidando para sair com você? É um encontro? — Não! — Bobby estava vermelho como um dos tomates que Scott escolhera pouco antes. — Quero dizer, não, senhor. Só estava imaginando se... Ele fez um gesto para interromper as explicações do rapaz e sorriu, tentando demonstrar que estivera apenas brincando. — Eu sei o que quis dizer. E aceito seu convite para um refrigerante. No entanto, hoje não estarei disponível. — Quando for possível, senhor. — Mas não poderemos conversar de verdade se continuar me chamando de senhor. Entendeu? — Sim, senhor. Quero dizer... — Scott. É esse o nome que deve usar quando se dirigir a mim. O menino, alguém em cuja idade Scott ainda não conseguia acreditar, sorriu como se houvesse recebido a notícia de que ganhara um carro novo num concurso. — Certo. Talvez amanhã? Ou na terça-feira. Terça seria perfeito.

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh — Você parece dispor de tempo livre. — Oh, sim, muito. Quero dizer, entre os treinos, as aulas e o dever de casa... — Gostaria de falar sobre futebol três, talvez quatro vezes por semana? O menino arregalou os olhos até que eles tivessem quase o mesmo tamanho dos da Sra. Weeks. — Puxa! Está falando sério? Scott fez um movimento afirmativo com a cabeça, — Preciso de um repositor para trabalhar na loja em regime de meio período. — Está me oferecendo um emprego? — Exatamente. Um emprego. — Uau! Bem, preciso me certificar de que o horário não interferiria nos treinos. O treinador diz... — Sei tudo que o treinador costuma dizer. Por que não volta amanhã com todos os seus horários? Tenho certeza de que encontraremos um jeito de encaixar o trabalho na loja em sua agenda. Conversaremos enquanto tomamos aquele refrigerante. Bobby assentiu entusiasmado. — Combinado, Scott. — Ele pronunciou o nome como se estivesse sublinhado. Foi a vez de Scott estender a mão. O garoto aceitou o cumprimento com um gesto quase eufórico e, depois sacudir a mão do antigo jogador como se quisesse livrá-la de muita poeira, soltou-a e partiu. Scott voltou ao corredor dos pães sem saber o que pensar sobre aquela breve conversa. Estava feliz com a possibilidade de ter alguma ajuda na loja, mas não se sentia confortável quando alguém o tratava com tanta formalidade. Senhor? E também não queria falar sobre futebol. Não muito, pelo menos. Não queria ser um daqueles sujeitos que se sentavam em bares e falavam sobre os dias de glória. Não aos vinte e seis anos. Scott olhou para o relógio de pulso. Ainda faltava uma hora até que pudesse sair dali. Iria encontrar Emily. Seria ótimo. Dentre todas as pessoas que conhecia em Sheridan, Emily e o treinador eram as duas que mais respeitava. O treinador, por ser o melhor estrategista de futebol que o ginásio local já tivera. E Emily? Emily, porque... Bem, porque ela era Emily. Enquanto caminhava para o estoque nos fundos da loja, imaginou se ela teria se casado. Provavelmente. Homens espertos nunca deixavam escapar mulheres como ela. Emily viu a rachadura no esmalte da unha no mesmo instante em que Scott se aproximou da mesa. Ela sorriu como se tivesse uma manicure perfeita. Ele se sentou com um suspiro. — Parece cansado — disse. — E estou. — Ele chamou o garçom, que se aproximou imediatamente. — Quero uma cerveja — disse. Depois olhou para Emily. — Chá gelado, por favor. O garçom assentiu e foi providenciar as bebidas. Restaram apenas ela, Scott e aquela ansiedade que a invadia. Cansado ou não, ele ainda era capaz de afetá-la. Muito. Parte dela desejava contar como o amara no passado, quando eram apenas dois alunos do ginásio. Mas a sanidade felizmente apareceu para protegê-la contra a inevitável

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh humilhação. — E então, Scott? — ela perguntou, direcionando a conversa no sentido mais adequado e propício. Menos perigoso. — Por que está tão cansado? Ele balançou a cabeça, e sua atenção foi desviada para os cabelos escuros e curtos. Como gostaria de tocá-los e testar a aparente maciez! : — A loja está exigindo mais trabalho do que eu imaginava. — Fiquei muito triste quando soube sobre a morte de seu pai. — Imagino que todos tenham sentido. Mas ninguém sente mais falta dele do que eu. — É claro que não. — Era estranho. Apesar do nervosismo provocado pela presença de Scott Dillon, ainda era fácil conversar com ele. Jamais teria imaginado que poderiam resgatar a camaradagem do passado tão rapidamente. — E aposto que sua mãe também sente falta do marido. — Oh, sim. Ela está enfrentando um período muito difícil. — E maravilhoso que tenha conseguido voltar para apoiá-la. Ele desviou os olhos dos dela, a mandíbula subitamente tensa. Scott empurrou o cardápio para o outro lado da mesa e cruzou os dedos das mãos sobre a toalha branca. — Preferia estar em outro lugar, não é? Ele a encarou com expressão surpresa. — Como percebeu? — Você pode ser um grande jogador de futebol, mas não tem a menor sutileza. Ele riu. — Algumas coisas nunca mudam, não é? — Por quê? — Você nunca teve problemas para dizer a verdade. Emily encolheu os ombros. — Só para mim mesma. Scott estudou-a por alguns instantes, como se só então percebesse quem era ela. O que estaria vendo? Também percorria a estrada das recordações? As bebidas chegaram para distraí-lo. — Não quer falar sobre isso? — Emily propôs. — Sobre o quê? — Sobre onde gostaria de estar. Um sorriso distendeu seus lábios. — Agora tenho a sensação de ter voltado ao ginásio. — Na biblioteca. — Ou no banco do jardim, ao lado da fonte. Emily se lembrava de cada vez em que haviam conversado daquele jeito. De fato, os diários relegados ao fundo do armário do quarto continham transcrições quase textuais daqueles diálogos. Cada palavra fora valiosa como o ouro, e ela o considerara o mais divertido, doce e interessante de todos os rapazes do mundo. Pelo menos isso havia mudado. Oh, Scott ainda era divertido, doce e interessante, mas não era mais um rapaz. Não como antes. Ainda era fascinante, lindo... Todos os

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh músculos de seu corpo contraíram-se em resposta ao pensamento. Sabia que ele era humano, que tinha defeitos como todos, que provavelmente era inadequado para ser seu companheiro de vida, mas não se incomodava com nada. Ainda queria viver aquela noite de sonhos. Uma noite em que o surpreenderia olhando para seu corpo com um misto de luxúria e fascínio. Seria pedir demais? —- Bons tempos aqueles — Scott comentou com tom saudoso. — Não sei se algum dia manifestei minha gratidão por como me ajudou com Cathy. Ela fez um gesto reduzindo a importância da gratidão de Scott. — Quero saber sobre o que está fazendo agora. — É claro que fico feliz por poder ajudar minha mãe na loja, mas... — Mas? — O momento não podia ser pior. — Por quê? — Devia estar a caminho de Bristol para uma entrevista nos estúdios da ESPN. Se tudo desse certo nessa entrevista marcada para amanhã, eu seria o mais novo comentarista esportivo da rede. Emily assentiu. — Uma entrevista para quê, exatamente? Scott debruçou-se sobre a mesa, os olhos iluminados subitamente por uma parcela do antigo fogo da juventude. — Trata-se de uma idéia inovadora. Algo que ninguém jamais tentou. Eles enviarão alguém a todos os ginásios do país que tiverem equipes esportivas para a realização do perfil dos melhores atletas, as estrelas do futuro. E eles querem alguém jovem para esse trabalho. — Você seria uma ótima escolha. — Eu sei que sim. E é esse o ponto. Seria perfeito para o cargo, mas... — Mas você está aqui, e a ESPN fica em Connecticut. — Como sabe disso? Ela sorriu enigmática. — Eu sei tudo, Scott. Já esqueceu? Os dois riram da velha piada, mas o coração de Scott não estava naquela gargalhada. — Sua mãe sabe disso? — Não. Ela nem imagina. — E suponho que não tenha a intenção de contar a ela? — Não quero que minha mãe se sinta pior do que já está. — O que vai fazer? A resposta de Scott foi adiada pela chegada do garçom que, solícito, preparou-se para anotar o pedido. Scott pediu um hambúrguer com todos os acompanhamentos do cardápio. Emily escolheu salada com molho à parte, é claro. — Vou ficar e trabalhar na loja — ele revelou assim que o garçom afastou-se. — Minha mãe se recusa a vendê-la. Já falamos sobre isso, e ela não vai mudar de idéia. — E não há mais ninguém para cuidar do mercado? — Ela não confia em ninguém além de mim.

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh — Entendo. Scott fez um movimento negativo com a cabeça. — Não sei se posso dizer o mesmo. Por que um trabalho tão perfeito cairia em minhas mãos, se não estava em meu destino aceitá-lo? Não é justo. — Não se trata de justiça, Scott. Não é uma questão pessoal, embora seja essa sua sensação. O destino, como você mesmo disse, não está contra você. — Tentei ser estóico, e por algum tempo o esforço surtiu efeitos positivos. Mas de repente eu me deparo com a realidade do que estou perdendo, e então é como se o chão se abrisse sob meus pés. — Sinto muito. — Obrigado pela solidariedade. — Ele ficou em silêncio por um instante, perdido em meio aos pensamentos sobre um futuro que jamais seria seu, e depois bebeu alguns goles de cerveja. — E você? Qual é sua história? — Eu? Ah, não há nenhuma história. Eu leciono. Gosto do que faço. E ainda mantenho o velho relacionamento com As Amigas. — Céus! Não pensava nisso há anos. Vocês sempre foram malucas. — E ainda somos. — Você se casou? — Scott perguntou sem rodeios. Emily respondeu com um movimento negativo de cabeça. Depois encolheu os ombros e tentou não dar muita atenção ao peito largo que parecia exibir-se diante de seus olhos. — Pensei que já estivesse casada. Talvez cuidando de um ou dois filhos. — Eu? — Sim. De quem mais estamos falando? — Não tenho nem namorado. Não neste momento. É claro que já houve alguém, mas ele se mudou para San Antônio. Sendo assim, não tenho um... — Ela fechou a boca antes de tornar a situação ainda pior. Era melhor mudar de assunto. — E você? Deve ter uma esposa. — Não. — Uma namorada? — Não de verdade. — O que quer dizer? — Estava saindo com alguém, mas não era nada sério. Além do mais, ela não gostaria daqui. É uma típica cidadã urbana. — Ah. Então não manteve o namoro com Cathy Turner? — Rompemos logo depois da formatura. Então ele não tinha uma namorada! Sim, sempre soubera que Cathy Turner era uma página virada no livro da vida de Scott Dillon. Ela se casara e divorciara. Estava separada de Scott há anos, mas, parte dela não conseguia deixar de pensar nos dois juntos. — Nunca imaginei que um dia voltaria aqui — ele comentou. — Não com meus próprios pés. Tem idéia de quanto me esforcei para deixar esta cidade? — Não gosta de Sheridan?

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh — Você gosta? Emily assentiu. — É uma cidade maravilhosa. — Por quê? Não há nada aqui. Absolutamente nada. Emily comeu mais um bocado de salada enquanto o carrinho da montanha-russa que era sua vida despencava ladeira abaixo. Scott odiava Sheridan. Assim que encontrasse uma solução para os negócios da família, partiria novamente. E não poderia culpá-lo por isso. O trabalho na ESPN era uma oportunidade excitante, e ele receberia outras propostas, mesmo que aquela não se concretizasse. Algo glamouroso em algum lugar exótico, excitante. A professora do ginásio de Sheridan seria varrida de sua memória mais uma vez, como se nunca houvesse estado ali. —O que foi? — ele perguntou, o garfo com um suculento pedaço de hambúrguer a meio caminho da boca. — Salada — ela respondeu torcendo o nariz. — Não é meu prato preferido.

CAPÍTULO IV No dia seguinte Scott viu Cathy Turner deixando seu escritório. E como poderia deixar de olhar, se ela rebolava como se quisesse convidá-lo para visitar seu quarto e lembrar os velhos tempos? Ele se reclinou na cadeira, contente com o pequeno intervalo, feliz por Cathy ter ido visitá-lo. Os anos haviam sido generosos com ela, que parecia feliz. A maneira como Cathy falara sobre o divórcio o levara a concluir que o processo fora positivo, ao menos para ela. E estava ainda mais bonita agora do que no ginásio. Os cabelos e a maquiagem tinham tons mais suaves, pelo menos pelo que conseguia lembrar. Não era exatamente um grande observador. Muitas de suas namoradas haviam reclamado amargamente quando, depois de mudarem a cor dos cabelos ou comprarem um vestido novo, não recebiam elogios. Não porque Scott desaprovasse as alterações, mas porque não as percebia. Era terrível, mas não havia nada que pudesse fazer. Simplesmente não via coisas desse tipo. Era melhor voltar à loja. Desde que assumira o comando, o mercado prosperava. A princípio acreditara que as pessoas gostavam de ver o velho estabelecimento bem cuidado e com suas prateleiras cheias, como no passado. Mas não era isso. Os antigos clientes continuavam fazendo suas compras no mercado aberto por seu pai, mas também havia novos freqüentadores, gente que vinha de Pinehurst, o que não fazia muito sentido. Pinehurst contava com dois Randalfs, incluindo a matriz da rede, uma Albertson e diversos estabelecimentos especializados nesse ou naquele ramo de varejo. O Mercado Dillon's era conhecido pela qualidade dos produtos que oferecia, mas, mesmo assim, nunca encontrara maçãs de ouro nos cestos. Mas não estava reclamando. Sua mãe passara a ir trabalhar na loja depois do almoço três dias por semana, e ela ficava feliz quando encontrava o estacionamento repleto de carros e os corredores cheios de compradores. Ela dissera que as pessoas iam ao Dillon's para vê-lo, mas devia estar enganada. Sim, fora um jogador de futebol famoso,

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh mas a fama ficara no passado. No presente, sua profissão era a de gerente de mercado. Os pensamentos voltaram a Cathy. Convidá-la para sair havia parecido uma decisão correta. Sempre gostara dela, embora todos a chamassem de esnobe, não sem razão. Cathy costumava rir de suas piadas, e nunca ficava em silêncio por falta do que dizer. Era uma companhia agradável, simples, e no momento não precisava de complicações. Levando o livro de inventário. Scott trocou o silêncio do escritório pela agitação da loja. Depois de conversar com Miguel, o gerente de produtos, sobre as ofertas da semana seguinte, descobriu que não estava mais pensando em Cathy, mas em Emily. Divertira-se muito na tarde anterior. Sentira-se mais relaxado do que em muitos meses. Não sabia o que havia nela para tornar qualquer tipo de conversa tão fácil e agradável, mas era bom saber que podia contar com sua amizade. Havia sido ótimo saber que Emily ainda se relacionava com aquelas amigas malucas. As Amigas nunca foram segredo para ninguém. Todos na escola sabiam sobre sua união e sobre o pacto de se reunirem uma vez por ano, quaisquer que fossem as circunstâncias. Mas essa era a versão pública da verdade. De fato, a história ia muito além disso. Era mais séria e profunda. As Amigas fizeram um juramento solene de trocarem apoio e ajuda em tempos de necessidade. Não quando fosse conveniente, ou quando tivessem tempo, mas imediatamente, sem condições ou perguntas. Emily comentara que todas haviam aberto contas bancárias em nome do grupo As Amigas usando o dinheiro que ganhavam como babás, criando assim um fundo de pensão caso uma delas precisasse. Emily contara tudo sobre o grupo numa certa noite, depois de ter tomado duas cervejas com ele. Fora no último ano, e haviam se reunido na casa de Paul. Os pais do amigo haviam ido passar o final de semana em Branson, e o lugar assumira a aparência de um bar de quinta categoria. O grupo fora formado em sua maioria pelos rapazes do time de futebol. Ele e Emily não faziam parte da maioria. Não em termos de disposição, pelo menos. Scott nunca freqüentara muitas festas, e Em... Mais tarde descobrira que ela nunca havia ingerido bebida alcoólica antes. Mas, naquele momento, acreditara que Emily desejara dividir com ele seu compromisso com As Amigas. A cerveja fora apenas uma desculpa. O que não levara em consideração fora o motivo. Por que ela queria que ele soubesse? Oh, talvez houvesse sido sua maneira de dizer que gostaria de continuar sendo sua amiga, mesmo depois da formatura. Sim, teria sido uma atitude típica de Emily. Quando amava, ela o fazia com todo o coração. Sem críticas, sem condições, sem hesitação. Pudera observá-la ao longo dos anos, desde o quarto ano até a formatura. Ela demorava a fazer amigos, mas, quando os conquistava, era para sempre. — Vai ficar aí parado o dia todo? O que pode haver de tão interessante em rolos de papel higiênico? Scott pulou, assustado com a voz a seu lado. Sara Wilding, que trabalhava para o Mercado Dillon's há quase trinta anos, o encarava como se estivesse impaciente. Sara era uma mulher impressionante, dona de um vigor invejável e de uma personalidade marcante, e era sempre melhor atendê-la de pronto a expor-se a sua ira. — Preciso de dinheiro — ela anunciou. — Agora.

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh Depois de entregar seu formulário de movimentação, ela retornou ao posto que ocupava no caixa. — Já estou indo, Sara. Não sei seja disse, mas você está linda hoje. Ele voltou ao escritório para abrir o cofre. No caminho, notou um grupo de adolescentes reunidos em torno da estante de revistas. Os rapazes pararam de falar no instante em que passou por eles. Tinha de ficar de olho naqueles garotos. Scott caminhou até a parede atrás da mesa do escritório e acionou a fechadura do cofre através da combinação. Seus pensamentos não estavam no dinheiro que manipulava, mas na surpreendente conclusão a que acabara de chegar. Gostaria que seu encontro naquela noite fosse com Emily, não com Cathy. — Pode cortar tudo. E eu disse tudo! — Emily fechou os olhos enquanto esperava que Denise aproximasse a tesoura de seus cabelos. — Tem certeza? Ela abriu os olhos. — Sim, eu tenho certeza. Quero cabelos curtos. Decidi adotar um estilo mais sofisticado e, principalmente, diferente. Sinto necessidade de mudar, entende? — Sim, eu entendo, mas... Não quer olhar mais algumas fotos? Tenho revistas de moda com... — Confio em você, Denise. Sei que é uma excelente profissional. Vá em frente. — Se tem certeza do que está fazendo... — Já disse que tenho certeza! Quer uma autorização com firma reconhecida e registrada em cartório? — Não é necessário — Denise riu. — Bem, aqui vamos nós. Emily fechou os olhos novamente e ouviu o som da tesoura. Esperava ter tomado a decisão correta. Sabia que podia sair horrorosa daquela cadeira! Não. Denise nunca faria isso. Mas a mudança seria grande. Emily não tinha mais longos cabelos castanhos. Depois de ter passado a manhã toda na frente do espelho, estudando um catálogo de cores e comparando as mechas artificiais com a tonalidade de sua pele, finalmente tornara-se ruiva. Optara por um tom avermelhado bem escuro com suaves reflexos dourados. E em pouco tempo aqueles cabelos coloridos seriam também curtos e interessantes, diferentes da velha Emily. Denise mudou de posição, colocando-se entre ela e o espelho. Emily entreabriu os olhos e vislumbrou uma montanha de cabelos sobre suas pernas. Oh, céus! Era tarde demais para recuar. Denise havia terminado o corte, e agora dedicava-se ao acabamento. Emily tentou não olhar. Queria ver o resultado final sem acompanhar o processo. Devia ter usado um pouco de maquiagem. Sempre ficava melhor com rimei e blush. O ruído do secador cessou. — Pode abrir os olhos — Denise disse com tom triunfante. Depois de uma rápida oração para os deuses da estética, Emily olhou para o espelho... e quase perdeu o fôlego. — Não é fabuloso? — Meu Deus... — ela gemeu. Era difícil acreditar que o reflexo que via no espelho era o dela. Por que diabos não

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh mudara antes? O tom avermelhado tornava sua pele mais cintilante, emprestando um brilho quase dourado aos olhos. Mas era o corte que mais a espantava. Curto e despontado, favorecia seu rosto, dando a impressão de que as maçãs eram mais altas e menos rechonchudas. Tinha de admitir que estava ótima! — Você ficou um estouro! — Denise decidiu. Depois se virou para o centro do salão. — Kelly, venha até aqui. Você precisa ver o que acabei de fazer! Kelly, uma das mais novas contratadas do The Hair Port, olhou para Emily e assobiou tão alto que Evelyn Todd abandonou o secador e a cliente para ir ver o que estava acontecendo. — E inacreditável! — Kelly opinou surpresa. — Tem razão. Ficou perfeito. Melhor do que eu imaginava. Denise olhou para o relógio de pulso. — Tem mais meia hora? — Tenho o dia todo — Emily respondeu animada. — Ótimo. Não saia daí. — Ela pegou a bolsa no armário sob a bancada e se afastou apressada, deixando Emily imaginar o que estava acontecendo. Sozinha, ela continuou olhando para o espelho, tentando habituar-se ao que via. Se ao menos não tivesse queixo duplo! Não era muito grande, mas estava ali, apontando que uma transformação exigia mais do que um novo corte de cabelo. Não havia planejado ir à academia naquele dia, mas iria assim mesmo. Faria exercícios nas máquinas de forma a não prejudicar muito o penteado. E conversaria com um dos treinadores sobre possíveis soluções para seu problema com o queixo duplo. — Voltei — Denise anunciou pouco depois, jogando a bolsa sobre a bancada. — E trouxe maquiagem. — Maquiagem? — Tenho alguns truques escondidos na manga. Você vai ficar linda. Com isso, ela girou a cadeira, abriu uma enorme bolsa preta com uma bandeja interna e exibiu uma variedade de maquiagem muito maior do que Emily jamais vira em uma loja de departamentos. — Oh, meu Deus! Você parece uma estrela de cinema! Scott vai se atirar a seus pés e implorar por sua atenção. Emily sorriu. — Tem razão, Júlia. Ele vai ficar espantado. — Não seja cínica. Você está linda! Confesse que aprovou o resultado. — Reconheço que gosto do novo visual. — Não acredito na coragem que teve. Cortar todo aquele cabelo... Mas valeu a pena, não? — Ainda não sei se serei capaz de reproduzir o resultado sozinha. O estilo e a maquiagem parecem simples, mas... — Emily? Ela olhou para Donna Fargo, a garçonete do restaurante Little Italy. — E você? Céus! Que melhoria! Emily riu quando, percebendo o que acabara de dizer, Donna ficou vermelha e constrangida.

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh — Desculpe-me. Não quis dizer que... Você sempre foi bonita. Oh, céus... Podemos começar novamente? — É claro que sim — Emily respondeu sorrindo. — Por que não começamos por uma taça de vinho? — Por conta da casa. — Não precisa gastar o dinheiro das gorjetas conosco. — Sim, eu preciso. Merlot? Emily e Júlia assentiram. — Num minuto. Júlia sorriu ao ver Donna afastar-se. Emily tentou imaginar como a mulher se sentia. O marido a deixara há apenas quatro meses. — Vamos pedir espaguete mari... Oh, meu Deus! — O que foi? — Emily deixou o cardápio sobre a mesa. Os olhos de Júlia pareciam ter dobrado de tamanho. — Nada. — Júlia... — Não se vire! Emily virou-se. — Eu disse para não... Mas era tarde demais. Ela os viu quando Donna limpava a mesa. Scott e Cathy Turner. Era como nos velhos tempos, com a diferença de que, no presente, Cathy se vestia melhor. Naquela noite ela usava jaqueta vermelha, jeans escuro de corte reto e justo e sapatos de salto alto. E estava linda. Como pudera deixar de vê-los? Eles já estavam no restaurante quando chegara com Júlia? Emily sentiu-se murchar, como um balão. De repente o cabelo não era mais tão impressionante e a maquiagem era exagerada. Ela olhou para a amiga. — Parece que não sou a única velha amiga com quem Scott quer reatar contato. — Ela abriu o cardápio para usá-lo como esconderijo. — Não quero espaguete marinara. Prefiro lasanha. Uma tonelada dela. — Ah, não! Não vai estragar tudo agora. Acha que aquela bruxa disfarçada tem alguma chance contra você? — Ela já venceu, caso não tenha notado. — Bobagem! Scott só saiu com ela porque Cathy o convidou. — Como sabe disso? — Não sei. Mas aposto que é verdade. Além do mais, ele a levou para almoçar primeiro, certo? — Não entre em pânico, Júlia. Não vou mergulhar num prato de lasanha. E não vou desistir do programa. — Ótimo. — Não estou fazendo tudo isso por ele. Júlia sorriu. Era tão linda sem ter de usar artifícios, que Emily poderia sentir inveja.

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh Mas Júlia era bondosa demais para ser invejada. — É bom saber disso — ela respondeu com alívio sincero. — Eu sei. — O que não significa que não poderá conquistá-lo. — Eu sei que não posso. Mas não é o fim do mundo. Honestamente. Foi só um sonho maluco. Não sou do tipo que se contenta com uma noite na cama de um homem. — Ela balançou a cabeça com desânimo. — Foi uma fantasia. Uma linda fantasia. E serviu aos seus propósitos. Foi através dela que superei o velho ócio e decidi andar para frente. — Não perca as esperanças, querida. Coisas estranhas têm acontecido. — Que coisas? — Por exemplo, Paul concordou em tomar lições de dança comigo. Emily piscou espantada. — Paul? Seu Paul? Júlia assentiu. — É um presente de aniversário. Tomaremos dez aulas de dança nas próximas cinco semanas. Quadrilha texana. — Não acredito! Ele odeia música country! E detesta dançar. — Eu sei. — Júlia sorriu. — Mas ele me ama. Emily sabia que isso era verdade. Paul Simpson era o melhor amigo de Júlia. Melhor ainda do que As Amigas. Paul e Júlia eram unidos como as metades de uma concha desde a quinta séria, e estavam sempre prontos para se ajudarem nos momentos de dificuldade. Também era ele quem estava por perto para comemorar suas conquistas e festejar suas maiores alegrias. Emily nunca conseguira entender porque eles não levavam a amizade ao próximo estágio. Júlia dizia que não queria correr o risco de perder um grande amigo, mas Emily não sabia se acreditava nisso. O que Júlia não queria arriscar era seu coração. E isso era algo que Emily podia entender muito bem. — Ei, eles estão vindo para cá — Júlia sussurrou com tom assustado. Emily respirou fundo e pôs um sorriso radiante nos lábios. — Ei, veja só quem está aqui! — Scott exclamou ao passar pela mesa. — Júlia, é bom vê-la! E você também, Em... — Ele parou de repente. Por um instante encarou-a em silêncio. Depois franziu a testa. — Você cortou os cabelos... Ela fez um movimento afirmativo com a cabeça. Cathy sorriu. — Ficou ótimo. — Obrigada. — É verdade — Scott concordou. — Ficou maravilhoso. Emily sentiu o rosto quente. — É bom saber que gostaram. O rubor tornou-se mais intenso quando ela viu Cathy passar um braço em torno da cintura de Scott. Não havia como deixar de compreender o significado do movimento. Cathy declarava sua posse, plantava sua bandeira no território que conquistara. Emily pensou em dizer que ela não precisava se preocupar. Não havia competição. Cathy era

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh perfeita. Os cabelos, a maquiagem, o corpo, as roupas... Jamais poderia vencê-la. — Eu telefono amanhã — Scott avisou. — Isto é, se não se importar... — Ligue quando quiser. — Emily olhou para Cathy e notou que ela não parecia muito satisfeita. Pelo contrário, sua expressão traía certo ressentimento. — É claro que não me importo — ela continuou, experimentando um certo prazer em torturar ainda mais a adversária. — Podemos ir ao cinema, ou outra coisa qualquer. Scott assentiu sorrindo. — Seria ótimo. E gostei mesmo dos seus cabelos. — Obrigada. — Até breve. Emily acenou quando Cathy praticamente arrastou-o para fora do restaurante. — Você conseguiu ameaçá-la — Júlia comentou em voz baixa. — E ela sabe que pode perder o trono. — Está imaginando coisas. — Emily olhou para o prato com a entrada, mas não estava interessada em vitela. Tinha a sensação de que, de algum jeito, em algum momento, teria de reconhecer que Júlia estava certa. Teria Scott nas mãos, E Cathy sabia disso. — Vou comer pizza prosciutto e bolo de queijo para a sobremesa — Júlia anunciou. — E eu quero uma salada. Com molho à parte, por favor. — É isso mesmo, garota! Devo dizer que ele merece seu sacrifício. Poucos homens têm aquele corpo e aquele sorriso. — É verdade. — E os seios de Cathy são falsos. Ela usa sutiã com enchimento. — Júlia! — Sei o que estou dizendo. Nunca vi seios mais falsos que os dela. Emily pegou o copo com água. — Aos seios verdadeiros. Júlia aproximou seu copo do dela. — Amém, irmã!

CAPÍTULO V Emily mostrou a língua para Lily, que sorriu, levantou-se e começou a descer pela arquibancada lotada. Emily tentou concentrar-se no jogo. Era difícil acompanhar todos os movimentos dos jogadores, mas pelo menos agia como se estivesse realmente interessada. Inclinada para frente, mantinha os olhos fixos na bola, embora não soubesse quem estava de posse dela. E nem queria saber. Futebol não era seu esporte preferido. Nunca fora. No ginásio, comparecera ao estádio para prestigiar Scott, então integrante do time. Depois, quando ele ingressara na equipe universitária, passara a assistir às partidas pela televisão. Sempre ficava feliz quando o via vencer, mas não pelas mesmas razões do resto da cidade.

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh Em Sheridan, ninguém confessava ser indiferente ao futebol. O Tigers era o que havia de mais importante na cidade, e os moradores enlouqueciam durante a temporada. Mesmo agora, ainda no início de setembro, já se falava nas ruas sobre o campeonato entre as cidades da região. Várias pessoas, gente de respeito que tinha emprego e família, perdiam a voz gritando pelo time nas arquibancadas do estádio, ou discutindo os progressos do Tigers nos restaurantes locais. Era a melhor maneira de demonstrar cidadania em Sheridan. Se alguém soubesse que Emily não conseguia distinguir um escanteio de um pênalti, acabaria sendo expulsa da cidade num trem de carga. — Tia Emily? Ela se virou para JT. — Sim, querido? — Conhece mesmo Scott Dillon? Ela sorriu. — É claro que sim. — Acha que pode pedir um autógrafo dele para mim? — Está falando sério? Quer mesmo um autógrafo de Scott? — Sim, seria ótimo. — Sua mãe também o conhece — ela contou. — Não. Ela não conhece Scott Dillon. Emily sorriu. — Quer apostar? JT encarou-a com ar desconfiado. Ele era um garoto encantador. Os cabelos louros brilhavam intensamente sob o sol vespertino, e os olhos azuis poderiam disputar com ò céu o título de tonalidade mais pura. O sorriso iluminava seu rosto com a inocência e a honestidade das crianças, e havia sempre uma cor rosada em suas faces. Emily o amava muito. Estivera presente no momento em que ele nascera, e mais tarde, durante aquele primeiro ano de dificuldades e sacrifícios, quando Lily havia adoecido gravemente. JT tornara-se o filho de todas, e fora a necessidade de cuidar dele que selara a amizade e o pacto sagrado feito pelo grupo. As Amigas tinham mais um objetivo em comum. — Sua mãe esteve na escola com Scott Dillon, como eu. — Tem certeza? — É claro que sim. — Ela olhou para baixo, para os bancos, e viu Lily se aproximando de Scott. — Veja só aquilo — disse, apontando para que JT também pudesse encontrá-la no meio da multidão. JT olhou na direção indicada por seu dedo, e quando se deparou com a evidência do que Emily afirmava, ficou tão excitado que aplaudiu e alterou o tom de voz. — Ela nunca me disse nada! — Você perguntou a ela? O menino balançou a cabeça, os olhos fixos no banco onde estava o ídolo. — Não posso acreditar, tia Em! Espere só até eu contar a Jake. e Sean. Eles vão ficar malucos! Lily devia ter revelado a localização de seus assentos, porque Scott se virou para as arquibancadas. Emily encolheu-se e agarrou JT pela camisa, obrigando-o a

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh permanecer sentado. — O que está fazendo, tia? — Assista ao jogo. — Mas ele está olhando para cá! — Eu sei. Por isso não podemos olhar para ele. — Mas... — JT, se passar os próximos dez minutos sem olhar para Scott, prometo que vou conseguir não só seu autógrafo, mas seu álbum de fotografias do ano da formatura. — Uau! — Você entendeu o espírito da coisa — ela disse, forçando os olhos a permanecerem fixos no campo, apesar de todos os nervos do corpo estarem tensos. De repente os sons em volta deles se transformaram. Os gritos agitados deram lugar a comentários abafados, como se todos temessem falar e perturbar um momento de grande concentração. Emily olhou em volta, intrigada com a súbita alteração, e logo descobriu o motivo da comoção geral. Scott se aproximava pelo corredor em companhia de Lily. E sem Cathy. — Olá, Em — ele a cumprimentou. — Olá. JT parecia ter perdido o eterno tom rosado do rosto. Boquiaberto, ele olhava para o ídolo como se estivesse vendo uma assombração. Percebendo a emoção do menino, Scott passou a mão sobre sua cabeça. — Você deve ser JT... O garoto conseguiu mover a cabeça em sentido afirmativo. — É muito bom conhecê-lo. Soube que gosta de futebol. É verdade? Mais uma vez, a resposta de JT foi um movimento afirmativo com a cabeça. A adoração estampada em seu rosto fez Emily gostar ainda mais de Scott. — Não posso ficar, mas quis vir cumprimentá-los. — Scott olhou para Emily. — Estava imaginando se não gostaria de descer e ir ao vestiário comigo depois da partida. — Eu? — Foi a vez dela de ficar boquiaberta. — Todos vocês. Só por alguns minutos. O treinador costuma abrir os vestiários uma vez em cada temporada. Ele acredita que permitir a entrada dos pais e amigos no espaço reservado aos jogadores promove uma maior integração entre equipe e torcida, fortalecendo o moral do grupo. Então pensei, se não tiverem nada melhor para fazer... — Não temos! — JT gritou. Scott riu. — Parece que o convite foi aceito. — Ótimo. Encontrem-me na entrada do ginásio, certo? Emily assentiu. Scott acenou para JT, disse alguma coisa para Lily que ninguém mais conseguiu ouvir, e depois desceu os degraus com passos rápidos. Emily olhou para o banco na lateral do campo. Para Cathy, que olhava em sua direção. Os olhos das duas se encontraram sobre centenas de cabeças, e mesmo distante Emily pôde sentir a animosidade da rival. Incapaz de suportar a tensão, ela se virou para JT, buscando alívio em seu entusiasmo. O menino estava tão agitado que não conseguia permanecer sentado, e quando Lily acomodou-se a seu lado, ele a envolveu num abraço tão forte que

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh quase a sufocou. — Viu só? — ela riu. — Também tenho minhas utilidades. — Eu sempre soube disso, mãe! Emily riu, mas os pensamentos estavam voltados para o iminente encontro com Scott e Cathy. O estômago contraiu-se de um jeito que era mais do que familiar. Era como nos tempos da escola. Emily sempre fora a terceira roda. Nunca assumira o papel de atração principal. Estivera em diversas situações em que se vira forçada a sorrir e agir como se tudo fosse perfeito, embora estivesse morrendo por dentro, corroída pelo ciúme, pela inveja e pela tristeza. Sonhando poder ser aquela com o direito de tocar o peito de Scott, ou de segurar sua mão. E não haviam sido apenas Scott e Cathy. Não. Tivera de enfrentar as demonstrações de todos os casais da escola, dos calouros aos formandos, dezenas de pares de adolescentes apaixonados explorando-se como se fossem países recém-descobertos. Sempre os observara. Mas nunca fizera parte do grupo. Na faculdade, finalmente a situação havia melhorado um pouco. Um pouco. Conhecera Jerry, e depois de um longo e estranho período de aproximação, finalmente tornaram-se um casal. Ah, o doce Jerry com suas mãos hesitantes, com seus beijos ineptos! Ele era um bom rapaz, e Emily havia tentado amá-lo. A multidão que ocupava as arquibancadas levantou-se gritando, mas Emily permaneceu onde estava. — Venha, vamos sair daqui — Lily decidiu. — Não quero que JT perca a oportunidade de conhecer todos os jogadores. — A partida terminou? — Emily perguntou assustada. Duas pessoas da fileira da frente se viraram para encará-la com expressões escandalizadas. Ela riu, como se o comentário houvesse sido apenas uma piada. — Você é demais — Lily murmurou. — Depois de todos os jogos a que já assistiu, ainda não conseguiu entender as regras, não é? — Não. Estou convencida de que o problema deve ser genético. Não nasci com o gene do futebol. — Vamos! — O desespero tornava a voz de JT mais estridente. Chegaram ao vestiário e JT passou pela porta aberta. Lily seguiu o filho, e depois de um momento de hesitação durante o qual pensou em fugir e esconder-se, Emily também entrou na sala que antecedia o espaço reservado onde ficavam os armários e os chuveiros. O interior do vestiário era a imagem do caos. Jogadores, familiares, jornalistas da imprensa local, torcedores, enfim, todos gritavam, assobiavam e faziam muito barulho comemorando a vitória sobre os Wolverines. Mas Emily nem notava toda a movimentação. Seus olhos pareciam estar grudados no homem sentado ao lado do treinador da equipe. Talvez Scott nem percebesse, mas imitava com perfeição a postura do treinador mantendo os braços cruzados sobre o peito e as pernas estendidas. Os dois dariam um estudo. O treinador, atualmente colega de Emily na escola, ajudara a formar a personalidade de muitos estudantes. Era ele quem ensinava àqueles garotos conceitos valiosos como responsabilidade, dedicação e persistência. Suas maiores vitórias não aconteciam nos campos, mas nas mentes e nos corações daqueles rapazes.

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh — Escutem — ele gritou pedindo atenção. — McFarlane, Potter, parem de brincar e ouçam o que tenho a dizer — ele repetiu em voz ainda mais alta, dirigindo-se a dois integrantes do time que, mais entusiasmados que os outros, criavam uma enorme confusão com seus gritos de guerra. — Como hoje é o dia da família, faremos as coisas de maneira um pouco diferente. Os fotógrafos tirarão o retrato de costume, e depois alguns representantes do time serão entrevistados pelo pessoal da Gazeta de Sheridan High. Mas, antes disso, temos de tratar de questões mais sérias e importantes. — Ele se levantou e deu um passo para a direita, deixando Scott no centro de todas as atenções. — Scott tem algo a dizer. Ele assentiu para o treinador e levantou-se. — Gostei muito do que vi lá fora. A defesa foi impecável, o passe teve um aproveitamento excelente, e vocês trabalharam como uma verdadeira equipe. Os rapazes aplaudiram e assobiaram com alegria. Scott deixou que eles comemorassem, mas depois levantou a mão e silenciou o grupo. — No entanto, outras coisas me desagradaram. — Ele se aproximou do quadro negro preso à parede, forçando os jogadores a se reunirem em torno dele. Emily e Lily ficaram onde estavam, apoiadas na parede do fundo. JT olhou para a mãe com ar de súplica, e ela respondeu movendo a cabeça em sentido afirmativo. O garoto atravessou a parede formada pelos atletas e contornou alguns bancos, até colocar-se bem no meio do grupo, na frente de todos. Foi quando Emily percebeu que Cathy não estava ali. Cutucando a costela de Lily com o cotovelo, indagou: — Onde ela está? — Não está aqui — Lily respondeu num sussurro. — Para onde pode ter ido? — Como vou saber? — Mas... — Emily perdeu a voz quando todos os membros do time se viraram para olhar em sua direção. Sorrindo, ela levou os dedos aos lábios para indicar que ficaria quieta. Scott retomou o discurso. Emily não entendia nada do que ele estava dizendo, mas não tinha importância. Podia ver o efeito de suas palavras nos garotos. Scott falou com o time por cerca de vinte minutos,' e nesse tempo ela presenciou a conquista de uma legião de fãs. Ele também conquistou seu respeito de uma maneira nova e diferente. Scott devia lecionar. Treinar uma equipe. Sim, sabia que ser comentarista esportivo em uma emissora de televisão era muito mais glamouroso, e o salário devia ser muitas vezes maior, mas era uma pena desperdiçar um talento tão grande como o dele. Lily inclinou-se em sua direção. — O homem é um fenômeno! Olhe só para JT. Emily olhou para o menino que continuava na mesma posição que ocupara há quase meia hora, e nos olhos dele viu sonhos serem construídos, glórias ainda desconhecidas esperando pelo momento de acontecerem, um universo inteiro de possibilidades. O treinador agradeceu pela colaboração do convidado ilustre e assumiu seu posto. Scott localizou Emily no fundo da sala e seguiu em sua direção, mas, antes, parou ao lado de JT e pôs a mão em seu ombro. O garoto quase explodiu de alegria e orgulho. Os dois percorreram a distância até o fundo da sala juntos, e Scott parecia revigorado pela

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh pequena aula que acabara de dar. — E então, o que achou do que viu aqui? — ele perguntou. — Você é bom com aqueles garotos — Emily elogiou com tom sincero. — Estou com uma certa inveja. Ele balançou a cabeça. — Inveja do quê? Estou apenas imitando meu mestre. É o treinador quem merece todo o crédito. — Desculpe, mas vou discordar do que está dizendo. Você pode até ter aprendido com ele, mas eu estava aqui observando enquanto falava. Scott sorriu e, se não estava enganada, um leve rubor de contentamento tingiu seu rosto. — Agora preciso ir embora — Lily anunciou segurando a mão do filho. — JT ainda não fez o dever de casa. — Ah, mãe! — Nem pense em reclamar, mocinho! Você prometeu que faria sua lição de casa esta noite, depois do jogo, se eu o trouxesse para assistir à partida. — Mas... — JT olhou para Scott e novamente para a mãe. — Talvez possamos repetir a dose na semana que vem — sugeriu Scott. — E talvez, se sua mãe permitir, vocês possam sentar comigo no banco dos reservas e do treinador. O rosto de JT iluminou-se como uma árvore de Natal. — Podemos vir, mamãe? Lily assentiu. — Se fizer seu... Mas o final da frase foi abafado pelo grito entusiasmado do garoto. — Com licença, mas vou levar meu Tarzan para casa. Scott, será que pode dar uma carona para Emily? Pega de surpresa pelo comentário da amiga, Emily encarou-a boquiaberta. De onde Lily tirava idéias tão ousadas? — É claro que sim. Será um prazer. — Ótimo. — Lily afastou-se apressada e acenou a caminho da porta, certa de que essa era a única atitude capaz de salvar sua vida. — Até logo! No instante seguinte ela havia desaparecido, e Emily estava sozinha com Scott. E com o time, é claro, mas ninguém parecia notá-los. — Agora somos só nós. — O que aconteceu com sua... acompanhante? O sorriso desapareceu do rosto de Scott. Ou não? Teria sido apenas uma sombra criada pela iluminação artificial intensa? — Ela teve de ir embora. Os pais estão chegando de Nova York e ela foi buscá-los no aeroporto. — Ah... Que pena. Ele não respondeu. Com as mãos nos bolsos da calça, olhou para o treinador antes de encará-la novamente. — Tem alguma coisa para fazer esta noite?

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh Emily quase inventou um compromisso. Não queria que ele soubesse que passaria a noite de sábado lavando e passando roupa. O problema era que não sabia mentir. — Não. — Quer jantar comigo? — Tem certeza de que não quer esperar por Cathy? Talvez ela volte a tempo de... — Não. Quero jantar com você, Em. Realmente. — Nesse caso, acho que podemos combinar alguma coisa. Scott sorriu para ela. E Emily sentiu um prazer tão grande que teve medo de chorar de emoção.

CAPÍTULO VI Scott deixou o cardápio sobre a mesa e olhou em volta, analisando o restaurante. Não ia ao Pump Room há anos, mas nada ali havia mudado. Ainda via o mesmo carpete escuro, o mesmo revestimento de madeira nas paredes, os mesmos abajures sobre as mesas e, especialmente, as mesmas enormes cadeiras de couro que tanto o impressionaram na infância. Mas os olhos não se detiveram no ambiente por muito tempo. Em vez disso, buscaram a mulher sentada diante dele. — É estranho — Scott comentou pensativo. — Metade dos garotos do time de futebol do ginásio se candidatou para empregos no mercado. Emily sorriu. — E você não consegue imaginar por quê? — Não. Quero dizer, não pagamos salários de fome, mas também não temos a folha de pagamento mais invejada da região. — Scott, eles não estão interessados no emprego. Eles querem trabalhar no mercado porque você está lá. — Não. — Sim. Ele pensou no que acabara de ouvir. Poderia Emily estar certa? Os meninos iam mesmo preencher fichas de emprego no mercado porque o respeitavam? Ou seria apenas o glamour de estar perto de uma celebridade, mesmo que fosse uma celebridade ultrapassada? Scott bebeu um gole de café e encarou-a. — Acha que devo fazer alguma coisa a respeito disso? — Você já está fazendo alguma coisa. — Eu? O quê? — Você fala daqueles garotos com carinho. É evidente que gosta muito deles e se preocupa com o bem-estar de todos e de cada um. — É mesmo? — Sim. — Como sabe disso? — Sou professora. Sei um pouco sobre cada um daqueles meninos. Mas, acima de tudo, ouvi quando falou com eles no vestiário.

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh — Não entendi. Quero dizer, tenho consciência de que existe toda uma subcultura de grupos em torno dos times de futebol profissional, mas nunca imaginei que seria assim em minha cidade natal. — Não creio que possamos compará-los aos membros desses grupos a que está se referindo. É diferente. — Como? Qual é a diferença? Emily baixou a cabeça por um segundo. Depois o encarou. Seus olhos sugeriam bondade e delicadeza. Havia um brilho intenso neles, uma luz dourada que dava vida ao tom castanho escuro. — Acho que aqueles rapazes vão procurá-lo porque sabem que pode ensinar muito a eles. Você é um exemplo de realização, entende? Alcançou a Meca cultural. Foi jogador profissional, e isso é como conquistar o topo do mundo para alguém que está começando. — Não posso realizar a mágica por eles. Não é assim que funciona. — Não? O treinador não ajudou em sua escalada? Ele assentiu. — Sim, é claro. Ele me encorajou. Através dele aprendi o significado de palavras como disciplina e perseverança. — E exatamente essa lição que pode transmitir aos garotos. Pode ajudar aqueles meninos a entenderem a importância desses mesmos valores. É bem provável que eles nunca cheguem à liga profissional, mas a habilidade, o talento e a prática servirão para ajudá-los nas carreiras que escolherem mais tarde. — Ensinar, é? Emily sorriu. — Você tem todos os requisitos necessários para isso. — Nunca quis, ser professor. Honestamente, essa é uma profissão que nunca fez parte da minha lista de opções. — Mas você é bom nisso. E acho que seria proveitoso para você também. Vi sua performance no vestiário, e qualquer um pode perceber que tem talento. Scott ficou em silêncio, pensando nas palavras de Emily. Era estranho como o silêncio entre eles nunca era incômodo ou desconfortável. — Eles estão procurando por uma figura paterna — ela insistiu. — E têm muita sorte por poderem contar com você e o treinador. — Figura paterna? Eu? Emily riu, e o som o fez sorrir de satisfação. — Sim, você. Será um pai maravilhoso quando chegar sua vez. Confie em mim. Scott não estava preparado para ouvir informações dessa natureza. Ainda não. Talvez ainda houvesse tempo para agarrar aquela oportunidade na ESPN, afinal. Ou outra chance parecida. Concentrando-se no que Em dizia, ele empurrou para o fundo da mente a questão da paternidade. Oh, sim, ela estava linda com aquele novo penteado. Seria possível que houvesse sido sempre tão atraente e ele não tivesse notado? — O que foi? Ele balançou a cabeça. — Nada. Estava aqui pensando em como você está linda. A recompensa foi um rubor intenso.

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh — Pare com isso, Scott. Nunca fui bonita. — É claro que é bonita. Nunca me engano sobre esse assunto. — Ah, não? — Nunca. Ela respirou fundo, e naquele momento Scott viu uma ampla variedade de emoções em seu rosto. Surpresa, acanhamento, dúvida... e, finalmente, aceitação. — Obrigada pelo elogio. — Por nada. Foi sincero, por estar certa disso. Era impossível não pensar nas diferenças entre ela e Cathy. Cathy aceitava cumprimentos e elogios como se fossem apenas obrigações das pessoas que a cercavam. Sabia que era bonita, e esperava sempre que outros reconhecessem seus atributos. Mas Emily... Tinha a sensação de que ela nunca se havia dado conta da própria beleza. O garçom aproximou-se e entregou a cada um deles uma cópia do cardápio das famosas tortas do restaurante. Scott nem precisou estudar todas as opções. — Vou querer a torta francesa — ele disse. — Não sou muito fanática por tortas —- Emily improvisou, devolvendo o cardápio ao garçom. — Tem certeza de que não quer provar um dos sabores? — Scott insistiu. — Este lugar é conhecido em todo o país por suas tortas. Ela balançou a cabeça. — Não, obrigada. Quero apenas mais um café. Scott esperou que o rapaz anotasse os pedidos. Depois, quando virou o rosto para olhar para Emily, ele viu Jim Heeps, um dos integrantes da defesa do Tigers, na mesa atrás dela. De fato, o grupo era formado por cinco integrantes do time de futebol, e todos olhavam em sua direção. Ele os cumprimentou com um movimento de cabeça, e depois olhou para Emily. — Temos companhia. — Eu já notei. — Ainda não consegui entender com o processo funciona, mas acho que você tem razão. — Nunca me engano a respeito desses assuntos. Ele riu. Então algo mudou. Não saberia explicar o que era. E certamente não entendia a mudança. Mas ela era tão real e palpável quanto a mesa. Emily havia mudado. Diante de seus olhos. De repente não era mais a Emily das aulas de inglês. Havia crescido, amadurecido... Deixara de ser uma garota. Agora era uma mulher. Uma mulher atraente e agradável. — Pensei muito em você — ele murmurou, surpreso com a própria confissão. Por um momento foi como se ela ficasse paralisada. — Pensou... em mim? — Sim, eu pensei. E em todas as conversas que já tivemos. Você era única, sabe? E agora descubro que continua sendo extraordinária. — Pare com isso — Emily protestou com o rosto vermelho. Estava tão agitada, que quase derrubou o café ao devolver a xícara sobre o pires.

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh — Está me deixando embaraçada. — Não é essa minha intenção. Estou apenas dizendo a verdade. Agora que mencionou o treinador, compreendi que você foi tão importante quanto ele em minha vida. Vocês dois me fizeram compreender tudo que era realmente importante durante os tempos de escola. Não fosse por você, acho que teria ficado maluco com todos aqueles recrutadores. Lembra-se daquele sujeito de Virgínia? Ela assentiu. — O homem era um canalha! — Um canalha com uma enorme conta bancária. — Mas você não sucumbiu. — Graças a você, principalmente. — Scott sorriu quando outra lembrança surgiu em sua mente. — Você costumava me bater o tempo todo. — Eu não! — Sim, você! Estava sempre batendo em meu ombro. Não com malícia ou maldade, mas era um gesto persistente, como se precisasse encontrar um ritmo qualquer enquanto tentava convencer-me de alguma coisa. Emily abriu a boca para protestar, mas desistiu. De que adiantaria? — Esse é um hábito que consegui me livrar, felizmente. — Graças a Deus! Não imagina como aqueles socos eram doloridos. — Não seja exagerado. — E verdade. Você tinha uma força espantosa. — Eu? Scott moveu a cabeça em sentido afirmativo. — Bem, eu teria parado, se você reclamasse. — Eu não podia reclamar. Era o capitão do time de futebol. — E daí? — E daí? Como eu poderia me queixar dos socos de uma garota? — Ah, entendo. Orgulho machista. — Não devia rir disso. Não tem graça, sabe? Especialmente no ginásio. Não foi você quem me fez compreender a influência dos hormônios nas decisões mais importantes da vida de um adolescente? Ela riu. — Eu era tão convencida! — Não. Era brilhante, perspicaz, madura... E foi muito importante para mim. Os olhos de Emily buscaram o copo com água, os talheres, a janela. Finalmente encontraram os dele. — E quanto a... Não, esqueça. — Ela balançou a cabeça. — O que ia dizer? Fale. Somos amigos, não? — Bem, e quanto a Cathy? Não esperava ouvir uma pergunta tão pessoal. Surpreso, Scott teve de adaptar-se rapidamente ao novo ritmo da conversa. — Não sei — respondeu, optando pela mais completa honestidade. — Ela é uma mulher maravilhosa, mas não para o tipo de coisa que estamos discutindo aqui. — E para que coisas ela é maravilhosa?

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh O garçom chegou com a torta de Scott e o bule de café. Alguns instantes mais tarde, depois de provar a sobremesa, ele considerou-a pergunta de Emily. — Bem, ela era conveniente para mim no aspecto social. Antes de Cathy, sempre me senti muito desconfortável em festas e reuniões sociais. Nunca sabia o que dizer. — E depois de ter conhecido Cathy? — Ela sabia como manter uma conversa amena. Tinha sempre algo para discutir, como uma nova dieta ou um programa de exercícios. Ou ela falava sobre a turma da escola. — E isso despertava seu interesse? — Às vezes. Mas, na maioria das ocasiões, significava apenas que eu não teria de falar muito. — Deve ter ficado muito feliz quando a reencontrou. — Sim, fiquei feliz por revê-la, mas não é tão importante. Não ficarei aqui por muito tempo. Não o suficiente para que esse reencontro se transforme em... alguma coisa. — Ela sabe disso? — Oh, sim. Eu disse a ela. Em assentiu com ar solene. — Entendo. — O quê? — Pode ter dito a ela, mas Cathy não acreditou em você. — O que quer dizer? — Ela também quer um pouco de sua magia. Mas não da mesma mágica procurada pelos garotos do time. Scott continuou comendo a torta e ouvindo os sons das mesas em torno deles, observando enquanto jovens casais apaixonados bebiam vinho e trocavam carícias furtivas. O Pump Room era o melhor restaurante da cidade, e só estivera ali quatro ou cinco vezes. Na noite da formatura, por exemplo. E uma semana mais tarde. Mas, naquela época, não se sentia muito a vontade naquele lugar. Agora compreendia que o estabelecimento era mais do que satisfatório tendo em vista os padrões de Sheridan, mas estava muito longe de poder ser comparado a Le Cirque ou ao Spago. — Eu precisava de Cathy — disse. — Não sei explicar essa necessidade, mas ela me dava coragem. Não no campo, mas nas festas e em lugares como este. Ela sempre fazia tudo parecer mais fácil. — Que bom que tenham se encontrado. A voz dela havia mudado. Era como se houvesse endurecido. E a maneira como os dedos tocavam a xícara, tamborilando, sugeria que algo estava errado. —Em? — O que é? — Eu... — ele interrompeu-se de repente ao ver que os rapazes da mesa vizinha se levantavam. — Ei, Scott — disse Jim. — Olá, rapazes. Tudo bem com vocês? — Sim, estamos bem. Desculpe se o incomodamos, mas queríamos agradecer pelas dicas no vestiário. Foi muito bom. — Foi um prazer.

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh — Estávamos comentando sua atuação no jogo da última temporada da liga. Foi... — Ele olhou para Emily. — Foi perfeita. — Obrigado. — Qual foi a jogada que mais apreciou, Srta. Proctor? Repetindo movimentos e gestos que aos poucos se iam tornando conhecidos para Scott, ela tocou a xícara e levantou o rosto corado. — Gostei de todas — disse. — Sim, mas deve haver uma que tenha apreciado mais. Sua favorita — Jim insistiu. — Qual foi? — Oh, eu não poderia escolher. Foram tantos momentos maravilhosos, tantas jogadas perfeitas... Jim abriu a boca para persistir no assunto, mas Bobby Knight acertou o cotovelo em sua costela, impedindo-o de continuar falando. — Só queríamos agradecer — sorriu Bobby. — É claro. Boa noite, rapazes. Tom Whitaker acenou, e todo o grupo deixou o restaurante. Parecia um milagre, mas nenhum deles tropeçou nas cadeiras ou nas mesas a caminho da porta. Scott pensou em touros numa loja de cristais. Sorrindo, olhou para Emily. — Então não tem uma jogada favorita? — Nenhuma em particular. Era difícil conter o riso. — Sabe de que campeonato eles estavam falando? — É claro que sei. Eu só... — Emily? — Não. — Não entende muito sobre futebol, não é? Ela suspirou resignada. — Não entendo nada... mas sei que você é ótimo. Ele riu. — Se eu não tivesse um ego do tamanho do Texas, meus sentimentos estariam feridos de maneira irremediável. — Ei, sou sua amiga antes da fama. Gosto de você como pessoa. Nunca persegui o astro do futebol. O riso desapareceu como que por encanto. Ela tinha razão. E por isso gostava tanto de Emily. Por isso a convidara para jantar naquela noite. Por isso procurava por ela sempre que ia à cidade. — Também gosto muito de você. O rubor confirmou que a escolha de palavras havia sido acertada. Scott terminou de comer a torta, contente por estar apenas sentado diante de Emily. Ah, se as coisas fossem diferentes... Ela havia ficado linda com aqueles cabelos vermelhos. Emily parou diante do espelho enquanto tirava os brincos. Havia perdido peso. Podia ver em seu rosto, especialmente no queixo duplo. Ou na ausência dele. Não que

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh ele houvesse desaparecido por completo, mas agora era bem menor. Quase inexistente. Sem dúvida nenhuma, perdera medidas também na região da cintura e do abdome, embora ainda não pudesse usar biquíni ou míni-blusa. Não pisava em uma balança há quase duas semanas, porque sabia que desistiria de tudo, caso não houvesse perdido peso. Mas naquela noite o número na escala seria uma agradável recompensa. Estava certa disso. Depois de despir-se por completo, ela se dirigiu ao banheiro. O lugar estava um pouco frio, mas era só porque não podia contar com a proteção das roupas. Emily subiu na balança e leu a medida no visor. Era inacreditável! Havia perdido quase cinco quilos! Incrédula, ela desceu da balança, esperou um momento e subiu novamente na plataforma de borracha. O resultado foi o mesmo. A dieta estava surtindo o efeito esperado, e pela primeira vez em anos Emily sentiu-se realmente esperançosa. Não que toda sua vida estivesse girando em torno daquela balança, mas a questão era muito mais importante para ela do que gostava de admitir. Dessa vez conseguiria. Chegaria ao peso ideal e manteria as medidas. Na manhã seguinte, assim que chegasse à academia, faria sua matrícula na musculação. E também compareceria às aulas de spinning. Porque queria mais do que um corpo magro. Queria um corpo em forma, Emily apagou a luz e foi para baixo do edredom. Sonharia com Scott em seu uniforme de jogador de futebol. Com seus ombros largos, com o peito amplo, as costas fortes, as pernas musculosas... Suspirando, ela se virou para abraçar Q travesseiro. Não que fosse fascinada por músculos ou coisas desse tipo, mas os de Scott eram realmente extraordinários. Não era só uma questão de opinião, mas um fato. Todas as mulheres de Sheridan, especialmente as que haviam sido alunas da escola local, sabiam disso.

CAPÍTULO VII Scott desligou o telefone, sem saber ao certo por que recusara o convite de Cathy para almoçar. Dispunha de muito tempo, agora que mais quatro jogadores do time de futebol de ginásio se haviam candidatado a ajudantes em meio-período. Cada um deles fazia mais do que devia, e depois da conversa que tivera com Emily, compreendia que os rapazes tentavam impressioná-lo. Emily estivera certa sobre muitas coisas. Devia ter telefonado para ela, mas durante toda a semana continuara acreditando que a encontraria por acaso. Talvez ligasse mais tarde. A noite. Ele saiu do escritório para voltar à loja. Não demoraria muito mais. Em uma hora, estaria entrevistando o candidato a gerente geral do mercado. Era o melhor a fazer. Tinha certeza disso. Temendo sofrer um esgotamento nervoso, finalmente contara tudo sobre a ESPN, e sua mãe insistira em que ele encontrasse outra pessoa para administrar o mercado. Ela não queria que o filho desperdiçasse a possibilidade de construir uma grande carreira na televisão. E no entanto, era devorado pela culpa. Não havia como ignorar o estômago oprimido, a pulsação rápida, os olhares furtivos para a porta. — Scott? A voz feminina sobressaltou-o. Ele se virou e viu Hope Francis sorrindo.

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh — Desculpe. Não tive a intenção de assustá-lo. Scott fez um gesto para indicar que não tinha importância. — A culpa não foi sua. Minha cabeça estava em outro lugar. — Sei como é isso. — É bom vê-la, Hope — ele sorriu. — O que está fazendo por aqui? — Eu estava do outro lado da rua, na loja de tecidos. Decidi experimentar um daqueles projetos domésticos de artesanato que despertam tanto entusiasmo em Samantha, Ele assentiu. — Samantha. Refere-se àquela garota que fazia as próprias roupas, não é? — Exatamente. Agora ela conseguiu convencer-me de que sou capaz de fazer minha própria colcha. Acho que vou tentar e, se o resultado for muito desastroso, comprarei uma colcha e direi a ela que eu mesma a fiz. — É um bom plano. ' —- Obrigada. Scott sorriu, esperando que ela começasse a fazer suas compras, mas Hope continuou parada onde estava. — Posso ajudá-la em alguma coisa? — Oh, não... Estava apenas imaginando se tem visto Emily recentemente. — Não a vejo desde a semana passada. — É mesmo? Ele fez um movimento afirmativo com a cabeça, sem entender o tom de voz de Hope Francis. Era como se misturasse surpresa e, se não estava imaginando coisas, rancor. — Esteve ocupado demais com Cathy? Agora a conversa estava ainda mais estranha. — Não. Estive ocupado com a loja. — Entendo — ela respondeu, embora erguesse uma sobrancelha formando uma expressão ameaçadora. — Será que estou esquecendo alguma data importante? Foi aniversário dela? — Não, mas está mesmo deixando de pensar em algo muito importante. — Do que está falando? — Se não sabe, não sou eu quem vai dizer. Scott olhou para a mulher pequenina diante dele e sentiu-se irritado. Muito irritado. Tão irritado, que gostaria de apertar seu pescoço. Lembrou-se de quando ela usava os cabelos compridos, de como costumava torcer uma mecha em torno de um dedo o tempo todo. Hope havia sido sua parceira no laboratório de química em um ano do ginásio, e chegara a pensar em convidá-la para sair. Mas Cathy teria tido um ataque. — E agora, o que significa esse comentário? Ela levantou a outra sobrancelha. — Um homem esperto e experiente como você devia ser capaz de entender certas coisas. — Não tenho a menor idéia do que está querendo me dizer? — Faz sentido — ela apontou com desdém.

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh — Hope, está me deixando confuso. E irritado, também. — Ah, pelo amor de Deus! Por que os homens são sempre tão cegos? Não consegue enxergar nem o que está bem na frente do seu nariz! Ela balançou a cabeça num gesto de reprovação e seguiu para a seção das frutas, deixando-o totalmente perdido. O que significava toda aquela conversa? Talvez Hope o estivesse confundindo com outra pessoa. Ou havia desenvolvido um quadro psicótico qualquer, e agora passava por um surto. Era muito estranho. Mas As Meninas sempre haviam sido um mistério para ele. Exceto por Emily, é claro. Emily. Devia mesmo telefonar para ela. Mas, antes, tinha de entrevistar o candidato a gerente. O inventor daquele aparelho de tortura devia ser fuzilado. E Emily era a pessoa ideal para cuidar da execução. E ainda diziam que aquilo era ginástica? Por que chamavam de musculação, se o nome mais apropriado seria mutilação? Os músculos de suas coxas pareciam estar se rasgando, e se ficasse ura pouco mais ofegante do que já estava, acabaria explodindo um pulmão. Mais dois minutos. Era capaz de sobreviver a dois minutos de dor e sofrimento. Só precisava pensar em outra coisa que não fossem suas miseráveis pernas. Scott. Por que ele não havia telefonado? Não falava com ele há uma semana, e cada dia sem o toque do telefone a deixara um pouco mais desiludida. Era tudo muito parecido com os tempos de ginásio. Naquela época, tivera certeza de que ele apreciava sua companhia. De que gostava dela. Sempre soubera da própria falta de popularidade, mas nunca havia duvidado da sinceridade do afeto de Scott. Sim, ele gostava dela, mesmo não sendo bonita ou sedutora. Tinham conversas tão maravilhosas, tão significativas, que tivera certeza de que um dia Scott acordaria e compreenderia que ela era a mulher de sua vida. Não Cathy. Mas o sonho nunca se realizara. E não se realizaria agora. Ele não telefonara, e mesmo que houvesse ligado, sabia que teria sido apenas para mais uma conversa agradável, útil ou interessante. Oh, por que estava atentando contra a própria sanidade mental? Um minuto antes da conclusão do tempo pré-determinado, ela desligou a terrível máquina. Com as pernas trêmulas, virou-se para ir buscar refúgio no vestiário, e teria conseguido chegar lá, não fosse por aquela voz chamando seu nome. Ela olhou por cima de um ombro, e o sorriso desapareceu de seus lábios diante da imagem de Cathy Turner em suas roupas justas e coloridas. Os cabelos estavam presos no alto da cabeça, aparentando descaso, embora ela soubesse que um penteado daquele exigia no mínimo trinta minutos de dedicação, e a pele brilhava atestando uma noite de sono perfeito. — Olá, Cathy. — Não sabia que freqüentava esta academia — Cathy comentou sem ofegar. — Comecei há uma semana. Cathy examinou-a dos pés à cabeça, notando o volume de seu estômago e a maneira como as coxas se tocavam. — Dizem que os profissionais daqui realizam verdadeiros milagres. — É mesmo? — Emily sabia que o comentário havia sido uma provocação, e não daria àquela víbora a satisfação de vê-la reagir.

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh — Oh, sim! Ontem à noite eu estava conversando com Scott sobre uma mulher obesa que freqüenta as aulas de aeróbica comigo e perdeu quase vinte quilos. — Que bom para ela. — Emily sorriu, lançando mão de seu talento para os palcos. — Bem, agora tenho de ir. Até qualquer hora, Cathy. — Até logo. Emily seguiu para o vestiário de cabeça erguida, embora soubesse que Cathy estava olhando para seu traseiro e balançando a cabeça como se não pudesse entender como uma mulher chegava àquele ponto. Mas não apressaria seus passos. Não demonstraria que a presença da rival a incomodava. Assim que passou pela porta, ela parou e se encostou na parede. Enxugando o suor do rosto, controlou a respiração e tentou não enlouquecer. A opinião de Cathy não era importante. E também não importava que ela fosse rude, ou que tivesse intenções ocultas e pouco admiráveis, Emily não era obesa. E mesmo que fosse, qual era o problema? Pessoas como Cathy a deixavam com vergonha por perdido um minuto de seu tempo pensando no próprio peso. Depois de respirar fundo algumas vezes, ela continuou caminhando, e assim que entrou no vestiário, fez questão de colocar-se diante do espelho. Não, tinha de reconhecer que não tinha o corpo ideal. Estava bem longe disso. As coxas, o estômago, o traseiro... Tudo era grande demais. E não tinha músculos firmes. E daí? .Queria mesmo julgar-se utilizando os padrões de Cathy e de outras mulheres iguais a ela? Queria extrair sua escala de valores do tamanho do vestido que comprava? Ela suspirou, apoiando as costas nas portas dos armários atrás dela. Era exatamente isso que queria. Podia mentir para si mesma quanto quisesse e afirmar que queria apenas ser saudável, mas no fundo sabia que sempre se sentira menos valorizada que as garotas mais magras. Nenhuma de suas inúmeras qualidades jamais compensara o fato de ser gorda. Emily olhou para o espelho mais uma vez, tentando enxergar quem realmente era. Uma professora. Uma amiga. Uma filha. Uma mulher de sentimentos com um grande amor pelas palavras. Mas nenhuma dessas características revelava a horrível verdade sobre seus pensamentos mais íntimos. Era uma mulher gorda. Sempre havia sido uma garota gorda. Mas não precisava permanecer gorda. De qualquer maneira, era melhor ser absolutamente clara e honesta sobre as razões que a levavam a lutar contra os quilos a mais. O sacrifício era por si mesma? Ou por Scott? Se ele fosse embora, abandonaria a dieta? Deixaria o programa de exercícios? Respeitava-se o bastante para cuidar do próprio corpo por nenhuma outra razão além do amor-próprio? Uma mulher que não conhecia passou por ela, lançando um olhar crítico em sua direção. Emily sentiu uma imensa vontade de esconder-se, de fugir para um lugar qualquer onde ninguém pudesse vê-la. Mas... esconder-se de quem? E por quê? Era melhor encontrar todas essas respostas, e depressa. E já que ia se dedicar à reflexão, devia aproveitar para descobrir também por que queria Scott Dillon com tanto ardor. Seria amor? Ou, como todas as outras pessoas que o cercavam, também estava interessada apenas em absorver um pouco de sua magia? Scott bateu novamente, dessa vez com mais força. Ela não devia estar em casa.

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh Ou não queria vê-lo? Ou... Ah, não sabia o que estava acontecendo. A surpreendente visita de Hope deixara um desconforto que o perseguira durante todo o dia. Telefonara para Emily duas vezes, e em ambas ouvira sua voz melodiosa instruindo para que deixasse um recado, seu nome e número de telefone. Depois disso tentara cuidar da contabilidade do mercado, mas errara a conciliação bancária quatro vezes, e finalmente decidira que seria mais sensato deixar as contas para mais tarde, depois de ter uma esclarecedora e produtiva conversa com Emily. Não teria paz enquanto não descobrisse o que estava acontecendo. Havia sido fácil localizar o apartamento. Em uma cidade pequena como Sheridan, tudo que tivera de fazer havia sido abrir o catálogo da companhia telefônica. Era um lugar agradável. Um pouco antigo, mas com muita personalidade. Havia até uma piscina no condomínio, o que era incomum em Sheridan. Scott olhou para o relógio de pulso e viu que já estava parado diante da porta há mais de cinco minutos. O que devia fazer? Bater pela terceira vez, ou desistir e ir embora? A persistência era uma de suas características mais marcantes, e por isso ele bateu na porta novamente, usando uma força excessiva gerada mais pela frustração do que pela possibilidade de ser ouvido. — Por mais que eu tenha me esforçado para treiná-lo, meu gato ainda não consegue abrir a porta sem minha ajuda. Scott virou-se assustado e viu Emily. Seu sorriso o fez sentir uma alegria súbita e envolvente. — Não sabia se estava em casa... — Eu não estava — ela disse, deixando a bolsa de lona no chão para inserir a chave na fechadura. Depois entrou e se virou para encará-lo. — Mas agora estou. — Está ocupada? — Não. Só preciso alimentar o gato e mudar de roupa. — Por quê? Emily riu. Scott sentiu-se muito satisfeito por ter ido até lá. Ela não parecia estar zangada ou aborrecida com sua presença, um sinal evidente de que se preocupara por nada. O que Hope havia tentado dizer com aqueles comentários estranhos? — Por que o gato precisa comer, ou por que eu preciso de roupas limpas? — Segunda alternativa — ele disse, decidindo entrar no jogo. — Porque estava na academia e sinto-me completamente nojenta. — Você não parece nojenta. — Um ex-jogador de futebol não é a pessoa mais indicada para julgar esse tipo de conceito. — Emily convidou-o a entrar na arejada sala de estar. O lugar combinava com ela. Não era um aposento comum ou formal. O sofá era velho e fofo demais, mas não poderia dizer de que cor era o tecido que o recobria, porque Emily o envolvera com mantas. Almofadas de cores vibrantes formavam uma pilha aconchegante e simpática. — Fique à vontade, Scott. Vou tomar uma ducha rápida. Ele sorriu e fez um movimento afirmativo com a cabeça. — Não tenha pressa — disse. — Talvez haja uma cerveja no refrigerador. Desde que comecei a dieta, nunca

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh mais bebi cerveja. Se quiser ir dar uma olhada... — Obrigado. — Ele viu uma miniatura de um tabuleiro de xadrez, mas as peças eram personagens de Guerra nas Estrelas. — Scott? Ele se virou para fitá-la, embora ainda não houvesse analisado nem a metade das prateleiras. — Sim? — Veio até aqui por algum motivo especial? — Não. Como não a vi pela cidade nos últimos dias, decidi dar uma passada e... Bem, se tem algum compromisso para esta noite, posso ir embora agora mesmo. — Não. Por favor, fique. Só quero tomar um banho, e então conversaremos. — Encontrou alguma coisa para beber? — Estava procurando. Quer alguma coisa? — Um suco, por favor. Light. Ele pegou uma lata de suco de pêssego sem açúcar e uma garrafa de cerveja. — Não bebia essa coisa na escola? — Scott perguntou curioso. Ela usava um longo vestido verde com flores bordadas nos bolsos. O cabelo ainda estava úmido do banho, mas brilhava e exalava um perfume delicioso. — Bebia. Sempre gostei de bebidas sem açúcar. — Ela abriu a lata e foi se sentar à mesa da cozinha. Scott a imitou, fingindo um enorme interesse no vaso pintado à mão. Ao lado dele havia uma fruteira. As frutas frescas pareciam boas o bastante para terem saído do Dillon's. — E então? A que devo a honra desta inesperada visita? — Já disse. Não vi você pela cidade na última cidade. — Podia ter visto, se quisesse. Eu estava aqui. — Eu sei. O problema é que estive muito ocupado com o mercado. Creio ter dado um passo maior do que minhas pernas, como dizem por aí. — Scott, você pode administrar aquele lugar com uma das mãos amarradas às costas. — Não é isso. São os novos empregados, entende? Cinco no total, cada um deles em um horário diferente, todos indisponíveis durante o horário escolar ou dos treinos. Eles estão se esforçando muito. — Então, qual é o problema? — Todos querem conversar comigo. — E você conversa com eles? — Oh, sim! Basta um deles começar com as perguntas, e não consigo mais parar de falar. Lembra-se daquele coelhinho da propaganda das pilhas de longa duração? Emily riu da comparação. — Em seu lugar, eu não me preocuparia. Parece que tudo está caminhando bem. — Gostaria de saber mais sobre sua vida — ele disse de repente. — Você já sabe tudo que há para saber. — Não. Conheço o panorama geral, mas não os detalhes. — Talvez tenha razão. — Emily bebeu um pouco do suco, a testa franzida por

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh conta da concentração. — Não é muito fácil começar. — Eu sei que não. Mas, depois que começa, tudo fica mais fácil. — Ah! Imagino que tenha contado a história de sua vida dezenas de vezes! — Não mude de assunto. — Sim, senhor. Vejamos... Eu nasci na floresta e fui abandonada em um cesto dentro do rio. Depois... — Emily! Estou falando sério. Quero mesmo saber sobre sua vida. — Desmancha-prazeres. — Por que não começa falando sobre seu trabalho? Ela sorriu. Era um bom sinal. — Gosto muito do que faço. As crianças são maravilhosas. Bem, quase todas. E as que não são acabam representando um desafio, uma oportunidade de crescimento profissional. Gosto especialmente das aulas de teatro. — Oh, céus! Julieta! — Romeu! — Você era boa nisso. Muito melhor do que merecia nossa produção. — Você não se saiu tão mal assim. Ele riu. Riu tanto, que Emily acabou gargalhando também. — Eu engasguei em uma parte mais difícil do texto. Lembra-se disso? — Sim, eu lembro. — E as pessoas que estavam sentadas nas últimas fileiras não conseguiam ouvir o que eu dizia. — O quê? Você gritava tanto, que as pessoas ouvi-lo da cidade vizinha! Aos poucos, fragmentos importantes do pedaço foram se juntando na cabeça de Scott. Os ensaios, a noite de estréia, as flores que oferecera a Emily... Ela havia chorado. E chorara muito, por muito tempo. — Você é feliz, Em? Silêncio. O riso desapareceu de repente. Não havia sequer um sorriso bailando em seus lábios. Os olhos buscaram os dele sugerindo uma certa gravidade. — Quase sempre. Sim, eu sou feliz, Scott. Na maior parte do tempo. — O que acha que falta para tornar sua vida perfeita? Para afirmar que é sempre feliz? — A perfeição é uma utopia. Ela não existe de verdade. — E se existisse? Emily desviou o olhar e brincou com a lata de suco. — Amor. — A resposta soou suave como um poema. — Viver um amor de verdade seria maravilhoso. Scott inclinou-se sobre a mesa e tocou seu rosto com a ponta dos dedos. Emily fechou os olhos. Ele traçou o contorno do lábio superior, depois do inferior, e quando terminou seu desenho imaginário, ela suspirou. Scott imaginava como seria beijá-la. Um impulso o fez inclinar-se ainda mais sobre a mesa.

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh

CAPÍTULO VIII Emily prendeu o fôlego. O coração batia tão alto e acelerado que temia que ele pudesse ouvi-lo. Scott devia saber que o toque de sua mão a eletrizava. Devia saber que aquele era o momento pelo qual ela esperava. Com o qual sonhava. Ele se aproximou um pouco mais. Emily sentiu seu hálito nos lábios e fechou os olhos. Mas o beijo não aconteceu. O hálito morno e quente desapareceu e ela abriu os olhos para encontrá-lo recostado na cadeira, o rosto transformado, em uma máscara de perplexidade. Oh, Deus! Ela pulou da cadeira e foi até a pia, dando as costas para Scott. Sentia o rosto queimar por conta da humilhação, e a lembrança do encontro com Cathy alimentava o sentimento. Para ocupar as mãos e o pensamento, abriu a torneira e lavou uma xícara que já estava limpa. — Emily? Ela não se virou. Torcia para que ele partisse. Sim, era isso. Rezava para que ele fosse embora e nunca mais voltasse. Era tudo tão horrível! — Emily? Desculpe-me. Não sei o que estava... Eu não tinha o direito... — Tudo bem. Realmente. Sabe de uma coisa? Havia me esquecido de que tenho uma pilha de lições para corrigir. Vou passar metade da noite em cima daqueles trabalhos. Sendo assim, se não se incomoda... Ela ouviu o ruído dos pés da cadeira contra o chão da cozinha. — Desculpe-me. Eu... — Já disse que está tudo bem — Emily cortou com tom ríspido. Depois o encarou, esperando que ele não pudesse ver a vergonha em seus olhos. — Mas tenho mesmo de corrigir aquelas lições. Scott fez um movimento afirmativo com a cabeça, mas não saiu do lugar. Ele a encarou com expressão preocupada. Com arrependimento, talvez. Constrangimento. Oh, era insuportável! Se ele não saísse de sua casa imediatamente, acabaria rompendo em lágrimas, o que tornaria a situação ainda pior. Era muito difícil. Não se sentia capaz de encará-lo. — Sabe onde fica a saída, não é? — Sim, mas... odeio ir embora deixando as coisas desse jeito. — De que jeito? Escute, conversaremos em outra ocasião, está bem? Talvez possamos almoçar juntos, ou qualquer outra coisa. — Certo — ele respondeu, embora não soasse convencido. Não tinha importância. A proposta serviu para colocá-lo em movimento, para tirá-lo de sua cozinha. Para afastá-lo da cena dó crime. Emily caiu sobre a cadeira assim que ouviu a porta do apartamento se abrir. Quando ela foi fechada, as lágrimas começaram a rolar. Eram lágrimas quentes e pesadas que lavavam seu rosto rechonchudo. O horrível momento em que ele recusara desfilava por sua mente como num filme. E a cena se repetia. Naquele momento Scott percebera quem estava diante dele. Emily Proctor. A garota do aparelho nos dentes e dos vestidos tamanho grande. Extragrande. A

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh garota que ele procurava para ouvir conselhos. A mesma menina que ele nunca convidara para sair. Não para um encontro de verdade. Por que revelara às amigas seu interesse por Scott? Se houvesse mantido a boca fechada, ao menos seu inferno poderia ser sigiloso. De que serviam os sonhos, afinal, se não podia nem mesmo esperar pela distante possibilidade de realizá-los? Sentiu Boo roçando seus tornozelos, o pêlo macio reconfortante em sua familiaridade. O gato miou, anunciando que, apesar do mundo estar desmoronando sobre sua cabeça, ele ainda precisava comer. Emily levantou-se com esforço e foi buscar a ração do animal no armário de canto. O movimento serviu para acalmá-la. Pelo menos tinha Boo: Ele a amava, apesar do tamanho de suas coxas. O gato atacou a comida com uma voracidade que ela podia compreender. De repente Emily lamentou ter apenas aspargos e peitos de frango no refrigerador. Podia sair. Sim, ainda tinha a liberdade de ir e vir. Entraria em carro, iria ao Taco e... Não. Não se entupiria de comida para compensar a frustração emocional. Não suportaria a vergonha enchendo o estômago. Não daria esse prazer a Scott. Nem a Cathy. Não permitiria que aqueles dois tirassem dela o amor-próprio, a vontade de ser melhor. Mostraria a eles. Aos dois. Perderia todo o peso extra que acumulara ao longo dos anos, e exibiria músculos tão definidos que Jane Fonda a procuraria para pedir conselhos. A determinação cresceu dentro dela, ocupando o espaço que até então havia sido dominado pela humilhação. Podia ser melhor. E seria. Com ou sem Scott, seria a melhor Emily que podia ser. De cabeça erguida, deixou a cozinha e foi para a sala de estar, onde ligou o aparelho de som. Depois examinou a coleção de CDs até encontrar um exemplar de Chaka Khan. Aumentando o volume em três níveis, acionou o mecanismo e fechou os olhos ao ouvir as primeiras notas da conhecida canção. Emily moveu a cabeça, o quadril... Enquanto Chaka gritava sua alegria de viver, ela dançava. Movia-se com abandono, com verdadeira fúria. Continuou dançando até estar quase sem fôlego, sem se importar com o que os outros diriam se a vissem. Não tinha importância. Ninguém podia vê-la. Ninguém se encolheria, faria caretas ou lançaria olhares de reprovação em sua direção. Para o inferno com os vizinhos. Emily dançou até sentir os músculos doendo. Até ter de parar para dar um descanso às pernas trêmulas. Foi preciso algum tempo para que a respiração voltasse ao normal, mas, quando conseguiu respirar fundo sem arfar, ela descobriu que se sentia muito melhor. Para o inferno com Scott Dillon. Nunca o amara de verdade. Tivera apenas uma paixão adolescente pelo rapaz mais atraente e popular da escola. O que havia de incomum na experiência? Nada. Milhares de garotas viviam situações idênticas àquela todos os dias. Pois bem, desse dia em diante Scott seria o último pensamento com que se ocuparia. Começaria uma nova jornada. Descobriria quem Emily era, e quem ela poderia ser. Não verteria mais nenhuma lágrima. Não alimentaria pesares ou arrependimentos. Pensaria apenas no futuro brilhante e promissor. Boo miou anunciando sua aprovação. Scott voltou à porta pela quarta vez consecutiva. A música soava tão alta no interior do apartamento, que ele nem se deu ao trabalho de bater. Sabia que ela não o escutaria.

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh Enquanto caminhava para o carro, sentia vontade de esmurrar o próprio nariz. Em que estivera pensando? Havia estragado um relacionamento perfeito com a única pessoa com quem podia realmente contar. A única pessoa que gostava dele por quem era, sua única amiga de verdade. Emily era importante demais para pôr em risco uma ligação tão antiga só porque havia gostado de seu perfume. Porque notara o rosto suave e os olhos cintilantes. Não tinha nenhum direito de tocá-la. Afinal, o que Hope tentara dizer naquela breve e estranha conversa? Tinha certeza de que ela se havia referido a Emily, mas qual fora a mensagem? Devia recuar? Afastarse dela? Ou... — Ah, droga! — resmungou, batendo a porta do GTO. Talvez não devesse recuar. Talvez... Não. Teria percebido se Emily tivesse esse tipo de interesse por ele. Nunca enfrentara dificuldades para decifrar essas mensagens, e conhecia Emily muito bem. Melhor do que conhecia todas as outras pessoas. Teria sentido qualquer manifestação de interesse da parte dela. Teria lido um ou outro sinal. Scott não ligou o motor imediatamente. Ficou ali sentado, olhando para o edifício de apartamentos, desejando saber o que fazer. Há poucos meses tudo havia sido tão simples! Antes da contusão. Adorava jogar futebol. Havia amado cada minuto de sua carreira de jogador. Os jogos, os treinos físicos, os companheiros, as viagens, a imprensa, os fãs. Seus dias haviam sido sempre estruturados em torno de uma agenda muito rígida, e mesmo nas férias ou folgas, sempre tivera algo interessante para fazer. Mas, de repente percebia, não tivera de fazer muitas escolhas. E nenhuma mulher chamara sua atenção de um jeito especial, o que significava que nem nesse sentido encontrara dificuldades ou obstáculos. E era esse o problema. A situação fora a mesma no ginásio e na universidade. Nunca tivera de fazer as escolhas com que se deparava agora. Até mesmo a decisão de ir para a A&M no Texas havia sido precisa quase cirúrgica. Cathy fora sua companheira durante o ginásio, e tivera algumas namoradas casuais na faculdade. Mulheres bonitas, agradáveis... Mas nenhuma como Emily. Ninguém que o entendesse como ela. Então, qual era o significado do que estava vivendo? Sentira um desejo real de beijá-la. Hmm... Talvez fosse a novidade da situação. Nunca pensara nela desse jeito durante os tempos de ginásio. Ela havia sido apenas uma amiga, alguém com quem pudera se abrir. Mas tudo mudara. Talvez fosse o novo corte dos cabelos, ou a cor escolhida por ela, mas duvidava de que a explicação fosse tão simples. Sentia-se atraído por Emily por causa dos sentimentos que ela despertava. Mas uma lição havia aprendido durante o tempo em que integrara a equipe profissional de futebol: não se deve mexer em um time que está ganhando. Se não está quebrado, não tente consertar. Seu relacionamento com Emily era o único que não estava quebrado. Com a mãe... Ah, essa era uma ligação bastante complexa. Queria fazer o que era certo, mas sentia-se morrer por dentro cada vez que pensava na oportunidade que estava pondo em risco. E um homem de sua idade não podia esperar muitas chances como aquela. Cathy? Ela estava se transformando em um problema dos grandes, embora só agora começasse a se dar conta da transformação. Emily tinha razão: de repente compreendia que Cathy queria mais da velha amizade. Queria que se apaixonasse por

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh ela. Mas não estava apaixonado por Cathy. E a constatação trazia à tona outro dilema. Conhecendo seus sentimentos, devia continuar saindo com ela? Devia dormir com ela? Scott esmurrou o volante, praguejando contra o destino e contra as próprias limitações. A única pessoa que poderia ajudá-lo a refletir e encontrar soluções estava naquele prédio, furiosa com ele. Era perfeito. Estava ficando tarde. O estômago de Scott roncou e ele lembrou que não comia nada desde a hora do almoço. Eram sete e quinze, e não queria ir para casa, nem comer sozinho. A única alternativa em que conseguia pensar era o Long Horn Saloon. Lá encontraria hambúrgueres suculentos e muita cerveja. Nunca tivera o hábito de afogar suas mágoas em um copo de bebida, mas naquela noite a idéia parecia ser perfeita. — Que horas são? — Emily virou-se para olhar para o despertador sobre o criadomudo. O telefone machucava sua orelha. — São doze e quinze. — O quê? Meia-noite e quinze? Hope suspirou. — Exatamente. Precisa sair dessa cama. O coração de Emily disparou alarmado. — Quem morreu? — Ninguém morreu. Estou dizendo que precisa sair dessa cama e ir ao Long Horn Saloon. Só isso. — Do que está falando? — De Scott. Ele está bêbado. — Hope, Scott é um homem adulto. Ele vai conseguir encontrar o caminho para casa. — Em, Cathy está lá. Ela dizia alguma coisa sobre pegar um avião para Las Vegas e providenciar os papéis para um casamento rápido. Emily despertou completamente. A lembrança do fracasso da noite anterior a impediu de seguir seu primeiro impulso. — Se é isso que ele quer, não há nada que eu possa fazer para detê-lo. Hope ficou em silêncio por um instante. — Será que ouvi bem? — perguntou confusa. — Você ouviu perfeitamente bem. Não me importo se Scott vai se casar com Cathy em Las Vegas. Por mim, eles podem ir até para... Timbuktu. — O que aconteceu? — A realidade sempre se impõe, Hope, por mais que tentemos ignorá-la. — Não me venha com filosofia barata, Em! Não temos tempo para isso. Precisa levantar dessa cama e ir até o Long Horn. Só você pode salvar Scott das garras de Cathy. — E por que acha que vou me preocupar com Scott? Por que eu devo ir salvá-lo? — Porque ele é seu amigo. Não é uma razão mais do que suficiente? Emily olhou para o volume sob o cobertor. Boo continuava dormindo tranqüilamente. Não permitiria que coisas como um amigo bêbado perturbassem seu sono. Por outro lado, Boo não tinha muitos amigos. Emily possuía muito deles, e apesar

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh do que acontecera, Scott ainda era um amigo. — Emily? — O que é? — Você vai? — Sim. — ótimo. Se precisar de ajuda, telefone para mim. Emily desligou o telefone, mas não saiu da cama imediatamente. Estava pensando nas conseqüências de ir ao bar. Cathy não ficaria feliz por vê-la. E era bem provável que Scott também não desse pulos de alegria com sua presença. Seria uma situação difícil, tensa, desagradável... Então, por que se incomodar? Por que se envolver em um assunto que só interessava aos dois? Era inútil. Sabia que não conseguiria voltar a dormir. Portanto, era melhor ir de uma vez. Talvez aproveitasse para beber alguma coisa, jogar uma partida de bilhar e encontrar velhos conhecidos. E se por acaso encontrasse Scott... Oh, a quem estava tentando enganar? Emily empurrou o cobertor e levantou-se para ir ao banheiro. Os músculos das pernas doíam, mas era uma dor favorável e positiva, bem diferente da dor que sentia no coração. Quem podia saber? Ajudar Scott naquela noite poderia servir para alguma coisa. Talvez passasse a vê-lo de uma outra maneira. Como um amigo. Nada mais. O bar estava lotado para àquela hora da noite. Emily não reconheceu muita gente. Conhecia Alan, o garçom. Ela o cumprimentou com um aceno e, depois de retribuir o cumprimento, o rapaz se virou para um dos extremos do balcão onde trabalhava naquela noite. Emily viu Scott. Ele mantinha os cotovelos apoiados sobre o balcão e os olhos fixos em dois copos, um de cerveja, ainda pela metade, e outro de uma bebida mais forte, provavelmente uísque, este vazio. Cathy também estava lá. Debruçada sobre ele. Emily não se moveu. Ficou olhando para os dois, até que a gargalhada alta de Cathy ecoou pelo ambiente barulhento e enfumaçado. Scott nem sorriu. Continuava olhando para os copos. Persistente, Cathy inclinou-se e beijou-o no rosto. Depois roçou a ponta do nariz em sua testa e fez cócegas em sua cintura. Embora não pudesse ouvir ò que ela dizia, Emily seria capaz de apostar no significado da mensagem. Cathy queria ir embora. Depressa. Antes que ele ficasse sóbrio. Emily respirou fundo e deu o primeiro passo na direção do balcão. Sabia que o problema começaria no instante em que Cathy a visse. A mulher se virou e, ao reconhecê-la, franziu a testa numa expressão carrancuda e ameaçadora, os lábios apertados numa reação tão ressentida que teria assustado uma rival menos obstinada. Era evidente que sua presença não despertava a simpatia da velha conhecida. — Olá, Cathy — Emily cumprimentou-a com falsa inocência, adotando um tom de voz relaxado e despreocupado. — Que coincidência encontrá-los! — O que faz aqui? — Cathy perguntou em voz baixa, quase num sussurro. Mesmo assim, Scott a ouviu. E olhou para Emily. — Vim beber alguma coisa. Como vocês. Alan aproximou-se no momento perfeito, como se houvessem combinado um plano de ação. — O que vai querer, Em?

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh — Um daqueles seus, famosos martínis. Com duas azeitonas, por favor. O garçom sorriu com alegria. — Num minuto — disse. Depois olhou para Cathy e o sorriso desapareceu. — Vou querer mais uma cerveja — ela anunciou. — E outra para o meu amigo aqui. Alan olhou novamente para Emily, que fez um rápido movimento negativo com a cabeça. O rapaz forçou um sorriso para Cathy, mas não conseguiu disfarçar a antipatia. — Lamento, mas vocês já chegaram ao limite. — Não pode se recusar a servir dois clientes do bar! — Oh, sim, eu posso. E é o que estou fazendo. Vou chamar um táxi para levá-la para casa. — Não preciso de um táxi. — É claro que precisa. Seu carro não vai fugir do estacionamento. Amanhã poderá vir buscá-lo. — Mas eu não vou para casa! — Ela olhou para Scott e sacudiu seu braço. — Vamos para Las Vegas. Não é, querido? Scott? — Acho que não — Emily interferiu com firmeza. — Não hoje. Amanhã, quando ele estiver sóbrio, poderão retomar essa discussão e decidirem o futuro. Cathy encarou-a com o rosto contorcido pela fúria. — Desapareça daqui, Emily! — Francamente, eu gostaria muito de poder ir, mas parece que ainda tenho muito que fazer por aqui. — Esse assunto não é da sua conta. — E claro que é. Scott é meu amigo. Não vou permitir que ele destrua a própria vida embarcando para Las Vegas com você. — Sua... sua... — Seja qual for a palavra escolhida, saiba que não vou.discutir com você, Cathy. Agora que já decidimos essa questão, por que não toma um café forte e amargo enquanto espera pelo táxi? — Você é patética — Cathy reagiu. — Acha que ele vai notar sua presença? Espera que Scott a reconheça como mulher? Pois saiba que está enganada. — Descontrolada, ela gritava sem se importar com a atenção que atraía. — Scott pensa que você é uma porca. Na verdade, todos a consideram uma porca enorme e gorda. — Tudo bem — Emily encolheu os ombros, tentando não se deixar perturbar pelas ofensas da rival embriagada. — Sou uma porca enorme e gorda. Isso não muda os fatos, Cathy. Você vai para casa, e Scott também. — Tente me obrigar a sair daqui. — Ela não precisa se incomodar — Alan anunciou enquanto contornava o bar. — Porque eu posso obrigá-la a sair deste bar. A lei me dá esse direito. Sendo assim, ou vem comigo e espera o táxi que vai levá-la para casa, ou terei de chamar a polícia. Nesse caso, você vai passar o resto da noite na cadeia. — Sabe quem eu sou? — Sim senhora. Uma bêbada. E também será uma delinqüente com ficha na

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh delegacia local, se tentar resistir. Venha, vou tirá-la daqui. Cathy abriu a boca para protestar, mas não disse nada, Alan segurou seu braço e, depois de alguma resistência inútil, ela acabou por acompanhá-lo. Quando passaram por Emily, Cathy brindou-a com um olhar mortal, mas o espanto causado pelas roupas da mulher era tão grande, que ela nem se importou. Cathy vestia uma blusa tão justa que devia ser ilegal em alguns Estados. A calça também era bastante apertada, deixando pouco para a imaginação. Seria isso que atraía Scott? Oh, céus, agora compreendia porque ele desistira de beijá-la. Jamais sonharia em usar roupas tão justas. Nem que tivesse um corpo perfeito. — Onde está Alan? A voz pastosa a fez virar-se para Scott. Ele parecia pior a cada segundo. Para os padrões de Scott, pelo menos. Como um homem conseguia se manter tão atraente depois de esvaziar um barril de cerveja e uma garrafa de uísque? Apesar de tudo, quando se sentou no banco ao lado dele, seu coração disparou. — E então, caubói? — Emily... — Sim, sou eu mesma. — Puxa, estou feliz por vê-la. — É surpreendente que ainda consiga ver alguma coisa. Seus olhos parecem estar afundando em cerveja. Ele balançou a cabeça, um esforço monumental, a julgar por sua expressão de desconforto. — Como tudo ficou tão confuso? — perguntou. — Gostaria de saber... — Liguei para pegar os recados na minha... — Um soluço interrompeu a frase. — Na minha secretária eletrônica. Adivinhe quem telefonou? — Não faço a menor idéia. — Vamos lá. Tente. — Regis Philbin. Ele a encarou com ar confuso, depois balançou a cabeça como se quisesse juntar as letras que ouvira de forma a torná-las compreensíveis. — Meu empresário. — Oh, é mesmo? — Eles ainda não contrataram ninguém. — Ah... — Ele disse que os homens do poder ainda querem falar comigo. — E o que você disse? — Eu disse que não podia ir falar com eles. Minha única chance de ser realmente alguém, e tenho de ficar nesta cidade minúscula e fedida, cuidando daquele mercado minúsculo e fedido. Emily compreendeu a razão da bebedeira. Nunca soubera que Scott tinha problemas com o álcool. Nas circunstâncias atuais, quem não perdoaria o deslize? — Eu telefonei para o tend... tern... treinador. — Por quê?

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh — Para falar sobre um emprego. De tend...- tern... treinador. — No ginásio? Ele assentiu, depois limpou a boca com o dorso da mão. — Não há verba para novas contratações. — Quer treinar um time? — Nenhum dos ginásios tem verba para contratar novos professores, o que significa que estou sem sorte. Por isso preciso de mais uma dose de tequila. Então era isso. Tequila. Scott não havia bebido uísque, como imaginara a princípio, mas tequila. O panorama ficava pior a cada instante. — Esqueça — Emily disse com firmeza. — Precisa ir para casa. Para a cama. — Sim, para a cama... Mas só depois de mais uma dose. — Ele levantou a mão, mantendo o indicador e o polegar separados por alguns centímetros. — Eu mesma servirei mais uma dose de tequila. Em sua casa. — Combinado. Ela se levantou do banco no mesmo momento em que Alan voltava para o trabalho atrás do balcão. — Conseguiu colocá-la no táxi? — Sim, embora tenha sido forçado a usar técnicas mais firmes de persuasão. E nosso astro do futebol? — Vou levá-lo para casa. Muito obrigada pela ajuda, Alan. — Ele me deve algum dinheiro. — Scott voltará amanhã para pagar por toda bebida que consumiu. Oh, e guarde aquele meu Martini para outra ocasião. — É claro. Tome cuidado, está bem? — Eu sempre tomo muito cuidado. — Com isso, ela passou um braço de Scott por cima de seus ombros e ajudou-o a deixar o banco. Os dois oscilaram por um instante, mas depois ele conseguiu se equilibrar, embora com algum esforço. Scott tentava puxá-la para a direita, mas, apesar do peso, ela estava certa de que conseguiria colocá-lo em seu carro. Foi mais difícil e muito mais demorado do que Emily imaginara. Scott conseguiu derrubar meia jarra de cerveja, ensopando suas roupas e as dela, enfureceu os dois desconhecidos que pretendiam beber aquela mesma cerveja, e ela ainda tivera de pagar por uma nova jarra. Mas o pior havia sido abrir a porta enquanto ele tentava escapar e voltar ao balcão. Finalmente, Emily conseguiu enfiá-lo no automóvel e prendê-lo com o cinto de segurança. Exausta, parou para recuperar o fôlego e para olhar para o amigo. Bêbado como um gambá, exalando o aroma de uma cervejaria, reclinado no banco com os olhos fechados e a boca aberta, com a barba por fazer e a respiração ofegante, e mesmo assim ainda o queria. Em que isso contribuía para atestar sua sanidade? Determinada, sentou-se ao volante e tomou a direção da casa da mãe de Scott. Ele não dizia nada. E como poderia, se estava roncando como um porco? Mas ele acordou e reagiu com intensidade espantosa ao perceber que estavam parados diante da casa de sua mãe. — Não vou entrar — avisou, a voz menos pastosa, os olhos mais firmes nos focos

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh escolhidos. — Quero voltar para o bar. — Não. — Vou descer daqui e chamar um táxi. — Ah, não, você não vai. — Então, leve-me de volta. — Scott, pare com isso... Ele agarrou seu braço. — Não posso entrar lá! Não posso encará-la neste estado. Já causei problemas demais para ela. O desespero na voz dele podia ser apenas conseqüência do consumo excessivo de álcool... ou todo aquele episódio era um exercício de culpa e pesar. Emily decidiu dar a ele o benefício da dúvida. — Não vou obrigá-lo a entrar. Mas também não vou permitir que volte ao bar. — Tudo bem. Vamos para sua casa. — Oh, não. — Por favor, Em. Preciso de você. Ela fechou os olhos por um momento, depois o encarou com ar crítico, quase severo. — É sempre assim entre nós, não é, Scott? Você precisa de mim. E eu? Nunca tenho a chance de precisar de ajuda? Não posso ter problemas? Acha que nunca preciso de um ombro amigo, de um conselho prático, de uma palavra de consolo? — Tem razão, sou uma droga de amigo, Em. Não sirvo para nada. — Não é isso. — É sim. — Tudo bem, é isso. Agora fique quieto. E cale a boca, sim? — Ela engatou a marcha e voltou de ré até a esquina. — Aonde estamos indo? — Aonde acha que vamos? — Oh, Em... — Ele sussurrou, a voz embargada pela gratidão. Ou seria pelo álcool? — Ah, cale a boca, está bem? Vá dormir e me deixe em paz!

CAPÍTULO IX Foi necessário algum esforço para levar Scott até o apartamento. Quando ela finalmente fechou.a porta, ele deixou de se apoiar em seu ombro e olhou em volta como se estivesse surpreso por descobrir-se em sua casa. Quando os olhos encontraram seu rosto, ele sorriu como se não houvessem estado juntos durante todo aquele tempo. — Em! — Olá, Scott. — Em — ele repetiu com um suspiro. — Sim, sou eu. O que acha de ir para a cama? O sorriso tornou-se mais largo. Ele cambaleou para a direita, para a esquerda, e

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh conseguiu encontrar o ponto de equilíbrio. — Emily! Sempre soube que seria você. Sempre aparece como uma... como uma... — Como uma tonta? — Uma tonta! É isso. Não, espere... Emily não esperou. Irritada, deixou-o sozinho e em pé no meio da sala de estar e foi buscar tudo de que precisava no armário de roupas de cama. Depois de pegar um lençol, um cobertor e um travesseiro, ela se lembrou de que possuía um pijama masculino em uma caixa sob o cobertor elétrico. A intenção havia sido oferecê-lo ao pai como presente de aniversário, mas depois de comprá-lo encontrara a raquete de tênis que ele tanto queria. O pijama permanecera na caixa original. Ficaria um pouco folgado em Scott, mas e daí? Ele não poderia dormir usando aquelas roupas. A camiseta e o jeans estavam molhados de cerveja, e o cheiro era insuportável. Emily levou algum tempo para encontrar a caixa com o pijama, mas finalmente voltou à sala levando tudo que havia pego no armário. Ele continuava no mesmo lugar onde o deixara. E oscilava como uma árvore muito frágil castigada pelo vento. Para frente, para trás, para um lado, para o outro... Era como se estivesse em um barco atravessando o mar revolto. Emily balançou a cabeça, tentando compreender que falha de caráter possuía para estar sempre se envolvendo em situações como aquela. Desde a sétima série, quando Hope e Júlia disseram aos pais que dormiriam em sua casa e foram a um concerto com dois garotos do segundo grau, Emily sempre fora a salvadora. Talvez devesse comprar um daqueles barris de madeira em miniatura e carregá-lo no pescoço, como os cães da raça São Bernardo nos Alpes. Por outro lado, a última coisa de que Scott precisava naquele momento era mais bebida. Ela o conduziu alguns passos para a direita, e depois começou a arrumar o sofá com o lençol e o cobertor. Quando se virou viu que o hóspede permanecia no mesmo lugar onde o deixara. Oh, céus! Que noite lamentável! Emily o levou para perto do sofá e ofereceu o pijama. — Vista isto — disse. Scott olhou para a roupa como se nunca houvesse visto um pijama antes. — Tire suas roupas e vista o pijama. E fácil, sabe? Ele abriu a boca. E franziu a testa. Depois fechou a boca. Emily suspirou. Talvez devesse deixá-lo no jeans mal-cheiroso. O tecido era grosso, mas eventualmente acabaria secando. Afinal, Scott não merecia um pijama limpo e confortável. E quanto a lavar suas roupas naquela noite... De jeito nenhum! Não iria para o tanque àquela hora por ninguém. Nem mesmo por Scott. Impelida pela indignação, ela foi para o quarto e bateu a porta com uma mistura de raiva e frustração. Emily pensou em mais um adjetivo que pudesse qualificá-la com um mínimo de exatidão. Os dedos manipulavam o segundo botão da camisa de Scott. Vestira a camisola, escovara os dentes pela segunda vez naquela noite e fora para a cama com Boo. O único problema havia sido a luz da sala. Ela não fora apagada. Esperara cinco minutos. Dez. Quinze. Depois se levantara, mas só porque odiava a idéia de pagar uma conta exorbitante. Além do mais, energia elétrica era um recurso que devia ser usado com responsabilidade.

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh Quando o vira dormindo sentado no sofá, ainda vestido e com o pijama entre as mãos, conformara-se com a idéia de ajudá-lo, embora ele não merecesse. Embora não devesse. Emily terminou de abrir os botões da camisa que não estavam escondidos dentro da calça jeans. Quando puxou o tecido para livrá-lo do cinto, Scott acordou. Ou melhor, abriu os olhos, mas continuou dormindo. Era como tentar comandar as ações de um homem hipnotizado. Em transe. — Olá — ele disse com voz rouca. — Olá. — O que está fazendo? — Brincando de mamãe e filhinho. Ele sorriu com metade da boca, uma reação que Emily considerou apropriada. Afinal, a piada nem fora tão engraçada assim. Depois ele fechou os olhos novamente. Ela estendeu as mãos para os dois últimos botões e, com o dorso de uma delas, tocou sua pele quente. O arrepio que a sacudiu alcançou até a ponta dos dedos dos pés. Oh, céus. Seria extremamente impróprio tocá-lo mais uma vez. Não podia. De jeito nenhum. Ela terminou de desabotoar a camisa com gestos sérios, quase profissionais. Depois desdobrou a blusa do pijama. Tirou a manga direita da camisa, em seguida a esquerda... Pegou o pijama. E então deixou cair os ombros que até então mantivera eretos. — A quem estou tentando enganar? — sussurrou. Scott não se movia. Estava dormindo. Sendo assim, que diferença faria se o tocasse? Se deixasse as mãos deslizarem pela pele macia e pelo contorno dos músculos firmes? Não causaria nenhum prejuízo a ninguém. Não estaria desrespeitando nenhuma lei. O calor daquele corpo a surpreendeu. Mas essa foi a única surpresa. Muitas vezes imaginara como seria tocá-lo. Sonhara com os dedos brincando com os pêlos em seu peito, com os mamilos eretos, acariciando o abdome plano. A única diferença era que, em seus sonhos, Scott permanecia acordado. Alerta, correspondendo ao toque de suas mãos, retribuindo cada carícia. Ele sussurraria algumas indecências em seu ouvido enquanto explorava seu corpo sem pressa. A mão encontrou o botão da calça jeans e recuou. Podia continuar? Não. Seria pessoal demais. Por outro lado, a culpa era dele por ter se embriagado, certo? Por que não? Emily tocou o botão novamente. Levou alguns segundos para tirá-lo de seu nicho, em grande parte porque continuava esperando que ele despertasse sobressaltado e a interrogasse sobre o que pensava estar fazendo. Mas Scott não acordou. Seus olhos permaneciam fechados. Os cílios eram ainda mais longos do que havia notado antes. Não era justo! Trocaria seus cílios pelos dele num piscar de olhos. E não estava fazendo um trocadilho infame. De qualquer maneira, não era esse o assunto em pauta. Estava despindo um amigo bêbado. Só isso. Scott usava cueca branca. O modelo era o que ela mais apreciava. Short. Lembrava sempre aquela cena de um filme em que Susan Sarandon surpreendia Kevin Costner durante um treino de musculação e... Scott gemeu. Ela recuou assustada, o rosto queimando de culpa e vergonha.

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh Quieta, esperou que ele a acusasse de invadir sua privacidade. Não respirava. Não se movia. Mas Scott continuou dormindo. O gemido não havia sido um sinal de consciência. Devia ir para a cama e esquecer que ele dormia em seu sofá. Podia jogar um cobertor sobre seus ombros e deixá-lo curar a bebedeira sozinho. Ele sobreviveria, certamente. Além do mais, estava cansada. E era muito tarde. Bem, tentaria mais uma vez contribuir com o conforto de um velho amigo. Só mais uma vez. Determinada, rápida para concluir a tarefa antes que pudesse mudar de idéia, terminou de abrir a calça. Pronto. Tudo que tinha a fazer era retirá-la. E vestir o pijama em Scott. Depois o deitaria. Era simples. Qualquer amiga faria a mesma coisa. Sim, era isso. E talvez devesse começar pela camisa. Devia, ser simples, mas não era fácil. Os braços insistiam, em cair antes que pudesse encaixá-los nas mangas, e sempre que a cabeça pendia sobre um dos ombros, ela se detinha por medo de deixá-lo cair. Emily acabou apoiando o braço direito de Scott sobre seus ombros, encaixando a camisa fechada em sua cabeça, e colocando as mangas por cima, como se o vestisse com uma camiseta. Quando terminou, estava cansada e ofegante. Mas o cansaço não era a pior das sensações. A trágica realidade era que estava excitada. Muito. Dolorosamente. Cada toque naquele corpo despertava algo profundo dentro dela, um anseio que há muito estivera adormecido, mas nunca deixara de existir. Uma necessidade que despertava com força assustadora e ameaçava dominá-la, superando a consciência, o bom senso e a ética. Ela se levantou, segurou os ombros de Scott e deitou-o no sofá. Depois pegou suas pernas e as estendeu sobre as almofadas. As botas de caubói foram removidas com grande esforço. Muito bem. Agora só restava a parte de baixo. Emily puxou a calça, mas nada aconteceu. Tentou novamente. Nada. Teria de atacar o problema a partir de outro ângulo. Erguendo o corpo, segurou o jeans pela cintura. Quando puxou o tecido desbotado e resistente, notou que a cueca também se movia. Oh, não!. A parte inferior do abdome de Scott era a imagem da perfeição. Até os pêlos escuros que cobriam algumas áreas de seu corpo eram perfeitos. Os músculos... De repente sentia um profundo respeito pelo trabalho contínuo dos atletas. Sua intenção havia sido a melhor possível. Queria apenas puxar a cueca de volta ao local de origem. Só isso. Mas, de repente, estava debruçada sobre o corpo adormecido, as mãos espalmadas sobre seu ventre. Os lábios estavam tão próximos daquele peito amplo que ela não conseguiu se .conter. Beijou-o. Beijou a pele morna do peito. Inalou seu cheiro, uma fragrância máscula e seca que o aroma da cerveja não conseguia esconder. Como o amava! O sentimento não perdera a força com o passar dos anos. Amarao em silêncio, com paixão, entregando seu coração sem que ele ao menos tivesse consciência disso. E agora sabia que jamais poderia falar sobre seus sentimentos. Não depois desse dia. Emily beijou-o mais uma vez enquanto sussurrava as palavras de adeus. Não daria certo. Nunca. Ele iria embora para viver sua vida glamourosa de prestígio e fama, enquanto ela permaneceria para sempre em Sheridan, sendo apenas Emily. A boa e velha Emily. Talvez um dia encontrasse alguém simples como ela.

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh Ela beijou o queixo largo e forte. Estava se levantando quando os dedos encontraram sua nuca. Assustada, emitiu uma exclamação abafada e tentou se libertar. Scott abriu os olhos. Emily tentou afastar-se, mas ele a segurou com força surpreendente. Seu olhar era firme, e de repente ela teve dúvidas sobre sua embriaguez. Ele a puxou de encontro ao corpo, de encontro aos lábios... de encontro ao beijo. Um beijo que fez desaparecer o resto do universo. A língua a provocava e desafiava, gerando um calor que ameaçava derreter até a última célula de seu corpo, e ele a beijava exatamente como sempre desejara ser beijada. Era perfeito. Perfeito! Era evidente que ele estava bêbado. Sabia disso. Mas isso não tinha muita importância, tinha? Afinal, Scott sabia quem estava beijando. Ele a chamara pelo nome pelo menos meia dúzia de vezes desde que fora resgatá-lo no bar. Usando a força dos braços, ele a puxou para baixo até deitá-la no sofá, ao lado dele, aninhada em seu peito como se fossem amantes. Scott virou-se sobre um lado do corpo, como Emily. Depois interrompeu o beijo. Quando ela abriu os olhos, descobriu que os dele permaneciam fechados. A decepção a atingiu como uma lâmina afiada no ponto mais vulnerável de seu ser. Mas depois ele suspirou e voltou a beijá-la, dando início a uma exploração lenta e longa. Uma das mãos deslizou por seu peito até encontrar um seio. Era isso. A noite com que tanto sonhara. Não estava acontecendo como havia imaginado, mas o que podia esperar? Era bem provável que ele nem se lembrasse de nada na manhã seguinte. E seria melhor assim. Se estivesse acordado, sóbrio, alerta, Scott perceberia que aquela era uma experiência nova para ela, que nunca fizera nada parecido antes, e não se sentia preparada para responder a todas as perguntas que a revelação certamente levantaria. Ele moveu os lábios até seu pescoço, usando a língua para criar sensações maravilhosas. Os dedos encontraram o mamilo e o despertaram com movimentos lentos e suaves. O calor a preenchia por completo, formando uma espécie de fornalha na porção mais central de seu corpo, logo abaixo do abdome. Emily aproximou-se um pouco mais, e ele inseriu uma perna entre as dela. Quando apoderou-se mais uma vez de sua boca, ele pressionou a coxa contra a parte mais íntima de sua feminilidade, causando uma fricção que era quase mais do que Emily podia suportar. — Oh... — ele sussurrou com voz rouca. — É tão bom tocá-la... Não era amor. Não era nem desejo de verdade, mas uma coisa que ela havia aprendido ao longo dos anos fora como fingir. Portanto, naquela noite, usaria sua capacidade de fazer de conta, e quando Scott a tocasse, seria com reverência. Quando ele a fitasse, veria apenas beleza e encantamento. E quando ele pronunciasse seu nome, seria com amor. Ele removeu a mão de seu seio, e um segundo mais tarde Emily sentiu os dedos na coxa, logo abaixo da barra da camisola. Com facilidade espantosa, Scott foi movendo a mão lentamente para cima, superando a barreira do tecido enquanto acariciava a pele sensível. Emily fechou os olhos, concentrando toda a atenção no próprio corpo, em cada reação causada por aquele toque. A antecipação, a necessidade... Queria Scott com desespero.

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh Os dedos passaram pelo quadril e subiram pelo abdome, provocando arrepios que a obrigaram a mudar de posição. Aproveitando o momento, ele tocou a área logo acima da junção de suas pernas. Um segundo depois, Emily sufocou um grito aflito ao sentir o dedo penetrando sua intimidade. — Tão quente... — ele murmurou. — Tão úmida... Por um momento ficou paralisada, chocada coma carícia ousada. Depois moveu o quadril. Era como se não tivesse escolha. O instinto assumira o controle da situação, e não podia fazer mais nada senão render-se. Scott continuava acariciando aquela parte tão íntima de seu corpo, descrevendo círculos que aos poucos se tornando maiores. Emily entregou-se com abandono às sensações que iam ganhando intensidade na mesma medida em que os músculos tornavam-se mais tensos. Antes de explodir, havia algo que precisava fazer. Movendo a mão pela abertura da calça jeans, ela encontrou o tecido mais macio da cueca. O prazer gerou a coragem necessária para tocá-lo. Quente, imponente, tão, rígido que era quase assustador. Tê-lo dentro de seu corpo era tudo que queria. Tudo com que sonhava. Emily abriu as pernas e ele gemeu. Beijando sua boca, Scott mudou de posição de forma a posicioná-la sob seu corpo. Com a mão livre, ergueu sua camisola até revelar seus seios. Ela terminou de despi-la. Depois Scott abaixou a mão para acariciá-la mais uma vez, encontrando o ponto exato onde as sensações eram mais intensas. O corpo movia-se sobre o dela, roçando, pressionando, levando a necessidade a um patamar intolerável. — Scott... — ela sussurrou. — Oh, Em... É tão bom tocá-la... — Sei que não vai se lembrar disto, mas eu jamais esquecerei o que está acontecendo aqui. Amo você, Sempre o amei. — Eu sei — ele respondeu, afastando as mãos de seu corpo. Estava despindo a calça, mas Emily não podia vê-lo. Não na posição em que estavam. Por isso ela fechou os olhos enquanto se preparava para recebê-lo. — Faça amor comigo — murmurou, agarrando a lateral do sofá. — Eu o quero tanto! Já podia senti-lo buscando a entrada de seu corpo, e era como se todo seu ser se desfizesse diante da força daquela urgência. Scott parou. Emily ergueu o quadril numa súplica aflita, mas ele se conteve. — Scott... Não teria vergonha de implorar, se fosse necessário. Estava perto da realização de um sonho. O maior de todos que já tivera. Não desistiria agora. Os olhos encontraram os dela, firmes e penetrantes. Ele a beijou nos lábios com delicadeza espantosa, e depois aproximou a boca de sua orelha, usando a língua para descrever desenhos que eram uma doce tortura em sua pele quente. Quando finalmente a penetrou, Scott murmurou uma única palavra: — Cathy...

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CAPÍTULO X A dor o acordou. Latejando nas têmporas, pulsando com tanta intensidade que era como se a cabeça estivesse sendo pressionada por um alicate gigantesco. Tentou abrir um olho, mas fechou-o imediatamente. A luz brilhante do sol inundava o aposento, e a luminosidade quase o matou. Havia mais alguma coisa que não estava certa ali. Não conseguia mover o cotovelo esquerdo Não se lembrava de ter levado alguma coisa para a cama. Decidindo não se preocupar com detalhes sem importância, pelo menos naquele momento, virou o corpo para a direita. E caiu. Scott gemeu ao sentir que todas as células se uniam para castigá-lo por toda uma vida de erros. Então estava morto, não? E aquilo era o inferno. Tudo que podia fazer era ficar ali deitado por muito tempo, imaginando se acabaria vomitando. Mantendo os olhos bem fechados, fez uma prece rápida, porém fervorosa, para os deuses da ressaca. Ainda estava concluindo a oração quando se deu conta daquela estranha sensação no rosto. Tentou apagá-la com a mão, mas ela sempre retornava. Scott abriu os olhos e quase deixou escapar um grito de espanto. Um gato o fitava desconfiado, o focinho muito próximo de seu nariz. Ele o estudava como se estivesse diante de um rato enorme. Assustado, levantou-se de um salto e teve de segurar a cabeça com as duas mãos. Mas que diabos... Estava usando uma camisa de pijama azul e sua cueca branca. Lembrava-se da cueca, mas o pijama era desconhecido. Como o lugar em que se encontrava. Não, espere! Aquelas prateleiras... O aquário com peixe falso... Emily! Estava no apartamento de Emily. Só não conseguia imaginar como fora parar ali. De fato, a última coisa que recordava era de ter estado sentado diante do balcão do Long Horn. Sentindo pena de si mesmo. Bebendo. Oh, céus, estivera bebendo... Emily devia tê-lo levado para casa. E ela também havia providenciado a camisa de pijama. Arrumara a cama, trocara suas roupas... A boa e velha Em. Ela havia aparecido mais uma vez num momento de dificuldade. Mesmo depois de... Tentou lembrar o que havia acontecido no dia anterior. Oh, sim! Quase a beijara. Quase havia arruinado um antigo e sólido relacionamento com a melhor amiga que jamais tivera. Mas resistira. Não havia deixado que um beijo os afastasse para sempre. Devagar, Scott pôs-se em pé e viu a calça jeans jogada aos pés do sofá. Suas botas estavam no chão. E a camisa fora deixada em cima delas. As roupas exalavam um cheiro forte de cerveja, e foi necessário um grande esforço e uma imensa concentração para não despejar ali mesmo tudo que ainda guardava no estômago. Finalmente o perigo diminuiu e ele conseguiu recolher todas as coisas e ir para o banheiro. Uma ducha. Sim, era isso. Queria um banho mais que tudo na vida. Mais do que a paz entre os povos. Mais até do que o emprego na ESPN. Fechou a porta com o pé e foi ligar o chuveiro. Por um momento pensou em vasculhar as gavetas de Emily, tentando decidir se seria apropriado invadir a intimidade mesmo de uma grande amiga. A sensação de aspereza nos dentes superou a noção de ética e propriedade, e ele encontrou o que queria na terceira gaveta do armário. Uma escova de dentes ainda na embalagem original. As mãos tremiam enquanto ele tentava

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh encontrara a fita estreita que romperia o celofane. Impaciente, Scott acabou optando por simplesmente quebrar a caixa. Antes de abrir o tubo de creme dental, ele regulou o jato do chuveiro de forma a encontrar a temperatura ideal da água. Gostava de seu banho quente. Depois despiu-se e, nu, escovou os dentes com vigor, usando a outra mão para procurar o segundo objeto mais importante em todo o universo naquele momento de vida: um analgésico. O frasco de comprimidos estava bem ali, no meio da prateleira central do armário. Depois de enxaguar a boca, engoliu dois comprimidos e foi para baixo do chuveiro. A.água quente operou um verdadeiro milagre. Caindo sobre seus ombros e escorrendo pelo peito e pelas costas, ela parecia lavar seus pecados. Scott fechou os olhos e logo descobriu ter cometido um grave engano, porque uma vertigem quase o derrubou. Nunca tivera uma ressaca como aquela. Na verdade, não costumava beber. Normalmente consumia uma, no máximo duas cervejas, e encerrava a noite. Devia ter esvaziado uma garrafa de tequila para chegar no estado em que estava. O que mais o inquietava não era a cabeça, embora a dor fosse intensa o bastante para levá-lo a considerar uma visita ao pronto-socorro mais próximo. Não. O que mais o preocupava era que não conseguia lembrar a noite anterior. O bar. Alan. Cathy. Cathy! Sim, era isso. Ela estivera no Long Horn, E havia aproveitado a oportunidade para dizer a ela que não poderia mais vê-la. Sim, sim, era isso. Anunciara sua intenção de romper o relacionamento, se é que podia dar esse nome ao que acontecia entre eles, e Cathy ficara muito aborrecida. Ou teria sido Hope? Hope? Ela também havia estado no bar? Scott apoiou a cabeça no azulejo frio. Que confusão! Sua vida estava escoando pelo ralo, e não tinha a menor idéia sobre como salvar o que ainda restava. Bem, pelo menos a situação com Cathy estava controlada. Odiava causar sofrimento a outras pessoas, mas terminar tudo havia sido a melhor solução. Não podia assumir compromissos na atual fase de sua vida. E a última coisa que queria era sentir-se preso a alguém. Ficaria perto de Emily. Ela era exatamente a amiga de que precisava. Se ainda não estivesse zangada por aquele movimento ousado e impensado do dia anterior... Scott pegou o sabonete e começou a esfregar o corpo. Enquanto massageava a pele, descobriu que estava ficando excitado. O que era surpreendente, considerando seu estado geral. Mas a mente continuava produzindo cenas do que devia ter sido um sonho. Um sonho com Emily. Lampejos e imagens que iam desfilando por sua mente como luzes que piscavam. Um beijo. Uma carícia em sua pele suave. As mãos dela em seu corpo. Uau! Scott fechou os olhos e tentou controlar os pensamentos. Era inútil. As imagens o conduziam a lugares onde nunca havia estado antes. Emily! Por que não notara antes? Ela sempre estivera bem ali, a seu lado, e nunca havia parado para pensar nela. Não daquela maneira, pelo menos. Mas o sonho abrira seus olhos. Sempre a considerara atraente, e tivera certeza de que ela já havia sido reclamada por algum homem de sorte àquela altura da vida. Seria ele esse homem? Não. Não estaria ali para tentar. Além do mais, Emily não o via desse jeito. Tivera

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh certeza disso no dia anterior. A atitude mais sensata a tomar era encerrar essa história ali mesmo. Terminaria de tomar seu banho, vestiria suas roupas e iria para casa. Dormiria até superar a ressaca e os pensamentos confusos. Emily e ele? Jamais aconteceria. Não podia acontecer. Precisava muito dela para correr riscos. Mas não havia mal algum em ter alguns pensamentos pecaminosos envolvendo a melhor amiga, certo? Ali, na privacidade do chuveiro... Ninguém precisava saber. Ninguém... Oh, céus... Emily ouviu quando o chuveiro foi desligado. Não podia acreditar que se deixara abalar daquela maneira. Tinha os olhos vermelhos e inchados, o rosto congestionado, os nervos tensos. Por que doía tanto? Sempre soubera que ele não a queria. Nem todo o álcool do mundo podia mudar a realidade. Scott estivera bêbado, sim, mas não fora submetido a uma lavagem cerebral. Revivera aquele horrível momento dezenas de vezes. Ou teriam centenas? Recordara como o tocara e, pior ainda, como se deixara tocar por ele. Era um pesadelo. Sabia com absoluta certeza que aquele pesadelo em particular a atormentaria para sempre. Até o último de seus dias. Tudo que queria era apagar a noite anterior. Pegar de volta seus desejos secretos, retornar ao ponto em que ainda podia encontrar consolo no sonho não realizado. Não queria ver Scott. Nunca mais. Oh, estava tão humilhada! Pelo menos tinha o consolo de saber que ele era um cavalheiro. Um homem como Scott jamais mencionaria o que havia acontecido em seu apartamento. Ele não contaria nada a ninguém. De sua parte, levaria o segredo para o túmulo. Lágrimas quentes brotaram de seus olhos e ela as secou com os dedos num gesto furioso. Era hora de parar. Havia chorado até dormir, o que só acontecera há uma hora. Estava exausta, e o peso da culpa e da vergonha a impedia de levantar a cabeça. Mas Scott precisava de uma carona para voltar para casa. Podia sugerir que ele telefonasse para Cathy, mas tremia só de pensar nas ramificações dessa sugestão. Cathy a puniria por ter cometido o deslize de enfrentá-la. Esfregaria em seu rosto a humilhação que sofrerá. E estava cansada demais para enfrentar novas provações. Assim, o mais simples seria levar Scott até o local onde ele deixara seu carro. Depois voltaria para casa, tomaria um banho quente e demorado e pensaria em suas opções. Scott ergueu a mão para bater na porta do quarto, mas desistiu. Emily devia estar dormindo. Talvez devesse esperar até que ela se levantasse. Como poderia saber até que horas a mantivera acordada? Sentia-se melhor, graças aos céus e ao analgésico. O banho fora quase um milagre, e o café forte que preparara preenchera! seu estômago de forma a equilibrá-lo. Gostaria de levar uma xícara do líquido quente e aromático para Emily, mas não sabia como ela reagiria à oferta. Não sabia nada sobre ela. Depois da revelação que tivera no chuveiro, percebia algo importante. Seu relacionamento com Emily era unilateral. Ela estava sempre pronta para ajudá-lo, mas o que fizera pela grande amiga? Nada, exceto dar um passo em falso

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh e tornar a situação ainda pior obrigando-a a resgatá-lo de uma noite de álcool e estupidez. Ela devia estar furiosa. Droga, Emily tinha todo o direito de estar zangada com ele. Agira como um canalha. Um canalha monumental. Mas ainda tinha esperança. Ela fora buscá-lo no bar, certo? Podia ter ignorado o problema, ou simplesmente se recusado a ajudar um idiota em apuros. Mas, se fora buscá-lo no Long Horn, então a amizade devia estar intacta. Ou, pelo menos, não havia sido completamente arruinada. Scott ergueu a mão mais uma vez. Bateu na porta com delicadeza, de forma que ela não acordasse, caso estivesse dormindo. Mas, se estivesse acordada... Precisava pedir desculpas. E quanto antes, melhor. — Sim? Ela não estava dormindo. No entanto, era impossível adivinhar seu estado de humor depois de ouvi-la pronunciar uma única palavra. — Fiz café. Quer uma xícara? — Não. Oh-oh. Não estava gostando nada do que ouvia. Emily estava zangada. Não havia a menor dúvida disso. — Eu... posso preparar um suco, se quiser, ou outra coisa qualquer. Scott pulou para trás quando a porta foi aberta com violência. Ela estava acordada, e parecia tentada a agredi-lo fisicamente. — Vamos embora — disse, passando por ele com passos firmes. — Em? Ela não se virou. Não reconheceu sua presença. O que havia feito na noite anterior? Por que bebera tanto? Sabia que o álcool não era a solução para seus problemas. Para os problemas de ninguém. E ainda podia ter arruinado algo que valorizava muito. Emily aproximou-se da porta do apartamento e abriu-a antes de encará-lo. — Você vem ou não? Ele assentiu, mas, enquanto caminhava para a saída, compreendeu que ela havia mudado. Não por estar zangada, mas porque não a via mais como antes. De repente, tudo que conseguia enxergar era o brilho de seus cabelos, a beleza da pele pálida, os lábios carnudos, os seios fartos... Ela era uma mulher exuberante, suculenta, tentadora... Idiota! Por que não havia notado o que sempre estivera diante de seu nariz? Emily saiu antes que ele pudesse alcançá-la. Scott fechou a porta depois de passar e, a essa altura, ela já estava a meio caminho da garagem. Apesar de todo o esforço que fazia para aproximar-se, ela não reconhecia sua presença. Com passos firmes, como se quisesse esmagar o mundo sob os pés, aproximou-se do carro e acomodou-se ao volante. Ele sorriu quando se sentou no banco do passageiro, mas o olhar lançado em sua direção apagou o sorriso. Emily girou a chave na ignição, saiu da vaga de ré e ganhou a rua. Tudo isso sem dizer nada. Sem demonstrar qualquer outro sentimento que não fosse raiva. Três quarteirões antes de chegarem ao bar, Scott não conseguiu mais suportar o silêncio. — Emily, o que aconteceu?

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh Ela respondeu com um olhar furioso. Scott sentiu-se ainda pior do que antes, mas continuava confuso, sem entender sua reação. — Está zangada porque eu bebi demais, não é? Eu sei. Foi realmente estúpido. Nunca fico bêbado. Estava sentindo pena de mim mesmo e... Ela virou à direita tão depressa que quase o derrubou em seu colo. Scott endireitou o corpo e agarrou-se ao assento, segurando-se como se sua vida dependesse disso. — Não tive a intenção de envolvê-la nessa confusão — disse, temendo que ela abrisse a porta e repetisse aquela curva para jogá-lo fora do carro. Felizmente estava preso pelo cinto de segurança. Mesmo assim, não tinha certeza de que isso seria suficiente para detê-la. — Estou falando sério, Em — ele repetiu, o coração batendo mais forte depois de outra curva realizada sem nenhum respeito às regras mais básicas de segurança. — Devia ter chamado um táxi. Não queria que você me visse daquele jeito. Ela entrou no estacionamento do Long Horn como se tivesse a intenção de demolir o prédio. Quando parou ao lado do GTO de Scott, ele teve de respirar fundo algumas vezes antes de abrir os olhos. Mais alguns centímetros, e seu carro estaria destruído. Devagar, virou-se para encará-la. Precisava fazer alguma coisa para salvar a situação. — Por favor, aceite meu pedido de desculpas. Não tive a intenção de... — Sempre fala na primeira pessoa, não é? Eu, eu, eu... Scott assentiu com ar compenetrado. — Sim, eu sei. Estava pensando nisso hoje de manhã. Tenho sido muito egoísta, e peço desculpas por mais essa falha. — Ah, quem se importa? Vá embora. — Em... — Já disse para ir embora. Saia do meu carro. Ele soltou o cinto de segurança e abriu a porta, o rosto queimando numa reação fisiológica provocada pela confusão e pela vergonha. Aquela era Emily. A única pessoa com quem sempre pudera contar. E agora havia estragado tudo. Arruinara sua melhor amizade sem chances de recuperação. Ela pisou no acelerador antes mesmo de Scott ter terminado de fechar a porta. Assustado, viu quando ela passou perigosamente perto de um Camaro antes de ganhar a rua. Ergueu a mão pensando em detê-la, talvez até gritando, se fosse necessário, mas era tarde demais. Dessa vez estragara tudo. Perdera a melhor amiga por causa de seu egoísmo, de sua estupidez. Que ironia! Levara anos para descobrir que a queria de um jeito especial, não só como amiga, e de repente nem isso ela era mais. Perfeito. Simplesmente perfeito. Emily não podia mais suportar. O telefone não havia parado de tocar durante toda a tarde, e o ruído estridente e persistente a estava enlouquecendo. Virando-se sobre a cama, puxou o fio que ligava o aparelho à tomada na parede. O silêncio a envolveu como raios de sol, e ela sorriu pela primeira vez naquele dia. O identificador de chamadas indicava que Scott ligara três vezes. Hope havia telefonado cinco vezes, Lily, quatro, Júlia duas, e até Zoey, Sam e sua mãe haviam

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh tentado falar com ela. Não tinha importância. Não queria falar com ninguém. Não hoje. Talvez nunca mais.

CAPÍTULO XI Scott massageou as têmporas e a testa, desejando que os últimos resquícios da ressaca fossem embora de uma vez. Havia sido um dia horrível, principalmente porque Emily não atendera aos seus telefonemas. Também tivera de enfrentar um intenso e contínuo mal-estar físico, mas esse era um castigo merecido. A loja, felizmente, estivera menos movimentada do que de costume, e ele deixara Miguel no comando durante toda a tarde. Impaciente, tocou a campainha da casa de Hope mais uma vez, começando a suspeitar de que ela pudesse estar no apartamento de Emily. Alguns segundos mais tarde ele teve a resposta. Hope abriu a porta com um movimento brusco sem antes perguntar quem estava do outro lado. "E daí? Estavam em Sheridan, não? Naquela cidade as pessoas tinham segurança. Eram confiantes. Confiantes demais. — Oh! — Olá, Hope. — O que está fazendo aqui? — Gostaria de conversar. Isto é, se tiver alguns minutos para mim, é claro. — Sim, eu tenho...— Ela recuou para convidá-lo a entrar em seu apartamento. A sala de estar era tão dramática quanto a própria Hope. Baseada em temais orientais, ela exibia o preto laqueado e o vermelho escarlate como cores predominantes. Havia um sofá baixo forrado com tecido preto, uma mesa de café laqueada na mesma cor, uma poltrona futon, e gravuras com cenas asiáticas espalhadas pelas paredes. O perfume que pairava no ar devia ter sido extraído de alguma flor exótica. Hope apontou para o sofá, e só então ele percebeu seus pés descalços. As unhas eram vermelhas e brilhantes, combinando com as almofadas sobre o sofá. Sua roupa era a única coisa que não combinava com a decoração. Hope usava um jeans tão velho que o tecido esgarçara no joelho, e sua camiseta possuía o logotipo da série Arquivo-X estampado no peito. Scott sentou-se e foi surpreendido pelo conforto proporcionado pelo móvel exótico. — Qual é o problema? — Hope escolheu a poltrona futon e cruzou as pernas à maneira indígena. — Conversou com Emily hoje? — Não. Telefonei para ela, mas não obtive resposta. Pensei que Emily estivesse com você. Ele balançou a cabeça. — Não. Saí do apartamento dela hoje de manhã. Hope levantou a sobrancelha direita. — Dormi no sofá. Ela me encontrou ontem à noite no Long Horn. Eu estava bêbado, e Emily me levou para casa. — Entendo. — A voz dela passara do mais caloroso tom de amizade para o mais

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh gelado desprezo. — O que aconteceu depois de terem chegado ao apartamento dela? Scott parou para pensar. Enquanto refletia, ele apreciava a planta bonsai sobre uma mesa lateral. — Não sei — confessou. — Mas devo ter feito algo de muito grave, ou ela não estaria furiosa comigo. — Furiosa? — Sim, furiosa. Zangada. Aborrecida. Ela mal falou comigo hoje de manhã. E quando tentei pedir desculpas, ela me expulsou do carro. Dessa vez Hope levantou as duas sobrancelhas. — Meu Deus! Então ela chutou seu traseiro, é? — O que está querendo dizer? Hope suspirou e fez um movimento negativo com a cabeça. — Nada. — Nada? Ah, vamos lá! Fale de uma vez. Não comece com suas charadas. O que está acontecendo? — Não posso dizer nada. — Não pode? Caso não saiba, foi você quem me meteu nessa encrenca. Todas aquelas bobagens e aquele seu ar crítico quando esteve no mercado... Por que não fala de uma vez o que tem para dizer? Talvez assim eu tenha uma chance de consertar o que quer que esteja errado. Ela o encarou por alguns instantes. Devia estar pensando se devia ou não ser honesta e dizer a verdade. Se houvesse alguma coisa que pudesse fazer ou dizer para incentivá-la a falar, Scott não teria hesitado em usar o trunfo. Mas, como não havia nada, ele teve de contentar-se em demonstrar uma certa seriedade. Isto é, esperava parecer sério, e não transtornado. Suas esperanças chegaram ao fim quando ela balançou a cabeça. — Não posso. Eu quero falar, mas não posso. Não tenho o direito de tomar decisões sem antes obter a permissão de Emily. Scott praguejou em silêncio. — Pode ao menos conversar com ela? Por favor, procure descobrir o que eu fiz para deixá-la para tão zangada. Pensei que Emily estivesse aborrecida por causa daquela bebedeira, mas agora... Creio que pode ser alguma coisa relacionada ao que aconteceu ontem. — O que mais aconteceu? — Eu quase... Eu cometi um erro grave. Não estava pensando. — O que você fez? Foi a vez de ele pensar se devia ou não revelar toda a verdade. Hope era uma das melhores amigas de Emily. Mas e se Emily preferisse manter a questão em segredo? Ela tinha o direito de resguardar sua privacidade. E.se a conversa com Hope causasse um dano ainda maior ao relacionamento? — Lamento, Hope, mas não devo falar. Ela suspirou e moveu a cabeça em sentido afirmativo. — Eu entendo. — Eu sei que entende. E acredito nisso porque estou certo de que só está

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh interessada na felicidade de sua amiga. — E você? Em que está interessado? Qual é seu verdadeiro objetivo, Scott? — Emily é muito importante para mim. De verdade. Não quero perdê-la. — Por quê? Você tem Cathy, .não? — Não tenho mais. — O quê? Quer dizer que... — Terminei meu relacionamento com Cathy ontem à noite. Pelo menos espero ter terminado. Não sei se fui muito claro. — Não consegue se lembrar do que disse? Não sabe o que aconteceu? — Não. Mas tenho certeza absoluta de que foi mais ou menos isso. — Ele passou uma das mãos pelo cabelo num gesto nervoso. — Não sei. É isso que está me deixando maluco, Hope. Não me lembro de nada. — Verei o que posso fazer para ajudá-lo — ela prometeu. — Mas há algo que deve saber desde já, Scott. Minha prioridade é Emily. — A minha também. Ela se levantou da poltrona. — Vá para casa. Você parece cansado e abatido. Conversaremos amanhã. Scott também se levantou do sofá, fechando os olhos por um instante quando a cabeça protestou contra o movimento súbito. Depois de respirar fundo algumas vezes e superar a onda de dor, ele se aproximou de Hope e segurou as mãos dela. Era como olhar para uma miniatura de mulher com unhas vermelhas. Hope sempre fora muito pequena. — Obrigado por tudo — disse. — De coração. — Ainda é cedo para demonstrar gratidão. Talvez eu não esteja fazendo nenhum favor pessoal. — Mas vai cuidar de Emily, e para mim isso é mais do que suficiente para que me sinta grato. Hope estudou-o com atenção, analisando cada linha do rosto sério. Por que o olhava daquela maneira? Scott não sabia dizer. Mas quando os olhos encontraram os dele, os lábios distenderam-se num sorriso. — Vá para casa. Ele se inclinou e beijou-a no rosto. — Obrigado. Hope assentiu. Apesar de tudo, tinha de admitir que Scott Dillon era um homem decente. Embora nunca houvessem sido grandes amigos ou mesmo colegas mais próximos, conhecia-o desde que Emily o conhecera, e certamente escrevera muitos artigos a respeito dele. Enquanto o acompanhava até a porta, pensou em todos os anos que havia passado cobrindo os eventos esportivos para o jornal local. Scott era o maior herói daquela cidade desde os dias dos Patrulheiros do Texas. — Vai telefonar? — ele perguntou. — Sim, assim que tiver alguma notícia. Fique tranqüilo. Scott apertou sua mão, e depois afastou-se a caminho de seu GTO. Hope fechou a porta no instante em que ouviu o ronco do motor potente. Era hora de tomar uma decisão.

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh Uma decisão que afetaria muitas pessoas. Mas, antes de qualquer coisa, precisava tentar falar com Emily. Só mais uma tentativa. Determinada, aproximou-se do telefone e apertou a tecla de número um. Já havia contado doze toques quando decidiu desligar. A decisão estava tomada. Ainda segurando o telefone, Hope sentou-se no sofá e fez quatro ligações. Uma para Sam, uma para Zoey, uma para Lily e outra para Júlia. Em cada uma delas foi atendida por uma secretária eletrônica, mas isso não a aborreceu ou desanimou. A mensagem era sempre breve. — Código vermelho — ela dizia com tom sério e firme. — Emily está em perigo. Era isso. Não precisava dar explicações. Um Código Vermelho era uma parte muito importante do pacto feito pelo grupo As Amigas. Só podiam usá-lo em circunstâncias realmente graves e urgentes, quando mais nada poderia surtir efeito. Lily e Júlia saberiam que deviam ir imediatamente para a casa de Emily assim que ouvissem o recado. Sam telefonaria de San Francisco, e Zoey ligaria de Houston. Se fosse necessário, as duas embarcariam no primeiro vôo disponível de volta para casa. Até lá, Hope era o primeiro elemento na linha de defesa. Ela foi até o móvel onde mantinha uma gaveta destinada à bagunça e foi retirando dela rolos de fita adesiva, pedaços de papel, cupons, caixas de fósforos, garantias de eletrodomésticos e outros itens variados, empilhando-os sobre o móvel. Depois removeu a gaveta e virou-a de cabeça para baixo. Havia cinco chaves grudadas no fundo. Ela pegou aquela marcada com o nome de Emily. Quando chegou ao apartamento de Emily já eram quatro e quinze. O dia seguinte seria de trabalho, o que significava que ela provavelmente estava em casa. Hope bateu na porta. Nenhuma resposta. Bateu novamente, dessa vez com mais força. E mais uma, agora com violência. Finalmente ouviu uma voz do outro lado, algo como um gemido abafado. — Vá embora. — De jeito nenhum, querida — Hope respondeu enquanto tirava a chave do bolso. Dois segundos mais tarde estava no interior do apartamento, olhando para a amiga estendida no sofá da sala. A imagem era patética. Um pacote amassado de biscoitos Oreo fora deixado no chão, bem perto de seus pés, e do outro lado havia uma embalagem de batata frita e um pote de molho de requeijão. Emily não havia penteado os cabelos, nem aplicado sua maquiagem diária... Nada. Na verdade, estava usando uma camisola que devia ter presenciado os mais violentos ataques da guerra civil americana. Era tão velha, que em alguns pontos o tecido se tornara transparente. — Vá embora daqui, Hope. — Você sabe que não vou sair daqui. — Estou falando sério. Não quero conversar. — E uma pena, porque eu quero. — Ela jogou a bolsa sobre a mesa de café e se sentou ao lado da amiga. — O que está acontecendo aqui? — Não é da sua conta. Já disse que não quero conversar. — E eu já disse que quero, e você sabe que sou uma pessoa muito persistente. E uma pena não poder dizer o mesmo sobre você, minha amiga.

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh Emily brindou-a com um olhar que teria espantado um Anjo do Inferno. Mas Hope nem piscou. — Não vou sair daqui enquanto não me contar o que está acontecendo. — Então é melhor ir buscar suas malas, porque não vou dizer uma única palavra. — Acha que essa sua atitude hostil me assusta? Emily pôs um pedaço de chocolate na boca. — Uau, agora conseguiu me ferir! Está comendo chocolate na minha frente? Bem, odeio ser desmancha-prazeres, mas essas calorias não vão acabar depositadas no meu traseiro. — E daí? Quem se importa? — Eu não me importo. Amo você, e meus sentimentos não vão mudar por causa do ponteiro de uma balança idiota. Na minha opinião, você é uma mulher linda, interessante e atraente que não precisa mudar nada a fim de... — Pare com isso! Não preciso de um sermão, Hope. — Eu não estava fazendo um sermão. Estava apenas constatando um fato. Se quer interpretar o que digo como um sermão, o problema é seu. — Por que veio à minha casa? Para me pôr maluca? É isso que quer? — Não. Você já consegue resultados impressionantes nesse sentido sem a minha ajuda. — Graças a Deus não telefonou para mais ninguém. Não seria capaz de enfrentar mais de uma amiga ao mesmo tempo. Como se o destino respondesse ao comentário, alguém bateu na porta. Emily olhou para Hope e gemeu desanimada. Um momento mais tarde, Lily entrou na sala com expressão preocupada. — O que aconteceu? — Você não convocou uma reunião — Emily murmurou aflita. — Não convocou As Amigas. — Pode apostar nisso, meu bem. — Não! Por que fez isso? Hope olhou para os pacotes vazios de comida espalhados pelo chão e para as migalhas na velha camisola da amiga. — Por que será? — Será que não conseguem entender que não quero falar sobre isso? Já me sinto bastante humilhada sem ter de contar tudo ao mundo. — Desde quando As Amigas são o resto do mundo? — Lily perguntou, acomodando-se numa poltrona próxima do sofá. — Pelo amor de Deus, não me digam que as outras também virão. — Não posso garantir as presenças de Sam e Zoey, mas imagino que elas sejam capazes de embarcar para cá em menos de doze horas. Tudo depende de sua teimosia. Emily escondeu a cabeça entre as mãos. — Odeio todas vocês — soluçou. — Sabemos disso, meu bem — Lily respondeu. — Pode odiar-nos quanto quiser — Hope acrescentou. — Mas não sairemos daqui enquanto não contar tudo que está acontecendo? Por que essa depressão?

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh Emily levantou a cabeça, e a expressão em seu rosto partiu o coração de Hope. Aquela era a pessoa mais doce e meiga que já tivera a sorte de conhecer. E não estava exagerando. Emily era generosa a ponto de parecer tola, e nunca pedia nada em troca dessa generosidade. Nunca se mostrava mais feliz do que quando estava fazendo algo por outro ser humano. — O que foi que ele fez? — Lily perguntou a Hope. — Presumo que toda essa confusão esteja relacionada a Scott, não é? Hope respondeu com um movimento afirmativo de cabeça. — Ele não fez nada — Emily protestou. — Mentirosa. — Estou falando sério. Scott não tem culpa de nada. — Então, por que o expulsou de seu carro como se quisesse vê-lo queimando no fogo do inferno? — Hope disparou sem rodeios. Emily endireitou as costas e ergueu os ombros. — Esteve conversando com ele? — Sim, estive. Scott saiu de minha casa há pouco mais de duas horas. — O que ele disse? — Não quero falar sobre isso — Hope respondeu, imitando o tom e as palavras da amiga. Emily olhou para Lily. — Pode fazer alguma coisa, por favor? — O quê? — Não sei. Qualquer coisa. Bata nela. Lily virou-se para Hope. — Considere-se esbofeteada. — Isso não tem graça nenhuma! — O que não tem graça, Em? — Ah, droga! — Sim, você tem razão... — Lily suspirou com falsa resignação, como se realmente concordasse com ela. — Deve ser uma droga viver cercada por pessoas que a amam demais para permitir que se afogue em autopiedade. — Não há nada de errado em sentir pena de mim mesma. Lily inclinou-se e segurou a mão de Hope. — Então, por que se esforça tanto para impedir que tenhamos esse mesmo sentimento? — É diferente. Hope sorriu. — Não há nenhuma diferença. Batidas na porta interromperam a conversa. Emily suspirou. — Entre, Júlia. A porta se abriu. Júlia não chegava de mãos vazias. Havia uma garrafa de vinho em uma delas e um pacote de cenouras em miniatura na outra. — O que aconteceu? — Ainda não sabemos — explicou Lily.

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh — Scott fez algo terrível — acrescentou Hope. — Oh, não! Júlia foi até a cozinha e voltou dois minutos mais tarde carregando uma bandeja. O lanche era composto por vinho, cenouras e biscoitos de baixas calorias. Assim que ela deixou tudo sobre a mesa, voltou à cozinha para pegar os copos, o abri dor e um pote de manteiga de amendoim. Ela se sentou no chão, serviu-se de vinho, espalhou uma generosa camada de manteiga de amendoim sobre um biscoito, e depois olhou para Lily, para Hope e, finalmente, para Emily. — O que foi que ele fez? — Já disse que Scott não fez nada. A culpa foi minha, não dele. — Culpa de quê? O que você fez? — Júlia insistiu, lambendo a manteiga de amendoim espalhada sobre o biscoito. — Ah, pelo amor de Deus! Por favor... — Ei, não estamos tentando obter informações para usá-las contra você. E isto aqui não é uma sessão de tortura. — Lily inclinou-se para a frente com a preocupação estampada no rosto. — Escute, aqui, vamos direto ao ponto, está bem? As Amigas só existem por isso. Esse é o objetivo. A proposta do grupo é podermos sempre confessar as piores coisas a pessoas em cujo amor confiamos e do qual temos certeza. Estou falando de um amor incondicional. O que quer que faça, estaremos sempre do seu lado. Estamos do seu lado! Emily ficou quieta por um instante, os olhos fixos no chão. Depois respirou fundo, limpou as migalhas da camisola e balançou a cabeça numa reação resignada. — Onde estão Zoey e Sam? Hope sentiu a tensão desaparecer como num passe de mágica. Tudo acabaria bem. Emily olhou para as amigas e experimentou uma emoção súbita e envolvente. Paz. Elas a amavam sem impor condições, sem exigir nada em troca, e nada era mais importante do que esse amor. Às vezes pensava que nada era mais importante em sua vida. Nada tinha mais valor do que suas amigas, mulheres que caminhariam sobre brasas por ela, que se exporiam a uma bala... e que entenderiam porquê seu coração estava dilacerado. — Ontem à tarde — começou —, Scott apareceu aqui e nós tivemos uma conversa muito interessante. Foi maravilhoso. Estabelecemos um vínculo verdadeiro, entendem? Foi como se ele estivesse me vendo pela primeira vez. Ele tocou meu rosto... — Lágrimas inundaram seus olhos e um nó bloqueou a garganta. Emily esperou alguns instantes, até sentir que podia falar novamente. — Ele se inclinou para beijar-me. Mas de repente parou. Recuou. Como se houvesse despertado e percebido que estivera prestes a beijar um sapo. Hope abriu a boca para dizer alguma coisa, mas Emily ergueu a mão a fim de silenciá-la. Ainda não era hora de ouvir palavras de consolo. Se hesitasse, não teria forças para contar o resto da história. — Depois, ontem à noite, eu fui buscá-lo no Long Horn. Scott estava bêbado como um gambá, e mal podia manter-se em pé. Depois de algum tempo ele melhorou, recuperou parte da sobriedade, e então nós... nós... Bem... — Novas lágrimas se formaram. Mas, se esperasse que elas desaparecessem, não conseguiria concluir o

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh relato. — Nós nos beijamos. Foi espantoso, fascinante... Eu sabia que aquilo não era amor, mas era tudo que eu sempre havia desejado. Minha noite com Scott. A realização de um sonho, Só que... Hope segurou sua mão oferecendo força e suporte. Lily pegou a caixa de lenços de papel sobre a mesa de café e ofereceu à amiga. Júlia aproximou-se e apoiou a cabeça na perna de Emily. — Só que... quando nós... Quando começamos a fazer amor, ele me chamou de Cathy. — Oh, meu Deus — Júlia murmurou. Hope gemeu como se houvesse sido ferida de morte. Lily fechou os olhos e encolheu-se como se sentisse uma dor física muito forte. Emily deu vazão ao pranto, rezando para que a atitude que acabara de tomar houvesse sido correta. Não sabia se devia ter contado tudo às amigas, mas era tarde demais para voltar atrás. Além do mais, o desabafo serviria para amenizar a dor e a humilhação. Hope afagou sua mão novamente. — Emily sei que essa deve ter sido uma experiência muito difícil, mas não acredito que seja o fim do mundo. — Eu sei — ela respondeu. — É só o fim do meu sonho. — Não, querida. É justamente isso que estou dizendo. Não é o fim de nada. Ele estava bêbado. Completamente embriagado. Quando esteve em minha casa hoje à tarde, Scott confessou que não conseguia se lembrar de nada. De ninguém. Ele pensa que está zangada com ele por causa da bebedeira, e está sofrendo muito com tudo isso. Scott me procurou para pedir que eu viesse até aqui. Ele quer ter certeza de que você está bem. — Mas... — Hope tem razão — Lily concordou, interrompendo o protesto de Emily. — Não pode permitir que uma única noite estrague tudo que tem construído com tanto esforço. — Oh, não! Já desisti de torturar-me. Sou gorda, pesada, e serei sempre assim. Ponto final. Não vou mais passar fome. Chega de sacrifício. — Tudo bem, você não precisa sacrificar-se — Júlia opinou. — Se está confortável com seu corpo... Emily deixou escapar uma gargalhada amarga. — Confortável? Lily assentiu com ar grave. — Esqueça Scott. A melhor coisa nessas últimas semanas foi vê-la feliz e orgulhosa de suas conquistas. Você nunca esteve mais linda. Passou a caminhar com orgulho, exibindo uma confiança que nunca teve antes. Não entendo como os homens de Sheridan ainda não fizeram fila na frente de sua porta. — E, francamente — Hope complementou com voz baixa e calma —, acho que esse seu sonho é muito pequeno. Uma noite? Por favor! Você merece muito mais. — É verdade, Em — Júlia concordou com a amiga. — Scott pode ter sido o homem de seus sonhos, mas você merece alguém de verdade. Alguém que seja capaz de apreciar suas qualidades e reconhecer a beleza da pessoa que é. Emily limpou os olhos com os dedos, mas as lágrimas continuavam rolando por seu rosto. Ela soltou a mão de Hope e se levantou do sofá. Não conseguiu nem pedir licença

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh antes de correr para o banheiro. Depois de trancar a porta, debruçou-se sobre a pia e chorou como nunca havia chorado antes. Alguns minutos mais tarde, quando levantou a cabeça, viu o rosto refletido pelo espelho e engoliu em seco. Era hora de erguer os ombros. Seus olhos estavam inchados, o nariz estava vermelho, os cabelos pareciam terem sido copiados de um filme de terror, mas, por alguma razão, não odiava a mulher que estava vendo. Não sentia ódio de si mesma. Na verdade, a mulher refletida pelo espelho era linda, maravilhosa, forte e capaz. Não era nenhum modelo de capa de revista, certamente. Não era magra como exigiam os padrões da moda atual. E daí? Quem se importava com isso? Nas últimas semanas havia feito muitos progressos. Finalmente começava a transformar-se na pessoa que sempre desejara ser. Não permitiria que Scott destruísse suas realizações. Com ou sem ele, manteria seu plano. Usaria o tempo para fortalecer-se. E encontraria um novo sonho. E não seria um sonho pequeno para uma noite só. Merecia mais que isso. Merecia uma vida inteira de amor, e lutaria para alcançar esse objetivo. E sabia que conseguiria.

CAPÍTULO XII Sara Wilding abriu a porta do escritório de Scott. — Há alguém aqui querendo vêlo. Ele deixou a caneta sobre a mesa e ficou em pé. Emily. Era Emily. Tinha de ser. Todos aqueles telefonemas ao longo dos últimos cinco dias finalmente venceram sua resistência. Depois de ajeitar os cabelos com as mãos, ele se dirigiu à porta. O sorriso morreu em seus lábios quando os olhos identificaram a visitante inesperada. Cathy. Oh, céus! Não estava preparado para enfrentá-la. Ela não parecia feliz. O rosto, sempre tão bem maquiado, parecia tenso e rígido. Especialmente na região em torno da boca. — Olá, Cathy. Então ela o encarou e sorriu. Scott parou, sem saber como agir. Aquele não era o sorriso de uma mulher que havia sido abandonada. Era um sorriso convidativo, um sorriso que sugeria um almoço prolongado em um motel tranqüilo ou um banho de piscina no final da tarde e um começo de noite marcado por um jantar à luz de velas em uma suíte romântica. — Estou furiosa com você — ela disse, empurrando os lábios para a frente de forma a imitar a expressão de uma criança contrariada. — Ah... está? — Por que não me procurou? Cinco dias sem um único telefonema! — Eu... eu... Não sei se estou entendendo o que diz, mas... Cathy ergueu uma sobrancelha e entrou no escritório, deixando-o sem alternativa se não segui-la. Scott lutava contra o pânico, tentando pensar na melhor atitude a tomar. Ainda estava distraído com os próprios pensamentos quando ouviu o barulho da porta

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh sendo fechada. Ela pôs as mãos na cintura. — E então? Scott buscou refúgio atrás da mesa. Pegou a prancheta, deixou-a novamente no mesmo lugar de antes... Teria mesmo rompido com ela? Ou, como o sonho com Emily, tudo não passara de um produto de sua imaginação? Teria sofrido alucinações provocadas pelo excesso de álcool? — Sobre aquela noite... — começou desanimado, tentando fingir que tinha o controle da situação quando, de fato, tudo que mais queria era sair correndo e perder-se no meio dos clientes do mercado. Cathy baixou a cabeça e corou. — Por favor, não vamos falar sobre isso. Ainda estou muito envergonhada. Não costumo beber tequila, sabe? — Oh, não, não quero causar constrangimentos. Na verdade, também não tenho o hábito de beber, e não me refiro apenas a tequila. Mas... — Mas... — Ela se aproximava devagar, os quadris oscilando de forma provocante, os olhos revelando um desejo apaixonado. — Cathy, não sei como dizer tudo isso. Ela parou. — Dizer o quê? — Já conversamos naquela noite. Sobre nós. Silêncio. Scott respirou fundo. — Sobre como não ficarei aqui por muito tempo e... e como nós... Bem, quero dizer, nós dois... Como não daria certo. Os ombros de Cathy caíram. — Então não foi um sonho? — ela sussurrou, mais para si mesma do que para ele. — Não, Cathy. — Estou muito embaraçada. Quero dizer, eu pensei... Não consigo lembrar nada... — Escute, foi maravilhoso ter reencontrado você. Realmente maravilhoso. Mas não acredito que devamos apostar nesse relacionamento. Não agora. Talvez nunca. Eu tenho de pensar no mercado, e ainda não descartei completamente a proposta da ESPN e... — Emily. — O quê? — Você tem Emily. Não esqueci essa parte da conversa. — Parte... de que conversa? — Vi como olha para ela. Scott abria e fechava a boca, mas não emitia nenhum som. Finalmente ele balançou a cabeça, sem saber o que dizer ou como agir. — Oh, está bem — Cathy sorria novamente, mas não como antes. O ar sedutor dera lugar a uma tristeza desesperada que ele teria preferido não ver. — Cest Ia vie. — Você é uma pessoa extraordinária, Cathy. Estou falando sério. I — Certo. Bem... — Ela se aproximou da porta e segurou a maçaneta. — Até qualquer dia. — Cathy! Mas ela não parou. Sem pressa, saiu e fechou a porta sem sequer olhar

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh para trás, sem fazer barulho. Scott caiu sobre a cadeira e emitiu um suspiro cansado. Que belo homem se tornara! Conseguira magoar duas mulheres de quem gostava muito, e só havia voltado à cidade há menos de um mês. Pelo menos com Cathy tinha o conforto de saber que tomara a atitude correta, mesmo não tendo sido fácil. Mas Emily... O que Cathy havia dito sobre ela? Algo sobre ter percebido como olhava para Em. Teria olhado para ela de alguma maneira especial ou diferente? Antes que pudesse deterse, pegou o telefone e discou o número que tinha gravado na memória. Depois do segundo toque, a voz melodiosa e alegre sugeriu que ele deixasse um recado. — Em, por favor! Preciso de você. — Scott desligou. E se ela não ligasse de volta? E se houvesse arruinado a situação além do remediável? Agora não tinha mais Cathy. Não, isso não tinha importância. Deixara um recado sincero e emocionado, uma mensagem verdadeira. Precisava mesmo de Emily. Viver em Sheridan sem poder contar com sua amizade era uma perspectiva tão sombria que preferia nem considerá-la. Agora que a encontrara novamente, não queria perdê-la. Mulheres. Que conceito complexo. Não entendia nada sobre elas. Não costumava incluir Emily nessa categoria, mas de repente percebia que ela era a mais complicada de todas as mulheres que conhecia. Scott pôs a mão sobre o telefone mais uma vez, mas não chegou a tirá-lo do gancho. Em vez disso, saiu do escritório e foi até a sala do café. Gretchen Foley estava lá. Ótimo. Notara sua presença pouco antes. Ela esperava enquanto Bobby concluía o trabalho. Sentada em uma cadeira dobrável, ela se debruçava sobre a mesa e lia uma revista. Era jovem, mas pelo que pudera ver até então, Gretchen sabia mais do que os anos podiam explicar. — Olá, Sr. Dillon. — Scott. — Ela sorriu, e Scott lembrou-se de Cathy aos dezessete anos. Gretchen partiria muitos corações. — Estou incomodando? — De jeito nenhum. — Gretchen ajeitou os longos cabelos louros para trás dos ombros e fitou-o com seus grandes olhos azuis. — Posso lhe fazer uma pergunta? — É claro que sim. — Se Bobby a deixasse muito zangada, furiosa mesmo, o que ele teria de fazer para reconquistá-la? Ela refletiu por um instante. — Depende de quanto eu estivesse zangada. Ou como. — Não entendi. — Bem, uma garota pode ficar zangada porque um rapaz não faz o que deveria fazer, como comparecer no refeitório da escola, por exemplo. É diferente da raiva que uma mulher sente quando percebe que um homem está pisando em seu coração. — E esse sentimento é pior do que aquele, certo? — Oh, sim! Essa raiva pode representar o fim. — Certo. Digamos que eu esteja falando sobre esse tipo de raiva. O que Bobby teria de fazer para consertar a situação?

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh — Bem, ele teria de pedir desculpas, acho. — Só isso? — E ele também teria de demonstrar que estava realmente arrependido. — Como? Gretchen encolheu os ombros. — Ah, eu não sei. Sendo persistente, talvez. E mostrando às pessoas que gosta de mim. Segurando minha mão, caminhando com um braço sobre meus ombros... Não sei. Coisas desse tipo. E ele teria de gastar algum dinheiro, também. Não só com pizza e sorvete, mas com um jantar de verdade, e talvez um cinema ou outro passeio qualquer. — Entendo. Mais uma pergunta, Gretchen. E se Bobby não soubesse por que você estava zangada com ele? Ela riu. — E desde quando os rapazes sabem por que ficamos zangadas? — Quer dizer que é sempre assim? Isso acontece com freqüência? — O tempo todo. — Muito obrigado, Gretchen. — Por nada. — ela sorriu. — Bobby já está terminando? O rapaz ainda teria de cumprir mais uma hora de expediente, mas, para demonstrar, sua gratidão, Scott decidiu dispensá-lo imediatamente. Cobriria sua ausência na loja até às quatro, e depois disso... Bem, depois disso teria de fazer alguma coisa. Como pedir desculpas, por exemplo. Emily pôs a tigela de ração no chão e ficou observando enquanto Boo comia a refeição de cereais, fígado e galinha. Aquilo devia ser horrível, mas o gato comia com um prazer invejável. Ela voltou ao balcão onde cortava vegetais para seu próprio jantar. Arroz integral, brócolis cozido no vapor, couve-flor, cenouras e cogumelos. Como prato principal, cento e cinqüenta gramas de peito de frango grelhado. Emily fez uma careta, mas não era tão ruim assim. Gostava de tudo que estava preparando, mas não conseguia deixar de pensar em lasanha e hambúrgueres com muito queijo e batata frita. No próximo final de semana, faria algo pecaminoso, como comer o que tivesse vontade. Era bom ter algo para esperar. Segurando a faca, continuou olhando para os vegetais enquanto tentava pensar em mais alguma coisa que estivesse esperando. Droga! Ter a comida como única recompensa era exatamente o que não devia acontecer. Alguma coisa teria de mudar. Deixando o jantar sobre o balcão, ela foi pegar o catálogo telefônico no armário do corredor. Alguns segundos mais tarde conversava com uma mulher muito agradável que prometeu enviar um catálogo pelo correio no dia seguinte. Eles mantinham muitas atividades voltadas para as pessoas solteiras, e certamente uma delas despertaria seu interesse. Pessoas solteiras. Em pensou na expressão ao desligar o telefone. Nunca se preocupara com seu estado civil. Nunca se incomodara por ser solteira. Mas, para uma mulher de vinte e seis anos, essa não era uma situação muito apropriada. A época de sair da formatura do ginásio para os braços do marido há muito fora deixada para trás. Tinha a vida para viver! Coisas para fazer! Quem queria ficar presa a um homem antes dos trinta

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh anos? E depois que viessem os filhos, nunca mais teria liberdade. Era solteira, e orgulhava-se disso. Exceto por... Não. Nunca mais pensaria nele. Tivera seis dias. Seis dias inteiros para adaptar-se ao novo estilo de vida. Para ver o mundo seu Scott ocupando o primeiro plano da cena. E o que conseguira? Até agora... nada. Mas haviam sido apenas seis dias, certo? Emily viu o próprio reflexo no alumínio brilhante da torradeira. Não era uma mulher feia. Um pouco rechonchuda ainda, porém mais saudável do que fora antes. Ela ajeitou uma mecha de cabelos atrás da orelha. A maquiagem ainda permanecia intacta depois de um dia inteiro de trabalho com os alunos. Aí estava uma novidade. Raramente usava maquiagem, e quando sentia necessidade de melhorar a aparência, nunca ia além da máscara para cílios e de um pouco de blush no rosto. Mas desde... desde aquele dia, fazia um grande esforço para estar sempre bem, tão bem quanto era possível. Lily e Hope a acompanharam numa cansativa expedição de compras e insistiram para que desistisse de adquirir roupas largas e sem forma que escondiam seu corpo. As pessoas comentavam. Na escola. No lanchonete do Zeke, onde estivera na terça-feira. Encontrara Denise Knight no salão de beleza, e ela não escondera a surpresa diante das transformações em sua aparência. Todos diziam que estava mais bonita. Se ao menos se sentisse melhor... Se a dor em seu peito desaparecesse... Tinha a sensação de carregar um coração partido. Era como se houvesse quebrado uma parte essencial de seu ser, uma peça importante para a qual não havia possibilidade de reparo. As garotas eram maravilhosas, como sempre. Telefonavam todos os dias, mandavam flores frescas para enfeitar sua sala de aula e o apartamento, enviavam mensagens de apoio por e-mail e cartões variados com recados engraçados, porém significativos... Tudo isso ajudava. Realmente. O único problema era que... O problema era que o amava. Não sentia mais o amor juvenil de suas fantasias, mas um sentimento forte e adulto que só se fortalecera com o passar do tempo. Gostava do homem que ele era. Gostava muito. Irônico, não? Devia ter ouvido aquele velho ditado sobre a necessidade de ter cuidado com os pedidos de suas orações. Ouvira o mesmo provérbio centenas de vezes, mas ele nunca tivera nenhum significado especial. Agora podia compreendê-lo. Pedira uma noite. Tivera sua noite. Devia ter sido mais específica. Muito mais específica. Emily levantou-se e voltou aos vegetais. Ainda tinha de preparar o arroz integral e o peito de frango. Mas dessa vez também não conseguiu terminar o jantar, porque alguém tocou a campainha. Ela olhou para Boo. — Continue comendo. Vou ver quem está lá fora. Devia ser Hope. Ou Lily. Júlia estivera em sua casa na noite anterior, o que dava a ela o direito de tirar um dia de folga. A campainha soou novamente. . — Já estou indo! — gritou irritada, segundos antes de girar a maçaneta e puxar a porta com força. — Olá. Deus! — Scott... — Sim, sou eu.

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh Emily olhou para a camisa branca, para o paletó marrom e o lindo buquê de flores que repousava sobre seu braço esquerdo. No direito ele carregava uma caixa de bombons com pelo menos um quilo de chocolate. Mas que diabos... — Posso entrar? Só por um minuto... Ela recuou um passo. Dois. Scott passou pela porta a caminho da sala, e ela sentiu seu perfume no ar. Um nó gigantesco ameaçou sufocá-la e lágrimas quentes inundaram seus olhos. Ele ficou parado no meio da sala, inquieto, engolindo em seco e movendo os pés. Nervoso como um adolescente em seu primeiro encontro. — Oh, são para você — disse, estendendo os braços com as flores e a caixa de bombons. — Obrigada — Emily respondeu enquanto aceitava as flores. — Quero dizer... Pensando bem, não sei se devo agradecer. — Ela apontou para a caixa de bombons. — Especialmente por isso. — Não gosta de chocolate? — Oh, sim, eu gosto. Demais! — Não entendi. Emily encarou-o e estudou os olhos castanhos e o rosto familiar. Sabia que encontraria um sinal da mentira em algum lugar. Mas ele parecia ser sincero. A expressão confusa indicava que não entendia mesmo o que acabara de ouvir. Pensou em mudar de assunto sem oferecer nenhuma explicação, mas que importância teria uma humilhação a mais ou a menos? — Estou tentando emagrecer. Os olhos moveram-se por seu corpo. Emily lamentou não estar usando um daqueles velhos vestidos que escondiam todas as imperfeições. O olhar de Scott percorria o caminho de volta, e pouco depois ele a encarava novamente com aquela mesma expressão confusa. — Por quê? — Por que o quê? — Por que quer emagrecer? — Ah, pelo amor de Deus, Scott! Isso não é necessário. — De que diabo está falando? — ele disparou com tom impaciente e exasperado. — Tudo que estou dizendo é que você está ótima. Sempre esteve. Por que quer mudar? — Eu... — Emily engoliu as palavras de protesto. Scott a fitava como se estivesse falando sério, como se realmente gostasse do que via, O que não fazia sentido. — Pensei que preferisse as mulheres mais... mais parecidas com Cathy. — Acha que eu estava com ela por causa disso? Por que ela é magricela? — Também por isso. — O que eu disse antes é verdade, Emily. Não dou a menor importância ao peso de Cathy, ao seu peso ou ao meu peso. Isso não tem nada a ver com o que é realmente importante. — E o que é realmente importante? — Se uma pessoa merece meu respeito. Se gosto de verdade dessa pessoa. Mas não importa. Se não quer os bombons, posso levá-los de volta, ou jogá-los no lixo. Vai

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh ficar mais feliz? — Não. Não precisa ser tão radical. Ele respirou fundo e, ao fazê-lo, distendeu os lábios num sorriso que iluminou seus olhos. De repente Scott a fitava de um jeito diferente. — Ei, você está falando comigo. — É, acho que estou. Queria soar casual, mas a verdade era que estava enlouquecendo com a presença de Scott e com a mudança em sua atitude. A lógica dizia que devia expulsá-lo de sua casa e de sua vida, mas o coração... Oh, o coração suplicava por misericórdia. A dor havia sumido. Desaparecido. No entanto, experimentava outras sensações espantosas, como o coração batendo mais depressa, o rosto quente e, para seu constrangimento, uma necessidade quase irresistível de manter as pernas juntas e bem apertadas. Toda aquela linha de raciocínio sobre tirar Scott do centro de seu universo perdera o significado. Diante dele, nenhum argumento era forte o bastante para convencer seu coração de necessidade de esquecê-lo. Ainda não sabia que conclusão tirar de seus comentários. De uma coisa estava certa: ele não podia estar falando sério. Não como gostaria de que estivesse. Mesmo assim, era bom. Muito bom. — Eu sinto muito, Emily. — Por quê? — Por ter bebido demais. Por ter sido um canalha. — Eu não o perdoei. — Quer dizer que as flores e os bombons não funcionaram? Ela aspirou o perfume do delicado ramalhete. — Bem, funcionaram... um pouco. — Já é alguma coisa. Emily sorriu. — Vou pôr as flores na água antes que elas murchem. Scott a seguiu até a cozinha, e ela nunca teve consciência maior do próprio traseiro do que naquele momento. A blusa que usava estava presa dentro da calça. Mas não ouvia nenhuma gargalhada, o que significava que não devia estar tão horrível quanto imaginava. Boo miou para dar as boas-vindas ao visitante. Sentado no meio da cozinha, ele balançou a cauda algumas vezes e, ignorado, voltou ao jantar. Emily pegou o vaso de dentro do armário sobre o fogão. Scott encostou-se na porta do refrigerador, acompanhando os movimentos graciosos com que ela cuidava das flores. — Eu... queria lhe dizer algo — ele começou hesitante. — Sobre o quê? — Sobre os conselhos que me deu. Sobre Cathy. O vaso quase caiu das mãos dela. Não conseguia respirar. Não podia mover-se. Por que permitia que ele ainda a afetasse daquela maneira? — Eu terminei tudo com ela. Você estava certa. — Eu... estava? — Finalmente podia respirar novamente. Mesmo assim... Se estava certa, por que ele a chamara de Cathy? — Não me lembro dos detalhes daquela noite. Na verdade, não me lembro de

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh nada, e ela também não consegue lembrar o que aconteceu. Mas hoje estivemos conversando e... Bem, acabou. Foi melhor assim. Emily virou-se, respingando por toda a cozinha a água que cobria suas mãos. — Espere um minuto! Está dizendo que rompeu com ela no sábado passado? — Foi o que eu disse. — No último sábado? No Long Horn? Scott franziu a testa. — Exatamente. Por quê? — Por nada. — Ela se virou novamente, lembrando todos os detalhes daquela noite. Ele devia ter percebido que haviam vivido momentos de intimidade. Estivera bêbado, sim, mas movera os dedos como se... Não. Ninguém podia atingir tal estado de embriaguez. Nunca ouvira falar nisso. Talvez... — Mas não era só isso que eu queria dizer. Emily ficou parada. Quieta. Primeiro respirou fundo, fechando os olhos a fim de não perder o controle. Depois ela os abriu e encheu o vaso, ajeitando as flores dentro dele sem nenhuma pressa. As margaridas eram lindas, como os cravos. De fato, todo o arranjo era perfeito. Usando a toalha de cozinha que mantinha pendurada no gancho sobre a pia, secou as mãos e só então virou-se para encará-lo. — Fale de uma vez. Scott encarou-a em silêncio por um instante. Uma tensão quase insuportável pairava sobre eles. Como se também estivesse muito perturbado, ele desviou os olhos dela, fingindo um enorme interesse pela tigela de comida do gato. — Estive pensando... — começou. — Oh-oh... — Sobre muitas coisas. — Por exemplo? — Por exemplo, em encontrar alguém para substituir-me na direção do mercado. Alguém com quem minha mãe possa contar. —Ah. — Meu empresário telefonou ontem para dizer que o emprego na ESPN ainda pode ser meu. — Acha que sua mãe vai ficar bem com esse arranjo? — Não sei. Espero que sim. O problema é que... preciso conversar com você sobre esse assunto. Sobre tudo. — Precisa? Ele assentiu e se aproximou dela com passos lentos. — Essa volta para casa foi repleta de surpresas para mim. Os garotos trabalhando no mercado... Ah, eles têm sido ótimos. Muito melhor do que eu imaginava. — Que bom — Emily respondeu, quase sem se dar conta do que dizia. Scott a encarava com uma intensidade impressionante, como se estivesse prestes a revelar algo muito importante. Estava parado diante dela, sólido como uma rocha, imponente como um deus grego. — E essa não foi a melhor surpresa.

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh — Não? Ele balançou a cabeça sem desviar os olhos dos dela. — E qual foi a melhor surpresa? Scott sorriu e tocou seu rosto com o dorso da mão. — Você. Emily fechou os olhos. Não ousava mover um único músculo do corpo. Não ousava alimentar esperanças. — E engraçado — ele continuou em voz baixa — como não havia percebido antes. — Não havia percebido... o quê? — Que você é o motivo de minha loucura nesses últimos dias. Nas últimas semanas. Mas não quero estragar tudo. — Oh, você não vai estragar nada. — Nem mesmo se eu fizer isto? Ele se inclinou para a frente. Emily sentiu o hálito quente em seus lábios. Sentindo um medo maior do que havia experimentado em toda sua vida, fechou os olhos. Se ele parasse agora... Mas Scott não parou. Dessa vez ele foi até o fim. E beijou-a.

CAPÍTULO XIII Emily foi pega de surpresa. Esperava que ele recuasse, que... Oh, céus! Sentia os lábios quentes e úmidos sobre os dela. Os braços a envolviam e apertavam com força, com urgência. Todos os pensamentos coerentes desapareceram como vapor no vento. Emily abandonou-se aos sentimentos. Aquilo era a mais completa bênção. Era o que sempre quisera. O beijo, o calor, o desejo que os tomava de assalto. Não tinha nada de parecido com aquela outra noite. Porque, dessa vez, ele não estava embriagado. E sabia exatamente quem estava em seus braços. As mãos moviam-se por suas costas até alcançarem a cintura, de onde voltavam a subir lentamente. E durante todo o tempo, a boca continuava operando sua magia envolvente. Emily sentia uma mistura de sabores. Menta, café e algo único, pessoal. Ele. Os braços envolveram o pescoço forte e, antes que tivesse tempo para perceber o que fazia, seu corpo colou-se ao dele, os seios pressionados contra o peito largo e forte. Scott gemeu sem afastar os lábios dos dela, beijando-a com tanta intensidade que ela tremia em seus braços. Não havia dúvida. Era isso. Aquela era a noite com que sempre sonhara. A noite que guardaria na lembrança como um valioso tesouro até o fim de seus dias. Porque, por maior que fosse o desejo, por mais que o quisesse, por mais incrível que fosse sentir que ele também a desejava, não ousava acreditar que seria para sempre. Scott jamais seria seu. Ele interrompeu o beijo para fitá-la nos olhos. Precisava ter certeza de que não estava indo depressa demais. Queria certificar-se de que ela o desejava. Os lábios de

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh Emily estavam entreabertos, úmidos, congestionados pela paixão. Os olhos estavam mais escuros, um reflexo indiscutível do desejo que a dominava. A pele, tão linda e macia, brilhava por conta de uma fina camada de suor. Embora não pudesse ver o resto dela, sentia os mamilos rígidos e os seios fartos contra o peito. E a queria. Oh, como a queria! Desejava Emily como jamais desejara Cathy. Como nunca quisera nenhuma outra mulher. Emily. Emily com seus olhos ternos, com seu lindo sorriso. Ela estivera diante de seu nariz durante todos aqueles anos, e nunca a vira de verdade. Inclinando a cabeça, mordeu o lábio carnudo e segurou-o entre os dentes enquanto aspirava seu perfume delicioso. Queria a fricção. A tensão. O alívio. Queria estar dentro dela, mergulhado naquele calor aveludado. Queria ver aquele corpo exuberante, as curvas que sentia sob seus dedos. Em vez disso, beijou-a, dessa vez com maior intimidade e urgência, com força suficiente para fazê-la gemer. O som, a vibração da boca sob a dele, o movimento sutil... Era tudo tão erótico que sua ereção ganhou volume, tornando-se dolorosa. Scott recuou por um momento, tentando pensar com um mínimo de clareza. Queria levá-la para a cama, fazer amor com ela. Mas era tudo tão novo! Talvez ela nem quisesse. Talvez o expulsasse a pontapés. — O que é? — Eu quero... Ela sorriu. — Você quer? Scott fez um movimento afirmativo com a cabeça. Abriu a boca para responder, mas ela tocou seus lábios com a ponta de um dedo. — Quer fazer amor comigo? Mais uma vez, a resposta foi um movimento de cabeça. — Comigo? Com Emily? — Com você. Só com você. Emily suspirou. — Isso é maravilhoso. — Ah, é? E por quê? — Porque também quero fazer amor com você. Ele segurou suas mãos e encarou-a com expressão repentinamente séria. — Há algo que devo dizer, Emily. Não sei por quanto tempo estarei aqui. Eu... Droga! Não tenho certeza de nada. Emily respirou fundo e deu um passo para trás. Se ele não tinha certeza, era melhor parar. Criaria a impressão de que a decisão de não seguir em frente havia sido dela. Porque sabia com toda a certeza que queria que ele a desejasse. Precisava sentir o desejo de Scott durante cada passo do caminho. Ele a puxou de volta para perto de seu corpo. — Deixe-me reformular a frase. Não tenho nenhuma certeza sobre minha carreira. Mas estou absolutamente certo sobre o que quero fazer. O que estou dizendo é que... Bem, não posso fazer promessas. Não posso oferecer nenhuma garantia. — Não estou pedindo nada.

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh — É mais complicado do que pode parecer. — Não há nada de complicado no que quero fazer agora. De fato, ouvi dizer que essas coisas acontecem com muita naturalidade. Scott riu, e ela sentiu o corpo musculoso vibrar de encontro ao seu. — Naturalidade, é? Emily assentiu. — Quer dizer que não vai se importar se eu fizer isso... — A mão dele desceu até encontrar a junção de suas pernas, o calor úmido que estivera crescendo desde que ele entrara em seu apartamento. Ela se contorceu ao sentir a carícia íntima e atrevida. . — Não vou me importar. De jeito nenhum. — Nesse caso, acho que estamos prontos para o próximo passo. — E que passo é esse? O movimento foi tão ágil, tão seguro, que foi como se ele o houvesse ensaiado centenas de vezes. Scott a ergueu nos braços. Ela! E carregou-a através da cozinha, pela sala de estar, por todo o corredor até seu quarto. E quando chegou lá, não a pôs no chão de imediato. Antes de soltá-la, ele a beijou. Não podia acreditar no que estava vivendo. Fora carregada até sua cama por Scott. Seu Scott. O único homem em todo mundo capaz de derretê-la com um único olhar. Ele a colocou na cama com cuidado e ajeitou sua cabeça sobre o travesseiro. A maneira como a fitava dava a impressão de que ela era alguém especial, uma mulher sedutora e muito atraente. Marilyn Monroe. Scott não tinha pressa. Estava muito perto do limite, o que causava um certo desconforto, e precisava conter o ímpeto. Sorrindo, olhou para Emily e banqueteou-se com sua beleza tão natural e singela. Era incrível vê-la ali esperando por ele, vulnerável e pronta para o amor. Melhor pensar em outra coisa. A decoração. Sim, era isso. O quarto de Emily era exatamente como havia imaginado. Romântico, exuberante, como um cenário recortado de um filme. A cama de casal era branca, e havia muitos travesseiros sobre o edredom de plumas de ganso. Um espelho enorme emoldurado na mesma madeira da cama dominava um canto do aposento, e no outro havia um armário no mesmo material. A única gravura na parede retratava uma mulher nua reclinada numa postura lânguida sobre uma espreguiçadeira. As cores eram tão vibrantes e nítidas quanto a própria Emily. Ela tocou sua perna. Os olhos encontraram os dela mais uma vez. — E então? A pergunta simples fez vibrar a parte mais íntima de seu ser. — Agora eu serei seu professor. E você também vai me ensinar muitas coisas. Ela assentiu e se sentou sobre a cama. As mãos tocaram os botões da blusa que, um momento mais tarde, foi esquecida no chão. Scott a deteve ao ver que os dedos buscavam o fecho do sutiã.

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh — Mais devagar — ele sugeriu. — Quero que se dispa para mim. Lentamente. Emily deixou as mãos caírem sobre a cama e um rubor suave tingiu seu rosto. Os olhos vagaram pelo quarto, mas só por um momento. Scott sentou-se na cama, sentindose envolvido pela maciez confortável. — Não sei se serei capaz — ela confessou num sussurro. — Se não quiser tentar, não tem problema. Eu entendo. Emily fechou os olhos por alguns segundos. Depois encarou-o. Scott queria vê-la nua. Mais que isso, esperava que se despisse diante dele. Para ele. Sempre que imaginara aquele momento, o cenário havia sido escuro. Podia vê-lo, mas, em seus sonhos, permanecia sempre escondida. Mas não estava sonhando. Aquela era sua grande noite. A noite mais importante de sua vida. Não permitiria que o medo a arruinasse. As mãos tocaram a cintura da calça e os dedos se enroscaram no material elástico, puxando-o para baixo sem pressa. Emily movia os quadris de um lado para o outro com sensualidade provocante. Quando o elástico ultrapassou a parte mais grossa das coxas, ela deixou a calça cair. Scott sentiu o coração disparar dentro do peito ao olhar para aquele corpo sinuoso. O sutiã e a calcinha eram de seda vermelha. O contraste entre o material e a pele pálida o excitava ainda mais, e sabia que em breve teria de tomar uma atitude para aliviar a pressão que se acumulava no interior de seu ventre. Mesmo assim se conteve, fascinado pela imagem diante de seus olhos. Emily deslizava os dedos pelo abdome, pelo peito e pelo pescoço. Uma das mãos encontrou um mamilo túrgido e descreveu um único movimento circular em torno dele. Scott encheu os pulmões de ar, depois soltou-o devagar enquanto tirava a camisa e a jogava no chão. Os sapatos e as meias também foram removidos, e durante todo o tempo os olhos permaneciam fixos nos dela. O desconforto crescia. Precisava tocar aquele corpo, mergulhar nele e encontrar algum alívio. Era inútil. Não podia suportar. Não seria capaz de permanecer ali sentado por muito mais tempo. Nem por mais um segundo. — Espere. Emily parou, e ele se levantou da cama para aproximar-se dela. Beijou-a nos lábios com delicadeza, depois segurou-a pela mão e levou-a para o outro lado do quarto, para perto do espelho. Parado atrás dela, encontrou a posição exata para que ela pudesse ver o próprio reflexo e o dele ao mesmo tempo. Então começou a beijar sua nuca. Os dedos acariciavam seu ventre, o peito, os seios... Os mamilos eram dois pontos rígidos sobre o tecido frio e macio do sutiã. Emily recostou-se em seu peito, acompanhando seus movimentos com os olhos enquanto sentia nas costas o calor de sua pele bronzeada a firme. Scott traçou o contorno do sutiã e depois deslizou os dedos para dentro dele. Sua pele era duas vezes mais sedutora que a seda, tão suave que o fazia tremer. — Pode ver como é linda? — ele sussurrou. As mãos percorriam as curvas femininas e exuberantes. — E tão macia, tão sexy... Emily inclinava as costas numa súplica silenciosa, mas não queria se apressar. E também não queria expor-se ao constrangimento antes mesmo de estarem na cama. Ela agarrou as pernas de sua calça para manter o equilíbrio, e Scott notou seu

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh peito arfante. Não era o único a sofrer com a impaciência. Cedendo ao pedido aflito e mudo, tocou o fecho do sutiã e libertou os seios fartos daquele confinamento erótico. — Tire-o para mim — ordenou. Enquanto as mãos dela buscavam as alças finas sobre seus ombros, ele tocou o ventre levemente arredondando e muito feminino. A mão esquerda contentou-se com a sensação provocada pela pele macia e quente, mas a direita era insaciável. Os dedos continuaram descendo até encontrarem o elástico da calcinha, seguindo em frente através dos caracóis macios, detendo-se neles por um momento. Emily exalou o ar que prendera nos pulmões, depois remove o sutiã, desnudando os seios diante do espelho revelador. Ela era única. Perfeita. Farta e exuberante com mamilos rosados e rígidos como botões de uma flor exótica. Scott moveu quadril, exercendo uma pressão ainda maior contra o corpo colado ao dele. — Sinta o que está fazendo comigo... Os dedos moveram-se dentro da calcinha. Sem pressa, prosseguiram na jornada ousada até encontrarem o centro de seu prazer Um movimento circular provocou um gemido. Ele sorriu, antecipando o que viria mais tarde. Scott interrompeu a carícia sutil para penetrá-la com delicadeza, movendo o dedo até levá-la ao local exato onde queria tê-la. Então, notando os olhos arregalados de surpresa, passou a mover os dedos com velocidade espantosa, imitando um violinista num solo frenético. Emily agarrou-se a ele com desespero. Alguns segundos mais tarde, quando Scott sentiu-lhe o corpo tenso como as cordas de um instrumento bem afinado, ele parou. Emily deixou escapar um grito. Mas não teve de esperar por muito tempo. Colocando-se diante dela, de costas para o espelho, Scott ajoelhou-se, puxou sua calcinha com movimentos lentos até despi-la, e finalmente jogou-a no chão. Respirando profundamente para encher os pulmões com o aroma que o excitava além de qualquer possibilidade de controle, usou os dedos para prepará-la. Depois inclinou a cabeça para provar seu sabor pela primeira vez. Nunca se sentira mais ansioso e, ao mesmo tempo, mais determinado a caminhar sem pressa. Queria que ela se lembrasse daquela noite para sempre. Mantendo os olhos fechados enquanto a satisfazia, sentiu as mãos agarrarem seus cabelos e ouviu os gemidos eróticos. Mais um instante e seu corpo estremeceu numa reação convulsiva. Gritos de prazer ecoaram pelo quarto, alimentando seu desejo. Emily jogou a cabeça para trás quando ele parou de sorvê-la, mas seu corpo continuou sendo sacudido por tremores sucessivos mesmo quando Scott já havia se levantado. Disposto a. prolongar a noite de prazer até esgotar todas as possibilidades, ele a ergueu nos braços e levou-a para a cama. Antes que Emily tivesse uma chance de recuperar-se, ele tirou a calça e sentiu o ar mais frio acariciando sua ereção. Cada sensação era intensa, uma doce tortura que despertava anseios cuja satisfação não poderia tardar muito mais. Não suportaria adiá-la. — Oh... Olhou para Emily e encontrou os olhos dela fixos em seu corpo. Devagar, ela estendeu a mão para tocá-lo com uma certa hesitação, como se temesse machucá-lo ou

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh ser censurada. Scott rangeu os dentes, temendo não suportar a combinação de tensão, dor e prazer. — Você é maravilhoso — ela sussurrou. A resposta foi uma risada nervosa que não amenizou a tensão em seu corpo. — Estou falando sério. Você é simplesmente perfeito. Fascinante. — Você também é linda. Emily sorriu. Fechou os olhos. E, enquanto a observava, uma lágrima correu por seu rosto. — Em? Você está bem? Podemos parar agora mesmo, se não quiser continuar. — Não... Não. Eu quero você... Quero o que estamos vivendo. Oh, Scott, eu quero fazer tudo. Quero ir até o fim. — Tudo mesmo? Ela fez um movimento afirmativo de cabeça. — Bem, esse é um objetivo muito digno e valioso. — Scott posicionou-se sobre a cama, colocando-se entre as pernas macias. — Espere — ela pediu. — Naquela gaveta... Ele olhou na direção apontada por Emily, depois inclinou-se, expondo-se ao risco de fraturar uma perna. Apesar da posição desconfortável, conseguiu abrir a gaveta e viu dentro dela a caixa de preservativos. Sorrindo, sacudiu a caixa para tirar dela uma pequena embalagem prateada. — Aprecio uma mulher que sabe estar bem preparada. — Gosto de emoções fortes, mas prefiro zelar por minha segurança. Os dois riram enquanto Scott erguia o corpo para ajustar o preservativo ao corpo. — Imagino que mereça uma medalha por bom comportamento. No entanto, duvido que alguém apareça para entregar a condecoração neste momento. — Que pena... — ela brincou. — Sendo assim, por que não nos dedicamos a desempenhar a tarefa mais imediata da melhor maneira possível? Uma coisa de cada vez. Emily sorriu com malícia. — Uma coisa, não é? Ele assentiu, ajoelhando-se sobre o colchão e deslizando as mãos por suas pernas. Quando alcançou os joelhos, segurou-os com força para flexioná-los, afastandoos de forma a posicionar-se entre eles. — E que coisa seria essa, Scott? — Você pode escolher. Viu que as mãos dela buscavam os seios. Sem nenhum constrangimento, ela massageava os mamilos enquanto o encarava, como se nem tivesse consciência do que estava fazendo. E talvez não tivesse. Seu olhar passava do rosto sorridente e corado às mãos ousadas acariciando os seios, e ele não conseguia decidir qual visão o agradava mais. — Tudo bem — ela murmurou com tom provocante. — Acho que essa coisa tão especial e única deve ser um beijo. Sim, é isso. Você vai me beijar. — Lamento, madame, mas sua resposta está incorreta. O movimento foi tão rápido quando exigia a necessidade. Estava a poucos

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh centímetros dela, tão perto que podia sentir o calor emanado por seu corpo. Ainda apoiava as pernas bem torneadas com as mãos, e tratou de erguê-las um pouco mais de forma a poder apreciar toda a beleza do que via. Queria admirá-la completamente. — Incorreta? — A voz tremia enquanto sua respiração ia se tornando mais e mais acelerada. — Estou vendo que terei de oferecer uma demonstração prática. Emily assentiu. Depois ergueu os quadris, tirando-os da cama. Só dois ou três centímetros. Foi o suficiente. Nada no mundo poderia tê-lo dissuadido da idéia de penetrá-la. Nem um exército inteiro o teria contido. Emily o sentiu dentro dela, movendo-se lentamente, preenchendo seu corpo. Era uma sensação incrível e indescritível, como se houvesse estado vazia durante toda sua vida, sempre esperando por aquele homem, por aquele momento. Scott debruçou-se sobre seu peito, os olhos eletrizados refletindo exatamente o calor que queimava dentro dela. Depois moveu-se novamente, preenchendo-a de forma ainda mais completa. Emily conseguiu enlaçar sue pescoço e puxá-lo para um beijo. Enquanto se beijavam, ele aprofundou ainda mais a penetração, detendo-se ao ouvi-la gemer. — Emily? Você é... Ela moveu a cabeça em sentido afirmativo. — A última da América do Norte, imagino. Scott resmungou alguma coisa e recuou. — O que está fazendo? — Tentando certificar-me de que você sabe o que está fazendo. — Não há nada no mundo que eu queira mais do que fazer amor com você — ela sussurrou. — Por isso esperei tanto. Queria dividir este momento com você. — Comigo? — Sim, Scott. Com você. — Por que não me disse nada? Emily riu. E balançou a cabeça. — Francamente, esse não é um assunto que eu possa discutir durante o lanche da tarde, ou enquanto tomamos café na lanchonete do Zeke. — Mas... Droga, Em! Estou me sentindo enganado! — É mesmo? E o que está esperando? Ele a beijou novamente, sem pressa, porém com uma urgência espantosa. Depois penetrou-a mais uma vez, usando um pouco mais de força ao romper a barreira que o separava da consumação do ato. Scott ficou quieto, os olhos ansiosos e a expressão apreensiva, o corpo todo tenso enquanto tentava encontrar algum sinal de que ela estava bem. Emily precisou de alguns instantes para ajustar-se. Para superar a onda de dor. Quando se sentiu mais confortável, moveu os quadris testando a própria sensibilidade. Scott permitia que ela impusesse o ritmo, permanecendo quieto enquanto ela se tornava mais e mais ousada. Finalmente a dor desapareceu por completo, e Emily retornou àquela região onde só existia o prazer. Sorrindo, fitou-o com um misto de malícia e atrevimento, e ele

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh suspirou aliviado. Scott moveu-se lentamente, estabelecendo um ritmo cujo único propósito era enlouquecê-la. Mas, quanto mais erguia os quadris para encontrar os dele, mais rápidos tornavam-se os movimentos. A expressão dele mudou. O sorriso amoroso do instante anterior deu lugar a um olhar tão intenso, tão concentrado nela, que era como se fossem as únicas duas pessoas no universo. Scott a possuía com desespero, penetrando cada vez mais profundamente, alimentando o desejo e construindo o prazer, até que ela estremeceu. Ele mudou de posição de forma que cada movimento provocasse um contato no ponto exato, usando calor e fricção para conduzi-la a um lugar onde nunca estivera antes. Emily gritou enquanto estremecia violentamente. Scott a beijava, absorvendo cada gemido como se neles estivesse a fonte da vida. Emily mergulhava num oceano de prazer e alívio. Segundos mais tarde, Scott também juntou-se a ela naquela jornada espantosa e única. — Oh, Scott — ela sussurrou, sentindo o peso do corpo musculoso sobre o dela. Não era desconfortável. Pelo contrário, gostava da sensação. As mãos o exploravam enquanto ele continuava sendo sacudido por aqueles leves tremores. Sua pele estava úmida de suor, o que também era muito sexy. — O que fez comigo, Emily? — Não sei. O que foi que eu fiz? Ele ergueu a cabeça para fitá-la. — Você quase me matou. A cabeça caiu novamente, encontrando repouso no travesseiro ao lado dela. Bem perto de sua orelha, como Emily descobriu no segundo seguinte. O contato da língua úmida com a pele sensível e quente a fez estremecer. Scott levantou a cabeça outra vez. — Há quanto tempo está esperando para fazer isso comigo? — Desde que eu tinha dezesseis anos. — Está brincando, não é? Emily balançou a cabeça. — Por que nunca me disse nada? — Você não entenderia, a menos que fosse uma mulher. — Engraçadinha. Scott mordeu sua orelha, e ela gritou. Depois ficou ali deitada, tão próxima dele, tão ligada àquele homem, que tinha a sensação de formarem um só ser. Não eram mais ele e ela, mas eles. Algo inteiramente novo e único no universo. Depois de alguns momentos, Scott gemeu novamente. — O que é agora? — Preciso me mover. Não quero me mexer, mas é necessário. — Pobrezinho. Ele se virou sobre o próprio corpo, e Emily sentiu um frio incômodo, intenso e imediato. Como se houvesse antecipado essa reação, Scott puxou o edredom para cobrila. Depois levantou-se e correu para o banheiro. Emily tirou proveito da situação para apreciar aquele traseiro perfeito. O homem exibia formas tão harmoniosas quanto as de uma escultura planejada com riqueza de detalhes. Era uma visão tão esplêndida que

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh sentia o peito doer. Pensou no que ele havia feito. Em como a levara para a frente do espelho e a fizera enxergar o próprio corpo através de seus olhos. Pela primeira vez em anos, talvez em toda sua vida, gostara do que havia visto. Embora não fosse magra, não tinha importância. Era atraente. E muito sexy. Scott voltou alguns momentos mais tarde e deitou-se sob o edredom. Aproximando-se, passou um braço em torno de sua cintura e uma perna sobre as dela. Emily fechou os olhos e foi invadida por uma paz sem precedentes. Finalmente entendia o motivo de tanto escândalo em torno do sexo perfeito. Porque os poetas dedicavam tanto tempo à criação de rimas sobre o amor. Com uma pontada de dor, ela se lembrou de que não podia incluir o mais sublime dos sentimentos na equação. Não haviam feito amor. Não estavam apaixonados. Ou melhor, ele não estava. O fato não mudava seus sentimentos. Ainda se sentia aquecida, confortável e completa. Valera a pena esperar por Scott, e não podia imaginar sua primeira vez com nenhum outro homem. O que quer que acontecesse, lembraria aquela noite até o último de seus dias, e sempre com alegria. Oh, não tinha dúvidas de que perder Scott seria uma verdadeira tortura, mas teria sido pior seguir vivendo sem nunca ter vivido aquele encontro. Havia sido o melhor caminho para ela. A melhor solução. Porque o amava. Amava Scott Dillon com todas as forças de seu ser.

CAPÍTULO XIV Que diabos havia acontecido? Scott olhou para Emily com espanto e confusão. Ela o desejava desde o ginásio. Como pudera deixar de perceber algo tão importante? Fora amigo dela. Um bom amigo. Não. Emily fora uma boa amiga. Sempre prestativa e atenciosa... Sem dúvida pensara em fazer amor com ela, o que era natural. Mas nunca havia pensado na possibilidade de Emily ter desejado a intimidade. Não com ele. O problema agora era... o que viria em seguida? Se pudesse decidir sozinho, ficaria sentado esperando para ver o que acontecia. Mas .sabia que Emily não ficaria satisfeita com essa alternativa. Ela era uma pessoa que planejava tudo, aquela que sempre ficara responsável pela organização dos piqueniques e dos projetos da escola. Sendo assim... o que poderia dizer a ela? Que estava grato por ter voltado a falar com ele? Ou que fazer amor com ela havia provocado o maior choque de todos que já sofrerá em sua vida? Que acabara de viver o sexo mais intenso e satisfatório que um homem podia imaginar ou querer? Que queria mais, embora não estivesse disposto a abrir mão do emprego na ESPN? Os problemas pareciam ir se empilhando uns sobre os outros em sua cabeça, mas deixaram de ser importantes quando ele percebeu que Emily havia adormecido. Ela parecia tão linda e serena! Observá-la o excitou novamente, despertando seus sentidos como nenhuma outra mulher havia conseguido antes. Queria satisfazê-la. Protegê-la. Que confusão. Entre as obrigações com a família, a carreira e. a descoberta de Emily, não sabia mais se devia ir ou ficar. Precisava conversar com alguém.

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh Scott sorriu. A pessoa com quem precisava conversar estava dormindo a seu lado. Sua melhor amiga. — Não sei — Scott confessou inseguro. — Fico assustado quando penso em contratar alguém para dirigir o mercado. E se minha mãe adoecer depois que eu for embora? Emily mudou de posição de forma a acomodar melhor a perna sobre as dela. Estava aninhada no peito de Scott, com a cabeça apoiada bem perto da dele sobre o travesseiro, os corpos se tocando de maneira íntima e natural. Tocava os cabelos finos que recobriam a parte central do peito musculoso, brincando com eles sem realmente prestar muita atenção ao que fazia. Scott se abria com uma confiança que até então não havia demonstrado. Não daquela maneira plena e sem restrições. Queria ouvir seus conselhos. Fora procurá-la a fim de desabafar e tentar encontrar uma solução para os problemas que o afligiam. Seria capaz de apostar que em nenhum momento ele vislumbrara a situação que estavam vivendo ali. Distraído, massageava as costas de Emily sem perceber que seu toque a excitava. Sentia necessidade de beliscar-se para ter certeza de que o que acontecia era real. — Porém — ele prosseguiu —, estive pensando muito na situação. Os rapazes do time de futebol revelaram-se excelentes funcionários. — Não estou surpresa. Afinal, eles querem impressioná-lo. — Não é só isso. Acho que o treinador disse a eles que é importante ser profissional e sentir orgulho do trabalho. Ontem estive analisando a escala de horários e descobri que temos quase todo o expediente depois do período escolar ocupado pelos alunos do ginásio. As únicas exceções são os horários dos treinos e das partidas. E minha mãe está muito entusiasmada. Ela adora ir à loja e conversar com os garotos. Creio que deve lembrar-se de quando eu tinha a idade deles. — Você deve estar certo. E os garotos são mesmo excelentes. Quanto a sentir orgulho daquilo que fazemos, concordo com você. O orgulho é uma parte importante da vida profissional de qualquer pessoa. A prova disso está nos resultados que eles têm obtido na escola. O rendimento dos rapazes melhorou tanto, que acho que trabalhar no mercado deve fazer parte do curriculum oficial. Como um laboratório. — Humm... — ele resmungou. Scott era ainda mais adorável quando estava pensando, Emily beijou-o no queixo. Basicamente porque era seu queixo que conseguia alcançar. Ele sorriu e retribuiu o beijo, porém em outro lugar. E beijou-a até despertar todo seu corpo. Mesmo assim, ela conseguiu se soltar depois de alguns segundos. Mais um pouco e teriam de adiar a conclusão da conversa por um bom tempo. Scott riu e balançou a cabeça. — O que foi? — Você. Eu. Nós. Quem poderia imaginar? — Não eu. Não dessa maneira. — O que suas amigas vão dizer? Ela riu. — Aleluia! — É mesmo? Quer dizer que Hope não vai me ameaçar de morte?

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh — Oh, não. Hope e as outras só querem que eu seja feliz. — E você se sente feliz comigo? — Sim. — Não está arrependida? — De jeito nenhum. Ele franziu a testa ao estudar seu rosto. — Gostaria de saber o que vai acontecer. Sabe como é... Prever o futuro, antecipar o dia de amanhã... — Oh, eu também. Compraria um bilhete de loteria premiado. — Engraçadinha. — Você já disse isso antes. Vai acabar conseguindo me convencer. — Estou falando sério, Em. — Desista, Scott. Vai acontecer o que for melhor para todos. Mesmo que ainda não consiga decidir o que é melhor. Confie nisso e tudo acabará bem. — Como pode ter tanta certeza? — Você está aqui, comigo. Ele não disse nada por algum tempo. Por um bom tempo. Apenas fitou-a nos olhos. E Emily teve certeza de que nunca antes se sentira tão completa. Tão contente. — Eles gostam muito de você. — Quem? — Os garotos do mercado. Às vezes escuto o que eles dizem sobre você. — E o que eles dizem? — Oh, eles acham que é divertida e inteligente, e gostam muito de suas aulas. — Está mentindo. Scott cruzou os dedos para formar um X sobre os lábios. — Estou dizendo a verdade, toda a verdade, nada mais do que a verdade. — Bem, muito obrigada. — Por nada. — Ainda acho que seria um ótimo professor. — Era nisso que eu estava pensando. Emily riu da aparente falta de modéstia. — Não é nada disso — Scott explicou. — O treinador sugeriu que eu passasse pelo ginásio no próximo treino. Ele quer ajuda com o time titular. — Que excelente notícia! — É verdade. Eu não sabia... Nunca imaginei que pudesse encontrar alguma coisa aqui. — Está tentando dizer que se sente feliz em Sheridan? — Sim, é isso. Estou feliz. Mas... — Não, Scott. Isso é tudo que importa. Todo o resto está em algum lugar lá fora. No futuro. Agora, nesta cama, nós dois somos felizes. — Nesta cama, pelo menos um de nós está com muita fome. — Humm... Tenho alguns frios fatiados na geladeira. E pão. Posso preparar um sanduíche. — Nós vamos preparar sanduíches. — Ele se sentou, e Emily teve de conter o impulso de puxá-lo de volta. Scott levantou-se, vestiu a calça jeans e pôs as mãos na

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh cintura. — E então? Você vem comigo, ou. ficar aí com fome? — Já estou indo. O telefone interrompeu o lanche. Estavam novamente na cama, com uma grande bandeja entre eles. Os pratos continham pão, carne fria fatiada e queijo sem gordura, além de condimentos variados. — Deve ser Hope — Scott opinou, bebendo um pouco de refrigerante light. — Ou Lily. — Ou Júlia. — Ou Sam. Ele riu. — Ou Zoey. Emily assentiu e ouviu o telefone tocar pela quarta vez. — Não vai atender? — Não. — Quem quer que seja, certamente ficará preocupada. — Eu sei. — E isso não vai ser bom. — Oh, está bem. — Emily estendeu-se sobre a cama sem nenhuma pressa, esperando que o telefone parasse de tocar antes que ela o alcançasse sobre o criadomudo. Mas o som estridente continuava ecoando pelo quarto. — Alô? — O que aconteceu? — Hope perguntou sem rodeios. — Eu conto mais tarde. — O quê? Ficou maluca? — Não. Mas estou ocupada. — Com Scott? — Sim. — Ocupada como? — Não é da sua conta. — Oh, meu Deus! É o que estou pensando, não é? Sua noite. A noite de seus sonhos! Emily suspirou. — Sim. Um grito que poderia ter sido ouvido em Oklahoma penetrou em seu ouvido. Scott também o escutou, e seu rosto tingiu-se de vermelho. — Eu falo com você mais tarde, Hope. — Não! Espere. Não desligue. Preciso de detalhes. Seja mais específi... Emily pôs o fone no gancho. Depois desligou a campainha. Se mais alguém telefonasse, e tinha certeza de que todas ligariam, assim que Hope terminasse de espalhar a novidade, não ouviria o aparelho soando sobre o criado-mudo. A secretária eletrônica registraria todos os recados. — Não vai comer o picles? Emily olhou para o prato. Ainda tinha um quarto do sanduíche e um pedaço de picles para devorar. — Não. Pode comer, se quiser.

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh Scott devorou o que restava de seu lanche e, em vez de sentir-se mal-humorada, ela ficou feliz. Seria capaz de oferecer todo o conteúdo de sua geladeira aos pobres. Ela riu. — O que foi? — Nada. Não foi nada. — Sabe de uma coisa? Precisamos de um bom banho. — Pode ir na frente, se quiser. As toalhas limpas estão no armário ao lado da pia. — Oh, não... Acho que não entendeu a proposta, professora. Eu disse que nós precisamos de um banho. — Juntos? — Exatamente. Você pode esfregar suas costas... — Esqueça! Se vamos tomar banho juntos, a última coisa com que vou me incomodar é a limpeza de minhas costas. Scott riu enquanto se levantava e levava a bandeja para a cômoda. — Você é mesmo engraçadinha. — disse. — Não há como negar. Emily suspirou. — Eu sei. Sou uma criatura adorável. Irresistível. Não queria ir embora. Precisava ir, mas o desejo de ficar produzia uma impressionante coleção de desculpas para não aparecer no trabalho. A única coisa que o impedia de seguir o impulso era a certeza de que a mãe iria substituí-lo no mercado. Emily apoiou-se na porta do apartamento, os braços cruzados sobre o peito e mantendo o robe fechado. O tecido macio modelava seu corpo. Era bom saber o que havia ali embaixo. Melhor ainda era lembrar como havia sido tocar e provar o sabor das partes mais suculentas. O corpo reagiu de imediato às recordações, tornando a calça mais justa e desconfortável. Se não fosse embora logo, não iria mais. — Eu telefono mais tarde — disse, impondo um tom calmo à voz. — Tudo bem. Estarei aqui. Exceto quando sair para ir à academia. E quando for fazer umas compras para a casa. — E quando pretende sair? Ela encolheu os ombros e sorriu. — Não sei. Talvez nem saia. Estou pensando em passar o resto do dia na cama. Scott fechou os olhos. — Isso é golpe baixo. Toque abaixo da linha da cintura. — Humm... Deve ter cometido algum erro sem perceber. A localização é exata, mas nunca tive a intenção de golpear nada. — Emily, o que vou fazer com você? — Comigo? Nada. Não agora. O trabalho o espera, lembra-se? — Tem razão. — Ele se afastou da porta. — Sim, o trabalho me espera. — Então vá. — Estou indo. — O que o impede? — Já vou! Só um segundo. — Ele correu para a frente, tomou-a nos braços e beijou-a mais uma vez. Foi Emily quem interrompeu o beijo e afastou-se. Não fosse por isso, teriam ficado ali para sempre.

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh — Vá trabalhar, Scott. Agora! A resposta foi uma continência exagerada, um giro ao estilo militar com saudação de calcanhares e passos firmes pela escada. Mas não era fácil caminhar e fazer gracinhas ao mesmo tempo. Não com a calça ameaçando esmagar uma certa parte de sua anatomia. Uma parte muito importante, especialmente depois dos últimos acontecimentos. Tinha de parar de pensar nela. Scott tirou as chaves do bolso ao aproximar-se do carro. O período de crises parecia ter chegado ao fim. Até a rebeldia do próprio corpo parecia estar sob controle. Já não corria mais o risco de ser preso por atentando ao pudor. Mas não pensar em Emily, não lembrar de todos os detalhes daquela noite, era uma tarefa quase impossível. Sem dizer que havia algo na periferia de sua mente. Não conseguia identificar o que era, mas sabia que se tratava de algo importante. Ele girou a chave na ignição, o motor roncou, e a lembrança aflorou nítida. Emily havia falado sobre os garotos. Sobre um laboratório. A idéia desabrochou quando ainda estava saindo da vaga onde deixara o GTO, e quando chegou à primeira esquina, já havia definido quase todos os detalhes. Emily era brilhante! Agora, se pudesse convencer a escola... Emily olhou para a secretária eletrônica. Desde o telefonema de Hope na noite anterior, a máquina havia registrado oito mensagens. E sabia quem havia telefonado. Como também sabia que haviam ligado várias vezes. Não podia culpá-las pela insistência. Tinha de compreender que estavam entusiasmadas e curiosas. Afinal, elas faziam parte de tudo que estava acontecendo, não? As Amigas teriam muito sobre o que falar. Por isso não contaria tudo. Porque as amava demais, e elas mereciam o conforto de acreditar que tudo acabaria bem. Mais tarde, quando Scott partisse, elas saberiam a verdade. Não precisava preocupá-las antes da hora. Só ela sabia que nunca mais faria amor com Scott. Que ele partiria mais cedo do que imaginava. Que poderia aceitar aquele emprego magnífico na ESPN. E sabia disso com certeza, porque ela mesma havia oferecido a solução para os problemas que o afligiam. Dissera a Scott como ele poderia ir embora sem magoar a mãe ou prejudicar os negócios da família. A resposta estivera bem diante dele. Os garotos da escola. Não havia dúvida de que podiam fazer o trabalho, desde que tivessem um bom supervisor para orientá-los. Alguém que já estivesse no mercado seria a escolha ideal. Emily conhecia a mãe de Scott. Ela ficaria satisfeita com o plano, mesmo sabendo que sentiria falta do filho. Para ela, nada era mais importante que vê-lo feliz. E para ser feliz, ele precisava agarrar sua grande chance de realização profissional. Não havia sido por isso que planejara toda a idéia? De forma que ele pudesse desenvolver plenamente seu potencial? A fim de que não tivesse de arrastar-se por uma vida repleta de frustrações e arrependimentos? Emily sentou-se no sofá. Boo aproximou-se, lambeu sua mão e esperou até que ela o acomodasse sobre os joelhos para um pouco de carinho. Nunca havia pensado que, ao oferecer a solução para os problemas de Scott, estaria também se condenando ao mesmo destino de que o salvava. Era ela quem passaria o resto da vida cercada por frustrações e pesar.

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh Antes, havia acreditado que uma noite com ele seria o suficiente. Agora entendia que fora uma completa idiota. Uma noite, a noite anterior, fora apenas a introdução para uma vida nova e desconhecida. Passaria o resto de seus dias atormentada pelas lembranças daquela noite. Porque não podia prolongar o momento. Na verdade, ele já havia passado. Emily suspirou. Não havia nada a fazer além de continuar vivendo. Ou sobrevivendo. De repente se lembrava de uma oração que parecia muito apropriada para o momento: Deus, dê-me a serenidade para aceitar as coisas que não posso mudar, a coragem para mudar o que pode ser alterado, e a sabedoria para distinguir umas das outras. A prece fez com que ela se sentisse um pouco melhor. Mas o caminho que se estendia diante de seus olhos parecia rochoso e. acidentado, repleto de coisas que não poderia mudar, e precisaria de toda a serenidade que pudesse encontrar. Quanto à sabedoria... A única coisa que sabia ao certo, acima de qualquer dúvida, era que aconteceria o que fosse melhor. Como sempre acontecia, desde que estivesse disposta a enxergar o que era melhor.

CAPÍTULO XV Scott levou uma xícara de chá para a mãe e sentou-se diante dela à mesa da sala de jantar. Ela parecia estar bem, melhor do que ele chegara em Sheridan. Com os cabelos bem penteados, usando um belo vestido, a Sra. Dillon demonstrava ter resgatado sua antiga personalidade. Era bom ver seus olhos cintilarem iluminados por um sorriso. Esse era o sinal mais claro e certo de que a depressão provocada pela perda do marido se aproximava do fim. — Não acha que Bobby já está preparado para assumir um dos caixas da loja? — ele perguntou. Scott sorriu agradecido. Aquela era a introdução perfeita para a conversa que queria ter com a mãe. — Sim, mamãe, concordo com você. Acho que Bobby tem sido um funcionário exemplar. — Aqueles garotos trouxeram um novo ânimo para o mercado. E para a minha vida também. Eles carregam minhas compras, enchem o tanque do meu carro, e Bill Tobin passou toda a tarde de sábado aqui em casa, cuidando do jardim. — É bom saber que gosta deles, mãe, porque tenho uma proposta para fazer. — Para mim? Vá em frente, querido. Estou ouvindo. — Bem, a idéia foi de Emily. Ela acredita que podemos contratar os alunos do ginásio para trabalhar no mercado como uma espécie de estágio. Um projeto escolar, entende? Eles aprenderiam todos os ofícios existentes em nossa loja, e no final do ano teriam uma boa experiência de trabalho e algumas economias. E nós poderíamos contar com uma ajuda valiosa. A Sra. Dillon bebeu alguns goles de chá. Quando colocou a xícara sobre o pires, ela o encarou com aquela expressão que Scott se habituara a ver desde a infância. Como

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh se recorresse à intuição, uma de suas armas mais poderosas, e fosse capaz de enxergar até mesmo o recanto mais secreto de sua alma. — Gosto dessa idéia. Assim você terá a chance de aceitar aquele emprego em Connecticut. — Não irei a lugar nenhum enquanto não tiver certeza de que o arranjo funciona perfeitamente — ele respondeu. Não estava surpreso com a abordagem direta da mãe. Afinal, ela sempre fora uma mulher prática e objetiva. — Gostaria de promover Miguel a gerente geral do mercado. Ele sabe tanto quanto eu sobre os detalhes do negócio. E também teremos um conselheiro para as questões pertinentes aos estagiários. — E o que faremos durante o verão? — Não precisa se preocupar com isso. Os rapazes serão contratados durante o ano inteiro. É claro que não estarão no mercado no horário das aulas, mas existem algumas soluções possíveis para esse problema. Vamos precisar de dois funcionários trabalhando em período integral. Eles farão um rodízio passando por todos os turnos. Mas deixaremos a reposição de estoques e a colocação dos preços a cargo dos garotos. Tenho certeza de que vai dar certo, mãe. — E a escola? Já tentou saber a opinião da direção e dos pais desses rapazes? — O diretor é totalmente favorável ao nosso projeto. Você o conhece, mamãe. David Warren. — David? — ela sorriu. — É claro que o conheço. Ele costumava entregar o jornal em nossa casa. — David... foi entregador de jornais? — Oh, sim. Ele era um bom garoto. Scott inclinou-se para a frente e segurou a mão dela. Era tão fina e delicada, tão leve... E a pele era quase transparente. Talvez não devesse ir embora, afinal. Um simples emprego não podia ser tão importante. — Scott, querido, Estou muito feliz com o que acabei de ouvir. Não imagina como me sentia culpada por tê-lo chamado de volta para casa. Sei que o desviei de seu caminho. — Não tem importância. — Sabia que diria algo assim. Você é meu anjo. Mas sua vida profissional é muito importante, como sua felicidade e sua satisfação pessoal. Meu maior desejo é que consiga realizar todos os seus sonhos e tirar o melhor proveito possível da vida. Espero que consiga o emprego que tanto quer, e que ele possa fazer você feliz. E também espero que encontre uma boa moça e me dê muitos netos. Ele riu. — Vou me esforçar nesse sentido. Prometo. — Não se esqueça de vir visitar sua mãe de vez em quando, está ouvindo? — É claro que virei, mamãe. Sempre que puder. O sorriso que iluminava seu rosto serviu para dar a ele a certeza de que o plano fora aceito. Mal podia acreditar em como as coisas iam aos poucos ocupando seus lugares. Mas ainda faltavam duas peças importantes no quebra-cabeça. A primeira, a ESPN tinha de contratá-lo. A segunda, Emily... O que ia fazer com Emily? O diretor acomodou-se em sua cadeira executiva, cocando o queixo enquanto

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh considerava a sugestão de Emily. David Warren era um homem muito alto, com mais de um metro e oitenta e cinco, e a cadeira mal podia acomodá-lo. Ele também era um excelente diretor, um profissional que fazia seu trabalho com prazer. — Acredito que pode dar certo — ele disse. — Exceto quando estiver trabalhando na peça da escola. — Oh, é verdade. — Não havia pensado nisso. — Ainda posso ser conselheira e orientar os estagiários, mas, durante os ensaios, encontrarei um assistente. — Vai ter de encontrar alguém que aceite trabalhar sem cobrar nada da escola. — Eu sei, David. Confie em mim. Prometo que vou encontrar alguém. Tudo vai dar certo. — Ótimo. Scott disse que a idéia era sua. — Não. Eu só plantei uma pequena semente. Foi ele quem cultivou a planta. — As crianças vão aprender muito com tudo isso. E se der certo como estou imaginando, talvez outras companhias na comunidade façam a mesma oferta. — Tem razão. De qualquer maneira, o mercado representará um excelente começo para os estudantes. Vamos deixar que eles vejam como é fazer parte do mundo real. E como uma educação universitária é importante nos tempos de hoje. David assentiu. — Só lamento não ter podido implementar a outra idéia de Scott. Foi impossível encontrar um modo de pôr sua sugestão em prática. Ouvi dizer que ele partirá para Connecticut na quinta-feira. Emily ficou tensa. Era difícil, mas, com esforço, certamente conseguiria manter seus sentimentos ocultos. E sorrir com tranqüilidade, mesmo que só aparente. Por dentro, era como se tudo estivesse desmoronando. Como se o coração sangrasse. Ele partiria na terça-feira? Era cedo demais! E de que outra idéia David estava falando? — Ele... Scott fez mais uma sugestão? — Ele queria fazer parte do corpo docente como assistente de treinador. Teríamos adorado tê-lo em nosso quadro, mas sabe como é o nosso orçamento. Jamais teríamos conseguido pagar pelo serviço de Dillon. — É claro que não. — Emily levantou-se, usando toda a energia que possuía para parecer relaxada. — Vou dar uma aula dentro de poucos minutos. Depois voltaremos a falar sobre a posição de conselheira, está bem? — Certo. E obrigado por tudo, Emily. — Não foi nada. Ela deixou a sala do diretor pela porta lateral. Assim que chegou ao corredor, seguiu diretamente para a saída. Precisava deixar o prédio, mesmo que fosse só por alguns minutos, mesmo que corresse o risco de atrasar-se para a próxima aula. Não se sentia capaz de encarar os alunos. Ainda não. A última coisa que queria era romper em lágrimas diante das crianças. Uma vez fora do prédio, ela correu pelo gramado para o estacionamento. Entrou no carro e bateu a porta. Os olhos se encheram de lágrimas quando ela debruçou a cabeça sobre o volante. O que havia feito? Scott estava preparado para ficar, e ela oferecera a saída perfeita. Só não se oferecera para arrumar suas malas, mas o resto...

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh Por quê? Oh, por que não mantivera a boca fechada? Não tinha o menor interesse em tornar-se mártir. Queria que ele ficasse. E daí se Scott tivesse de desistir de um grande sonho? Ele encontraria outro. Um sonho que a incluísse. Emily enxugou os olhos. Respirou fundo. Não era justo. Não era agradável ter conhecido o paraíso só por um instante. Depois dessa experiência, o mundo nunca mais seria o mesmo. A caixa de lenços estava no banco de trás. Ela retirou meia dúzia de folhas duplas, enxugou os olhos, e depois ajeitou o espelho retrovisor. Estava horrível. A máscara para cílios era excelente, mas não cumpria a promessa da embalagem sobre resistir à umidade. Ela precisou de alguns minutos para reparar o estrago provocado pelas lágrimas. Quando o rosto recuperou parte da aparência normal, deixou o automóvel e se dirigiu para a sala de aula. Era inútil adiar o inevitável. Algumas coisas tinham de acontecer, mesmo que causassem uma dor quase insuportável. Scott precisava de liberdade para voar. E ela? Bem, sobreviveria de algum jeito. Com a ajuda muito especial de suas amigas. As Amigas. Dessa vez ele não levava nenhum doce. Havia apenas um chapéu em sua mão. A perspectiva de dizer adeus á Emily o devorara por dentro durante todo o dia. Mas a entrevista estava marcada, os diretores da rede de televisão se mostravam muito entusiasmados, e seu empresário insistia em afirmar que o emprego já era dele. Ela abriu a porta. O sorriso que iluminava seu rosto quase o fez desistir de tudo. Nunca vira outro sorriso mais triste. Mesmo assim, também era corajoso. — Entre. Scott passou pela porta do apartamento, imaginando se aquela seria a última vez. Não. Voltaria para visitá-la sempre que pudesse. — Ouvi dizer que tem boas notícias. Ele assentiu. — Sim, eu tenho notícias, mas não sei se são tão boas assim. — Ah, vamos lá — ela comentou sorrindo enquanto o levava para a cozinha. — E claro que são boas notícias. Você merece essa chance. E tudo que sempre quis! — Não tenho mais tanta certeza disso. — Mas eu estou absolutamente certa. — Ela usava um vestido longo com mangas curtas e estampas brancas sobre o tecido preto. Os brincos também eram brancos e pretos, e mais uma vez ele se sentiu fascinado diante de tanta beleza. Ainda não compreendia como deixara de notá-la por tanto tempo. Como nunca levara em conta seus sentimentos por ela, como deixara de agir a fim de torná-los reais e concretos. E agora era tarde demais. Que ironia! Oh, sim, era terrivelmente irônico. — Quer beber alguma coisa? — Sim, obrigado. Emily se movia pela cozinha providenciando copos, gelo e refrigerantes. Ele a observava e pensava em Connecticut. Como seria sua vida lá? Não tinha conhecidos naquela cidade, mas isso nunca representara um grande problema antes. Só lamentava que a sede da emissora fosse tão longe. Sentiria falta dela. Mais do que poderia ter imaginado. — Aqui está — ela anunciou entregando um copo. Emily sentou-se, e ele se

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh acomodou a seu lado. — Ainda nem sei se vou conseguir a droga do emprego. — É claro que vai. Você é maravilhoso. — Mas... — Mas o quê? Scott, não precisa se preocupar com nada. Eu serei a conselheira dos garotos no mercado. Vou orientar o programa do estágio e farei tudo para que seja um grande sucesso. — Você vai ser a orientadora? — David não lhe contou nada? — Não converso com ele desde ontem. — Já acertamos tudo. — Em, você não precisa se envolver nisso. — Eu sei. Não preciso, mas quero participar. — Mas e quanto a... — Vai falar sobre aquela noite? — Ela sorriu com o ar triste de antes. — Foi perfeita. E nunca me esquecerei dela. Mas nós dois sabíamos que não seria para sempre, não é? Somos amigos. Companheiros. — Ela sé inclinou para a frente e afagou sua mão. — Sou feliz aqui. Amo meu trabalho, minhas amigas... Minha família está aqui. Mas você? Seu destino está em outro lugar. Em um mundo muito maior do que este. — Como pode saber? — Só preciso olhar para você para ter certeza. Está com o pé na soleira, Scott. A um passo de começar uma vida incrível e repleta de grandes realizações. Não pode deixar que nada o desvie desse caminho. Especialmente eu. — Por que não? Emily desviou os olhos dos dele por um instante, e Scott não soube o que fazer. Mas, finalmente, ela o encarou novamente e forçou um sorriso, lutando contra as lágrimas que ameaçavam vencer a barreira do controle. — Tenho uma confissão a fazer. — O que é? — Espero que não interprete mal o que vou dizer. — Ela segurava o copo com tanta força que poderia quebrá-lo. — Sou apaixonada por você há tanto tempo, que nem consigo me lembrar de quando tudo começou. Apesar de Emily ter feito a mesma revelação na noite anterior, ainda era complicado ouvi-la. — Sempre sonhei com uma situação de... intimidade. Meus sonhos eram pequenos comparados ao que vivemos. Foi muito melhor, mais completo e maravilhoso. Mas... — Mas? — Céus, Scott. Será que não entende? Foi uma paixão! Um sentimento adolescente transportado para a vida adulta e alimentado durante muitos anos. Eu o amo como amigo. Pode compreender o que estou dizendo? Ele se encostou na cadeira. Amigos? Então era só isso? Até aquele momento, nem havia se dado conta de que imaginara muito mais do que uma simples amizade. Oh, não! Emily mudara diante de seus olhos na noite anterior. Havia algo muito maior entre eles. Não saberia identificar o

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh que era, mas podia afirmar com certeza que não se tratava de uma simples amizade. — Não estou entendendo. Pensei que... — Eu sei o que vai dizer. Também pensei a mesma coisa. Mas a luz do dia trouxe a nitidez da realidade, e então me dei conta de que não vamos acabar juntos. Não ficaríamos juntos nem que você vivesse aqui para sempre. — Por que não? Ela apertou os lábios por um instante. Depois suspirou. — Scott, quero me casar. Quero ter filhos. E quero fazer tudo isso com alguém que goste deste lugar tanto quanto eu. Quero uma vida simples e pacata, e isso é algo que você não pode me oferecer. — Não sabemos disso. Quem pode prever o futuro? — Ninguém. Mas sabemos que o estou dizendo é verdade. Você sabe. Scott suspirou. — Então é isso? Chegou o momento de dizermos adeus? — Oh, não é tão dramático quanto está sugerindo! Continuaremos conversando pelo telefone, você virá me visitar... Eu o verei pela televisão. Quem sabe? Talvez possa até aprender a gostar de futebol. Ele sorriu e soube que sua expressão era um reflexo da dela. Triste. Muito triste. — Vou sentir sua falta, Em. — Também sentirei a sua. Ele se levantou e estendeu as mãos. Emily segurou-as e levantou-se. Scott encarou-a, tentando registrar na memória todos os detalhes daquele rosto, dos olhos castanhos e expressivos e dos lábios tentadores. Depois beijou-a, memorizando também seu sabor. Sentindo uma dor tão profunda que nem podia explicá-la. Ela se virou. E soltou suas mãos. — Odeio parecer fria, mas tenho provas para corrigir. — Certo. — Sabia que era mentira. Mas também sabia que era inútil prolongar o sofrimento da despedida. Tinha de ir embora. — Não precisa me acompanhar até a porta. — Obrigada! — ela exclamou aliviada, o que o fez sentir-se mil vezes pior. Scott hesitou. Como gostaria de não ter de partir! Como desejava que ela não houvesse facilitado tanto sua partida. — Adeus, Em. Ela assentiu, mas não levantou a cabeça para encará-lo. — Em... — Vá de uma vez, Scott. Por favor. Ele tocou seu braço com a ponta dos dedos. Depois saiu da cozinha. Do apartamento. De sua vida. Emily sentou-se. As lágrimas corriam livres por seu rosto enquanto tentava lembrar como devia respirar. A mentira pesava dolorosa e opressora em seu peito, como uma ferida que nunca mais se fecharia. Queria correr atrás dele, confessar seu amor, implorar para que ficasse. Queria gritar ao mundo que o amava com todas as forças do coração e da alma. Queria prometer amor eterno, porque sabia que essa seria uma promessa fácil de cumprir. Nada jamais havia doído tanto. Nada. Parecia impossível conviver com uma dor tão

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh profunda. Como o tempo poderia continuar passando? Como a lua permaneceria no céu? Como seguiria respirando? Realizara seu desejo. Tivera uma noite de amor com Scott Dillon. Como uma personagem saída dos Contos de Grimm, agora estava sozinha com sua dor. Com o arrependimento. Tome cuidado com o que pede em suas orações, porque elas podem ser atendidas. Fora atendida. E atingida. Ali estava uma situação que As Amigas não podiam resolver. Ninguém podia. Era um rompimento crítico, um marco fundamental. Nada voltaria a ser como antes. Nunca mais. — Pensei que estivesse de partida. Scott assentiu. — E estou. Viajo amanhã. — Ah. Não quer entrar? Ele passou por Hope e, mais uma vez, penetrou em sua surpreendente sala de estar. Sentiu um aroma exótico e, olhando em volta, viu o incenso queimando na boca de um dragão de porcelana. Quando se sentou, ainda não sabia o que ia dizer. — O que está acontecendo? — ela perguntou, acomodando-se na poltrona futon. Sua roupa contrastava com a decoração do aposento. Jeans velho e desbotado, uma camiseta branca masculina, pés descalços, rosto desprovido de maquiagem. Parecia tão jovem! Como nos tempos do ginásio. — Eu... queria saber se esteve conversando com Emily. Ela balançou a cabeça. — Não. Só tenho conversado com a secretária eletrônica de Emily. Estive na casa dela ontem à noite, mas não a encontrei. — Ah... — Já se despediram? — Sim, mas... — O que foi? — Não sei. Algo não está certo. Não consigo deixar de pensar que estou perdendo algo importante. — Vou lhe dizer uma coisa, Scott, meu velho. Você pode ser incapaz de resolver o enigma e montar o quebra-cabeça, mas certamente sabe reconhecer suas falhas. — Devo agradecer pelo elogio? — Ainda não. Mas, depois de ouvir o que tenho a dizer, talvez queira me agradecer. Ele se inclinou pára a frente. Tinha medo do que estava prestes a ouvir. — Emily gosta de você — Hope começou com tom compenetrado, colocando uma ênfase estranha na segunda palavra. — Eu sei. Já conversamos sobre esse assunto. Ela falou da paixão que sentiu por mim na adolescência e sobre como conseguiu transportá-la para a vida adulta, mas, depois da noite passada, Emily concluiu que devemos ser apenas amigos. E eu respeito sua decisão. Realmente. Mas algo não está certo.

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh Hope fez um movimento afirmativo com a cabeça. — Algumas pessoas podem pensar que ela está mentindo. Não que eu esteja afirmando alguma coisa... — Mentindo? Por que Emily mentiria para mim? — Preste atenção, Scott. Ela gosta de você. Portanto, ela quer o que é melhor para você. Scott refletiu por alguns instantes, e de repente tudo se tornou muito claro. — Ela quer facilitar minha partida. — Três pontos e um prêmio extra para o cavalheiro aqui! — O que devo fazer? A expressão dela tornou-se ainda mais séria. — Essa é uma resposta que vai ter de encontrar sozinho. Emily quer que você vá embora de Sheridan porque tem medo de ser culpada por sua frustração no futuro. Ela não quer que haja ressentimentos entre vocês. — Eu jamais me ressentiria contra Emily ou a acusaria de qualquer coisa. — Não? — Oh, céus... Não sei. Honestamente, não tenho certeza de mais nada. — Acho que você deve ir a Connecticut — Hope opinou. — Talvez encontre as respostas quando estiver longe daqui. — Não quero magoá-la. — Eu sei. E ela também não quer que você sofra. — Como as coisas se tornaram tão complicadas? Ela encolheu os ombros. — Não sei. Tudo isso me deixa muito confusa. — Você está confusa? Não acredito! Ela sorriu. — Então meu plano deu certo! — Hope, você é única! — Você também não é dos piores. Oh, há algo que quero lhe contar. — O que é? — Encontrei Cathy há algumas noites. Scott segurou a cabeça entre as mãos e gemeu. — Não se preocupe. Ela não estava devastada. Talvez seu orgulho tenha sofrido um golpe, mas Cathy está se recuperando rapidamente. — O que quer dizer com isso? — Ela estava com Bud Fargo, e eles pareciam muito... animados, se quer saber minha opinião. — Bud Fargo. Sim, é claro. Eu me lembro dele. Um sujeito simpático, trabalhador... — Cathy também parece ter descoberto suas qualidades. — Que bom. Fico feliz por saber que ela está bem. — Eu sabia que ficaria. — E você, Hope? Não há ninguém especial em sua vida? — Não. O último homem que me convidou para sair foi Phil Homes. . — Quem?

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh — Você o conhece. Ele é zagueiro do time titular da escola. — Phil Homes... da equipe de futebol? — Exatamente. Ele pensou que eu fosse aluna do ginásio. Scott levantou-se rindo. — Quem quer a descubra, certamente será um homem de sorte. — E você é um sedutor incorrigível — ela respondeu enquanto se levantava para acompanhá-lo até a porta. — Espero que tudo dê certo entre você é Emily, Scott inclinou-se para beijá-la no rosto. — Você tem sido uma grande amiga. — E continuarei sendo. Se precisar de mim, telefone. Farei o que puder para ajudálo. Mas, lembre-se, Emily é minha prioridade. Desculpe, mas não posso mentir. — É bom saber que ela pode contar com você. — Sim, sim... E o que todos dizem. Scott riu, compreendendo que as palavras de Hope eram mais uma de suas brincadeiras. — Eu entrarei em contato. Hope fechou a porta depois de despedir-se, mas Scott não foi para o carro imediatamente. Se ela estivesse certa, Emily o amava. Era tentador acreditar nessa possibilidade. Mas não podia. Se fosse verdade, teria de ouvir as palavras da própria Emily. E precisava olhar em seus olhos quando ela as pronunciasse. A questão era: também a amava? O que estava acontecendo com ele, se não era amor? Por isso gostava tanto de futebol. Chutar a bola, driblar o aniversário, acertar o gol... Era tudo muito simples. E não havia nada de simples em Emily. Absolutamente nada.

CAPÍTULO XVI Emily pegou todos os álbuns de fotografias do ginásio e levou-os para o sofá. Boo já estava lá e miou, indicando que ela tinha sua permissão para sentar-se. É claro que havia algumas condições. Teria de afagar seu pêlo macio por um bom tempo antes de passar à ação seguinte. Finalmente o gato ficou satisfeito, e ela abriu o primeiro álbum. Quinta série. Que ano estranho havia sido aquele. Desabrochara muito tarde em comparação com as outras garotas, mas, quando a transformação ocorrera, havia sido de forma dramática. Durante boa parte do ano, caminhara pela escola com os livros apertados contra o peito, tentando esconder a evidência do amadurecimento. Nenhuma das outras amigas possuíam seios tão grandes quanto os dela. Nem mesmo Zoey. Oh, céus, lá estava Hope. A foto cândida havia sido feita no pátio, sob uma árvore frondosa. Nela, Hope exibia orgulhosa sua fase militar. Usando roupas camufladas e um corte de cabelo radical, ela parecia uma jovem rebelde e independente. E, mesmo assim, dava a impressão de ser muito mais jovem do que realmente era. Emily virou a página e deparou-se com um retrato que havia esquecido por

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh completo. As Amigas em toda sua glória. Ela, rechonchuda, tímida, tentando esconder-se atrás de Lily. Samantha, tão linda e sem nenhuma consciência da própria beleza. Hope e seu corte de cabelo radical, sempre tentando aparentar mais idade. Zoey e seus cachos rebeldes, o sorriso prateado por conta dos aparelhos. Júlia. A imagem da perfeição. Fotogênica, esguia, charmosa, porém triste. Depois de todos aqueles anos, Emily ainda não conhecia a razão daquele ar sempre tão deprimido. De todas, Júlia era a mais reservada. E não podia esquecer Lily, a expansiva. Com os braços abertos e o sorriso radiante, ela usava uma saia tão curta que devia ter sido proibida como atentado ao pudor. Emily sorriu e continuou estudando os rostos na página, analisando aquela maravilhosa fatia de sua história pessoal. Haviam conseguido. Permaneceram próximas e unidas durante todos aqueles anos. Amava as amigas como se fossem suas irmãs. Suspirando, ela virou a página. Lá estava ele. O retrato ocupava mais da metade do espaço disponível. Scott. Oh, mesmo naquela época ele havia sido fascinante. Especialmente quando usava o uniforme do time de futebol e mantinha os ombros erguidos naquela postura orgulhosa, quase arrogante. O sorriso era a imagem da confiança, e os cabelos eram longos e rebeldes. Sonhara com ele daquele jeito por muito tempo. Todas as noites, abria o álbum antes de ir dormir a fim de registrar a imagem na mente. Mais tarde substituíra aquele retrato por outro feito na sexta série. Mas aquilo era passado. E tinha de viver o presente. Scott havia partido em busca de novas e importantes conquistas, de realizações mais concretas e duradouras. Não perderia tempo pensando na garota que havia conhecido no ginásio. Sim, a noite que haviam passado juntos fora espetacular, mas Scott não era o tipo de homem que vivia no passado. Ele sempre olhava para a frente. E era justamente isso que devia fazer. Precisava vislumbrar um futuro para si mesma, um tempo que não incluiria a presença de Scott Dillon. Embora não pudesse imaginá-lo de imediato, sabia que o tempo seria seu grande aliado nessa empreitada. Tudo que precisava fazer era sobreviver até lá. E parar de pensar nele! Os olhos recaíram sobre o retrato do jovem no uniforme de futebol. Sim, é claro. Não pensaria mais nele. Scott andava pelo quarto de hotel como um animal confinado em uma jaula. Da janela para a porta, da porta de volta à janela... Devia telefonar novamente? Não. Esperaria até ter algo de concreto para contar. Aproximou-se do frigobar e estendeu a mão para uma lata de cerveja, mas desistiu antes de pegá-la. Não queria saber de bebidas alcoólicas. Castanhas, talvez? Não. Chocolate? Ele bateu a porta do pequeno refrigerador, pegou o controle remoto e ligou a televisão. Sintonizou a ESPN para assistir ao "Sports Center" e, sentado na cama, ficou olhando para a tela tentando concentrar-se. Era inútil. Pensou na entrevista que faria no dia seguinte. A segunda em dois dias. Dessa vez iria conversar com o chefão. Mas nem isso conseguia prender sua atenção. Emily era o foco de seus pensamentos. Não conseguia tirá-la da cabeça nem por dez minutos. Ouvia o eco de sua voz, sentia seu perfume em cada mulher por quem passava, e tinha sempre a impressão de tê-la visto de

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh longe. No aeroporto, no restaurante, no saguão do hotel... O que faria com relação a esse assunto? Emily... Não era justo. Não precisava disso agora. Não com tantas coisas em jogo. Mas, cada vez que tentava bani-la da mente, ela sempre voltava. Algo havia acontecido entre eles. E não havia sido nada parecido com suas experiências anteriores. Hope havia sugerido... Oh, céus! Estava encrencado. Muito encrencado. Devia telefonar para ela outra vez? A semana se arrastava e Emily ia conseguindo sobreviver a cada novo dia. Apesar do sofrimento e da dor no coração, foi à academia quatro vezes, comeu saladas variadas e bebeu oito copos de água todos os dias. Cuidou da pele aplicando esfoliante, fez as unhas dos pés, lembrou-se de aplicar o protetor solar todas as manhãs, e até telefonou para a mãe duas vezes. Mas era cada vez mais difícil lembrar por que tomava tantos cuidados. Scott havia telefonado do hotel onde se hospedara em Connecticut, mas a conversa havia sido breve e estranha. Ele estava nervoso com a entrevista que faria em seguida, e Emily não quisera demonstrar que estava deprimida e abalada com sua ausência. Longos períodos de silêncio haviam marcado o diálogo rápido, algo que nunca acontecera entre eles antes. Havia sido ela quem determinara o momento de despedir-se. Não tivera escolha. Ou interrompia a conversa, ou acabaria desmoronando e arrumando tudo... e essa era a última coisa que desejava fazer. Especialmente na véspera da grande entrevista com o chefão da ESPN. A um passo da grande chance de Scott. Lily, Hope e Júlia haviam sido grandes companheiras. Não a deixavam sozinha por muito tempo, sempre por perto oferecendo um ombro amigo, uma palavra de consolo ou reforçando a propriedade da decisão que tomara. Zoey e Sam telefonavam todos os dias para saber como estava e marcarem presença. Apesar de tudo, não sentia a menor vontade de sair naquela noite. Um jogo de futebol no ginásio local era a última coisa de que precisava. Tudo a levaria a pensar no que havia perdido. A multidão cheia de casais apaixonados. A banda desafinada. Até o vendedor de cachorro-quente. Preferia ficar em casa, cercada por delícias proibidas, coisas como as maravilhosas trufas de chocolate e café da Ben & Jerry e alguns biscoitos recheados. Assistiria a um filme antigo e depois dormiria. Não era pedir demais, certo? Uma única noite. Os olhos se fecharam quando ela se deu conta do que pensava. Na última vez em que desejara uma noite, acabara encontrando muito mais do que havia imaginado. Deus, como sentia falta dele! O projeto de estágio no mercado já havia deslanchado com uma produtiva reunião de planejamento na quarta-feira. Bobby Knight havia assumido a tarefa de ensinar as funções aos novos estagiários. Emily ficara surpresa ao descobrir que Gretchen Foley era uma das inscritas para as vagas do projeto. Gretchen não parecia ser o tipo de garota que se interessaria por uma sacola com alimentos. Mas muitos alunos queriam participar, meninos e meninas. Emily compreendia a aceitação geral. Em uma cidade onde o estado geral de coisas permanecia inalterado por décadas, qualquer novidade era sempre bem-vista e disputada. O direito de trabalhar no mercado de Scott Dillon, ex-astro do futebol e comentarista esportivo da ESPN, seria suficiente para mudar

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh a posição social de alguns alunos menos populares. Mas a reunião fora especialmente difícil para Emily. Todos pareciam pronunciar o nome de Scott dezenas de vezes por minuto. Rumores sugeriam que eleja havia encontrado uma famosa modelo em Connecticut. Sara Wilding, funcionária do mercado, contara que ele recebera dezenas de telefonemas de Hollywood, todos de mulheres. Emily havia sorrido de todos os comentários. Em nenhum momento deixara transparecer a tristeza e o desespero. Mas não havia conseguido dormir naquela noite. Ou na noite seguinte. Estava cansada e estressada. Queria ficar em casa sem fazer nada, sem pensar em nada e, principalmente, sem sentir nada. O telefone tocou. Emily suspirou resignada antes de pegar o aparelho. — Sim, Lily? — disse sem rodeios, interrompendo a introdução da amiga. — Já estou me vestindo. — Ótimo, porque estou saindo de casa neste momento. — Tem certeza de que não prefere comer pipocas e assistir a um filme qualquer? O que acha de The Way We Were? — Maravilhoso, mas não esta noite. — Entendo. Bem, se tem certeza disso... — Eu sempre tenho certeza do que digo — Lily respondeu com aquele tom pretensioso. — Eu sei. — Que bom. Alguém acredita em mim. O tom de voz de Lily havia mudado. Havia cansaço e tristeza em suas palavras, e Emily soube no mesmo instante que ele enfrentava problemas com o emprego, o filho e a vida .em geral. Era como se tudo conspirasse contra ela. — Problemas? — perguntou. — Sempre. Mas pelo menos posso fingir que estou no comando da situação. — Teve um dia difícil, não é? — Nem queira saber. , — Escute, vamos deixar a conversa para mais tarde, certo? Quando estivermos juntas. — Boa idéia. Trate de trocar a roupa que está usando por algo sexy. Emily estava rindo quando desligou o telefone. Havia escolhido a roupa que vestiria naquela noite, uma camiseta enorme e confortável e uma velha calça jeans. As Amigas a conheciam bem demais. Tinha de fazer alguma coisa sobre isso. Mas não naquela noite. De repente sentia necessidade de agarrar-se a todos os velhos confortos que pudesse encontrar. Emily perdeu o interesse pelo jogo trinta segundos depois de ouvir o apito inicial. Os olhos passeavam pela platéia enquanto o Tigers se lançava em seu primeiro ataque. Conhecia noventa por cento dos garotos sentados nos bancos do campo. Ou eram Seus alunos, ou tinham irmãos em sua sala de aula, ou eram filhos de amigos e conhecidos. De repente tentou imaginar como seria viver em uma cidade grande. Caminhar pelas ruas sem ser reconhecida, sem se importar com a opinião dos vizinhos e seus comentários. Na verdade, nunca se preocupara com os vizinhos. Mas, por alguma razão, tinha a incômoda sensação de que, dessa vez, sua tragédia privada tornara-se pública. Todos olhavam

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh para ela. Mas Emily não correspondia a nenhum desses olhares. E sempre que tentava sustentar um deles, a pessoa em questão virava a cabeça. E não havia acontecido uma ou duas vezes, mas vinte... Talvez trinta vezes. Era muito estranho. — Lily? — O que é? — Tenho mesmo de ficar até o fim do jogo? — Sim. — Por quê? — Porque eu amo futebol e você me ama. Emily chutou a própria bolsa, virando-a no chão. Seu batom caiu e rolou pela arquibancada para baixo das cadeiras. Suspirando, ela se ajoelhou diante do assento que ocupava e tentou encontrar o pequeno tubo preto. Ele havia ido mais longe do que imaginava, dois degraus abaixo de onde estava. Mas, se esticasse o corpo e o braço... A mão buscou o espaço vazio sob os bancos da frente, e ela se esticou o máximo possível, mudando de posição para tentar ir mais longe. O homem sentado ao lado dela moveu um pé. A mulher do outro lado também levantou um pé. E então um braço masculino surgiu do nada e resgatou seu tubo de batom. Os olhos de Emily subiram lentamente das botas até o meio das canelas, o estômago oprimido por um estranho pressentimento. A excitação que ameaçava dominá-la era tão intensa, que quase perdeu o equilíbrio. As pernas escondidas na calça jeans eram tão longas, que ela teve de sentar-se para poder enxergar o rosto do homem em questão. A camisa pólo era azul e cobria ombros tão largos que só podiam pertencer a uma pessoa. Só então ela percebeu que todos que a cercavam haviam ficado muito quietos. O silêncio aumentou a consciência das batidas de seu coração. Ele estendeu a mão e Emily aceitou-a, deixando-se erguer pela força do braço musculoso. — Olá — ele disse, a voz baixa e íntima, apesar da multidão que os cercava. — Olá. — Tem um minuto? Emily respondeu com um movimento afirmativo de cabeça. Ou pelo menos acreditava ter feito o movimento. Ele se inclinou para a esquerda. — Prometo trazê-la de volta daqui a pouco. — Não se apressem por mim — respondeu Lily. Scott a puxou pela mão e os dois foram caminhando pela arquibancada, tropeçando em pés e latas de refrigerante até alcançarem a escada. Emily mal podia acreditar no que estava vivendo. Era ele. Scott voltara. Teria sido recusado para o emprego de comentarista esportivo na emissora de televisão? Sentia-se culpada pela felicidade que a inundava, pelo egoísmo que a levava a desejar nunca mais soltar sua mão. Chegaram ao piso mais baixo do estádio. Scott continuou segurando a mão dela, puxando-a para a saída do campo, para o prédio da escola. Os alunos se afastavam ao vê-los, abrindo caminho e sorrindo para ela como se compartilhassem de sua esperança e da excitação que a dominava. Finalmente alcançaram o pátio, um espaço aberto entre quatro edifícios onde Emily

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh havia comido seu lanche centenas de vezes, de onde seguira aquele homem com os olhos sonhando com coisas que jamais imaginara poder realizar. Ele a levou para perto do velho carvalho e esperou que ela se sentasse no banco de madeira. Depois sentou-se a seu lado, os olhos fixos nos dela. — Você voltou — Emily comentou com um fio de voz. Queria dizer mais, mas não encontrava as palavras. Scott assentiu. — Tenho novidades. — Ah... É mesmo? Os lábios distenderam-se num sorriso triunfante. — Eu consegui. Conquistei a vaga na ESPN. Emily sentiu o coração parar de bater. Oh, Deus! Como fora tola e ingênua. Que bobagem pensar que... Scott não estava ali para dizer que a amava, mas para despedirse de uma vez por todas. Era hora do último adeus. — Mas não é só isso. Ela sorriu, embora tivesse a sensação de que sua expressão era mais trágica do que feliz. Não queria que ele soubesse que a estava matando. Scott não tinha culpa de nada. Ela era a única culpada. O sonho se transformara em um pesadelo e... — Eu recusei o emprego. Emily engoliu em seco. De repente a boca estava seca com um deserto inóspito. — Acho que não ouvi bem. O que foi que disse? — Eu recusei o emprego — ele repetiu. — Mas... por quê? — Porque recebi uma proposta melhor. Não fazia sentido. Ou talvez fizesse, e ela não conseguia compreender o significado das palavras. — Da ESPN? — Não. — Então não... Não... Ele riu. Relaxado, inclinou-se para a frente, segurou-a pelos ombros e beijou-a. Beijou-a sem pressa e com todo o ardor, e Emily teve certeza de que nunca havia experimentado algo melhor em toda sua vida. Quando ele finalmente levantou a cabeça, os dedos buscaram seu rosto. O polegar capturou uma lágrima. E ela nem havia percebido que estava chorando. — A proposta que recebi é irrecusável, e por isso já a aceitei. Sou o novo treinador do Ginásio Sheridan. — O quê? Do nosso Ginásio Sheridan? — Exatamente. Vou trabalhar a trinta minutos de casa, se houver muito trânsito. — Mas... — Mas... Essa proposta só será perfeita se você disser sim. — Sim para o quê? — Para o que você acha? Emily piscou. Duas vezes. Abriu a boca. Fechou-a. — Amo você. Não sei por que levei tanto tempo para me dar conta do que sinto,

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh mas felizmente enxerguei a realidade. Amo você, Emily. Amo esta cidade. E quero lecionar, quero treinar os garotos como fui treinado naquele mesmo estádio. Mas, acima de tudo, quero dormir com você todas as noites e acordar a seu lado todas as manhãs. Quero ter filhos com você. Muitos filhos. Quero envelhecer segurando sua mão, sentindo seu perfume e ouvindo sua voz. Emily tentou respirar, mas o nó em sua garganta ameaçava sufocá-la. Tocou o rosto dele com dedos trêmulos, certificando-se de que ele estava mesmo ali, de que não era um sonho ou uma alucinação. A pele sob sua mão era quente. E quando se inclinou para beijá-lo, a boca encontrou lábios úmidos e macios. — E então? Vai me manter neste suspense até quando? — ele sussurrou, os lábios muito próximos dos dela. — Devia puni-lo, mas não tenho coragem para tanto. — Quer dizer que aceita meu pedido de casamento? Aceita ser minha, esposa? — Sim, Scott. Eu quero me casar com você. Ele se levantou, segurando suas mãos para levá-la também. Dessa vez o beijo não foi gentil, mas apaixonado e quente, cheio de promessas maravilhosas de noites de prazer e dias de muitas alegrias. Os braços enlaçaram sua cintura e ele a tirou do chão, beijando-a enquanto girava em torno de si mesmo. Scott nem precisou usar de muita força, porque Emily estava flutuando de felicidade. Scott Dillon a amava! E ela também o amava. Era tudo com que sempre sonhara. Tudo que havia esperado. Mas... Ela afastou a cabeça para encará-lo. — Tem certeza de que é isso que quer? Não vai se arrepender mais tarde por ter recusado o emprego na ESPN? Ele a pôs no chão e manteve os olhos fixos nos dela. — Nunca tive tanta certeza de outra coisa em toda minha vida. Estou encantado com a idéia de ser treinador. Sei que a realização profissional será muito maior do que aquela que eu teria encontrado na tevê. Agora posso tentar mudar a vida de algumas pessoas. — Você vai ser um treinador maravilhoso. — E quero ser um marido maravilhoso. Meu Deus... — Scott balançou a cabeça. — Devia ter percebido há anos que este era o verdadeiro sentido de minha vida. — Não. Tudo acontece quando deve acontecer. Este é o momento certo, Scott. — Tem razão. Com você, tudo é perfeito.

EPÍLOGO Cinco meses mais tarde... Scott Dillon, aceita Emily Proctor como sua legítima esposa e promete amá-la e respeitá-la na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, por todos os dias de sua vida? Emily conteve o fôlego enquanto esperava pela resposta. — Sim. A maneira como ele a olhava fazia com que se sentisse a maior felizarda dentre

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh todas as mulheres. — Emily Proctor, aceita Scott Dillon como seu legítimo esposo e promete amá-lo e respeitá-lo na... — Sim — ela respondeu, sem esperar pelas últimas palavras do ministro. Sempre pertencera a Scott. Desde o dia em que o conhecera, e mesmo mais tarde, quando ele partira para cursar a universidade e integrar um time profissional. Havia sido dele. E agora ele também era dela. Emily olhou para as damas de honra. Hope, Lily, Sam, Zoey e Júlia, todas em seus vestidos cor-de-rosa, todas arruinando a maquiagem com suas lágrimas de felicidade. As Amigas haviam conseguido. Permaneceram unidas e a ajudaram a conquistar seu melhor momento. Haveria no mundo mulher mais feliz que ela? O pensamento levou-a a olhar para o homem que amava. Enquanto o ministro proferia a bênção final, Scott sorriu para ela com um amor muito maior do que qualquer ser humano podia esperar de outro. — Eu os declaro marido e mulher. O noivo pode beijar a noiva. Scott inclinou-se e ela o encontrou no meio do caminho. O beijo foi apaixonado e, ao mesmo tempo, suave, cheio de ternura. Era isso. O momento mais perfeito de sua vida. — Obrigado — Scott sussurrou com os lábios roçando os dela. — Por quê? — Por me amar. Hope bebeu um gole do champanhe e olhou para o lindo bolo de casamento. Emily e Scott, casados há três horas, preparavam-se para cortar a primeira fatia. Lágrimas inundaram seus olhos mais uma vez. Tentou contê-las. Não fizera nada além de chorar durante todo o dia. Mas não podia controlar-se. E, olhando para As Amigas, notou que elas enfrentavam o mesmo problema. Era tudo tão... perfeito! — Não posso me conter — Lily murmurou. — Sei o que está sentindo — Hope respondeu no mesmo tom. — Consegue acreditar que nós construímos este momento juntas? Júlia balançou a cabeça. — Fico imaginando... — O quê? — Lily quis saber. — Se seremos capazes de fazer tudo de novo. Hope riu. Mas não por muito tempo. A risada perdeu força quando ela percebeu que Lily, Zoey, Sam e Júlia olhavam para ela. — Ei, esperem um minuto... — É você quem vive reclamando por não ter um namorado, um companheiro em sua vida — Zoey lembrou. — E sobre como é impossível encontrar um homem decente em Sheridan — completou Lily. — Não. — Hope deixou a taça de champanhe sobre a mesa mais próxima. — De jeito nenhum. Estou falando sério. Não vou permitir que se aproximem de minha vida amorosa, suas... malucas! . Zoey riu. Júlia sorriu. Lily assentiu. — Relaxe — Sam aconselhou-a. — Não vai doer nada. Pergunte a Emily.

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Julia Es. De Férias 43.1 – Uma Razão para Ficar – Jô Leigh Todas olharam para o feliz casal. O bolo havia sido cortado, uma fatia que fora deixada no prato entre eles. A mão de Scott estava a meio caminho da boca da esposa. Mas, em algum momento entre cortar o bolo e colocar um pedaço dele na boca de Emily, ele se perdera em seus olhos. Zoey choramingou. — Se Hope não quiser ser a próxima, eu quero. Júlia balançou a cabeça. — Esqueça. Eu sou a próxima. — De jeito nenhum. Já estou na fila — anunciou Lily. — Tenho um filho para criar. — Mas eu sou a mais velha — apontou Sam. — Tenho o direito de ser a próxima. Hope olhou para as amigas. — Vamos decidir à moda antiga. Pegando o buquê. Uma a uma, As Amigas aceitaram a proposta. Pacientes, todas esperaram que Hope terminasse de beijar o marido e deixasse o prato sobre a mesa. Então ela se dirigiu à escada com o buquê nas mãos. As amigas a seguiram, tentando manter um ritmo calmo. Finalmente, Emily parou no quinto degrau. Ela se virou de : costas para o grupo. E então jogou o buquê sobre o ombro direito. Todas mergulharam para as flores. Mas só uma delas conseguiu pegá-las...

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[JO LEIGH] UMA RAZÃO PARA FICAR

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