3. AS PERDAS NA CONSTRUÇÃO CIVIL

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AS PERDAS NA CONSTRUÇÃO CIVIL: CONCEITOS, CLASSIFICAÇÕES E SEU PAPEL NA MELHORIA DO SETOR Carlos T. Formoso,

Engo

Civil, Ph.D., Professor e Pesquisador do

NORIE/UFRGS

Cláudia M. De Cesare,

Enga

Civil, M.Sc., Doutoranda

pela Universidade de Salford, Grã

Bretanha

Elvira M. V. Lantelme, Enga Civil, M.Sc., Pesquisadora do NORIE/UFRGS Lucio Soibelman, Engo Civil, M.Sc., Doutorando pelo MIT, Estados Unidos Núcleo Orientado para a Inovação da Edificação (NORIE) Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Av. Osvaldo Aranha 99, 3o andar CEP 90035-190 Porto Alegre - RS Tel. (051) 228 1633 R. 3518 Fax (051) 227 1807 E-mail: [email protected]

RESUMO Muito se discute sobre as perdas de materiais na construção civil. Os poucos estudos aprofundados sobre o tema realizados no Brasil até o momento indicam percentuais de perdas de alguns materiais bastante elevados. A divulgação de tais resultados tem provocado a reação de alguns segmentos da indústria preocupados em preservar a imagem do setor. O presente artigo tem como objetivo discutir dois pontos fundamentais relacionados ao tema. Em primeiro lugar, questiona-se o conceito de perdas tradicionalmente adotado na construção civil, fortemente focado nas chamadas atividades de conversão. Embora os desperdícios de materiais sejam a expressão mais concreta das perdas do setor, é importante encará-las segundo um enfoque mais amplo, a exemplo do que ocorre há bastante tempo na Engenharia de Produção. Em segundo lugar, discute-se a necessidade de conscientização por parte do setor sobre o papel dos indicadores de perdas no seu desenvolvimento. O esforço de medição do desempenho dos processos produtivos de forma clara, associada à identificação das causas reais dos problemas, constitui-se num dos pontos essenciais para a melhoria da qualidade e produtividade segundo as modernas filosofias gerenciais. Os conceitos e dados apresentados neste artigo foram extraídos de vários estudos desenvolvidos por pesquisadores do NORIE/UFRGS ao longo dos últimos quatro anos.

1. CONCEITO DE PERDAS O conceito de perdas na construção civil é, com freqüência, associado unicamente aos desperdícios de materiais. No entanto, as perdas estendem-se além deste conceito e devem ser entendidas como qualquer ineficiência que se reflita no uso de equipamentos, materiais, mão de obra e capital em quantidades superiores àquelas necessárias à produção da edificação. Neste caso, as perdas englobam tanto a ocorrência de desperdícios de materiais quanto a execução de tarefas desnecessárias que geram custos adicionais e não agregam valor. Tais perdas são conseqüência de um processo de baixa qualidade, que traz como resultado não só uma elevação de custos, mas também um produto final de qualidade deficiente. Para a melhor compreensão deste conceito, deve-se conhecer a natureza das atividades que compõem o processo de produção. Um processo pode ser entendido como um fluxo de materiais e informações desde a matéria prima até o produto final. Neste fluxo, os materiais são processados, inspecionados, movimentados ou estão em espera. Assim, as atividades componentes de um processo podem ser classificadas em duas principais categorias (Figura 1.1): (a) Atividades de conversão: envolvem o processamento dos materiais em produtos acabados. (b) Atividades de fluxo: relacionam-se às tarefas de inspeção, movimento e espera dos materiais.

São as atividades de conversão que normalmente agregam valor ao produto, ou seja, transformam as matérias primas ou componentes nos produtos requeridos pelos clientes. Entretanto, nem toda a atividade de conversão agrega valor ao produto. Por exemplo, a necessidade de retrabalho indica que se executou uma atividade de conversão sem agregar valor. As novas filosofias de produção indicam que a eficiência dos processos pode ser melhorada e as suas perdas reduzidas não só através da melhoria da eficiência das atividades de conversão e de fluxo, mas também pela eliminação de algumas das atividades de fluxo (Koskela, 1992). Por exemplo, quando se desenvolve uma inovação tecnológica na construção deve-se eliminar ao máximo a necessidade de atividades de transporte, espera e inspeção de materiais. É óbvio que o princípio da eliminação de atividades de fluxo não deve ser levado ao extremo. Existem diversas atividades que não agregam valor as quais são essenciais à eficiência global dos processos, como, por exemplo, controle dimensional, treinamento da mão de obra, instalação de dispositivos de segurança. Na construção civil, a literatura internacional indica que as atividades que agregam valor correspondem, em média, a um terço do tempo total gasto pela mão de obra, podendo atingir valores da ordem de 55 a 60% apenas para algumas atividades específicas, como a execução de alvenaria. Mesmo na indústria da transformação, valores da ordem de 60% dos tempos gastos em atividades que agregam valor são considerados excepcionalmente altos. Em que pese a sua importância, as atividades de fluxo são freqüentemente negligenciadas no processo nas tarefas de de produção de edificações. Em geral. não são devidamente analisadas orçamento e planejamento e nas iniciativas de melhorias de processo. O esforço para melhoria do desempenho na construção civil deve considerar o conceito mais amplo de perdas, isto é, visar à minimização do dispêndio de quaisquer recursos que não agregam valor ao produto, sejam eles vinculados às atividades de conversão ou fluxo.

movimento

espera

processamento

inspeção

movimento

rejeitos

FIGURA 1.1 - Etapas do processo de produção (Koskela, 1992)

2. CLASSIFICAÇÃO DAS PERDAS Para reduzir as perdas na construção de edificações é necessário conhecer sua natureza e identificar suas principais causas. Com este objetivo, as perdas foram classificadas no presente trabalho de acordo com a possibilidade de serem controladas, sua natureza e sua origem. Os critérios de classificação adotados foram adaptados dos estudos de Shingo (1981) e Skoyles (1987) para a construção civil brasileira.

2.1. As perdas segundo seu controle A Figura 2.1 compara duas situações de um mesmo processo. Na primeira, a perda total, que engloba as atividades que não agregam valor, é elevada. Na situação desejada, melhora-se a eficiência das atividades que agregam valor, elimina-se uma parcela das atividades que não agregam valor, e reduz-se as demais perdas. Contudo, pode-se admitir que existe um nível aceitável de perdas (perda inevitável) que só pode ser reduzido através de uma mudança significativa no patamar de desenvolvimento tecnológico e gerencial da empresa. Considerando este pressuposto, as perdas podem ser classificadas da seguinte forma:

(a) Perdas inevitáveis (ou perda natural): correspondem a um nível aceitável de perdas, que é identificado quando o investimento necessário para sua redução é maior que a economia gerada. O nível de perdas considerado inevitável pode variar de empresa para empresa e mesmo de obra para obra, dentro de uma mesma empresa, dependendo do patamar de desenvolvimento da mesma. (b) Perdas evitáveis: ocorrem quando os custos de ocorrência são substancialmente maiores que os custos de prevenção. São conseqüência de um processo de baixa qualidade, no qual os recursos são empregados inadequadamente. Não se pode afirmar que existe, para cada material, um percentual único de perdas que pode ser considerado inevitável para todo o setor. Existem diversos valores, os quais dependem do nível de desenvolvimento gerencial e tecnológico da empresa. A competitividade da empresa é alcançada na medida que a organização persegue a redução de perdas continuamente.

O u t r a s p e r d a s, i n cl u si ve d e sp e r dí ci o d e ma t e r i a i s

P e r d a t ot al (e vi tá v e l e i n e v it á v e l)

At ivid a d e s q u e n ã o a gr e ga m v a l o r P e r d a (i n e vit á v e l)

At ivi d a d e s q u e a gr e ga m valor

At i vi d a d e s q u e a gr e ga m v a l o r

S I TUAÇ Ã O ATUA L

S I TUAÇ ÃO DE S E J A DA

FIGURA 2.1 - As perdas segundo seu controle

2.2. As perdas segundo sua natureza A classificação adotada neste trabalho partiu do conceito das sete perdas de Shingo (1981), adaptando-o para a construção civil. Nove categorias de perdas são identificadas: (a) Perdas por superprodução: refere-se às perdas que ocorrem devido à produção em quantidades superiores às necessárias, como, por exemplo: produção de argamassa em quantidade superior à necessária para um dia de trabalho, excesso de espessura de lajes de concreto armado. (b) Perdas por substituição: decorrem da utilização de um material de valor ou características de desempenho superiores ao especificado, tais como: utilização de argamassa com traços de maior resistência que a especificada, utilização de tijolos maciços no lugar de blocos cerâmicos furados. (c) Perdas por espera: relacionadas com a sincronização e o nivelamento do fluxos de materiais e as atividades dos trabalhadores. Podem envolver tanto perdas de mão de obra quanto de equipamentos, como, por exemplo, paradas nos serviços originadas por falta de disponibilidade de equipamentos ou de materiais. (d) Perdas por transporte: as perdas por transporte estão associadas ao manuseio excessivo ou inadequado dos materiais e componentes em função de uma má programação das atividades ou de um layout ineficiente, como, por exemplo: tempo excessivo despendido em transporte devido a grandes distâncias entre estoques e o guincho, quebra de materiais devido ao seu duplo manuseio ou ao uso de equipamento de transporte inadequado.

(e) Perdas no processamento em si: têm origem na própria natureza das atividades do processo ou na execução inadequada dos mesmos. Decorrem da falta de procedimentos padronizados e ineficiências nos métodos de trabalho, da falta de treinamento da mão de obra ou de deficiências no detalhamento e construtividade dos projetos. São exemplos deste tipo de perdas: quebra de paredes rebocadas para viabilizar a execução das instalações; quebra manual de blocos devido à falta de meios-blocos. (f) Perdas nos estoques: estão associadas à existência de estoques excessivos, em função da programação inadequada na entrega dos materiais ou de erros na orçamentação, podendo gerar situações de falta de locais adequados para a deposição dos mesmos. Também decorrem da falta de cuidados no armazenamento dos materiais. Podem resultar tanto em perdas de materiais quanto de capital, como por exemplo: custo financeiro dos estoques, deterioração do cimento devido ao armazenamento em contato com o solo e ou em pilhas muito altas. (g) Perdas no movimento: decorrem da realização de movimentos desnecessários por parte dos trabalhadores, durante a execução das suas atividades e podem ser geradas por frentes de trabalho afastadas e de difícil acesso, falta de estudo de layout do canteiro e do posto de trabalho, falta de equipamentos adequados, etc. São exemplos deste tipo de perda: tempo excessivo de movimentação entre postos de trabalho devido à falta de programação de uma seqüência adequada de atividades; esforço excessivo do trabalhador em função de condições ergonômicas desfavoráveis. (h) Perdas pela elaboração de produtos defeituosos: ocorrem quando são fabricados produtos que não atendem aos requisitos de qualidade especificados. Geralmente, originam-se da ausência de integração entre o projeto e a execução, das deficiências do planejamento e controle do processo produtivo; da utilização de materiais defeituosos e da falta de treinamento dos operários. Resultam em retrabalhos ou em redução do desempenho do produto final, como, por exemplo: falhas nas impermeabilizações e pinturas, descolamento de azulejos. (i) Outras: existem ainda tipos de perdas de natureza diferente dos anteriores, tais como roubo, vandalismo, acidentes, etc.

2.3. As perdas segundo sua origem As perdas mencionadas em geral ocorrem e podem ser identificadas durante a etapa de produção. Contudo, sua origem pode estar tanto no próprio processo de produção quanto nos processos que o antecedem como fabricação de materiais, preparação dos recursos humanos, projeto, suprimentos e planejamento (Figura 2.2). O Quadro 2.1 apresenta um conjunto de exemplos de perdas, indicando a sua natureza, origem e momento de incidência.

PROJETO

RECURSOS HUMANOS

Recebimento

Estocagem

Transporte interno

Produção

SUPRIMENTOS PLANEJAMENTO FABRICAÇÃO DE MATERIAIS

FIGURA 2.2 - As perdas segundo seu momento de incidência e sua origem

QUADRO 2.1 - Exemplos de perdas segundo sua natureza, momento de incidência e origem. NATUREZA

EXEMPLO

MOMENTO DE INCIDÊNCIA Produção

ORIGEM

Superprodução

Produção de argamassa em quantidade superior à necessária para um dia de trabalho

Substituição

Utilização de tijolos à vista em paredes a serem rebocadas

Produção

Suprimentos: falta do material em canteiro por falha na programação de compras

Espera

Parada na execução dos serviços por falta de material

Produção

Suprimentos: falha na programação de compras

Transporte

Duplo manuseio

Processamento

Necessidade de refazer uma parede por não atender aos requisitos de controle (nível e prumo)

Estoques

Deterioração do cimento estocado

Movimentos

Tempo excessivo de deslocamento devido às grandes distâncias de entre postos de trabalho no andar

Produção

Gerência da obra: falta de planejamento das seqüência de atividades

Elaboração de produtos defeituosos

Desníveis na estrutura

Produção, Inspeçã o

Projeto: falhas no sistema de fôrmas utilizado

Recebimento, Transporte, Produção

Planejamento: falta de procedimentos de controle

Gerência da obra: falha no planejamento de locais de estocagem

Produção

Planejamento: falhas no sistemas de controle Recursos Humanos: falta de treinamento dos operários Armazenamento Planejamento: falta de procedimentos referentes às condições adequadas de armazenamento

3. O PAPEL DOS ÍNDICES DE PERDAS Os índices de perdas cumprem um importante papel de indicadores de desempenho dos processos produtivos e, como tal, podem ser empregados para diferentes finalidades. A utilização mais comum dada aos índices de perdas de materiais na construção civil tem sido apenas chamar a atenção para o baixo desempenho global do setor construção em termos de qualidade e produtividade. Entretanto, esta não é a principal função dos indicadores de desempenho. Existem outras finalidades, mais construtivas, que possibilitam aos mesmos contribuir de forma efetiva para o desenvolvimento do setor. Em primeiro lugar, um indicador pode ter a função de visibilidade, ou seja, demonstrar o desempenho atual de uma organização, indicando seus pontos fortes ou fracos ou chamando a atenção para suas disfunções. Este tipo de avaliação permite estabelecer prioridades em programas de melhoria da qualidade, indicando os setores da empresa nos quais intervenções são mais importantes ou viáveis. A segunda função de um indicador é o controle de um processo em relação a um padrão estabelecido. A partir da elaboração de um planejamento, o monitoramento de um indicador ao longo do tempo permite avaliar o desempenho do processo, identificando desvios e corrigindo a tempo as causas dos mesmos. Em terceiro lugar, um indicador é um instrumento indispensável para o estabelecimento de metas ao longo de um processo de melhoria contínua, componente indispensável de um programa para melhoria da qualidade. Este tipo de medição visa a identificar as oportunidades de melhorias e verificar o impacto de intervenções no processo. Finalmente, os indicadores de desempenho cumprem um papel de fundamental na motivação das pessoas envolvidas no processo. Sempre que uma melhoria está sendo implantada é importante que um ou mais indicadores de desempenho associados à mesma sejam monitorados e sua evolução amplamente divulgada na organização. Neste sentido, um projeto de melhoria visando à redução de perdas de materiais poderia inclusive ser empregado como um instrumento de marketing interno para um programa da qualidade. Assim, a incidência de perdas deve ser monitorada através de diversos indicadores, os quais podem ou não ser relacionados ao desperdícios de materiais. Entre os diversos indicadores de perdas na construção civil, podem ser citados como exemplos os seguintes: (a) percentual de material adquirido em relação à quantidade teoricamente necessária, (b) espessura média de revestimentos de argamassa, (c) tempo de rotação de estoques, (d) percentual de tempos improdutivos em relação ao tempo total, (e) horas-homem gastas em retrabalho em relação ao consumo total, etc. Cada processo, em geral, necessita de um ou mais indicadores para ter o seu desempenho avaliado. Quando se mede um indicador de perdas é necessário ter valores de referência ou benchmarks para avaliar o desempenho em relação a outras empresas. Neste sentido, ao se divulgar um indicador de perdas, deve-se explicitar claramente o seu significado, isto é, o conceito adotado e o método de cálculo e os critérios de medição uitilizados. É também necessário identificar as causas reais (não as aparentes) dos problemas que resultam em perdas, de forma a atuar de forma corretiva. No próximo item são apresentados, de forma resumida, alguns dos estudos desenvolvidos pelo NORIE que procuraram desenvolver métodos para coletar indicadores, estabelecer valores de referência, identificar as causas das perdas no setor e orientar a sua prevenção.

4. ESTUDOS SOBRE PERDAS DESENVOLVIDOS NO NORIE 4.1. Perdas de materiais em cinco canteiros de obras em Porto Alegre O primeiro estudo realizado pelo NORIE referente às perdas na construção civil iniciou em abril de 1992, através de um convênio promovido pelo Programa de Qualidade e Produtividade da Construção Civil do Rio Grande do Sul (PQPCC/RS), envolvendo, além da UFRGS, o SINDUSCON-RS, o SEBRAE-RS e a CIENTEC. Os principais objetivos desta pesquisa foram levantar a incidência de perdas de materiais na construção de edificações, analisar as principais causas destas ocorrências e propor diretrizes para a implementação de procedimentos de controle de perdas de materiais em empresas de construção. Uma descrição mais detalhada do mesmo pode ser encontrado no trabalho de Soibelman (1993). Como se desejava desenvolver um estudo profundo sobre as causas das perdas, optou-se por limitar

a pesquisa a um pequeno número de obras e a um conjunto limitado de materiais e de tipologias

construtivas. Foram selecionadas cinco obras para o levantamento dos dados, todas localizadas em Porto Alegre - RS. Utilizou-se como critério de escolha das mesmas o emprego de tecnologias tradicionais (estrutura de concreto armado, paredes com tijolos cerâmicos e revestimentos de argamassa) e a necessidade de que as mesmas se encontrassem em estágios semelhantes. É óbvio que o reduzido tamanho da amostra impede que os resultados do estudo possam ser generalizados para todo o setor. A pesquisa, portanto, não teve como objetivo esgotar o assunto, mas pretendia constituir-se em um primeiro estudo mais aprofundado do problema, procurando também incentivar o desenvolvimento de outras pesquisas que pudessem contribuir na composição de dados sobre as perdas de materiais. Tendo como objetivo identificar os insumos mais representativos em termos de custo na construção, analizou-se a curva ABC dos insumos utilizados nos projetos de padrão normal, de quatro, oito e doze pavimentos da NBR-12721 (ABNT, 1992). Foram eliminados os itens referentes a mão-de-obra, bem como os materiais que possuem uma baixa probabilidade de ocorrência de perdas, apesar da sua grande representatividade em termos de custo, tais como elevadores, janelas, portas, fechaduras e outros. Com base nestes critérios, foram escolhidos os seguintes insumos para serem observados: madeiras, aços, concreto pré-misturado, cimento, areia, cal ou argamassa pré-misturada e tijolos cerâmicos, os quais somados representam aproximadamente 20% do custo total de obras construídas por processos construtivos tradicionais. O Quadro 4.1 apresenta uma síntese dos resultados obtidos nos cinco empreendimentos pesquisados. São também apresentados os resultados de trabalhos congêneres, bem como as perdas comumente adotadas pelas composições de custo (perda teórica). Os índices de perdas estão expressos pela diferença, em termos percentuais, entre a quantidade de material adquirida e a quantidade teoricamente necessária, medida no projeto. Os dados apresentados confirmaram uma das hipóteses principais do estudo, ou seja, que as perdas de materiais na construção de edificações são efetivamente maiores do que as normalmente aceitas pela indústria da construção em suas estimativas de custo. Verificou-se que as perdas reais médias dos insumos possuem um grande intervalo de variação e situam-se entre 0.85 e 8 vezes as perdas usuais admitidas. Os índices de perdas encontrados no estudo são também bastante superiores aos valores apontados por Skoyles (1987) na Grã Bretanha. O estudo comprovou também que existe uma grande variação nos índices de perdas em diferentes obras. Levando em conta que canteiros similares apresentaram diferentes níveis de perdas para os mesmos materiais, pode-se concluir que uma parcela considerável destas perdas é possível de ser evitada. O fato de que não foram tomadas medidas relativamente simples de prevenção nas obras pesquisadas indica que existe uma falta de preocupação com as perdas de materiais. Nenhuma das obras pesquisadas possuía uma política definida de administração de materiais, tanto em relação ao seu gerenciamento, como na aplicação de um controle sistemático para a sua utilização. QUADRO 4.1 - Índices de perdas totais nas diferentes obras (%) Material

Obra A

Obra B

Obra C

Aço

18.80

27.30

23.01

Cimento

76.60

45.20

34.31

Concreto

10.80

11.77

17.44

Areia

27.09

29.73

21.05

103.05

87.50

Bl. cerâmico

39.90

Tij. maciço

45.25

Argamassa

Obra D 7.91

Obra E

Média

PINTO (1989)

SKOYLES (1987)

Perda teórica

18.31

19.07

26.19

5.00

12.00

112.70

84.13

33.11

-

15.00

25.16

13.18

1.34

109.81

42.19

45.76

39.02

-

15.00

40.38

152.10

73.24

91.25

101.94

5.00

15.00

8.20

35.96

26.50

-

27.64

8.00

10.00

15.23

20.02

27.28

-

26.94

12.00

10.00

151.86 0.75

12.73

2.00

5.00

Ficou evidente também que melhorias podem ser obtidas sem a introdução de equipamentos caros ou avançadas técnicas gerenciais, mas simplesmente através de cuidados elementares no recebimento, na estocagem, no manuseio, na utilização e na proteção dos materiais. Este fato indica que a redução de

perdas poderia ser facilmente utilizada como ponto focal em programas de melhoria da qualidade em empresas de construção. Concluiu-se também que a falta de interesse em controlar os materiais é uma importante causa de ocorrência de perdas. A magnitude das perdas de materiais não era conhecida pelas próprias empresas, antes da realização do estudo, devido à completa ausência de métodos de levantamento e contabilização de seu uso. A pesquisa mostrou que a mudança na atitude dos envolvidos no processo construtivo é muito mais importante do que mudanças em tecnologias de construção para a obtenção de melhor desempenho das empresas no que se refere à administração de materiais. É fundamental que os envolvidos conscientizem-se do alto valor dos materiais e da necessidade de aplicar medidas de prevenção com relação às perdas. O estudo comprovou que a gerência tem mais responsabilidade pelas perdas que os operários. Estes são, normalmente, considerados pelos empresários da construção como os principais responsáveis pela baixa produtividade, má qualidade e pelo elevado índice de perdas de materiais. Entretanto, observou-se que as deficiências no gerenciamento da obra tinham grande relação com a elevada incidência de perdas de materiais. De uma forma geral, as perdas eram resultado de uma combinação de fatores, e não de incidentes isolados. Muitas perdas originaram-se fora dos canteiros de obras, nas etapas que antecedem a produção, principalmente devido a projetos inadequados ou compras mal efetuadas. Através do estudo dos projetos das cinco obras pesquisadas foi possível concluir que deficiências nas especificações e no detalhamento e, principalmente, a falta de coordenação entre os mesmos são causas de elevadas perdas de materiais. As quebras de tijolos causadas pela falta de meios-tijolos é um exemplo de problema gerado no setor de suprimentos. Da mesma forma que no estudo de Skoyles (1987), houve indicações de que a ocorrência de perdas no canteiro ocorre com mais intensidade durante a armazenagem e o manuseio dos materiais do que durante a produção propriamente dita. Para a determinação do custo das perdas dos materiais pesquisados, utilizou-se a Curva ABC da NBR 12721 (ABNT, 1992) formulada para prédios de 12 pavimentos, três quartos e padrão normal de acabamento. As perdas dos materiais pesquisados representaram, até o momento de encerramento da coleta, um acréscimo de 5,06% (Obra C) a 11,62% (Obra E) em relação aos custos orçados das obras estudadas. O acréscimo médio de 7,98% na expectativa de custo total dos empreendimentos, verificado na pesquisa, é do mesmo nível de grandeza do valor de 6% estimado por Pinto (1989).

4.2. Sistema de indicadores de qualidade e produtividade para a construção civil Em continuidade ao estudo de perdas de materiais, o NORIE criou em 1993 o Sistema de Indicadores de Qualidade e Produtividade para a Construção Civil. A necessidade de criação do Sistema de Indicadores surgiu a partir da carência existente na indústria da construção não somente em relação a índices de perdas, mas também em termos de outros indicadores de desempenho. Poucas empresas mantém um sistema interno de indicadores e mesmo aquelas que o fazem têm dificuldade em avaliar o seu próprio desempenho em relação ao setor, em função da inexistência de valores de referência. Tais problemas foram constatados no próprio estudo de perdas de materiais e também numa pesquisa de opinião relativa às principais dificuldades enfrentadas pelos gerentes técnicos de empresas de construção de pequeno porte (Fruet & Formoso, 1993). O objetivo do trabalho é orientar as empresas a introduzir procedimentos de coleta de indicadores, assim como estabelecer valores de referência setorial que permitam às mesmas comparar o seu desempenho com outras empresas e estabelecer metas para melhoria contínua. Os indicadores que compõem o sistema foram selecionados a partir de uma pesquisa sobre indicadores empregados em outros setores industriais, na indústria da construção de outros países e em função de problemas considerados críticos para o setor no Brasil. Esta seleção foi realizada pela equipe de pesquisadores envolvida no projeto com a participação de um grupo de empresas de construção. O Sistema está descrito num manual (Oliveira et al., 1995), o qual se encontra em sua segunda edição. O manual apresenta um conjunto de 28 indicadores, seus objetivos, critérios e planilhas de coleta, assim como valores de referência.

Mais de 50 empresas de todo país aderiram ao Sistema e enviam alguns de seus indicadores para o banco de dados que é gerenciado pelo NORIE. Periodicamente são emitidos relatórios com os valores de referência do Sistema, incluindo benchmarks. Alguns dos indicadores do Sistema estão relacionados à ocorrência de perdas. São eles: (a) Perdas de materiais (aço, concreto e blocos cerâmicos): relação entre o material adquirido e o material teoricamente necessário; (b) Espessura média de revestimentos de argamassa internos e externos (c) Percentual de tempos produtivos, improdutivos e auxiliares, medidos através da técnica de amostragem do trabalho; (d) Índice de retrabalho: número de horas-homem dispendidas em retrabalhos em relação ao total de horas gastas, para um determinado período. O Quadro 4.2 apresenta alguns valores de referência do Sistema, resultante de dados de mais de vinte empresas de construção, a maior parte delas do Rio Grande do Sul. Pode-se constatar que as médias e a variabilidade encontradas para os índices de perdas até o momento têm sido do mesmo nível de grandeza dos valores encontrados no estudo das cinco obras em Porto Alegre, apresentado no item 4.1, e também no trabalhos desenvolvidos por Pinto (1989) e Picchi (1993). QUADRO 4.2 - Valores de referência do sistema de indicadores Indicador

Valor mínimo

Valor médio

Valor máximo

Benchmarks

Perda de aço para concreto armado (%)

7.9

19.1

27.3

5.0

Perda de concreto pré-misturado (%)

0.8

13.2

25.2

2.0

Perda de blocos cerâmicos furados (%)

5.4

20.6

39.8

5.0

Espessura de revestimento de argamassa interno (mm)

19.8

24.5

30.0

15.0

Espessura de revestimento de argamassa externo (mm)

28.1

35.7

41.3

20.0

Tempos produtivos na execução de alvenaria (%)

15.0

27.7

38.0

-

Tempos produtivos na execução de formas (%)

21.0

31.5

47.0

55.0

4.3. Método de intervenção para redução de perdas de materiais O trabalho mais recente do NORIE na área de perdas na construção civil refere-se ao desenvolvimento de um método de intervenção para a redução de perdas e de tempos improdutivos em canteiros de obras. Este estudo iniciou em 1994, através de uma parceria envolvendo o NORIE e uma empresa de construção de porte médio de Porto Alegre - RS. Em 1995, foi assinado um novo convênio com o SEBRAE/RS com o objetivo de aplicar o método em um grupo de empresas de pequeno porte e elaborar um manual para orientar as empresas na sua utilização. A publicação deste manual está prevista para meados de 1996 (Santos et al., 1996). O método de intervenção proposto tem como foco o sistema de movimentação e armazenamento de materiais, cujas deficiências estão fortemente relacionadas à incidência de perdas. Existe também uma vinculação das ações de melhoria propostas através da aplicação do método com a postura estratégica da empresa, de forma que a intervenção seja coerente com os princípios e objetivos da organização.

A necessidade de desenvolver o método surgiu a partir da constatação de que as empresas de construção, particularmente as de pequeno porte, enfrentam dificuldades na consolidação de programas da qualidade. Em primeiro lugar, existe uma carência de métodos e técnicas suficientemente testados e adaptáveis às peculiaridades do setor que permitam colocar em prática os conceitos relativos às modernas filosofias gerenciais. Muitas empresas passaram pelos estágios iniciais de treinamento para a gestão da qualidade, mas encontram dificuldades em definir e implementar as ações necessárias para iniciar o processo de mudança. Outra dificuldade enfrentada pelas empresas refere-se à necessidade de recursos financeiros que viabilizem os investimentos em gestão e inovação tecnológica requeridos pelo processo de mudança. Levando em conta esta situação, o método de intervenção foi desenvolvido com o objetivo viabilizar a implantação de melhorias incrementais, de baixo custo e com reduzido investimento. Parte-se do pressuposto que existe um grande potencial para redução de perdas através da utilização de indicadores de qualidade e produtividade e da aplicação dos princípios do total quality control (TQC). As principais etapas do método são: (a) formulação da estratégia de produção; (b) diagnóstico de um canteiro de obras da empresa; (c) elaboração e implantação de um plano de ação; e (d) realização do diagnóstico pós-intervenção. A realização dos diagnósticos pré e pós-intervenção envolvem a coleta de indicadores de qualidade e produtividade, que fazem parte do Sistema de Indicadores descrito no item 4.2. O manual a ser publicado descreve o conjunto de conceitos e técnicas relativas à elaboração de estratégia de produção, diagnóstico de canteiros de obras e formulação de planos de ação, que compõem o método de intervenção, assim como apresenta procedimentos recomendados para a prevenção da ocorrência de perdas.

5. Considerações finais Os diversos trabalhos de pesquisa realizados pelo NORIE, relacionados às perdas na construção, apontam algumas conclusões importantes, sendo que as mesmas têm uma forte coerência com outros importantes trabalhos de pesquisa desenvolvidos no Brasil, como os estudos de Pinto (1989) e Picchi (1993). Em primeiro lugar, o número de trabalhos realizados no país é ainda insuficiente, não podendo ser apontadas médias nacionais com validade estatística. Neste sentido, é importante que o setor amplie o esforço de coleta de indicadores de qualidade e produtividade, apoiados pelos trabalhos que vêm sendo realizados por universidades, institutos de pesquisa e empresas de consultoria. Entretanto, os dados sobre perdas de materiais disponíveis indicam que as mesmas são bastante elevadas, existindo uma grande variabilidade nos indicadores de perdas de diferentes obras. Considerando que uma grande parcela das perdas são previsíveis e evitáveis através de medidas de prevenção relativamente simples, é importante que o setor mobilize-se também no sentido de reduzir as perdas existentes, através da introdução de novos métodos e filosofias de gestão. O próprio conceito de perda necessita ser revisto no setor. A exemplo de outros setores industriais que têm se beneficiado intensamente dos avanços da engenharia de produção, é importante que a construção civil passe a encarar as perdas sob um enfoque mais amplo, ao invés de simplesmente se preocupar com as perdas de materiais. O esforço para melhoria de processos deve visar à minimização do dispêndio de quaisquer recursos que não agregam valor ao produto, sejam eles vinculados às atividades de conversão ou de fluxo. Fica claro também que não existe um único valor de perdas inevitáveis para cada material. O percentual de perdas inevitáveis é definido pela relação entre o custo da prevenção e o custo da perda e depende do patamar de desenvolvimento tecnológico e gerencial de cada empresa ou obra. A competitividade da empresa é alcançada na medida que a organização persegue a redução de perdas continuamente.

6. Referências bibliográficas ABNT - Associação Brasileira de Normas Técnicas. Avaliação de custos unitários e preparo de orçamentos de construção para incorporação de edifício em condomínio: NBR 12721. Rio de Janeiro, 1992. FRUET, G.M. & FORMOSO, C.T. Diagnóstico das dificuldades enfrentadas por gerentes técnicos de empresas de construção civil de pequeno porte. In: SEMINÁRIO QUALIDADE NA CONSTRUÇÃO CIVIL - GESTÃO E TECNOLOGIA, 2º, Porto Alegre, 8 e 9 junho 1993. Anais. Porto Alegre, UFRGS, 1993. pp. 1-51 KOSKELA, L. Application of the new production philosophy to construction. Stanford, EUA, CIFE, 1992. Technical Report 72 OLIVEIRA, M.; LANTELME, E. & FORMOSO, C.T. Sistema de indicadores de qualidade e produtividade da construção civil. Manual de utilização. 2a ed. Porto Alegre, SEBRAE-RS, 1995. PICCHI, F.A. Sistemas de qualidade: uso em empresas de construção. São Paulo, USP, Escola Politécnica, 1993. Tese de doutorado PINTO, T.P. Perda de materiais em processos construtivos tradicionais. São Carlos, UFSCAR, Departamento de Engenharia Civil, 1989. 33p. SANTOS, A. et al. Método de intervenção para redução de perdas na construção civil. Porto Alegre, SEBRAE/RS, 1996. (a ser publicado) SHINGO, S. A study of Toyota production system from an industrial engineering viewpoint. Toquio, Japan Management Association, 1981. SKOYLES, E.F. & SKOYLES, J.R. Waste prevention on site. London, Mitchell, 1987. SOIBELMAN, L. As perdas de materiais na construção de edificações: sua incidência e seu controle. Porto Alegre, UFRGS, Curso de Pós-graduação em Engenharia Civil, 1993. Dissertação de mestrado
3. AS PERDAS NA CONSTRUÇÃO CIVIL

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